Alterar fotos para encenar realidades
inexistentes é prática frequente de alguns fotógrafos. Essa alteração pode ser
técnica, quando se manipula as imagens adulterando os conteúdos no processo de
impressão, ou pode ser cênica, quando se mexe na cena que se vai fotografar
sugerindo-lhe uma cena inexistente, mas de maior teor dramático e impacto. No
excepcional O Instante Certo a escritora Dorrit Harazim nos apresenta alguns
exemplos de fotógrafos que se notabilizaram para história com grandes
trabalhos, mas que também eram manipuladores desavergonhados. Durante a Guerra
Civil americana os fotógrafos Alexander Gardner, Mathew Bradey, Timothy
O´Sullivan e Andrew Joseph Russel constituíam o quarteto que alimentava os
jornais de imagens dos horrores do fronte. Não raro estes fotógrafos, escreveu
Dorrit, “ajeitavam com a mão a realidade, recriando cenas para lhes insuflar
mais impacto ou para compensar a limitação tecnológica e a dificuldade de
chegar ao local no momento da ação”. Como algumas câmeras exigia exposição de
até oito minutos “tornou-se pratica não pecaminosa recriar cenas das batalhas
já ocorridas”. As imagens eram vendidas ao público como flagrantes reais da
carnificina. Outro grande manipulador era o norte-americano Edward S. Curtis.
No monumental registro das tribos indígenas sobreviventes aos massacres que
dizimaram nações inteiras de povos nativos Americanos, ele tomava o cuidado de
apagar dos registros as marcas da modernidade e do contato do nativo com o
colono que pudesse macular o seu projeto de mapear índios autóctones. É celebre
uma de suas fotografias em que ele apaga do interior de uma tenda de um velho
líder indígena um relógio que estava ao lado dos índios e sugeria o contato dos
índios com os homens brancos. Há também outra forma de manipulação. Durante o
regime do “Grande Timoneiro” a Rússia Comunista viu uma forma de manipulação
que se tornou comum. Membros do partido comunista Soviético eram pouco a pouco apagados das fotos oficiais com
Stalin à medida em que se tornavam desafetos do regime. Há uma foto famosa que
mostra esse processo de apagamento da história. Na primeira foto vemos: Nikolai
Antipov, Stalin, Sergei Kirov, Nikolai Shvernik, e Nicolay Komarov. A foto foi
feita em Leningrado em 1926. Décadas depois os lideres à volta de Stalin foram
pouco a pouco sento apagados das fotos oficiais até restarem apenas Stalin e
Sergei Kirov. Hoje isso seria mais difícil de acontecer, mas há uma forma de
manipulação que estar em curso e ganha mais e mais adeptos. Há sempre novas
formas de manipulação. Agora os líderes decidem quando, onde e como são
fotografados. Todos eles têm seus fotógrafos oficiais e não se deixam
fotografar fora do script determinado por seus marqueteiros e publicitários.
Uma imagem mal intencionada ou um deslize nas encenações programadas pode por a
baixo todo um trabalho de construção de imagem pública. Ninguém quer ser
apanhado em flagrante de si mesmo. As imagens construídas pelas cabeças dos
marqueteiros são as únicas admissíveis pelos políticos atualmente. Assim sendo, os políticos passaram a ser os donos de suas próprias imagens não deixando
margem à interpretações e miradas indecorosas de fotógrafos não alinhados
aos seus propósitos.
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Admirável novo mundo
O advento da fotografia em massa
contribuiu e muito para o abastardamento da fotografia. Antes as pessoas, pela
raridade que era o acesso, faziam fotos procurando uma forma de expressão
própria. Hoje o que mais vemos em termos fotográficos, é a tentativa das
pessoas de copiarem umas às outras. Todos aspiram a ser pequenas Larissa
Manoelas em posse de biquinho numa self, ou uma Kim Kardashian libidinosa,
enfiada num biquíni cavado, porque assim se conquista mais likes. E são os
likes que presidem a lógica que governa o sentido de qualidade de uma foto.
Pouco importa o sentido de composição, a harmonia das cores, a originalidade do
ângulo.Quanto maior a quantidade de likes, maior será o reconhecimento de que a
foto possui algum valor. Isto sim é o que importa: os likes. Pelo visto a
fotografia já viveu melhores dias.
O monstro e o homem civilizado
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Há tempos ouvi de alguns amigos, que
sofriam com medo da escalada da violência na minha cidade, o pedido de que as
autoridades públicas locais, interviessem no caos instaurado e providenciassem
soluções imediatas. Para minha surpresa os amigos não pediam mais escolas, mais
saúde, mais justiça social para todos. Não lhes ocorriam que a fonte da
violência pudesse estar na ausência desses bens às comunidades mais
fragilizadas, mas numa suposta degeneração moral de alguns, somente corrigida
com o amparo de velhos métodos domésticos. Eles clamavam pela imediata vinda da
polícia do cerrado. Queriam o que de mais truculento, torpe e desumano, pode
haver em matéria de polícia e se negavam a acreditar em outras alternativas
além dessa. A solução sugerida, como visto, era a instauração de uma força
policial que todos reconhecem como desrespeitosa dos direitos humanos, mas
acredita, mesmo assim, ser esta postura um dado menor, quando está em causa a
"restauração da paz e da ordem". Paz à custa de cassetetes e coturnos
não é paz. Um Estado civilizado responde as demandas com racionalidade e
espirito moderno. Vejam o caso que noticiam hoje os jornais. Vem do norte, a notícia de que uma juíza norueguesa decretou justa, a causa do extremista Anders
Behring Breivik que, acusa o Estado Norueguês de lhe implicar um regime
prisional desumano. Breivik está em completo isolamento. Desde que sua mãe
morreu há três anos ele não tem mais contato com ninguém. Todos vão se lembrar de
Breivik, ele está preso por ter assassinado cruelmente 77 pessoas na Noruega em
2011. Fez isso movido pelo ódio de imigrantes e contra o multiculturalismo. De pronto uma onda de
intolerância passou a criticar a ação da juíza. Nos jornais os comentários
reprovam, peremptoriamente, a ação que deu causa ao pedido do assassino.
Invocando uma pretensa justiça que pensávamos superada desde Hamurabe, seguem-se
discursos não condizente com quem acredita realmente na paz e na justiça. “Haviam de lhe fazer o mesmo que ele fez aos
77 seres humanos.” Diz um dos que comentam a matéria dos jornais. “...esses facínoras do oriente e do
ocidente estão muito acima do nosso fraco poder de exaltar ou de rebaixar...
Mata 72 pessoas e ainda é indemnizado! Kkkkkk.”, outro não deixa por menos
e emenda. Causa-me espanto que, em pleno século XXI, alguns ainda não entendam
que o horror dessa besta humana, não pode ser respondido por uma nação
civilizada, com outra força, senão a lei dos direitos humanos que ele ignora e
combate. Quando a vida se bestializa, ao ponto de andarmos clamando nas ruas o
sangue dos monstros, passamos e nem percebemos aos estados primitivos que
nega-nos o direito de sermos chamados Humanos. Ao nos barbarizarmos como
aqueles que causa-nos espanto pelo seu comportamento deplorável, descemos como
eles ao rés do chão e não podemos pedir justiça, porque esta não entende esse
chamado para fazer derramar o sangue de quem quer que seja. Independente do
fato monstruoso que ele cometeu, e por mais repugnante e inquietante que possa ter
sido o seu comportamento, nada justifica que um Estado civilizado, infrinja
seus valores e sua moral para se ombrear com os que querem que o ódio vença
todas as causas. Não é uma questão de somenos importância. É por aqui que
começa a distância entre um monstro e um homem civilizado.
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Vazio
O secretário do Alckmin que admira idealismo do Isis.
É somente em momentos de grave crise
moral, ética e política, como a que vivemos agora, que o desarrazoamento, ganha
respeitabilidade e sentimentos antes reprimidos encontram voz e profetas. Tempos nebulosos nos esperam no futuro. Quem será
capaz de nos livrar dessas ciladas? Apeguem-se aos botes e corram à popa que
esse barco desgovernado, está em rota de colisão.
Brandos costumes
Foto: Ernst
Haas
Ligo a tevê e ouço aos berros alguém
dizer: “nós vamos descer o pau”. É o presidente de um sindicato, ameaçando um
prefeito e os usuários de um serviço de transporte, do qual ele é contra. Mudo
de canal. Dou com a notícia de que o filho de um ex-presidente, sugere em uma
rede social que “o país vai pegar fogo” se o seu pai, que é hoje alvo de
investigações sobre suposto favorecimento em negócios com empreiteiras, que
estão sobre acusação de desvios de recursos públicos, continuar sendo
investigado. Não suporto o que vejo e corro a outro canal. Aí encontro,
possesso, um apresentador, falar estridentemente aos seus espectadores que, “bandido
bom é bandido morto”. Fala isso, enquanto uma enquete, em baixo do vídeo,
mostra os números de espectadores que concordam com ele subindo sem parar, na
frente dos que esmorecem desencorajados pela pergunta, se são contra ou a favor
das ideias tresloucadas do jornalista falastrão. Desisto da tevê. Vou à escola
e encontro amigos professores que também não se constrangem mais em afirmar
coisas, que há tempos achava superado pela posição que eles ocupam. Muitos pedem
a expulsão de alguns alunos e dizem com todas as letras que alguns “não têm
jeito” ou que estão ressentidos por não “poderem dar às crianças aquilo que os
pais não deram: peia”. Ouço, leio e vejo todas essas barbáries e dou graças a
deus que ainda bem que o poder dessas pessoas não está à altura de suas
vontades, porque de outra sorte, o mundo seria um lugar dantesco, com gente a
bater com paus em seus desafetos, queimar pessoas em desacordos com suas
opiniões e castrar crianças por serem crianças e darem trabalho como as
crianças costumam dar.
Atento aos sinais
Raramente discuto política. Aprendi que
essas discussões têm o desagradável efeito de provocarem, em quem nelas se
envolve, uma pane instantânea na inteligência que, faz suspender o bom senso
nuns, espumar as bocas noutros e provocar espasmos, semelhantes aqueles dos energúmenos
tomados pela violência e o desequilíbrio. Desenganei-me de mais essa vaidade. Quando
por acaso uma dessas discussões encontra o meu caminho, salto da calçada à rua
e vou parar no outro lado, onde o passeio permite livremente que se suba ou
desça, sem ter que dá com quem atravanque o caminho, com a boca ameaçadoramente
babando certezas.
Perguntas cujas respostas fazem pensar que o mundo é uma laranja podre.
Por que ao invés de bombardearem os alojamentos
do ISIS, encravado no coração das cidades Sírias e Iraquianas, povoadas de
gente inocente, a coalizão internacional não manda as suas bombas cirúrgicas,
sobre os caminhões que, contrabandeiam petróleo e alimentam assim de recursos o
exército de lunáticos?
É que Narciso acha feio o que não é espelho.
.
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Interessa-me a fotografia. Interessa-me
como enigma, como código que desvela outros por sugestões. Gosto dela quando
indiciam coisas para além do óbvio. Mas em tempos de imagens omnipresentes as
fotografias banalizaram-se. Mais do que ver outras coisas, a fotografia atualmente,
tornou-se um espaço para ver narcisisticamente. Com isso as imagens não apelam
mais à memória ou ao sentido de decifração que a tornava atraente e atemporal.
Hoje tudo já está dado. Esvaziadas de algum sentido simbólico, elas agora não
passam de suportes que, estampam rostos e corpos, empenhados em simular vidas
alheias. Foram assim assenhoradas por aqueles que não entendem por que não
foram parar nas capas de revistas do jet
set e estão por isso fingindo estar onde não estão, mas se supõem, pela auto
ilusão das bruxuleantes imagens que reproduzem o que a realidade não foi capaz
de fazer.
Passageiro da agonia
Frame: Filme O Senhor das Moscas
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Todos os anos vou duas ou mais vezes ao
Goiás. Minha mulher tem parentes por lá. Gostamos de estar entre eles. São
queridos, e muito caros aqui em casa, todos. Por isso, sempre que nos resta uma
folga, ou quando se avizinham as férias, corremos à terra de Cora Coralina, só
para estar entre aqueles que mais queremos bem. Nessas visitas, aproveitamos a
ocasião para passear pela cidade e flertar com as livrarias que, abundam no
centro. Mas sair pela cidade, em determinadas horas e locais, tem se tornado um
desafio que exige esforço e nervos sobre-humano. Algo, que descobri na última
viagem, a duras penas, não possuir.
Num sábado de folga dos deveres
domésticos, e já um tanto cansado da rotina de casa, sai com minha mulher, suas
duas sobrinhas pequenas, e minha comadre, que vive fora do país e vem todos os
anos passar as férias conosco. Fomos ao shopping Flamboyant que fica no centro
da capital goiana. Lá encontro sempre alguma promoção na FNAC ou na Saraiva,
que são primores de livrarias. Depois de horas percorrendo os livros, resolvemos
retornar ao lar, dado o adiantar das horas e a fadiga das crianças. Foi aí que
saímos, inimaginavelmente, de uma realidade comezinha dos passeios
familiares, para cair numa página de horror que bem poderia ter sido escrita
por William Golding ou Anthony Burgess em alguns de seus livros despóticos
sobre a raça humana.
Quando saltamos para dentro do ônibus,
que nos levaria para casa, não imaginávamos que no ponto seguinte, ainda em
frente ao shopping, viveríamos as piores horas de nossas vidas. De repente,
quando o ônibus parou para dá lugar algumas pessoas, que deram sinal no ponto,
fomos assaltados por uma horda de jovens, rapazes e moças, com idade entre 14 e
16 anos, não mais do que isso, que invadiram o ônibus forçando as portas e
intimidando, aos gritos e socos na lataria, a todos que estavam ali dentro. Aterrorizados,
passamos de passageiros à reféns, daqueles delinquentes juvenis, durante todo o
percurso do Flamboyant até o terminal Praça da Bíblia, ponto de baldeação no
transporte público de Goiânia.
Entre gritos de “Ohhh!!!!! horrrorrr!!!!!
É o bonde do terrorrrrrrrr!!!!!!” e outras bestialidades musicais que bem
agradam a mentalidade doentia da nova geração, os menores passaram a arrancaram
as luminárias do ônibus e com destreza de quem já há muito tempo pratica a
mesma ação, abriram com desenvoltura as portas traseiras do ônibus, mexendo no
mecanismo hidráulico que fica acima das portas. Com as portas escancaradas eles
passaram a surfar, literalmente, sobre as luminárias, fazendo um estrepitoso
barulho no asfalto enquanto o ônibus corria à noite Goiana. O motorista, refém como
nós dos delinquentes, não esboçou nenhuma reação aos delitos juvenis. De dentro
do ônibus os poucos passageiros que, não faziam parte daquele circo de horrores,
se entreolhavam atônitos com tamanha estupidez. Acuados
ficamos todos estupefatos com a ousadia e desrespeito daqueles jovens.
Entre o trajeto do pânico e a chegada ao
Terminal Praça da Bíblia foram minutos, mas pareceram horas. As tenebrosas
bestialidades juvenis nos fizeram saltar no terminal e seguir viajem em outro
meio de transporte. Antes que a situação pudesse se complicar ainda mais, nos enfiamos
no primeiro táxi que avistamos e largamos para trás os circo de horrores que
aquelas crianças perpetravam. Depois da experiência macabra de ver tantos jovens
se comportando como primatas, não quisemos pagar para ver aonde aqueles
delinquentes poderiam no levar.
A perturbadora cena de selvageria que
testemunhei naquela noite, me fez perceber que tocamos, definitivamente, o
fundo do poço. O inalcançável mostro da desumanidade não é mais uma personagem
de ficção cientifica a nos espreitar na tela do cinema ou nos acossar nas
páginas de um livro. Ele temerariamente saltou essa barreira, e não podemos nos
considerar desavisados, nem desentendidos dos horrores que a juventude de hoje
vai maquinando. Há um bom tempo correm noticias de que ela anda desgovernada, assim como a sociedade que a gestou. Tanta bruteza e desdém pelo semelhante são sintomas de uma comunidade falhada que abandonou o seu futuro por não haver encontrado esperança no presente.
Por todos os cantos há sinais de que a
vida em sociedade vai mal.
Nunca foi tão fácil ser feliz... nunca foi tão difícil ser feliz.
Foto: Alberto Korda, La niña de la muñeca de palo. 1959.
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Acreditando que o dinheiro, redime a
meia-vida de frustrações que levaram, os pais de uma nova geração de jovens, dão
às crianças de hoje, uma vida desafogada. Proporcionam-lhes mimos, impensáveis,
há bem pouco tempo: viagens, carros, celulares caros, roupas de grife, festas e
se silenciam quando eles elevam a voz ou se deslumbram feito marionetes pelos
artificialismos da indústria cultural. Tanta mordomia, no entanto, parece não
ter baldado os sentimentos de incompletude da juventude, que assim como a
geração de seus pais sentem um vazio na existência. Parece, portanto, que a
felicidade não pode ser reduzida apenas a uma questão econômica. Ela se insere,
em outras ordens de valores, bem menos perecível, que os condescendentes regalos
paternos supõem.
Asinina condição
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Gostamos do que nos dá
estatuto. Tanto pode ser uma roupa de marca, um smartphone no bolso ou um
orgulhoso livro de sacanagens que ouvimos dizer que todos estão lendo e por
isso achamos que merecemos também lê-lo, apesar de não gostarmos de ler muito.
Mas isso não deveria ser assim. Todas essas quinquilharias, todos esses
penduricalhos, todos esses imbróglios, não se constituem, realmente, num luxo
verdadeiro. São antes a prova provada de nossa asinina condição de bestas, domesticadas pelo consumo irracional. Fossem mesmo importantes, todos esses bibelôs,
traríamos a todos à felicidade. Porém, não é isso o que vemos.
A cultura da não violência
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“Temos que nos tornar a mudança que
queremos ver”.
Gandhi
Quem não pressente, diariamente, que as
sociedades desenvolvidas vão se erguendo sobre o desprezo dos valores comunitários,
da solidariedade e do respeito ao outro? Num mundo ressecado pela competição e
o individualismo, quase não há lugar para os melhores sentimentos humanos. O
que impera, são rancores, ódios e sentimentos destrutivos de uns contra os
outros, que põem o mundo em continuo pé de guerra. Falo assim, porque vejo, lá pela
escola, todos os dias, atos de brutalidade gratuita, que vão se naturalizando,
quando não deveriam.
Mas até hoje - e espero que isso nunca
me aconteça - nenhuma das ameaças que ouço os alunos trocarem, nenhuma das barbáries
ditas com ar de indiferença, nenhum dos destemperos testemunhados, ou dos atos
de banalização da violência, foram capazes de me destituir a crença de que os
homens são feitos da mesma matéria, e portanto, a aparente separação que os
diferem, não passa, de um efeito das formas temporais. “A verdadeira realidade
da humanidade”, escreveu Joseph Campbell, “está na unidade com todas as formas
de vida”.
Isso significa dizer que, você e eu somos
um só. Essa percepção do outro como uma parte de mim, e não como um outro indiferente,
está nos faltando. A ganância do sentimento individualista nos cegou para essa nobre
verdade. Precisamos urgente reaver essa percepção do mundo que restaura em nós
o outro como uma parte infalível de nós mesmos.
Podemos começar aprendendo com os
hindus, budistas e javanistas que há milênios, saúdam-se mutuamente com um
gesto de contração das mãos sobre o peito; depois se curvam em reverência uns
aos outros, enquanto pronunciam a palavra: NAMASTÊ. A palavra vem do sânscrito
e significa: “o deus que me habita saúda o deus que te habita”. A dignidade
desse simples gesto, expressa a grandeza de reconhecer no outro - pode ser um
alguém, que vejo pela primeira vez, ou um ente querido - o reconhecimento de
que os indivíduos, não me são indiferente, transparente ou invisível. Ao
contrário, são seres superiores e que portanto merecem igual respeito,
admiração e zelo.
Tornar as coisas ordinárias
Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015
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Há dias vi um registro fotográfico dos
mais brutais. Tratava-se de um mergulho profundo nas mazelas vivida, por uma
parcela significativa da população portuguesa nos dias atuais.
Em pleno século XXI, nas zonas rurais do
país que colonizou o Brasil, vivem milhares de despossuídos. A despeito das
muitas virtudes, Portugal, lamentavelmente, ainda é um país pobre e injusto. E
foram estes despossuídos e injustiçados, que o fotógrafo Armando Jorge, revelou
num trabalho intitulado: Portugal Rural.
Muitos foram os que comentaram os registros
do fotógrafo no facebook. Chamou-me porém, a atenção, o fato de que a grande
maioria dos comentários, passavam ao largo da visão reveladora das péssimas condições
de vida, de parcela de portugueses, que amargam as piores condições de vida que
um ser humano pode suportar.
Muitos mais foram aqueles que ficaram
embeiçados pelo desempenho da câmara, pelo apurado enquadramento das paisagens,
e pelas estéreis virtudes da técnica fotográfica mostradas pelo artista... O
que significa que há quem apenas se preocupe com frivolidades e deixe que
aquilo que é verdadeiramente importante lhe passe desapercebido.
A qualquer um, com alguma sensibilidade,
saltaria aos olhos as evidências revoltantes, das vergonhosas condições de vida,
impingida aos muitos portugueses, que vivem à margem das benesses do poder. Mas
aos olhos dos basbaques, que povoam o facebook e vivem as mídias eletrônicas e
os aparelhos tecnológicos com devoção, não lhes parecem anormais que homens e
mulheres esfarrapados ainda façam parte do cenário social.
A estilização tecnológica redimiu da carneirada
todas as inquietações e arrefeceu as mais dolorosas constatações.
Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015.
Doloroso vexame
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“Um homem tem mais o que fazer no mundo
do que ler!” Ouço daqueles que desdenham da leitura. Falam-me assim esperando
que eu reaja as suas provocações com ar solene de quem pensa em livros a toda
hora, e não sabe fazer outra coisa na vida, a não ser gastar os olhos sobre o
papel tingido a tinta preta. Admiro os livros. Sei lhes tirar as vantagens, que
só eles, a sua maneira, podem me proporcionar. Não posso falar pelos outros
admiradores de livros, que estão por aí, mas vou ao livro, porque sei nele
apanhar grandes lições. Lições que se esfumam na vida real desbotada pelo
condicionamento de um trabalho maçante que pouco ou nenhum espaço deixa para
enxergar outras possibilidades de vida. A leitura de um bom livro permiti-nos
dar à volta as ideias gastas pelo uso, e reformar, de inusitadas maneiras, as
convicções inabaladas que, faziam de nós o eixo de rotação da terra. Todos que
têm alguma coisa a mais à cabeça, além dos habituais enfeites que os médias
lhes metem, também sabem das vantagens de dispensar algumas horas a admiração
das histórias que os escritores criam. Aos outros não é suposto coisa alguma.
Quando estão diante do desafio de estarem sozinhos consigo, tendo um livro à
mão, acham-se inertes e sentem-se desocupados. E estar desocupado, num mundo
que pede a todos que se ocupem, é um doloroso vexame, que a qualquer custo se
deve evitar.
Um mundo selvagem que não perdoa nem a infância
Foto: Urs Odermatt Windisch, 1958
.
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Quando eu era
criança os meninos e meninas adoeciam. Tínhamos perebas, ínguas, vermes,
manchas embranquecidas nas unhas, que se dizia ser sinais de problemas no
fígado. Verrugas espalhavam-se pelas mãos e atingiam os joelhos, dando aspecto asqueroso
aos moleques mais travessos que se machucavam. Em casos mais graves, as crianças
nasciam com problemas de ortopedia e tinham de usar umas botas esquisitas, que
lhe davam um caminhar robótico.
Hoje as crianças
também adoecem, porém, estão bem longe de sofrerem dos mesmos males da minha
época. As crianças de hoje têm doenças com nomes esquisitos e sofrem de males
da mente. Talvez por isso a especialidade médica que melhor as assiste, seja a
psiquiatria. As crianças hoje sofrem de "hiperatividade",
"déficits de atenção", "Aspergers", "autismo", “depressão
profunda”, e outras perturbações correlacionadas. Antes desse novo tempo, cheio
de novidade, jamais havíamos ouvido falar de psiquiatras.
Como curar essas
moléstias? Em minha época tínhamos toda uma ciência popular a qual recorriam os
pais para socorrerem as crianças dos seus pequenos males. Curávamos vermes
entupindo a criança com semente de abóbora e depois fazendo com que ela
sentasse de cócoras numa bacia d´água morna. Em poucas horas, verme algum seguia
molestando os meninos bojudos. As verrugas eram facilmente removidas quando as
crianças eram orientadas a não mais contarem estrelas apontando com o dedo para
o céu. Agora, como é que se cura Aspergers? Tem cura essa doença? Quais as suas
causas e por que as crianças são afetadas por ela?
Não sou nenhum
especialista. Não tenho nenhuma autoridade para falar do assunto. Mas imagino
que todos esses males não se deva a outra coisa, senão as
pressões sociais as quais as crianças estão submetidas. Não há mais espaço livre para viver
a infância. Nem bem nascem, as crianças já têm responsabilidades e lhes são
exigidas que as cumpram. Sob pena de terem o seu futuro comprometido, pais zelosos
empurram os filhos às aulas, que cada vez se iniciam mais cedo. Não contentes
com essas horas de entrega aos estudos, quando os pequenos voltam à casa vindo
das escolas, têm outras obrigações que os esperam. São levados ao cursinho de
inglês, as aulas de natação, balé, música, teatro... nenhuma de
suas horas são gastas com a tarefa de ser criança. Nenhum de seus momentos mais
ternos são vividos com os pais. Antecipa-se o mundo adulto, com seus
compromissos e responsabilidades cada vez mais cedo às crianças.
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