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Mais um dos meus fotógrafos prediletos ou como apanhar lições observando.

Foto: Gordon Parks, At Segregated Drinking Fountain, Mobile, Alabama, 1956.

Entre outros tantos aliados, a luta contra a segregação racial nos EUA, contou, com o contributo estimável da fotografia. Um dos nomes incontornáveis nessa trincheira, foi o do fotógrafo Gordon Parks. Morto em 2006, ele deixou uma série de registros fotográficos da vida cotidiana de negros americanos, que ajudaram os Estados Unidos e o mundo, a reconhecer que: há vilanias humanas, que desmentem nossas mais nobres pretensões de superioridade sobre as bestas. 

Passados tantos anos, suas fotos continuam a nos inquietar. Ao observá-las, rendemo-nos ao fato de que, as fotos não são, como disse, Susan Sontag, impessoais. Elas indiciam “não apenas um registro, mas uma avaliação do mundo”. As fotos de Gordon Parks captam o que Alfred Stieglitz, o primeiro grande fotógrafo americano, chamou de momento apropriado. O momento apropriado, escreveu Susan Sontag, “é aquele em que se consegue ver coisas (sobretudo aquilo que todos já viram) de um modo novo. E o que vemos ao mirar as fotos de Parks é a segregação racial em quadros ultrarrealistas.  

A Indiferença

Foto: John Filo, 4 de maio de 1970. Jeffrey Miller, 20 anos, estudante, morto pela Guarda Nacional Americana, durante um protesto contra a decisão de Nixon de enviar tropas para o Camboja.

As fotografias têm muitas qualidades. Elas podem ser belas, ternas e guardar a memória de momentos inesquecíveis. Serão sempre felizes os álbuns de famílias, onde as pessoas parecem viver em eternos festins. Noutro extremo, as fotografias, também estão dispostas a recordar à humanidade a brutalidade e a selvageria que esse mesmo homo ludens é capaz de perpetrar, entre um banquete e outro com a família.  

Em Diante da dor dos outros, Susan Sontag argumenta baseando em vastas evidências, que vai desde “Os Desastres da Guerra”, de Goya, até aos documentos fotográficos da Guerra Civil americana, dos linchamentos de negros nos estados americanos do Sul, das Duas Grandes Guerras, da Guerra Civil espanhola, dos campos de extermínio nazi e das imagens contemporâneas da Bósnia, Serra Leoa, Ruanda, Israel e Palestina, bem como do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, que as imagens também podem, provocar dissenções, incitar à violência ou criar indiferença ante um público acrítico.

“As imagens, qualquer que seja a sua natureza, são elementos importantíssimos para o acompanhamento do processo histórico, assim como para a construção do discurso histórico. No caso particular das guerras havidas, pinturas, fotografias, imagens televisivas ou fitas resultantes de vídeos amadores, têm sido contributos relevantes para o seu conhecimento, análise, interpretação e reflexão. Mas em torno destas mesmas imagens, sobretudo as televisivas, algumas questões se podem levantar, nomeadamente no que concerne à banalização do sofrimento. À banalização do sofrimento dos outros, que poderá rapidamente transformar-se na banalização do nosso próprio sofrimento.”

Com os médias excretando tanto horror, as fotos das barbáries se potencializaram. Chegam-nos a todo instante imagens e mais imagens de todo o mundo. Sabemos o que acontece todos os dias em todos os lugares. No meio do jantar assistimos apáticos a execução brutal de seres humanos em qualquer bar de alguma periferia no país. E antes que a comida alcance o estômago, novas imagens de horror, rapidamente substituem as chacinas pelas execuções de prisioneiros de guerra. Os modos de aniquilamento são tão diversos quando as guloseimas dispostas na mesa do jantar.

A falta de pudor dos media e, em especial, da televisão, recupera tempos ominosos, que julgávamos ultrapassados. E na busca pela audiência eles não nos poupam da visão de horror e buscam os ângulos mais nauseantes das piores carnificinas.


Tratar a dor alheia assim com tanta indiferença, leva-nos a banalização da mal e como consequência anestesia a nossa sensibilidade às necessidades do outro. 

O gigante de pés de barro

Foto: William Gedney
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Por alguma razão, que a sociologia pode melhor explicar do que eu, a fotografia Americana do século XX tinha um profundo interesse em dar a ver a vida de jovens e crianças. Quase sempre esses registros, mostram uma América longe dos ideários propagandísticos de terra da oportunidade. São ao contrário flagrante do gigante de pés de barro.

Ontem como hoje, uma Igreja duas crenças.

Foto: Rogério Soares - Tríptico 

Há aqui qualquer coisa que pensar.

Aurel Bauh. As três Graças, 1937. 

Leonard Nimoy. The Full Body Project.
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Quando olho essas fotografias, não estou apenas pensando no contraste, nos volumes, nas mamas apontando para direções contrarias, nas discrepantes proporções dos corpos, na pele de umas e outras, enfim, nas formas densas e lineares que distinguem os corpos. Quanto olho essas fotografias, penso num certo ideário de beleza estampado na primeira que, estando ultrapassado, não deixa de me causar espanto e admiração.

Falo ultrapassado porque assistimos a um tempo do enobrecimento de tudo. Um tempo em que alguns, ungido de modéstia, relativizam as coisas, pensando com isso estar corrigindo as más consciências do mundo, que tendem a polariza as singularidades. Não deixa de ser estranho que tudo tenhamos que subordinar às causas. Requer nossa época um certo decoro ao expressar nossos gostos. Corre-se, sem querer, o risco de ofender quem temos em conta de simpático, pelo simples fato de crer no ideário grego das Graças.

Na natureza



Fotos: Rogério Soares / Caetité 30 de Abril 2015.

Cacos



A celebração do movimento




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Algo que me impressiona muito nas fotografias de Jacques Henri Lartigue é o fato de seus personagens estarem sempre em movimento. Eles não conhecem o repouso. Lartigue é um fotografo dos corpos em constante deslocamento; seus flagrantes são de saltos, nados, corridas, gestos contorcidos. Todos os seus personagens parecem estar sempre tentando infringir, malgrado sua natureza, as leis da física que os prendem ao chão. Qual a razão dessa inquietação? 

O olhar de Henri Cartier-Bresson

Foto: Henri Cartier-Bresson, Amarante, Portugal, 1955.
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Se não fosse a sensibilidade do artista como uma imagem como esta imergiria do nada para interferir no nosso olhar cotidiano. Henri Cartier-Bresson elevou a fotografia à condição, incontornável, de arte. Pena que o fetichismo mercadológico do nosso tempo a condicionou ao consumo de bens perecíveis.

Passeio


Foto: Rogério Soares Brito, Pinacoteca, 2013

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Foto: Rogério Soares, Pinacoteca, 2013

Visita à galeria





Foto: Rogério Soares Brito, Pinacoteca de São Paulo, 2013

Fernando Pessoa

Foto: Clarence White, Mãe e filho.
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Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


Alberto Caeiro, Poema XXVI

Você não morre, José

Foto: Maureen Bisilliat
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(...)
Mas você não morre,
você é duro, José!
(...)

O código

Foto: Gordon Parks, Alunos muçulmanos, Chicago, Illinois, 1963.
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As privações não aparecem na fotografia; as hierarquias não aparecem nas fotografias; as pessoas não aparecem numa fotografia, apenas vemos os corpos sujeitos a um código; mas as sugestões virtuais desses corpos podem bem ser induzidas pelo fotografo a instigar a imaginação, a visão das privações, hierarquias e outros tantos males. Numa época em que as imagens se tornaram quase que onipresentes me interessa a fotografia menos como documento histórico, álbum de família e registro narcisistas. Interessa-me mais a fotografia enquanto enigma.

Ronald Reis

Ronald Reis - Greenwich Village, New York City, 1963

A fantasia da beleza

Foto: Alfred Stieglitz
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A mulher que oferta, ao espectador anônimo, o seio em branco e preto, traz também na face um olhar de indisfarçável enfado. A oferenda, portanto parece resignada. Mas não é a antítese que me atrai. E sim sua despreocupação em transmitir uma visão idealizada, glamorizada da figura feminina. Não há uma tentativa aqui de suprimir as imperfeições, tão desejadas no mundo de hoje. Elas, ao contrário, são convocadas e expostas sem pudor. O cabelo desgrenhado, o olhar macilento, que prenuncia antes o sofrimento represado do que a chama vicejante da juventude, os seios murchos, a roupa indefinida, mostram uma despreocupação em maquilar a mulher e redimi-la das inevitáveis agressões do tempo. O ideário aqui é outro. E, no entanto, essa imagem, que não nega os sucos do tempo, nem se preocupa em artificializar a beleza, ainda assim é bela em sua sujidade realista. O caráter da beleza talvez, como sugere a imagem, não esteja numa atitude postiça, mas sim em certa sinceridade realista que não nega da vida as suas impurezas e imperfeições. 

Três olhares sobre o homem, duas conclusões

Foto: Dorothea Lange, Resettled farm child, New Mexico, 1935.
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Na década de 30, a serviço da Farm Security Administration, Dorothea Lange percorreu vinte e dois estados do Sul e Oeste dos Estados Unidos, registrando as péssimas condições de milhares de pobres americanos vitimas da Grande Depressão de 29. As imagens capturadas pelas lentes de Lange atestam, em grau inconteste, a degradante condição de milhares de camponeses estrangulados pela precariedade social gerada pela queda da Bolsa de Nova Iorque. Um complemento literário a esse registro está em As Vinhas da Ira (1939), do escritor John Steinbeck. O livro acompanha a saga da família Joad. Tangidos de sua terra, pela chegado do progresso, lançados à própria sorte, nas estradas americanas em busca de melhores condições de sobrevivência, essa família sintetizara milhares de outras esfarrapadas que também perderam tudo durante a crise de 29. Tanto Lange, quanto em Steinbeck, lançam um olhar solidário às vitimas da Grande Depressão. Seguindo a trilha aberto pela fotógrafa e pelo literário, o cineasta dinamarquês, Lars van Trier filmou Dogville (2003). O filme tem como cenário uma vila americana no período mais duro da crise. Ao contrário dos dois artistas anteriores, Lars van Trier lança um olhar mais fundo na realidade humana, e desconstrói, as imagens de vitimas dos desgraçados da depressão que em seu filme diante da possibilidade de aquisição de algum poder tornam-se, sem reservas nenhuma de humanidade, odiosos algozes, capazes das piores barbaridades, como as de escravizarem (física e sexualmente) uma jovem refugiada em sua vila. Enfim, um olhar distópico da natureza humana que mesmo em face da mais triste realidade, e vitimas das piores condições, ainda assim são capazes de baixar ainda mais a sua condição de civilizado e desmentir todas as boas impressões que a arte tenta constituir desse indivíduo.