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Desobediência civil



O demencial modo de vida americano, calcado no trabalho para o consumo (incensado como modelo de civilização e querido por todas as sociedades modernas) teve em Henry David Thoreau a mais franca das oposições. Sobre os escritor de Thoreau basta dizer que influenciou o pensamento pacifista de Gandhi e fundou as bases da consciência ambiental contemporânea. Seu livro - Walden ou, A Vida nos Bosques - é um manifesto contra a sociedade industrial e um libelo contra o consenso do American Way of life. Leitura obrigatória para quem pensa o mundo sem porteiras.

"Fui para os bosques viver de livre vontade,
Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!"


— Thoreau

O popular no erudito

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Em todas as épocas, a cultura popular nutriu com um veio riquíssimo o manancial que alimentou a genialidade de grandes poetas e artistas de todo o mundo. Do Renascimento com Rabelais, Shakespeare, Cervantes, passando pelo Neoclassicismo inspirado nos mitos gregos, do Romantismo até o Modernismo nenhum movimento literário ignorou as contribuições da cultura popular. Incorporando elementos do folclore e da fala regional, fundindo imagens originais, ritos e lendas, a literatura dos grandes mestres perenizou as grandes manifestações culturais e de quebra vitaminaram com a força da imaginação venerável dos povos, a sua própria literatura. A recente reedição das obras completas do gaúcho Raul Bopp atesta a força da cultura popular e sua permanência na cultura como um todo. Bopp é autor do poema épico Cobra Norato (1931), inspirado em uma das mais conhecidas lentas do folclore amazônico. Esse poema, segundo Drummond, é um dos grandes projetos poéticos do modernismo Brasileiro. Alguns atribuem a ele o feito de ligar o movimento Modernista ao restante do Brasil.

A Metamorfose em versão de cordel

A releitura de João Gomes de Sá vai além das preocupações com a forma. Aliado à melhor tradição poética da literatura de cordel, que tem em Leandro Gomes de Barros seu maior expoente, Gomes de Sá, consegue recriar a atmosfera claustrofóbica e de emparedamento dos homens em meio às exigências de um mundo insensível e cada vez mais desumano.

Que profissão cansativa
Remuneração ruim!
Eu vou pedir demissão
Senão será o meu fim!
Mas não faço esse pedido,
Pois tenho compreendido:
Todos dependem de mim!

(...)

É o desafio maior
Viver em sociedade,
Pois todos vivem somente
A individualidade,
Sobretudo quando o ter
Se sobrepõe sobre o ser
Assassinando a igualdade.

Digna de nota também é a insubmissão do autor Gomes de Sá ao texto original. Com a convicção de quem sabe que nenhum texto adaptado é inteiramente fiel à sua fonte, ele toma a liberdade de intervir na história, dando a ela uma pitada de Nordeste ao que ela tem de árida e insólita. Vejam como exemplo a estrofe em que o personagem Gregor Samsa, em um pequeno vislumbre de liberdade, sai de sua angústia física da única maneira que lhe é possível: pela imaginação.

Com cuidado especial,
Deixou a imaginação
Viajar por muitos mares,
Cidade e também sertão.
Comentou: — Não há imposto
Para impedir o meu gosto
De voar na ficção.

Essa releitura é obrigatória para todos os amantes da boa literatura.



A Divina Comédia em versão de cordel

Ao abordar temas tão diversos como religião, sociedade, política e moral, a obra de Dante tornou-se uma fonte inesgotável para pintores, escultores, músicos e muitos outros artistas. Tão variados quanto os temas são as versões que já se fizeram até aqui dessa obra. Já era hora de esse clássico universal ganhar, também, a sua versão em cordel. Essa tarefa foi abraçada pelo poeta Moreira de Acopiara, artesão das palavras, que encanta e diverte semeando versos como quem planta um jardim de emoções.

Moreira de Acopiara nos conduz pela odisseia de Dante, desbravando as regiões do Inferno e Purgatório, até alcançar o Céu, onde é aguardado por sua amada Beatriz. O início da obra ocorre com os versos que descreve o poeta Dante, desorientado e frustrado, depois de muito caminhar pela vida:

Pelos caminhos da vida,
Depois de tanta procura
E frustrações que deixaram
Minha alma em grande amargura,
Me encontrei perdido um dia
No meio de selva escura.

Acossado por feras, Dante é resgatado por Virgílio que o conduz pelo Inferno e Purgatório até o entregar a “espírito mais digno”. Inquieto, Dante quer saber por que Virgílio saiu de sua morada etérea para socorrê-lo nesse momento de amargura:

Disse Virgílio: “Não temas,
Pois se vim em teu encalço
Foi mandado pelo amor
Que não consegue ser falso
E só deseja livrá-lo
Do perigo e do percalço.


Definitivamente, essa é uma obra imperdível.


Elogio às Bibliotecas

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Entendo que as pessoas apreciem e até exaltem as livrarias. Elas são realmente maravilhosas. Mas acho que o melhor lugar para formação de um leitor se encontra nas bibliotecas. Bibliotecas que lamentavelmente sofrem de desprestígio constante. As pessoas reclamam que não leem, por não terem livrarias em suas cidades, quando essas estão cheias de bibliotecas. Enquanto as livrarias fetichiza o livro numa relação comercial, as bibliotecas dispensam essa dependência e se dão de forma mais intima e gratuita, estabelecendo o que me parece ser um vínculo mais pura e genuíno com o livro. Nas bibliotecas os livros deixam de ser um objeto avaliado pelo valor e passa a integrar com o leitor uma relação de afeto que dura toda a sua vida.

Fotos: Recém inaugurada Biblioteca José e Gita Mindlin.

Na fachada da biblioteca está uma frase de José Mindlin que diz: "NÃO FAÇO NADA SEM ALEGRIA". Bela lição.

O Poeta enjaulado

O Relógio

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.
(...)

João Cabral de Melo Neto 


Corre a notícia de que ele era refratário aos transbordamentos dos sentimentos. Creio em parte. Sua forma poética bem regulada e contida, por vezes sugere essa impressão. Mas ela só ocorre ao leitor desatento. Ao leitor acostumado. Ao leitor novilho. O leitor cabralino é de outra ordem. É alguém que se detém a palavra e não escorre por ela.


Seremos eternamente gratos a João Cabral por tudo o que ele representou para a nossa poesia.

O declínio da crítica

Ao pensador de múltiplos saberes e larga tradição cultural, os jornais de hoje, assim como acontece com as tevês, preferem, por razões óbvias, ter como crítico o leitor impressionista e opinativo de primeira hora. A relativização da crítica desqualificou o papel de mediador do crítico entre o público e a obra e teve como principal efeito um rebaixamento do debate qualificado dos bens culturais produzidos nas últimas décadas. "Tipo assim, fantástico" , “adorei”, “desempenho magistral”, "curti muito" são algumas das novas e respeitadas contribuições do espírito renovador do homem público. O sintoma mais evidente desse fenômeno, que não atinge somente o espaço da cultura, mais também se estende por outras áreas como, a política, religião, esporte e tantos outros espaços de debate; foi que com o banimento do crítico, como alguém que desentranhar do texto noções insuspeitas e clareia zonas obscuras das obras, investindo estudo e fidelidade ao ofício, foi à tendência de enfraquecer os debates e aniquilar do espaço público o espírito crítico qualificado. Em razão disso a indústria cultural, quase sempre molestada com as insistentes intervenções críticas, conquistou o cenário perfeito para proliferação de seus ideais de transformar a cultura em entretenimento vazio, mas muito rentável.  

Triunfalismo mercadológico



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Somente ontem à noite pude assistir na integra a entrevista do escritor Peruano Mario Vargas Llosa ao Roda Viva. Adoro a literatura do Llosa, tenho-a como uma de minhas favoritas. Para mim ele é um intelectual completo, daqueles que não fogem as discussões mais espinhosas de seu tempo e cuja disposição para questionamentos parece ser sempre incansável. No mundo de pouco ou nenhuma criticidade, sua presença no cenário social, agitando e insuflando debates garante a permanência de uma ambiente menos bucéfalo. Uma coisa, no entanto, me inquieta nele, a sua reverência ao Capitalismo e ao Neoliberalismo como modelos econômicos e sociais capazes de resgatar ao homem alguma dignidade. Essa postura panfletária soa ainda mais contrastante quando sabemos de sua disposição para combater o rebaixamento da arte contemporânea e sua espetacularização. Seu mais recente trabalho, La Civilizacion Del Espectaculo atestam essa militância contra a banalização das artes e o triunfalismo mercadológico. A ele não parece supor que uma e outra coisa sejam indissociáveis. Seguindo apenas a sua implacável rejeição à ordem socialista, Vargas Llosa parece ter esquecido que a civilização na qual as mercadorias assumiram o comando das coisas, dos preços, dos valores, aviltando todas as relações, também se apoderou das artes e a está rebaixando a níveis desfibrados. 

Antologia Falhada

Encontrei hoje numa livraria da USP uma antologia da poesia portuguesa contemporânea. Corri avidamente para o exemplar. Antes de desembolsar o valor cobrado pelo livro, tomei o cuidado de buscar no sumário os autores elencados para composição do panorama. Como não encontrei qualquer menção ao Henrique Fialho devolvi o livro a estante. Uma antologia que se preze sobre a poesia lusa, não pode ignorar a presença desse autor. Em qualquer recolha que se faça sobre a contemporaneidade poética o Henrique Fialho é presença indispensável, ou isso, ou a condenação do livro ao encarceramento das estantes.  

Academia de ilusões e a estupidificação coletiva

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Um fato que sempre me espantou na academia, é que ela há muito tempo, deixou de influenciar a sociedade para assumir passivamente e de forma muitas vezes serviu às vulgaridades da vida moderna. Não é muito difícil encontrar professores que insistem, talvez pela obtusidade crônica em que vivem, em dizerem que os fast-food televisivos não são danosos à aprendizagem e que eles não comprometem a qualidade de pensar e agir dos alunos. Esse pensamento, baseado no princípio do multiculturalismo, acabou por lançar na vala comum todos os critérios que balizavam a qualidade do ofício artístico. Em contraposição, ao exercício salutar do diálogo com os objetos oferecidos como artísticos, equivocadas formas de qualificação passaram a dominar o pensamento acadêmico. O neurocientista argentino, naturalizado brasileiro, Iván Izquierdo discorda da ingenuidade televisiva. Para ele, “ao apresentar informações prontas e digeríveis” a tevê reverte o processo de aprendizagem e compromete a memória. Ao eliminar a possibilidade de ordenação e criação através da interação com os objetos a tevê, que já oferece tudo pronto, desestimula inclusive a capacidade de memorização, comprometendo assim de forma maquiavélica gerações e mais gerações de jovens. Ao se tornar dependente de estruturas prontas e reconhecidas o nosso cérebro não cria mais os impulsos necessários para expansão das capacidades de armazenamento de novas informações. Temos aí uma porta aberta para demência, algo que qualifica muitos de nossos acadêmicos na atualidade. Num processo inverso, ao desse desserviço que nos presta a tevê, segundo o neurocientista, está a leitura. Para Izquierto a leitura é o melhor exercício para memória e expansão do conhecimento. Essa constatação, diante de um país que não ler, e de professores que não estimulam os alunos à leitura nos põe a pensar que a suinucultura alastrada pela tevê, rádio e outros veículos “culturais”, associado ao descaso acadêmico vitimarão indiscriminadamente todas as potencialidades humanas do nosso país por um longo período.  

Impostura literária


Um amigo recomenda-me a leitura dos poemas de certo Georg Trakl. “Leia os poema, mas evite seguir seu comportamento”. Não que eu acredite que os poetas estejam acima do bem e do mal, ou que suas vidas sejam exemplos para grandes coisas, mas todas às vezes que a recomendação de um autor vem seguida de um lembrete para se distanciar de sua vida, sinto que irei gostar muito desse artista. 

Não conheço esse poeta e não sei o que ele fez de tão cabeludo para merecer a recomendação de não ser seguido. Porém, me encantam, os autores malditos. Para mim há mais verdades naqueles que molestaram as certezas estabelecidas - e sinto que essas sejam as razões de tantas recomendações - do que naqueles que insistem na fossilização da vida. 

Os poetas e artistas em geral tornaram-se suspeitos, por não aceitarem passivos os arreios tirânicos impostos a todos àqueles que sentem de forma insuspeita a sua vida. Miller, De Quincey, Plinio Marcos, Genet, Bukovsky, Baudelaire, Rimbaud, Sade, Maquiavel, Hilst, Pavese, Passolini, e outros tantos, estão no rol desses infratores da moralidade vigente. 

Feito kamikazes eles se atiraram contra as instituições fajutas implodindo seus valores de fachada. Só por pressentirem a vida, da forma que ela lhes apresentava, insuficiente; insubmissa e intolerável, eles foram tachados de rebeldes, desordeiros, malucos, bandidos e outros adjetivos e qualificativos assepticamente moldados para distanciar o público do contágio de suas pragas. 

Para mim, tantas reservas, tentam invisibilisar alguém que por sua postura inconveniente tornou-se pernosa non grata ao status quo, e por imerecida justificativa foram lançadas à margem da sociedade. A melhor maneira de desmoralizar alguém é sempre distorcer a sua imagem. Dar-lhe os predicados que justifiquem a distância das maleitas que carregam aqueles malfeitores, bandidos, escroques e degenerados. Os julgamentos morais quase sempre são feitos com base nas aparências. Infringir os limites estabelecidos pela sociedade pode render àqueles subversivos, transtornos para o resto da vida. 

Caçadas que não é de Pedrinho

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Com a devida vênia reproduzo o instigante texto recolhido aqui. Lane Donato é aluna do curso de Letras da UNEB, Campus VI Caetité.

 

Barthes nos diz que a língua é fascista.  Estamos presos às amarras lingüísticas e a todas as ideologias que por elas circulam, já que a língua é por excelência, o veículo das ideologias. Não somos livres! Mas o próprio Barthes nos ensina o caminho da liberdade: ‘trapacear’ com a língua - artifício que só conseguimos através da Literatura. 
 
Ao falar de nós e pra nós, nos fazendo passear por caminhos devolutos, experiências e dramas tão comuns à essência humana, a literatura aproxima o abismo existente entre a vida e o homem. Vida essa que ‘não nos basta’, mas que a literatura preenche, na medida em que saltamos para dentro da história usando o ‘pó de pirlimpimpim’ e nos apropriamos das personagens, de seus medos, anseios, esperanças, alegrias.   
 
Tenho sorte na vida... A minha infância foi uma floresta encantada e infinita. Por ela passaram lobos-maus, caçadores, sacis, iaras, príncipes, princesas! Sofri e senti medo da bruxa com o João e a Maria.  Aprendi com a Branca de Neve e os Sete Anões que com verdadeiros amigos é possível vencer as piores maldições- E  mais tarde ,  aprendi com O Pequeno Príncipe o valor de cada respiração , de cada amigo. Chorei agradecida.  Viajei com Gulliver... As histórias de Verne cultivaram em mim o gosto da liberdade. Descobri também que quando se quer voar, é preciso se arriscar a ficar tonta. E mesmo assim o vôo sempre valerá à pena. Já o amor ao vôo e aos passarinhos quem me ensinou foi o Manoel de Barros.  Foi o Manoel que também despertou a criança adormecida em mim. Manoel transformou-se no meu passaporte pra infância. Cresci e estudei com o Harry Potter em Hogwarts. Vi de perto as batalhas de Carlos Magno e seus pares de França. Conheci Lampião e seu bando nas trilhas do Cordel. E em cada linha, reconheci a voz de minha avó, seus causos e exemplos. 
 
Infelizmente nenhuma Sherazade me acalentou o sono com suas histórias fantásticas antes de dormir... Em compensação, tive um gênio e um tapete mágico de companhia por todo o caminho. Quando o Ali Babá disse o ‘abre-te sésamo’, eu estava lá. 
 
Pedrinho me mostrou a força que há na coragem. Emília que a gramática pode ser divertida e também ensinou a não me contentar com o dado e o pronto. E o Visconde, ah! O Visconde ensinou-me a amar a sabedoria. 
 
Ao lado da Florbela Espanca vivi os amar-gos de minha adolescência... Foi nessa mesma época que aprendi a conversar com Machado de Assis, Bentinho, Capitu, Brás Cubas...  Fui à cartomante e descobri com o Alienista, que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Foi também na adolescência que comecei a odiar o José de Alencar. 
 
Com Hamlet sofri as tensões, a crueldade da dúvida, a ânsia da vingança... Foi Hamlet que me contou que a melhor saída é tomar boas doses de coragem e lutar contra o mar de angústias que tantas vezes nos aflige em vez de abaixar a cabeça e sofrer as ferozes flechadas do destino.  Numa de nossas conversas, percebi que não devo me assustar com o mundo... pois ele é por vezes sem graça, sem alma... inútil! 
 
Lamentei a morte e o amor de Romeu e Julieta... No entanto, suspirei com uma das mais lindas declarações do universo..tanto que guardo até hoje alguns versos na memória e no coração..‘Ah, então, minha santa criatura, permita que os lábios façam o que as mãos fazem; tens de concordar comigo, em que elas se unem em prece, para que a fé não se transforme em desespero’ [p.43]. 
 
Com Otelo descobri como o ciúme corrói o mais nobre dos sentimentos... E a Bíblia acresceu-me a fé na vida, na nobreza do amor, em Deus e em mim. Ah! Tantas histórias assaltam-me a memória enquanto escrevo estas linhas! 
 
Tantos romances conseguiram chegar com profundidade em minha alma e mostrar-me, a face hedionda e sórdida do ser humano, as sinuosidades da vida - E a vida, vivida pelas páginas de um bom livro, apesar de todo o mau-agouro, desgosto, ainda nos diz, baixinho ao pé do ouvido: ‘— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai gostar. ’
 
Muitos outros personagens ainda convivem comigo. Ficam guardadinhos na caixinha mágica da memória, sempre dispostos a aconselhar-me e a ajudar-me quando me falta a palavra ou a coragem do gesto para expressar o que sinto. 
 
Eles entraram por uma porta que nunca mais se fechará: a porta do Sítio do Pica-pau Amarelo.  Desde o primeiro dia que abri um livro do Monteiro Lobato, nunca mais saí dele.  Mal sabia o Lobato que ao abrir-me as portas do sítio, abria-me as portas do universo. 
 
Cresci com Narizinho e Pedrinho.  Morei no sítio, passei pelo reino das águas-claras.  O sítio ainda hoje respira compassivo nas minhas memórias de infância.  Em nenhuma dessas memórias há lembranças racistas, preconceituosas. Pelo contrário, há apenas a nostalgia do gosto pela aventura, pelas histórias, pela palavra. 
 
Hoje leio mais uma vez a notícia de censura contra a obra de Monteiro Lobato e inevitavelmente pergunto-me: É Lobato o preconceituoso ou é a nossa sociedade hipócrita, que joga o problema para debaixo do tapete e finge que não existe racismo nesse país?    Ele escreveu apenas um discurso racista ou há outras dimensões em sua obra? Como limitar a leitura de uma obra literária?  Como subestimar a imaginação de uma criança? Quem é capaz de adentrar no imaginário de uma criança? 
 
É lamentável ver a violência contra a liberdade, a estupidez em tentar engessar o discurso literário e a tentativa de escamotear um problema de ordem histórica, política e social. Sim, o racismo sustenta as bases históricas de nossa sociedade e é o crime mais perfeito que cometemos.  Não é censurando e promovendo uma ‘ caça as bruxas’ às obras do Monteiro Lobato que resolveremos a situação. 
 
Ademais, duvido muito que uma criança teça um olhar tão limitado a uma obra literária. Porque estúpidos são os adultos, não elas. 

Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo

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Em 1904, Kafka escreveu a seu amigo Oskar Pollark: “No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito”.

Fonte: Uma história da Leitura de Alberto Manguel, p. 113

Genial e inesquecível - Os 100 anos do homem que inventou o teatro brasileiro

Nelson Rodrigues (1912 – 1980).
Fonte: Antônio Guerreiro/IstoÉ
Téo Junior [*]


Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar em Nelson Rodrigues. Eu tinha 17 anos, cursava o 3° ano do ensino médio na Bahia e, estando na casa de uma colega, ela me disse que naquela noite um homem iria decepar o órgão genital dele. Fiquei entre espantado e maravilhado com tamanha coragem. Perguntei-lhe: “Tem certeza, Zélia?”. Ao que ela me respondeu: “Eu já assisti. É hoje! Assista e você vai ver!”. Estávamos em 2002, e a Globo reprisava “Engraçadinha”, em comemoração aos 90 anos do “genial e inesquecível” Nelson Rodrigues – assim era a chamada. A minissérie que revelou Alessandra Negrini havia sido apresentada pela primeira vez em 1995.

Minha amiga referia-se à cena antológica em que Silvio, personagem de Ângelo Antônio, resolve adquirir uma navalha para mutilar-se, assim que descobriu que mantivera relações com sua irmã. Sempre acreditando que Engraçadinha fosse sua prima, não suportou o golpe da triste revelação. O pai deles manteve, num passado remoto, um relacionamento com a cunhada, mas tratou de abafar o caso – afinal, era um deputado. Silvio e Engraçadinha jamais souberam que eram irmãos.

Tive a oportunidade de ler todas as peças de Nelson, ver quase todos os seus filmes e posso asseverar: nenhum outro escritor, nacional ou estrangeiro, me fascinara tanto. Quando terminei a leitura de “A Mulher Sem Pecado”, cheguei à conclusão: é esse. Nunca mais o abandonei.

Nelson é tão fabuloso que a fortuna crítica em torno de sua literatura é quantitativamente superior a tudo o que ele escreveu ao longo de 40 anos de atividade incansável em jornais, no teatro e no cinema. Ao lado de Jorge Amado, foi o autor brasileiro mais adaptado para o cinema, com estrondoso sucesso de público. “A Dama do Lotação”, direção de Neville D’Almeida, é hoje a 3ª bilheteria do nosso cinema. Fica atrás somente de “Dona Flor” e “Tropa de Elite”.

Apesar de grande parcela de seus fãs preferir “Toda Nudez Será Castigada” (direção de Arnaldo Jabor), considerada a melhor adaptação dele para o cinema, nenhum outro filme rodriguiano impactou-me tanto como “Bonitinha, mas Ordinária” (refiro-me à versão de 1981, com Lucélia Santos, direção de Braz Chediak). O ser humano reduzido a um abutre, ao dinheiro que pode comprar tudo, ao apego excessivo às aparências, à humilhação sistemática que alguém pode impor àqueles que lhe são inferiores, ao seu ver, simbolizado na pessoa do milionário Heitor Werneck, mostraram-me um mundo vil, imundo, cuja moral vai se deslocando aos pouquinhos para o estado de putrefação. Resta ao espectador sofrer.

Sim, porque a literatura de Nelson Rodrigues não comporta a alegria nem a felicidade. O sexo, o amor, o casamento, a viuvez, a loucura – tudo está indissociável da felicidade. As personagens vivem mergulhadas em permanente estado de tensão. Acredito que Plínio Marcos, Fausto Woolf e Antonio Carlos Viana beberam da fonte de Nelson, a julgar pelos ótimos livros que publicaram.

Anarquizando geral a “sacrossanta” família brasileira – da mais pobre, como a de Silene em “7 Gatinhos” à mais rica, como a de Herculano em “Toda Nudez”, Nelson defendeu a importância de um lar asséptico. Gritando a infidelidade e exibindo no palco, sem máscaras, a prostituição e o que ela acarreta, Nelson valorizou a virgindade e o amor eterno. Escrevendo a respeito de patologias de foro íntimo, da corrupção moral dos homens, da política que fabrica canalhas, da banalização do sexo, do racismo (leia “Anjo Negro”), Nelson fora de um moralismo violento e feroz.

O homem que grande parte do País dizia ser “neurótico” e “tarado” disse, certa feita, que era contra a educação sexual na escola. “Educação sexual tem de ser dada por um veterinário a cabras, a bodes, a vacas. O ser humano não tem de ser educado para fazer sexo. O ser humano precisa ser educado para amar. Eu sou do amor eterno!”.

Nelson não era uma metamorfose ambulante. Ele tinha aquela velha opinião formada sobre tudo. Jamais será esquecido, inclusive pelos detratores do teatro dele.

Obrigado, Nelson Falcão Rodrigues, pelo bem que sua obra me fez.

* Téo Junior é crítico do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador desse blog.

Henrique Manuel Bento Fialho - Petardo anti-sonolência.

fonte da foto aqui
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Só há paz possível e algum alento à modorra cotidiana, na arte. Depois de uma semana sisífica volto a ler o Henrique M. Bento Fialho. Como sempre ele atira contra mim e as convicções bovinas um petardo anti-sonolência. Sua poesia é um despertar das ilusões, um chamamento às consciências. Vai dai que alguns, convictos panglosianos da normalidade social, não enxergarão grande coisa nesses versos. Tenho, porém comigo a plena convicção de que muitos daqueles que pressentem algo de tortuoso e desajustado na política, na sociedade e na cultura contemporânea sentirão neles uma verdade inconveniente. E são de inconvenientes contra as correntes que nos arrastam pela “torrente dos dias” que são feitos os versos desse português arisco ao convencionalismo. Ao contrário de seus compatriotas, Henrique suspeito de cada gesto da vida moderna. Sem maneirismo ou figuras obscuras sua poesia dispensa o vocabulário insólito “sobre amores-perfeitos,/ Cidades ardidas, noites melancólicas... para percorrer os caminhos da vida com a sinceridade que rareia em todas as esferas sociais. Implacável contra a complacência que reina nas relações humanas, Henrique, na contramão daqueles que não dispensam uma sinecura, sentencia: Prefiro um emprego honesto à suinicultura/ Dos salões nobres, das universidades vazias. Até conhecer a poesia do Henrique Manuel Bento Fialho eu não sabia que era possível escrever poesia com tanta agudeza e ferocidade de espírito.



Não quero ser poeta num país onde os poetas
Estão ao nível dos secretários de estado,
Escrevem com o giz remoído das unhas

Versos de encantar musas imberbes
E olham para o lado, fingindo que não vêem,
Sempre que passam pela própria sombra.

Prefiro um emprego honesto à suinicultura
Dos salões nobres, das universidades vazias,
Dos colóquios a meia-luz nos jardins da fundação.

Um emprego honesto pode ser: plantar
Cornucópias na testa do consumo, regar
Palavras a esmo, lavrar as alcatifas poeirentas

De uma livraria mainstream arrastando os pés
Das mesas carregadas de lixo, como arrastados
Vamos nós na torrente dos dias.

Ou talvez arrumar crises nas prateleiras da austeridade,
Enquanto do outro lado do mostruário
Os poetas do meu país escrevem sobre amores-perfeitos,

Cidades ardidas, noites melancólicas e coisas assim
Fodidas.

Útil e honesto - Montaigne

"É um erro julgar a beleza e a grandeza de uma ação pela sua utilidade e imaginar que devemos fazer e considerar honesto tudo o que é útil."


Montaigne, Ensaios III: Do útil e do honesto, p. 367.

A Crítica

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A nossa geração se recusa a dá atenção à crítica. Teatro, cinema, literatura e música rejeitam violentamente as observações e julgamentos desses investigadores que a cada dia somem dos jornais, revista e veículos mediáticos, para o limbo das discussões artísticas. Até gente civilizada não entende «para que servem» os críticos.  Tenho cá comigo uma opinião de que tudo isso se deve ao fato de que, uma estúpida e corrosiva ideia de que não há nada mais a se dizer sobre as coisas, associado à preguiça mental que papagueia a imaginação alheia e entronaram a banalidade, o fútil e o opiniático como valores insuperáveis, são algumas das razões do desprestígio da função crítica na nossa sociedade. Eu prefiro antes uma sociedade aberta à crítica, do que aquelas que, marginalizam homens e mulheres por não se darem facilmente por satisfeitas e insistirem em fazerem inconvenientes questionamentos onde a maioria via (ou fingia) um consenso. Muitas das noções que hoje damos por adquiridas foram formuladas pela crítica mais aguda. A crítica sincera é muito mais construtiva do que o elogio imerecido. Mas as pessoas preferem o inebriante perfume dos discursos panegíricos, as ásperas, mas honestas opiniões, que nem sempre estão em conformidade com o esperado, daqueles malditos transgressores do conformismo. 

A Civilização do Espetáculo

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No momento em que a cultura (essa ficção) se submete à tirania do entretenimento e as pessoas se dão em espetáculos grosseiros em todos os veículos “merdiáticos”, retrocedemos a uma cultura carnavalesca, onde tudo é embrutecido, banalizado, onde o que é espalhafatoso e estúpido tem muito mais chance de ser recompensado do que o verdadeiramente meritório. Estão aí os artistas fantoches, os programas de auditórios e jornalísticos comprometidos com o lucro, os realities shows da vida, que não nos deixam mentir que o homem moderno não passa de uma besta exibicionista. Qual de nós é capaz de negar diante de tantas evidências de que vivemos naquela época “em que tudo que repugna uma joia encontramos”, como escreveu Charles Baudelaire no seu poema de abertura do livro As Flores do Mal. E são assim que correm os dias. Nem mesmo a literatura escapa do exibicionismo que prostrou os artistas a vulgaridade e entronou o frívolo como o mais novo guia da manada. O que mais se vê por aí são poetas que abdicaram de qualquer postura independente e séria, para seguirem o jogo da moda. “Nos nossos dias” escreve Mario Vargas Llosa em seu mais recente livro La Civilización del Espetáculo (ainda sem tradução para o português) “o que mais se espera dos artistas não é o talento nem a destreza, mas a pose e o escândalo, os seus atrevimentos não são mais do que as máscaras de um novo conformismo”. Oprimido pelo curral das convenções, impulsionado pelos padrões do entretenimento, o artista contemporâneo, numa embaraçosa postura de submissão aos credos vigentes, não emprega o seu oficio em ações comprometedoras do gosto publico ou dos interesses da Indústria Cultural. As efemérides ditam os rumos das coisas e o gosto médio assegura a sua qualidade. Quem será capaz de se levantar e dar uma bofetada no gosto público?

Philip Roth vence o prêmio Príncipe das Astúrias das Letras

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A literatura contemporânea deve muito a esse senhor. Seus livros são qualquer coisa de excepcional. O melhor dele é sua capacidade de transformar situações insólitas, em acontecimentos tragicômicos de alta voltagem. Ri de si mesmo, e não se levar tanto a sério; talvez seja a sua forma particular de tentar entender o mundo perscrutando os seus limites. Fico feliz em saber que ele recebeu hoje o Prêmio Príncipe da Astúrias de Literatura.  Merecido prêmio. 

Sou fã do Roth... Adoro seu estilo literário. Gosto ainda mais de seu desapego aos modismos e enfrentamento das convenções. Enfrentamento que tem lhe rendido algumas polêmicas como aquela de 2011, quando a jurada Carmen Callil do prêmio Man Booker o acusou de sexista, machista e chauvista.... Quantos elogios. Essa senhora tão politizada, não chegou a arranhar o brilho literário que estava sendo julgado. Roth agora leva mais um prestigiado prêmio para casa. Será ele o próximo Nobel? Não creio. A academia Sueca não costuma premir o estilo literário, a inventividade ou a criatividade de qualquer autor, mas sim o engajamento político dos escritores, uma infelicidade. Roth não é o tipo político, ao menos não naquele estilo panfletário e espetacular.

Há mais verdades nas fábulas do que na vida real

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Como professor, o meu esforço tem sido mostrar aos meus alunos, que eles devem, em muitas circunstâncias, pensar e agir como crianças. Não parece, mas essa não é uma tarefa fácil. Não entendam crianças aí como um ser imaturo ou imberbe. Essa é uma versão criada pelos adultos, que frustraram como crianças, e se envergonham disso. Entendam crianças como, alguém que enxerga a vida como um livro aberto, cheio de possibilidades. 

A verdadeira criança é traquina, buliçosa e aventureira. Ela não pára de perguntar e viajar nas maravilhosas fantasias que encobrem o mundo racional. A criança é aquele ser que dar beliscões no cérebro dos adultos, com perguntas embaraçosas como essa: “se o homem espantalho e o homem de lata não tem boca, como eles podem falar”. A criança é aquele serzinho que assusta cotidianamente as palavras com frases desconcertantes: “o balão morreu por falta de ar” ou “as palavras que rimam são aquelas que não se dão bem com as outras?”, “Podemos ser astronautas e ilusionistas ao mesmo tempo?”. A infância, portanto, não é um estágio passageiro da vida, e sim, aquele momento em que toda uma vida pode caber num livro sobre, tigres, por exemplo. 

Fico frustrado quando meus alunos intentam me dissuadir da ideia de que os bichos não falam, ou de que fantasmas e casas mal-assombradas são coisas falsas, irreais e ilusórias. Os seres fantásticos existem na medida em que eles encenam ações prováveis e possíveis. Devemos aprender as lições de Polônio em Hamlet que disse que com: “a isca da falsidade apanha a carpa da verdade. Assim nós, os entendidos, usando de cautela e circunlóquios, chegamos ao caminho por desvios”. E assim age a fantasia. Por desvios na razão atingimos a verdade. Não é fantástico? Despidos de verdades, falseando, trapaceando, podemos descortinar o mundo e encarar com destemor os desafios da vida. Por isso não devemos duvidar da existência desses seres maravilhosos. Eles existem, são tão reais quanto os ensinamentos que eles ilustram. E tão vivos quanto os sentimentos que encarnam. 

Há mais verdade nas estórias fantásticas do que no mundo real. Não acredito, portanto, em alguém que não crer na existência do Saci Pererê, Ogro, Pinóquio, Bruxas, Duendes e principalmente me revolto contra aqueles que insistem em querer me convencer de que o Pequeno Polegar não existe. Ora, isso já é demais. Para mim essas pessoas é que vivem no mundo das ilusões e sofrem grave enfermidade. Eu tenho certeza da existência desses seres. E principalmente creio que não existe apenas um Pequeno Polegar, mas vários, todos eles espertos e ágeis como o que li no livro de Perrault.  

Não entendo como as pessoas podem se tornar tão racionais a ponto de negarem o óbvio ululante. Eu vejo alguns desses seres todos os dias. Convivo com eles. Conheço ao menos duas bruxas, um dragão e quatro princesas encantadas, todas aguardando serenamente o seu príncipe. Ainda não vi unicórnio, nem fadas, mas creio que isso não seja motivo para desacreditar em sua existência, eles estão por aí, é certo. De alguns desses seres sou muito amigo. Outros, assisto a distância, com medo do que eles possam me fazer. Nem todos são bons. Há que se ter cuidado com os seres fantásticos. Sou tímido, mas gostaria de navegar um dia com Simbad ou Gulliver. Já li muitas vezes as suas histórias e fiquei enlevado. Ficaria encantado em conhecer Lilipute de perto na nobre companhia de quem lá chegou primeiro e nos trouxe a notícia desse mundo tão surpreendente. Enquanto esse dia não chega vou traçando planos para conhecer IL BARONE RAMPANTE que me observa da estante, enquanto escrevo esse texto, doidinho para que eu o acompanhe em mais uma grande aventura.