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"O GLOBO" FICOU CONTRA O TEATRO E A FAVOR DA CENSURA


Sérgio Britto e Fernanda Montenegro em “A Volta ao Lar” (1967), a peça que irritou “O Globo”

No dia 15 de setembro de 1967, com a "Ditabranda" no Poder, o jornal "O Globo", um dos mais tradicionais do Rio, assombrado com o que julgou "excesso" dos espetáculos teatrais, publicou o triste editorial Limites para o Sórdido, e um dia depois, na matéria Condenação Geral aos Excessos do Teatro (infelizmente, não foi possível localizar o autores de ambos os textos, talvez Roberto Marinho), reiterou sua posição em relação ao "escândalo" que certos textos teatrais estariam provocando na cultura do País, razão pela qual os atores estariam, assim, prestando um desserviço à arte nacional e à moral.

"O Globo" tinha em mente que o seu poder de convencimento e de persuasão era infinitamente maior do que os recursos parcos e humildes de alguns abnegados e dignos batalhadores, no caso os artistas do teatro, porque quando as ideias são disseminadas pelos formadores de opinião, num primeiro momento cultos e capacitados para julgar o que quer que seja, elas tendem a se manter fixas nas consciências - ideias que se alastram rapidamente como labaredas. Se "' O Globo' está dizendo, então é verdade", iludindo e desinformando a população menos esclarecida e alheia aos assuntos de teatro. "Eu tenho mais medo de um jornal do que de cem exércitos", dizia Napoleão. E é para ter, mesmo.

A peça da discórdia, neste caso específico, é "A Volta ao Lar", de Harold Pinter, de fato repleta de palavrões, para ilustrar uma relação familiar complicada, e os atores eram (adivinha?) Fernanda Montenegro e Sérgio Britto, a quintessência do que este teatro sofrido já produziu de melhor. Fernando Torres dirigiu o espetáculo.

Ora, se temos posta uma conflituosa e desestruturada questão familiar onde existem palavrões, o palavrão, neste caso, torna-se estritamente necessário para que se desenhe esta atmosfera no palco. Não há nenhum problema em relação a isso.

Fernanda conta em sua biografia "O Exercício da Paixão", de Lucia Rito, que naquela época vivia-se o medo generalizado. Eram ameaçados de morte, os atores representavam assombrados, algumas vezes vistoriando o palco com seguranças, outras andaram armados, e Fernanda por pouco não recebeu um disparo na cabeça quando dormia, da Segurança Nacional. Tempos sombrios, decerto, mas com a condescendência de ''O Globo'', que viu sordidez numa simples representação para um público adulto e capaz de interpretar, por si só, o que enxergava em cena.

Nem é preciso destacar os absurdos da Censura e o quanto ela foi maléfica e estúpida sobremaneira para a cultura nacional, o teatro inclusive.

O inesquecível editorial de ''O Globo'' é tão irrelevante que nem vale a pena copiar inteiro. Seguem-se apenas trechos:

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''Há algum tempo, os estádios de futebol detinham como que a exclusividade da montagem dos grandes corais pornográficos da cidade. O solista recitante puxa o coro entoando o palavrão mais adequado ao juiz da partida num instante dado, e sucessivamente, fração por fração, os da arquibancada ingressam no canto uníssono em fortíssimo sinfônico.

Mas, agora, a cidade já dispõe de outros locais, onde em matinês o público poderá diariamente ouvir não corais, mas solos de palavrões, em espetáculos que chamaríamos de pornografia de câmera. Confortavelmente instalados num teatro de poltronas estofadas e, por vezes, reclináveis, em ambiente de ótima acústica e ar-condicionado, os cariocas, a preços variáveis, ouvem atores e atrizes declamar os mais obscenos vocábulos da rica língua de Gil Vicente (que, aliás, foi autor bilíngue)

Será que não notaram os promotores de tais espetáculos que o uso imoderado do baixo calão estabelece quase sempre um conflito entre a cena e o texto? Em algumas peças desse gênero, o autor, para afetar intelectualismo, joga solto um monólogo "filosófico" - chavões sobre o absurdo da existência apanhados ao primeiro manual didático disponível -, tendo como sequência uma salva de palavras obscenas. E assim escorre a peça como aqueles detritos a caminho da estação elevatória.

Lamentável é que respeitáveis atores e sobretudo grandes atrizes nacionais (uma referência à Fernanda) liguem seus nomes a esse "basfondismo" que vai grassando do Passeio Público à Zona Sul.
É precisamente por isso que se pode classificar de obscenos esses espetáculos. Neles, o palavrão é um fim, e não um meio.

As famílias fogem do teatro, que parece preferir conquistar outro público - o dos amantes da morbidez catalogada nos tratados de Psiquiatria. Entre o teatro água-com-açúcar e o "pornodrama", existe um meio-termo válido. Alguns empresários não se dispõem a identificá-lo. Se tal situação persistir, haverá um momento de ruptura, com todos os inconvenientes que as medidas repressivas acarretam.

Que tal racionar voluntariamente o sórdido, o chulo? Não seria um movimento dessa ordem lançado agora, obra de preservação de autênticos valores teatrais? (...) Esperamos que certos empresários não transformem o teatro em criação de suínos. Há limite para tudo. A sociedade tem o dever de se defender contra os abusos."

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É preciso sempre recordar o passado, senão ele volta.
Uma matéria jornalística tem, entre outras coisas, essa finalidade: ela vira documento.
Enfim, nada mais a acrescentar.



O declínio da crítica

Ao pensador de múltiplos saberes e larga tradição cultural, os jornais de hoje, assim como acontece com as tevês, preferem, por razões óbvias, ter como crítico o leitor impressionista e opinativo de primeira hora. A relativização da crítica desqualificou o papel de mediador do crítico entre o público e a obra e teve como principal efeito um rebaixamento do debate qualificado dos bens culturais produzidos nas últimas décadas. "Tipo assim, fantástico" , “adorei”, “desempenho magistral”, "curti muito" são algumas das novas e respeitadas contribuições do espírito renovador do homem público. O sintoma mais evidente desse fenômeno, que não atinge somente o espaço da cultura, mais também se estende por outras áreas como, a política, religião, esporte e tantos outros espaços de debate; foi que com o banimento do crítico, como alguém que desentranhar do texto noções insuspeitas e clareia zonas obscuras das obras, investindo estudo e fidelidade ao ofício, foi à tendência de enfraquecer os debates e aniquilar do espaço público o espírito crítico qualificado. Em razão disso a indústria cultural, quase sempre molestada com as insistentes intervenções críticas, conquistou o cenário perfeito para proliferação de seus ideais de transformar a cultura em entretenimento vazio, mas muito rentável.  

Peça fraca e sem emoção



São muitos os equívocos do monólogo Solo Almodóvar

por Téo Júnior
Salvador 


Pedro Almodóvar, um dos mais extraordinários diretores de cinema do mundo e o principal de seu país, Espanha, que se notabilizou nesses últimos trinta anos como sendo dono de um estilo personalíssimo e imediatamente reconhecível, que Adriana Calcanhotto citou na bela música Esquadros, mereceu a homenagem da atriz Simone Brault no espetáculo Solo Almodóvar, em cartaz no Teatro Martim Gonçalves (Canela) neste último fim de semana. O início da peça, para começo de conversa, é uma cópia ipsis litteris de uma cena de Tudo Sobre Minha Mãe, aquela em que Agrado (Antonia San Juan) entretém os espectadores com a “história de sua vida” porque as principais atrizes faltaram. Daí, nossa Dolores se entrega a discussões estéreis sobre as dificuldades que os travestis enfrentam, suas experiências com os homens – quase sempre frustradas –, e o tempo custa a passar.

Colabora para o descalabro da montagem, a protagonista dedicar todo o espetáculo pronunciando um portunhol sofrível, quando ela poderia perfeitamente optar pelo português. No palco, uma enorme sandália remete ao filme De Salto Alto; as músicas e certas cenas que Simone interpreta e alude estão, claro, na filmografia do diretor, com destaque para A Lei do Desejo, onde Antonio Banderas contracenou, no longínquo 1987, com o hoje obscuro Eusébio Poncela (há uma inesquecível cena de sexo). A interpretação de Simone para Lo Dudo (Duvido), do Trio Los Panchos, não é à toa. Os figurinos estavam caprichados.

Almodóvar, mestre no colorido exacerbado e que soube retratar como ninguém o universo feminino (Volver), os travestis e suas obsessões (Má Educação) e a sexualidade mostrada de forma bonita até (Carne Trêmula) merecia um roteiro original e satisfatório – o que, infelizmente, o autor Vinnicius Morais, em mais de uma hora de encenação, não pôde oferecer. Quem sabe na próxima vez.


A Crítica

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A nossa geração se recusa a dá atenção à crítica. Teatro, cinema, literatura e música rejeitam violentamente as observações e julgamentos desses investigadores que a cada dia somem dos jornais, revista e veículos mediáticos, para o limbo das discussões artísticas. Até gente civilizada não entende «para que servem» os críticos.  Tenho cá comigo uma opinião de que tudo isso se deve ao fato de que, uma estúpida e corrosiva ideia de que não há nada mais a se dizer sobre as coisas, associado à preguiça mental que papagueia a imaginação alheia e entronaram a banalidade, o fútil e o opiniático como valores insuperáveis, são algumas das razões do desprestígio da função crítica na nossa sociedade. Eu prefiro antes uma sociedade aberta à crítica, do que aquelas que, marginalizam homens e mulheres por não se darem facilmente por satisfeitas e insistirem em fazerem inconvenientes questionamentos onde a maioria via (ou fingia) um consenso. Muitas das noções que hoje damos por adquiridas foram formuladas pela crítica mais aguda. A crítica sincera é muito mais construtiva do que o elogio imerecido. Mas as pessoas preferem o inebriante perfume dos discursos panegíricos, as ásperas, mas honestas opiniões, que nem sempre estão em conformidade com o esperado, daqueles malditos transgressores do conformismo. 

“O Anjo Safado”: peça interessante e sugestiva


Téo Júnior [*]

Enfim, depois de muita publicidade e expectativa idem, estreou no Teatro Atheneu o espetáculo “O Anjo Safado”, que permaneceu em cartaz no último final de semana. Apresentação bonita, com muita dança, música e bastante sugestiva.
A dualidade entre céu x inferno, pureza da alma x prazeres mundanos, quer dizer: o indivíduo em conflito consigo mesmo, que tanto intrigou (e fascinou) os homens no período medieval, veio à baila na peça - fascínio que teve em Gil Vicente uma dimensão maior.
Ressalte-se que, uma vez no terreno metafísico, os conceitos e aquelas normas de conduta que recebemos ao longo da vida vão sendo subvertidos por uma lógica distinta. Quando algum personagem se insere no universo pós-vida, na ótica cristã, as regras do jogo agora são outras.
O texto de Paulo Lobo é simples e direto. A maior vantagem dele foi estar isento de abordagens filosóficas complexas e que, no fim das contas, não sugere nada ou muito pouco. Teatro bom é assim: diz o que precisa ser dito de maneira econômica e eficaz.  A direção de Jorge Lins compreendeu a ideia do texto.
Guardei a sátira que foi feita em relação aos bispos gananciosos e hipócritas, e acredito que a crítica seja muito pertinente, uma vez que hoje a televisão brasileira está demasiadamente contaminada com uma leva de “pastores” picaretas e aproveitadores, alguns inclusive não resistindo à tentação de exibir horrendas sessões de exorcismo. Lobos disfarçados de cordeiros.
A cena onde a entrevistadora melindrosa Lais Bizarra (Eduardo Vieira) conversa com o chefe do inferno (o excelente Leandro Handel) foi impagável.
Duas vezes, foram exibidas cenas de orgia sexual com 15 participantes. Pura devassidão, que deixaria um pastor horrorizado.
E assim, de gargalhada em gargalhada, as verdades - algumas inconvenientes - vão sendo ditas uma por uma, e o teatro acaba se tornando uma espécie de espelho, onde o público tem a oportunidade de se enxergar e de refletir, como acreditava Molière.
Iluminação adequada, cujo palco ficou grande parte do tempo em penumbra, talvez para realçar o aspecto extraterreno do atormentado personagem José. Som e figurinos bons.
Antônio Leite, o protagonista, sozinho, já é um teatro. Teve um desempenho seguro e feliz. Trata-se de alguém que possui uma grande relação de afeto com o palco. Um ator experimentado e competente. 
Toda essa discussão coube no espaço de 1 hora.
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Crítico de teatro e colaborador do ETC’.


SHAKESPEARE VETADO

 
Paulo Autran interpretando "Rei Lear" (1996), obra agora "revista" e "adaptada" nos colégios americanos.
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Chega a notícia - desastrosa, a meu ver - que algumas escolas americanas querem substituir (isto é, censurar) certos trechos do magnífico legado de William Shakespeare, o mais admirado, estudado e enaltecido dramaturgo que já apareceu. Barbara Heliodora, crítica de teatro desde 1958 e atualmente no jornal O Globo dedicou toda sua vida para desbravar a gigantesca criação shakesperiana. Estudou-o mais do que qualquer outro intelectual no país. Fala dele com absoluta paixão e independência, pois sabe que Shakespeare é eterno. "O que não estiver na Bíblia está em Shakespeare", disse ela ao falecido dramaturgo Mauro Rasi.

Qualque espécie de censura soa como sendo uma maneira melindrosa e, pior, errática de impedir que determinadas verdades venham à baila, porque nem todas as verdades - como diz meu pai - podem ser ditas. Entretanto, a literatura é o campo (quiçá o único) que está numa posição privilegiada de se dizer tudo, sem meios-termos. A literatura tenta através do talento de certos homens e mulheres reprodizir, questionar, condenar os próprios indivíduos que pertencem a uma época e a uma sociedade. É como se o livro funcionasse como um "espelho público", onde nos enxergássemos continuamente, como dizia Molière.

Nada nos ensina mais do que os absurdos ocorridos nos períodos ditatoriais que tivemos, com mais violência o de 64, cuja canga fomos obrigados a suportar durante 21 anos. Jornalistas que de uma hora para a outra "suicidavam-se", teatros incendiados, atores boicotados na véspera dos espetáculos, sem aviso prévio da Censura Oficial, escritores presos e suas obras impedidas de circular (caso de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, de 1975 - tachado de "pornográfico"), para não falarmos da odiosa tortura.

A ditadura, pelo menos no Brasil, passou. A Censura (aparentemente) passou. Permaneceu a obra.

A Censura Oficial, ou seja ela qual for, quer-me parecer, ao vetar uma obra artística de chegar até o povo, julga estar "educando" este mesmo povo, coitado, tão fraco intelectualmente, tão inepto, que necessita de intérpretes que escolham por ele o que lhe é nocivo ou benéfico. Estranha, entretando, que em pleno ano de 2012 com a internet livre e os variados meios que oferecem sexo, violência a qualquer momento, que a sociedade americana - tão avançada e evoluída - tenha esse tipo de postura. É um retrocesso de quem acredita estar auxiliando uma sociedade, focalizada exatamente em sua raiz, ou seja, nos alunos, nos jovens estudantes, suprimindo-lhes obras essencialmente literárias, e o que é ainda pior: obras já consagradas, já canonizadas. Creio que num futuro próximo, esses adultos não gostarão de saber que um dia foram trapaceados pela educação que seus pais sustentaram, mediante pagamento de impostos.

Subliminarmente ou de maneira mais explícita, o sexo sempre esteve presente em tudo. Se se for suprimir uma obra porque ela focaliza o sexo, ou a violência, ou o crime, não fica um disco, um filme, um livro de pé. Num belo dia de 1958, após o espetáculo Os 7 Gatinhos, Nelson Rodrigues pediu a palavra e foi "explicar" sua peça à plateia (adulta) que a detestara e começara a gritar palavras de ordem. Precisava? Houve quem quisesse chamar a polícia. Será que esse público que pagou ingresso, não tinha condições - por si só - de refletir, de analisar as - vá lá - monstruosidades apresentadas? E a respeito da "intenção literária" do autor, será que alguém percebeu?

Mas do que a mera referência ao sexo, ou aos órgãos genitais, era extremamente fácil para a censura classificar uma obra de "pornográfica" e acabou-se. O que precisa ser efetivamente compreendido num texto é sua profundidade literária como um todo, e não atacá-lo por uma palavra, uma frase ou uma referência. É a primeria vez que ouço falar que Shakespeare é pornográfico e alguns termos de suas peças devam ser "alterado" por outras. Assustado, eu digo: NÃO.

A literatura tem poder de alterar diversos rumos num meio. Quando ousa falar a verdade, ela passam a representar um perigo para os "donos do poder" que se veem acossados, emparedados pela força da palavra. Shakespeare não fez nada além de focalizar o íntimo dos homens, como raciocinam os poderosos, os apaixonados, como os indivíduos engendram seus crimes etc. O grande poeta inglês mostrou que os seres humanos sentem inveja um dos outros, trapeceiam, dissimulam, traem etc. Considero uma heresia censurar obras de tão alto valor moral e ético.

Que os EUA são uma nação puritana, todo mundo sabe. Ela já vetou a estudo do evolucionismo num passado não tão remoto, pois ele entra em conflito involuntariamente contra o Criacionismo Bíblico. (Consta que Darwin era religioso). Agora, tenta alterar uma obra desta importância. Nos anos 90, talvez para dar um basta nessa hipocrisia toda, uma mulher já calejada pela vida, escreveu uma peça que - coitados dos americanos - se tornou o maior êxito daquela década e excursionou o mundo. A palavrinha que os americanos odeiam ler de cara já aparecia no título da peça, e Eve Ensler teve o despudor de narrar tim tim por tim tim as funções do órgão genital feminino, repito: nos seus mínimos detalhes, mediante entrevistas com diversas mulheres. O título de sua obra-prima: Os Monólogos da Vagina. Deve ser o livro que encabeça o índex americano nesses últimos anos.


TEO JÚNIOR

Improbabilidade poética - a poesia deixa de pertencer ao poeta quando ganha as páginas dos livros


A literatura promove encontros estranhos. Um deles ocorreu entre Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto. Chico Buarque de Holanda é o maior compositor lírico desse país. E justamente ele, que sempre carregou a sua poesia de um transbordamento de emoções e sentimentos, foi se juntou ao maior poeta anti-lírico do país para criar uma parceria improvável. Em 1965 Chico, então com pouco mais de vinte anos, foi convidado pelo diretor do TUCA, Roberto Freire, para musicar o poema que a companhia estava adaptando para o teatro. Daí nasceu o musical MORTE E VIDA SEVERINA. Um dos raros poemas de João Cabral que suporta música. Cabral, como todos sabem, era um poeta avesso a musicalidade, e se esforçou a vida inteira, para impedir que sua poesia expressasse alguma melodia involuntária. Ele acreditava que a musicalidade e o ritmo melódico de um poema, dispersava a atenção do leitor e o distanciava dos conteúdos poéticos necessários para compreensão da narrativa. Através da rima toante, frequentemente empregado pelo poeta em sua poesia para suprimir a música, a sua linguagem tornou-se uma marca de expressão individual que o distinguia de todos os poetas nacionais. Todos que ouvem um poema cabralino identificam de pronto a sua dicção. Ela é áspera, árida e seca, como as paisagens descritas em seus poemas. Em seu mundo particular, quase não se ouve nada, mas se ver muito. João Cabral optou pelo visual ao excluir os sons de seus poemas. A façanha dessa poesia foi a de se afastar daquilo que os legisladores literários sempre recomendaram: uma poesia direcionada aos sentimentos. Mas a poesia de João Cabral tomou o seu próprio rumo. Rebelou-se contra o poeta e revelou a sua face musical graças a genialidade de Chico Buarque que desentranhou das pedras cabralina, sons e emoções que o poeta jamais imaginou que elas contivessem.  

Uma “Antígona” de tirar o fôlego na Rua da Cultura


A bonita leitura da Stultífera Navis para o clássico sofocleano



Téo Júnior *

“Antígona”, magnífica obra legada pela Grécia Antiga – e que dera o merecido prestígio ao seu autor, Sófocles (496 – 406 a.C), conquistando o 1º. Lugar no concurso trágico de 442 a.C, conta a história da famosa donzela que, ao purificar o cadáver do irmão, assinaria sua sentença de morte. 

Os conflitos e as reviravoltas que o texto vai, aos poucos, apresentando, reclamam uma atenção e cuidado muito especiais de nossa parte, pois todo ele é permeado de emoções viscerais e intensas, já que os personagens agem guiados por convicções das quais não estão dispostos a retroceder tão facilmente. 

Creonte, uma vez estabelecido no trono de Tebas, parte do princípio de que deve ser obedecido – e não questionado, sejam quais forem suas resoluções. Antígona, por seu turno, considera-se no direito de transgredi-las, sim, quando estas não estiverem chanceladas pelos deuses, a quem venera. Não se pode compreender o teatro sofocleano sem se recordar de que os gregos eram profundamente religiosos e, portanto, tementes à vingança implacável do Olimpo. Observando-se por este ponto, notamos sem dificuldade, que são os poderosos – e não os meros mortais – quem experimentam a audácia de burlar as leis divinas, desafiando não raro a sabedoria dos oráculos etc., incorrendo-se desta forma em blasfêmia. 

Mas, como nada em teatro é tão simples quanto parece e antes que apontemos culpados e inocentes, há um fator em “Antígona” ainda mais perturbador: a única criatura que desacatou o decreto fixado pelo rei foi, ironicamente, sua própria sobrinha – e que será dentro em breve, sua nora. 

Até que ponto o Estado pode interferir naquilo que o cidadão julga necessário realizar? Eis a grande questão da peça, escrita há vinte e seis séculos. 

Uma leitura atenta de certos teóricos contemporâneos como Leyla Perrone (“Vira e Mexe, Nacionalismo”; Cia. das Letras) e Umberto Eco (“Interpretação e Superinterpretação”; Martins Fontes), desperta a atenção para com um fenômeno observado entre os grandes textos literários: a profusão das analogias, de semelhanças que há entre eles, cuja mensagem é a de que uma obra sempre está dialogando com a outra, e sem que nenhuma delas perca sua originalidade. Não resisto à tentação de estabelecer a maneira como Sófocles radiografou os poderosos: Creonte e Édipo (seu antecessor) têm em comum a irritabilidade, a pressa em julgar quem lhes rodeia, o (aparente) paternalismo pronto para converter-se em arrogância, e a fúria indisfarçável que há em suas palavras quando seus desejos não são prontamente atendidos. 

“Antígona”, antes de ser uma tragédia onde três indivíduos morrem devido à resolução de um tirano é, antes de tudo, uma parábola que sublinha aquele sentimento tão escasso hoje em dia: o amor legítimo. Amor por parte da protagonista, ao não permitir que o corpo de Polinices fosse profanado, servido de alimento para aves e cães – e, ato contínuo, amor para com seus progenitores, que certamente endossariam a empreitada. Amor de Hémon, destinado àquela que seria sua esposa, ao rechaçar com veemência a decisão precipitada do pai. Amor de Tirésias, não apenas para com a grandeza do gesto desta menina, mas principalmente respeito para com as divindades – que brota, espontaneamente, de suas iluminadas palavras. 

Ao acompanharmos “Antígona”, detendo-nos em cada detalhe, quer nas ponderações de Ismênia, quer nos argumentos ambíguos do Coro e também no embate entre a protagonista e o soberano (duas personalidades descomunais) temos a impressão de estarmos ouvindo uma sinfonia, e não lendo uma obra teatral. Ao representar “Antígona”, o mais destacado dramaturgo grego de todos os tempos – que deixou para a humanidade peças do calibre de “Édipo-Rei” e “Electra” compôs uma linda e admirável poesia. 

“Antígona”, por acaso, encerrou o bonito projeto do Sesc/Artes Cênicas. Como não há a menor possibilidade de se analisar todas as peças do programa, optou-se em apreciar a obra de Sófocles, dada sua imortalidade. Isso, é claro, sem qualquer intenção de desmerecer nenhuma das demais. Estão de parabéns os organizadores e elencos. 

Agora, vamos a nós: o Coro, em seu todo, foi uma surpresa. Composto por vinte pessoas – moças e rapazes em trajes quase que sumários – e que amiúde movimentavam-se como verdadeiros malabaristas, se contorcendo em vigas de ferro, lembraram-nos um picadeiro. Alguns atores, inclusive, apareceram nus, remetendo-nos (é inevitável) às carnavalescas montagens de Zé Celso Martinez. Existe uma cena no espetáculo que, a meu ver, fora extremamente inútil: quando todos eles se abraçam, esfregando-se uns nos outros, numa estranha dança carregada de lascívia. Sem dúvida, o diretor quis passar a ideia da unidade da opinião pública defendendo a postura da protagonista. Porém, essa imagem, sensualizada ao extremo, não me pareceu a mais adequada, posto que não acrescenta nada ao enredo. Bastava o momento (feliz) em que o coro sorri, à revelia do rei, deixando transparecer sua censura quanto ao edito, sem a necessidade de sexualizar a cena.



IRREVERÊNCIA


Kassem, caracterizado como um palhaço no papel do Emissário foi um equívoco: seu modo excessivamente irreverente ao narrar ao rei a descoberta dos cuidados ao cadáver interditado, mais lembraram o bobo da corte do que um infeliz servidor que teve o azar de ser o portador da mesma. Sua maneira infantilizada de se expressar é inaceitável sob qualquer aspecto, na medida em que ele está diante de uma autoridade – a quem se deve temer – e não parlamentando com um amigo ou um colega. Se o personagem nos diz claramente: “Eis-me aqui, contra a minha vontade e contra a vossa, porque ninguém se alegra em ser o portador de más notícias”, como explicar que ele fosse tão satisfeito e descontraído ao anunciá-las? 

Edênia Góis (Eurídice), Marcelo Paz (Hémon; papel que nada tem de fácil), Régi Gondim (Corifeu) e Sandra Azevedo (Ismênia) embora aparecendo menos, desempenharam seus papéis com bastante competência. 

A interpretação de Jane Carvalho (Tirésias) fora louvável. Ela entrou, deixou seu recado e retirou-se – mas eu gostaria de fazer uma ressalva: na medida em que vai falando, o personagem começa a rolar no chão, convulsivamente, desenhando-se a nossos olhos um quadro grotesco. É algo que não deixa de surpreender, porque esse arrebatamento, cujo espírito revela-se demasiado agitado e ressentido, não caracterizam o adivinho com exatidão. Como o homem que “traz consigo a força da verdade”, Tirésias representa antes de tudo a mansidão e a tolerância, sempre aliadas àqueles que são os intérpretes dos deuses. No caso, não se trata nem de um erro – e sim de um evidente exagero.  

O Creonte de Lindemberg Monteiro era exatamente o que se esperava. Categórico e resoluto em suas decisões, sua voz fez-se ouvir e respeitar. A atuação dele possui a energia e o vigor inerentes ao grande personagem que interpreta.  

Por fim, a protagonista. Meu Deus, o que foi aquilo que vimos na Casa da Rua da Cultura no último domingo? O desempenho de Aimée Resende foi tão sincero e corajoso, que somente uma atriz profundamente passional seria capaz de realizar. Há na atuação de Aimée a determinação latente que as heroínas obstinadas exigem. O momento em que ela balança-se freneticamente, apoiada sob um cabo de aço, despedindo-se dos cidadãos, fora simplesmente magistral e carregado de beleza. Comovente e inesquecível. 

No cômputo geral, parece que com “Antígona”, a parada da Cia. Stultífera Navis está ganha. A direção de Lindemberg Monteiro justificou-se na medida de se adaptar aos nossos dias um clássico com ideias bastante sugestivas. O espetáculo fora apresentado gratuitamente. A ovação que se seguiu ao seu término atestou que se trata, efetivamente, de um grande trabalho. 

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* É professor e pesquisador de teatro.

Contato: @junior_teo 

UMA FORÇA DA NATUREZA - TENNESSEE WILLIAMS

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Téo Júnior*


Classificado pela crítica mais honesta como sendo o melhor teatrólogo norte-americano do século XX depois de O’Neill, o dramaturgo Tennessee Williams teria feito cem anos no ano passado se não tivesse morrido em 1983.  

Williams extraiu de sua vida atribulada e infeliz a matéria-prima que ganhou corpo nos palcos e o projetou para o estrelato. Se no teatro brasileiro Dias Gomes evidenciou a religião mesclada às nuances políticas (“O Berço do Herói” e “O Bem Amado” são exemplos) ou Guarnieri, que assinalou o cotidiano da classe operária, alguns temas eram especialmente caros a Williams, todos eles podendo se resumir na obsessão de se estabelecer o império familiar, contudo prestes a desmoronar.

Tennessee escreveu muitas obras geniais, claro, dentre as quais: a maravilhosa “Bonde Chamado Desejo” (1947), “Anjo de Pedra” (1954), “Gata em Teto de Zinco Quente” (1955) e “A Noite do Iguana” (1961). Há alguns anos, Décio contou que o espetáculo que mais lhe marcara fora justamente o “Bonde”, que ele assistiu em Nova York. Em cena, um ator bonito e muito jovem: Marlon Brando. 

As personagens femininas de Williams, porém, destacavam-se dos homens com quem contracenavam porque elas eram passionais, fortes, exageradas, dominadoras. Suas peças ganharam ressonância no cinema, seus enredos foram vistos em quase todos os idiomas e sacudiram as grandes audiências. Elizabeth Taylor, morta em março, simbolizou, sem dúvida, a maior expressão do que uma mulher saída da pena de Tennessee seria capaz.

 FORÇA DA NATUREZA


Yan Michalski, outro gigante da crítica, apreciando a atmosfera de Williams, apontou uma “sociedade condenada” e “sensibilidades adormecidas”. Elia Kazan, primeiro diretor do “Bonde” falou em “civilização que agoniza”. Em síntese, floresce nesta dramaturgia a convivência atribulada entre os indivíduos, gerando (como era de se esperar) atritos descomunais, onde parece não haver nenhuma espécie de escapatória para eles. Todavia, nota-se o desejo instintivo de não permanecerem paralisados ante seus flagelos. Há, nas histórias de Williams, aquele começar e recomeçar tal qual o bordado de Penélope. 

É a capacidade de enxergar a intimidade humana sem lentes embelezadoras, atrelada a um privilégio de constatar que a prática é muito mais triste e distinta do que supõe a vã filosofia teórica, que faz de certos homens grandes escritores. Tennessee fora um deles. 

A função do escritor, por mais que arranhe determinadas sensibilidades é – parafraseando Todorov – documentar a verdade. 

Ao que nos consta, a data passara despercebida por nossos elencos. E é lamentável que nenhum encenador tenha manifestado o interesse de dirigir qualquer texto desta força da natureza que foi Williams. Teatro, senhores diretores, é prestação de serviço. Não se esqueçam jamais disso, como nós não nos esquecemos. 

* É crítico de teatro e colaborador do blog NAVEGANTES.... Contato: junior_teo

Diretor do espetáculo Baianidade Baiana comenta a crítica de Téo Júnior

Téo Júnior, jovem revelação da crítica de teatro, escreve ocasionalmente no blog "Navegantes ao Mar" e no jornal Cinform, de Aracaju. Suas publicações são quase sempre relacionadas ao teatro e, esporadicamente, de cultura de uma forma geral. O espetáculo Baianidade Baiana, ao passar por Caetité, foi vista por Téo e ele publicou sua análise aqui no blog. O diretor Alberto Damit, ao tomar conhecimento da crítica, escreveu a respeito. Como o objetivo da blog "Navegantes nao Mar" não é o de destacar uma opinião, apenas, como sendo a verdadeira, e sim fomentar as discussões, publicamos na íntegra o texto de Damit.

"Li com satisfação sua crítica a respeito de nosso Baianidade Baiana, acho importante e até nobre a discussão quando ele resulta de estudo ou até mesmo observação de uma obra artística. Acredito que o teatro tem este poder, fazer pensar e com isso melhorar nossas atitudes. Agradeço a atenção.

Porém acho necessário esclarecer algumas colocações sobre suas críticas:

Baianidade Baiana utiliza-se do Stand up e do besteirol para elucidar os devaneios preconceituosos de quem só conhece a Bahia pelo cartão postal. Durante quase dois anos, pesquisamos os motivos que fazem os turistas folclorizar e muitas vezes discriminar o jeito de ser de nos Baianos.

Somos uma Cia. que estuda o comportamento do preconceito, conhecemos bem sua manifestação. Fazemos teatro popular com o objetivo de atender a uma plateia que compreende e consome comédias, porém é comum encontrar resistência de uma pseudoelite que acredita que o teatro necessita ser construído a partir de modelos utrapassados, distanciado e sem a mácula do riso. Não é isso que achamos. A arte é diversa, assim como os gêneros do teatro, não se pode diminuir esta ou aquela manifestação artística que seja sustentada pela concordância do risos ou dos plausos, e não compreender esta tendência é quase um crime.

Me chamou atenção o fato de uma pessoa culta escrever que nosso tiíulo Baianidade Baiana é redundância. A Baianidade é presente em diversos lugares do Brasil, a Baianidade Baiana esta sim somente aqui.

Para lembrar: *Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na arte. Ela é permitida para que o escritor tenha toda a liberdade para manipular as palavras, para que ele possa passar tudo o que pensa ao leitor. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.

*"Sistema de consulta interativa - Estadão", p. 171. Editora Klick. São Paulo (1995)

A respeito de sua comparação com A Praça é Nossa, ficamos lisonjeados uma vez que este programa sempre se destacou pela diversificação em seu humor. Nesses 24 anos, foram produzidos mais de mil programas inéditos. Sem contar que já desfilaram pelo banco da praça mais de 120 artistas, entre humoristas e comediantes, que protagonizaram o respeitável número de 250 personagens.

Baianidade Baiana obteve excelentes críticas em Minas e no Espírito Santos, e foi convidado para uma temporada de três meses no Teatro Candido Mendes em Ipanema no Rio de Janeiro em 2012.

Por fim achamos que diversidade nos seus aspectos mais amplos deveria ser exercitada como um todo pela sociedade e não apenas dentro da sala de aula ou num blog. A diversidade é um princípio humanista para conseguirmos construir um mundo onde possamos viver com mais respeito, compreensão e paz.

As pessoas com elevado grau de compreensão sobre a diversidade cultural, em geral têm comportamento mais tolerante e contribuem para menor ocorrência da violência e as manifestações racistas.

Devemos todos ajudar a construir um mundo com mais DIVERSIDADE.

Alberto Damit
Diretor do espetáculo


ESPETÁCULO DIVERTIDÍSSIMO ABORDA INFERNOS PARTICULARES


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De fato, todos nós temos sérios problemas sexuais

Téo Júnior *

Se existe um assunto que o teatro soube explorar à exaustão, com certeza é o sexo. Desde os gregos (“Édipo-Rei”, por exemplo, realçou o incesto, terrível e chocante, porque relacionado a um tabu social), passando pela crise e a monotonia do casamento, onde os cônjuges, já saturados, cogitam sem qualquer disfarce até mesmo o adultério – circunstância que Albee compôs como ninguém – até chegarmos aos instintos mais baixos do ser humano – leia-se devassidão – verificados nos textos de Genet e no universo quase sempre pantanoso de Nelson Rodrigues, com as “bonitinhas, mas ordinárias” da vida.

Desde os tempos inenarráveis de Calígula, até os dias que correm, a humanidade jamais parou de fazer sexo – tanto para fins de procriação ou como um mero passatempo. “Senhor, concedei-me a virtude da castidade – mas não agora!”, escreveu Santo Agostinho.  

Em “Todo Mundo tem Problemas Sexuais”, de Domingos Oliveira e Alberto Gondim, são abordados esses infernos no tocante à intimidade das pessoas. E aí entramos num campo minado – e sombrio, já que a sexualidade sempre acompanhou a vida dos indivíduos considerados saudáveis, e cuja finalidade é proporcional prazer e bem-estar, mas que acaba se convertendo num fardo. A lista é extensa e penosa: surgem o fantasma da impotência, homossexualidade, traição, os encontros na internet que quase sempre culminam em frustração, sexo grupal (sic!) e um repertório enciclopédico de palavrões que faria a alegria de uma Dercy Gonçalves.

A peça resulta interessante porque, dividida em 6 quadros, destaca situações que seriam consideradas dramáticas numa primeira instância, para no palco elas se transformarem em objeto de comicidade. Embora mergulhados em suplícios aterradores, paradoxalmente manifesta-se nesse povo o desejo incontrolável de prosseguir sua atividade (ou tara) sexual.

Em cena, apenas uma cama por onde todos os personagens passam. Há tipos demasiadamente pitorescos, como o baiano safado (Eduardo Albuquerque) da 1º. quadro que se apaixonou pela colega farmacêutica (Mariana Moreno; não se sabe qual deles é o pior) e uma protestante ninfomaníaca (Cida Oliveira) que teve a cara de pau de trair o marido na própria casa, com o patrão dela, gordo e bêbado.  

Não diria que o espetáculo fora maravilhoso, não há a necessidade de exagerar, mas fora bem trabalhado. Os textos ficaram claros e estabelecidos de modo cuidadoso; uma produção caprichada, os atores estavam seguros de seus papéis e as soluções dramatúrgicas para temas tão variados foram inteligentemente desenvolvidas. Em suma, uma peça divertidíssima e muito responsável.

 O PÊNIS QUE FALA

Mas, caminhando para o final, o espetáculo desabou num precipício: eis que surge em cena, inesperadamente, um sujeito trajando roupão e uma touca cor de rosa, de um excepcional mau gosto, dizendo-se o personagem “mais importante” da história e reivindicando o direito de “se manifestar”. Identificou-se como sendo o pênis. (Ah, Meu Deus...). É impressionante o festival de besteira que assola o teatro e que eu sou obrigado a aturar. Onde já se viu isso? Então, o órgão masculino narra sua “via-crúcis” e, ironicamente, fora o quadro que mais agradou ao público, a julgar pelas gargalhadas quase que histéricas que se ouvia. Num determinado momento, ele admite que Fernando Gomes não soube como terminar a apresentação e pediu que ele falasse o que quisesse. O recurso que os sábios de outrora classificaram de “deus ex machina” pôde muito bem ter funcionado nas tragédias gregas, mas em “Todo Mundo” foi sinceramente catastrófico.  

Ora, se o diretor não soube encerrar dignamente a peça, a incompetência é dele. Salvou-se, além dos mencionados, o desempenho de Kadu Veiga e “Todo Mundo”, exibida no feriado do dia 15 atingiu uma audiência que raras conseguem: todas as cadeiras do Teatro Tobias Barreto foram ocupadas. Durou 2 horas.

 *É crítico de teatro. Contato: junior_teo

Publicado no jornal Cinform do dia 21/11/2011, pg. 5 

MESTRE AUTRAN

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Por TÉO JÚNIOR

Esse espaço homenageia de forma singela a decisão da Presidente da República Dilma Rousseff por ter oficializado o grande Paulo Autran como “Patrono do Teatro Brasileiro”. A publicação está no Diário Oficial do mês de agosto. 

Pode parecer insignificante um reconhecimento tão simples, que não representa nenhuma gratificação em dinheiro para herdeiros do grande ator, morto há 4 anos, mas o respeito e agradecimento que essa decisão traz. É preciso que se faça justiça a um grande brasileiro, e ainda mais quando se trata do maior ator do país.

Qualquer decisão que venha do poder deve ser recebida com cautela, já que se montou em Brasília um legítimo picadeiro onde noções de valores morais, de ética, de idoneidade etc. estão amiúde se nivelando para baixo. Um reconhecimento que chega, ainda que postumamente, de forma justa em relação à memória de um artista. 

Felizmente, Paulo Autran não precisou morrer de velho para ser lembrado. Em vida, foi saudado como o principal nome do nosso palco e rivalizava apenas com Fernanda Montenegro na primazia de ser o maior ator do Brasil. Recebera diversas homenagens em vida, em gratidão às 90 peças que montou, sendo Shakespeare o autor mais constante de seu currículo. 

Não se pode, todavia, descansar sobre os louros, pois existe o risco de se ficar acomodado. É o que chamam comumente de “zona de conforto”. Paulo trabalhou a vida inteira e não se iludiu com o sucesso. Identificava-se com o teatro, apenas. Esnobou a televisão e o cinema, embora às vezes estivesse lá também. No entanto, sua mais visceral paixão foi, reiterando, o palco. 

Em 1996 decidiu montar Rei Lear. Recebeu patrocínio de mais de 1 milhão de reais, pois não se pode trabalhar com um artista deste quilate com mixaria. 1 milhão de reais para ser investido numa peça parece caro – e é. Mas é preciso levar em conta também a relevância do espetáculo. Paulo arranjou o dinheiro sem dificuldade. Lembro-me bem quando escrevi um texto em Aracaju cobrando do governador Déda dinheiro para o teatro, argumentando para ele que “teatro é verba”. Estão vendo aí?

Além de ator, Autran viveu nos turbulentos anos da ditadura militar, onde a liberdade de expressão e as artes eram cerceadas e boicotadas pelos poderosos da hora, sob a alegação falsa de que estas últimas eram obras “subversivas”, portanto “prejudiciais” ao público. Quem tinha o que dizer, teve de se calar, sob risco de punições maiores. Paulo foi um defensor intransigente da liberdade e do respeito pela categoria da qual fazia parte: a dos atores. Chamou para si a responsabilidade, ao invés de delegá-la a terceiros. Em 1965, com o espetáculo Liberdade, Liberdade, de Millor Fernandes e Rangel, percorreu o país para falar de algo que já não existia totalmente no Brasil. Não adianta ter liberdade “mais ou menos”, um “pouco” de liberdade. A liberdade deve ser total, irrestrita. Em Alagoas, representou o espetáculo, contrariando a decisão do então governador Simeão Filho. Pressionado por manifestações estudantis, com o apoio da Universidade Federal daquele estado, ele liberou a peça, e os alagoanos, assim, puderam assistir ao extraordinário ator no Teatro Marechal Deodoro, como atesta a foto abaixo. Quem viu, viu. Uma experiência única, irrepetível. Venceu o teatro. 

Salve Paulo Autran. Maravilhoso como ator e como ser humano consciente de seu ofício.

Os alunos de Maceió, que batalharam para ver Paulo Autran no palco, fizeram uma placa homenageando o ator que se apresentou no Teatro Marechal Deodoro, o principal da cidade, com a peça Liberdade, Liberdade, contrariando a decisão do governo.   

ACARAJÉ, AXÉ E MUITA PREGUIÇA

Foto: Divulgação
“Baianidade Baiana”: mais um espetáculo
calcado nos estereótipos fáceis
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Téo Júnior*
teo.camp@hotmail.com

Numa cidade como Caetité, cuja tradição teatral é paupérrima, é um alento saber que um espetáculo foi exibido em três sessões, ainda que montado num espaço pequeno, como é o caso do Cine Teatro Anísio Teixeira (Pç. da Catedral, Centro). Nessas raríssimas ocasiões, a crítica se faz fundamental, pois entendemos que o papel dela não pode ser o da complacência ou o da subserviência em relação ao elenco, como normalmente acontece nas divulgações feitas pela mídia, sem critério algum; tampouco a crítica deva destruir um espetáculo, pura e simplesmente. Ela não existe para esses fins. No entanto, sua obrigação é a de analisar – sempre – com justiça aquilo que é oferecido ao público.

Não raro, as comédias apresentadas (muitas a preços populares, inclusive) estão calcadas sobre estereótipos, e os artistas perseguem o nobre objetivo de, sorrindo, refutá-los, já que esses estereótipos – e ninguém há de discordar – são gerados sobre ideias preconcebidas e alimentados pela ignorância. Assim sendo, faz-se necessário rechaçá-los a qualquer custo. Algumas dessas idéias, todos nós já conhecemos: baianos preguiçosos, nordestinos atabalhoados em cidades grandes, gays afetados excessivamente, loiras estúpidas etc. A regra não se aplica aqui, porém. Dir-se-ia que eles (Marcos Lima e Marcos Magno) se incomodam muito pouco com críticas em relação à sua cultura, e ambos a proclamam até com certo orgulho. Não é sempre assim.

O título da peça por si só já soa estranho, porque redundante: “Baianidade Baiana” (sic!), embora o tema nos interesse, num momento em que se discute até que ponto essa “guetificação” cultural é apropriada ou não. Qual seria a melhor identidade? A mais bonita? A “baianidade”, talvez? A “sergipanidade”?  A “mineiridade”? Assim sendo, analisamos por uma ótica separatista, como se esses locais fossem ilhas e não partes de um todo, de um painel diversificado e rico em múltiplos aspectos, como é o Brasil. Aliás, o próprio conceito de “brasilidade” está há muito batido, desde o surgimento – lá no Modernismo – de Tarsila do Amaral, conforme assinalou Mário de Andrade, que caracterizava seus quadros  como sendo a representação da “realidade nacional”.

Rodando a baiana – Abriu-se espaço para imitações de artistas, mencionando-se as diferenças abissais de classes, a negritude, o acarajé com pimenta, a sexualidade sem culpa, o linguajar por vezes tosco, mas autêntico e piadas. Ao final, ambos irmanaram-se com o auditório a fim de que nós, talvez não mergulhados suficientemente nesse universo quanto eles, adivinhássemos as músicas lembradas e por aí vai. É evidente que esse trabalho não é tão simples e eles provaram ser bons comediantes, mas o que a dupla realiza não pode ser considerado teatro, no sentido mais genérico do termo. Às vezes, existiam os diálogos, eles estavam lá, incisivos ao extremo – porque um assunto puxa outro – mas sempre caricaturais, é claro; todavia na maior parte da peça o que tivemos foi o famoso stand-up. Em suma, trata-se mais de um humorístico no estilo “A Praça é Nossa” do que propriamente de uma peça teatral.

O momento em que a sonoplasta (não foi informado o nome) interrompeu a apresentação a fim de se eximir das falhas incríveis do som que ela operava, foi de uma estupidez sem tamanho, e “Baianidade Baiana” pecou, assim, pelo menos na sexta-feira, pela falta de cuidado. Mas nesses casos, como eles se abrem a todo tipo de improvisação, não se considerou o descuido uma grande falha, pois ele não chegou a atrapalhar em nada.

A responsável pela peça foi a “Companhia Baiana de Risos” e a direção é de Alberto Damit e Marco Antonio Lucas. Ingressos: 20 reais.

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* Graduado em letras pela UNEB, foi professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) atualmente desenvolve Projeto de Mestrado cujo tema é a dramaturgia de Nelson Rodrigues. É pesquisador de teatro. 

INSENSATOS CORAÇÕES

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Como a arte literária abordou um dos sentimentos
mais primitivos do ser humano: a vingança
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TÉO JÚNIOR
Colaborador

O Brasil vem acompanhando, nesses últimos dias, na novela Insensato Coração (Globo) os desdobramentos da cruel vingança a que Norma (Gloria Pires) está submetendo o personagem de Gabriel Braga Nunes (Léo) e o ponto em que ela chegou. Assiste-se – não sem uma certa dose de prazer sádico – um dos grandes acertos de contas poucas vezes mostrado de maneira tão contundente numa obra de ficção televisiva. E existem, por incrível que pareça, muitas lições a tirar desse enredo fascinante. 

Léo é um vigarista e um crápula, sem dúvida – mas nessas três semanas vem penando nas mãos daquela a quem ele prejudicou tão profundamente. Léo, posto em cárcere privado, está tão desmoralizado, coitado, que é frequentemente hostilizado até pela empregada da casa, a cretina da Jandira (Cristina Galvão) e também por Ismael (Juliano Cazarré), o ajudante-de-ordem de Norma, cujo cérebro não deve ser maior do que um grão de mostarda. Está sendo sistematicamente humilhado por elementos que, em outra circunstância qualquer, ele certamente desprezaria. 

Léo vem sendo tratado de maneira tão boçal porque não lhe há saída. Submete-se aos caprichos daquela que um dia fora sua amante, porque, inteligente, sabe que a prisão seria ainda mais intolerável. Caso não aceite entrar no jogo dessas pessoas, irá para a cadeia, pois tem consciência clara de que é um criminoso. O objetivo de Norma é, portanto, este: rebaixá-lo ao nível do grotesco, encurralá-lo, fazer com que sua masculinidade e seu brio despenquem até a estaca zero. 

A capacidade de determinados indivíduos de abrirem mão de certos códigos elevados de conduta para firmarem-se como gente que sente dor e que se fere; esse desejo natural do ser humano que, uma vez prejudicado em sua dignidade e que recusa, sistematicamente, a ser títere nas mãos de supostos inimigos, chama-se justiça. 

O teatro, arte a que estou mais ligado, já nos deu provas cabais de que a vingança mais saborosa é a melhor arquitetada. Medeia (431 a.C), tragédia grega de Eurípides, é a mais lembrada, porém não é a única. Vejamos: 

Medeia gemendo – Estou vendo Medeia se debatendo no leito, gemendo, clamando pela morte dia e noite. Sua ama não sabe mais o que fazer. Já não diríamos que Medeia viva; ela vegeta, isso sim. Porque era conveniente para Jasão abandoná-la, pelas benesses, pelas vantagens que teria com um segundo casamento com Glauce, a princesa. Medeia, faceira, conseguira, malandramente, pelo simples fato de ser mulher, ludibriar o marido, a ponto de “se desculpar” com ele, pelo seu inconformismo inicial de esposa traída – para, nesta ocasião, presentear Glauce com um lindo diadema. Ao colocá-lo – maldita hora! – Glauce, infeliz, perecera carbonizada (para usarmos um termo mais leve), transformando-se numa tocha humana. Segundo a descrição que se faz da cena, Glauce ficara tão desfigurada que “o próprio pai teria dificuldade em reconhecê-la”. Não satisfeita, Medeia, furiosa, substituída, abandonada, depois de muito pensar, assassinou seus dois filhos pequenos com uma espada – unicamente com o intuito de ferir Jasão, o pai, à potência máxima. Esquecera-se de que Medeia, a “leoa”, segundo ele, conhecia todos os segredos da magia – dos quais ele mesmo necessitara um dia. 

Eurípedes quer nos dizer com essa obra-prima o seguinte: qualquer mulher, inclusive a mais tola, é capaz de dobrar um marido. Como é fácil enganar um homem. Meu Deus do Céu! 

Dizer que Medeia é uma peça que aborda apenas o fantasma da vingança é muito pouco. Assim pensando, reduzimos seu valor substancialmente. Trata-se, na realidade, de um libelo do qual se extrai o ônus que uma mulher, rebaixada em sua dor dilacerante, precisa pagar, para compensar - ainda que em proporções muito desiguais – uma ingratidão sem tamanho. 

- “Estou pagando” – Destaco outro texto muito interessante e de grande valor artístico do teatro moderno que trilhou, na essência, o mesmo caminho de Medeia. Chama-se A Visita da Velha Senhora (1955), de Friedrich Dürrenmatt, suíço. A montagem brasileira mais lembrada dessa peça recebeu a direção de Walmor Chagas, cuja protagonista fora ninguém menos que Cacilda Becker, lenda do nosso palco – onde contracenou com Sergio Cardoso. 

Eis o perfil de Claire Zahanassian, carinhosamente chamada de “Clarinha”: relapsa na infância, displicente, aluna medíocre, para quem tanto fazia subir como descer – engravidara de um namorado, um cidadão chamado Schill. Tudo bem. Este, para se livrar do fardo da paternidade (indesejável, claro), apresentou em juízo duas testemunhas em sua defesa, cujos depoimentos – confirmados posteriormente - eram falsos, alegando que ele não era o pai daquela criança. “Clarinha” teve de suportar a vergonha de, desamparada, só, amesquinhada, 17 anos de idade, arcar com as conseqüências daquela gravidez. Sumiu de sua terra, caiu na vida, literalmente, para, quase meio século depois, regressar ao vilarejo de Güllen deslumbrante – fútil, é bem verdade – mas riquíssima e famosa. Fala-se que ela é a “mulher mais rica do mundo”. “Clarinha”, aquela, chegou falando grosso e dando as cartas. Para se vingar do homem que lhe fizera sofrer tão profundamente, está disposta a dar à sua terra natal, miserável e decadente, uma fábula em dinheiro, em troca da cabeça dele, Schill, inocentemente, um dos mais animados pela sua volta. Não custa nada a ela, que já possui tudo - entregar ao povo parte dessa fortuna, com a condição de que matem aquele homem. “Pessoa decente é somente quem paga – e eu pago. (Com dinheiro), pode-se comprar tudo – até a justiça”, diz ela, taxativa. 

Nelson Rodrigues dizia que dinheiro compra até amor verdadeiro, o que dirá a justiça. 

“Clarinha”, agora no seu auge, troca de marido como quem troca de roupa; é de personalidade manipuladora. Certa de que sua fortuna fala mais alto, está tão segura de que Scilll morrerá, que fez questão de trazer consigo um caixão maravilhoso. Ele, já entrando em anos, com mulher e um casal de filhos, tem de morrer, custe o que custar. “Clarinha” está irredutível em seu desejo de resgatar sua dignidade. 

Em comum, Norma, Medeia e “Clarinha” tem isso: foram abatidas por indivíduos que se julgavam superiores a elas, mais espertos, porém, uma vez conscientes de que foram propositalmente prejudicadas por homens que um dia chegaram a amar de verdade, não hesitaram em usar todas as armas de que dispunham para igualar suas fraquezas e fazer valer seus conceitos. 


Téo Júnior, 26, foi professor universitário
e é pesquisador de teatro.
teo.cam@hotmail.com