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Cleptocracia

Quadro: Caravaggio-  “Os Jogadores” óleo sobre tela com 99 x 107 cm, 1594.


As investigações da Política Federal que desbaratou um esquema de corrupção nas obras públicas do Governo Federal, especialmente na Petrobrás, começou a sua fase final. Executivos de 6 das maiores empreiteiras do país estão sendo acusados, com vultosas provas, de pagarem propina à dirigentes da Petrobras para ganharem licitações em obras orçadas em bilhões de reais. Dado a sofisticação do esquema de desvio de dinheiro, o Procurador Geral da República classificou o ato de “verdadeira aula do crime”. 

Ao mesmo tempo em que este esquema era desvendado, outro não menos vergonhoso, assolava o Estado de São Paulo. O Ministério Público daquele Estado avaliou que as obras do metrô, entre os anos de 1998 e 2008, foram fraudadas, resultando em prejuízos milionárias para os cofres públicos. 

Na mesma semana em que tudo isso era exposto ao público, outras denúncias de corrupção atingiram as Forças Armadas e a Confederação Brasileira de Vôlei. Uma empresa americana de manutenção de turbinas de avião denunciou à comissão americana antifraude ter subornado funcionários da FAB e do gabinete do governo de Roraima, para conseguir contratos no Brasil, Peru e Argentina. Já a CBV teve o seu patrocínio suspenso com o BB em razão de uma apuração de desvio de mais 30 milhões nas contas da CBV durante a administração do seu ex-presidente.

Todas estas vexatórias notícias sugerem para os mais otimistas o fim da impunidade de atos ilícitos no país. Nunca antes na história desse país ocorreu uma erupção tão grande de denúncias e investigações de atos de delinquência. Confiando que a lama é purificadora, muitos acreditam que agora passaremos o país a limpo. 

Está mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que ver isso acontecer. A perplexidade dos fatos ora expostos com todas as vísceras, envergonha uma pequena parcela da população. Uma diminuta parcela. A grande maioria não só ignora os fatos, mas também colabora, a sua maneira, para que estes crimes graduados tenham nascedouros bem simples e cotidianos, permitindo que eles se perpetuem amanhã e depois de amanhã. 

Não é difícil encontrar quem mesmo se revoltando com as notícias deixe de perpetrar pequenos delitos. Não adianta o padeiro torcer por ver o executivo na cadeira e continuar roubando no peso do pãozinho. Não adianta o professor elogiar a ação da polícia e depois maquiar a sua declaração de Imposto de Renda. De que vale a esperança de dias melhores quando não nos furtamos o pagamento de um cala boca às autoridades de transito, que nos flagraram rodando pelo acostamento da rodovia ou dirigindo sem carteira. 

Em Elogio da Loucura o escritor Erasmo de Roterdã diz que a grande maioria de nós temos olhos de lince para enxergar os defeitos alheios e de tartaruga para ver os nossos. Seria bom apanhar a lição do escritor Holandês e fazer do caso recente uma auto crítica de nossas condutas diárias. Se queremos mesmo passar o pais a limpo e desinfetar as consciências, temos que primeiro iniciarmos a faxina por nossa casa. Antes de notar o argueiro no olho do outro é preciso ver a trave no nosso. 

Estilo novo

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Quem acompanha as aparições públicas da Presidenta Dilma percebeu que nos últimos dias, após as eleições, ela trocou o habitual terninho Vermelho No Pasarán! Pelo, Azul Petróleo. A cor lhe caiu bem, afirmaram alguns. Outros discordando, acusaram de cafona e fora de moda a escolha da presidenta, exigindo que ela revisse as cores de seu guarda-roupa. O impasse não parece ter atingido a presidenta, que julga essas discórdias de estilo, uma questão de foro íntimo. Pelo visto ela continuará usando a roupa que bem lhe aprouver, conforme a ocasião pede. Uma lição de moda e de bom gosto nos dá a nossa líder.

A cama de Procrustes

Foto: Alfred Eisenstaedt, 1950
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Sempre que leio uma pessoa esclarecida pedir o fim de um jornal ou uma revista, por mero capricho e divergência com sua orientação ideológica, fico a pensar, que ainda estamos longe de conquistarmos a democracia. Impressiona-me como ainda há quem sinta vontade de puxar a pistola quando apanham por aí discursos que não convergem com a sua ideia de mundo, com a sua imagem da política, da cultura, da religião e de muitas outras formas de relações humanas. 

Esses clamores incendiários, contra os que pensam diferentes das vozes que orientam as consciências individuais, são recorrentes nas ditaduras e em outras formas menos civilizadas de relação social. Nas democracias o contraditório, o divergente, o ponto de vista diferente, são, não apenas estimáveis, mas estimulados. Entende-se, nas democracias, que os conflitos tem melhores resultados quando mediados pelo debate de ideias e não pelo tacão das vontades individuais. Nenhuma ideia é subvalorizada, nenhuma ideia é sobreposta a outra, os pontos de vistas são debatidos, questionados, arguidos e se bastam pelo que nutrem de importante, não pela força, pelo grito. 

Pode não ser muito agradável tolerar ideias que você julga intolerante, mas esse exercício, tão salutar quanto necessário, será sempre melhor do que ter em vista, um reizinho regendo as vontades de toda a gente, a maneira de um deus onipotente. Temos que ver o ponto de vista de toda a gente, e não nos limitarmos a projetar os nossos desejos e valores brutalmente sob os que pensam, diametralmente opostos a nós. É estranho pensar um modelo ideal e único de ser humano. Mas é justamente esse modelo, monocromático, de cultura, religião, e opiniões políticas que querem aqueles que insistem em divergirem dos outros, aniquilando a sua existência. 

Na mitologia grega há um personagem que sujeita todas as pessoas, as mais dolorosas mutilações, somente porque elas não se encaixam à sua sádica e perversa medida ideal. Procrustes, também chamado Damastes e Polipémon, é o nome de um bandido que vivia na estrada que ligava Mégara a Atenas. Os viajantes que por ali passavam, ele convidava para comer em sua casa e oferecendo-lhes depois sua cama de ferro para que o incauto descansasse nela, ele aproveitava essa ocasião, em que o desafortunado pegava no sono, para amordaçá-lo a cama. Se o infeliz fosse maior do que a cama ele serravá-lhe o “excesso”. Fosse menor do que a cama Procrustes esticava o desgraçado até que este atingisse idêntica distância entre a cabeça e os pés, à medida da cama. 

Não passa por minha cabeça que está ou aquela revista, jornal ou outros médias são insuspeitos. Mas dá aí pedi-lhes o fechamento não me parece sensato. Nenhum modelo político, cultural, religioso tornou impossível pensar outras formas de convívio humano, mesmo que alguns de seus membros insistam em pensar o contrário. Os limites serve apenas aos muitos satisfeitos das coisas tais como estão. 

A melhor forma de antagonizar com as ideias opostas às nossas, é apontar-lhes as contradições, indagar-lhes os valores. Como faremos isso com eles amordaçados. Deixar de ler os jornais, as revistas e outros médias pode ser outra boa maneira de demonstrar nosso desagravo. “Se o rádio não toca a música que você quer ouvir”, dizia Raulzito numa lição de tolerância e liberdade às diferenças, “é muito simples, é só mudar a estação, é muito simples é só girar o botão”. Submeter os outros a seguir os passos de um único individuo é andar a arremedar os bufões.   

Brasil

Admite-se tudo nesse país, menos a honestidade. 

Da natureza Selvagem

Nem bem iniciaram as investigações da operação Lava Jato, já tem gente dizendo que, depois desse caso de corrupção explicita na maior empresa pública do país, pouca coisa mais merecerá o nome de escândalo nas Terras Papagaios. Por ora a Polícia Federal suspeita em desvios nos valores que andam pela casa dos milhões de reais. A se confirmarem esses valores, o mensalão, que escancarou os modos operandi da governança nacional, estará fadado a se tornar um mero escandalozinho de vão de escada, coisa de amanuense. Exagero à parte, penso que no Brasil há sempre a possibilidade da coisa piorar. Aqui, nada está tão mal, que não possa ser superado por um mal ainda maior. Muito antes do soar das trombetas do juízo final, ainda teremos mais bons motivos para sentir saudades do tempo em que os governantes nos roubavam apenas em quantias inferiores a bilhões. Durma-se com um país desse. 

As coisas, como andam?

Ou andamos todos desacautelados ou andamos todos com os quadro membros no chão. Uma ou outra dessas alternativas há de explicar por que na terra do Saci se comemora o Halloween.

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As conveniências pessoais estão sempre desmentindo os arranjos sociais. Haverá nisso outro componente além da natural propensão humana à subversão?

Os gargalos da cultura

Dados do Ministério Educação afirmam que 79% dos municípios brasileiros possuem bibliotecas públicas municipais. Hoje, 420 municípios não contam com bibliotecas. Iniciativas da Fundação Biblioteca Nacional diminuíram a ausência de bibliotecas no país. Nas escolas, a situação é outra. De acordo com informações do Ministério da Educação, apenas 30% dos estabelecimentos de ensino fundamental no País possuem espaços que funcionam como biblioteca. Um vexame que acossa poucos políticos. Em Rio do Antônio encontrei um senhor que foi prefeito da cidade na década de 70. Atento as questões culturais o Senhor Deba mandou à Câmara de Vereadores um projeto de criação de uma Biblioteca no município que na época contava com pouco mais 5 mil habitantes. Vocês pode imaginar o rebu que a ideia causou. Os vereadores se recusaram a aceitar o projeto. Seu Deba então resolveu escrever ao Instituto Nacional do Livro (órgão que na época era coordenado pelo baiano Herberto Sales, autor do clássico regionalista, Cascalho) e ao presidente da República que era o ditador Emílio Garrastazu Médici, dizendo que no interior do país a Câmara de Vereadores da cidade se recusava a criar uma biblioteca que homenageava o presidente - a biblioteca se chamaria Biblioteca Municipal Médici. Não deu outra os vereadores quando ficaram sabendo da história se apressaram em aprovar o projeto do Seu Deba.

Da des-esperança de dias melhores

Querendo meter alguma ordem à minha cabeça para fazer de meu voto uma coisa útil, esforcei-me em ouvir os candidatos à presidência. Assisti debates, li acusações e contra-acusações. Avaliei propostas, pesei históricos, mas, mais do que isso, observei nos candidatos, seu comportamento de campanha. Do que vi e li restaram-me a convicção de que dissimular, enganar, fingir e fechar os olhos aos defeitos da sujidade dos partidos, a ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, foram as ações mais vitoriosas nessas eleições. 

Genuflexão

De dois em dois anos os políticos, assim como Baco iluminado na pintura de Velásquez, saem de seus palacetes e concedem à malta o privilégio de sua companhia. Fingem-se dos mesmos, mas a áurea diáfana que os encobre, também os resguarda da imundície do mundo a sua volta. Muitos, solicitam os seus afagos, na vã esperança de terem assim - colhidas as migalhas do banquete - serenado a sua miséria pessoal.

Pintura: Diego Velasquez | O Triunfo de Baco ou Os Bêbedos, 1626-1628.

Kafka para presidente

O corrida eleitoral já começou. Daqui a instantes seremos alvejados por discursos prometendo mundos e fundos. Estou exausto disso. A política nacional me enoja. Os jogos de poder, engendrados na máquina política, têm sobre mim um efeito misto de ódio incontido e desprezo perpetuo. Mas sou um cidadão compassivo. Acredito no voto como uma força capaz de tudo contornar. Não deixarei de exercer o meu poder e em outubro lançarei o meu protesto. VOTAREI EM KAFKA para presidente.  

Elogio às Bibliotecas

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Entendo que as pessoas apreciem e até exaltem as livrarias. Elas são realmente maravilhosas. Mas acho que o melhor lugar para formação de um leitor se encontra nas bibliotecas. Bibliotecas que lamentavelmente sofrem de desprestígio constante. As pessoas reclamam que não leem, por não terem livrarias em suas cidades, quando essas estão cheias de bibliotecas. Enquanto as livrarias fetichiza o livro numa relação comercial, as bibliotecas dispensam essa dependência e se dão de forma mais intima e gratuita, estabelecendo o que me parece ser um vínculo mais pura e genuíno com o livro. Nas bibliotecas os livros deixam de ser um objeto avaliado pelo valor e passa a integrar com o leitor uma relação de afeto que dura toda a sua vida.

Fotos: Recém inaugurada Biblioteca José e Gita Mindlin.

Na fachada da biblioteca está uma frase de José Mindlin que diz: "NÃO FAÇO NADA SEM ALEGRIA". Bela lição.

Da América

Susan Wood - Beat Poetry Reading, 1955.
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Henri Miller dizia que a força de uma nação poderia ser muito bem medida pela estima desta aos seus escritores. O reconhecimento e a valorização dos escritores vitaminam uma civilização. Seria esse o caso da superioridade Americana sobre o restante do mundo? Provavelmente. Assistindo ontem ao documentário sobre o pensador Alceu Amoroso Lima, me chamou a atenção um relato de seu filho. Em viagem aos EUA o filho do pensador católico, visitou a biblioteca de Nova Iorque para pesquisar a existência de livros de seu pai. Surpreso ele encontrou 79 entradas para o nome Alceu Amoroso Lima, número muito maior de título encontrados em qualquer biblioteca brasileira. Ninguém no Brasil fica vexado com essa informação. A precariedade na distribuição de livros, associado ao sucateamento de nossas bibliotecas, bem como a falta de reconhecimento da literatura como um valor, tranquilizam as consciências sobre esse dado vergonhoso. Curioso de saber um pouco mais sobre o apreço dos Americanos pela literatura corri ao site da biblioteca de Nova Iorque e comprovei a informação do filho de Alceu Amoroso Lima. 79 entradas para o nome pesquisado. Fui mais longe um pouco e busquei o nome do poeta, folclorista e professor Marco Haurélio. 4 entradas para o nome do escritor. Muitas cidades baianas deveriam se envergonhar com essa notícia que é sinônimo de prestigio para o poeta. 


170 milhões infringidos goela a baixo.

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Não foram apenas 170 milhões furtados do erário público, mas toda dignidade de uma nação. Bem não de toda, uma parte dela que mais uma vez se sentiu empalada. Um nada – dirão alguns para justificar a sua leniência - comparado a tantas outras violências históricas a que fomos submetidos. Por que então nos preocuparmos com isso? O melhor mesmo é abrirmos a temporada de troça às artistas globais, para assim neutralizarmos a vergonha das pretensões ideológicas no balaio da irreverência popularesca. O manual de más posturas sociais, aberto a todas as bandeiras ideológicas, uma coisa bem brasileira, ganha assim dia-a-dia capítulos novos. O que não nos falta são colaboradores para essa prodigalíssima empresa.

As regras do jogo

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Percebo que certos jogos tenham regras complicadas de entender, mas não me venham dizer que esta regra é difícil: roubou vai pra cadeia sem direito a embargos infringentes. 

Enquanto isso em Brasília...

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Em alguma esquina nas proximidades do poder em Brasília, mas bem poderia ser aí mesmo ao seu lado.

Os infringentes ou a impunidade coroada no país moralmente mais vergonhoso do mundo


Foto: Elliot Erwitt
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O verborrágico pronunciamento do ministro Celso de Mello com abordagens matizadas, ambíguas e favoráveis aos apelos dos CORRUPTOS ao uso de recursos ad infinitum, quando acossados pela justiça, reforçou a ideia geral do povo que, para alguns abençoados brasileiros, o mundo é um lugar sem culpa e sem repressão. 

Ao considerar a letra fria da lei como juízo a ordem, e fazer vista grossa aos apelos, dos que ele chamou de: “excessos da maioria contingente”; o magistrado ignorou como é costume em casos que envolvam grandes figurões em questão no banco dos réus, a emergência de uma sociedade que repudia e repreende os delinquentes, sejam eles membro da mais alta casta existente na sociedade, ou não. 

Mas o pior de tudo em seu pronunciamento foi a insensibilidade e o desprestigiar à ideia do povo nas ruas. As grandes transformações sociais só ocorreram com o povo nas ruas. Não perceber isso é um desplante. A tese de que a lei deve agir sem paixões, invocada pelo ministro, não esconde que há sempre nos argumentos jurídicos, quando em causa a liberdade de raposas, uma maneira de manobrar as necessidades com o tacão da lógica ilusória. É realmente temeroso acolher os sentimentos de ocasião, mas esse não era o caso. O voto de outros ministros dava sustentação jurídica à recusa dos embargos infringentes e a histórica sensação de justiça devida ao povo legitimava a liquidação da fatura dos mensaleiros. 

O ordenamento social histórico, com base no abrandamento entre as normas e a conduta, tão típicos no país, acabou, por fim de duas horas de pronunciamento, realinhados para permitir aos marginais no poder todas as garantias e favores da lei. Ao povo restou o sentimento de fracasso na luta contra os malfeitores de plantão, que em algum gabinete ou secretária ministerial muito bem confortável em sua impunidade e ar-condicionado tramam novos planos de poder. 

A arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário




Transcrição da matéria do Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002 com o artista Antonio Veronese e suas opiniões sobre a arte contemporânea na Bienal de São Paulo:

Essa bienal é um engodo, diz Veronese Artista brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002 do Museu Whitney em Nova York, foi à 25° Bienal de SP a convite do JT e analisou o que vale e o que não vale o ingresso. André Nigri-Jornal da Tarde.
“Há mais emoção e história em uma aquarela de Egon Schiele (1880-1918) do que em todo o pavilhão da Bienal paulistana". A frase de Antonio Veronese pode dar a entender que seu autor, um artista brasileiro que transita entre os Estados Unidos e a Europa, é um outsider ressentido com os colegas que expõem na maior mostra de arte contemporânea da América Latina. No entanto Veronese tem quadros seus pendurados nas Nações Unidas (Painel Save the Children) , na FAO em Roma ( Painel Famine), no UNICEF ( JUST KIDS), no Congresso Nacional ( Painel Tensão no Campo), na Universidade de Genebra, etc… Alem disso, Veronese expõe e vende nos Estados Unidos e na Europa, e é um velho militante de causas sociais no Rio de Janeiro- cidade onde fica quando visita o Brasil.
Ao comparar a obra de Egon Schiele às instalações e performances dos 190 artistas de 70 países abrigados na 25°Bienal de São Paulo, aberta até junho, Veronese coloca em discussão o que se faz e o que se classifica de arte hoje e para que ela serve. “Quase tudo que está aí não vale quase nada... É uma infantilidade preencher esse espaço com obras que são um engodo” disse Veronese na manhã de ontem, depois de visitar o Pavilhão do Ibirapuera a convite do Jornal da Tarde.
Ao contrário do que aconteceu no mês passado no Whitney Museu de Nova York, não foi preciso chamar a polícia para esfriar os ânimos de Veronese desta vez, mas sua reação foi contundente da mesma forma. “A maioria do que vi no Whitney e que vejo aqui é resultado de uma idéia imediatista e simplória. Esses artistas são filhos espúrios de Duchamp” disse.
Consciente de que está comprando uma briga feia, Veronese não poupa nem os curadores de suas críticas: “São eles os maiores responsáveis por esse lixo. Não há mais curadoria decente na Bienal. E digo isso sabendo que muita gente gostaria de dizer o mesmo, mas não o faz”.
Ao ser confrontado com algumas das obras da Bienal paulistana, Veronese foi categórico. Chamou a instalação de José Damasceno de leviana, e ao aproximar-se da obra do gaúcho Daniel Acosta, intitulada “Estação Avançada com Paisagem Portátil” comentou: “Se nós mudarmos o nome disso não faz a menor diferença.. Em relação ao trabalho do carioca Chelpa Ferro , um automóvel que foi destruído em uma performance na abertura de Bienal, disse, “Acho um absurdo que uma bobagem dessas ocupe espaço precioso numa bienal. Deveria estar num ferro velho”.
Qual seria a saída? Para Veronese, as instalações vão se esgotar por si mesmas. "Não se pode confundir decadência com vanguarda. Acreditar que tudo já foi feito e que temos que montar essas bobagens é encenar a nossa própria decadência, diz o autor de Famine e Tensão no Campo.
Entrevista de Antonio Veronese depois das críticas às bienais Whitney e São Paulo.
Pergunta: Você, quando critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso não é antidemocrático?
Antonio Veronese: Eu não nego a ninguém o direito à exibição. Só acho que essas instalações deveriam estar num parque-de-diversão e não em museus. São objetos para o divertimento e a interação, da mesma forma que um boliche ou stand de tiro-ao-alvo. Mas isso, absolutamente, nao é Arte!, ainda que pareça revolucionario afirmar o contrário.
Pergunta: O que gerou o teu protesto no Whitney?
Veronese: Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado pagando 10 dollares para ter acesso a um amontoado de “facilidades”. Os “autores” disso são conscientes do farsismo e riem de nós. O que fazem é terrorismo estético, uma tentativa de apagar todo o conhecimento acumulado. Eles sabem que o que fazem não têm nenhum valor, mas contam com a elasticidade moral de curadores simplórios e com a ignorância endêmica da crítica.
Pergunta: Você chama a esses artistas de filhos-espúrios-de-Duchamp. Por quê?
Veronese: Arte é produto de duas experiências: uma histórica e outra pessoal. O artista precisa conhecer a Arte que o antecedeu, senão vai ter que inventar a roda a cada vez. Mas precisa também da segunda experiência, a pessoal, fruto do seu trabalho contínuo, do lento avançar naquilo a que dedica. Cézanne, aos 64 anos, já havia parido o modernismo mas reclamava que ainda não havia conseguido ir até o fim na sua busca. O caminho é longo e exige paciência e dedicação.
Esse pessoal das instalações não é burro não, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos que serviram em outras situações mas que, no caso deles, não passa de malandragem. O urinol virado por Duchanp é consequência de uma busca pessoal, num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser manipulado indefinitivamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp. Propõem mediocridade profanatoria embalada de vanguarda!
Pergunta: Que diferença existe entre essa tua crítica e a que sofreram os impressionistas no século XIX?
Veronese: A Arte é oficio do Homem, interferência do Homem; ela não é espontânea na natureza! É produto da interferência humana, e não pode ser supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade do milagre e, para Malraux, os artistas não são copistas de Deus mas seus rivais! A "arte" conceitual pretende socializar o direito de produzir arte, antes restrito, como é natural, aos artistas! Por isso o que produz é facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou das maçãs de Cezanne. Comparar minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o modernismo é um exagero. Uma outra vez eu "incorporei” minha bota de couro a uma instalação do Tunga no Whitney do Soho em Nova York. Só fui recuperá-la no dia seguinte. E ela estava ainda lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém se dera conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação conceitual de Tunga. Isso seria impossível com uma tela de Bacon, uma escultura de Maillol, ou mesmo com o Circo de Calder.
A crítica foi, muitas vezes na História, preconceituosa e totalitária. Mas questionar meu direito de exercê-la agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais humanidade e humanismo em uma simples aquarela de Egon Shiele do que em toda a Bienal de São Paulo reunida.
A Arte precisa do espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário.

A importância da mídia livre e (bem) longe dos poderosos

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George Orwell, que escreveu 1984, o livro do Big Brother, e Revolução dos Bichos, disse que “jornalismo é tudo aquilo que não querem que você publique. Todo o resto é propaganda”. 

Amparado nessa perspectiva exemplar do escritor indiano, vejo com extrema preocupação este 4° poder, sem dúvida mais importante do que todos os três anteriores, estar irmanado, cada vez mais, com os grupos políticos da situação. 

Na Bahia, vejo esse tipo de relação e suponho que ela não seja benéfica e nem saudável para a democracia. Porque dessa amizade entre jornalistas e prefeitos, existe um fator maior do que a verdade, que coroa essa relação: dinheiro. 

Nenhuma mídia, jornal, revista, estação de TV funciona sem dinheiro. Então, a solução encontrada é passar a cuia na mão de quem pode pagar pela informação: nossos digníssimos políticos. 

Não espanta que as mídias, hoje em dia, sobretudo as virtuais, não escondam mais de ninguém a quem estão apoiando, fazendo com que seu corpo editorial e suas matérias sejam, portanto, parciais e sem nenhuma relevância social. Elas já não disfarçam mais – e seguem atuando como legítimas porta-vozes não do povo, mas das administrações que defendem e de quem cobram a fatura. Na época da campanha política, fazem dos veículos verdadeiros palanques. Uma vez eleitos, como compensação, fazem uma inequívoca publicidade dos prefeitos e políticos que lhes pagam, divulgando amplamente suas obras, mas tomando o extremo cuidado de omitir algo que desabone os “patrões”. Está errado. 

Só o fato de (grandes) conglomerados e (grandes) jornais serem controlados por grupos políticos, já me espanta. 

Nunca me esqueço do livro Odorico na Cabeça, do imortal Dias Gomes, autor de O Bem-Amado. Sentindo-se agredido em sua honra pelos ataques de um jornal de Sucupira, Odorico – esperto – também criou sua própria imprensa para divulgar seus projetos estapafúrdios. Trata-se da Folha de Sucupira. Essa, ele julgava imparcial. Quanto à mídia que teve a coragem de expor suas loucuras, ele a classificava de “marronzista”. 

Quando a imprensa faz as pazes com o poder, alguma coisa está errada. 

No interior da Bahia, sei que aonde vão os prefeitos, lá estão os “jornalistas” atrás, no encalço. Jornalista que se preza não pode estar para cima e para baixo com prefeito. Se quiser servir à sociedade e honrar a profissão, deve investigar, apurar, colher as informações verdadeiras e publicá-las, sejam boas ou ruins, doam a quem doer. 

A imprensa tem a obrigação de fiscalizar o poder, e não de se aliar a ele.