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Façam-me o favor

Sermoneia este que devo votar em seu candidato “ele é mais bem preparado e não tem ligações com grupos corruptos que assaltaram o país”.

Quer outro convencer-me que a verdadeira quadrilha, a Globo e outros meios de comunicação, estão impedindo que eu perceba. Garante ele que seu candidato nada tem a dever. Este se pautou sempre pela lisura e correção chegando a quase ser um santo de tantas bênçãos que derramou e promete derramar sobre o povo.

Um terceiro, igualmente bem intencionado, ofereceu-me provas de que tudo o que reproduzimos não é nosso e sim, de um grupo de ricos que sempre dominaram o Brasil.

A todos agradeço, mas andaria mais bem humorado se me deixassem na ignorância do que as suas cabeças pensam sobre política.

Dos caprichos da política

La Fontaine, o maior fabulista da literatura francesa, dizia fazer uso dos animais para instruir os homens. Claro está que esta é uma forma engenhosa do escritor dizer o quanto é estúpido a natureza humana, que precisa apanhar lições dos bichos para se ilustrar. Perante as notícias que correm, não deixam dúvidas o quanto são mesmo estúpidos os bichos humanos. O país está à beira do precipício, há três anos que não temos governo e os políticos se engalfinham pelo poder.

A briguinha



O povo tem se revezado em mostrar no face a figura de Geddel sendo elogiado por políticos ora da esquerda, ora da direita. A intenção, suponho, é fazer com que a audiência boco pense que quem pariu Geddel não foi sua mãe, mas sim aquele que nos vídeos e fotos estão ao seu lado afagando, elogiando e reconhecendo os seus préstimos políticos. Algumas pessoas no face, acham que todo o mundo são como elas, que se emprenham pelos ouvidos e estão de pernas abertas para as ideologias. A briguinha pelos corações e mentes revela que a mentalidade dos partidários não chega a rivalizar com uma ameba.

Tempos sombrios

Pessoas que jamais foram a um museu na vida e que nada conhecem de arte, estão tentando impedir outras que se deleitem com a genialidade de trabalhos espantosos, só porque estes mostram corpos nus. Os trabalhos da exposição Santander que ora sofre com a censura nada tem de obsceno. Há algo de doentio no fato de alguém ver pecado ou imoralidade em tudo. Algo de muito errado se passa na cabeça das pessoas que entendem que o nu artístico é merecedor de censura e reprovação. Penso que quem age assim manifesta os sintomas de uma mente reprimida que jamais foi capaz de superar a sua adolescência ou que não chegou a viver a sua sexualidade plenamente. É estranho que isso esteja acontecendo. Imaginei estar ultrapassado em todo o Ocidente a condenação a nudez. Algo vai muito mal no país quando as pessoas não sabem diferenciar arte de exploração sexual.

Salva-vidas para os náufragos.

O povo anda pedido nomes para salvadores da pátria. Não faltam eleitos para o posto.

Lá em A Vida de Galileu, Brecht escreveu: "INFELIZ A NAÇÃO QUE PRECISA DE HERÓIS".


Estou de acordo com o dramaturgo.

Economês

Ontem os jornais anunciaram que a taxa de juros selic caiu 0,25 pontos percentuais. No mesmo dia, os membros do maior cartel do mundo (que também atende pelo nome de OPEP) foi à imprensa anunciar a redução da produção de petróleo, com o intuito de ajudar as economias dependentes da exportação desse produto, aumentarem as suas receitas. Não entendo economês, mas jurava que todos esses anúncios na imprensa, pelo ar de contentamento dos apresentadores, sugeriam que a engrenagem da economia estava sendo, finalmente, azeitada com óleo e não com arreia. Desejoso de comprar um livro saltei do sofá e corri à internet. Se a economia vai bem os livros devem estar uma baba. Ledo engano. O entusiasmo dos economistas não se refletiu no ânimo das lojas virtuais. Imagina que um livro que namoro há dias saia da loja na semana passada por 9,90 mangos. Ontem o mesmo livro estava por 35,94 mirréis. Hoje o livro só sai da loja pela assustadora quantia de 44,93 dinheiros. Não adianta a taxa de juros caírem, os carteis acenarem com boas notícias, ninguém está acreditando mais nos gurus de Wall Street. O resultado disso tudo é que a estante lá de casa vive reclamando orfandade dos livros.


O Brasil que envegonha

OS DEPUTADOS NESSA MADRUGADA DESCONFIGURARAM E SEPULTARAM DE VEZ AS MEDIDAS PROPOSTAS PELA POPULAÇÃO DE MORALIZAÇÃO DA POLÍTICA. VEJAM O QUE FOI REJEITADO:

1. A tipificação de crime de enriquecimento ilícito de funcionários públicos;
2. A ideia de tornar a prescrição de crimes mais difícil;
3. A facilidade de retirar os bens adquiridos com atividade criminosa;
4. A instituição do chamado “delator do bem” (pessoa que garantia uma recompensa por entregar autoridade envolvidas em crimes);
5. Outras medidas suprimidas foram as sugeridas pelo MP de endurecimento da Lei de Improbidade e da possibilidade de cassação do registro e de punições mais severas a partidos e dirigentes que cometeram crimes graves;

O QUE FICOU:

1. A criminalização específica do crime de caixa dois

2. Inclusão de alguns crimes na categoria de hediondos, caso o valor desviado supere R$ 8,8 milhões

Sobre a proibição da vaquejada pelo STF

É interessante a leitura da discussão. Nela percebemos que ainda albergamos em nós o pensamento evolucionista, que se pauta na ideia de que antes vivíamos num estágio inferior e agora, com as novas práticas subimos um degrau na evolução. Penso que isso é muito pretensioso. Mas é comum. Ensina-nos a história, que as comunidades de um determinado tempo se acham acima das demais e se sentem superiores as que a antecederam.

Se as práticas culturais existem, isso se deve ao fato de que elas servem para cumprir, em determinadas comunidades, papeis simbólicos que permitem a sobrevivência dos grupos sociais a ela vinculadas. Não se trata de primitivismo.

Além disso, falamos com desprendimento dos costumes alheios como se parte dele fizesse, e por isso podemos condena-los e inferiorizá-los. Agiram de modo semelhante os primeiros antropólogos que visitaram uma comunidade no pacífico que mantinha, aos olhos dos expedicionários, uma prática primitiva de confecção de totens. 

Cada agrupamento da ilha mantinha um totem como símbolo de seu grupo. Um era peixe, outro era ave... O tabu imposto pela tradição impedia que homens de um determinado grupo tivessem relação com as mulheres que cultuavam o mesmo totem. Logo, os doutos cientistas sociais, querendo integrar aqueles homens “primitivos”, num novo mundo, onde as superstições haviam sido abolidas, se encarregaram de destruírem os totens. 

Marcel Mauss vai dizer mais tarde que aquela intervenção precipitou o fim da comunidade. Os totens de vários grupos tinham funções de evitar os laços consanguíneos, que numa comunidade pequena era a salvaguarda contras as doenças, porque agia para fortalecia a variação genética que permitia a perpetuação dos vários grupos. 

“Não há”, dizia Claude Levi-Strauss “costumes que sobrevivam sem motivos”. As práticas de uma determinada sociedade, por mais brutais que pareçam, servem a propósitos comunitários e sociais, que nem sempre percebemos a razão. Essas práticas estão quase sempre associadas à ideia de iniciação. Creio que não compete a nós dizer aos outros os que são melhores. 

“Nas sociedades primitivas”, escreveu Joseph Campbell “dentes são arrancados, dolorosas escarificações são feitas, há circuncisões, toda sorte de coisas acontecem, para que você abdique para sempre do seu corpinho infantil e passe a ser algo inteiramente diferente. Quando eu era criança, nós vestíamos calças curtas... calças pelos joelhos. E chegava então o grande momento em que você vestia calças compridas.” 

As mutilações fazem parte de ritos de iniciação que integram as crianças ao mundo dos adultos. As mutilações têm portanto uma função, não são meros atos bárbaros. Em nossa sociedade os ritos de passagem foram abolidos ou edulcorados, não ajudam mais as pessoas a se “relacionar com o mundo, ou a compreendê-lo, para além do meramente visível.”. O resultado é que as crianças, escreveu Campbell, não sabem que já são homens e precisam abandonar as criancices. Crescem como os jogadores de futebol, infantilizados e imaturos. Ou como as madames, presas da propaganda cosmética, que iludem as velhinhas com a promessa da eterna juventude. 

No extraordinário ensaio sobre a arte da tauromaquia, o antropólogo francês Michel Leiris, diz que o espetáculo brutal da luta do homem contra o touro na arena ocupa aquele lugar de revelação de experiências cruciais que esclarecem partes obscuras de nós mesmos.  A luta e a matança do touro opera desse modo uma purgação que aplaca os picos de febre sem que o homem tenha que recorrer, para se exteriorizar, seja a uma via explosiva, seja a um disfarce utilitário ou racional das vias reais. 

“Mas em nossos dias”, escreveu o antropólogo, “não é mais possível encontrar escape confessável para tais impulsos... Daí o tédio, a impressão de vida castrada, a tal ponto que, aos olhos de alguns, as conjunturas mais catastróficas podem parecer desejáveis, uma vez que ao menos teriam o poder de colocar em jogo a totalidade de nossa existência.”. 

Trouxe esses exemplos de "brutalidade" cultural para mostrar que eles existem por que cumprem funções nas sociedades que as criaram. Aboli-las, pareceriam a nos que não fazemos parte dessa realidade, a coisa mais sensata a se fazer. Porém, isso implicaria um dano a elas que ameaçaria a sua sobrevivência. Como aconteceu com as comunidades do pacifico que foram vítimas das melhores intenções ocidentais. 

Temos que ter cautela ao nos pronunciamos sobre realidades que nos são “estranhas”. No campo cultural o que nos parece insensato funciona muitas vezes, como uma peça da grande engrenagem que sustenta um todo social. 

A vaquejada, que alguns dizem querer não ter existido, cumpriu um importante papel na consolidação e expansão da interiorização do país. Ajudou a criar e diversificar as manifestações culturais a ela vinculadas e esteve presente nos processos de socialização dos grupos migratórios que foram tangidos de seus lugares para outros. Reunidos entorno de uma prática comum os nordestinos dispersos pelo país encontraram na vaquejada um elemento de socialização que lhes garantiu por muito tempo a resistência cultural. 

Isso posto é preciso dizer também que não se pode ignorar o fato de que novos tempos pedem respondas diferentes às necessidades sociais. Hoje já não se tolera tanto a brutalidade. Além disso, talvez a vaquejada não seja mais tão importante ao conjunto da sociedade que a sustentou por tanto tampo. Cai-se então a resistência e a importância que ela tinha para tantos. Novas necessidades impõem-se. Outras vozes não contempladas pela cultura do couro de boi e do vaqueiro também pressionam pelo fim de uma cultura que representa os padrões de uma sociedade que urge ser alterada as suas fronteiras.  

Sem trégua. O país está em ebulição. Para os dias a fervura só aumentará.

Li nas redes sociais a seguinte nota do escritor Fernando Morais:

"Anos atrás recebi do então governador de Brasília Cristovam Buarque o "premio manuel bonfim", atribuído ao meu livro "Chatô, o rei do Brasil". Já pedi à Marília para localizar a placa de prata. Vou devolver. de golpista não quero nada. Nem prêmio".
Minha resposta ao Fernando Morais:

"Fernando Morais mostra como para o PT não há diferença entre partido, governo e estado. Não fui eu que dei o prêmio, foi o Governo do DF, selecionado pelo mérito de seu maravilhoso livro. Mas ele acha que foi uma bolsa-escritor. Porque, para ele, não há diferença entre partido-governante-governo-estado.


Que pena que nossos gênios estejam tão obtusos. E tão viciados no aparelhamento. O PT corrompeu mais do que a política, corrompeu a inteligência e o caráter. E aos poucos vão mostrando que a volta da Dilma por mais dois anos, com essa gente, vai embrutecer o País e seguir se apropriando do Estado. Pior que não tem juiz Moro para este tipo de roubo: da inteligência e do caráter. Ele não falou em devolver os dez mil que recebeu do prêmio. Na época eram dez mil dólares. Nem o que ele fazia no governo do Quercia".

Há cheiro de podre em todos os lados

De tudo o que vivemos hoje no país, o que mais salta aos olhos é a arrogância dos que defendem legendas partidárias. A dar fé no que eles dizem, tem-se a impressão de que, eles sabem tudo, vêm andes de todos e estão tão certos de suas posições que, não pode haver erro ou engano no que pensam e fazem. Com tantos a saber de tudo e antever tudo antes de todos, como chegamos então, tão fundo e tão rápido, ao lodaçal em que estamos.  Estou farto desse fla-flu. Inunda-me o tédio. 

Os nossos grandes lideres e seus amantes

Foto: Cornell Capa, California. 1960.
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Um giro à volta e tem-se a impressão que, o mundo converteu-se ao fanatismo. As pessoas andam endeusando tudo: partido, seitas, agremiações, políticos, etc. Com predileção atualmente pelo deus partido. A ninguém parece suposto alguma dúvida, sobre seus pontos de vista. Enfronham-se nas bandeiras e defendem as suas cores, e não pressentem que elas exalam odores desagradáveis. Quem atentar para o que dizem as vozes que ecoam dos gabinetes e mansardas, não deixará de perceber que de lá falam todos aqueles que se sentem na posse da milagrosa bússola que aponta para o norte das decisões capazes de nos resgatará a felicidade geral. A dar ouvido a estas vozes, tenho a impressão que, será outro, o destino dessa grande nau em que todos nos metemos. Não falo isso aos amigos, porque chegamos ao estágio em que eles pressupõem que onde há crítica há desamor.

Elefante manso

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Não temos uma revista dedicada à literatura. As editoras que um dia se preocuparam com a qualidade literária pagaram o preço dessa ousadia e hoje se encontram de portas cerradas.  Nos jornais, os suplementos literários, que já foram palco para grandes discussões, deixaram de ser importantes e desapareceram das páginas dos diários. Com eles sumiram também a figura do crítico, do ensaísta, do polemista e do intelectual, naqueles termos que postulava Ortega y Gasset em: A Rebelião das Massas, o indivíduo que: aclarava um pouco as coisas, enquanto os outros, pelo contrário, costumavam consistir em confundi-la mais do que já estavam.

Todas essas notícias deveriam nos sugerir que não andamos a ler nada e não estamos nem um pouco interessados com o mundo à nossa volta. Mas estranhamente, ocorre precisamente o contrário. Diz-nos um jornal português que, nunca andamos tanto com um livro à mão como agora. Nunca estivemos tão à frente do mundo no quesito consumo de livros como nesse instante. Ninguém nos faz sombra, estamos na crista da onda. Podem se rir, achar que é tontaria, desequilíbrio, mas o fato é este mesmo, nunca tivemos tantos livros em nossas casas como hoje. O mundo nos inveja.

Mundo estranho. Justamente quando passamos a ser os maiores consumidores de livros do mundo amargamos estatísticas que não condizem com um público ilustrado pelas letras. Ou vão me dizer que acham normal não termos revistas, jornais e intelectuais pensando e dialogando com esse mar de gente que anda a ler incessantemente? Talvez o fato de estarmos todos enfronhados pela cultura do entretenimento e da massificação, que rebaixou tudo ao nível das mentalidades debiloides, expliquem melhor esse fenômeno quimérico que é o Brasil de hoje.


Não somos leitores com letra maiúscula. Não estamos ansiosos em ler para nos encorajar a desempenhar o papel clássico do elefante na loja de porcelana. Somos na verdade consumidores de bens culturais que são vendidos pelos discursos persuasivos e aliciantes da publicidade. Basta-nos que o livro nos consinta o status simbólico de posse de algum bem, e assim ele terá cumprido o seu valioso papel de fazer-nos sentir menos estúpidos, diante de um mundo que só reconhece o valor material e que foi convertido ao atrativo comercial sem nenhuma reserva moral. 

Grandes fotógrafos Brasileiros

Foto: Araquém Alcântara.
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A fotografia brasileira é inteiramente dominada por um nome: Sebastião Salgado. Os trabalhos desse mineiro são obras primas da fotografia. Ninguém parece capaz de lhe fazer frente, tamanho empenho ele dedica às suas produções. Diz-se que ele faz fotografia como um pintor compõe um quadro: preocupado com a harmonia e o equilíbrio das formas. 

É ainda importante a atenção dada por ele a textura dos motivos. Saltam aos olhos dos seus admiradores os microcontrastes que surgem das imagens que ele captura. Não se perde nenhum detalhe da imagem que Sebastião faz. Isso se deve a escolha acertada do preto-e-branco na composição das suas imagens. O PB torna mais perceptíveis os tons, os contrastes e os pormenores da imagem tornam-se evidentes. 

Por tudo isto, não falta também quem afirme, que ele alcançou uma qualidade em seus registros que só encontra precedente em outros nomes maiúsculos da fotografia: Cartier-Bresson, W. Eugene Smith... Nenhum de seus trabalhos parecem menos que perfeitos. Creio não estar exagerando. 

A excelente reputação que construiu, tornou Sebastião Salgado um nome incontornável. Mas o que é a glória para uns, pode bem ser o tormento para outros. Por seu gigantismo, Sebastião Salgado, acabou por fazer sombra a muitos outros bons fotógrafos nacionais, que não têm, como ele, a devida atenção do público, nem gozam do prestígio merecido pelos méritos incontestes que demonstram. 

Porém, ao olharmos com atenção mais detida, talvez vislumbremos outros nomes, que se não chegam a impressionar como Salgado, ao menos têm o mérito de nos prender demoradamente a atenção. E em tempos fugazes, onde o mote da vida é a aceleração do tempo, não pode existir qualidade maior no trabalho de um fotógrafo, do que este de deter o olhar do expectador, e o capturar em horas mais alargadas de atenção sobre o objeto apreciado. 

Um desses nomes é o do fotógrafo Araquém Alcântara. Com mais de quatro décadas de trabalho ele faz valer as horas que se gastam em apreciar tudo o que ele faz em termos fotográficos. No site que mantêm na internet podemos vislumbrar um pouco dos seus inúmeros trabalhos. O que se evidência ali, além das qualidades fotográficas evidentes, são as ocorrências de alguns temas. 

Um dos seus prediletos, parece ser: as paisagens naturais do Brasil. Isso talvez se deva ao fato dele combater obstinadamente as agressões que põem em risco a exuberante natureza nacional. A fotografia para Araquém confunde-se com o ativismo ambiental. Ele não esconde que é um fotógrafo, como ele mesmo gosta de dizer, “engajado”. 

Além das paisagens ele insere em suas incursões os motivos humanos. Quando ele se volta para estes, emergem pulsantes personagens. Todos eles são facilmente reconhecidos por nós brasileiros. Mas alguém que não os conhecessem, também os apreciariam. Pois são expressivos e dizem mais do que as circunstâncias geográficas sugerem. Os cenários em que figuram esses tipos, ressaltam as regiões que formam o país uma unidade na diversidade. 

Através das lentes de Araquém vislumbramos um Brasil que, longe dos grandes centros urbanos, vive e celebra a sua riqueza. São fotos de enorme qualidade e mestria técnica, que nos revelam um país, cheio de vida e de dinamismo, sobre o qual ninguém consegue ficar indiferente. Mesmo que se tenha uma sombra encobrindo a sua presença, a fotografia de Araquém se faz perceptível. 



Foto: Araquém Alcântara. 



Depravações políticas ou o impedimento forjado pelo sem-vergonha mor da nação

Foto: Max Scheler | Bruxelas, 1958
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Os políticos de Brasília nunca trabalharam tanto como nesses dias. Pena que não é em prol do Brasil, mas em causa própria. Acusam, xingam, mentem, falseiam e emprestam-se a todo tipo de sem-vergonhice. Com eles uma legião de capelistas ensinam-nos as razões do que foi, do que é, e do que só poderá acontecer quando A ou B estiver impedido ou devidamente encarcerado. De nós outros, os que não sabemos nem o suficiente para nós mesmos, mas que duvidamos sempre, estamos, pelo sim, pelo não, de costas a esse teatro bufa de triste-cômicos personagens. Podemos não saber muito, mas o que sabemos não nos permite tornarmo-nos cúmplices de modos tão depravados. 

Atento aos sinais

Raramente discuto política. Aprendi que essas discussões têm o desagradável efeito de provocarem, em quem nelas se envolve, uma pane instantânea na inteligência que, faz suspender o bom senso nuns, espumar as bocas noutros e provocar espasmos, semelhantes aqueles dos energúmenos tomados pela violência e o desequilíbrio. Desenganei-me de mais essa vaidade. Quando por acaso uma dessas discussões encontra o meu caminho, salto da calçada à rua e vou parar no outro lado, onde o passeio permite livremente que se suba ou desça, sem ter que dá com quem atravanque o caminho, com a boca ameaçadoramente babando certezas.  

Mansos cordeiros

Mark Twain disse que: "há três espécies de mentiras: as mentiras, as mentiras sagradas e as estatísticas". Fosse ainda vivo e tivesse morada no Brasil ele, seguramente, incluiriam ao rol dessas mentiras, uma outra. A mentira Eduardo Cunha que, se caracteriza, não por ser engenhosa ou mirabolante, mas por se valer da crença de que, todos são parvos e, por essa razão, estão dispostos a aceitarem uma farsa como verdade, apesar de todas as evidências em contrário. Embora sejam os políticos quem nos governe, não é deles que devemos esperar remédio e salvação para os nossos males, está bem visto, mas de nós próprios que, devemos cultivar uma consciência social que se negue a aceitar o escárnio e a delinquência como coisas normais. 

Passageiro da agonia

Frame: Filme O Senhor das Moscas
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Todos os anos vou duas ou mais vezes ao Goiás. Minha mulher tem parentes por lá. Gostamos de estar entre eles. São queridos, e muito caros aqui em casa, todos. Por isso, sempre que nos resta uma folga, ou quando se avizinham as férias, corremos à terra de Cora Coralina, só para estar entre aqueles que mais queremos bem. Nessas visitas, aproveitamos a ocasião para passear pela cidade e flertar com as livrarias que, abundam no centro. Mas sair pela cidade, em determinadas horas e locais, tem se tornado um desafio que exige esforço e nervos sobre-humano. Algo, que descobri na última viagem, a duras penas, não possuir.

Num sábado de folga dos deveres domésticos, e já um tanto cansado da rotina de casa, sai com minha mulher, suas duas sobrinhas pequenas, e minha comadre, que vive fora do país e vem todos os anos passar as férias conosco. Fomos ao shopping Flamboyant que fica no centro da capital goiana. Lá encontro sempre alguma promoção na FNAC ou na Saraiva, que são primores de livrarias. Depois de horas percorrendo os livros, resolvemos retornar ao lar, dado o adiantar das horas e a fadiga das crianças. Foi aí que saímos, inimaginavelmente, de uma realidade comezinha dos passeios familiares, para cair numa página de horror que bem poderia ter sido escrita por William Golding ou Anthony Burgess em alguns de seus livros despóticos sobre a raça humana.

Quando saltamos para dentro do ônibus, que nos levaria para casa, não imaginávamos que no ponto seguinte, ainda em frente ao shopping, viveríamos as piores horas de nossas vidas. De repente, quando o ônibus parou para dá lugar algumas pessoas, que deram sinal no ponto, fomos assaltados por uma horda de jovens, rapazes e moças, com idade entre 14 e 16 anos, não mais do que isso, que invadiram o ônibus forçando as portas e intimidando, aos gritos e socos na lataria, a todos que estavam ali dentro. Aterrorizados, passamos de passageiros à reféns, daqueles delinquentes juvenis, durante todo o percurso do Flamboyant até o terminal Praça da Bíblia, ponto de baldeação no transporte público de Goiânia. 

Entre gritos de “Ohhh!!!!! horrrorrr!!!!! É o bonde do terrorrrrrrrr!!!!!!” e outras bestialidades musicais que bem agradam a mentalidade doentia da nova geração, os menores passaram a arrancaram as luminárias do ônibus e com destreza de quem já há muito tempo pratica a mesma ação, abriram com desenvoltura as portas traseiras do ônibus, mexendo no mecanismo hidráulico que fica acima das portas. Com as portas escancaradas eles passaram a surfar, literalmente, sobre as luminárias, fazendo um estrepitoso barulho no asfalto enquanto o ônibus corria à noite Goiana. O motorista, refém como nós dos delinquentes, não esboçou nenhuma reação aos delitos juvenis. De dentro do ônibus os poucos passageiros que, não faziam parte daquele circo de horrores, se entreolhavam atônitos com tamanha estupidez. Acuados ficamos todos estupefatos com a ousadia e desrespeito daqueles jovens.

Entre o trajeto do pânico e a chegada ao Terminal Praça da Bíblia foram minutos, mas pareceram horas. As tenebrosas bestialidades juvenis nos fizeram saltar no terminal e seguir viajem em outro meio de transporte. Antes que a situação pudesse se complicar ainda mais, nos enfiamos no primeiro táxi que avistamos e largamos para trás os circo de horrores que aquelas crianças perpetravam. Depois da experiência macabra de ver tantos jovens se comportando como primatas, não quisemos pagar para ver aonde aqueles delinquentes poderiam no levar.

A perturbadora cena de selvageria que testemunhei naquela noite, me fez perceber que tocamos, definitivamente, o fundo do poço. O inalcançável mostro da desumanidade não é mais uma personagem de ficção cientifica a nos espreitar na tela do cinema ou nos acossar nas páginas de um livro. Ele temerariamente saltou essa barreira, e não podemos nos considerar desavisados, nem desentendidos dos horrores que a juventude de hoje vai maquinando. Há um bom tempo correm noticias de que ela anda desgovernada, assim como a sociedade que a gestou. Tanta bruteza e desdém pelo semelhante são sintomas de uma comunidade falhada que abandonou o seu futuro por não haver encontrado esperança no presente.

Por todos os cantos há sinais de que a vida em sociedade vai mal. 


Um bocadinho limitadora

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São muitos os felizes que vêem a política sem matizes. Mansos, se deixam guiar pelos que lhes seguram as rédeas e estão certos de que ter lugar é estar à esquerda ou à direita do mundo. Fora disso, pensam, só há o muro, ou melhor, o em cima do muro. Isso tudo, é o muito que se podem admitir de lugares. Não lhes ocorrem que, fora dos polos, além dos extremos, ou longe dos muros, possa existir um outro lugar pra pensar.

Tomar posições, fincar bandeira, limitar espaços é o que os fazem felizes e lhes alimentam as convicções mais mesquinhas. Estão certos de seus lugares e de lá querem nos fazer crer que estão com toda razão.  Entendem a política como aquela senhora do conto Olhar à direita, de Oliver Sacks, que via o mundo à volta: em banda.

A história é narrado no livro de contos O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu. Aos sessentas anos a Sra S., sofreu um grave derrame que afetou as porções mais profundas e posteriores de seu hemisfério cerebral direito, fazendo com que perdesse a visão do que lhe estava à esquerda.

Às vezes”, narra Oliver Sacks, “ela reclama que as enfermeiras não puseram a sobremesa ou o café em sua bandeja. Quando elas replicam: “Mas sra. S., está bem aqui, à esquerda”, ela parece não entender o que estão dizendo e não olha para a esquerda. Se sua cabeça for delicadamente virada de modo que a sobremesa fique à vista, na metade preservada de seu campo visual, ela diz: “Ah, está aqui — não estava antes”. Ela perdeu por completo a ideia de “esquerda”, tanto com relação ao mundo como a seu próprio corpo”.

Um tipo pode, como aconteceu com a Srs S., estar acometido de um derrame ideológico e não dar por isso. As ideologias podem ser um bocadinho limitadoras e no mundo deve haver mais lugares para as ideias do que os compartimentos ideológicos, delimitados pela direita ou pela esquerda nos querem fazer supor. 

Bestiário político II

Foto: William Wegman

Tal como um cão que submete as suas vontades a um dono, a política condena pessoas inteligentes ao dever partidário.

Capelistas


Depois do fim das eleições no ano passado, com o seu insuperável festival de baixarias, mentiras e outras imposturas, eu supôs que a guerrilha de quarto, já cansada de tanta sujidade e desmuniciada com o fechamento das urnas, recolheria as suas baterias e faria sossegar os canhões, apontados às mentes e corações dos incautos eleitores.

Agora podemos gozar horas amenas... pensei eu... desfrutar os prazeres de navegar pela internet sem ter que dar de encontro com disfarces ideológicos fajutos, travestidos em torrentes numéricas, que dizem desmentir (ou mentem ainda mais, não se sabe) o que se supõe “calúnias” “difamações” e ingerência midiática sem fim. Infelizmente eu estava equivocado. Mais uma vez a estupidez não deu trégua, e a internet voltou a ser o palco de bufões alegres, entretidos em trocar acusações. 

Entrincheirados em suas posições ideológicas, esses intrépidos agentes circenses, querem nos fazer crer, antes gráficos, tabelas, mapeamentos econômicos, variações cambiais e outras alquimias políticas, sabedores de todas as verdades que precisamos saber, para ir bem nas escolhas dos dirigentes do povo. Embora pareçam esclarecer, não fazem mais do que, monocordicamente, ladrar uma fraseologia, que logo se vê de cara, está subordinada às exigências da tática política à qual prestam vassalagem. 

Passados mais de um ano das eleições presidenciais não há um único momento em que não deixamos de perceber que a política, entre outras coisas, é capaz de desmiolar os seus entusiastas e os fazer padecer de uma certa indigência mental insuperável. Ah! Como seria bom ser surpreendido em política, com ideias e discursos livres de amarras ideológicas.