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Meu pai

Minha mãe me ligou hoje para dizer que o meu pai havia morrido. Eu sabia que ele estava gravemente doente. Nos últimos tempos ele que sempre esteve ausente, ligou para o meu irmão, que é mais remediado do que eu, para lhe pedir dinheiro para um tratamento de câncer. Isso tem 4 meses. Até onde soube ele estava se tratando. Mas hoje, a sua prima, que cuidava dele, o encontrou morto. Nunca tive grande intimidade com ele. Éramos distantes. Não porque havíamos brigado; simplesmente porque nunca chegamos a ser de verdade uma família. Ele era um homem sem brios. Um tipo todo mal talhado para a vida em família. Os seus únicos prazeres eram a bebida e o jogo. Coisas que abomino. De lá ele tirava os únicos sentidos para a sua vida. A última vez que o vi foi há 2 anos. Ele continuava o mesmo, só que mais maltratado pelo tempo. Nunca em todos os momentos que o reencontrei depois da separação dele com minha mãe, cheguei a sentir qualquer coisa que pudesse ser aproximado com o sentimento de um filho por um pai. Morrerei sem saber que sentimento é esse. Assim mesmo não pude deixar de me entristecer quando hoje chegou a notícia de sua morte. Apesar de nossos desencontros lamento muito saber que ele morreu sem que alguém lhe amparasse a cabeça, segurasse a mão ou escutasse o seu último suspiro. Não desejo a ninguém morte igual. Tudo o que posso fazer agora é seguir a vida e lamentar que as coisas tenham sido como foram para nós e desejar que ele descanse em paz.

FIDEL CASTRO.


Em fins dos anos 50, Fidel Castro e seus companheiros pôs o mundo a sonhar. A sonhar com uma sociedade livre e igualitária. Em parte ele concretizou o seu grande plano.

Por décadas Cuba se orgulhou de não ter uma única criança mendigando na rua ou viu as suas mulheres terem que se prostituirem, como faziam no antigo regime, para sobreviverem.

Ainda hoje Cuba é uma referência para o mundo, quando em causa está o respeito a alguns direitos da sociedade. Cuba foi o primeiro país das Américas a erradicar o analfabetismo. Nem mesmo o EUA chegou perto disso. Recentemente a ONG Save the Childre divulgou dados que mostram que Cuba é o melhor país da América Latina para se nascer uma menina.

Os cubanos sobre o regime de Castro viveram tempos de prosperidade. Porém, no meio do caminho, o sonho se tornou um pesadelo.

Para algumas centenas de milhares de pessoas, o regime representou o que de pior poderia haver em matéria de política.

Estima-se que El Comandante mandou ao "el paredón", cerca de 17 mil desafetos. Alguns atribuem estes revezes, as tentativas de Washington de frearem o empenho de Castro em levar adiante as reformas sociais que possibilitariam melhores condições de vida ao seu povo.

Não podemos perder de vista que, após as relações com Cuba azedarem, dois anos depois da Revolução, o governo Americano se empenhou em deter a escalada cubana rumo à autossuficiência econômica e política.

Sobre a influência de Washington, dissidentes do Regime Cubano armaram, por muito tempo, atentados contra Cuba. Criaram rádios em Miami para influenciarem a população cubana e chegaram ao cumulo de fazerem sobrevoos nas plantações de tabaco nas fazendas campesinas, para inviabilizarem a economia do tabaco na ilha.

A Revolução venceu todos as tentativas de sabotagem. Até que Washington deu a última cartada. Impôs sobre a ilha um embargo econômico que impede que países comercializem com o regime. As consequências dessa medida Cuba e seu povo sentem até hoje.

Agora que a notícia da morte de Castro chega aos jornais do mundo, a pergunta que todos se fazem é: O que será de Cuba sem a presença de seu grande símbolo?

Antônio Carlos Viana


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Téo Júnior me acordou hoje com a triste notícia, de que aquele que tantas vezes nos foi o motivo de encontros felizes, nos deixou hoje. Partiu o escritor sergipano Antônio Carlos Viana. Embora ele não tenha sido um escritor de grandes multidões, assim mesmo deixou-nos um conjunto de contos que, se mostram indispensáveis a quem queira apanhar, mais do que sorrisos bobos com a literatura. Além de seu legado literário, ele também nos deixou o bonito exemplo de uma vida dedicada à docência. Ainda enquanto buscava um lugar ao sol na literatura, Viana passou a vender, na frente de uma escola, cachorro-quente, para conseguir o dinheiro e o tempo que o permitisse fazer o sonhado curso de letras. Nos intervalos de atendimento, entre um cliente e outro, ele lia, incansavelmente, todos os grandes mestres da literatura e assim se preparava para o cumprimento de seu tão desejado sonho. Hoje que se comemora o dia do professor e os professores reclamam direitos e o governo manda sobre eles os cães como se de vulgares bandidos se tratasse, quis o destino que o melhor de nossos exemplos de resistência e luta deixasse-nos. Chora assim duplamente a literatura que perde um de seus melhores mestres e a docência que deixa de contar com a mais digna das vozes de oposição ao descaso. Descanse em paz Antônio.

Rogério Duarte rumo aos planetas celestiais.

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Deixou-nos ontem, três dias após completar 77 anos de vida, Rogério -Raghunatha Dasa- Duarte, Rogerio Duarte. Ele foi um ícone de nossa cultura. Sob sua batuta, o movimento Tropicalista ganhou forma e cores. Foi ainda importante na criação estética dos cartazes do cineasta Glauber Rocha.

Para mim, porém, ele significou um verdadeiro achado. Quando li a sua belíssima tradução do venerável livro Bhagavad Gita: Canção do Divino Mestre, que ele lançou em 1998, fui tomado por uma experiência que alterou a minha vida para sempre.

Sua intensa luz de amor à vida e sua sabedoria das coisas imperecíveis, ensinou-me que esse estágio da vida tem: percalços e acidentes, assim como alegrias e prazeres, não estando nenhum desses sentimentos acima nem abaixo, mas fazendo parte de um todo, que precisamos aceitar e não desistir das lutas ou nos afeiçoarmos demais aos prazeres enganosos.

"Lute apenas por lutar
sem pensar em perda ou ganho,
em alegria ou tristeza,
em vitória ou em derrota,
pois, agindo desse modo,
você, nunca pecará."

Ettore Scola (1931-2016)

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Quando éramos criança não era comum recebermos a notícia de alguma morte. Estávamos ocupados a desvendar os segredos do mundo, ou ainda não tínhamos criado vínculos com pessoas e coisas, que hoje são importantes demais para passarem despercebidas quando se ausentam?

Há 72 anos nascia Manuel António Pina

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Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

[Amor como em casa, in "Todas as Palavras", Assírio & Alvim]

Um pouco mais órfão

Foto: Rogério Soares
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A certa altura da vida, muitos abandonam-se à sorte, ou vão viver o merecido gozo do descanso, depois de uma jornada enfadonha pela existência. Outros parecem incansáveis e não se dão nunca por satisfeitos, e por isso, estão sempre inquietos, a buscar novos horizontes antes que a vida finde. Há pouco mais de um ano conheci um desses desbravadores, em Rio do Antônio. Mas chega-me hoje a notícia, inevitável, que eu nunca gostaria de ter recebido, de que ele nos deixou, “fora do combinado”. Partiu o mestre Adelbardo Silveira aos 84 anos. Conhecido carinhosamente na região do Sertão Produtivo como Professor Deba. Sua vida foi, toda ela, dedicada à valorização da cultura como bem maior de um povo. Através de militância cultural e empenho pessoal ele criou e redigiu sozinho o jornal “O Arrebol” que durou 5 anos. Produziu e apresentou um programa de rádio que destoava das habituais programações dessas redes de comunicações, tão molestadas de “artistas de plástico”, dando voz aos valores locais e aos cantadores de repente de sua terra. Escreveu livros de memórias, cordéis (sua última paixão literária) e protagonizou lutas políticas em favor da cultura que demonstrava inequivocamente o seu amor às artes. Mesmo abatido, por uma enfermidade e vergando ao tempo, que não perdoa nem os mais entusiastas amantes da vida, o Professor Deba, esteve nos últimos anos, de sua linda vida, em luta encarniçada pela criação de um Centro de Cultura em sua cidade. Malgrado o desinteresse de muitos pela cultura, ele insistia nessa ferramenta de emancipação social. Foi nesse momento que o conheci. Pensava ele que esse Centro seria capaz de estimular a participação popular nas práticas culturais e potencializar a valorização cívica das diversas manifestações artísticas de sua gente, ameaçadas pela “cultura do entretenimento rasteiro”. Quando o vi pela primeira vez não pude acreditar que um homem tão frágil, de fala tão mansa e com tantos anos nos ombros, estivesse tão animado com a possibilidade de transformar os jovens de sua cidade, em agentes culturais, capazes de identificar, estimular e acompanhar talentos para a literatura, pintura, música, teatro e assim aumentar a qualidade do patrimônio de sua cidade e região, tornando os valores locais pilares da comunidade. Mais uma vez seu sonho tornou-se realidade. O seu Centro cultural é hoje um lugar onde as artes vicejam.  Mas creio que isso não lhe bastou. É provável que estivesse embrenhado em mais um projeto. Não fosse a vida tão curta para tamanhas ambições creio que o Professor Deba inspiraria ainda muita gente. Fica aqui o meu agradecimento pelo muito que ele me significou quando estive em sua casa para colher um depoimento sobre as histórias de encantamento que ele sabia, como poucos, narrar. Foi nessa ocasião ainda que ele me conduziu, mesmo fragilizado (como mostra a foto abaixo) à casa de seu amigo e valente repentista, o Senhor Zé do Norte, para vitaminar ainda mais o meu trabalho de recolha de histórias populares, para um livro que será lançado em breve. Uma bela lição de vida nos deixa o Professor Deba. Pena é não contar agora com essa voz na defesa da cultura popular. Ficamos hoje todos um pouco mais órfãos. Saibamos vergar-nos a nobreza desse homem! Obrigado por tudo PROFESSOR.

Foto: Rogério Soares

Adeus Manoel de Oliveira (1908-2015)


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Saiu de cena hoje um dos maiores nomes do cinema mundial, o português Manoel de Oliveira (1908-2015). Filho de uma tradicional família portuguesa Manoel de Oliveira nasceu no tempo da Monarquia. Assistiu a mudança de rumos políticos de seu país para República, atravessou duas guerras mundiais, sobreviveu a ditaduras sanguinolentas, saudou a redemocratização de sua pátria e ainda testemunhou a queda do muro de Berlim. Depois de tudo isso, quis o destino que ele ainda assistisse outros tantos dramáticos conflitos que lhe afirmaram a permanência do mito bíblico da Torre Babel. Seu nome está inscrito entre os grandes realizadores de nosso tempo. Ele não foi apenas o mais importante cineasta de seu país, como afirmou a revista Cahiers du Cinéma, foi também, como vimos, o mais longevo. A esse último adjetivo ele atribuiu parte de sua admiração: "Penso que sou mais admirado pela minha idade do que pelos meus filmes". Uma blague. Em seus mais de cem anos de vida ele fez da arte cinematográfica a máquina relevadora de um mundo aquém daqueles que nossos sonhos projetam e além daqueles que a realidade imprimem. Apenas esse registro desmente qualquer insinuação de que sua longevidade tenha superado o seu talento atrás das câmeras. Mas se ainda restar qualquer dúvida ao incauto veja-se a propósito Um Filme Falado. Obra de 2003, nela está, em chave teatral, como era característica de seu modo de realização, inscrito um filme que celebra os melhores feitos humanos, sem esquecer as inconvenientes certezas de que há ainda, muito trabalho para realização de uma sociedade minimamente civilizada. Vai o mestre fica a obra. 

Herberto Helder (1930 - 2015)

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A poesia é certamente daquelas raras coisas humanas que nos conforta e nos protege das amostras de estupidez e loucuras que os dias nos trazem. Por isso é sempre triste saber que um desses abnegados desconstrutores de desenganos partiu. De regresso ao blog, depois de alguns dias ausentes dou com a triste notícia do passamento do poeta português Herberto Helder, ocorrida na última segunda-feira, 23. Para grande maioria dos brasileiros o nome de Herberto Helder, como de resto acontece com quase todos os nomes de poetas por aqui, é uma novidade, que somente a morte é capaz de arrancar do anonimato (ou talvez nem isso). O mesmo não acontece em seu país. Em Portugal Herberto Helder foi cultuado e admirado como o "maior poeta português da segunda metade do século XX". Isso tudo sem se deixar fotografar, sem dá entrevistas, e publicar em intervalos de anos longuíssimo. Como se vê ele não era dado a salamaleques. Sua entrega era à arte. Valendo-se apenas de sua inventividade poética que tinha entre outras qualidades precipitar o leitor em certas realidades suscitadoras de questionamentos das aparências, Helder construiu uma carreira poética “pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos”. Abaixo um dos poemas que mais recito do poeta, que morreu gregamente.  


Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios

li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, que não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

Lêdo Ivo


A morte, essa catástrofe pessoal.

Genial e inesquecível - Os 100 anos do homem que inventou o teatro brasileiro

Nelson Rodrigues (1912 – 1980).
Fonte: Antônio Guerreiro/IstoÉ
Téo Junior [*]


Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar em Nelson Rodrigues. Eu tinha 17 anos, cursava o 3° ano do ensino médio na Bahia e, estando na casa de uma colega, ela me disse que naquela noite um homem iria decepar o órgão genital dele. Fiquei entre espantado e maravilhado com tamanha coragem. Perguntei-lhe: “Tem certeza, Zélia?”. Ao que ela me respondeu: “Eu já assisti. É hoje! Assista e você vai ver!”. Estávamos em 2002, e a Globo reprisava “Engraçadinha”, em comemoração aos 90 anos do “genial e inesquecível” Nelson Rodrigues – assim era a chamada. A minissérie que revelou Alessandra Negrini havia sido apresentada pela primeira vez em 1995.

Minha amiga referia-se à cena antológica em que Silvio, personagem de Ângelo Antônio, resolve adquirir uma navalha para mutilar-se, assim que descobriu que mantivera relações com sua irmã. Sempre acreditando que Engraçadinha fosse sua prima, não suportou o golpe da triste revelação. O pai deles manteve, num passado remoto, um relacionamento com a cunhada, mas tratou de abafar o caso – afinal, era um deputado. Silvio e Engraçadinha jamais souberam que eram irmãos.

Tive a oportunidade de ler todas as peças de Nelson, ver quase todos os seus filmes e posso asseverar: nenhum outro escritor, nacional ou estrangeiro, me fascinara tanto. Quando terminei a leitura de “A Mulher Sem Pecado”, cheguei à conclusão: é esse. Nunca mais o abandonei.

Nelson é tão fabuloso que a fortuna crítica em torno de sua literatura é quantitativamente superior a tudo o que ele escreveu ao longo de 40 anos de atividade incansável em jornais, no teatro e no cinema. Ao lado de Jorge Amado, foi o autor brasileiro mais adaptado para o cinema, com estrondoso sucesso de público. “A Dama do Lotação”, direção de Neville D’Almeida, é hoje a 3ª bilheteria do nosso cinema. Fica atrás somente de “Dona Flor” e “Tropa de Elite”.

Apesar de grande parcela de seus fãs preferir “Toda Nudez Será Castigada” (direção de Arnaldo Jabor), considerada a melhor adaptação dele para o cinema, nenhum outro filme rodriguiano impactou-me tanto como “Bonitinha, mas Ordinária” (refiro-me à versão de 1981, com Lucélia Santos, direção de Braz Chediak). O ser humano reduzido a um abutre, ao dinheiro que pode comprar tudo, ao apego excessivo às aparências, à humilhação sistemática que alguém pode impor àqueles que lhe são inferiores, ao seu ver, simbolizado na pessoa do milionário Heitor Werneck, mostraram-me um mundo vil, imundo, cuja moral vai se deslocando aos pouquinhos para o estado de putrefação. Resta ao espectador sofrer.

Sim, porque a literatura de Nelson Rodrigues não comporta a alegria nem a felicidade. O sexo, o amor, o casamento, a viuvez, a loucura – tudo está indissociável da felicidade. As personagens vivem mergulhadas em permanente estado de tensão. Acredito que Plínio Marcos, Fausto Woolf e Antonio Carlos Viana beberam da fonte de Nelson, a julgar pelos ótimos livros que publicaram.

Anarquizando geral a “sacrossanta” família brasileira – da mais pobre, como a de Silene em “7 Gatinhos” à mais rica, como a de Herculano em “Toda Nudez”, Nelson defendeu a importância de um lar asséptico. Gritando a infidelidade e exibindo no palco, sem máscaras, a prostituição e o que ela acarreta, Nelson valorizou a virgindade e o amor eterno. Escrevendo a respeito de patologias de foro íntimo, da corrupção moral dos homens, da política que fabrica canalhas, da banalização do sexo, do racismo (leia “Anjo Negro”), Nelson fora de um moralismo violento e feroz.

O homem que grande parte do País dizia ser “neurótico” e “tarado” disse, certa feita, que era contra a educação sexual na escola. “Educação sexual tem de ser dada por um veterinário a cabras, a bodes, a vacas. O ser humano não tem de ser educado para fazer sexo. O ser humano precisa ser educado para amar. Eu sou do amor eterno!”.

Nelson não era uma metamorfose ambulante. Ele tinha aquela velha opinião formada sobre tudo. Jamais será esquecido, inclusive pelos detratores do teatro dele.

Obrigado, Nelson Falcão Rodrigues, pelo bem que sua obra me fez.

* Téo Junior é crítico do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador desse blog.

Carlos Fuentes 1928-2012

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A morte de um homem é sempre um acontecimento trágico. Por várias razões não aceitamos o destino último, que a vida nos reserva e relutamos até o fim em abandonar a existência. Mas o ceifeiro é implacável, não tarda ao seu trabalho e nem dar descanso ao seu ofício maléfico. Agora se esse homem foi em vida um esteio, um farol para os seus semelhantes a dor de sua perca torna-se ainda mais intensa e sua superação inconcebível. Sentimos-nos assim hoje, quando foi anunciada pelos medias, a morte do escrito - de profundas raízes mexicanas - Carlos Fuentes. Sua voz esteve nos últimos anos, a partir do chamado boom da literatura Latino Americana, associada à política de defesa dos direitos humanos, e à luta dos valores culturais dos povos Latinos. Isso não é pouco. Ao lado peruano Mario Vargas Llosa e do colombiano Gabriel Garcia Marquez ele subverteu o pólo dos interesses literários no mundo ao revelar com um estilo rigoroso os dramas e alegrias de seu povo. Como disse Paulinha Laranjeira: "ele vai nos fazer falta".

MESTRE AUTRAN

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Por TÉO JÚNIOR

Esse espaço homenageia de forma singela a decisão da Presidente da República Dilma Rousseff por ter oficializado o grande Paulo Autran como “Patrono do Teatro Brasileiro”. A publicação está no Diário Oficial do mês de agosto. 

Pode parecer insignificante um reconhecimento tão simples, que não representa nenhuma gratificação em dinheiro para herdeiros do grande ator, morto há 4 anos, mas o respeito e agradecimento que essa decisão traz. É preciso que se faça justiça a um grande brasileiro, e ainda mais quando se trata do maior ator do país.

Qualquer decisão que venha do poder deve ser recebida com cautela, já que se montou em Brasília um legítimo picadeiro onde noções de valores morais, de ética, de idoneidade etc. estão amiúde se nivelando para baixo. Um reconhecimento que chega, ainda que postumamente, de forma justa em relação à memória de um artista. 

Felizmente, Paulo Autran não precisou morrer de velho para ser lembrado. Em vida, foi saudado como o principal nome do nosso palco e rivalizava apenas com Fernanda Montenegro na primazia de ser o maior ator do Brasil. Recebera diversas homenagens em vida, em gratidão às 90 peças que montou, sendo Shakespeare o autor mais constante de seu currículo. 

Não se pode, todavia, descansar sobre os louros, pois existe o risco de se ficar acomodado. É o que chamam comumente de “zona de conforto”. Paulo trabalhou a vida inteira e não se iludiu com o sucesso. Identificava-se com o teatro, apenas. Esnobou a televisão e o cinema, embora às vezes estivesse lá também. No entanto, sua mais visceral paixão foi, reiterando, o palco. 

Em 1996 decidiu montar Rei Lear. Recebeu patrocínio de mais de 1 milhão de reais, pois não se pode trabalhar com um artista deste quilate com mixaria. 1 milhão de reais para ser investido numa peça parece caro – e é. Mas é preciso levar em conta também a relevância do espetáculo. Paulo arranjou o dinheiro sem dificuldade. Lembro-me bem quando escrevi um texto em Aracaju cobrando do governador Déda dinheiro para o teatro, argumentando para ele que “teatro é verba”. Estão vendo aí?

Além de ator, Autran viveu nos turbulentos anos da ditadura militar, onde a liberdade de expressão e as artes eram cerceadas e boicotadas pelos poderosos da hora, sob a alegação falsa de que estas últimas eram obras “subversivas”, portanto “prejudiciais” ao público. Quem tinha o que dizer, teve de se calar, sob risco de punições maiores. Paulo foi um defensor intransigente da liberdade e do respeito pela categoria da qual fazia parte: a dos atores. Chamou para si a responsabilidade, ao invés de delegá-la a terceiros. Em 1965, com o espetáculo Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes e Rangel, percorreu o país para falar de algo que já não existia totalmente no Brasil. Não adianta ter liberdade “mais ou menos”, um “pouco” de liberdade. A liberdade deve ser total, irrestrita. Em Alagoas, representou o espetáculo, contrariando a decisão do então governador Simeão Filho. Pressionado por manifestações estudantis, com o apoio da Universidade Federal daquele estado, ele liberou a peça, e os alagoanos, assim, puderam assistir ao extraordinário ator no Teatro Marechal Deodoro, como atesta a foto abaixo. Quem viu, viu. Uma experiência única, irrepetível. Venceu o teatro. 

Salve Paulo Autran. Maravilhoso como ator e como ser humano consciente de seu ofício.

Os alunos de Maceió, que batalharam para ver Paulo Autran no palco, fizeram uma placa homenageando o ator que se apresentou no Teatro Marechal Deodoro, o principal da cidade, com a peça Liberdade, Liberdade, contrariando a decisão do governo.   

Lucian Freud

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É fato consumado que grande parte do que determina a qualidade de uma obra artística, está relacionado com um conjunto de valores arbitrário, que convencionado por um grupo, passa a ser visto como valoroso pelos demais. Dessa maneira valores como a beleza - relacionada a determinados atributos físicos, por exemplo - estabeleceu, por muito tempo, as qualidades exigida para fazer desse ou daquele quadro, uma obra admirável. 

Muitos artistas, no entanto, alteraram esse consenso e fizeram, a sua maneira, ver que, ao menos em arte, o que é belo e admirável é a capacidade de revelar coisas que a maioria tende a ignorar. 

O último desses grandes mestres foi o pintor alemão Lucian Freud que morreu ontem (20) aos 88 anos. Neto do psicanalista Sigmund Freud, Lucian se notabilizou pelos seus quadros que retravam personalidades, anônimos e a si mesmo, em toda sua fragilidade humana.

Creio haver uma alta dose de verdade em encarar a realidade dessa maneira, sem fantasia, sem subterfúgio, sem mascara.



Adeus a musa de todos os tempos - Elizabeth Taylor (1932-2011)

Elizabeth Taylor
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Morreu nesta quarta-feira (23) em Los Angeles a atriz britânica Elizabeth Taylor aos 79 anos. Seus lindos olhos azuis dominaram as telas do cinema durante várias décadas, arrebatando corações de uma legião de fãs que hoje, entristecidos, lamentam a sua morte prematura. Foram mais de 60 filmes, alguns desses se tornaram logo clássicos incontestáveis, como: Gata e Teto de Zinco Quente, Um Lugar ao Sol, De repente no Último Verão, A Megera Domanda, Quem tem Medo de Virginia Woolf, Butterfield 8; pelos dois últimos ela recebeu o Oscar de melhor atriz. 

Benedito Nunes (1929-2011)

fonte da foto: site da Cia das Letras
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Domingo passado foi um dia triste para as letras brasileira. Além de Moacyr Scliar, o paraense Benedito Nunes também faleceu ontem. Benedito Nunes tinha 81 anos, quase todos eles dedicados à docência. Seus ensaios críticos de autores como Clarice Lispector, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, produziram um dos mais lúcidos, precisos e inquietantes estudos sobre esses autores, tanto que se tornaram referências indispensáveis. Ao despedirem-se de forma tão apressada do público, Moacyr Scliar e Benedito Nunes, deixaram um vazio impreenchível na literatura e na crítica brasileira.


Adeus a Moacyr Scliar

Bienal do Livro 2008
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Quase não pude acreditar quando abri a internet e me deparei com a notícia do falecimento do escritor gaúcho Moacyr Scliar. Scliar tinha 73 anos, morreu na madrugada deste domingo (27) no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, de falência múltipla dos órgãos devido às consequências de um acidente vascular cerebral (AVC), ocorrido no último dia 16, informa-nos o G1.

Filho de migrantes russos Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre em 1937. Sua carreira literária seguiu paralela ao ofício da medicina por boa parte de sua vida, até que o médico despiu o jaleco para envergar, com maestria própria dos melhores literários, caneta e papel. Nessa jornada foram mais de 70 obras, indiscutíveis em suas qualidades estéticas e criativas, reconhecida e admirada no Brasil e em muitos outros países.

Em 2008 durante a Bienal do Livro de São Paulo tive o prazer de conhecer pessoalmente esse maravilhoso escritor. Na ocasião ele havia sido convidado para falar num stand, não de sua obra, mas sim de uma de suas grandes paixões, a obra de Machado de Assis. Moacyr Scliar não se fez de rogado, teceu rasgados elogios a Machado, contou divertidas anedotas sobre o universo literário e gozou da vaidade que se ocupa muitos de nossos escritores, arrancando gargalhadas do público presente. Ainda me lembro de uma, das muitas histórias que ele contou que revelam o homem, por trás do escritor. Dizia assim: “Estavam reunidos dois escritores. Um falastrão e vaidoso que nunca deixava o outro falar contando sempre de suas inúmeras aventuras no exterior, das palestras proferidas, dos livros traduzidos, das amizades e de sua mais recente obra. Percebendo o tédio, com que o seu amigo ouvia aquelas histórias, o falastrão pediu desculpas, por estar aborrecendo tanto o seu colega, e prometeu parar de falar de si mesmo e disse: Agora me diga; o que você acha da minha obra?”

A suspeita da seriedade de alguns homens serviu sempre a Moacyr Scliar de antídoto contra as vaidades que seduzem aqueles que vivem sob os holofotes da fama. Sentiremos a sua ausência.

MARIA SCHNEIDER (1952-2011)

Maria Schneider e Marlon Brando em O Último Tango em Paris - 1972

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Um amigo escreveu-me surpreso pelo fato de eu não ter postado nenhum comentário sobre a morte da atriz francesa Maria Schneider. Todos cá sabem que esse blog nunca se furtou em prestar as últimas homenagens às personalidades que marcaram o mundo das artes (que me perdoe o Dennis Hopper).

Descrente, abri logo algumas páginas da internet procurando informações que pudessem desmentir o meu funesto mensageiro. Em vão. Infelizmente, para meu espanto, a informação estava correta. Maria Schneider havia morrido no último dia 3, quinta-feira aos 58 anos, em circunstâncias não explicadas pela família, que preferiu a discrição. Tanto melhor.

Assisti a um único filme com ela, o provocante O Último Tango em Paris de 1972, do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. O filme tinha ainda no elenco o recém desencarnado Don Corleone, Marlon Brando, que sobre a película declarou em sua autobiografia “não me perguntem do que se trata esse filme”.


A história é sim um tanto complicada e foi construída de uma forma caótica e desordenada. Prova é que Marlon Brando diz em sua biografia que o diretor pedia aos atores que improvisassem as cenas em cima de um argumento inicial pra lá de vago. “Bertolucci permitiu que os atores moldassem a história. Quis que eu representasse o meu próprio papel e construísse a personagem de Paul como se se tratasse do meu retrato autobiográfico”.

Marlon Brando faz o papel do americano Paul que enviuvará recentemente. Perambulando por Paris a procura de um apartamento para alugar, onde pudesse desaguar suas mágoas, ele encontra por acaso a jovem Jeanne, que ao contrário de Paul iniciará a pouco sua vida conjugal com um excêntrico cineasta.

Não demoram muito eles começam uma anônima relação baseada unicamente no sexo descompromissado. Tal desinteresse tem para Paul um efeito purgativo das dores que o acometem por causa do suicídio da mulher. O caldo entorna quando o caso começa a fugir do propósito inicial.


Proibido no Brasil por quase duas décadas, não porque seu tema envolvesse algum tipo de mensagem política que pudesse ofender os ditadores, mas sim, por uma tórrida cena em que Marlon Brando, então um quarentão, sodomiza a ninfeta Schneider que na época contava com dezenove anos, auxiliado por uma manteiga.

Maria Schneider vez outros filme, nenhum, no entanto, marcou tanto quanto esse.

MARLYSE MEYER (1924-2010)


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Morreu ontem, segunda-feira (19), aos 86 anos, a professora, crítica e ensaísta literária Marlyse Meyer, de parada cardíaca. Alguns de seus livros abordam os temas da cultura popular como Caminhos do imaginário no Brasil editado pela Edusp. Outros de seus livros saem pela Cia das Letras, que em seu blog presta uma última e merecida homenagem à escritora.