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Quadra do tempo da Guerra Civil Espanhola

Na noite em que a mataram
Rosita teve muita sorte
das três balas que apanhou
só uma é que foi mortal


Quadra popular do tempo da Guerra Civil de Espanha, citada por Alexandre O´Neil. O estro popular é fecundo em variantes. A poesia anônima vai do lirismo ao profano, passando pelo humorístico, chegando até o sentencioso onde a sabedoria popular alcança máximas filosóficas que fazem empalidecer os melhores doutores em filosofia. Porém chama atenção essa quadra citada por O´Neil. Ela é incomum. Mesmo preservando as características principais do gênero: a simplicidade do tema e do esquema métrico, ela destoa das outras por não rimar. É a única do gênero que vi até hoje. Como todos sabem a literária popular jamais dispensou o recurso da rima, elemento indispensável para preservação e fixação da memória literária em comunidades sem escrita.

Passeio de Carro de Boi na roça do Sr. Almir

Ninguém sabe fazer festa tão bem quando o Sr. Almir. Entusiasta da cultura do Carro de Boi ele promove, vezes sem conta, festivos encontros com amigos, em torno da celebração desse veículo, que muitos achavam superado. Ontem estive, a convite de seu neto Juliano Lima, em mais um dos passeios promovido por esse carreteiro, sanfoneiro e contador de histórias. Lá também estiveram 46 carros de boi e uma centenas de pessoas. Todos gravitando à volta da alegria do Sr. Almir e família.

Nos ajudando a desafiar o futuro

 
Foto: Rogério Soares Brito. Visita a Contendas, agosto de 2015

Para melhor dominar um povo, escravizá-lo mesmo, há que sugar-lhe a memória, e, desse modo, eliminar-lhe a identidade. Chamamos a isso desmemoriação. Suas maiores vítimas, são os jovens. Seduzidos por um discurso fundado em aparências e promessa de juventude eterna, ao preço de ilusões cosméticas pagos a prestação, eles se deslumbram dia a dia com o novo, e viram as costas aos mais velhos. Por conseguinte, enfraquecem a sua identidade e assumem postiças formas de atuação no mundo. Interferir nesse aniquilamento das identidades é dever de todos nós que pressentimos que há valores na nossa comunidade e que eles são imprescindíveis.

Foi pensando nessa reação contra a desmemoriação e na valorização dum patrimônio de saberes que enriquece a nossa identidade, que visitamos a comunidade quilombola de Contendas, na última quarta-feira, com os alunos do colégio Zelinda Carvalho e Nunila Ivo, todos pertencentes ao distrito Caetiteense de Maniaçu. A visita foi uma iniciativa da professora Marili. No comboio estiveram também presentes a vice-diretora Vânia David e o professor João Chaves.

Ouvindo atentamente as vozes do passado, as crianças aprenderam que o sistema de vida que conhecem são distintos daqueles que os precederam. Naquele a franca hospitalidade, os comeres, as crenças, as festas, os costumes, as roupas, os gestos e tudo o mais, alicerçavam um modo de vida, que hoje vai se esfumando nos sentimentos egoístas e individualistas desse admirável mundo novo. Impostos por um sistema demolidor, das memórias do tempo em que a vida tinha valor sentimental, e onde as tradições falavam mais alto do que o poder corrosivo do vil metal, vivemos transformações que não sabemos bem onde vão dar.  

Em tempo, as crianças ainda puderam perceber que é um equívoco negar a importância de nossos velhos. “Haverá sempre lugar” escreveu Edson Carneiro, “para o eterno” explicando que o advento da luz elétrica não aboliu o uso da vela, e nem se tornaram obsoletas as canoas e as jangadas com o surgimento dos transatlânticos. Antes, essas novas invenções da modernidade, trouxeram ao homem novas maneiras de seguir a vida sem, no entanto, superar em definitivo as criações das tradições.


Assim como a vela nos socorre quando todo o aparato moderno de iluminação falha, os velhos são nossas referências na escuridão do mundo tecnológico e ultramoderno. Sem eles nos desorientamos. Sem eles todo um conjunto de manifestações e expressões de natureza intangível, que nos dar norte e nos auxilia a desafiar o futuro, se arruínam, e comprometem a nossa jornada pela vida. 

Foto: Rogério Soares, Contendas, 2015

Foto: Rogério Soares, Seu Geraldo, Líder comunitário de Contendas-Caetité: Bahia

Acudir aos homens

Foto: O poeta Marco Haurélio lendo um cordel na rua como os antigos cordelistas faziam.
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Na generalidade dos textos, que se convencionou chamar de Populares, aparecem histórias notáveis. Essas narrativas carregam consigo, ensinamentos e valores incalculáveis que não podem, de forma alguma, serem ignoradas. Vindo de eras pretéritas, elas apontam ao homem do presente, rotas alternativas, aos compromissos absurdos, que apenas conduzem os seres ao descalabro.

A mula sem cabeça, O lobo e o Cordeiro, A cigarra e a formiga, O Saci Pererê, O pequeno Polegar, As babuchas de Abu Kasem, A história dos dois homens que sonharam, os poemas dos cordelistas, o repente dos repentistas, são entidades e narrativas que atormentam, entretêm e educam as gerações e as comunidades por onde vão passando, orientando a todos em condutas probas e saudáveis ao convívio coletivo.

Dos testemunhos literários dessas narrativas podemos perceber o lado mais oculto e sombrio da natureza humana. Neles podemos também fazer-nos  melhores, para encarar as inevitáveis tormentas, que também fazem parte do pacote de se estar vivo, num mundo cercado de tristes belezas.

Bem percebidos, os ensinamentos colhidos nessas histórias, lendas, fábulas e contos, serão capazes de dotarem às novas gerações de saberes elementares para a sua sobrevivência na comunidade, e para a sobrevivência da comunidade enquanto entidade agregadora, solidária e mantenedora da ordem social.

Mas se ignoradas, da forma que estão sendo no mundo atual, em nada podem ajudar as crianças, os jovens e os adultos que pretendem superar seus temores internos, contornar os seus dramas sociais, ou livrar-se dos vícios e das inconstâncias que nos sacodem de um lado a outro da existência, sem nos dar sossego.

As mensagens ocultas, que nos chegam nas vozes mais sabias do passado, conduzem-nos, mais seguros pelas florestas escuras. Vai daí que não podemos desperdiçar esse guia confiável e experimentado que são as histórias populares. Esta era a conclusão do maior folclorista brasileiro, Câmara Cascudo. É a cultura popular na sua dimensão mais lúdica, a ferramenta mais eficaz na orientação do homem, perdido em terras estranhas.  

Infelizmente, essas histórias, continuam a serem tratadas como matéria decorativa para algum folclore barato, que pais, professores e autoridades políticas vão empregando para melhor desaperceber os que delas poderiam tirar proveito. Não fosse a Literatura Popular, encaradas com a obtusidade habitual dos que veem a cultura popular de forma tão apequenada, dariam a todos grandes lições. 


Um pouco mais órfão

Foto: Rogério Soares
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A certa altura da vida, muitos abandonam-se à sorte, ou vão viver o merecido gozo do descanso, depois de uma jornada enfadonha pela existência. Outros parecem incansáveis e não se dão nunca por satisfeitos, e por isso, estão sempre inquietos, a buscar novos horizontes antes que a vida finde. Há pouco mais de um ano conheci um desses desbravadores, em Rio do Antônio. Mas chega-me hoje a notícia, inevitável, que eu nunca gostaria de ter recebido, de que ele nos deixou, “fora do combinado”. Partiu o mestre Adelbardo Silveira aos 84 anos. Conhecido carinhosamente na região do Sertão Produtivo como Professor Deba. Sua vida foi, toda ela, dedicada à valorização da cultura como bem maior de um povo. Através de militância cultural e empenho pessoal ele criou e redigiu sozinho o jornal “O Arrebol” que durou 5 anos. Produziu e apresentou um programa de rádio que destoava das habituais programações dessas redes de comunicações, tão molestadas de “artistas de plástico”, dando voz aos valores locais e aos cantadores de repente de sua terra. Escreveu livros de memórias, cordéis (sua última paixão literária) e protagonizou lutas políticas em favor da cultura que demonstrava inequivocamente o seu amor às artes. Mesmo abatido, por uma enfermidade e vergando ao tempo, que não perdoa nem os mais entusiastas amantes da vida, o Professor Deba, esteve nos últimos anos, de sua linda vida, em luta encarniçada pela criação de um Centro de Cultura em sua cidade. Malgrado o desinteresse de muitos pela cultura, ele insistia nessa ferramenta de emancipação social. Foi nesse momento que o conheci. Pensava ele que esse Centro seria capaz de estimular a participação popular nas práticas culturais e potencializar a valorização cívica das diversas manifestações artísticas de sua gente, ameaçadas pela “cultura do entretenimento rasteiro”. Quando o vi pela primeira vez não pude acreditar que um homem tão frágil, de fala tão mansa e com tantos anos nos ombros, estivesse tão animado com a possibilidade de transformar os jovens de sua cidade, em agentes culturais, capazes de identificar, estimular e acompanhar talentos para a literatura, pintura, música, teatro e assim aumentar a qualidade do patrimônio de sua cidade e região, tornando os valores locais pilares da comunidade. Mais uma vez seu sonho tornou-se realidade. O seu Centro cultural é hoje um lugar onde as artes vicejam.  Mas creio que isso não lhe bastou. É provável que estivesse embrenhado em mais um projeto. Não fosse a vida tão curta para tamanhas ambições creio que o Professor Deba inspiraria ainda muita gente. Fica aqui o meu agradecimento pelo muito que ele me significou quando estive em sua casa para colher um depoimento sobre as histórias de encantamento que ele sabia, como poucos, narrar. Foi nessa ocasião ainda que ele me conduziu, mesmo fragilizado (como mostra a foto abaixo) à casa de seu amigo e valente repentista, o Senhor Zé do Norte, para vitaminar ainda mais o meu trabalho de recolha de histórias populares, para um livro que será lançado em breve. Uma bela lição de vida nos deixa o Professor Deba. Pena é não contar agora com essa voz na defesa da cultura popular. Ficamos hoje todos um pouco mais órfãos. Saibamos vergar-nos a nobreza desse homem! Obrigado por tudo PROFESSOR.

Foto: Rogério Soares

Ateísmo das coisas vãs



"A MORTE DOS DEUSES

A primeira das quatro biografias reunidas na Vida de Paulo Leminski é dedicada ao poeta negro Cruz e Sousa (1861-1898), filho de escravos adoptado pelo proprietário de seu pai, um mestre-pedreiro, que contra todas as probabilidades aprendeu a ler e a escrever. É no entretanto da análise poética levada a cabo por Leminski, sempre atenta ao detalhe e minuciosa nos aspectos que julgaríamos menos relevantes, que encontro este argumento fortíssimo contra o meu ateísmo. Fala-se, refira-se a título de introdução, na capacidade que a cultura negra teve para resistir a um violento processo de aculturação que, por exemplo, praticamente exterminou a cultura do índio. Estamos no campo da citação da citação:

«No jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda:

— Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos».

Imagine-se, por arrasto, o que seria da poesia com a morte da música. Esta inquestionável ligação da produção artística ao culto do sagrado tem uma enorme força, sendo indesmentível em termos arqueológicos e ressuscitando o velho problema do ovo e da galinha: primeiro os deuses ou a arte? Eu tendo a acreditar que foi a arte que gerou os deuses, mas mesmo nesse domínio reconheço não poder escapar ao pântano da fé.

Produtos da fantasia, por certo, mas vinculados a uma necessidade física, uma necessidade até de sobrevivência, os deuses, enquanto personagens fictícias do reinado metafísico, expressam (a palavra é mesmo esta) um modo de olhar para o mundo, uma perspectiva, um modo de sentir o lugar do homem na vasta geografia natural, expressam um modo de estar com a Natureza que, nas suas múltiplas variantes, se resumiu a tentar dominá-la (monoteísmos) ou simplesmente aceitá-la, venerá-la, procurar com ela um estado de fusão integrador (paganismos).

Daí que o grande desafio do ateísmo não seja negar os deuses, como quem se ocupa de negar o que à partida considera inexistente, mas antes empenhar-se em impedir que o deus único das três grandes religiões se imponha pela força a todo e qualquer culto do sagrado que não se reconheça na arquitectura fascista dos preferidos e dos eleitos. No fundo, trata-se de garantir que o motivo para a dança, para a música, para a poesia se mantenha vivo."

Daqui: Antologia do Esquecimento 

Anexins

Família, filhos, parentes

 1 Quem é caça, puxa a raça.

 2 Filho de peixe, peixinho é.

 3 É de pequenino que se torce o pepino.

 4 Filho enfeitado, xibungo criado.

 5 Filho paparicado, tarado formado.

 6 A quem filhos não têm, sobrinhos lhe vêm.

 7 Quem dorme com criança amanhece cagado.

 8 Casamento e mortalha no céu se talha.

 9 Em briga de marido e mulher não se bota a colher.

10 Com mulher de bigode, nem o diabo pode.

11 Se mulher canta de galo, o marido sai pelo ralo.

12 O marido é sempre o último a saber.

13 Há vícios que acontecem nas melhores famílias.

14 Marido não é parente.

15 Parentes são os dentes.

16 Com mulher de pelo na venta, o diabo não agüenta.

17 Nem os dedos são irmãos.

18 Casa onde não tem pão, todos brigam e ninguém tem razão.



19 Mais vale um bom vizinho do que todos parentes, sozinho.


Anexins colhidos por  OSWALDO ELIAS XIDIEH, publicados aqui

Imprecação

Rogar aos santos a intercessão divina contra os males que afligem o povo, parece ser prática frequente nas comunidades menos favorecidas de todo o Brasil. Sem auxilio terrestre o povo se socorre no único recurso disponível ao seu alcance, Deus e os Santos. Roga-se a tudo. Contra as pragas que assolam a lavoura. Contra os temores noturnos. Contra as doenças. São infindáveis os males que afligem o povo. Um dos mais violentos desses males é com certeza o flagelo da seca. Há uma infinidade de orações pedindo a intercessão dos Santos junto a Deus para cessar a escassez e permitir logo que chova. Encontrei aqui em Caetité uma senhora que me narrou uma reza que era invocada sempre que o flagelo da falta d´água se tornava pesado demais para suportar.

Oração a Santa Maria Madalena.

“Santa Maria Madalena tenha dó dos inocentes, não deixa morrer de fome, não deixa morrer de sede. Chuva por esmola, pão que nos consola, sol que alumeia. Santa Maria rogai por nós.”


Não consegui entender por que a súplica era a Santa Maria Madalena e não a São Pedro, reconhecido padroeiro das águas. Li a Legenda Aurea de Jacopo de Varazze o verbete sobre a Santa M. Madalena. Não encontrei nenhuma relação direta entre ela e o auxílio aos flagelados da seca. Havia porém uma menção ao auxilio de Maria Madalena na gravidez de uma rainha que não podia ter filho. 

Carnaval o sonho de um mundo porvir

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Todos os anos é a mesma coisa. As ruas se enchem de alegria. O silêncio é quebrado por inumeráveis gritos de festas que se espalham por todos os cantos. As cores vibram no ar, na terra, no mar e misturam-se aos corpos que se contorcem, questionando a lógico do que pode um corpo. Multidões invadem todos os sítios. Velhos reumáticos, apoiados em seus mais novos membros, derivam às ruas, acompanhando a corrente que se infiltra como sangue renovado nas artérias das cidades, imprimindo-lhes novos ânimos por todos os cantos. Homens e mulheres andam por todas as partes desejando praticar livremente todos os prazeres. Estão todos mascarados, desmazeladas ou cheios de opulência e anunciam aos berros que é Carnaval, aqui e alhures.

As festas do Carnaval fazem parte de um tempo extraordinário. Muitos povos tiveram o hábito de observar um período do ano em que as normas sociais eram temporariamente suspensas para o gozo das liberdades de costumes, onde as paixões mais inflamadas não encontravam nenhuma oposição ou constrangimento. Durante esse período, os homens punham as leis e a moral, habitualmente rígidas e intransponíveis, sob suspensão. A palavra de ordem era: transgressão.

De todos esses períodos de ruptura das proibições o mais conhecido e que deu origem – provavelmente - ao nosso Carnaval, foi aquele que se relacionava com os festejos romanos das Saturnais, ou Saturnálias, que comemoravam o reinado do antigo deus romano da agricultura, Saturno. Um dos aspectos mais interessante dessa festa, que reconstituía o governo de Saturno, estava na concessão aos escravos, de liberdades para agirem com vitupérios e escarnio contra os seus próprios patrões durante um curto período do mês de dezembro, época dos festejos da colheita e da celebração da divindade.

Segundo a mitologia grega, Saturno era uma divindade romana identificada com o deus grego Cronos. No tempo em que esse deus reinava sobre a Itália os homens, nos fala o mito, viviam libertos dos enfados. Ninguém conhecia a injustiça porque não havia necessidade de bens. A distinção de classes não era conhecida. Todos gozavam de igual liberdade e não tinham sido inventadas ainda as portas, porque o roubo não existia e os homens nada tinham a esconder. O reino de Saturno foi um reino extraordinariamente próspero, por isso essa época ficou conhecida como a Idade de Ouro.

Inspirados nesse mito os romanos realizavam todos os anos uma celebração à memória do deus e reviviam provisoriamente a época do reino de Saturno. Comer e beber lautamente, participar de alegres celebrações e buscar imoderadamente os prazeres eram, segundo James Frazer, as características que parecem ter marcado particularmente aqueles carnavais da antiguidade, que se prolongaram ao nosso tempo através da diluição dos velhos ritos romanos nos festejos do calendário Cristão, associados a entrada da Quaresma, quando nos despedimos dos excessos da carne (de onde veio a moderna designação de “Carnaval”), para ingressar no período de privações. Ainda que sejam associadas inteiramente aos ritos pagãos o mito não deixa de possuir um sentido cristão que está diretamente ligado à sua gênese, como pode ser apurado por sua relação como o período do ano litúrgico que antecede a Páscoa.

As semelhanças entre as Saturnais romanas e o Carnaval já foram observadas várias vezes. Herdeiros que somos de muitas das tradições latinas, esses festejos antigos encontraram morada segura entre a nossa gente, que alegremente celebram o rito que permite uma restauração do reinado daquele alegre monarca que presidia às orgias numa terra de abundância, que não conhecia nenhum rumor de guerra ou de discórdia entre os homens.

Para alguns esta é a data do ano mais esperada. As pessoas planejam com muita antecedência esse momento. Os pobres gastam o que não têm em luxuriantes adornos, cheios de brilho e plumas só para satisfazerem, por um breve instante de suas vidas, o desejo de serem o que a realidade e outras farsas, interditaram. Nesses dias os sonhos ganham todas as formas e o ordinário da vida passa a ser a exceção.

O povo não apenas se permite sonhar com um tempo de fartura, mas ousa concretizar esse sonho imprimindo tudo de si. Alguns veem nessa ação uma irresponsabilidade dos que já têm tão pouco. Gastar os últimos recursos, numa fantasia, enquanto o barraco ameaça mais uma vez despencar morro a baixo? Inquietam-se os conservadores. Mas por trás dessa sublevação existe uma reivindicação inconsciente das camadas populares, que ousam afrontar os estratos sociais e bradam contra as imposturas dos mandatário, que impõe ao povo, inacreditáveis limitações. “Isso é um protesto do sonho contra a injustiça” disse Ariano Suassuna em uma de suas aulas espetáculo, falando a propósito das espetaculares fantasias criadas pelo povo durante o Carnaval.

Nesses dias licenciosos o povo tem a chance de sonhar com uma realidade menos dura.  Mas até mesmo esse dia, de libertação das privações, encontra-se hoje inteiramente ameaçado pela intromissão dos aparelhos da Indústria Cultural nas manifestações genuínas do povo. Este aparelhamento retira o protagonismo das gentes simples das festas e tenta substituí-lo por organizações mafiosas que represam com cinismo as espontâneas manifestações de rebeldia popular com potencial poder de amotinação.


O Carnaval guarda em germe a esperança humana de um mundo porvir onde a vida será uma festa. 


Os rapazes e as maçãs

Os rapazes e as maçãs

Um dia, um lavrador ia montado no seu burro, com uma cesta de maçãs à sua frente, e ao ver um grupo de rapazes de várias idades a brincar num terreiro, resolveu meter-se com eles e lançar-lhes um desafio:

– Ó rapazes, vou pôr esta cesta de maçãs lá mais para diante. Por isso depois, toca a correr! O primeiro que lá chegar fica com elas.

Eles então deram as mãos uns aos outros, de maneira que os mais fortes ajudaram os mais fracos a correr também, chegando todos ao mesmo tempo até à cesta das maçãs. E no final, sentaram-se todos a comê-las. O lavrador, muito admirado com a atitude dos rapazes, perguntou-lhes:

– Por que razão fizestes isso, quando um de vós podia ter ganho as maçãs todas?

E eles responderam:

– Se o não fizéssemos, um de nós ficava contente e os outros tristes. Assim, ficámos todos bem. Nenhum ficou triste.


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Conto popular

À volta da fogueira

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Muito antes da luz elétrica, do livro, das escolas, da escrita, era no escuro da noite, entre o clarão miúdo da lamparina, em consórcio com a lua, que mal tangia as sombras, que pais reuniam os seus filhos e amigos da comunidade para contar histórias. Na comunhão do círculo brotavam histórias que descreviam e exemplificavam conceitos morais.

Entre as ocupações domésticas e o fiar de tecidos, as mães também empregavam as histórias nas funções de entreter e instruir os filhos. Fazendo isso, elas talvez não imaginassem, mas também estavam transmitindo valores, induzindo comportamento, alimentando a fantasia das crianças na superação de seus limites.

São através das histórias que os homens organizam as suas sociedades. São as narrativas que orientam a compreensão do homem sobre si mesmo e sobre os mistérios do mundo. Diferentes experiências, que contrastavam com as suas próprias, ajudaram o homem na construção do mundo. Através de diferentes papeis, vive-se o outro, e testemunhamos as alegrias e os dessabores do mundo.

Usando uma linguagem simbólica os contos, lendas, mitos, que pais e mães nos contaram, promovem uma descoberta com o essencial das coisas. A realidade, pelo contrário, é o encontro com a aparência. “Por trás de todas as histórias de casas assombradas” escreve Marina Colasanti em seu fabuloso livro Fragatas para Terras Distantes:

 “há uma única e grande história, a do pequeno ser humano enfrentando corajosamente sua finitude.... onde as palavras nos contam que a casa está vazia porque ninguém se atreve a enfrentar o fantasma, o reverso das palavras nos diz que quem não enfrenta seus medos não é dono de si, não se habita. E quando as palavras nos relatam como a personagem decide assumir a casa, enfrentar o fantasma e derrota-lo ao fim da história, lemos por trás delas que a coragem é possível, que nossa vida nos pertence na medida em que enfrentamos a morte, até o fim daquela breve história que é a nossa”. (COLASANTI, 2004, p. 20).

A arte de saber ouvir, já nos ensinavam os antigos, é a antecâmara do conhecimento.

No entanto, mesmo tendo tantos valores, as histórias hoje são, ou totalmente negligenciadas como fontes de instrução, ou são mutiladas para atenderem a um determinado e preguiçoso modo de interpretação do mundo onde as rugosidades da vida não cabem.

Num tempo de desintegração das identidades, a cultura de resistência da memória, assume, cada vez mais, um papel importante na construção e afirmação das identidades coletivas, que sofrem, como consequências das ações da suinocultura televisiva, do entretenimento da indústria cultura e das políticas que se identificam com uma certa esquerda culpada, um desbotamento de suas inequívocas potencialidade de ancoragem das estruturas de identidade, que se recusam o processo de homogeneização e pasteurização impostas pela cultura de massa.  


Elucidário

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No último capítulo do clássico livro CANTADORES o folclorista cearense Leonardo Mota nos apresenta os modos de pronunciar próprios dos cantadores de sua época.

Sem lhes adulterar o registro, reproduzindo-o tal qual o encontrou, o trabalho de Leonardo sugere com uma recolha dessas expressões, a rica prosódia dos menestréis que corriam mundo cantando aventuras de heróis e feitos maravilhosos.

Com o iluminado título de ELUCIDÁRIO o folclorista elenca uma série de expressões usadas pelos cantadores que se constitui um verdadeiro dicionário "cacoépico".

Alguém aí é capaz de me dizer o que significa:


"Aguentar tempo sem se amoitar".

Os sinos de minha infância

Foto: Vista noturna da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Malta, Paraíba.

Não vai longe o tempo em que os sinos das igrejas eram um valioso instrumento de comunicação. Esses monstrengos que habitam sozinhos as torres das Igrejas Católicas davam à população toda espécies de notícia. Hoje reduzido as suas funções, esses valiosos instrumentos comunitários, servem apenas, quando muito, a marcação das horas e anúncio das missas dominicais. Contudo, a memória do seu uso nos tempos de antanho estão associadas aos mais curiosos e saborosos ritos e usos coletivos. Pelas características do toque, sabia-se quando um membro da comunidade falecia. As badaladas ritmadas informavam se o morto era homem, mulher ou anjinho. Em um estudo que li sobre a etnografia dos sinos o autor atesta que as badaladas informava ainda às comunidade do passado, sobre toda sorte de perigo que rondava os vilarejos dispersos por um vasto território. Os sinos eram como espécies de protetores. Eventuais perigo, como de fogo, invasão, saqueamento, e outros males que se aproximavam ameaçadoramente eram, nos tempos remotos do mundo feudal, prenunciados pelas rebatidas dos sinos. Isso não existe mais. Muitos sinos foram substituídos nas Igrejas por aparelhos sonoros que imitam as badalados de forma artificial. O fogo, os saques e os invasores resolve-se com outros recursos que chegam bem antes dos sinos saberem. Os sons genuínos que ecoavam nos campanários reluzentes são hoje longínquas memórias perdidas no labirinto de nossas lembranças afetivas de um tempo que o tempo se encarregou de mudar. Uma de minhas mais antigas recordações de infância está ligada aos sons dos sinos da Igreja Matriz de Nossas Senhora da Conceição na cidade de Malta na Paraíba. Quando miúdo me lembro de ouvir os sons desses canários de aço, convidando as pessoas da cidade a preservarem sua fé, madrugando na primeira missa do dia. A partir das cinco horas da manhã os sinos iniciavam suas implacáveis súplicas pela visita dos fiéis. Eles só cessavam de badalar às seis horas, quando os bancos da igreja já estavam ocupados por todos que importavam com os ritos católicos, diga-se aí, toda a comunidade. Não faltava ninguém. Inclusive as vovozinhas e seus netinhos relutantes, que não percebia por que, havia sido arrancado mais uma vez de casa tão cedo, para ouvir a missa, quando se sabia que missa tinha todos os dias.   

A sondagem da alma do povo

Foto: Jan.
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O estudo da cultura popular é muito vasto. Abarca aspectos religiosos, culinários, orais, linguísticos, históricos de povos e comunidades por muitos lugares. Diante dessa imensidão o pesquisador iniciante se questiona: Quais os melhores critérios que eu devo me valer para penetrar na alma do povo e colher as suas histórias, suas tradições e seus valores com o maior respeito às suas tradições? Uma boa leitura para entendimento do caráter singular do pesquisador da cultura popular está em Dinâmica do Folclore

Neste livro o folclorista, etnólogo e historiador Edison Carneiro (1912-1972) eminente pesquisador da cultura popular, reuni alguns aspectos que mais angustiam o pesquisador iniciante na tarefa de sondagem da alma popular. São reunidas algumas lições sobre os melhores comportamento daqueles que anseia percorrer os rincões dos brasis, pesquisando o rico manancial criado pelo povo, respeitando as sabedorias e não adulterando as suas sagradas tradições. Uma dessas lições diz respeito ao comportamento do pesquisador na abordagem dos depoimentos que revelam alguns aspectos das tradições, crenças e fatos do povo.   

No capitulo lições de pesquisa, Carneiro diz que, "nunca se deve subestimar a inteligência do povo". O pesquisador da cultura popular, segundo ele, não se deve tomar pela ideia de que já sebe tudo, nem de que vai apenas confirmar o que sabe. "O pesquisador deverá propor a questão como se nada soubesse do que está perguntando e deixar que o informante diga com franqueza o que sabe. Perguntar, por exemplo, ´Se você falar no nome do Sujo ao meio-dia, que acontece? e não ´O diabo lhe aparece se você falar no nome dele ao meio-dia?".

Os traquejos da pesquisa forjarão um pesquisador respeitoso da alma popular. Quanto a questão de dar algo em troca, em retribuição pela gentileza do povo, isso é muito discutível. O antigo manual de Paul Sebillot recomendava que, depois de reunidos os camponeses, se desse tabaco e aguardente a eles.

Edison Carneiro abordando essa questão sugere um outro caminho para convencer o povo a falar sobre suas práticas cotidianos. Ele diz que "é um erro tentar conseguir a confiança do grupo através de donativos em dinheiro ou de promessas que excitem a ambição geral. Muito útil será à pesquisa se, através da sua atitude respeitosa e cordial, o observador chegar a ser considerado "pessoa de casa", a quem todos, VOLUNTARIAMENTE, prestem informações ou façam confidências.".

Edson Carneiro fala ainda de algo muito interessante. “É preciso”, diz o folclorista, “para o bom andamento da pesquisa, um convívio cotidiano com a realidade cultural da qual se espera extrair informações”. Para Carneiro não é em um dia ou dois que o pesquisador coletará as informações que pertinentes as elucidações de suas dúvidas.  

Um exemplo de sucesso nessa tarefa pode ser visto nos trabalho de Frei Chico. Francisco Van Der Poel, popularmente conhecido como frei Chico, holandês, de 75 anos, sendo 46 vividos no Brasil e dez no Vale do Jequitinhonha peregrinou pelas regiões do triângulo mineiro e nordeste do Brasil carregando a fé e a esperança para milhares de almas, ao mesmo tempo em que pesquisava e anotava as velhas tradições do povo. Em 2013, 40 anos após o início de sua jornada pelos brasis, frei Chico lançou o “Dicionário da Religiosidade Popular”, um catatau que reúne em 1.150 páginas, 8.570 verbetes e 6.433 notas de rodapé as tradições do povo narradas pelo povo.

O poeta e folclorista Marco Haurélio, um dos maiores estudiosos da cultura popular na atualidade, chama a atenção para o fato de que para melhor compreensão das contribuição de Sebillot: “É preciso... situar Paul Sebillot em seu tempo.... Boa parte dos estudiosos, incluindo Wilhelm e Jakob Grimm, não tinha uma ligação direta com o que mais tarde Thoms definiu como "folk-lore". Acreditava no iminente desaparecimento das tradições populares (antiguidades) e na necessidade de seu registro.”

Apanhadas essas lições, os interessados em seguir a viagem de descoberta dos cenários meio reais, meio fantásticos, que o povo conserva na memória, terão dado um grande passo na tarefa de penetração dos mistérios populares.

Cantos de trabalho o aboio nordestino



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As cantigas de trabalhos são criações artísticas autênticas do povo, que se valem delas para, entre outras coisas, estimular os ânimos na batalha pela sobrevivência diária. Oneyda Alvarenga, em seu livro Música Popular Brasileira, afirma que, no Brasil, existe uma variedade imensa de cantos de trabalho.

A maioria dessas cantigas estão relacionadas às atividades rurais. O adjutório acelerava as tarefas da colheita do algodão, do plantio do milho, do arroz, do feijão. Elas são ainda importantes na colheita e trato da mandioca, no preparo da farinha ou nos trabalhos de produção da cachaça ou da rapadura, nos engenhos e alambiques que ainda resistem à cultura industrial desses produtos.

Um das forma mais conhecidas dessas cantigas de trabalho, é o aboio. Popularíssima no Nordeste Brasileiro essa forma de canto, ainda está presente no dia a dia de muitos trabalhadores sertanejos que ainda lidam com o gado nas velhas formas tradicionais.

Oneyda Alvarenga afirma que, “os aboios constituem um dos mais importantes grupos dos nossos cantos de trabalho rurais”.

Mas o que são aboios? Mário de Andrade, autor modernista que pesquisou muito das tradições populares, definiu em, As melodias do Boi, o canto de aboio, como: “um canto melancólico com que os sertanejos do Nordeste ajudam a marcha das boiadas. É antes uma vocalização oscilante entre as vogais A e Ô. A expressão de impulso final “Oh dá!” também muda para “Êh, boi!”. (ANDRADE, 1987, p. 54).

A vocalização das vogais em altissonante alarido constitui a forma pura de aboio. Porém, a forma tradicional divide lugar com histórias versadas, que contam feitos de vaqueiros e histórias de bois valentes, que botavam à prova a coragem e a destreza dos vaqueiros nos sertões carrascosos.

Em 1998 o Globo Rural produziu um documentário que conta a história do aboio através do depoimento de velhos vaqueiros e acadêmicos.

Meteorologia popular



Muito antes do tempo enlouquecer, e dos sinais andarem trocados, e já não mais se saber quais os dias chuvosos, ou quais os de seca, a sabedoria popular, orientada pelos saberes antigos, antevia, se o ano seria bom para plantação, ou se frustrado por algum revés, o homem do campo teria que investir redobrados esforços para vencer as dificuldades pela sobrevivência.

Inda ontem estes sábios, dados a vaticínios de seca e inverno, consultavam os céus, os astros, os animais e os cantos dos passarinhos para predizerem o futuro meteorológico da sua comunidade. Os sinais estavam por toda parte.

Câmara Cascudo, que foi quem melhor observou os costumes do povo, sobre as predicas meteorológicas, escreveu: "Existem no Brasil, e universalmente, fórmulas da previsão tradicional para o conhecimento do futuro inverno. Deduz o povo o prognóstico de vegetais, animais, aspectos atmosféricos, nuvens, estrelas, constelações, incidência pluvial em determinados dias...”.

A lua apareceu embarcada num halo avermelhado e grande por trás da silhueta de um carnaubal? isso indicia uma boa quadra invernosa. Se a aura que envolve a lua for pequena as chuvas serão poucas. Sobre a cumeeira da casa pousou uma borboleta e por lá esqueceu-se por três dias? É bom preparar a terra, tudo indica que o céu apronta água pra derramar sobre os homens.

Além dos astros celestes e dos insetos, a percepção de outros seres pressagia ao homem do campo os rumos do tempo: “Sapo cantando ao anoitecer, bom tempo vai fazer”. Ditos e expressões populares exprimem um sem-número de alegorias meteorológicas que correm pela boca do povo exemplificando em analogias simples o comportamento do tempo. “Cabras tossindo e espirrando, o tempo está mudando.” Ou ainda "Formiga carregando ovos barranco acima, é chuva que se aproxima.”, “Céu pedrento muita chuva e muito vento”.

Verdadeiros prodígios, os homens do campo conhecem a linguagem, não apenas dos animais e dos astros, são versados ainda na linguagem dos ventos, que de acordo com sua direção podem lhes indicam os caminhos, a sorte ou os maus destinos.  “Vento norte, três dias forte”, ou então “Vento de Lomba, frio na tromba”. Se ele muda de direção repentina, talvez indique algum desgosto: “Vento de leste não traz nada que preste”. Os ventos ainda exemplificam, através de sua inconstância, alguma infidelidade: “Amigos de ocasião são como o bom tempo, mudam com o vento”. “O vento tanto junta a palha como a espalha”, “Vento de todo o lado é mandado p’lo diabo”.

Em Tradições, ciência do povo, Cascudo observa que esses ditos e expressões meteorológicas do povo são “sem idade”, eles, segundo o mestre potiguar, são: “resultados de longos e obscuros processos de raciocínio, critérios-soluções, herdadas, indeformáveis, e reproduzidas íntegras, ante o automóvel e o avião”.

Destacamos abaixo alguns ditos e seus países de origem, segundo Sartori em seu livro: Clima e percepção.

"Asas abertas no galinheiro, sinal de aguaceiro." (Índia);
"Andorinhas a mil braças, céu azul sem jaça; andorinha rente ao chão, muita chuva com trovão." (China; Japão; Coreia; Rússia; Turquia; França e Suíça);
"Mosquitos voando em bando é sinal de chuva." (China)
"Sapo cantando ao anoitecer, bom tempo vai fazer." (Espanha)
"Gato se lambendo é sinal de chuva." (Reino Unido, Holanda e Bélgica)
"Céu avermelhado de manhã, chuva de tarde; tarde avermelhada, tempo bom." (China)
"Quando o Sol está em casa, a chuva não tarda." (Índios Zuni, do Novo México, EUA)
"Um círculo grande em volta da Lua é sinal de chuva iminente; um círculo pequeno é sinal de que a chuva ainda demora." (Índia)


A sabedoria popular é infinita. Tudo isso, e mais alguma coisa, se pode aprender com o povo, que guarda em sua simplicidade, os códigos de acesso aos segredos da natureza e outras maravilhas.   

Mexerico, fuxico e outras imposturas



Recolhidas através da observação do povo as coisas à sua volta, as quadras populares exalam sentenças judiciosas sobre o comportamento probo de alguns e questionáveis de outros. Consciencioso, o povo não manda recado. Exalta quem deve ser exaltado. Rir de quem deve-se rir e troça quem deve ser troçado. Alguns dos melhores exemplos dessa atitude poético-filosófica, confunde-se com as melhores doutrinas dos filósofos moralistas. Entenda-se moralista aqui não no sentido dos defensores de uma moral conservadora, mas sim como aqueles que criticam os costumes e são atentos observadores da mentalidade e do espírito social. Corrompendo e adulterando o verniz social, que recobre as faces verdadeiras da sociedade, a poesia popular infringe o decoro que finge não ver o que todos veem. Dão por isso testemunho de um mundo verdadeiramente hipócrita, mesquinho e falso.  

Meu mano, meu camarada,
Tudo no mundo é assim:
Comigo ocê fala de outros,
C´outros`ocê fala de mim.

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Quem tem aza não avôa,
Quem não tem quer avoar;
Quem tem razão não se queixa,
Quem não tem quer se queixar.

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Alfaiate quer tesoura
Sapateiro quer tripeça
Moça bonita quer outro
Moça velha quer conversa

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Há duas cousas no mundo
Que dão confusão na gente
É padre ir para os infernos
E doutor ficar doente

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O padre quando namora
Sempre põe a mão na coroa,
Namora, padre, namora,
Que o senhor tudo perdoa.



Quantos poemas, considerados belos e exemplares, foram produzidas longe de um contexto como este que descreve com tanta penetração as imposturas sociais?