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Revelação

Foto: Bruce Gilden.

A gente olha as fotos de Bruce Gilden e não imagina ser possível o que vemos. Diante de nossos olhos surgem rostos macilentos e disformes. Aquilo tudo parece coisa estranha à realidade, porém, não é.

Tão deslumbrados que estamos com as figuras das celebridades, não nos damos conta de que a vida murcha, violentamente, a velocidade de 60 minutos por hora.
Contra isso infundimos um sem-número de malogros, mas todos são baldados pelo tempo.

O que vemos na tevê, nas capas de revistas e outdoors não passa de engodo. Por trás da maquilagem podemos esconder manchas, sulcos e outros detritos que se quer negar a existência, mas tudo isso não passa de ser o que são: tentativas medonhas de negar o inegável.

Por tudo isso, gosto dos trabalhos fotográficos de Bruce Gilden. Ele reconstitui-nos como somos: falíveis. O resultado pode não ser agradável. É sempre doloroso ver-se no espelho da arte.


Tempos sombrios

Pessoas que jamais foram a um museu na vida e que nada conhecem de arte, estão tentando impedir outras que se deleitem com a genialidade de trabalhos espantosos, só porque estes mostram corpos nus. Os trabalhos da exposição Santander que ora sofre com a censura nada tem de obsceno. Há algo de doentio no fato de alguém ver pecado ou imoralidade em tudo. Algo de muito errado se passa na cabeça das pessoas que entendem que o nu artístico é merecedor de censura e reprovação. Penso que quem age assim manifesta os sintomas de uma mente reprimida que jamais foi capaz de superar a sua adolescência ou que não chegou a viver a sua sexualidade plenamente. É estranho que isso esteja acontecendo. Imaginei estar ultrapassado em todo o Ocidente a condenação a nudez. Algo vai muito mal no país quando as pessoas não sabem diferenciar arte de exploração sexual.

O povo cubano

Fotos: Peter Turnley - Cuba.

A morte de Fidel, ocorrida na última semana, mobilizou, como era esperado, um mundo de emoções. Os meus amigos do Face refletiram bem os humores que veem à tona, quando em causa estar o lugar de Fidel e da revolução na história.

Uns deram graças pela morte do comandante. Outros lamentaram.

Do que pude perceber dos discursos foi que: A estima ou o repúdio expressado pelo comandante eram todos motivados por posicionamentos caolhos do pensamento ideológico. É triste que assim seja.

As ideologias, apesar dos floreados, do rococó discursivo ou de possíveis subtilezas maneiristas, não passa de ser o que é: um ladrar sobre coisas que estão de acordo com aquilo que a sua cartilha ideológica permite dizer.

Não quero polemizar com os amigos se Fidel tinha ou não razão em dar lugar ao pensamento único e ao arredamento dos ideais democráticos. Por isso guardo comigo o que penso dele.

Foco atenção hoje no povo que é o que de melhor existe em Cuba. E penso que sobre este deve haver alguma unanimidade que permita que um post não se torne um campo de batalha apaixonado, cujo resultado não é outro senão, o aumento de tensões desnecessárias entre pessoas que se tivessem em outra situação teriam, com certeza, bons motivos para se tornarem fraternos amigos.

E quem melhor pode revelar um povo senão a fotografia.

Recentemente, descobri uma série de fotos feitas por um fotógrafo americano que nos faz pensar a ilha pela perspectiva de sua gente.

Os registros são simplesmente deslumbrantes. Nele quem esperava ver um povo moribundo e enfunado em suas queixas, espantasse com o registro de Cuba irradiante de cores, luz, alegria e altivez.

Estas fotos faz pensar que, talvez os ocidentais avaliem a liberdade pelo conceito que têm dela mesma, e não sobre a ótica de outra realidade histórica.

P.S. Todas essas fotos foram obtidas na Internet. Todas as que forem objeto de direitos de autor, e a tal publicação o seu titular se oponha, serão removidas imediatamente por mim assim que receber qualquer notificação.



Um primor de foto


Foto: Claudio Rasana: Katlehong Matsenen 2016 from the series Similar Uniforms.

O prêmio Taylor Wessing, atribuído pela National Portrait Gallery de Londes foi este ano para o suíço Claudio Rasana. A fotografia laureada é um primor de registro. Alguns poderão dizer, mais o que esta foto tem de tão especial que mereça ser destacada com um prêmio? Essa pergunta acontece sempre. Eu mesmo já ouvi inúmeras vezes muita gente inteligente perguntar o que pode ter de especial uma foto. Isso ocorre, penso eu, porque estamos mal acostumados a imaginar na foto no que ela tem apenas de aparente, e não naquilo que ela tem se sugestivo.

Num contexto de uma sociedade que tudo quer enquadrar, alinhar e uniformizar, a foto de Rasana sugere, através do olhar de atitude inquieta do rapaz e da gravada desmazelada, um desalinho com as normas que impõem homogeneização às individualidades. Está aí o quê de especial na foto. Ela demonstra o inconformismo e o desalinho com as convenções que tenta nos impor vontades. O indivíduo revela-nos a foto de Rasana, prevalecerá sempre, a despeito das tentativas de uniformização.



O munda infantil dos artistas espanhóis



Que mundo maravilhoso e enigmático não era aquele dos artistas espanhóis. Cheio de cores, formas inusuais, gestos inaugurais e traços surpreendentes. Mas o mais curioso ao pensar nos maiores artistas espanhóis do século XX, é perceber o quão distante, sua arte, muitas vezes parece estar daquele sentimento corrente, que associa o espanhol à figura do machão.

Quem ao vislumbrar esses trabalhos de Gaudí, Miró e Picasso, respectivamente, não encontra neles um quê de infantil, primitivo e rude no sentido inábil, frequentemente atribuído à criança que ensaia livremente a representação do mundo?


Mesmo Picasso, protótipo da fama espanhola aqui, quando expõe sua masculinidade na face feminina, (observem bem o rosto da figura) parece o fazer como uma daquelas crianças que pixa as portas dos banheiros incessantemente com a mesma figura.


Nos jardins de Garduño

Foto: Flor Garduño.

Encantam-me os trabalhos da fotógrafa mexicana Flor Garduño. Tenho um dos seus livros de fotografia bem à vista na minha estante. Ele está lá onde à mão pode alcança-lo com um simples esticar de braços. Tanta devoção se deve ao fato de que essa obra, que não canso de gastar os olhos, me põe, constantemente, a pensar, como são belas as coisas do mundo. Especialmente o feminino nelas.

No livro FLOR (é este o título da obra, homônimo da autora) podemos ver mulheres desnudas: cercadas, enfronhadas, carregando ou embrulhadas por flores. Tomadas apressadas as imagens poderiam dizer pouco. Porém, se pararmos para pensar que, a arte é um veículo que nos solicita a ultrapassagem dos significados imediatos para alcançarmos outros, as flores podem então, serem tomadas, por uma mensagem simbólica, que nos remete a beleza feminina e ainda, pelo fato de murcharem depressa, também podem sugerir a inconstância e efemeridade da vida.

Tenho ou não razões de apreciar o trabalho dessa mexicana?

Religião e cultura

Foto: Rogério Soares, Catedral Nossa Senhora Santana, Caetité, 2016. 
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Em A Civilização do Espetáculo, o escritor peruano Mario Vargas Llosa responsabiliza as religiões, especialmente a Cristã no Ocidente, pelo desenvolvimento das artes (música, pintura, escultura, arquitetura etc.). O alijamento das religiões, provocaria para o escritor, o engessamento das culturas tais como a conhecemos hoje e infertilizaria a vida a níveis inaceitáveis. Seria, portanto, deletério para as culturas, o fim das religiões. Pois em torno delas, seja para exaltá-las ou para criticá-las, viceja um campo muito propício à criação de expressões artísticas, que não são outros senão, formas dos homens externarem os desassossegos de uma mente deslumbrada com os mistérios do mundo.

Na biografia dedicada ao poeta Cruz e Souza, Paulo Leminski, recorda um pormenor de ter lido “no jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda” que nos faz pensar em termos mais claros sobre o papel das religiões na manutenção da vida e das artes: Lembrando as contribuições da Europa aos países da África o teatrólogo diz:  

“Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos.”

Como vemos, não era tolerável, mesmo para um intelectual de esquerda o fim das religiões, sobre pena de que esta precipitasse o fim das culturas. Abandonei a fé nas religiões quando ainda era um adolescente. O ateísmo que pratico desde então não me permite acreditar numa entidade que com força desconhecida governa o desgoverno do mundo. Sei, porém, reconhecer que, são as religiões, criadas a partir da perplexidade do homem sobre a sua condição, as grandes responsáveis por encorajarem e propiciarem, denodados artistas, caminhos para externarem as suas muitas inquietações sobre as faltas de sentido para a existência.  

Correlato

Foto: Don McCullin, Soldado Americano ferido no fronte. Vietnã.
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Podemos olhar para uma fotografia e não encontrar nela nada que seja capaz de nos tocar. Há várias razões para que isso aconteça. Uma delas é o fato de que a fotografia, como de resto acontece com quase toda a obra mimética, fala a cada um segundo o seu próprio valor intelectual. Outra razão pode estar no fato do fotógrafo não ter habilidade de composição ou intenção de trabalhar a imagem para que esta produza uma mensagem que ultrapassasse o seu mero registro imediato, não tendo, portanto, outro sentido possível, a não ser àquele que a fez. Já quando o fotógrafo trabalha a imagem organizando os elementos a sua vista, de forma a estes desencadearem uma carga emocional no espectador, diz-se, então, que ele empregou os recursos capazes de formar uma composição significativa. Tão significativa que ele é capaz de mobilizar as emoções do espectador valendo-se apenas dos artifícios da composição. Na fotografia, a composição é tudo. O melhor fotógrafo não será aquele que espera que o acaso o premie com uma foto, que o distinga dos demais. Para que uma imagem resulte bem o fotógrafo terá que trabalhar a composição. Para isso, ele precisa organizar os elementos a sua disposição em: grupos de objetos, em situação, ou numa cadeia de eventos, de modo que os fatos internos da foto evoquem correlatos (entenda aqui como correlato, aqueles elementos comparativos que se faz entre duas coisas que se assemelham) que possam causar no expectador a emoção desejada. Tomemos, para tornar a compreensão mais simples, o exemplo da fotografia acima. Ela foi feita pelo fotojornalista Don McCullin. Na década de 70 ele cobriu a guerra do Vietnã. Durante uma incursão com os soldados americanos a um cerco numa vila vietnamita ele flagrou, em meio a refrega, um soldado ferido nas pernas, sendo socorrido por dois outros militares. A foto é um primor de composição. Nela McCullin enquadra os soldados tendo como referência as imagens de Cristo sendo retirado do calvário. De pronto a foto comoveu o mundo e de alguma maneira precipitou a retirada das tropas americanas que há décadas combatiam sem sucesso no Vietnã. Ao evocar a figura de Cristo em meio aos horrores da guerra, prefiguradas na imagem de um soldado ferido, McCullin provoca no espectador aquela carga de emoção que ele um dia já sentiu enquanto era doutrinado pela iconografia religiosa. A concepção fotográfica de Don McCullin elaborada do ponto de vista da religiosidade, apela aos sentimentos cristãos dos espectadores. Aludindo a figura piedosa de Cristo martirizada no madeiro, ele faz da foto um objeto significativo e capaz de falar a muitos pelo aparência, que vagamente faz uma foto de um soldado, se assemelhar a imagem de Cristo crucificado.

Pintura: A flagelação de Cristo. Caravaggio - 1607.



Estar atento aos enganos possíveis


Foto: Rocco Morabito, The kiss of life. 
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Por retratar um instante e não a sequência de ações que a envolvem, a fotografia, por vezes, se presta a dubiedades ou sugestões falsas. A primeira vista, a foto que ilustra o nosso texto de hoje, pode sugerir uma ideia equivocada. O que parece ser um beijo amoroso, entre dois homens que se entregam a luxuria dependurados no alto de um poste, é na verdade uma tentativa de ressuscitação. “The Kiss of Life" foi a imagem vencedora do Prêmio Pulitzer de 1988. Ela foi tirada pelo fotógrafo americano Rocco Morabito (1920-2009).

Em uma manhã de 1987 quando Morabito estava a caminho de uma pauta, encontrou a cena inusitada em que o operário J.D. Thompson tenta salvar a vida de seu companheiro de trabalho, Randall G. Champion após este ter recebido uma descarga de alta tensão. A imagem mostra Thompson fazendo uma respiração boca a boca, enquanto aguarda o resgate. Essa imagem exemplifica bem o quanto um registo fotográfico pode induzir a um erro de interpretação quando está fora de contexto.

Em termos artísticos, a fotografia tem licença para enganar o olhar através da sugestão de realidades falseadas. Esse é um imperativo das expressões artísticas. Porém, quando não está a serviço da arte, o malogro pode ser um perigoso instrumento de manipulação de desavisados, sobre os usos possíveis de uma imagem. É preciso então, estar atento, para não ser enganado por uma ideia falsa, sugerida por uma imagem fora de contexto ou vista de forma apressada e julgada de modo esdrúxula, apenas por parecer que assim é, porque lhe convém. 


Grandes fotógrafos Brasileiros

Foto: Araquém Alcântara.
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A fotografia brasileira é inteiramente dominada por um nome: Sebastião Salgado. Os trabalhos desse mineiro são obras primas da fotografia. Ninguém parece capaz de lhe fazer frente, tamanho empenho ele dedica às suas produções. Diz-se que ele faz fotografia como um pintor compõe um quadro: preocupado com a harmonia e o equilíbrio das formas. 

É ainda importante a atenção dada por ele a textura dos motivos. Saltam aos olhos dos seus admiradores os microcontrastes que surgem das imagens que ele captura. Não se perde nenhum detalhe da imagem que Sebastião faz. Isso se deve a escolha acertada do preto-e-branco na composição das suas imagens. O PB torna mais perceptíveis os tons, os contrastes e os pormenores da imagem tornam-se evidentes. 

Por tudo isto, não falta também quem afirme, que ele alcançou uma qualidade em seus registros que só encontra precedente em outros nomes maiúsculos da fotografia: Cartier-Bresson, W. Eugene Smith... Nenhum de seus trabalhos parecem menos que perfeitos. Creio não estar exagerando. 

A excelente reputação que construiu, tornou Sebastião Salgado um nome incontornável. Mas o que é a glória para uns, pode bem ser o tormento para outros. Por seu gigantismo, Sebastião Salgado, acabou por fazer sombra a muitos outros bons fotógrafos nacionais, que não têm, como ele, a devida atenção do público, nem gozam do prestígio merecido pelos méritos incontestes que demonstram. 

Porém, ao olharmos com atenção mais detida, talvez vislumbremos outros nomes, que se não chegam a impressionar como Salgado, ao menos têm o mérito de nos prender demoradamente a atenção. E em tempos fugazes, onde o mote da vida é a aceleração do tempo, não pode existir qualidade maior no trabalho de um fotógrafo, do que este de deter o olhar do expectador, e o capturar em horas mais alargadas de atenção sobre o objeto apreciado. 

Um desses nomes é o do fotógrafo Araquém Alcântara. Com mais de quatro décadas de trabalho ele faz valer as horas que se gastam em apreciar tudo o que ele faz em termos fotográficos. No site que mantêm na internet podemos vislumbrar um pouco dos seus inúmeros trabalhos. O que se evidência ali, além das qualidades fotográficas evidentes, são as ocorrências de alguns temas. 

Um dos seus prediletos, parece ser: as paisagens naturais do Brasil. Isso talvez se deva ao fato dele combater obstinadamente as agressões que põem em risco a exuberante natureza nacional. A fotografia para Araquém confunde-se com o ativismo ambiental. Ele não esconde que é um fotógrafo, como ele mesmo gosta de dizer, “engajado”. 

Além das paisagens ele insere em suas incursões os motivos humanos. Quando ele se volta para estes, emergem pulsantes personagens. Todos eles são facilmente reconhecidos por nós brasileiros. Mas alguém que não os conhecessem, também os apreciariam. Pois são expressivos e dizem mais do que as circunstâncias geográficas sugerem. Os cenários em que figuram esses tipos, ressaltam as regiões que formam o país uma unidade na diversidade. 

Através das lentes de Araquém vislumbramos um Brasil que, longe dos grandes centros urbanos, vive e celebra a sua riqueza. São fotos de enorme qualidade e mestria técnica, que nos revelam um país, cheio de vida e de dinamismo, sobre o qual ninguém consegue ficar indiferente. Mesmo que se tenha uma sombra encobrindo a sua presença, a fotografia de Araquém se faz perceptível. 



Foto: Araquém Alcântara. 



O riso na fotografia de Elliot Erwitt

Já referi aqui sobre como nada escapa ao interesse da fotografia. Todos os temas lhes são caros. Vemos por aí fotografia de rua, fotojornalismo, fotografia de moda, de natureza, paisagens, viagens, etc... Mas há um tema em particular que, quase nunca vemos, ao menos com a recorrência dos demais. Refiro-me a fotografia de cunho humorístico. Falta humor nas fotografias de nosso tempo.

Não creio que isso ocorra porque os fotógrafos o entenda como uma expressão menor. Esta é uma interpretação dos tolos e dos tirano. Os tolos pela estultícia de suas mentes e os tiranos pelos temores de que suas ambições encontre questionadores, que ousem desmentir as certezas que lhes asseguram as posições.

Acho mais provável a alternativa que advoga a ideia de que fazer humor em fotografia é difícil. E por essa razão, os interessados em abordarem o tema, desistam da ideia quando mal aventaram a possibilidade. Fazer humor bobo, patético ou grosseiro tem sido o mais próximo que muitos conseguem chegar do tema. Esse tipo de humor qualquer um é capaz de fazer. Mas um humor que profane o solene, desbote o verniz, que maquila as aparências e infrinja as certezas postiças que, envolvem a nossa sociedade, esse humor é tarefa para destemidos, que não se deixam vencer pelas ideias vazias que vai pelas cabeças dos patetas.   

Humor pateta é fácil. Humor com substância interrogativa e desvendadora da natureza humana são outros quinhentos. Mas há pelo menos um nome na fotografia que tomou para si a tarefa de encarar o tema com o talento e perspicácia que lhe é devida. Foi o francês Elliot Erwitt (Elio Romano Ervitz é o seu nome de batismo). Erwitt nasceu em Paris em 1928. Foi criado na Itália, mas a partir de 1941 adotou os EUA como pátria. Fez isso quando teve que fugir com a família, da tirania nazista que encobria a Europa e ameaçava o mundo com ideias tenebrosas de hegemonia racial.   

Nos EUA Elliot Erwitt construiu uma carreira respeitada e se tornou um dos poucos fotógrafos dedicados ao riso. Sua lente em décadas de atividade esteve apontada para os flagrantes de momentos irônicos e indiscretos que revelam detalhes risíveis do nosso comportamento quando não estamos ocupados demais em fingir decoro. Veja-se a propósito disso a seleção de algumas de suas melhores fotografias sobre o tema abaixo:  

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Versailles, 1975.
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Espanha, Madrid, 1995. Museu do Prado.
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East Hampton, Nova York, EUA, 1983.
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Central Park, Nova York, 1990.

A fotografia e seus múltiplos temas

Foto: Imogen Cunningham

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Parece não haver um tema, que não tenha sido visto com interesse, pela fotografia. Ao estudar os trabalhos dos grandes fotógrafos nos deparamos com a seguinte constatação: durante o percurso de formação, eles vão apurando o estilo e perseguindo um tema, que os entusiasmam mais do que os outros, e assim formam o seu caráter fotográfico. Não é raro, porém, encontrar fotógrafos que nutrem mais interesses e alarguem seus temas a horizontes mais dilatados. Estes não concentram o seu foco de interesse em um único objeto. Inquietos que são estendem suas lentes a múltiplos pontos. Fazem isso muitas vezes movidos pelo germe da curiosidade de saberem como seria alterar códigos inexoráveis. Veja-se a propósito, o caso da americana Imogen Cunningham (1883-1976). Ela iniciou o seu percurso fotográfico fazendo estudos químicos sobre os processos de revelação. Era uma expert nessa área. Os estudos foram financiados com fotografias de plantas, para o departamento de botânica da Universidade de Washington em Seattle. Desse impulso inicial, movido pela necessidade, ela refinou o seu estilo, tomando um novo interesse nos estudos das texturas, das formas e das variedades de flores, especialmente a magnólia. A fotografia botânica que surgiu daí acabou por aliar a curiosidade científica com a expressão criativa de uma verdadeira artista. Após as flores, vieram os interesses no corpo humano. Em 1915 ela casou com o artista Roi Partridge, juntos eles exploraram os terrenos da natureza e do corpo humano. São famosas as suas imagens de Roi Partridge. Logo, não tardou que seu novo objeto de interesse passasse a ser alvo de estúpidos. A censura, imposta pela opinião pública da época, a fizeram engavetar os negativos de uma série de nus no deserto que realizou com um modelo contratado para exposição de sua lente. Depois desse trabalho, ela focou as suas fotografias nas mãos de grandes músicos e artistas. Esse último tema a levou à revista Vanity Fair. Como vemos os temas que apaixonam um fotógrafo podem ser múltiplos. Imogen Cunningham passou para história da fotografia com seus deslumbrantes close-up de flores. Mas junto a esse requinte, não lhe faltou sensibilidade, para encarrar as formas humanas em poses e gestos que a sensibilidade tacanha de alguns patuscos não foi capaz de suportar. Ela continuou a fotografar e a ensinar a sua nobre arte, até pouco antes de sua morte aos 93 anos em 24 de junho de 1976 em San Francisco.

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 Foto: Judy Dater (1974). O flagrante é de uma aula de Imogen Cunningham sobre nu artístico. Essa foto foi o primeiro nu frontal a ser publicado na revista Life.

Fotografia é arte

Fotógrafo: Alberto García-Alix
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A fotografia é uma arte? É. Porém sua expressão se presta a muitas confusões entre o que é meramente banal e o que tem conteúdo artístico. Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que por ser tão banalizada o público tem dificuldade em selecionar o que não é arte e o que é. O outro é que ela está excessivamente vinculada aos objetos reais, isso já explicou Susan Sontag, e muitos só a percebem por isso com o fim de descrever alguma coisa, reproduzindo a realidade tal como os olhos a percebem. Mas a fotografia, ao menos uma parte dela, não é finalística. Ou seja ela não se encerra no objeto dado. Uma imagem bem pode estar ali sugerindo outros conteúdos e iluminando uma outra realidade para além daquilo que se vê à primeira vista. Com vistas à arte, a fotografia exprime uma maneira de ver as coisas além do objeto dado pela representação. Com um sentido artístico, a foto deixa de ser meramente a reprodução do real e passa a ser compreendida como uma emanação da mente do fotógrafo, a sua interpretação das coisas e do mundo. Ela abandona, assim, o status de registro banal e alça seu sentido à outras esferas. Veja-se a propósito do que estou falando, um trabalho do espanhol Alberto García-Alix (n. León, 1956). Quem ver essa fotografia, não pensará que o sentido último dela se encerra na representação de uma jovem retratada pelo fotografo, mas que sua mensagem ultrapassa essa realidade. Os sentidos dados aqui são inúmeros. As sugestões são incontáveis. Vai daí que essa fotografia, diferente das generalidades que se vê no face ou em outras plataformas sociais, não se presta a uma interpretação limitadora, porque ela está carregada de sentidos. 

Mais um dos meus fotógrafos prediletos ou como apanhar lições observando.

Foto: Gordon Parks, At Segregated Drinking Fountain, Mobile, Alabama, 1956.

Entre outros tantos aliados, a luta contra a segregação racial nos EUA, contou, com o contributo estimável da fotografia. Um dos nomes incontornáveis nessa trincheira, foi o do fotógrafo Gordon Parks. Morto em 2006, ele deixou uma série de registros fotográficos da vida cotidiana de negros americanos, que ajudaram os Estados Unidos e o mundo, a reconhecer que: há vilanias humanas, que desmentem nossas mais nobres pretensões de superioridade sobre as bestas. 

Passados tantos anos, suas fotos continuam a nos inquietar. Ao observá-las, rendemo-nos ao fato de que, as fotos não são, como disse, Susan Sontag, impessoais. Elas indiciam “não apenas um registro, mas uma avaliação do mundo”. As fotos de Gordon Parks captam o que Alfred Stieglitz, o primeiro grande fotógrafo americano, chamou de momento apropriado. O momento apropriado, escreveu Susan Sontag, “é aquele em que se consegue ver coisas (sobretudo aquilo que todos já viram) de um modo novo. E o que vemos ao mirar as fotos de Parks é a segregação racial em quadros ultrarrealistas.  

Certezas rompidas- Benjamin Clementine - Condolence | A Take Away Show

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De todas as expressões artísticas, a que menos me entusiasma é a música. Posso ficar meses sem ouvir uma única canção e assim mesmo não dar pela falta dela. Não fossem os cacofônicos cantores midiáticos, que lamentavelmente fazem as graças dos carros de sons-publicitários, e nem desconfiaria de que vai música no mundo. Como veem, não sou aficionado pela música. Prefiro antes um livro, um filme ou mesmo as horas de contemplação às obras de arte e aos trabalhos fotográficos que vou descobrindo enquanto cultivo o silêncio.

Nasci, a julga pelos hábitos modernos de andar com fones de ouvidos metido à orelha por todos os cantos, com o ouvido torto aos sons que escapam as rádios, tevês e aparelhos eletrônicos que seduzem a todos. Vai daí que para o mundo contemporâneo meu ouvido é inútil. Prefiro assim. Antes o silêncio. O mundo é-me uma coisa escandalosamente ruidosa, onde estar impenetrável aos vestígios de sons, parece impossível. Por isso aprecio o lar.

Depois do trabalho, o que mais me apetece é encontrar as paredes, que me isolam do burburinho mundano e me mantêm imunes aos ruídos que fazem do mundo uma caixa de som ensurdecedora. No lar sinto-me com a sensação de estar em um mosteiro em que gostaria de estar, cultivando o que minha fantasia monástica vai delirando. Nele posso conter o tumulto e isolar os sons que não me agradam e dedicar-me ao exercício da quietude ante um mundo cheio de estultícia.

Mas de repente também sei sentir a necessidade de ouvir música. Aí saio de minha hibernação para dar-me a chance de ver se endireito o ouvido. Nessas horas raras, troco a quietude das coisas pelo seu oposto. Em vez do silêncio, o alarido dos anjos caídos soa-me inebriantes. Vou-me embora no som e perco-me nas horas. De repente, dissipam-se minhas ilusões de silêncio e os ruídos do mundo rompem meu isolamento, trazendo consigo outros sons e não aqueles habituais que os médias vão espalhando como ratoeiras pelos caminhos das pessoas.  Tais horas são especialmente empolgantes quando acompanhadas de Benjamin Clementine empunhando seu piano em meio a um biblioteca enquanto inflama o ar com sua voz inigualável.

Ateísmo das coisas vãs



"A MORTE DOS DEUSES

A primeira das quatro biografias reunidas na Vida de Paulo Leminski é dedicada ao poeta negro Cruz e Sousa (1861-1898), filho de escravos adoptado pelo proprietário de seu pai, um mestre-pedreiro, que contra todas as probabilidades aprendeu a ler e a escrever. É no entretanto da análise poética levada a cabo por Leminski, sempre atenta ao detalhe e minuciosa nos aspectos que julgaríamos menos relevantes, que encontro este argumento fortíssimo contra o meu ateísmo. Fala-se, refira-se a título de introdução, na capacidade que a cultura negra teve para resistir a um violento processo de aculturação que, por exemplo, praticamente exterminou a cultura do índio. Estamos no campo da citação da citação:

«No jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda:

— Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos».

Imagine-se, por arrasto, o que seria da poesia com a morte da música. Esta inquestionável ligação da produção artística ao culto do sagrado tem uma enorme força, sendo indesmentível em termos arqueológicos e ressuscitando o velho problema do ovo e da galinha: primeiro os deuses ou a arte? Eu tendo a acreditar que foi a arte que gerou os deuses, mas mesmo nesse domínio reconheço não poder escapar ao pântano da fé.

Produtos da fantasia, por certo, mas vinculados a uma necessidade física, uma necessidade até de sobrevivência, os deuses, enquanto personagens fictícias do reinado metafísico, expressam (a palavra é mesmo esta) um modo de olhar para o mundo, uma perspectiva, um modo de sentir o lugar do homem na vasta geografia natural, expressam um modo de estar com a Natureza que, nas suas múltiplas variantes, se resumiu a tentar dominá-la (monoteísmos) ou simplesmente aceitá-la, venerá-la, procurar com ela um estado de fusão integrador (paganismos).

Daí que o grande desafio do ateísmo não seja negar os deuses, como quem se ocupa de negar o que à partida considera inexistente, mas antes empenhar-se em impedir que o deus único das três grandes religiões se imponha pela força a todo e qualquer culto do sagrado que não se reconheça na arquitectura fascista dos preferidos e dos eleitos. No fundo, trata-se de garantir que o motivo para a dança, para a música, para a poesia se mantenha vivo."

Daqui: Antologia do Esquecimento 

Arte religiosa

Pintura: São Francisco em meditação. Francisco de Zurbáran 
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Perdi a fé nas religiões em algum lugar que hoje já não me ocorre retornar para recuperar. Porém, essa perda não me fez menos admirador da arte religiosa ou da cultura artística nascida das religiões. As expressivas e extasiantes representações das cenas bíblicas feitas por Caravaggio, como a crucificação de São Pedro, os tormentos de Santo Antão de Michelangelo, o simbolismo mágico das imagens intensas de Francisco de Zurbarán, jamais me foram indiferentes. Estou de acordo com José Ricardo, que acredita que: "A arte religiosa não é patrimônio de qualquer religião ou igreja mas patrimônio da humanidade". 

Quem de dentro de si não sai.

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"Quem de dentro de si
Não sai!
Vai morrer sem amar
Ninguém!" (...)


A casta a qual pertence o poetinha, é a dos que tecem variações inúmeras sobre um mesmo tema. O amor e seus desenganos, o amor e suas alegrias, o amor e sua perdição, o amor e suas dores, o amor e seus muitos usos e desusos. O lirismo poético de Vinicius de Moraes constitui um dos contributos mais importantes à nossa poesia.

Dos encantos

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O mundo seria um sítio tristonho se não houve tantos encantos.

Cinema e pintura




O cinema está cheio de belas fotografias. Fico rendido por filmes que por vezes nos fazem sentir diante de uma exposição fotográfica.