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Quadra do tempo da Guerra Civil Espanhola

Na noite em que a mataram
Rosita teve muita sorte
das três balas que apanhou
só uma é que foi mortal


Quadra popular do tempo da Guerra Civil de Espanha, citada por Alexandre O´Neil. O estro popular é fecundo em variantes. A poesia anônima vai do lirismo ao profano, passando pelo humorístico, chegando até o sentencioso onde a sabedoria popular alcança máximas filosóficas que fazem empalidecer os melhores doutores em filosofia. Porém chama atenção essa quadra citada por O´Neil. Ela é incomum. Mesmo preservando as características principais do gênero: a simplicidade do tema e do esquema métrico, ela destoa das outras por não rimar. É a única do gênero que vi até hoje. Como todos sabem a literária popular jamais dispensou o recurso da rima, elemento indispensável para preservação e fixação da memória literária em comunidades sem escrita.

Dos gestos

"O contador de histórias", do pintor Howard Terpning..

Não é apenas de palavras que se vive o contador, mas também de gestos. Com os gestos o contador mesmeriza a audiência e faz crível a história mais fabulosa de todas. Paul Zumthor o medievalista suíço atribuiu ao gesto um lugar de destaque na fala. Luiz da Câmara Cascudo disse em Literatura Oral no Brasil que de mãos amarrada não há criatura vivente capaz de contar uma história. A pintura de Terpning atesta essa impressão do mestre potiguar.

Camões

Canto I 106/106

No mar tanta tormenta, e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?

A boa literatura

Há textos que se eternizam. Os anos passam, os homens nascem, morrem e os livros sobrevivem a todos. Por isso que a boa literatura é uma arte atemporal. 

Cyrano de Bergerac é certamente um desses livros. Sua história é simples. Ela narra a malfada sorte de um homem apaixonado por uma mulher. 

Mas o livro não se resume a esse tema tão caro é precioso a literatura: o amor mal correspondido. Ele dá voltas em outros valiosos e indispensáveis temas. 

Um dos melhores momentos da trama, ocorre quando o inabalável caráter do herói, Cyrano de Bergerac, é posto em xeque por um corrupto senhor que o quer servil aos seus desmandos. 

A liberdade individual é então ardorosamente defendida por Cyrano num dos mais lindos e contundentes monólogos da literatura. 

Neste momento histórico em que o Brasil se encontra, esta mensagem deixada por Cyrano, bem nos pode serve de lição para nos recusarmos a vivermos de esmolas daqueles que nos querem sempre bajulando os seus favores.

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Não, muito obrigado!
Mas que fazer então?
Buscar um protetor poderoso, um patrão?
Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto,
E lambe-lhe a cortiça e trepa então sem custo?
Usar, para atingir o cimo desejado,
de astúcia em vez de força? Oh! Não, muito obrigado.
Entrar para o canil dos poetas rafeiros,
Como eles dedicar versos aos financeiros
E fazer de bufão para que um potentado
Haja por bem servir? Oh! Não, muito obrigado.
Almoçar, cada dia, um sapo sem ter nojo,
Rustir o ventre por andar sempre de bojo,
Ter a rótula suja e fazer menos mal
Prontas deslocações da coluna dorsal?
Não, obrigado. Trazer o incensório suspenso
A um ídolo que viva entre nuvens de incenso?
Ganhar celebridade, aplausos e coroas
Num círculo de trinta ou quarenta pessoas?
Navegar, tendo em vez de remos madrigais
E, a tufarem-se a vela, os suspiros fatais
Das velhas, num derriço? Não, muito obrigado.
Ganhar fama de autor por haver publicado
Meus versos, mas pagando o livro aos editores?
Não, obrigado. Viver de esmolas e favores,
Como fazem alguns sandeus? Ver se alcanço renome
Com um soneto, se tanto, em vez de fazer mil,
Achar muito talento em qualquer imbecil?
Não, obrigado. Ter medo aos jornais, ser amigo
De elogios, dizer de mim para comigo:
“Ah, se o meu nome sair no jornal deste mês”!...
Calcular, ter na face impressa a palidez
Dos poltrões, preferir fazer uma visita
A bordar, carinhoso, uma estrofe bonita,
Ser da matilha, hedionda e vil, dos pretendentes,
Redigir petições e mendigar presentes?
Não, obrigado. Não, obrigado. Não, obrigado.
Mas...cantar. Mas viver num sonho alcandorado,
Calmo e feliz, o olhar seguro, a voz vibrante,
De quando em vez e, por capricho, petulante,
Por de trevés o feltro, e por um quase nada,
Dar um beijo na Musa ou dar uma estocada.
Nem um verso escrever que a mim me não pertença,
E apesar disso tudo, uma modéstia imensa:
Pagar-me com uma flor, ou um fruto apetecido,
Contanto que no meu pomar seja colhido,
E se enfim algum triunfo vier, mediante a sorte,
Não devê-lo a algum César por ser parte da corte.
E, em suma, desdenhando a hera vil que se esconde,
Não conseguindo ser o roble, cuja fronde
Mora perto do Azul e distante do pó,

Subir pouco, mas só, completamente só.

Entusiasmo

Ao ser destacado para realizar um livro de contos populares, que reunisse a produção italiana desse gênero literário, Ítalo Calvino vai dizer que, no meio do caminho foi tomado de tanto entusiasmo pela tarefa que essa se tornou numa paixão que rapidamente se transformou em mania. A febril compulsão pela recolha o fez dizer que, era bem capaz de trocar o seu interesse por todo o Proust por uma nova variante do conto: O Burrinho Caga Moedas de Ouro. “Havia sido capturado, de maneira imprevista, pela natureza tentacular, aracnídea do meu objeto de estudo...”. Confessará o gênio da literatura italiana. Sentirá o mesmo febril e compulsivo entusiasmo os folcloristas que hoje se lançam a campo a busca de novas versões dos contos?

O Mergulhador - Vinícius de Moraes


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O MERGULHADOR - VINÍCIUS DE MORAES.
Como, dentro do mar, libérrimos, os polvos
No líquido luar tateiam a coisa a vir
Assim, dentro do ar, meus lentos dedos loucos
Passeiam no teu corpo a te buscar-te a ti.

És a princípio doce plasma submarino
Flutuando ao sabor de súbitas correntes
Frias e quentes, substância estranha e íntima
De teor irreal e tato transparente.

Depois teu seio é a infância, duna mansa
Cheia de alísios, marco espectral do istmo
Onde, a nudez vestida só de lua branca
Eu ia mergulhar minha face já triste.

Nele soterro a mão como a cravei criança
Noutro seio de que me lembro, também pleno...
Mas não sei... o ímpeto deste é doído e espanta
O outro me dava vida, este me mete medo.

Toco uma a uma as doces glândulas em feixes
Com a sensação que tinha ao mergulhar os dedos
Na massa cintilante e convulsa de peixes
Retiradas ao mar nas grandes redes pensas.

E ponho-me a cismar… - mulher, como te expandes!
Que imensa és tu! maior que o mar, maior que a infância!
De coordenadas tais e horizontes tão grandes
Que assim imersa em amor és uma Atlântida!

Vem-me a vontade de matar em ti toda a poesia
Tenho-te em garra; olhas-me apenas; e ouço
No tato acelerar-se-me o sangue, na arritmia
Que faz meu corpo vil querer teu corpo moço.

E te amo, e te amo, e te amo, e te amo
Como o bicho feroz ama, a morder, a fêmea
Como o mar ao penhasco onde se atira insano
E onde a bramir se aplaca e a que retorna sempre.

Tenho-te e dou-me a ti válido e indissolúvel
Buscando a cada vez, entre tudo o que enerva
O imo do teu ser, o vórtice absoluto
Onde possa colher a grande flor da treva.

Amo-te os longos pés, ainda infantis e lentos
Na tua criação; amo-te as hastes tenras
Que sobem em suaves espirais adolescentes
E infinitas, de toque exato e frêmito.

Amo-te os braços juvenis que abraçam
Confiantes meu criminoso desvario
E as desveladas mãos, as mãos multiplicantes
Que em cardume acompanham o meu nadar sombrio.

Amo-te o colo pleno, onda de pluma e âmbar
Onda lenta e sozinha onde se exaure o mar
E onde é bom mergulhar até romper-me o sangue
E me afogar de amor e chorar e chorar.

Amo-te os grandes olhos sobre-humanos
Nos quais, mergulhador, sondo a escura voragem
Na ânsia de descobrir, nos mais fundos arcanos
Sob o oceano, oceanos; e além, a minha imagem.

Por isso - isso e ainda mais que a poesia não ousa
Quando depois de muito mar, de muito amor
Emergido de ti, ah, que silêncio pousa


Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!Ah, que tristeza cai sobre o mergulhador!

Vida Interior


O ator britânico, Richard Burton, famoso por interpretar do cinema personagens fortes e fora das telonas, pelo comportamento autodestrutivo e pelo conturbado relacionamento com Liz Taylor, escreveu durante muitos anos um diário.

Nos escritos saltam aos olhos os relatos do gosto pessoal do ator pela literatura.

São raros os dias em que ele não anota estar lendo um livro, visitando livrarias ou planejando a compra de exemplares para as próximas férias.

Numa das entradas do diário há uma curiosidade. Burton sempre que visita os amigos procura saber onde fica a biblioteca na casa do anfitrião.

Ao ser convidado por Frank Sinatra, para um fim de semana em sua mansão em Nova Iorque, Burton ficou chocado com a quantidade e a qualidade dos livros na sala de estar do velho filho de imigrantes pobre da Itália.

Mais tarde conversando com um amigo Burton veio a saber que Sinatra nunca visitou a biblioteca de sua residência.


Todos aqueles livros eram peças de decoração. Os velhos olhos azuis gostava de outro tipo de passatempo.

Frei Damião e os impressionadores de multidões.

Foto: Sebastião Salgado (Reprodução do livro Terra) Frei Damião evangelizando. 
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Muitas tradições se vão perdendo em nosso país. É o caso daquela que é conhecida como missionária. Missionários foram aqueles homens que devotaram as suas vidas a causa da bem-aventurança e por essa razão foram consagrados pelo povo como Santos vivos. Pelos Sertões adentro Padre Cícero Romão e Frei Damião de Bozzano, foram os nomes mais famosos dessa tradição no século XX. Antes desses, outros os precederam, é o caso de: Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, e talvez o mais antigo de todos, Frei Vidal da Penha, famoso missionário do Século XVIII que em uma de suas profecias previu que: “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Mais tarde, pela lei da convergência, o Conselheiro fará recair sobre si a lenda de que será ele, o autor dessa previsão. Em derredor desses nomes cresceu e prosperou uma veneração coletiva, alimentada pela crença popular nas qualidades espirituais desses homens, e claro, no temor infundido por eles em profecias que previam o fim das Eras. Segundo alguns dos seus inúmeros fiéis, a simples presença deles entre o povo, era capaz de suspender os muitos e agonizantes males, que afligiam os atormentados flagelados da seca, da fome e das injustiças sociais e os reconduzirem à paz e à serenidade, diante das durezas do Nordeste. Por essa razão acorriam a eles multidões exaltadas. Querendo fugir do inferno terrestre, ávidos campesinos buscavam as intervenções dos taumaturgos, na firme certeza de que com isso, estariam amenizando o seu fardo. Câmara Cascudo, ao que me consta não escreveu sobre Frei Damião, mas sobre Padre Cícero não poupou tinta. Sobre o Padim Padi Ciço, como era carinhosamente chamado pelo povo o Padre de Juazeiro, Câmara Cascudo escreveu em Vaqueiros e Cantadores, que ele: “não educou nem melhorou o nível moral de seu povo. Antes, desceu-o a uma excitação febril, guardando segredos de perpétua irritação coletiva, para mais decisiva obediência geral”.  Criticou ainda o padre, pela indulgência com que este tolerava os desmandos dos poderosos contra os menos favorecidos e seu ânimo bizarro por alimentar sobre si uma “onda fanática de ‘romeiros’ e beatos...”. Escusadas as críticas aos missionários, o certo é que eles se confundiram com a história do Nordeste, e não há hoje, como tirar-lhes a importância que o povo serenamente lhes foi consentindo.  Quando pequeno, na Paraíba, eu mesmo testemunhei por duas ocasiões a devoção do povo a esses missionários. Na década de 80 a minha avó me levou ainda criança para uma das missões do Frei Damião. As Missões eram, o nome atribuído pelo Frei Damião ao seu estilo de evangelização. Elas se caracterizavam por um certo ritual. Anunciava-se a chegada do Frei à cidade. Ao cair da tarde, o missionário era recebido e conduzido, geralmente em carreata, à igreja matriz, ali dirigia as primeiras palavras à multidão que o esperava, sedenta para ouvir as suas prédicas. Lá em casa ainda são recorrentes as lembranças desse encontro. Sempre que nos reunimos a minha avó gosta de lembrar que fui abençoado pelo missionário. Mais tarde um pouco mais velho, mas ainda criança, vi e assisti uma das missões do Frade na cidade de São Bento, interior da Paraíba, cidade onde passei a infância. A figura do personagem domador de valentes e guia de almas, nunca mais me saiu da memória. Ao escrever esse testemunho lembro vivamente o fervor do povo que sobre os cantos de “Frei Damião meu bom Frei Damião /O seu perdão numa confissão faz um bom cristão /Frei Damião meu bom Frei Damião / Eu sou nordestino, eu estou pedindo a sua benção...”, recebiam entusiasticamente o Frei Capuchino. Os versos são de Janduhy Finizola e ficou famoso na voz de Luiz Gonzaga que na década de 70 gravou a música Frei Damião. Esta não é a única homenagem do Rei do Baião ao missionário. Uma década antes Gonzaga gravou a música Meu Padrim (Frei Damião), uma composição do Frei Marcelino de Santana. Há ainda no Nordeste Brasileiro uma vasta produção literária dedicada ao Frei Capuchino e aos outros missionários. Recentemente encontrei por acaso no livro do fotógrafo Sebastião Salgado uma linda fotografia que retrata o Frei em missão de evangelização. A foto como era de se esperar é perfeita. Sobre ela podemos pousar o olhar e nos demorar longamente. Ela capta a atmosfera de devoção do povo ao Santo homem, que entre eles andou. Os pormenores que o autor incorpora na imagem: os pés descalços do Frei, a sandália abrigada ao pé do púlpito improvisado, a atenção no olhar dos homens, e mais o contraste do preto-branco da imagem que sugerem incontáveis coisas, fazem com que a foto não passe indiferente. Música, Literatura, Fotografia, fé, religiosidade, uma vastidão de manifestações atestam a importância incontestável desses impressionadores de multidões.


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Observação: A imagem que ilustra essa postagem foi retirada do livro Terra do fotógrafo Sebastião Salgado.  Sendo essa imagem objeto de direitos de autor, e a tal publicação o seu titular se oponha, ela será removida do blog, logo que recebida notícia do fato. Desde já o autor do blog explica que não há, na publicação da foto, qualquer intenção comercial. Esperando com isso não receber nenhuma restrição pela publicação. 

Elefante manso

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Não temos uma revista dedicada à literatura. As editoras que um dia se preocuparam com a qualidade literária pagaram o preço dessa ousadia e hoje se encontram de portas cerradas.  Nos jornais, os suplementos literários, que já foram palco para grandes discussões, deixaram de ser importantes e desapareceram das páginas dos diários. Com eles sumiram também a figura do crítico, do ensaísta, do polemista e do intelectual, naqueles termos que postulava Ortega y Gasset em: A Rebelião das Massas, o indivíduo que: aclarava um pouco as coisas, enquanto os outros, pelo contrário, costumavam consistir em confundi-la mais do que já estavam.

Todas essas notícias deveriam nos sugerir que não andamos a ler nada e não estamos nem um pouco interessados com o mundo à nossa volta. Mas estranhamente, ocorre precisamente o contrário. Diz-nos um jornal português que, nunca andamos tanto com um livro à mão como agora. Nunca estivemos tão à frente do mundo no quesito consumo de livros como nesse instante. Ninguém nos faz sombra, estamos na crista da onda. Podem se rir, achar que é tontaria, desequilíbrio, mas o fato é este mesmo, nunca tivemos tantos livros em nossas casas como hoje. O mundo nos inveja.

Mundo estranho. Justamente quando passamos a ser os maiores consumidores de livros do mundo amargamos estatísticas que não condizem com um público ilustrado pelas letras. Ou vão me dizer que acham normal não termos revistas, jornais e intelectuais pensando e dialogando com esse mar de gente que anda a ler incessantemente? Talvez o fato de estarmos todos enfronhados pela cultura do entretenimento e da massificação, que rebaixou tudo ao nível das mentalidades debiloides, expliquem melhor esse fenômeno quimérico que é o Brasil de hoje.


Não somos leitores com letra maiúscula. Não estamos ansiosos em ler para nos encorajar a desempenhar o papel clássico do elefante na loja de porcelana. Somos na verdade consumidores de bens culturais que são vendidos pelos discursos persuasivos e aliciantes da publicidade. Basta-nos que o livro nos consinta o status simbólico de posse de algum bem, e assim ele terá cumprido o seu valioso papel de fazer-nos sentir menos estúpidos, diante de um mundo que só reconhece o valor material e que foi convertido ao atrativo comercial sem nenhuma reserva moral. 

A Nêspera

Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia

chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a

é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece

Mário-Henrique Leiria in Novos Contos do Gin

Versão dita por Mário Viegas aqui

Literatura clássica e suas relações com a cultura popular: Ceci e Peri - Trio de Ouro (Carnaval de 1937)


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Fala-se amiúde em excluir os clássicos das escolas. Os defensores dessa ideia dizem serem as obras inacessíveis aos jovens. Os clássicos seriam datados e diriam pouco às massas de adolescentes oriundas das camadas pobres. Melhor proveito tirariam eles em ler as obras mais “acessíveis” (entenda-se os best sellers). O curioso é que, só na cabeça dos defensores, da exclusão dos clássicos das escolas, ocorre pensar que eles são inacessíveis as camadas populares. Desde sempre a literatura dita, canônica, esteve intimamente ligada as raízes populares em parcerias insuspeitas. Veja-se a propósito o caso do livro O Guarani. Anos depois de Carlos Gomes estrear a sua versão musical da obra de José de Alencar no Teatro Scala de Milão, as histórias de Peri e Ceci ressurgiriam em uma bela intertextualidade do clássico com o popular no carnaval de 1937. Quem encarregou-se da tarefa foi o compositor Príncipe Pretinho e teve como interpretes o Trio de Ouro: Dalva de Oliveira, Herivelto Martins e Nilo Chagas. A marchinha foi gravada no primeiro disco do trio. O Guarani também inspirou vários sambas-enredos de sucesso, que desfilaram pelo carnaval através da interpretação popular. A Império Serrano levou para avenida em 1954 o enredo: O Guarani, baseado na obra de J. de Alencar e inspirada na música de Carlos Gomes; em 1971 foi a vez da Unidos de Bangu desfilar na avenida com o enredo: O Guarani, de José de Alencar; em 1990 quem encantou o público, recontando no carnaval a saga do amor de Ceci e Peri, foi a União de Vaz Lobo (Guaraná, Guarani). Esses são alguns dos exemplos da relação de proximidade entre o clássico e o popular. Tivemos outros sambas-enredos, inspirados na obra do Cearense José de Alencar. Não só José de Alencar e sua obra magistral mereceram honraria iguais, outras grandes obras da nossa literatura também foram acarinhada pelo popular em marchinhas, sambas e outras manifestações que denunciam a sua inquestionável relação de proximidade. Agora pergunto? Como pode ser tão inacessível, uma obra que esteve sempre ligada as fontes de inspiração popular? Seriam hoje os nossos jovens tão atabalhoados que não se dariam conta daquilo que foi tão evidente em outros tempos, por quem teve bem menos acesso a informação do que eles? 

A Cosac & Naify fecha as portas, uma legião de leitores vê sua fonte secar.

.Alguns dos meus livros da Cosac.
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Só os muitos aficionados por livros entenderão. Os muitos satisfeitos com o mundo tal como é, não pressentirão que o anúncio do fechamento de uma editora pode ser sentido por alguns com pesar. E foi justamente com esse sentimento que recebi hoje a fatídica notícia que a editora Cosac & Naify encerou as suas atividades. Para quem não sabe, a Cosac & Naify é uma editora brasileira que a quase 20 anos vem produzindo livros que, primam pela qualidade literária sem nunca descuidar da edição gráfica. As seus edições de livros nos faz supor que, o livro é antes um relicário e não um monte de papel enfeixado para consumo descartável. Sei disso desde que comprei o primeiro livro dessa editora, lá nos idos de 2003. Cada livro dela é uma verdadeira obra de arte, uma joia que pode ser cultuada, tanto quanto os escritores que fazem parte do seu catálogo que reúne clássicos e importantes obras da literatura brasileira e estrangeira, muitos deles ignorados pelo grande público ou ainda desconhecidos no país. Antes do surgimento da Cosac, poucos poderiam imaginar no Brasil uma editora que pudesse ousar tanto na qualidade gráfica de suas produções. Uma nação de quase não leitores não atraia investidores com interesses em produzir livros com o cuidado e zelo que muitos merecem. Diante do fato de não encontrarmos leitores disponíveis, ficava evidente que em primeiro lugar, o mais importante era dá ao público opções de leitura. Só depois de consolidada uma audiência literária, as editoras poderiam pensar em oferecer um produto com riqueza de acabamento, esmero nos textos complementar e nas apresentações, qualidade de edição, singular apuro gráfico e outros luxos que só os leitores experimentados poderiam exigir. Mas antes que este público, exigente e ávido por um material mais cuidadoso, pudesse existir de verdade no país, a Cosac saiu à frente e resolveu encarar o fato, de editar obras para um público restrito de interessados em livros que, mantivessem os leitores em permanente estado de enamoramento pelo trabalho de edição. Hoje esse sonho chegou ao fim. Os muitos leitores de literatura que a editora conquistou, nesses longos anos de aventura e ousadia, souberam pela imprensa que, os sócios fundadores, resolveram pôr termo ao capricho que os levaram a fundar uma editora sem igual no mundo. Sinto que a cada dia uma certa ideia de cultura se torna rarefeita. Lamento mais essa perda para cultura brasileira.  Já não faz muito tempo tivemos o fechamento da única grande revista literária, a Bravo!. Ainda ontem os jornais traziam suplementos literários que hoje não fazem mais parte dos periódicos, o jornal O Globo bateu o último prego no caixão dos suplementos. Esse será o último suspiro de um geração que caiu ante as investidas da cultura de massa com seus apelos ao consumo desmiolado ou ainda teremos fôlego para suspender por mais tempo a respiração antes de sermos vencidos por um mundo seboso. O que fazer, quando o desnorte é a única estrela que nos guia?



Minha viagem a Salvador foi assim

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De Salvador trouxe outros tesouros. Lá descobri que a trilogia AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA, editada pela Paz & Terra, ganhou nova edição. Eu tenho o volume dois da edição anterior. Adquiri agora o volume um. Tem sido nesses dias a minha leitura de cabeceira. Hoje li as aventuras vividas pelo semideus Héracles, mais conhecido por nós pelo nome latino de Hércules.

No passado as aventuras desse herói davam grandes lições às crianças. Por elas os miúdos alcançavam o estimulo necessário para vencer os seus desafios, dotavam-se de saberes tradicionais e desassossegavam a imaginação, que a partir de então não lhes deixava jamais.

Hoje, mesmerizadas pelos médias, elas se ocupam em sonhar com uma viagem a Disney e desconhecem aquilo que podem contribuir para que cresçam saudavelmente. Pais, acordem. Escolas, vamos ler para as crianças livros que emancipem.


[POEMA] Ítaca – Constantino Kavafis


Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu

Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.


Doloroso vexame

Foto: André Kertész | Série On Reading
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“Um homem tem mais o que fazer no mundo do que ler!” Ouço daqueles que desdenham da leitura. Falam-me assim esperando que eu reaja as suas provocações com ar solene de quem pensa em livros a toda hora, e não sabe fazer outra coisa na vida, a não ser gastar os olhos sobre o papel tingido a tinta preta. Admiro os livros. Sei lhes tirar as vantagens, que só eles, a sua maneira, podem me proporcionar. Não posso falar pelos outros admiradores de livros, que estão por aí, mas vou ao livro, porque sei nele apanhar grandes lições. Lições que se esfumam na vida real desbotada pelo condicionamento de um trabalho maçante que pouco ou nenhum espaço deixa para enxergar outras possibilidades de vida. A leitura de um bom livro permiti-nos dar à volta as ideias gastas pelo uso, e reformar, de inusitadas maneiras, as convicções inabaladas que, faziam de nós o eixo de rotação da terra. Todos que têm alguma coisa a mais à cabeça, além dos habituais enfeites que os médias lhes metem, também sabem das vantagens de dispensar algumas horas a admiração das histórias que os escritores criam. Aos outros não é suposto coisa alguma. Quando estão diante do desafio de estarem sozinhos consigo, tendo um livro à mão, acham-se inertes e sentem-se desocupados. E estar desocupado, num mundo que pede a todos que se ocupem, é um doloroso vexame, que a qualquer custo se deve evitar.


Frustar expectativas

Foto: Alécio de Andrade
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As pessoas, com frequência, pedem-me que sugira algum livro para lerem. Por motivos vários não gosto de indicar leituras. São demasiadamente pessoais as razões que levam alguém aos livros. Alguns vão lá porque buscam um passatempo, uma fuga, umas horas preenchidas enquanto algo mais “útil” não chega. Outros esperam com eles iluminarem as incertezas. Tem ainda os que pensam que a leitura é uma coisa maçante, mas mesmo assim eles insistirão na indicação, pois supõe com isso, estarem construindo uma imagem de gente fina e elegante, só porque finge gostar de ler, o que não é verdade. Nenhuma dessas pessoas tem a ver com as simpatias literárias que nutro por este ou aquele autor, nem de longe comungam com as ideias que tenho de literatura. Como pois serei eu as lhes conduzir os livros necessários? Por isso me recuso a indicar leituras a alguém, os livros são coisas muito íntimas. Estão cá do lado esquerdo e não se mostram para duas pessoas da mesma maneira. Essa é uma razão. Mas existe outra.

Quando as pessoas insistem, teimando na indicação de um livro, mesmo eu lhe dando todas as desculpas do mundo para não lhes indicar coisa alguma, surge aí meu lado mais mefistofélico. E sinceramente eu não gosto quando isso acontece. Nesse momento dou a indicação pensando em fazer com que a leitura seja o momento mais desequilibrante que alguém jamais supôs viver na vida. Inverto os polos de interesse que, imagino fazer a cabeça de alguém, e sugiro leituras que vão na contramão do que cuido ser o desejo daquele alguém, que aporrinha a minha paciência, com coisas que sei, não lhes pinicam.

Sendo angelicais e castas, sugiro as leituras mais depravadas e insanas da literatura, Henry Miller e Dalton Trevisan. Sendo carolas, me apraz ver sua santidade posta à prova quando se veem enfronhada aos lençóis da perversão sexual e surdas de tanto ouvirem os gemidos dolorosos saídos da cabeça nervosa do Marquês de Sade ou Guilleragues, suposto autor da história da freirinha portuguesa que tem delírios eróticos com um oficial francês enquanto se encontra no claustro servindo a Cristo. Podem lá apanhar coisas uteis as pudicas, quando não estiverem de joelhos no regaço do Senhor, é claro. Se forem moralistas e se escandalizarem fácil com os adeptos de alucinógenos, aí falo sem parar das qualidades literárias inequívocas de um Thomas de Quincey ou de um Hunter S. Thompson. Sendo politicamente corretas indico sem pestanejar o americano Philip Roth. Os fúteis e consumistas sugiro o autor de “Ambição no Deserto”, Albert Cossery para quem os personagens que criou não tinha outro interesse senão falhar nos propósitos de se estar bem posicionado na vida, porque acreditava o autor, que o que matava as pessoas era a ambição desmedida que campeia no mundo do consumismo. Como veem a boa literatura não se faz com boas intenções. Então não é buscando conteúdos deliberados que as pessoas encontrarão os sentidos necessários ao entendimento da literatura. Mas as pessoas não estão dispostas a encararem a literatura nessa perspectiva. Vão a ela, cônscia de seus lugares no mundo. E aí esperam sempre encontrarem-se nos livros que não leram. Quando isso não acontece, frustram seu interesse e refugam ao encararem aquilo que se esforçaram tanto em maquilar.

Portanto sabendo que não gosto que me peçam indicações literárias não o façam. Não me peçam que sugiram-lhes leituras. Posso estar, sem querer, lhe dizendo o que penso de você.


Acudir aos homens

Foto: O poeta Marco Haurélio lendo um cordel na rua como os antigos cordelistas faziam.
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Na generalidade dos textos, que se convencionou chamar de Populares, aparecem histórias notáveis. Essas narrativas carregam consigo, ensinamentos e valores incalculáveis que não podem, de forma alguma, serem ignoradas. Vindo de eras pretéritas, elas apontam ao homem do presente, rotas alternativas, aos compromissos absurdos, que apenas conduzem os seres ao descalabro.

A mula sem cabeça, O lobo e o Cordeiro, A cigarra e a formiga, O Saci Pererê, O pequeno Polegar, As babuchas de Abu Kasem, A história dos dois homens que sonharam, os poemas dos cordelistas, o repente dos repentistas, são entidades e narrativas que atormentam, entretêm e educam as gerações e as comunidades por onde vão passando, orientando a todos em condutas probas e saudáveis ao convívio coletivo.

Dos testemunhos literários dessas narrativas podemos perceber o lado mais oculto e sombrio da natureza humana. Neles podemos também fazer-nos  melhores, para encarar as inevitáveis tormentas, que também fazem parte do pacote de se estar vivo, num mundo cercado de tristes belezas.

Bem percebidos, os ensinamentos colhidos nessas histórias, lendas, fábulas e contos, serão capazes de dotarem às novas gerações de saberes elementares para a sua sobrevivência na comunidade, e para a sobrevivência da comunidade enquanto entidade agregadora, solidária e mantenedora da ordem social.

Mas se ignoradas, da forma que estão sendo no mundo atual, em nada podem ajudar as crianças, os jovens e os adultos que pretendem superar seus temores internos, contornar os seus dramas sociais, ou livrar-se dos vícios e das inconstâncias que nos sacodem de um lado a outro da existência, sem nos dar sossego.

As mensagens ocultas, que nos chegam nas vozes mais sabias do passado, conduzem-nos, mais seguros pelas florestas escuras. Vai daí que não podemos desperdiçar esse guia confiável e experimentado que são as histórias populares. Esta era a conclusão do maior folclorista brasileiro, Câmara Cascudo. É a cultura popular na sua dimensão mais lúdica, a ferramenta mais eficaz na orientação do homem, perdido em terras estranhas.  

Infelizmente, essas histórias, continuam a serem tratadas como matéria decorativa para algum folclore barato, que pais, professores e autoridades políticas vão empregando para melhor desaperceber os que delas poderiam tirar proveito. Não fosse a Literatura Popular, encaradas com a obtusidade habitual dos que veem a cultura popular de forma tão apequenada, dariam a todos grandes lições. 


A liberdade ou do delírio literário de ontem e de hoje


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Stalin corrigia páginas e páginas de Gorki, metendo nas histórias o que o escritor não era “capaz” de meter. Quando não havia submissão às críticas do generalíssimo, os escritores soviéticos deixavam o mundo da literatura, para habitar o esquecimento siberiano. Alguns de lá trouxeram mensagens sobre os serviços de “reaprendizagem literária”.

Outros com menor sorte de reaver-se com a nova crítica, não chegaram tão longe, e antes mesmo de sentirem as lições transformadoras da estética stalinista, encontraram com o barqueiro Caronte, que na época, trabalhou em regime de serviço extra, para dar conta dos enviados pelo governo do povo, à mais nova morada dos escritores.

Na China o camarada Mao não fez por menos que seu colega. Querendo emendar o que chamava de “desvio burguês” que empestava a literatura chinesa de então, o grande líder, que também sabia tudo de literatura, correu com os escritores para os rincões chineses, onde eles puderam depurar a criatividade, enquanto atolavam as mãos nos arrozais e fertilizam as suas novas consciências com esterco, ao lado dos verdadeiros artistas da pátria, o povo.

O barbudo cubano aprendeu as lições de seus antecessores político-literários. Depois de derrubar o ditador Fulgêncio Batista e instalar um regime de igualdade social, ele se apercebeu que, o seu regime seria, tanto mais vigoroso e duradouro, quanto menos escritores canhestros estivessem a entulhar a literatura de dizeres e fazeres que nada serviam a emancipação do povo. Com ares senhoriais ele construiu as casas de correção, em regime interno, onde os escritores aprendiam que não se podia querer tudo e mesmo assim estar de acordo com o novo pensamento.

De tempos em tempos uma nova onda reconduz os literários ao bom caminho. Não temos mais os líderes da envergadura dos grandes comunistas no leme de nossa precária embarcação. Mas quis a sorte, que em meio a escassez de timoneiros tarimbados, uma outra força viesse ao nosso encontro, e nos reconduzisse às históricas políticas educativas de instrução literária. Essas novas forças atendem por variados nomes. Em comum, elas possuem o ímpeto dos timoneiros do passado de devolverem ao curso certo, as histórias que os literários vão delirando.


Mais-valia



 Foto: Dani Shitagi
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Uma lógica perversa vem reduzindo todas as coisas ao sagrado critério da funcionalidade. Da arquitetura moderna e seus discursos sobre a praticidade do meio, às escolhas paternas de escolas de músicas para os filhos, porque estas desenvolvem o raciocínio lógico; a arte de nosso tempo sucumbiu ao discurso do utilitarismo e só é consumida se "servir para alguma coisa”. O que conta mesmo nas artes de hoje são apenas os seus aspectos práticos, funcionais e utilitários.

E quem diz funcionalidade na arquitetura e na música diz literatura, cinema. Basta ver nas escolas como o cinema foi apequenado. Hoje assiste-se um filme apenas para que este aluda a um assunto que se quer discutir. Nas universidades, a literatura deixou de ser o elã despretensioso, para rebaixar-se aos discursos panfletários de moralistas.

A ninguém é suposto a ideia de que a escolha de uma leitura ou de um filme se dê pelo mero prazer subjetivo que este provoca. Aos discursos utilitaristas é preciso algum valor aderente ao objeto artístico para que esse adquira legitimidade. Mais não é isso que realmente torna a arte valioso. Todas as vezes que predominar o fim na arte, escreveu Kant, teremos “beleza aderente” a obra. Entenda-se fim aqui como aquilo que têm utilidade prática na vida. Quando não há predominância do fim, temos “beleza livre”, desinteressada.

E é a esse último modo de ver a arte, privada de interesse, que a torna indispensável. Sem estar sujeita a priori a imposições de conteúdo, forma e outros condicionantes, a arte se basta. Nessa concepção ela não serve para nada, e quanto menos servir para alguma coisa mais valiosa será. Não se reduzindo a uma realidade circunstancial a arte livre dos conceitos utilitaristas, contribui para formar uma imagem do mundo, das pessoas e das relações, tão complexas, em sentido universal.