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O que esconde o cinema de entretenimento?

Cena do filme: A lenda do tesouro perdido.

Vi ontem, um daqueles blackbuster americano feito na medida para atrair o público às salas de cinema. Como todos sabem esses filmes seguem um receituário estrito de ingredientes. Os elementos desse angu se restringem basicamente a: astros consagrados como protagonistas; mocinhas com potencial para capas de revista teen; ajudantes bobalhões em meio a uma enrascada que envolva o maior número possível de encrenca cujo final é tão previsível quanto saber de que lado está o PMDB na política nacional.

De tão ingênuos muitos dirão que eles são inofensivos e incapazes de causar danos. Uma diversão despretensiosa jamais será capaz de provocar qualquer lesão contra à inteligência daqueles que vão assistir a estes filmes. É o que ouvimos. Afinal quem assiste a estes filmes sabem - ou imaginamos que eles saibam - de véspera, o que os aguardam. São como as novelas da Globo que há quarenta anos contam a mesma história. O que muda são apenas os ambientes, as épocas e, eventualmente, os efeitos. O que pode a repetição de padrões tão insistentes?

Porém, de bobinhos estes filmes não têm nada. Não são apenas máquinas de fazer dinheiro que alimentam uma indústria bilionária. São porta-vozes de um modo de vida e de uma cultura que, desde o último século, vêm moldando as outras culturas, com a força de narrativas que, tentam legitimar as suas ações perante o mundo através de um discurso obstinado, pela crença de que estão fadados a um certo destino. Feitos com o argumento de que estarão entretendo estes filmes transmitem muito mais do que diversão.  

O Lenda do Tesouro Perdido, filme que vi nesse feriado de carnaval, tem Nicolas Cage vivendo um caçador de tesouros. Cage pertence a 3ª geração de uma família que busca desvendar os mistérios envolvendo um obscuro tesouro, que poucos acreditam existir. Acumulado durante vários séculos e transportado por muitos continentes para evitar que fosse roubado, ou que caísse em mãos espúrias, esse tesouro está provavelmente agora guardado em solo Americano.  A trama é tecida sugerindo a ideia de que esse tesouro que ajudou antigas civilizações no processo de consolidação de suas nações e expansão de seus domínios caiu como um fadário ao povo americano.

Disfarçados sob o manto do entretenimento esse e outros tantos filmes de aventura incutem a velha ideologia americana do “Destino Manifesto”. Esse pensamento que surgiu nos primeiros anos após a independência propugna a crença de que o povo dos Estados Unidos são o mais novo povo eleito por Deus para civilizar o mundo. O tesouro buscado por Gates no filme que pertenceu a antigas civilizações, hoje está em posse dos Americanos. Os saberes do mundo, as riquezas das nações, os antigos caminhos, tudo pertence agora aos americanos.

Pintura de John Gast. Representação pictórica do Destino Manifesto. Na cena, uma mulher angelical, algumas vezes identificada como Colúmbia, (uma personificação dos Estados Unidos do século XIX), segurando um livro escolar, leva a civilização para o oeste, com colonos americanos, prendendo cabos telegráficos, por outro lado, povos nativos e animais selvagens são afugentados.(fonte Wikipedia)

Algumas cenas do filme reforçam de forma implícita o destino manifesto do povo americano. Quando Gates tem que roubar a declaração de independência do arquivo nacional para evitar que bandidos o façam ele evoca o discurso dos patriarcas que diziam:

...sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.

Através desse discurso os americanos evocam para si a responsabilidade de supostamente defender os povos do mundo contra os governos “destrutivos”. Agindo assim eles se sentem justificados para atacarem todos os que se voltem contra os princípios da liberdade. Mas fazem isso na verdade para manutenção de sua influência.

Os filmes americanos induzem a crença nos milhares de espectadores que os prestigiam pelo mundo, de que suas ações no mundo são movidas - assim como Gates que tem de infringir a ordem das coisas para restaurar um bem maior -  pelas mais genuínas e nobres intenções. Por essa crença eles legitimam as invasões de países. Atentam contra a soberania dos povos. Desrespeitam culturas e mesmo assim acreditam na sua pureza pois se veem movidos pela vontade não dos homens, mas de Deus. Esse nada inofensivo discurso inocula nas mentalidades neófitas dos milhões de entusiastas desse gênero de cinema a crença de estarem apenas se divertindo quando estão na verdade sendo doutrinados para reações mais acomodatícias.


Duplipensar

Duplipensar é um conceito formulado por George Orwell no livro “1984” que expressa a estratégia mental usada pelo partido no poder para aniquilar a lógica e a racionalidade enquanto instrumentos de análise da realidade e assim consentir pela manipulação das opiniões públicas a manutenção do seu poder. 

O silêncio

Foto: Neal Slavin, woman behind glass shard

No interesse da cultura livre, cartunistas, chargistas, libelistas e humoristas ansiaram sempre por empregar a sua arte à qualquer coisa que implicasse embaraço, instabilidade e críticas à regimes e ações humanas contrárias à livre circulação de ideias. Audaciosamente estes homens duvidaram daquilo que muitos temiam pela tradição ou pela intimidação. Ao perspectivarem regimes de ângulos nada favoráveis esses agentes da liberdade destruíram verdades absolutas e ajudaram a deslegitimar e derrubar governos em diversas épocas e lugares, que usavam o argumento da autoridade e da legitimidade para agirem contra o espírito livre. A história nós mostra como as investidas contra as iniquidades de governos, religiões e culturas da morte foram importantes para corroerem essas ideias em favor de ambientes mais saudáveis às relações humanas. O fundamentalismo islâmico, que ora ameaça o frágil sistema de tolerância que harmoniza os homens nas diferenças, é apenas a face recente de um mal que aflige a humanidade em todas as épocas e lugares, a intolerância. Investir contra o avanço do autoritarismo que prega a violência contra as expressões de livre pensamento não é como querem nos fazer crer alguns; desrespeitar a religião dos islâmicos. As investidas satíricas dos cartunistas anarco-libertários do Charlie Hebdo se volta contra o fanatismo daqueles que usam a fé para praticar as maiores atrocidades. Os muitos anos de secularismo em que vivemos talvez não nós deixe ver os muitos males que as religiões fizeram antes de se integrarem ao corpo da sociedade sem imposições macabras, sem empalhamento de inocentes, sem cárceres às opiniões hostis, sem fogueiras às ideias, sem mutilações a obras literárias, sem intimidações a cientistas, sem degredo e morte aos livres pensadores. Estas conquistas não vieram sem levantes daqueles que viram nas práticas dos homens de fé o caráter odioso que impedia a vida de seguir o curso que bem entendesse.
  

Liberdade de expressão



O texto a seguir é de Téo Júnior. Téo é revisor, crítico de teatro e colaborador eventual deste blog.
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Não existe Jornalismo livre sem provocação. Nada justifica o atentado ao Charlie Hebdo Officiel. O humor, a crítica, a charge são uma forma artística importantíssima.

O terror do político mentiroso é se ver amanhã, na primeira página do jornal, sendo caricaturado com nariz de Pinóquio.

Nelson Rodrigues, reaça até a medula, dizia de D. Hélder, respeitadíssimo: "D. Hélder só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva".

Paulo Francis, com ares de superioridade -- que tanta falta faz --, dos EUA, dizia que no Brasil só tinha índio e vaca.

Por mais que irrite, por mais que a gente discorde, por mais que seja ofensiva, a liberdade de pensamento não pode ser tolhida porque ela é um pilar da democracia. Na democracia, todos falam. Quem não concordar não compre, não veja, vai ler outra coisa.

Se a gente começar a justificar o terrorismo alegando falta de respeito à religião...

Um país às escuras

Agora falta pouco. Depois de empreender uma política de privatizações, de manchar sua história com escândalos de corrupção que não estancam nunca; (menos de um ano depois do julgamento do Mensalão o Supremo já se prepara para o julgar de outro escândalo de proporções ainda maiores do que o anterior); de praticar o mais vergonhoso fisiologismo na política e de privilegiar banqueiros e empreiteiros em negócios escusos, o PT, que se orgulhava de ser um partido “diferente” dos demais, está a um passo de realizar todos os (mal)feitos do partido que o antecedeu no poder.

No governo FHC o Brasil viveu, entre outros problemas, bem semelhantes aos que o PT vive hoje; uma grave crise de abastecimento energético. Quem viveu aqueles dias sabe, que faltava energia pra tudo e o único recurso do governo foi o racionamento. Falta de investimento no setor, má gestão do operador e escassas linhas de transmissão foram apontadas na época como os problemas. Passados dois mantados do presidente Lula e seguindo agora para o segundo da presidenta Dilma, ambos do partido de oposição ao governo que deixou faltar luz no país, o mesmo risco de apagão assombra os brasileiros.

Ontem, por volta das 15h, faltou energia em toda a Região Sul, nos quatro estados do Sudeste, na região Centro-Oeste e também em Rondônia. Esses blackouts estão se tornando constantes. O governo afirma que isso são apenas falhas pontuais e que nada disso ameaça o sistema. Estão descartadas as possibilidades de apagão. A mesma desculpa foi usada no governo FHC até que o país se deu conta de que o sistema estava em colapso e obras que supririam as novas demandas foram licitadas às pressas.

O governo do PT, como sempre recusa a acusação de que não está fazendo nada e acusa o verão inclemente que castiga o país com temperaturas acima dos 40°C em alguns lugares, como o responsável pelo aumento inesperado da demanda que vem gerando todos os estes transtornos.

Tudo isso acontece bem no momento em que o governo anuncia um aumento da tarifa energética para os consumidores. Falta energia no país e a resposta do governo é simples, cobrar mais do brasileiro por que ele está utilizando energia em excesso. Consumir energia agora é quase comparável a um crime de lesa pátria.

Escândalos, políticas de arrocho, falhas na gestão da infraestrutura nada difere o governo PT do PSDB. Ambos os partidos se irmanam no seus proposito partidário e esquecem que têm um país para administrarem.  

Presidentes e fraldas

Paul Strand, Cega, 1916.


Nunca me esquecerei da frase do ex-presidente Lula, que no explodir das denúncias do mensalão saiu a público a dizer: “Eu fui traído”. Depois ele esqueceu isso e voltou a abraçar os companheiros que meteram a mão no erário público, achincalhando a República. Na ocasião se debateu muito que não era possível que um governante de um país como o nosso, continental, vigiasse tudo o que seus comandados faziam ou deixavam de fazer. Ninguém sabe o que vai no coração do homem. Amenizou-se assim a responsabilidade do presidente nos atos de seus comandados diretos.  Alguns governantes, talvez tenham boa-fé e deleguem aos seus auxiliares poderes, esperando que estes retribuam a confiança com o máximo zelo. Coisa que nem sempre acontece. Se vale a boa-fé vale muito mais a seleção criteriosa. A escolha de um ministro e auxiliares do alto escalão é entre todos os atos governamentais uma demonstração de direção do governo. Para onde vai o governo, o que quer e espera fazer? O mandatário deve ter plena confiança em seus ministros, de outra maneira por que os escolheria. Essa é uma lógica razoável. A escolha pelos méritos e a confiança na execução do trabalho pelo registro do histórico de atuações pregressas na área, também é outro critério que deveria ser observado. Esta é uma lógica razoável, insisto, porém não no Brasil. Aqui os critérios, como bem mostrou a escolha da presidenta Dilma na composição de seu novíssimo ministério atente a outra lógica, somente aceita e compreendida nos escritórios e reuniões palacianas de Brasília. Ao eleger Helder Barbalho para o ministério da pesca, Pastor George Hilton para o ministério dos esportes, Cid Gomes para o ministério da educação e outros trinta e tantos ministros ela queimou a desculpa dada por Lula em 2005 para se livrar da responsabilidade das delinquências de seus auxiliares diretos. Em comum esses nomes tem um histórico de denúncias cabeludas que a qualquer um os tornariam desqualificados para o exercício dos cargos. O ex-governador Cid Gomes jamais teve em sua carreira política nenhuma ligação com as discussões sobre a educação. O ponto de maior destaque de sua carreira ocorreu quando ele fretou com dinheiro público um jatinho para levar a mulher e a sogra para passear pela Europa. Já o Barbalho filho é herdeiro de umas das figuras mais enlameadas da política nacional o ex-senador Jader Barbalho que renunciou ao mandato depois de uma enxurrada de denúncias de uso dos recursos públicos para favorecer familiares. O caso do pastor evangélico George Hilton é ainda mais escabroso. Eleito pelo PRB que o renegou, ele se filiou ao PFL que o expulsou em 2005 depois dele ter sido flagrado num aeroporto com inexplicáveis R$ 600,000 na mala. O homem foi expulso do PFL o partido mais escroto do país e achou abrigo no governo Dilma. Dilma não poderá jamais dizer que não sabia ou que se sente traída quando escândalos envolvendo esses nomes vierem a público. Com uns ministros desses o que ela espera que ocorra? Estava certo Eça de Queiroz, quando disse que de tempos em tempos os presidentes e as fraldas devem ser trocados, ambos pelas mesmas razões. 

Triste Bahia

Por que alguns políticos brasileiros se acham tão especiais? Por que, ao acenderem aos governos, passam a se sentirem diferentes, como se de repente, fossem untados com o mesmo olho sagrado que ungiu David como rei de Israel? Diariamente eles nos dão exemplos de que o poder é viciante e de que são capazes dos maiores enxovalhos públicos para perpetuarem os seus privilégios de casta. O ex-governador da Bahia, estado brasileiro que é conhecido por suas maravilhas políticas, como ter eliminado o analfabetismo, erradicado as desigualdades, combatido a violência com inteligência, dignificado o trabalho dos professores e construindo um estado de bem-estar social inigualável no país, achou por bem, depois de ter conquistado para o Estado Baiano todos esses benefícios, dar a si mesmo um prêmio. Pelos bons serviços prestado nos oito anos (des)governo o ex-governador, um dia antes de entregar o cargo ao nosso candidato a ungido, assinou um decreto que garante serviços vitalícios de motorista e segurança particular aos ex-governadores da Bahia. Vida dura está de governante

Cleptocracia

Quadro: Caravaggio-  “Os Jogadores” óleo sobre tela com 99 x 107 cm, 1594.


As investigações da Política Federal que desbaratou um esquema de corrupção nas obras públicas do Governo Federal, especialmente na Petrobrás, começou a sua fase final. Executivos de 6 das maiores empreiteiras do país estão sendo acusados, com vultosas provas, de pagarem propina à dirigentes da Petrobras para ganharem licitações em obras orçadas em bilhões de reais. Dado a sofisticação do esquema de desvio de dinheiro, o Procurador Geral da República classificou o ato de “verdadeira aula do crime”. 

Ao mesmo tempo em que este esquema era desvendado, outro não menos vergonhoso, assolava o Estado de São Paulo. O Ministério Público daquele Estado avaliou que as obras do metrô, entre os anos de 1998 e 2008, foram fraudadas, resultando em prejuízos milionárias para os cofres públicos. 

Na mesma semana em que tudo isso era exposto ao público, outras denúncias de corrupção atingiram as Forças Armadas e a Confederação Brasileira de Vôlei. Uma empresa americana de manutenção de turbinas de avião denunciou à comissão americana antifraude ter subornado funcionários da FAB e do gabinete do governo de Roraima, para conseguir contratos no Brasil, Peru e Argentina. Já a CBV teve o seu patrocínio suspenso com o BB em razão de uma apuração de desvio de mais 30 milhões nas contas da CBV durante a administração do seu ex-presidente.

Todas estas vexatórias notícias sugerem para os mais otimistas o fim da impunidade de atos ilícitos no país. Nunca antes na história desse país ocorreu uma erupção tão grande de denúncias e investigações de atos de delinquência. Confiando que a lama é purificadora, muitos acreditam que agora passaremos o país a limpo. 

Está mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que ver isso acontecer. A perplexidade dos fatos ora expostos com todas as vísceras, envergonha uma pequena parcela da população. Uma diminuta parcela. A grande maioria não só ignora os fatos, mas também colabora, a sua maneira, para que estes crimes graduados tenham nascedouros bem simples e cotidianos, permitindo que eles se perpetuem amanhã e depois de amanhã. 

Não é difícil encontrar quem mesmo se revoltando com as notícias deixe de perpetrar pequenos delitos. Não adianta o padeiro torcer por ver o executivo na cadeira e continuar roubando no peso do pãozinho. Não adianta o professor elogiar a ação da polícia e depois maquiar a sua declaração de Imposto de Renda. De que vale a esperança de dias melhores quando não nos furtamos o pagamento de um cala boca às autoridades de transito, que nos flagraram rodando pelo acostamento da rodovia ou dirigindo sem carteira. 

Em Elogio da Loucura o escritor Erasmo de Roterdã diz que a grande maioria de nós temos olhos de lince para enxergar os defeitos alheios e de tartaruga para ver os nossos. Seria bom apanhar a lição do escritor Holandês e fazer do caso recente uma auto crítica de nossas condutas diárias. Se queremos mesmo passar o pais a limpo e desinfetar as consciências, temos que primeiro iniciarmos a faxina por nossa casa. Antes de notar o argueiro no olho do outro é preciso ver a trave no nosso. 

Estilo novo

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Quem acompanha as aparições públicas da Presidenta Dilma percebeu que nos últimos dias, após as eleições, ela trocou o habitual terninho Vermelho No Pasarán! Pelo, Azul Petróleo. A cor lhe caiu bem, afirmaram alguns. Outros discordando, acusaram de cafona e fora de moda a escolha da presidenta, exigindo que ela revisse as cores de seu guarda-roupa. O impasse não parece ter atingido a presidenta, que julga essas discórdias de estilo, uma questão de foro íntimo. Pelo visto ela continuará usando a roupa que bem lhe aprouver, conforme a ocasião pede. Uma lição de moda e de bom gosto nos dá a nossa líder.

Papa Francisco

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Estou longe de ser um religioso. Não endomingo, não faço prece nem peregrino expiando os meus pecados. Os infernos não me assustam. Perdi a fé em algum lugar na caminhada da vida, por razões que a poeira do tempo encobriu. Da Igreja suspeito sempre de seus discursos.

Nada disso, no entanto, tira a minha admiração pelas ações do Papa Francisco. Dia a dia ele dignifica o seu sacerdócio e restitui à Igreja o prestígio perdido por anos de obscurantismo.

As suas recentes ações em prol da reaproximação dos Católicos com o mundo Islâmico, os gestos de tolerância com a orientação sexual dos fiéis e sua mea-culpa pelos anos de negligência da Igreja, que covardemente acobertou denúncias de pedofilia, ocorridos nas barbas da cúpula romana, sinaliza para uma tomada de consciência da Igreja aos seus muitos pecados.

Estes fatos, se não redimem de todo a Igreja de seus pecados históricos, ao menos indicia o arrependimento sincero de quem já tanto mal fez e hoje busca corrigir os seus erros.

Ante um mundo em que os líderes estão indispostos ao diálogo e demonstram anseios de resolvem suas conflitos recorrendo apenas, ao arbitrário de sua força bruta, os gestos do Papa se tornam necessários.

A cama de Procrustes

Foto: Alfred Eisenstaedt, 1950
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Sempre que leio uma pessoa esclarecida pedir o fim de um jornal ou uma revista, por mero capricho e divergência com sua orientação ideológica, fico a pensar, que ainda estamos longe de conquistarmos a democracia. Impressiona-me como ainda há quem sinta vontade de puxar a pistola quando apanham por aí discursos que não convergem com a sua ideia de mundo, com a sua imagem da política, da cultura, da religião e de muitas outras formas de relações humanas. 

Esses clamores incendiários, contra os que pensam diferentes das vozes que orientam as consciências individuais, são recorrentes nas ditaduras e em outras formas menos civilizadas de relação social. Nas democracias o contraditório, o divergente, o ponto de vista diferente, são, não apenas estimáveis, mas estimulados. Entende-se, nas democracias, que os conflitos tem melhores resultados quando mediados pelo debate de ideias e não pelo tacão das vontades individuais. Nenhuma ideia é subvalorizada, nenhuma ideia é sobreposta a outra, os pontos de vistas são debatidos, questionados, arguidos e se bastam pelo que nutrem de importante, não pela força, pelo grito. 

Pode não ser muito agradável tolerar ideias que você julga intolerante, mas esse exercício, tão salutar quanto necessário, será sempre melhor do que ter em vista, um reizinho regendo as vontades de toda a gente, a maneira de um deus onipotente. Temos que ver o ponto de vista de toda a gente, e não nos limitarmos a projetar os nossos desejos e valores brutalmente sob os que pensam, diametralmente opostos a nós. É estranho pensar um modelo ideal e único de ser humano. Mas é justamente esse modelo, monocromático, de cultura, religião, e opiniões políticas que querem aqueles que insistem em divergirem dos outros, aniquilando a sua existência. 

Na mitologia grega há um personagem que sujeita todas as pessoas, as mais dolorosas mutilações, somente porque elas não se encaixam à sua sádica e perversa medida ideal. Procrustes, também chamado Damastes e Polipémon, é o nome de um bandido que vivia na estrada que ligava Mégara a Atenas. Os viajantes que por ali passavam, ele convidava para comer em sua casa e oferecendo-lhes depois sua cama de ferro para que o incauto descansasse nela, ele aproveitava essa ocasião, em que o desafortunado pegava no sono, para amordaçá-lo a cama. Se o infeliz fosse maior do que a cama ele serravá-lhe o “excesso”. Fosse menor do que a cama Procrustes esticava o desgraçado até que este atingisse idêntica distância entre a cabeça e os pés, à medida da cama. 

Não passa por minha cabeça que está ou aquela revista, jornal ou outros médias são insuspeitos. Mas dá aí pedi-lhes o fechamento não me parece sensato. Nenhum modelo político, cultural, religioso tornou impossível pensar outras formas de convívio humano, mesmo que alguns de seus membros insistam em pensar o contrário. Os limites serve apenas aos muitos satisfeitos das coisas tais como estão. 

A melhor forma de antagonizar com as ideias opostas às nossas, é apontar-lhes as contradições, indagar-lhes os valores. Como faremos isso com eles amordaçados. Deixar de ler os jornais, as revistas e outros médias pode ser outra boa maneira de demonstrar nosso desagravo. “Se o rádio não toca a música que você quer ouvir”, dizia Raulzito numa lição de tolerância e liberdade às diferenças, “é muito simples, é só mudar a estação, é muito simples é só girar o botão”. Submeter os outros a seguir os passos de um único individuo é andar a arremedar os bufões.   

Cemitério de livro

Foto: André Kertész. Homem lendo com lupa, Nova Iorque, 1959.

Não compreendo a indignação desse jornalista aqui. Ele deve ser um celerado. Desses que anda cagando regra pra gente que sabe bem o que faz. Certo estão os políticos espanhóis. Eles dão uma lição ao mundo. Enterrem o Quixote, a vida segue. 

Esse é um bom exemplo de uma inovação pedagógica, que pode revolucionar a educação. Como as pessoas não haviam pensado nisso antes? Os livros dão trabalho, custa lê-los. A nova pedagogia exige respostas rápidas aos novos desafios. Não temos tempo para ficar insistindo com quinquilharias velhas e obsoletos como livros antigos. 

Os alunos não entendem os livros? Atire os livros para longe deles. Assim eliminasse o problema. Óbvio. Afinal são apenas livros. Que mal pode haver em apagar do convívio juvenil um livro maçante e soporífero com o D. Quixote. Há muitos mais livros no mundo. Talvez até melhores. Quem vai saber? 

Podemos substituir essa velharia por genuínos e modernos pensamentos, que melhor se adequem as consciências contemporâneas. As contingências modernas exigem-nos que estejamos constantemente adequando-nos sempre à medidas de novas inteligências. 

E há um sem-número dessas novas inteligências solicitando a nossa atenção, e que melhor falam às novas gerações. Mas a inteligência, a erudição, as inovadoras lições de insubmissão, a vida percebida como insuficiente, e as perspicazes maquinações existentes no Quixote? Queixarão sem dúvida alguns. A estes diremos que essa inteligência e erudição, além da ideia de insubmissão à vida cotidiana, já não são mais as nossas. 

Buscamos a literatura que nos satisfaça o cumprimento de nosso destino. A literatura como “alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade” como essa presente no Quixote, ameaça-nos a empregabilidade e a funcionalidade. Dizem que, a leitura do Quixote tem sido boa escola para artistas, conclui-se daí, não serem serias, são portanto, inúteis aos desafios do novo mundo. 

Os best-sellers infantis e juvenis que pipocam nas livrarias, estes sim, têm melhores instruções para lidarmos com as novidades na vida moderna. Milhares de pessoas, que consomem essa literatura, não podem estar enganados das qualidades inequívocas desses livros, que arrebatam multidões pelo mundo. 

Claro, eles têm lá alguma indigência, mas para que exigir um repertório variado de ideias e linguagem quando estão todos tartamudeado. Creio que, os novos produtos literários estejam em melhores condições de substituir as antigas literaturas na função de ensinar às pessoas as riquíssimas possibilidades que a língua encerra. Basta ver um grupo de jovens falando. São inventivos, primorosos no traquejo com as palavras, quase nunca, tipo assim, se repetem. Tira-se daí que as novas literaturas estão, por certo, melhores condicionadas à estimularem a sensibilidade e a fantasia, graças as novíssimas obras que pouco a pouco vão substituindo os bolorentos romances.  

Celebrem a boa nova. 

Adernar na praia - Como a revolução cubana quase naufragou

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Os feitos históricos, as grandes revoluções, remetem-nos sempre às imagens de destemidos e heroicos momentos. Napoleão cruzando os Alpes no passo de Grande São Bernardo, na representação de Jacques-Louis David montado num imponente cavalo apontando para o alto incendiando a marcha do seu exército para vitória. Não se pensa nesses gestos com riso no rosto. Ante a morte iminente, que precede as batalhas, o riso se acanha. Porém, muitos dos atos heroicos mais notáveis têm um cadinho de ridículo, um quê de risível e cena pastelão. Alguns desses momentos prestam homenagem a Quixote.  

Ao recordar os passos dos revolucionários cubanos, liderados por Fidel Castro, na invasão que iniciou o levante contra a ditadura de Fulgêncio Batista, em 1956, o fotógrafo da revolução Alberto Korda, recordando as palavras de Che a propósito da travessia entre o México, onde os revoltosos estavam, até Cuba, conta as peripécias rocambolescas enfrentadas pelos revolucionários, até a tomada do poder, pelos destemidos barbudos.  

Em dado momento, com indisfarçável ironia, Che lembrou a Korda que o navio que transportava as esperanças de um mundo justo para Cuba quase não chegou ao seu destino. A travessia foi marcada por reveses cômicos. No meio do caminho, lembra Che, “os homens com expressão angustiada, apertavam seus estômagos com as mãos, enquanto metiam suas cabeças dentro de baldes”. 

A certa altura da viagem o navio avariou. As bombas hidráulicas que movia o Gramna, um pequeno iate de doze metros, carregado de equipamentos e com 80 homens a bordo, pediu arrego. A água começou a ameaçar adernar o rocinante esperançoso. O jeito foi usar os baldes agora para outra tarefa. 

Por fim, no dia 2 de dezembro de 1956, 7 dias depois de ter saído de seu destino, o barco encalhou num lamaçal nas proximidades de um mangue, na costa de Cuba. “Foi necessário”, lembra Korda, “abandonar quase todo o equipamento e os víveres”. Che com seu humor sarcástico lembrou que “não foi bem um desembarque o que ocorreu, mas sim um naufrágio”. 

Haverá algo mais cômico do que o tropeço do herói no desembarque? Rimos, nos diz Bergson, do que foge à normalidade, à previsibilidade. Rimos daquilo que desvia da ordem natural das coisas. Imaginamos os revolucionários como homens de gestos certeiros, nobres e precisos, mas essa ordem de coisas está apenas na nossa mentalidade idealizada sobre as figura heroica. Os relatos de Korda restitui à nobreza dos infatigáveis combatentes uma coloração cômica que se contrasta com o que esperávamos que acontecesse. Nada na vida nos confirma que os fatos mais notáveis não possam nascer de atos falíveis.

Brasil

Admite-se tudo nesse país, menos a honestidade. 

Da natureza Selvagem

Nem bem iniciaram as investigações da operação Lava Jato, já tem gente dizendo que, depois desse caso de corrupção explicita na maior empresa pública do país, pouca coisa mais merecerá o nome de escândalo nas Terras Papagaios. Por ora a Polícia Federal suspeita em desvios nos valores que andam pela casa dos milhões de reais. A se confirmarem esses valores, o mensalão, que escancarou os modos operandi da governança nacional, estará fadado a se tornar um mero escandalozinho de vão de escada, coisa de amanuense. Exagero à parte, penso que no Brasil há sempre a possibilidade da coisa piorar. Aqui, nada está tão mal, que não possa ser superado por um mal ainda maior. Muito antes do soar das trombetas do juízo final, ainda teremos mais bons motivos para sentir saudades do tempo em que os governantes nos roubavam apenas em quantias inferiores a bilhões. Durma-se com um país desse. 

Hércules e Anteu - A realidade suspensa


Vendo a capa do livro de Marco Haurélio que ainda não possuo, Os doze trabalhos de Hércules, ocorreu-me lembrar a história de Anteu. Segundo a mitologia Grega, Anteu é um gigante que obriga a todos os viajantes a lutar contra ele. Em suas lutas, cada vez que seu corpo é atirado à terra ele se levanta ainda mais forte, porque a Terra (deusa Gaia, sua mãe) lhe restitui as forças. Enquanto estiver em contato com o solo Anteu é invulnerável. A sorte dele muda quando encontra Hércules que viajava pela Líbia em busca dos pomos de ouro do Jardim das Hespérides. Hércules luta com o gigante. Na refrega atira Anteu três vezes ao chão. Três vezes o gigante se levanta ainda mais rijo. Astuto (sim, porque o herói, não é apenas um monte de músculos) Hércules percebe que o filho de Gaia (Terra) volta à luta sempre mais forte. Hércules então soergue-o do solo que o tornava invencível e o estrangula. Um sem número de pinturas reproduz esse combate e o sortilégio do herói grego para vencer o gigante ameaçador. Há muitas lições nessa história que os antigos aproveitaram dos contos populares. Uma delas é que para sobrevivermos necessitamos, como Anteu, de estar sempre com os pés bem assentes ao chão. Precisamos do nosso bocadinho diário de realidade. Mas ela ensina também que em excesso a realidade também pode ser alienante e é preciso como o herói grego fez, suspendê-la.  Assim como precisamos de realidade, também precisamos de um bocado de irrealidade. São importantes os telejornais diários, os debates eleitorais, a compra de pão na padaria, mas mais do que isso são também indispensáveis as leituras literárias, as apreciações de quadros, as mitologias, as religiões, os mitos, as músicas e voos às regiões da imaginação, para suportarmos o peso e a força que nos prende ao chão.

Estado mínimo

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O cartaz acima é uma propaganda Nazi defendendo a eutanásia de deficientes. Diz a mensagem: "Esta pessoa, sofrendo de anomalias hereditárias, custa à comunidade 60 000 marcos. Compatriota, este dinheiro também é seu". O apelo ao bolso dos "compatriotas" parece justificar o ato de extermínio daqueles que ao invés de contribuírem para máquina do Estado, tornam-se desde sempre (lembre-se que a propaganda insinua que pessoa em questão sofre de anomalias hereditárias) um fardo àqueles que supostamente produzem.

Não posso deixar de ver nessa propaganda e nas mensagens daqueles que apostam no Estado Mínimo um paralelo. Esses como aqueles ignoram o fato de que o Estado existe em função da sociedade e que essa tem obrigações humanas e não materiais.


Nas redes sociais temos visto mensagens contrárias ao Bolsa Família, contra a Reforma Agrária, a contratação de médicos para população desassistida do Estado nos lugares mais recônditos do país e a entrega dos presídios públicos à iniciativa privada. Sob a alegação de que essas ações oneram de forma ineficiente o Estado está na verdade a preocupação mesquinha e bestial de defesa de seus interesses econômicos.

Os gargalos da cultura

Dados do Ministério Educação afirmam que 79% dos municípios brasileiros possuem bibliotecas públicas municipais. Hoje, 420 municípios não contam com bibliotecas. Iniciativas da Fundação Biblioteca Nacional diminuíram a ausência de bibliotecas no país. Nas escolas, a situação é outra. De acordo com informações do Ministério da Educação, apenas 30% dos estabelecimentos de ensino fundamental no País possuem espaços que funcionam como biblioteca. Um vexame que acossa poucos políticos. Em Rio do Antônio encontrei um senhor que foi prefeito da cidade na década de 70. Atento as questões culturais o Senhor Deba mandou à Câmara de Vereadores um projeto de criação de uma Biblioteca no município que na época contava com pouco mais 5 mil habitantes. Vocês pode imaginar o rebu que a ideia causou. Os vereadores se recusaram a aceitar o projeto. Seu Deba então resolveu escrever ao Instituto Nacional do Livro (órgão que na época era coordenado pelo baiano Herberto Sales, autor do clássico regionalista, Cascalho) e ao presidente da República que era o ditador Emílio Garrastazu Médici, dizendo que no interior do país a Câmara de Vereadores da cidade se recusava a criar uma biblioteca que homenageava o presidente - a biblioteca se chamaria Biblioteca Municipal Médici. Não deu outra os vereadores quando ficaram sabendo da história se apressaram em aprovar o projeto do Seu Deba.

O poderio Americano

Henri Miller dizia que a força de uma nação poderia ser muito bem medida pelo grau de importância que esta dava aos seus escritores. Uma civilização intolerante com os escritores estaria, pensava o escritor americano, fada ao fracasso. 

As artes, afirmava o autor de Trópico de Câncer, serve de antídoto contra as moléstias do despotismo e do autoritarismo. 

Tive uma mostra dessa ideia ontem assistia ao documentário sobre a vida do educador Alceu Amoroso Lima. A certa altura do filme, o filho do pensador católico recorda que em visita aos EUA passou pela biblioteca de Nova Iorque e pesquisou a existência de alguma obra de seu pai por lá. Obteve então incríveis 79 entradas para o nome Amoroso Lima. Surpreso, ele confessou que este número supera em muito o número de títulos desse autor em qualquer biblioteca brasileira. 

A superioridade Americana sobre o resto do mundo não pode ser medida apenas pela sanha beligerante. A vitalidade da América vem, em boa medida, de seu apreço e valorização à cultura como um valor potencializador de sua sociedade. 

Ninguém, em sã consciência é capaz de desmentir o filho de Amoroso Lima. Essa é uma dura verdade. O Brasil, ao contrário da América, sofre violentamente com a má distribuição de livros a toda população e com as péssimas condições das nossas bibliotecas os problemas tomam ares de insolúveis. O reflexo disso? Uma população semialfabetizada com sérios problemas sociais e pouca perspectiva de futuro. 

Enquanto a realidade por aqui é essa, na terra do Tio Sam livro é coisa séria. 

Mais uma mostra do gigantismo americano vi ao ler o trabalho do historiador Robert Darnton, O Diabo na Água Benta, livro que relata as ações de libelistas durante os reinados de Luís XV, passando pelo até a Revolução Francesa. Num dos relatos Darnton descreve a figura de um dos maiores envenenadores, mexeriqueiros e caluniadores que França oitocentista viu, Anne-Gédéon Lafitte, marquês de Pelleport. Autor de variados trabalho que expunha ao ridículo as grandes figuras da política francesa Pelleport foi preso e ficou trancafiado na Bastilha por quatro anos. Nesse período, conta-nos o historiador, Pelleport abdicou do relatos de escarnio contra as autoridades e se dedicou a escrever um romance autobiográfico sobre os libelistas franceses. E onde estava os únicos exemplares disponíveis para pesquisa desses livros? Na América, of course. 

Da des-esperança de dias melhores

Querendo meter alguma ordem à minha cabeça para fazer de meu voto uma coisa útil, esforcei-me em ouvir os candidatos à presidência. Assisti debates, li acusações e contra-acusações. Avaliei propostas, pesei históricos, mas, mais do que isso, observei nos candidatos, seu comportamento de campanha. Do que vi e li restaram-me a convicção de que dissimular, enganar, fingir e fechar os olhos aos defeitos da sujidade dos partidos, a ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, foram as ações mais vitoriosas nessas eleições.