Mostrando postagens com marcador Mundo Atual. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mundo Atual. Mostrar todas as postagens

Manipular imagens: Uma prática política

Alterar fotos para encenar realidades inexistentes é prática frequente de alguns fotógrafos. Essa alteração pode ser técnica, quando se manipula as imagens adulterando os conteúdos no processo de impressão, ou pode ser cênica, quando se mexe na cena que se vai fotografar sugerindo-lhe uma cena inexistente, mas de maior teor dramático e impacto. No excepcional O Instante Certo a escritora Dorrit Harazim nos apresenta alguns exemplos de fotógrafos que se notabilizaram para história com grandes trabalhos, mas que também eram manipuladores desavergonhados. Durante a Guerra Civil americana os fotógrafos Alexander Gardner, Mathew Bradey, Timothy O´Sullivan e Andrew Joseph Russel constituíam o quarteto que alimentava os jornais de imagens dos horrores do fronte. Não raro estes fotógrafos, escreveu Dorrit, “ajeitavam com a mão a realidade, recriando cenas para lhes insuflar mais impacto ou para compensar a limitação tecnológica e a dificuldade de chegar ao local no momento da ação”. Como algumas câmeras exigia exposição de até oito minutos “tornou-se pratica não pecaminosa recriar cenas das batalhas já ocorridas”. As imagens eram vendidas ao público como flagrantes reais da carnificina. Outro grande manipulador era o norte-americano Edward S. Curtis. No monumental registro das tribos indígenas sobreviventes aos massacres que dizimaram nações inteiras de povos nativos Americanos, ele tomava o cuidado de apagar dos registros as marcas da modernidade e do contato do nativo com o colono que pudesse macular o seu projeto de mapear índios autóctones. É celebre uma de suas fotografias em que ele apaga do interior de uma tenda de um velho líder indígena um relógio que estava ao lado dos índios e sugeria o contato dos índios com os homens brancos. Há também outra forma de manipulação. Durante o regime do “Grande Timoneiro” a Rússia Comunista viu uma forma de manipulação que se tornou comum. Membros do partido comunista Soviético eram  pouco a pouco apagados das fotos oficiais com Stalin à medida em que se tornavam desafetos do regime. Há uma foto famosa que mostra esse processo de apagamento da história. Na primeira foto vemos: Nikolai Antipov, Stalin, Sergei Kirov, Nikolai Shvernik, e Nicolay Komarov. A foto foi feita em Leningrado em 1926. Décadas depois os lideres à volta de Stalin foram pouco a pouco sento apagados das fotos oficiais até restarem apenas Stalin e Sergei Kirov. Hoje isso seria mais difícil de acontecer, mas há uma forma de manipulação que estar em curso e ganha mais e mais adeptos. Há sempre novas formas de manipulação. Agora os líderes decidem quando, onde e como são fotografados. Todos eles têm seus fotógrafos oficiais e não se deixam fotografar fora do script determinado por seus marqueteiros e publicitários. Uma imagem mal intencionada ou um deslize nas encenações programadas pode por a baixo todo um trabalho de construção de imagem pública. Ninguém quer ser apanhado em flagrante de si mesmo. As imagens construídas pelas cabeças dos marqueteiros são as únicas admissíveis pelos políticos atualmente. Assim sendo, os políticos passaram a ser os donos de suas próprias imagens não deixando margem à interpretações e miradas indecorosas de fotógrafos não alinhados aos seus propósitos. 

Admirável novo mundo



O advento da fotografia em massa contribuiu e muito para o abastardamento da fotografia. Antes as pessoas, pela raridade que era o acesso, faziam fotos procurando uma forma de expressão própria. Hoje o que mais vemos em termos fotográficos, é a tentativa das pessoas de copiarem umas às outras. Todos aspiram a ser pequenas Larissa Manoelas em posse de biquinho numa self, ou uma Kim Kardashian libidinosa, enfiada num biquíni cavado, porque assim se conquista mais likes. E são os likes que presidem a lógica que governa o sentido de qualidade de uma foto. Pouco importa o sentido de composição, a harmonia das cores, a originalidade do ângulo.Quanto maior a quantidade de likes, maior será o reconhecimento de que a foto possui algum valor. Isto sim é o que importa: os likes. Pelo visto a fotografia já viveu melhores dias.

(A)moral

Foto: Robert Mapplethorpe – Homem em terno de Poliéster ,1980.
.
Moral rígida e trabalho dignificador (entenda-se submissão canina à políticas semi-escravistas). Está é a receita completa para se dar bem na vida contemporânea. Todo o resto foi extirpado dos interesses sociais.

O monstro e o homem civilizado


.

Há tempos ouvi de alguns amigos, que sofriam com medo da escalada da violência na minha cidade, o pedido de que as autoridades públicas locais, interviessem no caos instaurado e providenciassem soluções imediatas. Para minha surpresa os amigos não pediam mais escolas, mais saúde, mais justiça social para todos. Não lhes ocorriam que a fonte da violência pudesse estar na ausência desses bens às comunidades mais fragilizadas, mas numa suposta degeneração moral de alguns, somente corrigida com o amparo de velhos métodos domésticos. Eles clamavam pela imediata vinda da polícia do cerrado. Queriam o que de mais truculento, torpe e desumano, pode haver em matéria de polícia e se negavam a acreditar em outras alternativas além dessa. A solução sugerida, como visto, era a instauração de uma força policial que todos reconhecem como desrespeitosa dos direitos humanos, mas acredita, mesmo assim, ser esta postura um dado menor, quando está em causa a "restauração da paz e da ordem". Paz à custa de cassetetes e coturnos não é paz. Um Estado civilizado responde as demandas com racionalidade e espirito moderno. Vejam o caso que noticiam hoje os jornais. Vem do norte, a notícia de que uma juíza norueguesa decretou justa, a causa do extremista Anders Behring Breivik que, acusa o Estado Norueguês de lhe implicar um regime prisional desumano. Breivik está em completo isolamento. Desde que sua mãe morreu há três anos ele não tem mais contato com ninguém. Todos vão se lembrar de Breivik, ele está preso por ter assassinado cruelmente 77 pessoas na Noruega em 2011. Fez isso movido pelo ódio de imigrantes e contra o multiculturalismo. De pronto uma onda de intolerância passou a criticar a ação da juíza. Nos jornais os comentários reprovam, peremptoriamente, a ação que deu causa ao pedido do assassino. Invocando uma pretensa justiça que pensávamos superada desde Hamurabe, seguem-se discursos não condizente com quem acredita realmente na paz e na justiça. “Haviam de lhe fazer o mesmo que ele fez aos 77 seres humanos.” Diz um dos que comentam a matéria dos jornais. “...esses facínoras do oriente e do ocidente estão muito acima do nosso fraco poder de exaltar ou de rebaixar... Mata 72 pessoas e ainda é indemnizado! Kkkkkk.”, outro não deixa por menos e emenda. Causa-me espanto que, em pleno século XXI, alguns ainda não entendam que o horror dessa besta humana, não pode ser respondido por uma nação civilizada, com outra força, senão a lei dos direitos humanos que ele ignora e combate. Quando a vida se bestializa, ao ponto de andarmos clamando nas ruas o sangue dos monstros, passamos e nem percebemos aos estados primitivos que nega-nos o direito de sermos chamados Humanos. Ao nos barbarizarmos como aqueles que causa-nos espanto pelo seu comportamento deplorável, descemos como eles ao rés do chão e não podemos pedir justiça, porque esta não entende esse chamado para fazer derramar o sangue de quem quer que seja. Independente do fato monstruoso que ele cometeu, e por mais repugnante e inquietante que possa ter sido o seu comportamento, nada justifica que um Estado civilizado, infrinja seus valores e sua moral para se ombrear com os que querem que o ódio vença todas as causas. Não é uma questão de somenos importância. É por aqui que começa a distância entre um monstro e um homem civilizado.

Vazio


O secretário do Alckmin que admira idealismo do Isis.

É somente em momentos de grave crise moral, ética e política, como a que vivemos agora, que o desarrazoamento, ganha respeitabilidade e sentimentos antes reprimidos encontram voz e profetas.  Tempos nebulosos nos esperam no futuro. Quem será capaz de nos livrar dessas ciladas? Apeguem-se aos botes e corram à popa que esse barco desgovernado, está em rota de colisão.  

Brandos costumes

Foto:   Ernst Haas


Ligo a tevê e ouço aos berros alguém dizer: “nós vamos descer o pau”. É o presidente de um sindicato, ameaçando um prefeito e os usuários de um serviço de transporte, do qual ele é contra. Mudo de canal. Dou com a notícia de que o filho de um ex-presidente, sugere em uma rede social que “o país vai pegar fogo” se o seu pai, que é hoje alvo de investigações sobre suposto favorecimento em negócios com empreiteiras, que estão sobre acusação de desvios de recursos públicos, continuar sendo investigado. Não suporto o que vejo e corro a outro canal. Aí encontro, possesso, um apresentador, falar estridentemente aos seus espectadores que, “bandido bom é bandido morto”. Fala isso, enquanto uma enquete, em baixo do vídeo, mostra os números de espectadores que concordam com ele subindo sem parar, na frente dos que esmorecem desencorajados pela pergunta, se são contra ou a favor das ideias tresloucadas do jornalista falastrão. Desisto da tevê. Vou à escola e encontro amigos professores que também não se constrangem mais em afirmar coisas, que há tempos achava superado pela posição que eles ocupam. Muitos pedem a expulsão de alguns alunos e dizem com todas as letras que alguns “não têm jeito” ou que estão ressentidos por não “poderem dar às crianças aquilo que os pais não deram: peia”. Ouço, leio e vejo todas essas barbáries e dou graças a deus que ainda bem que o poder dessas pessoas não está à altura de suas vontades, porque de outra sorte, o mundo seria um lugar dantesco, com gente a bater com paus em seus desafetos, queimar pessoas em desacordos com suas opiniões e castrar crianças por serem crianças e darem trabalho como as crianças costumam dar.  

Veneração

Quadro: A adoração do bezerro de ouro: Artista: Andrea di Lione
.
A julgar verdadeira a crença burguesa, que prega que cada um é aquilo que exibe, logo se questiona: que estranhos modos, esses de ser, devedor de culto a quinquilharias.  


Atento aos sinais

Raramente discuto política. Aprendi que essas discussões têm o desagradável efeito de provocarem, em quem nelas se envolve, uma pane instantânea na inteligência que, faz suspender o bom senso nuns, espumar as bocas noutros e provocar espasmos, semelhantes aqueles dos energúmenos tomados pela violência e o desequilíbrio. Desenganei-me de mais essa vaidade. Quando por acaso uma dessas discussões encontra o meu caminho, salto da calçada à rua e vou parar no outro lado, onde o passeio permite livremente que se suba ou desça, sem ter que dá com quem atravanque o caminho, com a boca ameaçadoramente babando certezas.  

Perguntas cujas respostas fazem pensar que o mundo é uma laranja podre.

Por que ao invés de bombardearem os alojamentos do ISIS, encravado no coração das cidades Sírias e Iraquianas, povoadas de gente inocente, a coalizão internacional não manda as suas bombas cirúrgicas, sobre os caminhões que, contrabandeiam petróleo e alimentam assim de recursos o exército de lunáticos?  

É que Narciso acha feio o que não é espelho.

.
.
Interessa-me a fotografia. Interessa-me como enigma, como código que desvela outros por sugestões. Gosto dela quando indiciam coisas para além do óbvio. Mas em tempos de imagens omnipresentes as fotografias banalizaram-se. Mais do que ver outras coisas, a fotografia atualmente, tornou-se um espaço para ver narcisisticamente. Com isso as imagens não apelam mais à memória ou ao sentido de decifração que a tornava atraente e atemporal. Hoje tudo já está dado. Esvaziadas de algum sentido simbólico, elas agora não passam de suportes que, estampam rostos e corpos, empenhados em simular vidas alheias. Foram assim assenhoradas por aqueles que não entendem por que não foram parar nas capas de revistas do jet set e estão por isso fingindo estar onde não estão, mas se supõem, pela auto ilusão das bruxuleantes imagens que reproduzem o que a realidade não foi capaz de fazer.  

Passageiro da agonia

Frame: Filme O Senhor das Moscas
.
Todos os anos vou duas ou mais vezes ao Goiás. Minha mulher tem parentes por lá. Gostamos de estar entre eles. São queridos, e muito caros aqui em casa, todos. Por isso, sempre que nos resta uma folga, ou quando se avizinham as férias, corremos à terra de Cora Coralina, só para estar entre aqueles que mais queremos bem. Nessas visitas, aproveitamos a ocasião para passear pela cidade e flertar com as livrarias que, abundam no centro. Mas sair pela cidade, em determinadas horas e locais, tem se tornado um desafio que exige esforço e nervos sobre-humano. Algo, que descobri na última viagem, a duras penas, não possuir.

Num sábado de folga dos deveres domésticos, e já um tanto cansado da rotina de casa, sai com minha mulher, suas duas sobrinhas pequenas, e minha comadre, que vive fora do país e vem todos os anos passar as férias conosco. Fomos ao shopping Flamboyant que fica no centro da capital goiana. Lá encontro sempre alguma promoção na FNAC ou na Saraiva, que são primores de livrarias. Depois de horas percorrendo os livros, resolvemos retornar ao lar, dado o adiantar das horas e a fadiga das crianças. Foi aí que saímos, inimaginavelmente, de uma realidade comezinha dos passeios familiares, para cair numa página de horror que bem poderia ter sido escrita por William Golding ou Anthony Burgess em alguns de seus livros despóticos sobre a raça humana.

Quando saltamos para dentro do ônibus, que nos levaria para casa, não imaginávamos que no ponto seguinte, ainda em frente ao shopping, viveríamos as piores horas de nossas vidas. De repente, quando o ônibus parou para dá lugar algumas pessoas, que deram sinal no ponto, fomos assaltados por uma horda de jovens, rapazes e moças, com idade entre 14 e 16 anos, não mais do que isso, que invadiram o ônibus forçando as portas e intimidando, aos gritos e socos na lataria, a todos que estavam ali dentro. Aterrorizados, passamos de passageiros à reféns, daqueles delinquentes juvenis, durante todo o percurso do Flamboyant até o terminal Praça da Bíblia, ponto de baldeação no transporte público de Goiânia. 

Entre gritos de “Ohhh!!!!! horrrorrr!!!!! É o bonde do terrorrrrrrrr!!!!!!” e outras bestialidades musicais que bem agradam a mentalidade doentia da nova geração, os menores passaram a arrancaram as luminárias do ônibus e com destreza de quem já há muito tempo pratica a mesma ação, abriram com desenvoltura as portas traseiras do ônibus, mexendo no mecanismo hidráulico que fica acima das portas. Com as portas escancaradas eles passaram a surfar, literalmente, sobre as luminárias, fazendo um estrepitoso barulho no asfalto enquanto o ônibus corria à noite Goiana. O motorista, refém como nós dos delinquentes, não esboçou nenhuma reação aos delitos juvenis. De dentro do ônibus os poucos passageiros que, não faziam parte daquele circo de horrores, se entreolhavam atônitos com tamanha estupidez. Acuados ficamos todos estupefatos com a ousadia e desrespeito daqueles jovens.

Entre o trajeto do pânico e a chegada ao Terminal Praça da Bíblia foram minutos, mas pareceram horas. As tenebrosas bestialidades juvenis nos fizeram saltar no terminal e seguir viajem em outro meio de transporte. Antes que a situação pudesse se complicar ainda mais, nos enfiamos no primeiro táxi que avistamos e largamos para trás os circo de horrores que aquelas crianças perpetravam. Depois da experiência macabra de ver tantos jovens se comportando como primatas, não quisemos pagar para ver aonde aqueles delinquentes poderiam no levar.

A perturbadora cena de selvageria que testemunhei naquela noite, me fez perceber que tocamos, definitivamente, o fundo do poço. O inalcançável mostro da desumanidade não é mais uma personagem de ficção cientifica a nos espreitar na tela do cinema ou nos acossar nas páginas de um livro. Ele temerariamente saltou essa barreira, e não podemos nos considerar desavisados, nem desentendidos dos horrores que a juventude de hoje vai maquinando. Há um bom tempo correm noticias de que ela anda desgovernada, assim como a sociedade que a gestou. Tanta bruteza e desdém pelo semelhante são sintomas de uma comunidade falhada que abandonou o seu futuro por não haver encontrado esperança no presente.

Por todos os cantos há sinais de que a vida em sociedade vai mal. 


Nunca foi tão fácil ser feliz... nunca foi tão difícil ser feliz.

Foto: Alberto Korda, La niña de la muñeca de palo. 1959.
.
Acreditando que o dinheiro, redime a meia-vida de frustrações que levaram, os pais de uma nova geração de jovens, dão às crianças de hoje, uma vida desafogada. Proporcionam-lhes mimos, impensáveis, há bem pouco tempo: viagens, carros, celulares caros, roupas de grife, festas e se silenciam quando eles elevam a voz ou se deslumbram feito marionetes pelos artificialismos da indústria cultural. Tanta mordomia, no entanto, parece não ter baldado os sentimentos de incompletude da juventude, que assim como a geração de seus pais sentem um vazio na existência. Parece, portanto, que a felicidade não pode ser reduzida apenas a uma questão econômica. Ela se insere, em outras ordens de valores, bem menos perecível, que os condescendentes regalos paternos supõem.


Asinina condição

.
Gostamos do que nos dá estatuto. Tanto pode ser uma roupa de marca, um smartphone no bolso ou um orgulhoso livro de sacanagens que ouvimos dizer que todos estão lendo e por isso achamos que merecemos também lê-lo, apesar de não gostarmos de ler muito. Mas isso não deveria ser assim. Todas essas quinquilharias, todos esses penduricalhos, todos esses imbróglios, não se constituem, realmente, num luxo verdadeiro. São antes a prova provada de nossa asinina condição de bestas, domesticadas pelo consumo irracional. Fossem mesmo importantes, todos esses bibelôs, traríamos a todos à felicidade. Porém, não é isso o que vemos.  

A cultura da não violência

.

“Temos que nos tornar a mudança que queremos ver”.
Gandhi

Quem não pressente, diariamente, que as sociedades desenvolvidas vão se erguendo sobre o desprezo dos valores comunitários, da solidariedade e do respeito ao outro? Num mundo ressecado pela competição e o individualismo, quase não há lugar para os melhores sentimentos humanos. O que impera, são rancores, ódios e sentimentos destrutivos de uns contra os outros, que põem o mundo em continuo pé de guerra. Falo assim, porque vejo, lá pela escola, todos os dias, atos de brutalidade gratuita, que vão se naturalizando, quando não deveriam.

Mas até hoje - e espero que isso nunca me aconteça - nenhuma das ameaças que ouço os alunos trocarem, nenhuma das barbáries ditas com ar de indiferença, nenhum dos destemperos testemunhados, ou dos atos de banalização da violência, foram capazes de me destituir a crença de que os homens são feitos da mesma matéria, e portanto, a aparente separação que os diferem, não passa, de um efeito das formas temporais. “A verdadeira realidade da humanidade”, escreveu Joseph Campbell, “está na unidade com todas as formas de vida”.

Isso significa dizer que, você e eu somos um só. Essa percepção do outro como uma parte de mim, e não como um outro indiferente, está nos faltando. A ganância do sentimento individualista nos cegou para essa nobre verdade. Precisamos urgente reaver essa percepção do mundo que restaura em nós o outro como uma parte infalível de nós mesmos.

Podemos começar aprendendo com os hindus, budistas e javanistas que há milênios, saúdam-se mutuamente com um gesto de contração das mãos sobre o peito; depois se curvam em reverência uns aos outros, enquanto pronunciam a palavra: NAMASTÊ. A palavra vem do sânscrito e significa: “o deus que me habita saúda o deus que te habita”. A dignidade desse simples gesto, expressa a grandeza de reconhecer no outro - pode ser um alguém, que vejo pela primeira vez, ou um ente querido - o reconhecimento de que os indivíduos, não me são indiferente, transparente ou invisível. Ao contrário, são seres superiores e que portanto merecem igual respeito, admiração e zelo. 


Tornar as coisas ordinárias

Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015
.

Há dias vi um registro fotográfico dos mais brutais. Tratava-se de um mergulho profundo nas mazelas vivida, por uma parcela significativa da população portuguesa nos dias atuais. 

Em pleno século XXI, nas zonas rurais do país que colonizou o Brasil, vivem milhares de despossuídos. A despeito das muitas virtudes, Portugal, lamentavelmente, ainda é um país pobre e injusto. E foram estes despossuídos e injustiçados, que o fotógrafo Armando Jorge, revelou num trabalho intitulado: Portugal Rural.

Muitos foram os que comentaram os registros do fotógrafo no facebook. Chamou-me porém, a atenção, o fato de que a grande maioria dos comentários, passavam ao largo da visão reveladora das péssimas condições de vida, de parcela de portugueses, que amargam as piores condições de vida que um ser humano pode suportar.  

Muitos mais foram aqueles que ficaram embeiçados pelo desempenho da câmara, pelo apurado enquadramento das paisagens, e pelas estéreis virtudes da técnica fotográfica mostradas pelo artista... O que significa que há quem apenas se preocupe com frivolidades e deixe que aquilo que é verdadeiramente importante lhe passe desapercebido.

A qualquer um, com alguma sensibilidade, saltaria aos olhos as evidências revoltantes, das vergonhosas condições de vida, impingida aos muitos portugueses, que vivem à margem das benesses do poder. Mas aos olhos dos basbaques, que povoam o facebook e vivem as mídias eletrônicas e os aparelhos tecnológicos com devoção, não lhes parecem anormais que homens e mulheres esfarrapados ainda façam parte do cenário social.

A estilização tecnológica redimiu da carneirada todas as inquietações e arrefeceu as mais dolorosas constatações.

Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015.

Doloroso vexame

Foto: André Kertész | Série On Reading
.
“Um homem tem mais o que fazer no mundo do que ler!” Ouço daqueles que desdenham da leitura. Falam-me assim esperando que eu reaja as suas provocações com ar solene de quem pensa em livros a toda hora, e não sabe fazer outra coisa na vida, a não ser gastar os olhos sobre o papel tingido a tinta preta. Admiro os livros. Sei lhes tirar as vantagens, que só eles, a sua maneira, podem me proporcionar. Não posso falar pelos outros admiradores de livros, que estão por aí, mas vou ao livro, porque sei nele apanhar grandes lições. Lições que se esfumam na vida real desbotada pelo condicionamento de um trabalho maçante que pouco ou nenhum espaço deixa para enxergar outras possibilidades de vida. A leitura de um bom livro permiti-nos dar à volta as ideias gastas pelo uso, e reformar, de inusitadas maneiras, as convicções inabaladas que, faziam de nós o eixo de rotação da terra. Todos que têm alguma coisa a mais à cabeça, além dos habituais enfeites que os médias lhes metem, também sabem das vantagens de dispensar algumas horas a admiração das histórias que os escritores criam. Aos outros não é suposto coisa alguma. Quando estão diante do desafio de estarem sozinhos consigo, tendo um livro à mão, acham-se inertes e sentem-se desocupados. E estar desocupado, num mundo que pede a todos que se ocupem, é um doloroso vexame, que a qualquer custo se deve evitar.


Tempos delirante


Foto: Elliott Erwitt
.
Entendo que as pessoas creditem ensinamentos, valores e outros fingimentos aos vídeos que coalham no WhatsApp. É que em nosso tempo é sempre preferível apegar-se a ilusões, do que se sentir sem valor de mercado, por não andar cultivando a última merdola da moda. 

Um mundo selvagem que não perdoa nem a infância

Foto: Urs Odermatt Windisch, 1958
.
.
Quando eu era criança os meninos e meninas adoeciam. Tínhamos perebas, ínguas, vermes, manchas embranquecidas nas unhas, que se dizia ser sinais de problemas no fígado. Verrugas espalhavam-se pelas mãos e atingiam os joelhos, dando aspecto asqueroso aos moleques mais travessos que se machucavam. Em casos mais graves, as crianças nasciam com problemas de ortopedia e tinham de usar umas botas esquisitas, que lhe davam um caminhar robótico.

Hoje as crianças também adoecem, porém, estão bem longe de sofrerem dos mesmos males da minha época. As crianças de hoje têm doenças com nomes esquisitos e sofrem de males da mente. Talvez por isso a especialidade médica que melhor as assiste, seja a psiquiatria. As crianças hoje sofrem de "hiperatividade", "déficits de atenção", "Aspergers", "autismo", “depressão profunda”, e outras perturbações correlacionadas. Antes desse novo tempo, cheio de novidade, jamais havíamos ouvido falar de psiquiatras.

Como curar essas moléstias? Em minha época tínhamos toda uma ciência popular a qual recorriam os pais para socorrerem as crianças dos seus pequenos males. Curávamos vermes entupindo a criança com semente de abóbora e depois fazendo com que ela sentasse de cócoras numa bacia d´água morna. Em poucas horas, verme algum seguia molestando os meninos bojudos. As verrugas eram facilmente removidas quando as crianças eram orientadas a não mais contarem estrelas apontando com o dedo para o céu. Agora, como é que se cura Aspergers? Tem cura essa doença? Quais as suas causas e por que as crianças são afetadas por ela?

Não sou nenhum especialista. Não tenho nenhuma autoridade para falar do assunto. Mas imagino que todos esses males não se deva a outra coisa, senão as pressões sociais as quais as crianças estão submetidas. Não há mais espaço livre para viver a infância. Nem bem nascem, as crianças já têm responsabilidades e lhes são exigidas que as cumpram. Sob pena de terem o seu futuro comprometido, pais zelosos empurram os filhos às aulas, que cada vez se iniciam mais cedo. Não contentes com essas horas de entrega aos estudos, quando os pequenos voltam à casa vindo das escolas, têm outras obrigações que os esperam. São levados ao cursinho de inglês, as aulas de natação, balé, música, teatro... nenhuma de suas horas são gastas com a tarefa de ser criança. Nenhum de seus momentos mais ternos são vividos com os pais. Antecipa-se o mundo adulto, com seus compromissos e responsabilidades cada vez mais cedo às crianças.  

Ontem como hoje, uma Igreja duas crenças.

Foto: Rogério Soares - Tríptico