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A salvação pelo consumo.

A sedução dos discursos consumistas enfeitiça de tal modo a vida, que as pessoas que não se enquadram no “esquema” da felicidade materialista, são vistas como antissociais, fracassadas e pintadas com qualificativos pouco nobres. Hoje em dia é quase um pecado mortal, a recusa aos apelos mercadológicos propagandeados pelos médias. O herético que professe o credo na descrença da salvação pelo consumo, vive as mesmas penitências dos pobres lançados à fogueira por rejeitarem a mentira como verdade. Não se admite, sob qualquer argumento ou peso dos fatos, a possibilidade de se viver de maneira tal, que nenhuma dessas coisas: carro, celular, roupa de grife e outros banlangandas, tenha qualquer valor de dignificação do homem, como querem fazer crer os incautos adoradores dos produtos da moda. 

As invasões bárbaras

Na época em que o cinema, ainda não havia sido colonizado por vampiros com espinhas no rosto, aprendizes de bruxaria e outras merdolas, podia-se desgastar os olhos nas salas escuras, sem temor de ter com isso, comprometido também, outras partes do corpo.

Narcisistas ou quando existir é uma angústia

Foto: André Gelpke, Christine au miroir, 1976
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Somos tão violentamente forçados a convivermos com imagens de realidades idealizadas, que não conseguimos nos encarar diariamente sem certos queixumes ao que de natural e incontornável há na natureza humana. Envelhecer virou um pecado. Ostentar rugas que já foi um sinal de respeito, hoje é um inequívoco índice de derrotismo e sinal de decadência. Tudo isso pode ser facilmente, segundo o credo publicitário,  redimido pelo consumo de cremes, dietas, roupas de grife, perfumes caros, carros, celulares, tintura, botox, e tantas outras fantasias encapsuladas. Enredado pelo discurso persuasivo da publicidade enganadora dos médias, traímos nossos mais puros valores e socorremos nossa auto-imagem do escárnio público, recorrendo aos artifícios cosméticos propagandeado como solução mágica de todas as nossas angustias e infelicidade. A publicidade, com seus artifícios de prestidigitador, nos seduzem com uma imagem destorcida de nós mesmos,  para depois nos vender a solução definitiva contra os males de existir. 

A fantasia da beleza

Foto: Alfred Stieglitz
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A mulher que oferta, ao espectador anônimo, o seio em branco e preto, traz também na face um olhar de indisfarçável enfado. A oferenda, portanto parece resignada. Mas não é a antítese que me atrai. E sim sua despreocupação em transmitir uma visão idealizada, glamorizada da figura feminina. Não há uma tentativa aqui de suprimir as imperfeições, tão desejadas no mundo de hoje. Elas, ao contrário, são convocadas e expostas sem pudor. O cabelo desgrenhado, o olhar macilento, que prenuncia antes o sofrimento represado do que a chama vicejante da juventude, os seios murchos, a roupa indefinida, mostram uma despreocupação em maquilar a mulher e redimi-la das inevitáveis agressões do tempo. O ideário aqui é outro. E, no entanto, essa imagem, que não nega os sucos do tempo, nem se preocupa em artificializar a beleza, ainda assim é bela em sua sujidade realista. O caráter da beleza talvez, como sugere a imagem, não esteja numa atitude postiça, mas sim em certa sinceridade realista que não nega da vida as suas impurezas e imperfeições. 

As ilusões perdidas

Foto: Lewis Hine


Não sou mais dado a ilusões e fantasias. Talvez por isso esteja confortável com a ideia de que o homem é uma causa perdida. Não há nisso qualquer pessimismo, fatalismo ou entreguismo como daqueles que pressentindo essas coisas adoece da alma. Prefiro antes pensar que seja apenas uma constatação - uma obviedade incontornável- que como tal faz parte da ordem contraditória da vida que não nos cabe questionar. A putativa natureza humana é coisa que não se extingue sem extinguir o homem. Não serei eu, portanto o responsável por azeitar as engrenagens que faz correr macia e sem sobressaltos as correias da existência. Haverá sempre modos de infringir a ordem, e não será esse, modo irresponsável, o verdadeiro motor da vida? Chega de metafísica. Basta-me agora andar por cá; fazer alguns amigos, estender a vista ao mais largo que puder, viver algumas aventuras, ler uns bons livros, semear uma família e o mais, prolongar essas horas antes que o ponteiro pare de bater. Se calhar, ainda bem sou capaz de voltar a ter ilusões, afinal todo produto da natureza é imperfeito.

Triunfalismo mercadológico



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Somente ontem à noite pude assistir na integra a entrevista do escritor Peruano Mario Vargas Llosa ao Roda Viva. Adoro a literatura do Llosa, tenho-a como uma de minhas favoritas. Para mim ele é um intelectual completo, daqueles que não fogem as discussões mais espinhosas de seu tempo e cuja disposição para questionamentos parece ser sempre incansável. No mundo de pouco ou nenhuma criticidade, sua presença no cenário social, agitando e insuflando debates garante a permanência de uma ambiente menos bucéfalo. Uma coisa, no entanto, me inquieta nele, a sua reverência ao Capitalismo e ao Neoliberalismo como modelos econômicos e sociais capazes de resgatar ao homem alguma dignidade. Essa postura panfletária soa ainda mais contrastante quando sabemos de sua disposição para combater o rebaixamento da arte contemporânea e sua espetacularização. Seu mais recente trabalho, La Civilizacion Del Espectaculo atestam essa militância contra a banalização das artes e o triunfalismo mercadológico. A ele não parece supor que uma e outra coisa sejam indissociáveis. Seguindo apenas a sua implacável rejeição à ordem socialista, Vargas Llosa parece ter esquecido que a civilização na qual as mercadorias assumiram o comando das coisas, dos preços, dos valores, aviltando todas as relações, também se apoderou das artes e a está rebaixando a níveis desfibrados. 

Não há limites para quem tem coragem

Fitzcarraldo - filme de 1982 do realizador Werner Herzog
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Alguns diretores são-nos mais queridos do que outros. As razões são que, uns nos dizem pouco, enquanto outros nos emudecem os sentidos ao transmitirem aquele "frisson nouveau", como bem expressou Victor Hugo ao ler pela primeira vez as Flores do Mal. Os filmes do alemão Werner Herzog estão para mim nessa segunda categoria. Longe de ser uma unanimidade do grande público os seus filmes distinguem-se dos blockbuster hollywoodianos pela capacidade incomum de narrarem histórias de homens em enfrentamento com o mundo selvagem e desafiador sem cederem aos perigos ou questionarem seus propósitos; um mundo maior do que suas forças podem vencer. Nessa luta, seus personagens nem sempre se dão bem. Nada mais ante-comercial do que histórias de “derrotados”. Porém, se enganam aqueles que pensam que os filmes Herzog fala sobre derrotistas e fracassados. Os resultados podem não serem o esperado. O que contam em seus filmes são as atitudes.  Num mundo de culta a celebridade o arrivista social é o modelo de homem ideal. As qualidades e os valores do homem moderno se medem pelo sucesso e as conquista. Os personagens de Herzog representam muito bem esses sentimentos de conquista, nos fazendo refletir acima de tudo sobre as suas conseqüências. Movidos pela ambição desmedida muitos entram num espiral febril de sonhos de vitória a qualquer custo. Pelo caminho encontram forças superiores, que os farão provar os limites de sua coragem ante os desafios impostos pela busca de realizações utópicas. A pretensa superioridade humana é posta à prova no embate contra as forças da natureza. Nessa luta os desfibrados e os desertores são os primeiros a caírem. Tombam contra o seu próprio peso e são arrastados pelas torrentes, vales, abismos e toda sorte de perigos os põem em marcha ré. No cinema Herzogiano a única celebração possível é àqueles destemidos aventureiros que se impõem desafios capazes de questionar os limites do homem. Com Herzog aprendemos que não há limites para quem tem coragem. 

Academia de ilusões e a estupidificação coletiva

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Um fato que sempre me espantou na academia, é que ela há muito tempo, deixou de influenciar a sociedade para assumir passivamente e de forma muitas vezes serviu às vulgaridades da vida moderna. Não é muito difícil encontrar professores que insistem, talvez pela obtusidade crônica em que vivem, em dizerem que os fast-food televisivos não são danosos à aprendizagem e que eles não comprometem a qualidade de pensar e agir dos alunos. Esse pensamento, baseado no princípio do multiculturalismo, acabou por lançar na vala comum todos os critérios que balizavam a qualidade do ofício artístico. Em contraposição, ao exercício salutar do diálogo com os objetos oferecidos como artísticos, equivocadas formas de qualificação passaram a dominar o pensamento acadêmico. O neurocientista argentino, naturalizado brasileiro, Iván Izquierdo discorda da ingenuidade televisiva. Para ele, “ao apresentar informações prontas e digeríveis” a tevê reverte o processo de aprendizagem e compromete a memória. Ao eliminar a possibilidade de ordenação e criação através da interação com os objetos a tevê, que já oferece tudo pronto, desestimula inclusive a capacidade de memorização, comprometendo assim de forma maquiavélica gerações e mais gerações de jovens. Ao se tornar dependente de estruturas prontas e reconhecidas o nosso cérebro não cria mais os impulsos necessários para expansão das capacidades de armazenamento de novas informações. Temos aí uma porta aberta para demência, algo que qualifica muitos de nossos acadêmicos na atualidade. Num processo inverso, ao desse desserviço que nos presta a tevê, segundo o neurocientista, está a leitura. Para Izquierto a leitura é o melhor exercício para memória e expansão do conhecimento. Essa constatação, diante de um país que não ler, e de professores que não estimulam os alunos à leitura nos põe a pensar que a suinucultura alastrada pela tevê, rádio e outros veículos “culturais”, associado ao descaso acadêmico vitimarão indiscriminadamente todas as potencialidades humanas do nosso país por um longo período.  

Democracia

fotografia da iemenita Bouchra Almutawakel
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Não acho a democracia o melhor dos modelos político. Não é o povo que realmente governa e decide. Grandes corporações e conglomerados empresariais manipulam aqui e alhures a marcha dos acontecimentos. Fazendo valer muito mais as suas vontades do que as necessidades do povo, eles desmentem, sem nenhum decoro, todos os dias, os fundamentos que sustem a ideia de que o regime existe para atender as demandas da maioria. Não precisa ter feito o Mobral para constatar que quem manda no mundo é o deus dinheiro. Os governantes de fato estão bem longe dos gabinetes políticos. Eles transitam por outra esfera social. A democracia é apenas uma festa popular engendrada nas massas para legitimar a farsa que é o governo do povo. Porém, diante da baixa qualidade dos regimes em oferta, não nos resta alternativa a não ser aguentar esse; pelo menos até que irrompa contra seu próprio peso os diques de contenção do inconformismo e faça surgir outro modelo, mais justo, menos fajuto. As notórias imperfeições da democracia, no entanto, são bem melhores, ou toleráveis do que as excrescências dos regimes totalitários, imperiais ou teocráticos que se alastram pelo mundo. 

A ingenuidade de não haver sido revelado às coisas



Esforçamo-nos a vida toda por sermos bons, justos e honestos. Mas vêm as circunstâncias e nos arranca todas as nossas melhores determinações. Azar, acaso ou injustiça social, chamemos do que quisermos, o certo é que estamos à mercê de forças que, às vezes, não podemos, mesmo querendo, controlar. Alguns de vocês devem estar agora mesmo recriminando-me por julgar essas qualidades circunstanciais. Por certo vocês, se assim me avaliam, as têm como inatas ou indivisíveis de alguns homens, mesmo em situações opressivas. Pensam que os índios, as crianças, os religiosos, os santos e outras qualidades de homem, espelham aqueles dotes que vocês tanto almejam crer indissociável da alma humana. Creem-na, como uma marca divina, a única talvez, que os permitam aliar o homem a um deus todo poderoso criador do céu e da terra, bem como desse ser que insiste, em todas as suas fraquezas e vilanias, em contradizer as qualidades supremas do criador que os moldou. Se sentem assim a bondade, a justiça e honestidade tanto melhor para vocês. Não têm que lidar com questionamentos morais, sociais que desmentem, ao menos naqueles que não creem nos seus pontos de vista, na ideia de que o homem seja uma fonte inesgotável de bondade a toda prova. Teorias religiosas que nos persuadam das qualidades que de certo não temos dão-nos o conforto de não pensarmos além delas. Se seguros estamos de nossas convicções e cremos nelas, mesmo que isso não nos dê prazer, ao menos nos evita grandes preocupações, e afasta-nos a presença da dor de pensarmos em coisas que não deveríamos pensar. Tudo, portanto, resumi-se a entrega de nossas inquietações às respostas mais fácies. 

É preciso mudar tudo para que nada mude.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
(...)

Os versos do poema de Camões se aplicam a quase tudo nessa vida, menos a uma esfera da nossa sociedade, que parece imune a todo tipo de mudanças: a política. Os líderes desse país encontraram uma maneira, muito eficaz, de emperrar as engrenagens da mudança e empenham todas as suas ações na manutenção de suas qualidades duvidosas. 

Caçadas que não é de Pedrinho

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Com a devida vênia reproduzo o instigante texto recolhido aqui. Lane Donato é aluna do curso de Letras da UNEB, Campus VI Caetité.

 

Barthes nos diz que a língua é fascista.  Estamos presos às amarras lingüísticas e a todas as ideologias que por elas circulam, já que a língua é por excelência, o veículo das ideologias. Não somos livres! Mas o próprio Barthes nos ensina o caminho da liberdade: ‘trapacear’ com a língua - artifício que só conseguimos através da Literatura. 
 
Ao falar de nós e pra nós, nos fazendo passear por caminhos devolutos, experiências e dramas tão comuns à essência humana, a literatura aproxima o abismo existente entre a vida e o homem. Vida essa que ‘não nos basta’, mas que a literatura preenche, na medida em que saltamos para dentro da história usando o ‘pó de pirlimpimpim’ e nos apropriamos das personagens, de seus medos, anseios, esperanças, alegrias.   
 
Tenho sorte na vida... A minha infância foi uma floresta encantada e infinita. Por ela passaram lobos-maus, caçadores, sacis, iaras, príncipes, princesas! Sofri e senti medo da bruxa com o João e a Maria.  Aprendi com a Branca de Neve e os Sete Anões que com verdadeiros amigos é possível vencer as piores maldições- E  mais tarde ,  aprendi com O Pequeno Príncipe o valor de cada respiração , de cada amigo. Chorei agradecida.  Viajei com Gulliver... As histórias de Verne cultivaram em mim o gosto da liberdade. Descobri também que quando se quer voar, é preciso se arriscar a ficar tonta. E mesmo assim o vôo sempre valerá à pena. Já o amor ao vôo e aos passarinhos quem me ensinou foi o Manoel de Barros.  Foi o Manoel que também despertou a criança adormecida em mim. Manoel transformou-se no meu passaporte pra infância. Cresci e estudei com o Harry Potter em Hogwarts. Vi de perto as batalhas de Carlos Magno e seus pares de França. Conheci Lampião e seu bando nas trilhas do Cordel. E em cada linha, reconheci a voz de minha avó, seus causos e exemplos. 
 
Infelizmente nenhuma Sherazade me acalentou o sono com suas histórias fantásticas antes de dormir... Em compensação, tive um gênio e um tapete mágico de companhia por todo o caminho. Quando o Ali Babá disse o ‘abre-te sésamo’, eu estava lá. 
 
Pedrinho me mostrou a força que há na coragem. Emília que a gramática pode ser divertida e também ensinou a não me contentar com o dado e o pronto. E o Visconde, ah! O Visconde ensinou-me a amar a sabedoria. 
 
Ao lado da Florbela Espanca vivi os amar-gos de minha adolescência... Foi nessa mesma época que aprendi a conversar com Machado de Assis, Bentinho, Capitu, Brás Cubas...  Fui à cartomante e descobri com o Alienista, que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Foi também na adolescência que comecei a odiar o José de Alencar. 
 
Com Hamlet sofri as tensões, a crueldade da dúvida, a ânsia da vingança... Foi Hamlet que me contou que a melhor saída é tomar boas doses de coragem e lutar contra o mar de angústias que tantas vezes nos aflige em vez de abaixar a cabeça e sofrer as ferozes flechadas do destino.  Numa de nossas conversas, percebi que não devo me assustar com o mundo... pois ele é por vezes sem graça, sem alma... inútil! 
 
Lamentei a morte e o amor de Romeu e Julieta... No entanto, suspirei com uma das mais lindas declarações do universo..tanto que guardo até hoje alguns versos na memória e no coração..‘Ah, então, minha santa criatura, permita que os lábios façam o que as mãos fazem; tens de concordar comigo, em que elas se unem em prece, para que a fé não se transforme em desespero’ [p.43]. 
 
Com Otelo descobri como o ciúme corrói o mais nobre dos sentimentos... E a Bíblia acresceu-me a fé na vida, na nobreza do amor, em Deus e em mim. Ah! Tantas histórias assaltam-me a memória enquanto escrevo estas linhas! 
 
Tantos romances conseguiram chegar com profundidade em minha alma e mostrar-me, a face hedionda e sórdida do ser humano, as sinuosidades da vida - E a vida, vivida pelas páginas de um bom livro, apesar de todo o mau-agouro, desgosto, ainda nos diz, baixinho ao pé do ouvido: ‘— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai gostar. ’
 
Muitos outros personagens ainda convivem comigo. Ficam guardadinhos na caixinha mágica da memória, sempre dispostos a aconselhar-me e a ajudar-me quando me falta a palavra ou a coragem do gesto para expressar o que sinto. 
 
Eles entraram por uma porta que nunca mais se fechará: a porta do Sítio do Pica-pau Amarelo.  Desde o primeiro dia que abri um livro do Monteiro Lobato, nunca mais saí dele.  Mal sabia o Lobato que ao abrir-me as portas do sítio, abria-me as portas do universo. 
 
Cresci com Narizinho e Pedrinho.  Morei no sítio, passei pelo reino das águas-claras.  O sítio ainda hoje respira compassivo nas minhas memórias de infância.  Em nenhuma dessas memórias há lembranças racistas, preconceituosas. Pelo contrário, há apenas a nostalgia do gosto pela aventura, pelas histórias, pela palavra. 
 
Hoje leio mais uma vez a notícia de censura contra a obra de Monteiro Lobato e inevitavelmente pergunto-me: É Lobato o preconceituoso ou é a nossa sociedade hipócrita, que joga o problema para debaixo do tapete e finge que não existe racismo nesse país?    Ele escreveu apenas um discurso racista ou há outras dimensões em sua obra? Como limitar a leitura de uma obra literária?  Como subestimar a imaginação de uma criança? Quem é capaz de adentrar no imaginário de uma criança? 
 
É lamentável ver a violência contra a liberdade, a estupidez em tentar engessar o discurso literário e a tentativa de escamotear um problema de ordem histórica, política e social. Sim, o racismo sustenta as bases históricas de nossa sociedade e é o crime mais perfeito que cometemos.  Não é censurando e promovendo uma ‘ caça as bruxas’ às obras do Monteiro Lobato que resolveremos a situação. 
 
Ademais, duvido muito que uma criança teça um olhar tão limitado a uma obra literária. Porque estúpidos são os adultos, não elas. 

Repasto Político

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Todos devem ter percebido como os candidatos são tratados nessa época do ano em que concorrem às eleições. Salvo raríssimas exceções, a maioria das pessoas os chama de ÍDOLOS. Meu ídolo pra cá, meu ídolo pra lá. Em nenhuma outra época do ano os políticos gozam de tanta estima do povo quanto nas eleições. Agradar um candidato, mesmo um de índole duvidosa, pode render alguns préstimos no futuro. Há sempre, portanto, a possibilidade de alguma púrpura, do manto de homens tão nobres, recaírem sob aqueles que não se furtam a demonstrarem o seu entusiasmo. Se o seus respeitados candidatos progridem, logo eles também estarão em marcha. “Não há poder” escreveu Victor Hugo, “que não tenha a sua corte. Não existe fortuna que não seja lisonjeada”. Outros vão mais longe e não se cansam de incensar o que eles insistem em chamar de qualidades exemplares para governança. Eu cá tenho minhas dúvidas de homens tão capazes. Para mim o que as multidões chamam, aos berros, de qualidades inequívocas para governança, não passa de ser ingenuidade daqueles que creem facilmente nas enganosas e sediciosas manobras perpetradas pelos gênios da propaganda. Nenhum político hoje se priva desse acessório, que de tão eficaz tornou-se, nas últimas eleições, item obrigatório para ter êxito nas campanhas eleitorais. Pode-se sempre contar com os seus truques de prestidigitador para iludir a malta. Assim ficam todos confortáveis fingindo miopia aguda e repastando os bocados de sua sórdida estupidez.  



A coragem adiada ou sob o abrigo do medo



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Talvez seja por meu ceticismo crônico, ou a simples falta de evidência. Seja lá qual a razão, o certo é que, não dou o menor ouvido às predicas de fim de mundo, que andam assustando as pessoas por aí. Ao se aproximar a apocalíptica data dos crentes do calendário maia, a única coisa que me acossa o juízo, é saber que esses messias, continuarão criando outras formas de dar cabo à existência humana, tão logo esse frenesi seja providencialmente esquecido. 

Estamos mesmo condenados a viver pelo medo, arrastando pelos séculos a firme esperança de prever ora em formatos de plantas ou tripas de animais, ou como agora nas fantasias de uma civilização pretérita, todas as nossas fraquezas de espírito e incertezas da alma. Não houve um único momento na história da humanidade em que os homens não deixaram de prever sinais de mal auguro em tudo. Investidos, como acreditavam, do mais puro sentimento, eles alardearam todo tipo de terror. Transformaram assim o mundo numa morada perpetua do medo. 

A julgar pelos presságios do passado, foi por um milagre, ou mero erro de cálculo - afirmam os empedernidos - que nos permitiu chegar, sãos e salvos ao presente. Porém, outros, abnegados visionários, muito bem dispostos, não perderam ainda, malgrado nossas esperanças, a determinação para consertar “todos os equívocos do passado”, e reinstauram, de tempos em tempos, uma nova previsão de catástrofe, que sucumbirá a humanidade, dessa vez sem sombra de dúvidas, para sempre. 

Enquanto muitos vão contando os fins dos dias eu passo as horas sonhando com as manhãs. Nada me demove a alegria de estar vivo e cultivando a vida. Quem deseja catástrofes vive em catástrofe. A única rota de colisão possível do homem é contra si mesmo e seus demônios. Em tempo, levo a vida desassombrado desses seres. 

A Crítica

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A nossa geração se recusa a dá atenção à crítica. Teatro, cinema, literatura e música rejeitam violentamente as observações e julgamentos desses investigadores que a cada dia somem dos jornais, revista e veículos mediáticos, para o limbo das discussões artísticas. Até gente civilizada não entende «para que servem» os críticos.  Tenho cá comigo uma opinião de que tudo isso se deve ao fato de que, uma estúpida e corrosiva ideia de que não há nada mais a se dizer sobre as coisas, associado à preguiça mental que papagueia a imaginação alheia e entronaram a banalidade, o fútil e o opiniático como valores insuperáveis, são algumas das razões do desprestígio da função crítica na nossa sociedade. Eu prefiro antes uma sociedade aberta à crítica, do que aquelas que, marginalizam homens e mulheres por não se darem facilmente por satisfeitas e insistirem em fazerem inconvenientes questionamentos onde a maioria via (ou fingia) um consenso. Muitas das noções que hoje damos por adquiridas foram formuladas pela crítica mais aguda. A crítica sincera é muito mais construtiva do que o elogio imerecido. Mas as pessoas preferem o inebriante perfume dos discursos panegíricos, as ásperas, mas honestas opiniões, que nem sempre estão em conformidade com o esperado, daqueles malditos transgressores do conformismo. 

A Civilização do Espetáculo

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No momento em que a cultura (essa ficção) se submete à tirania do entretenimento e as pessoas se dão em espetáculos grosseiros em todos os veículos “merdiáticos”, retrocedemos a uma cultura carnavalesca, onde tudo é embrutecido, banalizado, onde o que é espalhafatoso e estúpido tem muito mais chance de ser recompensado do que o verdadeiramente meritório. Estão aí os artistas fantoches, os programas de auditórios e jornalísticos comprometidos com o lucro, os realities shows da vida, que não nos deixam mentir que o homem moderno não passa de uma besta exibicionista. Qual de nós é capaz de negar diante de tantas evidências de que vivemos naquela época “em que tudo que repugna uma joia encontramos”, como escreveu Charles Baudelaire no seu poema de abertura do livro As Flores do Mal. E são assim que correm os dias. Nem mesmo a literatura escapa do exibicionismo que prostrou os artistas a vulgaridade e entronou o frívolo como o mais novo guia da manada. O que mais se vê por aí são poetas que abdicaram de qualquer postura independente e séria, para seguirem o jogo da moda. “Nos nossos dias” escreve Mario Vargas Llosa em seu mais recente livro La Civilización del Espetáculo (ainda sem tradução para o português) “o que mais se espera dos artistas não é o talento nem a destreza, mas a pose e o escândalo, os seus atrevimentos não são mais do que as máscaras de um novo conformismo”. Oprimido pelo curral das convenções, impulsionado pelos padrões do entretenimento, o artista contemporâneo, numa embaraçosa postura de submissão aos credos vigentes, não emprega o seu oficio em ações comprometedoras do gosto publico ou dos interesses da Indústria Cultural. As efemérides ditam os rumos das coisas e o gosto médio assegura a sua qualidade. Quem será capaz de se levantar e dar uma bofetada no gosto público?

Do Belo, Da Feiura e Da Poesia

. Detalhe de Os Jardins das Delícias - Hieronymus Bosch

Por esses dias temos falado muito aqui sobre a beleza. Num mundo marcado pela feiura das guerras, dos atentados à bomba, dos genocídios e das automutilações nas manifestações pelo mundo, falar do belo passou a ser uma necessidade para se contrapor as grosserias impostas pela irracionalidade humana. A bestialidade não pode imperar impunemente. A furiosa sanha desses bastardos, que produzem tanta feiura, assaltou do mundo não apenas as belas e inestimáveis visões da beleza, mas roubaram também o seu sentido. Esse, seguramente, foi o atentado mais perigoso contra a beleza. 

A prática da linguagem exercida sobre o signo do consumismo destituiu o potencial expressivo da palavra belo, que passou a ser associada apenas a juventude e a harmonia das formas físicas. Vai daí que não apenas as visões do belo precisam ser resgatadas, mas também o seu sentido originário, desgastado pelo uso rotineiro, para vender cosméticas e falsas ideias de conquistas. 

Associando a beleza à realização pessoal, as empresas de cosméticas, os programas de televisão, as revistas de moda e seus congêneres, criaram um bando de tolos consumistas de seus produtos, que acreditam que se estiverem devidamente envelopados pelos cosméticos da moda, darão um gigantesco passo na realização de seus sonhos mais mesquinhos. Somos muito mais do que aquilo do que nos dizem sermos, ou não? 

Essa mutilação do sentido da palavra - empregada pela economia de mercado - nos impede de ver a diversidade de sentidos que o belo pode expressar.  Tomando de empréstimo as palavras de Alfredo Bosi no livro O Ser e o Tempo da Poesia, podemos caracterizar o belo como: “Belo é o que nos arranca do tédio e do cinza contemporâneo e nos reapresenta modos heroicos, sagrados ou ingênuos de viver e de pensar. Bela é a metáfora ardida, a palavra concreta, o ritmo forte. Belo é o que deixa entrever, pelo novo da aparência, o originário e o vital da essência. Por isso, o belo é raro.” p. 131. 

É preciso, portanto, purificar a palavra de seus desgastados usos. E quem melhor pode fazer isso? Ora, não há outra forma de restituir à palavra a sua eficiência linguística e sua potencialidade, do que o pensamento poético. A poesia possui as melhores condições de revigorar as palavras o seu potencial de dizer e restituir as mutilações que o rotineiro uso lhe impôs. A poesia, limpa a palavra das escórias do desgaste e mantém viva o seu potencial. Contraria assim a pestilenta manipulação promovida pelo uso abusivo em apenas uma acepção e contorna a saturação imposta pelas formas de interesses ideológicos, que não nos servem. 

O absurdo que ronda tantas vezes o cotidano nos diz Alfredo Bosi, precisa da palavra para dar-lhe algum sentido ou, no limite, manifestar a estranheza pela sua falta de sentido. O gesto poético desoprime a palavra de suas obrigações ideológicas e se realiza plenamente, quando insinua ao leitor os caminhos possíveis de sua interpretação. Apenas no texto poético, e em quase nenhum outro lugar hoje em dia, vemos o exercício pleno da nossa liberdade. Seriam esses os motivos de seu desprestigio na nossa sociedade? Ela incomoda os establishment ao dotar o homem da irresponsabilidade de pensar por conta própria e escolher o seu caminho?  Essas são perguntas para as quais as respostas serão esboçadas no próximo post.

As voltas que o mundo dá

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Obama no histórico ônibus em que Rosa Parks foi presa em 1955 por ter se recusado a dar o seu lugar para um homem branco. Foto Pete Souza/Casa Branca.

Narcisistas, Voyeristas, Fetichistas, com quantos istas se faz uma sociedade?

Moça com brinco de pérola - estilizado
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Na ausência de uma plataforma midiática global que lhes arranque do anonimato, as pessoas encontraram um jeito de ganharem visibilidade, e se fazer percebidas em todos os gestos do cotidiano, elevando à última potência os sentimentos narcisistas. A exemplo do programa global, as pessoas do lado de fora, se esforçam dia a dia para aparecerem.  

Como não possuem nenhum atributo físico incomum, não têm qualquer talento musical, literário ou artístico de qualquer natureza, que as torne alvo dos holofotes da fama, elas se expõem narrando as trivialidades do cotidiano infeliz e maçante em que estão atoladas; aguardando com isso, a audiência de anônimos ou conhecidos. 

Em todas as redes sociais e aos quatro ventos elas anunciam, ensandecidamente,  que: “estou indo a academia... tenho que ficar gostosa igual à Juju” ou “aguardo impacientemente no hospital os meus exames”... “daqui a pouco vou curtir a naight”, escrito assim mesmo. As novas ferramentas da internet botou toda a manada de cabeça erguida. Agora a intenção não é mais observar a proximidade do predador, mas sim chamar a atenção dele. 

Imagino que a superexposição, como vem sendo praticada nos veículos da internet, alivia as tensões daqueles que se sentem frustrados, por não conseguir chamar atenção dos outros. Numa sociedade exibicionista como a nossa, as pessoas se ressentem de não estarem cumprindo o seu papel de anunciarem à malta "inchada de vaidade", que elas também existem. 

A atenção dos pares torna-se um alimento indispensável para sobrevivência na comunidade. O esgarçado tecido emocional, que encobre as pessoas no mundo moderno, não lhes deixa ver o ridículo, e o perigo, de saírem anunciando pelas redes sociais, cada passo, gesto e pensamento de suas vidas. 

Somente a mediocridade de uma existência sem emoções e sem sentido, pode explicar esse fenômeno moderno.  Somente a solidão espiritual de uma sombra, recorre a expedientes tão insignificantes para atingir qualquer rastro de luz.

Para não esquecer


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Alguém aí ainda é capaz de julgar, que não vai nada de errado no mundo?