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"O GLOBO" FICOU CONTRA O TEATRO E A FAVOR DA CENSURA


Sérgio Britto e Fernanda Montenegro em “A Volta ao Lar” (1967), a peça que irritou “O Globo”

No dia 15 de setembro de 1967, com a "Ditabranda" no Poder, o jornal "O Globo", um dos mais tradicionais do Rio, assombrado com o que julgou "excesso" dos espetáculos teatrais, publicou o triste editorial Limites para o Sórdido, e um dia depois, na matéria Condenação Geral aos Excessos do Teatro (infelizmente, não foi possível localizar o autores de ambos os textos, talvez Roberto Marinho), reiterou sua posição em relação ao "escândalo" que certos textos teatrais estariam provocando na cultura do País, razão pela qual os atores estariam, assim, prestando um desserviço à arte nacional e à moral.

"O Globo" tinha em mente que o seu poder de convencimento e de persuasão era infinitamente maior do que os recursos parcos e humildes de alguns abnegados e dignos batalhadores, no caso os artistas do teatro, porque quando as ideias são disseminadas pelos formadores de opinião, num primeiro momento cultos e capacitados para julgar o que quer que seja, elas tendem a se manter fixas nas consciências - ideias que se alastram rapidamente como labaredas. Se "' O Globo' está dizendo, então é verdade", iludindo e desinformando a população menos esclarecida e alheia aos assuntos de teatro. "Eu tenho mais medo de um jornal do que de cem exércitos", dizia Napoleão. E é para ter, mesmo.

A peça da discórdia, neste caso específico, é "A Volta ao Lar", de Harold Pinter, de fato repleta de palavrões, para ilustrar uma relação familiar complicada, e os atores eram (adivinha?) Fernanda Montenegro e Sérgio Britto, a quintessência do que este teatro sofrido já produziu de melhor. Fernando Torres dirigiu o espetáculo.

Ora, se temos posta uma conflituosa e desestruturada questão familiar onde existem palavrões, o palavrão, neste caso, torna-se estritamente necessário para que se desenhe esta atmosfera no palco. Não há nenhum problema em relação a isso.

Fernanda conta em sua biografia "O Exercício da Paixão", de Lucia Rito, que naquela época vivia-se o medo generalizado. Eram ameaçados de morte, os atores representavam assombrados, algumas vezes vistoriando o palco com seguranças, outras andaram armados, e Fernanda por pouco não recebeu um disparo na cabeça quando dormia, da Segurança Nacional. Tempos sombrios, decerto, mas com a condescendência de ''O Globo'', que viu sordidez numa simples representação para um público adulto e capaz de interpretar, por si só, o que enxergava em cena.

Nem é preciso destacar os absurdos da Censura e o quanto ela foi maléfica e estúpida sobremaneira para a cultura nacional, o teatro inclusive.

O inesquecível editorial de ''O Globo'' é tão irrelevante que nem vale a pena copiar inteiro. Seguem-se apenas trechos:

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''Há algum tempo, os estádios de futebol detinham como que a exclusividade da montagem dos grandes corais pornográficos da cidade. O solista recitante puxa o coro entoando o palavrão mais adequado ao juiz da partida num instante dado, e sucessivamente, fração por fração, os da arquibancada ingressam no canto uníssono em fortíssimo sinfônico.

Mas, agora, a cidade já dispõe de outros locais, onde em matinês o público poderá diariamente ouvir não corais, mas solos de palavrões, em espetáculos que chamaríamos de pornografia de câmera. Confortavelmente instalados num teatro de poltronas estofadas e, por vezes, reclináveis, em ambiente de ótima acústica e ar-condicionado, os cariocas, a preços variáveis, ouvem atores e atrizes declamar os mais obscenos vocábulos da rica língua de Gil Vicente (que, aliás, foi autor bilíngue)

Será que não notaram os promotores de tais espetáculos que o uso imoderado do baixo calão estabelece quase sempre um conflito entre a cena e o texto? Em algumas peças desse gênero, o autor, para afetar intelectualismo, joga solto um monólogo "filosófico" - chavões sobre o absurdo da existência apanhados ao primeiro manual didático disponível -, tendo como sequência uma salva de palavras obscenas. E assim escorre a peça como aqueles detritos a caminho da estação elevatória.

Lamentável é que respeitáveis atores e sobretudo grandes atrizes nacionais (uma referência à Fernanda) liguem seus nomes a esse "basfondismo" que vai grassando do Passeio Público à Zona Sul.
É precisamente por isso que se pode classificar de obscenos esses espetáculos. Neles, o palavrão é um fim, e não um meio.

As famílias fogem do teatro, que parece preferir conquistar outro público - o dos amantes da morbidez catalogada nos tratados de Psiquiatria. Entre o teatro água-com-açúcar e o "pornodrama", existe um meio-termo válido. Alguns empresários não se dispõem a identificá-lo. Se tal situação persistir, haverá um momento de ruptura, com todos os inconvenientes que as medidas repressivas acarretam.

Que tal racionar voluntariamente o sórdido, o chulo? Não seria um movimento dessa ordem lançado agora, obra de preservação de autênticos valores teatrais? (...) Esperamos que certos empresários não transformem o teatro em criação de suínos. Há limite para tudo. A sociedade tem o dever de se defender contra os abusos."

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É preciso sempre recordar o passado, senão ele volta.
Uma matéria jornalística tem, entre outras coisas, essa finalidade: ela vira documento.
Enfim, nada mais a acrescentar.



JÁ VAI CEDO

Foto: Téo Júnior por ele mesmo.


Após 40 anos, “Playboy” brasileira deixa de circular

Por. – TÉO JÚNIOR

Esses últimos anos não têm sido fáceis para o mercado editorial brasileiro por n motivos. Destacaria o pouco investimento em propaganda, a ausência de incentivo governamental de mais impacto, a preguiça dos brasileiros para ler (me acuda, Sílvio Romero! Estamos na média de 1,5 livro por ano para cada pessoa; um escárnio!), a desimportância que os livros e jornais tem na vida da maioria das pessoas, incapazes que são de dar 30 contos num Saramago porque “é muito caro” e a facilidade da internet como meio que, gratuitamente, substitui o papel.

É bom frisar que nem todos os bons livros estão disponíveis na rede. E os jornais só liberam parcialmente suas matérias, e não todo o conteúdo, para não-assinantes.

Um amigo me falou, outro dia, que eu gosto das coisas físicas. Tem toda razão. Não tenho paciência para ler nada em PDF (já me basta meu trabalho cotidiano que consiste em eu ficar horas seguidas na frente de um computador, baixando a barra e subindo; uma amiga, quando tomou meu notebook emprestado, à minha revelia baixou “Cinquenta Tons de Cinza”, que adorou. Não li porque estava ocupado com as memórias de Bruna Surfistinha, uma vagabunda, pois sim) e evito ao máximo ouvir música em pen-drive, ver filmes em Youtube ou baixados de internet (uma exceção foi “O Bebê de Rosimary”; cometi a loucura de assisti-lo numa noite insone, 3 da madrugada). Como sou bastante fã de Gutemberg, ainda prefiro ler no papel. Também gosto mais de ver filme em DVD e depois guardar na estante. Nada substitui, para mim, folhear um livro, virar a página, ler na cama ou manusear um disco e a ficha catalográfica. Abrir a caixa do Submarino (com a faquinha de mesa) com livros da Black Friday, então? Um orgasmo.

Recentemente, uma grande editora teve de fechar as portas porque os lucros não estavam compensando o alto investimento nos livros, cujo catálogo é composto por gente da envergadura de Paz e Tolstói. Um dos últimos foi a extraordinária biografia de Michelangelo. O dono preferiu encerrar a empresa a baixar o nível de suas publicações, como seria a reação natural em momento de desespero econômico, com uma folha de pagamento para cobrir. Ao justificar o fim da Cosac Naif, o proprietário disse que “não queria comprometer seu passado e sua história”. Fez muito bem. Preferiu encerrar a empresa a cogitar a possibilidade de jogar no mercado biografias que certamente poderiam alavancar as vendas (quem sabe salvar a empresa?) de figuras como Claudia Leitte, Ivete Sangalo ou Luan Santana – mas sem qualquer valor intelectual ou minimamente relevante. A vida de Wesley Safadão ao lado de Bertolt Brecht? Numa edição de luxo? Capa dura? Sem chance. Ou então recorrer àquelas publicações infantis, mas para adultos, que consiste em fazer coisas estúpidas tipo “Destrua Este Diário”. “Nesta página, coloque a cera de seu ouvido – ela é parte de você, sua companheira”; na outra, “cole um pedaço de sua unha”; “esta página você rasgue, para se desapegar das coisas”; “já esta você rasgue e amasse com toda força, para descarregar o ódio que você sente de seu chefe” e por aí vai. Melhor encerrar. Ninguém é obrigado.

A Planeta, nestes últimos anos, vem editando a autobiografia de Edir Macedo; até o momento estamos no vol. 3. Como dizem os crentes, uma bênção! Best-seller. Através de seu império chamado Igreja Universal, Edir tem a oportunidade de divulgar sua obra nos quatro cantos do mundo. Ensina como converter pessoas e como, barnabé do setor de loterias, portanto assalariado, teve a bendita ideia de fundar uma igreja onde, antes, funcionava uma funerária. Se “Nada a Perder” tivesse saído pela Cosac, a editora talvez pudesse se manter mais um tempo.

No campo das revistas, a tristeza não é menor. Uma ausência sentida foi a de “Bravo!”. Uma publicação linda, bem-feita, mas que se tornou um calcanhar de aquiles para a editora. A Abril estava, com a melhor publicação de cultura do Brasil, “vendendo o almoço para pagar a janta”, como se diz. É público e notório que quando uma revista ou um caderno de jornal precisa ser fechada (o), para conter gastos, é para a cultura que a tesoura se volta primeiramente, e não para o ramo de veículos, casa & jardim ou celebridades. O indivíduo pode perfeitamente ficar sem saber a última cotação de um quadro de Van Gogh ou um texto inédito de Virginia Woolf, pode passar o resto da vida sem conhecer a biografia de um pintor extraordinário chamado Raimundo de Oliveira, mas é imprescindível que ele saiba que Claudia Raia está de dieta ou Cauã Reymond arrumou uma namorada nova. Nada posso fazer, a não ser lamentar tudo isso. Tomara que “Bravo!” volte um dia. Parou na edição 192.

“Bravo!” não circula mais. “Contigo”, porém, está aí, firme e forte.

 O FIM DE “PLAYBOY” – Não sei se estou escorregando no óbvio ululante – alô, Nelson! –, mas “Playboy”, cuja derradeira edição circulou até 10 de janeiro, não é – nem nunca foi – apenas uma revista de mulher pelada. Trata-se de uma publicação de alto nível cultural, séria, com entrevistas com gente que tem o que dizer e um elenco de repórteres e cronistas de primeira linha, dentre os quais eu destacaria Ruy Castro, Ivan Lessa e Mario Prata. Mesmo após a invasão dessas meninas nível “BBB”, a “Playboy” não escorregou ao lugar-comum e sobreviveu durante 40 anos. Lembro de um depoimento do jornalista Marcelo Rubens Paiva, que recordou seu pai (deputado que “sumiu” na “ditabranda”) lendo “Playboy” no jantar da família. Discorria, suponho, sobre conteúdo de caráter político. Por aí se tira sua importância. Como Paiva morreu antes do início da publicação brasileira, imagino que ele estivesse se referindo à “Playboy” americana.

Onde, por exemplo, eu li que o ex-sindicalista Lula disse “admirar Hitler” (“não o homem, mas sua obstinação”)? Que Tarantino não faz a menor questão de conhecer o pai? Que o manifesto contra a homofobia de Herchcovitch é ser gay assumido, casado e na fila da adoção? Que Kajuru não passa um dia sem um processo nas costas? Que Jece Valadão afirmou que frequentou a umbanda e fingia receber o Exu tão-somente para transar com a mãe de santo? Que Sandy disse que... (deixa essa pra lá!).

Mesmo aqueles que não são compradores contumazes de “Playboy”, como eu, ficaram tristes porque uma revista de alto conceito não mais existe. É uma a menos. Fará falta.

Uma revista que atingiu a vendagem de 1,3 milhão de exemplares com Joana Prado na capa (dezembro de 99) amargava tiragem inferior a 50 mil

“Playboy” marcou minha adolescência, sim senhor! Puxo pela memória que meus colegas, no 2° ou 3° ano, levavam para a escola revistas de seus irmãos mais velhos, e até colegas mulheres, no intervalo, a folheavam na maior naturalidade do planeta (admirando ou invejando um pouquinho?). Não tinha professora dando piti nem o diretor da escola arrotando falso moralismo, Deus nos livre!, indignado com aquele material impróprio para menores, passando de mão em mão na sala. Nada disso. Tudo liberado, a bem da fantasia da garotada.             A Pátria já era educadora nos tempos de Fernando Henrique. País rico é país onde sua juventude se instrui adequadamente. “Playboy” era nosso Carlos Zéfiro pós-Diretas Já. Colégio Tereza Borges. Caetité, Bahia. Uma beleza! Tenho muita saudade.


Ah, como todo mundo tem a sua “Playboy” preferida, a minha é a da “Anita” Mel Lisboa, de agosto de 2004. É isso aí. 

Téo Junior- Livros #Navegantes ao mar


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A partir de hoje, e durante todo o ano, o meu colega Téo, velho colaborador do Navegantes, apresentará a cada fim de mês um vídeo com dicas literárias. Serão postados comentários sobre o que de melhor existe no universo das palavras. Teatro, poesia, romance, biografias, jornalismo literário e muitas outras saborosas dicas serão oferecidas todos os meses aos interessados em conhecer um mundo novo e cheio de possibilidades. A promessa é de que ele aborde todos os gêneros, sem abdicar de seu particular modo bem-humorado de descrever as suas impressões de leitura e nem descarte o seu habitual juízo crítico, que como ele mesmo gosta de afirmar “não peca por ser sincero, demasiadamente sincero”.  Nessa primeira postagem Téo, nos preparou uma seleção de três obras, que expõem a nu a trajetória de vida de três grandes personalidades das artes do século XX. Os personagens dessa primeira leva de comentários, são dignos representantes de seus postos artísticos. Cada um à sua maneira ocupou, com muito talento, o lugar de destaque em suas respectivas áreas de atuação e vincaram para sempre a sua permanência nas consciências artísticas de sua geração. Confiram o post. Esperamos que todos vocês gostem. Comentem. Aguardamos vocês na próxima publicação. 

Liberdade de expressão



O texto a seguir é de Téo Júnior. Téo é revisor, crítico de teatro e colaborador eventual deste blog.
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Não existe Jornalismo livre sem provocação. Nada justifica o atentado ao Charlie Hebdo Officiel. O humor, a crítica, a charge são uma forma artística importantíssima.

O terror do político mentiroso é se ver amanhã, na primeira página do jornal, sendo caricaturado com nariz de Pinóquio.

Nelson Rodrigues, reaça até a medula, dizia de D. Hélder, respeitadíssimo: "D. Hélder só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva".

Paulo Francis, com ares de superioridade -- que tanta falta faz --, dos EUA, dizia que no Brasil só tinha índio e vaca.

Por mais que irrite, por mais que a gente discorde, por mais que seja ofensiva, a liberdade de pensamento não pode ser tolhida porque ela é um pilar da democracia. Na democracia, todos falam. Quem não concordar não compre, não veja, vai ler outra coisa.

Se a gente começar a justificar o terrorismo alegando falta de respeito à religião...

Peça fraca e sem emoção



São muitos os equívocos do monólogo Solo Almodóvar

por Téo Júnior
Salvador 


Pedro Almodóvar, um dos mais extraordinários diretores de cinema do mundo e o principal de seu país, Espanha, que se notabilizou nesses últimos trinta anos como sendo dono de um estilo personalíssimo e imediatamente reconhecível, que Adriana Calcanhotto citou na bela música Esquadros, mereceu a homenagem da atriz Simone Brault no espetáculo Solo Almodóvar, em cartaz no Teatro Martim Gonçalves (Canela) neste último fim de semana. O início da peça, para começo de conversa, é uma cópia ipsis litteris de uma cena de Tudo Sobre Minha Mãe, aquela em que Agrado (Antonia San Juan) entretém os espectadores com a “história de sua vida” porque as principais atrizes faltaram. Daí, nossa Dolores se entrega a discussões estéreis sobre as dificuldades que os travestis enfrentam, suas experiências com os homens – quase sempre frustradas –, e o tempo custa a passar.

Colabora para o descalabro da montagem, a protagonista dedicar todo o espetáculo pronunciando um portunhol sofrível, quando ela poderia perfeitamente optar pelo português. No palco, uma enorme sandália remete ao filme De Salto Alto; as músicas e certas cenas que Simone interpreta e alude estão, claro, na filmografia do diretor, com destaque para A Lei do Desejo, onde Antonio Banderas contracenou, no longínquo 1987, com o hoje obscuro Eusébio Poncela (há uma inesquecível cena de sexo). A interpretação de Simone para Lo Dudo (Duvido), do Trio Los Panchos, não é à toa. Os figurinos estavam caprichados.

Almodóvar, mestre no colorido exacerbado e que soube retratar como ninguém o universo feminino (Volver), os travestis e suas obsessões (Má Educação) e a sexualidade mostrada de forma bonita até (Carne Trêmula) merecia um roteiro original e satisfatório – o que, infelizmente, o autor Vinnicius Morais, em mais de uma hora de encenação, não pôde oferecer. Quem sabe na próxima vez.


A importância da mídia livre e (bem) longe dos poderosos

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George Orwell, que escreveu 1984, o livro do Big Brother, e Revolução dos Bichos, disse que “jornalismo é tudo aquilo que não querem que você publique. Todo o resto é propaganda”. 

Amparado nessa perspectiva exemplar do escritor indiano, vejo com extrema preocupação este 4° poder, sem dúvida mais importante do que todos os três anteriores, estar irmanado, cada vez mais, com os grupos políticos da situação. 

Na Bahia, vejo esse tipo de relação e suponho que ela não seja benéfica e nem saudável para a democracia. Porque dessa amizade entre jornalistas e prefeitos, existe um fator maior do que a verdade, que coroa essa relação: dinheiro. 

Nenhuma mídia, jornal, revista, estação de TV funciona sem dinheiro. Então, a solução encontrada é passar a cuia na mão de quem pode pagar pela informação: nossos digníssimos políticos. 

Não espanta que as mídias, hoje em dia, sobretudo as virtuais, não escondam mais de ninguém a quem estão apoiando, fazendo com que seu corpo editorial e suas matérias sejam, portanto, parciais e sem nenhuma relevância social. Elas já não disfarçam mais – e seguem atuando como legítimas porta-vozes não do povo, mas das administrações que defendem e de quem cobram a fatura. Na época da campanha política, fazem dos veículos verdadeiros palanques. Uma vez eleitos, como compensação, fazem uma inequívoca publicidade dos prefeitos e políticos que lhes pagam, divulgando amplamente suas obras, mas tomando o extremo cuidado de omitir algo que desabone os “patrões”. Está errado. 

Só o fato de (grandes) conglomerados e (grandes) jornais serem controlados por grupos políticos, já me espanta. 

Nunca me esqueço do livro Odorico na Cabeça, do imortal Dias Gomes, autor de O Bem-Amado. Sentindo-se agredido em sua honra pelos ataques de um jornal de Sucupira, Odorico – esperto – também criou sua própria imprensa para divulgar seus projetos estapafúrdios. Trata-se da Folha de Sucupira. Essa, ele julgava imparcial. Quanto à mídia que teve a coragem de expor suas loucuras, ele a classificava de “marronzista”. 

Quando a imprensa faz as pazes com o poder, alguma coisa está errada. 

No interior da Bahia, sei que aonde vão os prefeitos, lá estão os “jornalistas” atrás, no encalço. Jornalista que se preza não pode estar para cima e para baixo com prefeito. Se quiser servir à sociedade e honrar a profissão, deve investigar, apurar, colher as informações verdadeiras e publicá-las, sejam boas ou ruins, doam a quem doer. 

A imprensa tem a obrigação de fiscalizar o poder, e não de se aliar a ele.

Genial e inesquecível - Os 100 anos do homem que inventou o teatro brasileiro

Nelson Rodrigues (1912 – 1980).
Fonte: Antônio Guerreiro/IstoÉ
Téo Junior [*]


Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar em Nelson Rodrigues. Eu tinha 17 anos, cursava o 3° ano do ensino médio na Bahia e, estando na casa de uma colega, ela me disse que naquela noite um homem iria decepar o órgão genital dele. Fiquei entre espantado e maravilhado com tamanha coragem. Perguntei-lhe: “Tem certeza, Zélia?”. Ao que ela me respondeu: “Eu já assisti. É hoje! Assista e você vai ver!”. Estávamos em 2002, e a Globo reprisava “Engraçadinha”, em comemoração aos 90 anos do “genial e inesquecível” Nelson Rodrigues – assim era a chamada. A minissérie que revelou Alessandra Negrini havia sido apresentada pela primeira vez em 1995.

Minha amiga referia-se à cena antológica em que Silvio, personagem de Ângelo Antônio, resolve adquirir uma navalha para mutilar-se, assim que descobriu que mantivera relações com sua irmã. Sempre acreditando que Engraçadinha fosse sua prima, não suportou o golpe da triste revelação. O pai deles manteve, num passado remoto, um relacionamento com a cunhada, mas tratou de abafar o caso – afinal, era um deputado. Silvio e Engraçadinha jamais souberam que eram irmãos.

Tive a oportunidade de ler todas as peças de Nelson, ver quase todos os seus filmes e posso asseverar: nenhum outro escritor, nacional ou estrangeiro, me fascinara tanto. Quando terminei a leitura de “A Mulher Sem Pecado”, cheguei à conclusão: é esse. Nunca mais o abandonei.

Nelson é tão fabuloso que a fortuna crítica em torno de sua literatura é quantitativamente superior a tudo o que ele escreveu ao longo de 40 anos de atividade incansável em jornais, no teatro e no cinema. Ao lado de Jorge Amado, foi o autor brasileiro mais adaptado para o cinema, com estrondoso sucesso de público. “A Dama do Lotação”, direção de Neville D’Almeida, é hoje a 3ª bilheteria do nosso cinema. Fica atrás somente de “Dona Flor” e “Tropa de Elite”.

Apesar de grande parcela de seus fãs preferir “Toda Nudez Será Castigada” (direção de Arnaldo Jabor), considerada a melhor adaptação dele para o cinema, nenhum outro filme rodriguiano impactou-me tanto como “Bonitinha, mas Ordinária” (refiro-me à versão de 1981, com Lucélia Santos, direção de Braz Chediak). O ser humano reduzido a um abutre, ao dinheiro que pode comprar tudo, ao apego excessivo às aparências, à humilhação sistemática que alguém pode impor àqueles que lhe são inferiores, ao seu ver, simbolizado na pessoa do milionário Heitor Werneck, mostraram-me um mundo vil, imundo, cuja moral vai se deslocando aos pouquinhos para o estado de putrefação. Resta ao espectador sofrer.

Sim, porque a literatura de Nelson Rodrigues não comporta a alegria nem a felicidade. O sexo, o amor, o casamento, a viuvez, a loucura – tudo está indissociável da felicidade. As personagens vivem mergulhadas em permanente estado de tensão. Acredito que Plínio Marcos, Fausto Woolf e Antonio Carlos Viana beberam da fonte de Nelson, a julgar pelos ótimos livros que publicaram.

Anarquizando geral a “sacrossanta” família brasileira – da mais pobre, como a de Silene em “7 Gatinhos” à mais rica, como a de Herculano em “Toda Nudez”, Nelson defendeu a importância de um lar asséptico. Gritando a infidelidade e exibindo no palco, sem máscaras, a prostituição e o que ela acarreta, Nelson valorizou a virgindade e o amor eterno. Escrevendo a respeito de patologias de foro íntimo, da corrupção moral dos homens, da política que fabrica canalhas, da banalização do sexo, do racismo (leia “Anjo Negro”), Nelson fora de um moralismo violento e feroz.

O homem que grande parte do País dizia ser “neurótico” e “tarado” disse, certa feita, que era contra a educação sexual na escola. “Educação sexual tem de ser dada por um veterinário a cabras, a bodes, a vacas. O ser humano não tem de ser educado para fazer sexo. O ser humano precisa ser educado para amar. Eu sou do amor eterno!”.

Nelson não era uma metamorfose ambulante. Ele tinha aquela velha opinião formada sobre tudo. Jamais será esquecido, inclusive pelos detratores do teatro dele.

Obrigado, Nelson Falcão Rodrigues, pelo bem que sua obra me fez.

* Téo Junior é crítico do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador desse blog.

“O Anjo Safado”: peça interessante e sugestiva


Téo Júnior [*]

Enfim, depois de muita publicidade e expectativa idem, estreou no Teatro Atheneu o espetáculo “O Anjo Safado”, que permaneceu em cartaz no último final de semana. Apresentação bonita, com muita dança, música e bastante sugestiva.
A dualidade entre céu x inferno, pureza da alma x prazeres mundanos, quer dizer: o indivíduo em conflito consigo mesmo, que tanto intrigou (e fascinou) os homens no período medieval, veio à baila na peça - fascínio que teve em Gil Vicente uma dimensão maior.
Ressalte-se que, uma vez no terreno metafísico, os conceitos e aquelas normas de conduta que recebemos ao longo da vida vão sendo subvertidos por uma lógica distinta. Quando algum personagem se insere no universo pós-vida, na ótica cristã, as regras do jogo agora são outras.
O texto de Paulo Lobo é simples e direto. A maior vantagem dele foi estar isento de abordagens filosóficas complexas e que, no fim das contas, não sugere nada ou muito pouco. Teatro bom é assim: diz o que precisa ser dito de maneira econômica e eficaz.  A direção de Jorge Lins compreendeu a ideia do texto.
Guardei a sátira que foi feita em relação aos bispos gananciosos e hipócritas, e acredito que a crítica seja muito pertinente, uma vez que hoje a televisão brasileira está demasiadamente contaminada com uma leva de “pastores” picaretas e aproveitadores, alguns inclusive não resistindo à tentação de exibir horrendas sessões de exorcismo. Lobos disfarçados de cordeiros.
A cena onde a entrevistadora melindrosa Lais Bizarra (Eduardo Vieira) conversa com o chefe do inferno (o excelente Leandro Handel) foi impagável.
Duas vezes, foram exibidas cenas de orgia sexual com 15 participantes. Pura devassidão, que deixaria um pastor horrorizado.
E assim, de gargalhada em gargalhada, as verdades - algumas inconvenientes - vão sendo ditas uma por uma, e o teatro acaba se tornando uma espécie de espelho, onde o público tem a oportunidade de se enxergar e de refletir, como acreditava Molière.
Iluminação adequada, cujo palco ficou grande parte do tempo em penumbra, talvez para realçar o aspecto extraterreno do atormentado personagem José. Som e figurinos bons.
Antônio Leite, o protagonista, sozinho, já é um teatro. Teve um desempenho seguro e feliz. Trata-se de alguém que possui uma grande relação de afeto com o palco. Um ator experimentado e competente. 
Toda essa discussão coube no espaço de 1 hora.
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Crítico de teatro e colaborador do ETC’.


Poesia


A propósito do dia da poesia, Teo Junior resolveu me provocar. Segundo ele Bandeira é superior a Cabral. Ele disse isso porque sabe que tenho muita afeição a poesia cabralina e ao estilo duro e seco que esse poeta empreende em seu versos. Somente Teo Junior é capaz de tentar provocar uma discussão baseado em fatos tão irrelevantes. A poesia, meu amigo, pra ser de verdade, ignora, qualquer gênero, escola, ou linha de pensamento. Ela é maior do que tudo isso. Agora eu me pergunto o que será mais fácil? O que será mais poético o amor, a dor de cotovelo ou uma pedra, uma faca ou bala. Quais dessas palavras estarão em melhores condições de narrar ao homem sentimentos e emoções? Todas. O poeta extrai das palavras sugestões. Agora, durante muito tempo, a única forma aceitável e usual de fazer poesia esteve relacionada a certo transbordamento de emoções, discursos confecionais e quejados.  Quando J.C. escolheu as pedras ele optou pelo caminho mais difícil. Ele inaugurou uma poesia que arrancava dos objetos inusuais e de forma incomum uma mensagem, que não se restringia aos estados espirituais e amorosos do eu lírico. Ele disse: “todas as palavras são poética”. O bom poeta será portanto, aquele que descondiciona as palavras de seu sentido dicionário, e sugerir  à elas sentidos até então jamais empregados. Esse é o verdadeiro ofício do poeta - resgatar as palavras do sentidos convencionais. João Cabral fundou, com isso, uma poesia que ainda não existia. Poucos podem dizer isso. Poucos poetas podem dizer serem criadores de alguma coisa. Quanto aos demais - leia-se ai os líricos - eles não tiveram coragem de encarar o trabalho de fazer poesia com objetos inusuais. Eles optaram pela tradição, pelo caminho já trilhado, pela picadas conhecidas e seguras. Talvez temessem contraria o público ou pior, desmentir aquilo que os legisladores recomentaram como socialmente aceito para aquilo que o homem médio se limita a ver. Ótimo. Nem todos são suficientemente arrojados. Isso não é um problema. O problema estar em querer tornar uma coisa superior a outra. João, sempre buscou o seu próprio caminho. Assim como muitos inovadores ele abriu a sua própria estrada. Nem todo mundo aceita as novas ideias. Haverá sempre aqueles, que preferem as zonas de conforto e, outros, que mesmo despedaçados pela injustiça, desconfiança e incompreensão, nunca desistirão de inovar. Creio que só avançamos na medida em investimos em novos caminhos - não estou dizendo que devemos ignorar os velhos- porém, não devemos viver a vida inteira sem desejar algo mais. Gosto da poesia de João Cabral porque pressinto nela um vigor que não encontro em outros poetas. A poesia cabralina me descortina novas possibilidades não só de compreensão do humano, mas também, e acima de tudo, mantém sempre viva a discussão dos limites da linguagem. Ele força a palavra a dizer sempre mais do que habitualmente estava acostumada a dizer, mantendo controle sobre o discurso.

SHAKESPEARE VETADO

 
Paulo Autran interpretando "Rei Lear" (1996), obra agora "revista" e "adaptada" nos colégios americanos.
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Chega a notícia - desastrosa, a meu ver - que algumas escolas americanas querem substituir (isto é, censurar) certos trechos do magnífico legado de William Shakespeare, o mais admirado, estudado e enaltecido dramaturgo que já apareceu. Barbara Heliodora, crítica de teatro desde 1958 e atualmente no jornal O Globo dedicou toda sua vida para desbravar a gigantesca criação shakesperiana. Estudou-o mais do que qualquer outro intelectual no país. Fala dele com absoluta paixão e independência, pois sabe que Shakespeare é eterno. "O que não estiver na Bíblia está em Shakespeare", disse ela ao falecido dramaturgo Mauro Rasi.

Qualque espécie de censura soa como sendo uma maneira melindrosa e, pior, errática de impedir que determinadas verdades venham à baila, porque nem todas as verdades - como diz meu pai - podem ser ditas. Entretanto, a literatura é o campo (quiçá o único) que está numa posição privilegiada de se dizer tudo, sem meios-termos. A literatura tenta através do talento de certos homens e mulheres reprodizir, questionar, condenar os próprios indivíduos que pertencem a uma época e a uma sociedade. É como se o livro funcionasse como um "espelho público", onde nos enxergássemos continuamente, como dizia Molière.

Nada nos ensina mais do que os absurdos ocorridos nos períodos ditatoriais que tivemos, com mais violência o de 64, cuja canga fomos obrigados a suportar durante 21 anos. Jornalistas que de uma hora para a outra "suicidavam-se", teatros incendiados, atores boicotados na véspera dos espetáculos, sem aviso prévio da Censura Oficial, escritores presos e suas obras impedidas de circular (caso de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, de 1975 - tachado de "pornográfico"), para não falarmos da odiosa tortura.

A ditadura, pelo menos no Brasil, passou. A Censura (aparentemente) passou. Permaneceu a obra.

A Censura Oficial, ou seja ela qual for, quer-me parecer, ao vetar uma obra artística de chegar até o povo, julga estar "educando" este mesmo povo, coitado, tão fraco intelectualmente, tão inepto, que necessita de intérpretes que escolham por ele o que lhe é nocivo ou benéfico. Estranha, entretando, que em pleno ano de 2012 com a internet livre e os variados meios que oferecem sexo, violência a qualquer momento, que a sociedade americana - tão avançada e evoluída - tenha esse tipo de postura. É um retrocesso de quem acredita estar auxiliando uma sociedade, focalizada exatamente em sua raiz, ou seja, nos alunos, nos jovens estudantes, suprimindo-lhes obras essencialmente literárias, e o que é ainda pior: obras já consagradas, já canonizadas. Creio que num futuro próximo, esses adultos não gostarão de saber que um dia foram trapaceados pela educação que seus pais sustentaram, mediante pagamento de impostos.

Subliminarmente ou de maneira mais explícita, o sexo sempre esteve presente em tudo. Se se for suprimir uma obra porque ela focaliza o sexo, ou a violência, ou o crime, não fica um disco, um filme, um livro de pé. Num belo dia de 1958, após o espetáculo Os 7 Gatinhos, Nelson Rodrigues pediu a palavra e foi "explicar" sua peça à plateia (adulta) que a detestara e começara a gritar palavras de ordem. Precisava? Houve quem quisesse chamar a polícia. Será que esse público que pagou ingresso, não tinha condições - por si só - de refletir, de analisar as - vá lá - monstruosidades apresentadas? E a respeito da "intenção literária" do autor, será que alguém percebeu?

Mas do que a mera referência ao sexo, ou aos órgãos genitais, era extremamente fácil para a censura classificar uma obra de "pornográfica" e acabou-se. O que precisa ser efetivamente compreendido num texto é sua profundidade literária como um todo, e não atacá-lo por uma palavra, uma frase ou uma referência. É a primeria vez que ouço falar que Shakespeare é pornográfico e alguns termos de suas peças devam ser "alterado" por outras. Assustado, eu digo: NÃO.

A literatura tem poder de alterar diversos rumos num meio. Quando ousa falar a verdade, ela passam a representar um perigo para os "donos do poder" que se veem acossados, emparedados pela força da palavra. Shakespeare não fez nada além de focalizar o íntimo dos homens, como raciocinam os poderosos, os apaixonados, como os indivíduos engendram seus crimes etc. O grande poeta inglês mostrou que os seres humanos sentem inveja um dos outros, trapeceiam, dissimulam, traem etc. Considero uma heresia censurar obras de tão alto valor moral e ético.

Que os EUA são uma nação puritana, todo mundo sabe. Ela já vetou a estudo do evolucionismo num passado não tão remoto, pois ele entra em conflito involuntariamente contra o Criacionismo Bíblico. (Consta que Darwin era religioso). Agora, tenta alterar uma obra desta importância. Nos anos 90, talvez para dar um basta nessa hipocrisia toda, uma mulher já calejada pela vida, escreveu uma peça que - coitados dos americanos - se tornou o maior êxito daquela década e excursionou o mundo. A palavrinha que os americanos odeiam ler de cara já aparecia no título da peça, e Eve Ensler teve o despudor de narrar tim tim por tim tim as funções do órgão genital feminino, repito: nos seus mínimos detalhes, mediante entrevistas com diversas mulheres. O título de sua obra-prima: Os Monólogos da Vagina. Deve ser o livro que encabeça o índex americano nesses últimos anos.


TEO JÚNIOR

Uma “Antígona” de tirar o fôlego na Rua da Cultura


A bonita leitura da Stultífera Navis para o clássico sofocleano



Téo Júnior *

“Antígona”, magnífica obra legada pela Grécia Antiga – e que dera o merecido prestígio ao seu autor, Sófocles (496 – 406 a.C), conquistando o 1º. Lugar no concurso trágico de 442 a.C, conta a história da famosa donzela que, ao purificar o cadáver do irmão, assinaria sua sentença de morte. 

Os conflitos e as reviravoltas que o texto vai, aos poucos, apresentando, reclamam uma atenção e cuidado muito especiais de nossa parte, pois todo ele é permeado de emoções viscerais e intensas, já que os personagens agem guiados por convicções das quais não estão dispostos a retroceder tão facilmente. 

Creonte, uma vez estabelecido no trono de Tebas, parte do princípio de que deve ser obedecido – e não questionado, sejam quais forem suas resoluções. Antígona, por seu turno, considera-se no direito de transgredi-las, sim, quando estas não estiverem chanceladas pelos deuses, a quem venera. Não se pode compreender o teatro sofocleano sem se recordar de que os gregos eram profundamente religiosos e, portanto, tementes à vingança implacável do Olimpo. Observando-se por este ponto, notamos sem dificuldade, que são os poderosos – e não os meros mortais – quem experimentam a audácia de burlar as leis divinas, desafiando não raro a sabedoria dos oráculos etc., incorrendo-se desta forma em blasfêmia. 

Mas, como nada em teatro é tão simples quanto parece e antes que apontemos culpados e inocentes, há um fator em “Antígona” ainda mais perturbador: a única criatura que desacatou o decreto fixado pelo rei foi, ironicamente, sua própria sobrinha – e que será dentro em breve, sua nora. 

Até que ponto o Estado pode interferir naquilo que o cidadão julga necessário realizar? Eis a grande questão da peça, escrita há vinte e seis séculos. 

Uma leitura atenta de certos teóricos contemporâneos como Leyla Perrone (“Vira e Mexe, Nacionalismo”; Cia. das Letras) e Umberto Eco (“Interpretação e Superinterpretação”; Martins Fontes), desperta a atenção para com um fenômeno observado entre os grandes textos literários: a profusão das analogias, de semelhanças que há entre eles, cuja mensagem é a de que uma obra sempre está dialogando com a outra, e sem que nenhuma delas perca sua originalidade. Não resisto à tentação de estabelecer a maneira como Sófocles radiografou os poderosos: Creonte e Édipo (seu antecessor) têm em comum a irritabilidade, a pressa em julgar quem lhes rodeia, o (aparente) paternalismo pronto para converter-se em arrogância, e a fúria indisfarçável que há em suas palavras quando seus desejos não são prontamente atendidos. 

“Antígona”, antes de ser uma tragédia onde três indivíduos morrem devido à resolução de um tirano é, antes de tudo, uma parábola que sublinha aquele sentimento tão escasso hoje em dia: o amor legítimo. Amor por parte da protagonista, ao não permitir que o corpo de Polinices fosse profanado, servido de alimento para aves e cães – e, ato contínuo, amor para com seus progenitores, que certamente endossariam a empreitada. Amor de Hémon, destinado àquela que seria sua esposa, ao rechaçar com veemência a decisão precipitada do pai. Amor de Tirésias, não apenas para com a grandeza do gesto desta menina, mas principalmente respeito para com as divindades – que brota, espontaneamente, de suas iluminadas palavras. 

Ao acompanharmos “Antígona”, detendo-nos em cada detalhe, quer nas ponderações de Ismênia, quer nos argumentos ambíguos do Coro e também no embate entre a protagonista e o soberano (duas personalidades descomunais) temos a impressão de estarmos ouvindo uma sinfonia, e não lendo uma obra teatral. Ao representar “Antígona”, o mais destacado dramaturgo grego de todos os tempos – que deixou para a humanidade peças do calibre de “Édipo-Rei” e “Electra” compôs uma linda e admirável poesia. 

“Antígona”, por acaso, encerrou o bonito projeto do Sesc/Artes Cênicas. Como não há a menor possibilidade de se analisar todas as peças do programa, optou-se em apreciar a obra de Sófocles, dada sua imortalidade. Isso, é claro, sem qualquer intenção de desmerecer nenhuma das demais. Estão de parabéns os organizadores e elencos. 

Agora, vamos a nós: o Coro, em seu todo, foi uma surpresa. Composto por vinte pessoas – moças e rapazes em trajes quase que sumários – e que amiúde movimentavam-se como verdadeiros malabaristas, se contorcendo em vigas de ferro, lembraram-nos um picadeiro. Alguns atores, inclusive, apareceram nus, remetendo-nos (é inevitável) às carnavalescas montagens de Zé Celso Martinez. Existe uma cena no espetáculo que, a meu ver, fora extremamente inútil: quando todos eles se abraçam, esfregando-se uns nos outros, numa estranha dança carregada de lascívia. Sem dúvida, o diretor quis passar a ideia da unidade da opinião pública defendendo a postura da protagonista. Porém, essa imagem, sensualizada ao extremo, não me pareceu a mais adequada, posto que não acrescenta nada ao enredo. Bastava o momento (feliz) em que o coro sorri, à revelia do rei, deixando transparecer sua censura quanto ao edito, sem a necessidade de sexualizar a cena.



IRREVERÊNCIA


Kassem, caracterizado como um palhaço no papel do Emissário foi um equívoco: seu modo excessivamente irreverente ao narrar ao rei a descoberta dos cuidados ao cadáver interditado, mais lembraram o bobo da corte do que um infeliz servidor que teve o azar de ser o portador da mesma. Sua maneira infantilizada de se expressar é inaceitável sob qualquer aspecto, na medida em que ele está diante de uma autoridade – a quem se deve temer – e não parlamentando com um amigo ou um colega. Se o personagem nos diz claramente: “Eis-me aqui, contra a minha vontade e contra a vossa, porque ninguém se alegra em ser o portador de más notícias”, como explicar que ele fosse tão satisfeito e descontraído ao anunciá-las? 

Edênia Góis (Eurídice), Marcelo Paz (Hémon; papel que nada tem de fácil), Régi Gondim (Corifeu) e Sandra Azevedo (Ismênia) embora aparecendo menos, desempenharam seus papéis com bastante competência. 

A interpretação de Jane Carvalho (Tirésias) fora louvável. Ela entrou, deixou seu recado e retirou-se – mas eu gostaria de fazer uma ressalva: na medida em que vai falando, o personagem começa a rolar no chão, convulsivamente, desenhando-se a nossos olhos um quadro grotesco. É algo que não deixa de surpreender, porque esse arrebatamento, cujo espírito revela-se demasiado agitado e ressentido, não caracterizam o adivinho com exatidão. Como o homem que “traz consigo a força da verdade”, Tirésias representa antes de tudo a mansidão e a tolerância, sempre aliadas àqueles que são os intérpretes dos deuses. No caso, não se trata nem de um erro – e sim de um evidente exagero.  

O Creonte de Lindemberg Monteiro era exatamente o que se esperava. Categórico e resoluto em suas decisões, sua voz fez-se ouvir e respeitar. A atuação dele possui a energia e o vigor inerentes ao grande personagem que interpreta.  

Por fim, a protagonista. Meu Deus, o que foi aquilo que vimos na Casa da Rua da Cultura no último domingo? O desempenho de Aimée Resende foi tão sincero e corajoso, que somente uma atriz profundamente passional seria capaz de realizar. Há na atuação de Aimée a determinação latente que as heroínas obstinadas exigem. O momento em que ela balança-se freneticamente, apoiada sob um cabo de aço, despedindo-se dos cidadãos, fora simplesmente magistral e carregado de beleza. Comovente e inesquecível. 

No cômputo geral, parece que com “Antígona”, a parada da Cia. Stultífera Navis está ganha. A direção de Lindemberg Monteiro justificou-se na medida de se adaptar aos nossos dias um clássico com ideias bastante sugestivas. O espetáculo fora apresentado gratuitamente. A ovação que se seguiu ao seu término atestou que se trata, efetivamente, de um grande trabalho. 

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* É professor e pesquisador de teatro.

Contato: @junior_teo 

UMA FORÇA DA NATUREZA - TENNESSEE WILLIAMS

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Téo Júnior*


Classificado pela crítica mais honesta como sendo o melhor teatrólogo norte-americano do século XX depois de O’Neill, o dramaturgo Tennessee Williams teria feito cem anos no ano passado se não tivesse morrido em 1983.  

Williams extraiu de sua vida atribulada e infeliz a matéria-prima que ganhou corpo nos palcos e o projetou para o estrelato. Se no teatro brasileiro Dias Gomes evidenciou a religião mesclada às nuances políticas (“O Berço do Herói” e “O Bem Amado” são exemplos) ou Guarnieri, que assinalou o cotidiano da classe operária, alguns temas eram especialmente caros a Williams, todos eles podendo se resumir na obsessão de se estabelecer o império familiar, contudo prestes a desmoronar.

Tennessee escreveu muitas obras geniais, claro, dentre as quais: a maravilhosa “Bonde Chamado Desejo” (1947), “Anjo de Pedra” (1954), “Gata em Teto de Zinco Quente” (1955) e “A Noite do Iguana” (1961). Há alguns anos, Décio contou que o espetáculo que mais lhe marcara fora justamente o “Bonde”, que ele assistiu em Nova York. Em cena, um ator bonito e muito jovem: Marlon Brando. 

As personagens femininas de Williams, porém, destacavam-se dos homens com quem contracenavam porque elas eram passionais, fortes, exageradas, dominadoras. Suas peças ganharam ressonância no cinema, seus enredos foram vistos em quase todos os idiomas e sacudiram as grandes audiências. Elizabeth Taylor, morta em março, simbolizou, sem dúvida, a maior expressão do que uma mulher saída da pena de Tennessee seria capaz.

 FORÇA DA NATUREZA


Yan Michalski, outro gigante da crítica, apreciando a atmosfera de Williams, apontou uma “sociedade condenada” e “sensibilidades adormecidas”. Elia Kazan, primeiro diretor do “Bonde” falou em “civilização que agoniza”. Em síntese, floresce nesta dramaturgia a convivência atribulada entre os indivíduos, gerando (como era de se esperar) atritos descomunais, onde parece não haver nenhuma espécie de escapatória para eles. Todavia, nota-se o desejo instintivo de não permanecerem paralisados ante seus flagelos. Há, nas histórias de Williams, aquele começar e recomeçar tal qual o bordado de Penélope. 

É a capacidade de enxergar a intimidade humana sem lentes embelezadoras, atrelada a um privilégio de constatar que a prática é muito mais triste e distinta do que supõe a vã filosofia teórica, que faz de certos homens grandes escritores. Tennessee fora um deles. 

A função do escritor, por mais que arranhe determinadas sensibilidades é – parafraseando Todorov – documentar a verdade. 

Ao que nos consta, a data passara despercebida por nossos elencos. E é lamentável que nenhum encenador tenha manifestado o interesse de dirigir qualquer texto desta força da natureza que foi Williams. Teatro, senhores diretores, é prestação de serviço. Não se esqueçam jamais disso, como nós não nos esquecemos. 

* É crítico de teatro e colaborador do blog NAVEGANTES.... Contato: junior_teo

VIANA OUVE VOZES


Téo Júnior*

De vez em quando, nós aqui do “Navegantes” temos a grata satisfação de encontrar por aí esses quase deuses, porque, conforme assinalou Todorov, a literatura confunde-se com a própria vida. “Deus foi o primeiro artista, e o mundo é seu poema”, escreveu ele em A Literatura em Perigo. Partindo-se do pressuposto de que a literatura, se não muda o mundo por si mesma, ajuda o indivíduo a suportá-lo, é sempre muito agradável saber que esses grandes criadores estão por aí, na planície – e não encastelados, como supúnhamos. Os deuses, às vezes, descem do Olimpo para a superfície.  

Nós, desde sempre, temos muito apreço pelos escritores porque todos estamos carecas de saber que escrever é uma arte que poucos possuem. Cansei de ouvir dizer que “escrever é fácil”, “criticar é fácil”; na boca dos incautos, tudo é fácil. Pois não é de jeito nenhum. Escrever é difícil. Requer tempo, paciência, imaginação, talento, persistência, técnica.  

Tive o prazer de conhecer pessoalmente e conversar, embora por pouco tempo, com um grande nome da literatura brasileira que é Viana, em Aracaju, onde ambos moramos. Não se pode dizer que ele seja uma revelação, porque já escreve há 40 anos, mas ficou conhecido do grande público quando (re) publicou seus trabalhos pela editora Companhia das Letras, talvez a maior do Brasil. Mas quem quiser ofender gravemente Antonio Carlos Mangueira Viana diga que ele é “regionalista”, pois esta classificação não se justifica, definitivamente. Ele pode tanto falar do sertão sergipano cujo sol é de cozinhar os miolos, seu personagem pode morar perto da praia no Rio de Janeiro ou ele pode até mesmo narrar as agruras enfrentadas no frio parisiense. Quer em Sergipe, quer na Europa, sejam ricos ou pobres, seus personagens sofrem, vivem experiências dilacerantes, carregam consigo velhos fantasmas – e nós, concomitantemente, os nossos. Nos contos de Viana, são ressaltadas tanto a alta cultura como a miséria. Suas criaturas tanto podem ouvir Monlight Serenade ou Waldik Soriano. 

Alguns contos são extraordinários e eu os recomendo. Em Aberto está o inferno, são imperdíveis “Batalha”, sobre um irresponsável que engravidara uma empregada doméstica “desmiolada”, segunda a própria ou “Doutora Eva”, que faz questão de ser juíza o dia todo, até mesmo no banheiro. “Reverendíssimo Padre Diretor” é um justo, justíssimo acerto de contas ente o oprimido e seu opressor. 

Cine Privê, por sua vez, vale o conto homônimo, sobre um infeliz derrotado pela existência, e o emprego que lhe restou, foi o de limpar cabines de um cinema pornográfico. Vale conferir também “Tia Darcy ouve vozes” e “Eliazar, Eliazar”.  

O Meio do Mundo, sua estréia na Companhia das Letras, traz contos monumentais, e talvez seja dos três o mais aterrador e o meu preferido: “Meu Tio Tão Só”, “Dias de Jó” (ambos destacam a solidão terrível) são indicados. Ao mesmo tempo, recordo-me de “Vá, Deralda!” – o melhor conto que eu já li até hoje – e, por fim, o primoroso “Jardins Suspensos”, incluído na seleção dos “100 Melhores Contos da Literatura Brasileira do Século XX”.  

Leiam Antonio Carlos Viana, comprem seus livros, e preparem-se para sofrer. Penetrar em sua obra é muito angustiante e ao mesmo tempo tão atraente quando subir numa montanha russa. Sabe-se de antemão que será uma aventura incomum, mas compensadora quando se chega ao fim e a máquina para. 

A autêntica literatura tem este poder: fazer com que nós não permaneçamos indiferentes ante as barbaridades do mundo, cuja maldade estamos rodeados as 24 horas do dia. Viana é muito hábil para cumprir a função do escritor. Trata-se alguém que sabe muito bem o que diz – e o diz maravilhosamente. Ele tem força nos pulsos. 



* Téo é crítico de Teatro do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador esporádico do Navegantes.

Diretor do espetáculo Baianidade Baiana comenta a crítica de Téo Júnior

Téo Júnior, jovem revelação da crítica de teatro, escreve ocasionalmente no blog "Navegantes ao Mar" e no jornal Cinform, de Aracaju. Suas publicações são quase sempre relacionadas ao teatro e, esporadicamente, de cultura de uma forma geral. O espetáculo Baianidade Baiana, ao passar por Caetité, foi vista por Téo e ele publicou sua análise aqui no blog. O diretor Alberto Damit, ao tomar conhecimento da crítica, escreveu a respeito. Como o objetivo da blog "Navegantes nao Mar" não é o de destacar uma opinião, apenas, como sendo a verdadeira, e sim fomentar as discussões, publicamos na íntegra o texto de Damit.

"Li com satisfação sua crítica a respeito de nosso Baianidade Baiana, acho importante e até nobre a discussão quando ele resulta de estudo ou até mesmo observação de uma obra artística. Acredito que o teatro tem este poder, fazer pensar e com isso melhorar nossas atitudes. Agradeço a atenção.

Porém acho necessário esclarecer algumas colocações sobre suas críticas:

Baianidade Baiana utiliza-se do Stand up e do besteirol para elucidar os devaneios preconceituosos de quem só conhece a Bahia pelo cartão postal. Durante quase dois anos, pesquisamos os motivos que fazem os turistas folclorizar e muitas vezes discriminar o jeito de ser de nos Baianos.

Somos uma Cia. que estuda o comportamento do preconceito, conhecemos bem sua manifestação. Fazemos teatro popular com o objetivo de atender a uma plateia que compreende e consome comédias, porém é comum encontrar resistência de uma pseudoelite que acredita que o teatro necessita ser construído a partir de modelos utrapassados, distanciado e sem a mácula do riso. Não é isso que achamos. A arte é diversa, assim como os gêneros do teatro, não se pode diminuir esta ou aquela manifestação artística que seja sustentada pela concordância do risos ou dos plausos, e não compreender esta tendência é quase um crime.

Me chamou atenção o fato de uma pessoa culta escrever que nosso tiíulo Baianidade Baiana é redundância. A Baianidade é presente em diversos lugares do Brasil, a Baianidade Baiana esta sim somente aqui.

Para lembrar: *Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na arte. Ela é permitida para que o escritor tenha toda a liberdade para manipular as palavras, para que ele possa passar tudo o que pensa ao leitor. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.

*"Sistema de consulta interativa - Estadão", p. 171. Editora Klick. São Paulo (1995)

A respeito de sua comparação com A Praça é Nossa, ficamos lisonjeados uma vez que este programa sempre se destacou pela diversificação em seu humor. Nesses 24 anos, foram produzidos mais de mil programas inéditos. Sem contar que já desfilaram pelo banco da praça mais de 120 artistas, entre humoristas e comediantes, que protagonizaram o respeitável número de 250 personagens.

Baianidade Baiana obteve excelentes críticas em Minas e no Espírito Santos, e foi convidado para uma temporada de três meses no Teatro Candido Mendes em Ipanema no Rio de Janeiro em 2012.

Por fim achamos que diversidade nos seus aspectos mais amplos deveria ser exercitada como um todo pela sociedade e não apenas dentro da sala de aula ou num blog. A diversidade é um princípio humanista para conseguirmos construir um mundo onde possamos viver com mais respeito, compreensão e paz.

As pessoas com elevado grau de compreensão sobre a diversidade cultural, em geral têm comportamento mais tolerante e contribuem para menor ocorrência da violência e as manifestações racistas.

Devemos todos ajudar a construir um mundo com mais DIVERSIDADE.

Alberto Damit
Diretor do espetáculo


ESPETÁCULO DIVERTIDÍSSIMO ABORDA INFERNOS PARTICULARES


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De fato, todos nós temos sérios problemas sexuais

Téo Júnior *

Se existe um assunto que o teatro soube explorar à exaustão, com certeza é o sexo. Desde os gregos (“Édipo-Rei”, por exemplo, realçou o incesto, terrível e chocante, porque relacionado a um tabu social), passando pela crise e a monotonia do casamento, onde os cônjuges, já saturados, cogitam sem qualquer disfarce até mesmo o adultério – circunstância que Albee compôs como ninguém – até chegarmos aos instintos mais baixos do ser humano – leia-se devassidão – verificados nos textos de Genet e no universo quase sempre pantanoso de Nelson Rodrigues, com as “bonitinhas, mas ordinárias” da vida.

Desde os tempos inenarráveis de Calígula, até os dias que correm, a humanidade jamais parou de fazer sexo – tanto para fins de procriação ou como um mero passatempo. “Senhor, concedei-me a virtude da castidade – mas não agora!”, escreveu Santo Agostinho.  

Em “Todo Mundo tem Problemas Sexuais”, de Domingos Oliveira e Alberto Gondim, são abordados esses infernos no tocante à intimidade das pessoas. E aí entramos num campo minado – e sombrio, já que a sexualidade sempre acompanhou a vida dos indivíduos considerados saudáveis, e cuja finalidade é proporcional prazer e bem-estar, mas que acaba se convertendo num fardo. A lista é extensa e penosa: surgem o fantasma da impotência, homossexualidade, traição, os encontros na internet que quase sempre culminam em frustração, sexo grupal (sic!) e um repertório enciclopédico de palavrões que faria a alegria de uma Dercy Gonçalves.

A peça resulta interessante porque, dividida em 6 quadros, destaca situações que seriam consideradas dramáticas numa primeira instância, para no palco elas se transformarem em objeto de comicidade. Embora mergulhados em suplícios aterradores, paradoxalmente manifesta-se nesse povo o desejo incontrolável de prosseguir sua atividade (ou tara) sexual.

Em cena, apenas uma cama por onde todos os personagens passam. Há tipos demasiadamente pitorescos, como o baiano safado (Eduardo Albuquerque) da 1º. quadro que se apaixonou pela colega farmacêutica (Mariana Moreno; não se sabe qual deles é o pior) e uma protestante ninfomaníaca (Cida Oliveira) que teve a cara de pau de trair o marido na própria casa, com o patrão dela, gordo e bêbado.  

Não diria que o espetáculo fora maravilhoso, não há a necessidade de exagerar, mas fora bem trabalhado. Os textos ficaram claros e estabelecidos de modo cuidadoso; uma produção caprichada, os atores estavam seguros de seus papéis e as soluções dramatúrgicas para temas tão variados foram inteligentemente desenvolvidas. Em suma, uma peça divertidíssima e muito responsável.

 O PÊNIS QUE FALA

Mas, caminhando para o final, o espetáculo desabou num precipício: eis que surge em cena, inesperadamente, um sujeito trajando roupão e uma touca cor de rosa, de um excepcional mau gosto, dizendo-se o personagem “mais importante” da história e reivindicando o direito de “se manifestar”. Identificou-se como sendo o pênis. (Ah, Meu Deus...). É impressionante o festival de besteira que assola o teatro e que eu sou obrigado a aturar. Onde já se viu isso? Então, o órgão masculino narra sua “via-crúcis” e, ironicamente, fora o quadro que mais agradou ao público, a julgar pelas gargalhadas quase que histéricas que se ouvia. Num determinado momento, ele admite que Fernando Gomes não soube como terminar a apresentação e pediu que ele falasse o que quisesse. O recurso que os sábios de outrora classificaram de “deus ex machina” pôde muito bem ter funcionado nas tragédias gregas, mas em “Todo Mundo” foi sinceramente catastrófico.  

Ora, se o diretor não soube encerrar dignamente a peça, a incompetência é dele. Salvou-se, além dos mencionados, o desempenho de Kadu Veiga e “Todo Mundo”, exibida no feriado do dia 15 atingiu uma audiência que raras conseguem: todas as cadeiras do Teatro Tobias Barreto foram ocupadas. Durou 2 horas.

 *É crítico de teatro. Contato: junior_teo

Publicado no jornal Cinform do dia 21/11/2011, pg. 5