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Roger Ebert

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Apesar das opiniões em contrário, acho a figura do crítico indispensável. Assim, penso que deveria haver mais desses intrépidos pensadores nas revistas, nos jornais e nas tevês.

Mas normalmente as pessoas discordam dessa ideia. Isso porque, pesa sobre a figura do crítico a incômoda tarefa de dizer, às vezes, coisas que nem sempre agradam.

E, como todos sabem, mas fingem não saber, vivemos num mundo em que as pessoas, não toleram muito bem as opiniões discordantes.

Essa, porém é uma maneira defensiva de ver a crítica que não deixa o leitor/espectador, perceber que há qualidades na crítica que a torna relevante.

Uma delas é a sua capacidade de aguçar no leitor/espectador os aspectos mais secretos de uma obra que o olhar distraído deixou escapar.

Um gênio nesse ofício foi o americano Roger Ebert, que morreu há três anos. Durante mais de quatro décadas ele exerceu de forma ininterrupta no jornal e na tevê a tarefa de crítico de cinema.

Fez isso movido pela devoção à arte que o maravilhou nos anos de juventude e pelo deslumbre de sentia, naquele instante em que se sentava num banco de uma sala de cinema, com centenas de desconhecidos, que estava aprendendo uma forma de se conectar e simpatizar com outras pessoas, através dos desejos, dos sonhos e dos medos, de todos aqueles personagens que desfilavam diante de seus olhos.

Mais-valia



 Foto: Dani Shitagi
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Uma lógica perversa vem reduzindo todas as coisas ao sagrado critério da funcionalidade. Da arquitetura moderna e seus discursos sobre a praticidade do meio, às escolhas paternas de escolas de músicas para os filhos, porque estas desenvolvem o raciocínio lógico; a arte de nosso tempo sucumbiu ao discurso do utilitarismo e só é consumida se "servir para alguma coisa”. O que conta mesmo nas artes de hoje são apenas os seus aspectos práticos, funcionais e utilitários.

E quem diz funcionalidade na arquitetura e na música diz literatura, cinema. Basta ver nas escolas como o cinema foi apequenado. Hoje assiste-se um filme apenas para que este aluda a um assunto que se quer discutir. Nas universidades, a literatura deixou de ser o elã despretensioso, para rebaixar-se aos discursos panfletários de moralistas.

A ninguém é suposto a ideia de que a escolha de uma leitura ou de um filme se dê pelo mero prazer subjetivo que este provoca. Aos discursos utilitaristas é preciso algum valor aderente ao objeto artístico para que esse adquira legitimidade. Mais não é isso que realmente torna a arte valioso. Todas as vezes que predominar o fim na arte, escreveu Kant, teremos “beleza aderente” a obra. Entenda-se fim aqui como aquilo que têm utilidade prática na vida. Quando não há predominância do fim, temos “beleza livre”, desinteressada.

E é a esse último modo de ver a arte, privada de interesse, que a torna indispensável. Sem estar sujeita a priori a imposições de conteúdo, forma e outros condicionantes, a arte se basta. Nessa concepção ela não serve para nada, e quanto menos servir para alguma coisa mais valiosa será. Não se reduzindo a uma realidade circunstancial a arte livre dos conceitos utilitaristas, contribui para formar uma imagem do mundo, das pessoas e das relações, tão complexas, em sentido universal. 

Adeus Manoel de Oliveira (1908-2015)


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Saiu de cena hoje um dos maiores nomes do cinema mundial, o português Manoel de Oliveira (1908-2015). Filho de uma tradicional família portuguesa Manoel de Oliveira nasceu no tempo da Monarquia. Assistiu a mudança de rumos políticos de seu país para República, atravessou duas guerras mundiais, sobreviveu a ditaduras sanguinolentas, saudou a redemocratização de sua pátria e ainda testemunhou a queda do muro de Berlim. Depois de tudo isso, quis o destino que ele ainda assistisse outros tantos dramáticos conflitos que lhe afirmaram a permanência do mito bíblico da Torre Babel. Seu nome está inscrito entre os grandes realizadores de nosso tempo. Ele não foi apenas o mais importante cineasta de seu país, como afirmou a revista Cahiers du Cinéma, foi também, como vimos, o mais longevo. A esse último adjetivo ele atribuiu parte de sua admiração: "Penso que sou mais admirado pela minha idade do que pelos meus filmes". Uma blague. Em seus mais de cem anos de vida ele fez da arte cinematográfica a máquina relevadora de um mundo aquém daqueles que nossos sonhos projetam e além daqueles que a realidade imprimem. Apenas esse registro desmente qualquer insinuação de que sua longevidade tenha superado o seu talento atrás das câmeras. Mas se ainda restar qualquer dúvida ao incauto veja-se a propósito Um Filme Falado. Obra de 2003, nela está, em chave teatral, como era característica de seu modo de realização, inscrito um filme que celebra os melhores feitos humanos, sem esquecer as inconvenientes certezas de que há ainda, muito trabalho para realização de uma sociedade minimamente civilizada. Vai o mestre fica a obra. 

Oscar

Sobre o Oscar aqui

O que esconde o cinema de entretenimento?

Cena do filme: A lenda do tesouro perdido.

Vi ontem, um daqueles blackbuster americano feito na medida para atrair o público às salas de cinema. Como todos sabem esses filmes seguem um receituário estrito de ingredientes. Os elementos desse angu se restringem basicamente a: astros consagrados como protagonistas; mocinhas com potencial para capas de revista teen; ajudantes bobalhões em meio a uma enrascada que envolva o maior número possível de encrenca cujo final é tão previsível quanto saber de que lado está o PMDB na política nacional.

De tão ingênuos muitos dirão que eles são inofensivos e incapazes de causar danos. Uma diversão despretensiosa jamais será capaz de provocar qualquer lesão contra à inteligência daqueles que vão assistir a estes filmes. É o que ouvimos. Afinal quem assiste a estes filmes sabem - ou imaginamos que eles saibam - de véspera, o que os aguardam. São como as novelas da Globo que há quarenta anos contam a mesma história. O que muda são apenas os ambientes, as épocas e, eventualmente, os efeitos. O que pode a repetição de padrões tão insistentes?

Porém, de bobinhos estes filmes não têm nada. Não são apenas máquinas de fazer dinheiro que alimentam uma indústria bilionária. São porta-vozes de um modo de vida e de uma cultura que, desde o último século, vêm moldando as outras culturas, com a força de narrativas que, tentam legitimar as suas ações perante o mundo através de um discurso obstinado, pela crença de que estão fadados a um certo destino. Feitos com o argumento de que estarão entretendo estes filmes transmitem muito mais do que diversão.  

O Lenda do Tesouro Perdido, filme que vi nesse feriado de carnaval, tem Nicolas Cage vivendo um caçador de tesouros. Cage pertence a 3ª geração de uma família que busca desvendar os mistérios envolvendo um obscuro tesouro, que poucos acreditam existir. Acumulado durante vários séculos e transportado por muitos continentes para evitar que fosse roubado, ou que caísse em mãos espúrias, esse tesouro está provavelmente agora guardado em solo Americano.  A trama é tecida sugerindo a ideia de que esse tesouro que ajudou antigas civilizações no processo de consolidação de suas nações e expansão de seus domínios caiu como um fadário ao povo americano.

Disfarçados sob o manto do entretenimento esse e outros tantos filmes de aventura incutem a velha ideologia americana do “Destino Manifesto”. Esse pensamento que surgiu nos primeiros anos após a independência propugna a crença de que o povo dos Estados Unidos são o mais novo povo eleito por Deus para civilizar o mundo. O tesouro buscado por Gates no filme que pertenceu a antigas civilizações, hoje está em posse dos Americanos. Os saberes do mundo, as riquezas das nações, os antigos caminhos, tudo pertence agora aos americanos.

Pintura de John Gast. Representação pictórica do Destino Manifesto. Na cena, uma mulher angelical, algumas vezes identificada como Colúmbia, (uma personificação dos Estados Unidos do século XIX), segurando um livro escolar, leva a civilização para o oeste, com colonos americanos, prendendo cabos telegráficos, por outro lado, povos nativos e animais selvagens são afugentados.(fonte Wikipedia)

Algumas cenas do filme reforçam de forma implícita o destino manifesto do povo americano. Quando Gates tem que roubar a declaração de independência do arquivo nacional para evitar que bandidos o façam ele evoca o discurso dos patriarcas que diziam:

...sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.

Através desse discurso os americanos evocam para si a responsabilidade de supostamente defender os povos do mundo contra os governos “destrutivos”. Agindo assim eles se sentem justificados para atacarem todos os que se voltem contra os princípios da liberdade. Mas fazem isso na verdade para manutenção de sua influência.

Os filmes americanos induzem a crença nos milhares de espectadores que os prestigiam pelo mundo, de que suas ações no mundo são movidas - assim como Gates que tem de infringir a ordem das coisas para restaurar um bem maior -  pelas mais genuínas e nobres intenções. Por essa crença eles legitimam as invasões de países. Atentam contra a soberania dos povos. Desrespeitam culturas e mesmo assim acreditam na sua pureza pois se veem movidos pela vontade não dos homens, mas de Deus. Esse nada inofensivo discurso inocula nas mentalidades neófitas dos milhões de entusiastas desse gênero de cinema a crença de estarem apenas se divertindo quando estão na verdade sendo doutrinados para reações mais acomodatícias.


O anjo embriagado

Ao pensar o Japão poucos são os que imagina essa potência asiática tendo que lidar com os males que afligem as nações pobres do mundo. Corrupção, miséria, desigualdade e violência, não nos parece fazer parte do cenário japonês. Habituamo-nos a ver o Japão como uma nação avançada. Custa-nos imaginá-lo doutro modo.

Porém este oásis de prosperidade, encravado no Pacífico, também já viveu dias de nação empobrecida. Esse é o tema do filme O Anjo Embriagado do cineasta japonês Akira Kurosawa. O filme foi realizado em 1948 logo após a derrocada japonesa na II Grande Guerra. Ele conta a história de uma sociedade as voltas com a pobreza extrema e ainda tendo que lidar com as gangues que se valiam da instabilidade social para cometer crimes.



É em meio a miséria que surgem dois personagens que conduzirão a história das dificuldades japonesas no pós-guerra. O excelente Takashi Shimura interpreta um médico alcoólatra que vive na periferia de Tóquio com sua vó e uma ex-paciente que ele curou de uma grave doença. Certo dia ele recebe mais um paciente em seu consultório indigente, que fica às margens de um pântano, para um atendimento de emergência. Interpretado por Toshiro Mifune, ator fetiche de Kurosawa, em sua primeira colaboração com o mestre japonês, o paciente é um conhecido gangster que se encontra ferido por um tiro na mão após se envolver em mais uma confusão. Depois de fazer o curativo o doutor Shimura descobre que o paciente guarda outra ferida; ele está com tuberculose.


Durante as décadas de 20 e 40 o Japão viveu uma verdadeira epidemia dessa doença em todo o seu território. A moléstia se agravou no pós-guerra em razão das péssimas condições de saúde sanitária que viveu o país com a vitória dos aliados sobre o eixo. Observador atento de seu país, Kurosawa nos dar um relato das agruras sociais que viveram milhares de japoneses durante essa época e aponta a insistência de alguns poucos abnegados como o médico Shimura como os responsáveis pela reviravolta do país sobre os problemas incontornáveis de insalubridade sanitária e instabilidade social.

O filme se desenrola através da recusa do paciente em aceitar o diagnóstico do médico.  Mifune que também é viciado em álcool, jogos, e estar com sua vida mergulhada no crime, devido a liderança que exerce na Yakuza, reluta a se submeter ao tratamento. Vivendo da exploração de jogos, prostituição e da extorsão de comerciantes, Mifune teme ser visto pelos seus companheiros e pelas pessoas que ele roupa como um fraco. Mesmo debilitado pela doença ele persiste na ideia de não se submeter ao tratamento do doutor Shimura. Para piorar a sua situação Mifune ver o seu antigo chefe sair da prisão e reclamar o seu posto de líder da gangue sobre a região.



Notória por possuir códigos de conduta estritos e natureza muito organizada a Yakuza adotou em sua criação as estruturas hierárquica tradicionais japonesas como lealdade e o respeito aos membros superiores, que por sua vez devotam seu poder na proteção de seus aliados. Porém no filme, Kurosawa desmente esses princípios e sugere que a ambição de riqueza das organizações criminosas jamais se valeram de qualquer princípio como a solidariedade aos membros em apuros, quando estava em jogo as conquistas de riquezas.

Rechaçado pelo antigo líder e abandonado à própria sorte Mifune recorre aos superiores hierárquicos numa última tentativa de escapar a má sorte da doença fatídica, mas acaba descobrindo que os membros da Yakuza que ele tanto venerava tramam contra ele. Desesperado ele finalmente ver que o crime a que ele tanto devotou esforços planeja substitui-lo como uma peça defeituosa que já não serve mais.  



Uma dramática lição, nos ensina Korosawa, esta de pertencer a um mundo em que a vida de um homem está submetida a um tenebroso modelo funcionalista em que se você já não atente às exigências do sistema, nada o impede de lhe substituir, ao primeiro sinal de defeito. 

Cinema e pintura




O cinema está cheio de belas fotografias. Fico rendido por filmes que por vezes nos fazem sentir diante de uma exposição fotográfica.

As invasões bárbaras

Na época em que o cinema, ainda não havia sido colonizado por vampiros com espinhas no rosto, aprendizes de bruxaria e outras merdolas, podia-se desgastar os olhos nas salas escuras, sem temor de ter com isso, comprometido também, outras partes do corpo.

Não há limites para quem tem coragem

Fitzcarraldo - filme de 1982 do realizador Werner Herzog
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Alguns diretores são-nos mais queridos do que outros. As razões são que, uns nos dizem pouco, enquanto outros nos emudecem os sentidos ao transmitirem aquele "frisson nouveau", como bem expressou Victor Hugo ao ler pela primeira vez as Flores do Mal. Os filmes do alemão Werner Herzog estão para mim nessa segunda categoria. Longe de ser uma unanimidade do grande público os seus filmes distinguem-se dos blockbuster hollywoodianos pela capacidade incomum de narrarem histórias de homens em enfrentamento com o mundo selvagem e desafiador sem cederem aos perigos ou questionarem seus propósitos; um mundo maior do que suas forças podem vencer. Nessa luta, seus personagens nem sempre se dão bem. Nada mais ante-comercial do que histórias de “derrotados”. Porém, se enganam aqueles que pensam que os filmes Herzog fala sobre derrotistas e fracassados. Os resultados podem não serem o esperado. O que contam em seus filmes são as atitudes.  Num mundo de culta a celebridade o arrivista social é o modelo de homem ideal. As qualidades e os valores do homem moderno se medem pelo sucesso e as conquista. Os personagens de Herzog representam muito bem esses sentimentos de conquista, nos fazendo refletir acima de tudo sobre as suas conseqüências. Movidos pela ambição desmedida muitos entram num espiral febril de sonhos de vitória a qualquer custo. Pelo caminho encontram forças superiores, que os farão provar os limites de sua coragem ante os desafios impostos pela busca de realizações utópicas. A pretensa superioridade humana é posta à prova no embate contra as forças da natureza. Nessa luta os desfibrados e os desertores são os primeiros a caírem. Tombam contra o seu próprio peso e são arrastados pelas torrentes, vales, abismos e toda sorte de perigos os põem em marcha ré. No cinema Herzogiano a única celebração possível é àqueles destemidos aventureiros que se impõem desafios capazes de questionar os limites do homem. Com Herzog aprendemos que não há limites para quem tem coragem. 

O real mais que real

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Algumas pessoas insistem em afirmarem que a ficção, em oposição a realidade, é o império do falso, do inverídico e do impalpável. Algo a que não se pode dá crença. Mas essa afirmação parece não se encaixar bem na personagem (portanto algo falso) que Rita Hayworth criou em 1946. No auge de sua beleza, Rita, aos 28 anos, deu vida a Gilda, criação que transbordava sensualidade e ousadia, numa época de grande repressão sexual. A máquina de fazer realidades através da ficção que é Hollywood botava em cheque, o discurso dicotômico, real x ficção. Gilda tornou-se, através do impossível ficcional, o alvo do desejo de dez entre dez jovens americanos do pós-guerra. Se a realidade é algo que se pode sentir através dos sentidos (tato, paladar, olfato, audição) nada foi mais real para aqueles jovens do que aquela presença ilusória criada pela câmara escura dos cinemas e que traduzia todos os seus desejos de uma forma que a realidade ainda não havia alcançado. Tanto é verdade isso que o slogan promocional do filme era: “NUNCA HOUVE UMA MULHER COMO GILDA”. Ruy Castro, admirador do filme lembra que a presença de Gilda nas telas da época só podem ser medidas em megatons, dada sua presença marcante: “os filmes americanos não mostravam uma mulher tão sensual e dadivosa. Seu impacto em 1946 pôde ser medido até em megatons: pouco depois da estreia do filme, a bomba que os americanos explodiram no atol de Bikini, no Pacífico, na primeira experiência nuclear em tempo de paz, foi batizada de Gilda, pela equipe que a construiu. Trazia, inclusive, um desenho de Rita na carapaça numa publicidade espontânea e sem preço.” A ficção, ao contrário da realidade, nos promove uma experiência outra das coisas, muito mais intensa e viva. Por isso os gregos acreditavam que a ficção era mais importante do que a realidade. A ficção por sua natureza inapreensível nos promove uma descoberta com o essencial das coisas. A realidade, pelo contrário, é o encontro com a aparência.

"A pele que habito": um filme que merece ser visto


Téo Júnior*
Aracaju

O azul da camisa de Banderas dominando a tela, armas que cumprem sua função elementar: disparar, pessoas presas a cadeiras, muito sexo - como não? - e a discussão sobre os limites e a ambição de médicos que se pretendem revolucionários, ainda que atropelando qualquer espécie de ética. Até o mais incauto indivíduo, sem dificuldade, identificaria o criador desse enredo: Chama-se Pedro Almodóvar e o filme em questão é "A Pele que Habito" (La Piel que Habito, Espanha, 2011, R$ 18 o ingresso).

Resumindo: o filme que dura 2 horas possui o magnetismo e o vigor que faltaram ao último trabalho de Pedro, "Abraços Partidos". Porém, lá estão o suspense e o drama tão comuns no universo almodovariano, sobretudo verificadas em suas obras-primas. Não possuo competência pra fazer crítica de cinema, mas arrisco dar uma opinião enquanto fã do cineasta - o único diretor que acompanho a carreira mais detidamente. Diria que "A Pele que Habito" não seja a joia da coroa da filmografia e Pedro, isto é, não chega a ser uma obra genial, mas é um trabalho interessante.

Antonio Banderas, como sempre, surpreendendo numa atuação que assinala sua experiência e sua maturidade como o grande ator que é. Estranhei Marisa Paredes, quase que não a reconheci. Meu Pai Do Céu, como Marisa está velha! Por um momento, pensei se tratar da atriz Clayde Yáconis, já na casa dos 90. O filme , entretanto, decorridos 125 minutos, pareceu que ainda tinha muito a dizer. Há algumas referências ao Brasil, inclusive um dos personagens diz claramente: "Estava com saudade". Lembro que "saudade" é a única palavra que só existe na língua portuguesa.

É uma obra recomendável.


*Téo é o mais ilustre colaborador desse blog. 

1000 frames de Hitchcock


























Um ambicioso projeto disponível (aqui) distribui ao público interessado 1000 frames de 52 filmes (originais e refilmagens) do mestre do suspense Alfred Hitchcock. É possível acompanhar quadro a quadro as melhores cenas desse vibrante cineasta, que transformou as salas de cinema num palco onde desfilavam um universo de sensações. Escolhi, para ilustrar esse post, a famosa perseguição sofrida pelo personagem de Cary Grant no filme Intriga Internacional, 1959. Estão faltando alguns frames que intensificariam o pânico do personagem, como aquele em que o avião bafeja bem pertinho do cangote do personagem enquanto ele se esquiva pelo milharal. Mesmo assim vale a pena bisbilhotar o site. Outra informação digna de nota é que essa cena foi reproduzida pelo diretor Anthony Minghella  no filme O Paciente Inglês, 1996.

As mariposas e os holofotes

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A imagem que ilustra este post é do personagem Terry Malloy, interpretado pelo ator Marlon Brando no filme Sindicado de Ladrões. Realizado em 1954 ele foi dirigido por Elia Kazan. Por essa interpretação Marlon Brando ganhou o seu primeiro Oscar de melhor ator. Em 1972, quase vinte anos depois, ele foi indicado, e ganhou mais uma vez, também como melhor ator, dessa vez pelo papel de Don Corleone no filme, O Poderoso Chefão, do diretor Francis Ford Coppola. 

Na cerimônia de entrega do prêmio, Marlon Brando protagonizou uma cena digna da sétima arte. Ele fez o que na época, e ainda hoje, pode ser considerado por muitos como uma heresia; recusou a honraria da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e não compareceu para receber o prêmio. Quando seu nome foi anunciado, surgiu no meio da platéia, entre os olhares atônitos de Roger Moore e Liv Ullmann, atores escalados para recepcionar o homenageado, uma representante do ator, sua amiga Sacheen Little Feather, que, entre as vaias e os aplausos dos presentes, improvisou um discurso em defesa dos índios americanos. 


Mais tarde Marlon Brando disse que sua intenção, ao declinar do prêmio, era constranger, “uma indústria que tinha sistematicamente deturpado e denegrido a imagem dos índios durante seis décadas”. Cansado das frivolidades de Hollywood enquanto o mundo ardia em chamas na guerra do Vietnam, e os nativos americanos eram caçados como nos tempos do velho West, Brando relutava em aceitar a ideia de que um terço da humanidade estivesse parado assistindo aquela celebração fútil, enquanto tudo isso estava acontecendo sem o menor constrangimento de ninguém. Ele não poderia ter escolhido melhor vitrine para chamar a atenção do mundo sobre essas causas. A audiência da cerimônia do Oscar, na época, foi estimada em mais de 1 bilhão de pessoas. Hoje ultrapassa os três bi. 

Em sua autobiografia ele escreveu que considerava já algum tempo desadequado premiar artistas pelo seu trabalho. Os Oscar da Academia e o alvoroço que se cria à sua volta elevam segundo Brando, o trabalho do ator a um nível imerecido. “Com a quantidade de problemas graves existentes no mundo, torna-se absurdo que um fato tão inconsequente assuma tais proporções... Conheço pessoas que com seis meses de antecedência começam a pensar como irão vestidas à cerimônia e se tiverem alguma hipótese de serem nomeadas começam a memorizar o discurso de aceitação. E, se ganham, fingem então que as suas palavras são espontâneas, mas a verdade é que foram ensaiadas desde há muitos meses”. 

Definitivamente Marlon Brando não era uma pessoa razoável, hesitante ou comedida com as palavras, como exigem a carneirada. A severidade com a qual ele encarou o seu tempo diz muito desse homem que não tolerava facilmente os holofotes, que alguns insistem em manterem sempre apontados pra si. Ao rejeita o prêmio que muitos cobiçam Brando investia contra as farsas que encobrem o mundo das celebridades e também contra uma sociedade que tem como único desejo na vida sair do anonimato direto para o estrelado.  

A cerimônia do Oscar tem origem, escreveu Marlon Brando, na obsessão de Hollywood em autopromover-se; as pessoas do meio sentem uma verdadeira paixão em prestar tributo uns aos outros... isso tranqüiliza-os acerca do seu valor, especialmente depois de terem crescido no seio de uma cultura onde impera a culpa e uma forte pressão pra cada um se evidenciar. Creio que Marlon Brando foi o último de uma casta de grandes atores que não fazia arte esperando apenas os aplausos públicos.

¡Gracias, España!

CRIADOR E CRIATURA
FOTO DIVULGADA POR AGUSTÍN ALMODÓVAR/EL DESEO
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TÉO JÚNIOR
Pedro e Antonio no lançamento de “A Pele que Habito”. Um reencontro de dois astros 20 anos depois

Quando se fala da Europa, imagino que as pessoas tenham uma certa inclinação em primeiro lugar pela França, depois, talvez, pela Inglaterra?, em seguida, quem sabe, pela Itália? Culturalmente todos esses países deram sua contribuição para a humanidade, todavia somos um povo que vivemos de fazer escolhas. Gosto dessa brincadeira de atribuir notas, de eleger. Admiro o glamour e a sofisticação que sempre inspiraram a França, o poder real inglês, esses casamentos de conto-de-fadas que paralisam o mundo – não vi o de Kate – e aprecio também a beleza extraordinária dos italianos, o que me remete de imediato ao Renascimento e aos quadros estupendos de Caravaggio etc. Mas, apesar de ter respeito por todos esses, o país que mais amo é a Espanha. Admirar é uma coisa. Amar é outra. Não sei o verdadeiro motivo. Não tanto por ela ter nos legado um Picasso, um Galdí, um Lorca, um Dom Quixote, o que já seria louvável - mas pelo cinema de um senhor chamado Pedro Almodóvar Caballero. Fiquei instigado em falar sobre a Espanha, depois que Rogério disse preferir, entre todas, a cultura francesa, destacando-se as mulheres, cultas e lindas. 

Admito, sem um pingo de constrangimento, que meus conhecimentos sobre cinemas são escassos. Evidentemente, sei distinguir um Fellini de um James Cameron, por exemplo (não sou tão estúpido!) mas minha bagagem cinematográfica encerra-se pouco acima da base de uma pirâmide. Mas foi Pedro quem me despertou o interesse por essa extraordinária arte e, atrelado ao estilo “almodovariano”, sua língua, razão pela qual venho estudando sistematicamente o idioma, falsamente identificado com o português, pois as duas línguas têm mais diferenças do que semelhanças. Sou grato ao artista Pedro por me fisgar assim de um modo tão avassalador e tão incrivelmente fascinante. 

Como o conheci? Assistindo a um filme pouco expressivo, mas carregado de tensões. Chama-se Tacones Lejanos, tradução para o português: De Salto Alto (1992). E por que Almodóvar é tão bom? Porque ele é versátil. Não se prende a um estilo único, e paradoxalmente, tem o poder de deixá-los em todos os filmes. É um e ao mesmo tempo, muitos. Não é somente pelo colorido exacerbado, pelas paixões labirínticas e pelo fato de suas criaturas explodirem de desejo que ele é excelente. Há as situações triviais do cotidiano, como uma cena em Volver (2005), onde Raimunda (a melhor personagem que Penélope Cruz ganhou na vida), naturalmente, abaixa a calcinha para fazer xixi. Seu talento criador vai além desses detalhes. Quando quis denunciar, Almodóvar filmou uma Má Educação inesquecível; quando quis fazer um drama familiar, criou uma obra-prima chamada Tudo Sobre Minha Mãe. Quando quis anarquizar, fez um filme neurótico, mas nem por desprezível, Kika. Quando quis falar da sensibilidade humana, dirigiu Fale com Ela, que dispensa apresentações. Nenhum diretor brasileiro – nenhum! – faz concorrência a Pedro. É, certamente, um dos maiores do mundo e um mito para muitos. 

Por fim, quero abordar A Lei do Desejo, de 1987 que, ao lado do arrebatador Carne Trêmula, foi o filme dele que mais me marcou. Lá veremos Antonio Banderas – numa cena curiosa: seu personagem Antonio, sendo penetrado por um diretor de cinema por quem está perdidamente apaixonado, o famoso Pablo Quintero (Eusébio Poncela, feiíssimo, por sinal). Banderas deu uma entrevista, se não me engano em Nova York, dizendo que foi um “homem de sorte”: “Cheguei aos Estados Unidos com 25 filmes no currículo”, sendo A Lei do Desejo um dos últimos antes de ir embora. 1988 foi especialmente extraordinário na carreira de ambos: foi o ano de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, que chegou a concorrer ao Oscar e ecoou o nome de autor e intérprete nos quatro cantos. Banderas fez uma belíssima carreira em Hollywood, depois ainda atuaria em Ata-Me! (1990), em sua terra natal, muito bem avaliado por crítica e público. Almodóvar seguiu falando de sua querida Madri, Banderas tocou a vida na América e o reencontro entre criador e criatura aconteceu agora, duas décadas depois, quando está em cartaz A Pele que Habito. Dois verdadeiros astros. Dois talentos que nós, espectadores, ajudamos a consagrar.  Estou curioso para assistir Almodóvar no cinema, pois a última vez que isso aconteceu foi em 2009, em Aracaju, num filme que julguei substancialmente fraco, Abraços Partidos. 

Almodóvar é sempre muito gratificante, e com certeza um mestre em jogar nos olhos dos seus fãs doidas aventuras, muitas reviravoltas, muito suspense, muitas surpresas. Seu cinema é superlativo. 

Gostaria que Rogério visse A Pele Que Habito e escrevesse sobre ele. Também pediria aos leitores do blog que vejam o filme, e comentassem este que será o 18º. longa de Pedro, que, no começo de sua carreira, em 1980, dados os seus enredos,  envergonhava uma Espanha ainda puritana e moralista, e hoje, enche o país de orgulho. “Ele é a pessoa mais inteligente que já conheci na vida!”, disse certa vez a grande Carmen Maura (atriz maravilhosa, que, aliás, esteve magnífica em A Lei, quebrando a mobília do quarto com um machado, para exorcizar seus demônios, ao som de Ne Me Quitte Pas.) Que bom que essa inteligência pôde ser compartilhada com o mundo.  

Minhas férias estão quase acabando – que pena! – e, da Paulicéia Desvairada, sempre que a ocasião requerer, escreverei minhas crônicas aqui. Se o proprietário deixar. 

Farley Granger (1925-2011)

Farley Granger à esquerda

Morreu no último domingo o ator americano Farley Granger. Astro de dois filmes de Alfred Hitchcock, Granger estrelou em 1948 ao lado de James Stewart o 47º filme de do mestre do suspense, Festim Diabólico. Três anos depois ele atuou em Pacto Sinistro.


Rigoroso horizonte

A literatura no cinema francês

O cinema Francês, principalmente daqueles jovens que pensaram em renovar a linguagem cinematográfica nos vertiginosos anos 60, nutriu sempre uma irresistível atração pela literatura.

Com frequência é possível flagrar nos filmes de cineastas como Truffaut e Godard, cenas em que alguns dos personagens em meio à trivialidade da vida, assumem o papel de leitores incautos.

A indisfarçável paixão dos franceses pelo livro encontrou no escurinho do cinema a simbiose perfeita. Algumas dessas cenas estão na seleção de imagens logo a baixo, deliciem-se à vontade.


Anna Karina em Une Femme est Une Femme - Godard, 1961


Anna Karina em Alphaville - Godard, 1965


Domicílio Conjugal - Truffaut, 1970

La Chinoise - Godard, 1967

MARIA SCHNEIDER (1952-2011)

Maria Schneider e Marlon Brando em O Último Tango em Paris - 1972

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Um amigo escreveu-me surpreso pelo fato de eu não ter postado nenhum comentário sobre a morte da atriz francesa Maria Schneider. Todos cá sabem que esse blog nunca se furtou em prestar as últimas homenagens às personalidades que marcaram o mundo das artes (que me perdoe o Dennis Hopper).

Descrente, abri logo algumas páginas da internet procurando informações que pudessem desmentir o meu funesto mensageiro. Em vão. Infelizmente, para meu espanto, a informação estava correta. Maria Schneider havia morrido no último dia 3, quinta-feira aos 58 anos, em circunstâncias não explicadas pela família, que preferiu a discrição. Tanto melhor.

Assisti a um único filme com ela, o provocante O Último Tango em Paris de 1972, do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. O filme tinha ainda no elenco o recém desencarnado Don Corleone, Marlon Brando, que sobre a película declarou em sua autobiografia “não me perguntem do que se trata esse filme”.


A história é sim um tanto complicada e foi construída de uma forma caótica e desordenada. Prova é que Marlon Brando diz em sua biografia que o diretor pedia aos atores que improvisassem as cenas em cima de um argumento inicial pra lá de vago. “Bertolucci permitiu que os atores moldassem a história. Quis que eu representasse o meu próprio papel e construísse a personagem de Paul como se se tratasse do meu retrato autobiográfico”.

Marlon Brando faz o papel do americano Paul que enviuvará recentemente. Perambulando por Paris a procura de um apartamento para alugar, onde pudesse desaguar suas mágoas, ele encontra por acaso a jovem Jeanne, que ao contrário de Paul iniciará a pouco sua vida conjugal com um excêntrico cineasta.

Não demoram muito eles começam uma anônima relação baseada unicamente no sexo descompromissado. Tal desinteresse tem para Paul um efeito purgativo das dores que o acometem por causa do suicídio da mulher. O caldo entorna quando o caso começa a fugir do propósito inicial.


Proibido no Brasil por quase duas décadas, não porque seu tema envolvesse algum tipo de mensagem política que pudesse ofender os ditadores, mas sim, por uma tórrida cena em que Marlon Brando, então um quarentão, sodomiza a ninfeta Schneider que na época contava com dezenove anos, auxiliado por uma manteiga.

Maria Schneider vez outros filme, nenhum, no entanto, marcou tanto quanto esse.

AS MODERNAS TEORIAS RACIAIS

(fonte: Jornal Daily News)
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Tempos atrás, assisti a uma palestra de um professor universitário, que falava de forma inflamada, sobre a evidente discriminação racial no filme Matrix. A obviedade do fato decorria, segundo o ilustre professor, da composição do elenco, que mais uma vez, segundo ele, seguia uma "hierarquia racial" que desprestigiava a figura dos negros. Enquanto Keanu Reeves (um legítimo representante da raça branca) ocupava o papel principal, a Laurence Fishburne restava o papel de Sancho Pança, o fiel escudeiro do herói que guiará as pessoas na guerra contra os computadores. Será mesmo que os irmãos Larry e Andy Wachowski são grandes racistas e que a escolha de Keanu Reeves para o papel principal definiria por extensão os lugares de brancos e negros na sociedade, eu me peguei questionando. Morfeu, personagem de Fishburne, sabe todos os segredos de Matrix, no entanto, ele não tem a força para destruir o sistema, tem que encontrar alguém que possa fazer isso por ele e por toda a raça humana, assegurava o professor. Baseado nessas ideias o professor argumentava que esse filme era uma grande metáfora da disputa racial que vivemos hoje. Apesar do argumento rasteiro o professor foi calorosamente aplaudido ao final de seu brilhante, genuíno e hipnotizante pensamento, que sinceramente achei um tanto forçado e muito simplista. Reduzir uma discussão tão profunda a razões tão estreitas dão a medida de como anda os ânimos e a disposição de muitos para debater com seriedade, equilíbrio e insenção a delicada e infindável questão em que muitos decidem racializar tudo o que veem pela frente. A prova mais evidente de que o professor se precipitou em seus argumentos, e de como o seu pensamento ao invés de servir de base para discussões serias, patina num lodaçal de preconceitos e juízo pré-moldados, eu tive essa semana quando o jornal americano Daily News, divulgou uma lista com nome de vinte e seis atores e atrizes que deixaram de embolsar muito dinheiro e alguns prêmios importantes como o Oscar, por recusarem protagonizar filmes que depois se tornaram fenômeno de crítica e público. Entre tantos nomes o que mais me chamou a atenção foi o de Will Smith que havia declinado do convite dos irmãos Wachowski para estrelar justamente o filme que o professor havia acusado de racista, por não ter como protagonista um negro. Baseado em seus próprios preconceitos o professor julgou ter achado o alvo perfeito para ilustrar o quanto são necessárias políticas de reparação racial, que tenham como meta evitarem distorções como essas, em que negros não são escolhidos para papéis no cinema, e possam equalizar os espaços entre brancos e negros nas telas. Na ânsia de racializar tudo o que ver pela frente os ativistas do Movimento Negro esquecem que nem todas as escolhas de protagonistas são baseadas em critérios raciais como ele julga, e sim, na livre iniciativa e na adequação do personagem ao perfil do ator. A continuar como estamos até Hamlet será severamente questionado como mais uma prova viva da segregação racial. A alegação é claro será que o ator princial era branco e não negro.
(A lista completa dos artístas e dos respectivos filmes que eles se recusaram a protagonizar estão no site do jornal, aqui).