
A CULTURA TAMBÉM COSPE
Não estamos em condições de perder, sem mais nem menos, gente como Paulo Autran. A cultura do Brasil já é uma coisa tão rala, tão pouca, tão... que é o cúmulo perdermos um mestre como ele. A passagem no panorama da cultura nacional, ou melhor, de um pepino que houve há mais de 40 anos, envolve seu nome.
Não foi qualquer mal-entendido. Foi uma baixaria que marcou uma geração. Ele pertencia a uma companhia, chamada Tonia-Celi-Autran, e ele não ficou prestando quando Paulo Francis começou a espinafrar por escrito d. Tonia Carrero, esposa de Celi. Isso porque Autran era extremamente ligado aos colegas, e não admitia que uma dama, uma amiga, fosse tão violentada daquele jeito. Tonia, coitada, fazer o quê? Autran, e Celi compraram a briga e o pau comeu. Os três resolveram os ataques no tapa. Paulo Autran cuspiu tudo o que tinha, na cara de Francis e jamais se falaram. O jornalista disse mais tarde, num gesto de extrema nobreza, que se arrependeu das críticas, pois elas atingiam a pessoa Tonia Carreiro e não a atriz. Na época dos artigos, alguém foi falar a Francis: “Mas, meu amigo, Tonia tem uma beleza de primeiro mundo”. De fato. Tonia era lindíssima. Francis retrucou: “Uma beleza de primeiro mundo, mas um talento de quinto”. Essa foi das menores. Só não escrevo as que eu sei aqui porque não é necessário. Igor Luzz chamaria de “constrangedor”.
Está provado então, que a cultura também cospe, provavelmente também feda, também faça xixi, também vomite tal e coisa.
Paulo Autran deixou um país mais pobre, com sua morte, e nós, amantes do teatro (do seu teatro) sentimo-nos como se estivéssemos perdendo alguém próximo a nós, um professor de cabelos já grisalhos e ranzinza, mas sempre apostando na determinação dos alunos, de rapazes novinhos, bobinhos e inexperientes de teatro, da vida e de tudo. Mas estes sempre sonhando com uma posição.
Boa noite.
POR QUE ÍGOR NÃO ME SUPORTA?
O “grande gênio” – O grande problema de Igor, suspeito, é que ele sofra de complexo de inferioridade, ele deve ter algum trauma, ainda não descoberto. Daí sua necessidade de se auto-afirmar, ofendendo o outro sem dó nem piedade. Ele despreza tudo, sem ter a mais vaga noção do que se trata. Acha-se um gênio quando na verdade não passa de um cretino de botequim. Não sabe nada, não entende nada. Em minha opinião, Igor não deveria manifestar-se sobre coisa alguma. Ele cortou relações comigo (imaginem, logo eu!) porque se julgava o detentor absoluto da informação e da cultura, quando na verdade a “cultura” que ele tem qualquer pessoa também dispõe. Igor não deve ser levado a sério porque: ataca, sem nenhuma consistência autores que ele nunca leu, menospreza os verdadeiros artistas, enaltece os menores etc. etc. Esse tipo de gente, que só sabe malhar, jamais vai deixar algo que preste. Igor opinando não é boa coisa, porque seus preconceitos são potencialmente nocivos e nada do que ele diz soa como interessante. É uma pena. Igor tinha tudo para ser uma pessoa destacada, inteligente. Tem informação, mas ele não sabe como processá-las. Conhece obras-primas do cinema, mas não entende o sentido delas. Despreza produções brasileiras, sob o argumento simplório e imbecil de “tudo ó que é produzido no Brasil não presta”. Pode isso?
Em termos de arte, creio que o Brasil produziu consideravelmente. A música é o melhor exemplo. Esse coitado chamou Caetano Veloso de “ignorante”. Trata-se de, ninguém menos que o rei da música brasileira. Igor não tem a milésima parte da décima parte da cultura de Caetano. Vanessa da Mata gravou recentemente Eu sou neguinha?, anteriormente gravada por Cássia Eller. Já que você é tão extraordinário assim, meu caro e ex-amigo, desafio você a escrever qualquer coisa e dar a qualquer cantor de brega, para ver se ele grava. Estou aguardando. Você é tão extraordinário para escrever? Escreva logo o seu livro e mande para a Editora Companhia das Letras, para eu conferir se eles terão a coragem de publicar qualquer coisa sua. Igor chama as pessoas de “burras” aleatoriamente – e elas aceitam, e já me chamou de “nordestino de fé em Deus”, como se isso me rebaixasse de alguma maneira.
Eu tenho a impressão de que o conhecimento de Igor seja mesmo o de enciclopédia. Explico: A pessoa vai lá ao autor fulano de tal, lê a pequena biografia, confere a fotinha para ver se é ela mesma, tira uma citação do nada e a reproduz, dando a impressão de que leu toda a obra ou, pelo menos, todo um livro desse autor. Esse tipo de gente passa por inteligente brincando... E eu acho bom ter cuidado com elas. Perigo.
Uma das coisas das quais mais me orgulhou até hoje foi demonstrar meu conhecimento e não esconder minhas ignorâncias em determinadas coisas. Não há nada demais em não conhecer tudo. A gente vive aprendendo. Não sei quem é fulano, mas quero conhecê-lo. O imbecil não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe. Igor me confunde com um deles. Eu tenho muito mais chance de crescer do que Igor por vários motivos. Primeiro: vou-me embora para Pasárgada. Vou morar numa metrópole e ter acesso a tudo. Igor vai permanecer em Vitória da Conquista, sertão da Bahia. Não creio que ele queira ir para outro canto. Tenho chances de crescer, pessoal e intelectualmente, porque oportunidades para batalhadores como eu não faltarão jamais. Igor é uma pessoa sem perspectivas, “cansada por natureza” que “cultiva o ócio criativo”. Qual criatividade tem na preguiça de Igor?, pelo amor de Deus?
Finalizando e reiterando: Igor não questiona. Igor ataca. Igor não opina fundamentando em fatos, algo com substância. Igor julga sem ter base. Critica o que conhece e o que não conhece. Algumas pessoas chamam para uma discussão, analisando o que efetivamente se verifica. Igor rebaixa. Algumas pessoas fazem críticas construtivas a alguém, para que estas cresçam. Igor humilha. Conheço autores que Igor não tem a mais vaga noção de quem sejam, e tenho a liberdade de discordar dele quando julgo necessário. Isso é independência. Não engulo as teorias burras dele e não faço concessão a ninguém que eu vejo que não merece. É por isso – só por isso – que Igor cortou relações comigo. Waaal!
O FILHO DO ANJO
A partir dessa semana Navegantes ao Mar passa a contar com a parceria ilustra de um grande amigo e dedicado companheiro. Teo, o filho mais novo de Nelson Rodrigues. Uma pena que seu pai não teve tempo de conhecê-lo, ele teria orgulho.
Sua prosa límpida e sem floreios são as marcas mais evidentes de um grande leitor. A foto acima de sua biblioteca não me deixa mentir. Apaixonado por literatura, jornalismo, artes cênicas e música ele vem somar esforços em cria um espaço para opiniões, e discussões sobre esse universo.
A leitura de seus textos pega na veia pela sinceridade e grau de informação. Ele é o que poderíamos chamar de uma pequena enciclopédia ou um almanaque. É, sem dúvidas, uma fonte de grande conhecimento para todos, que têm o privilegio de contar com sua amizade e companheirismo.
NELSON RODRIGUES: PORNOGRAFANDO E SUBVERTENDO (*)

Persegui a vida e a obra desse homem por muito tempo e li tudo o que escreveram dele. Pesando os prós e contras, saibam que o resultado é bastante positivo. Além de brilhante teatrólogo, foi o maior cronista do cotidiano e também esportivo de qualquer época. Sobre essa última, suas hipérboles para comentar a simples atitude, a presença de um jogador no campo, são magistrais. Em 1970, a Seleção fora desacreditada para o México, depois da vergonhosa derrota em 1966. Nelson foi um profeta. “O escrete brasileiro voltará campeão do mundo”. Dito e feito. O Brasil ganhou o tricampeonato e Nelson resumiu a alma de toda uma nação vitoriosa. “Somos 90 milhões de reis. O bêbado caído na sarjeta é um rei. As datilógrafas, as colegiais, todos somos reis.”
Além disso, convém dizer que, como Shakespeare, foi um imenso poeta. Não simplesmente um escritor de fatos corriqueiros e banais. Ninguém soube separar o amor das outras bobagens, do que ele. Não interessa a ideologia. Não interessa se hoje ele pode parecer demasiado conservador. O que vale é a profundidade de seu raciocínio e suas certezas definitivas. O homem que era contra a educação sexual (“educação sexual deve ser dada pelo veterinário a bezerras, vacas, cabritas...”), contra a pílula, contra a nudez gratuita, a favor da castidade (esse que era o “grande tarado”...) afirmou, certa vez, o seguinte: “Todo amor é eterno. Se acabou, é porque não era amor. O verdadeiro amor está para além da vida e da morte. Por isso, estou certo de que a pior forma de adultério é a viúva que se casa de novo”.
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(*) Na verdade, esse título é uma compilação de
um livro dedicado a outro grande teatrólogo
- e também maldito – Plínio Marcos, enormemente
influenciado pela obra rodriguiana.
CRÉDITO DA FOTO:
ENTRE PARES
Nelson Rodrigues (de gravata), passando o tempo com Vinicius de Moraes e Otto Lara Resende: “O amigo é um momento de eternidade”
Enquanto o nosso não vem

Encabeçam ainda a lista Don DeLillo, Amos Oz, e o peruano Mario Vargas Llosa. Minha torcida é a favor do autor de A Guerra do Fim do Mundo.
ENCANTADORA SEDUÇÃO
Ser linda e ganhar muito dinheiro desfilando não foram o bastante para Carla Bruni. Desde 2002 ela desfila outros dotes, não menos encantador e sedutor como os já demonstrados antes.
Em 2007, Carla volta ao cenário musical com No Promises. Dessa vez juntando suas duas paixões, música e literatura, ela interpreta poemas de autores anglófonos, como William Butler Yeats, Emily Dickinson, Walter de la Mare ou Dorothy Parker.
Ainda não pude conferir o resultado. A produção cultural européia seja ela de cinema, música, literatura, demora uma eternidade pra chegar ao Brasil. As edições importadas são uma fortuna. É por isso que o mercado paralelo incha cada vez mais. Desmoralizando indústria e viciando o sistema. Assim, saem perdendo autores, fãs e a cultura.
PECADOS DO EXCESSO
Matéria do Jornal da Globo de ontem, destaca baixa expectativa de vida entre os roqueiros. Com base em uma pesquisa cientistas ingleses descobriram que a media de idade, entre os roqueiros de sucesso, não passa de 35 anos na Europa e 45 nos Estados Unidos, quando a media é quase o dobro da taxa geral da população.
A funesta estatística constata que a alta mortalidade das estrelas da música acontece nos primeiros 25 anos de fama. Os que escapam a essa fase passam a viver, segundo os pesquisadores, como a maioria dos mortais. O que explica fenômenos como Mick Jagger, Rod Stewart e Ozzy Osbourne.
Ninguém sabe, no entanto, explicar como Keith Richard, guitarrista dos Rolling Stones, ainda está vivo. Conhecido pelos excessos, ele declarou recentemente que cheirou, pasmem, as cinzas de seu pai com cocaína.
A vida passa e o mundo do Rock continua produzindo suas lendas.
UM NOVO DIA
FOTOGRAFIA É ARTE?

O fato de levantarmos essa questão vem de uma inquietação pessoal, até aqui não resolvida.
Sempre questionei as idéias reducionistas que tentam enquadrar o conceito de arte como um conjunto de preceitos e regras rigidamente estabelecidas; hierarquizadas por um sujeito oculto, e aceitas sem reservas por quem queira.
Essa excitação se acentuou quando discutia com um amigo o valor artístico da fotografia. Ele contestava, afirmando ser ele também um artista, se tirar fotos fosse uma forma de expressão de arte. Poor boy...
Dizia, enervado, que a fotografia não passava de um esboço pálido e inútil para atingir a arte. Caprichoso esse amigo, não?
Eu não pude concordar com ele por duas razões. Primeiro que o oficio do artista não é uma licença, concedida a esse ou aquele homem – por mais que isso hoje em dia seja a norma – e que, mesmo ele desacreditando-se como artista, eu insistia; por que não ser um com uma máquina na mão?
Segundo que para mim, o valor que cabe como critério de arte - não importam os meios - é sua capacidade de inventividade e imaginação que, toda obra artística deve incutir.
Conjugados esses elementos -inventividade e imaginação- eles serão capazes de dar forma e organização a experiências simbólica, ricamente instrutiva.
A fotografia como expressão artística, altera as aparências e reinterpreta o mundo fazendo com que percebamos tudo a nossa volta em novos termos. Dando com isso, conotações artísticas a qualquer coisa. Afinal, o que faz com que algo seja arte e não apenas habilidade é por que, e não como, tal coisa é feita. O que devemos fazer são as perguntas certas para tirarmos o conceito de arte.
A foto que ilustra esse post, do artista francês Yves Klein, é um bom exemplo do que tenho tentado mostrar, desde então ao meu amigo, como de inventividade e imaginação fotográfica. Quem ao se deparar com essa foto não se inquietará com uma situação tão insólita. Um misto de desespero e surpresa.
Por sua natureza inventiva, o toque do artista, envolve necessariamente a imaginação. Sempre que observo essa foto, penso que, a ela caberia uma epígrafe como: Quando se ama o abismo, é preciso ter assas, do filosofo alemão Nietzsche. O anseio de expressar um sentimento de liberdade, a qualquer preso, é o que move os ideais heróicos de alguns homens. A foto recria simbolicamente esse espírito irrequieto.
Que outra imagem simboliza tão completamente esse ideário de liberdade? Houve e sempre haverá novas e variadas formas de alcançar metaforicamente essa idéia. A fotografia, assim com a pintura a música o teatro a literatura, representam respostas paralelas às expressões do mundo ampliando o nosso modo de ver e compreender a realidade.
A ARTE DE BAUDELAIRE
Ontem, dia 31 de agosto, completou 140 anos da passagem do poeta Charles Baudelaire, o maior de língua francesa. Seu legado poético, eternizado em um único livro intitulado, As flores do Mal, é o testemunho de uma época de vertiginosas transformações sociais e políticas na Paris do século XIX.
Sobre ele T. S. Eliot escreveu, é o grande arquiteto da poesia moderna e de todos os tempos. Com Baudelaire a poesia torna-se o dispositivo de uma consciência crítica e nevrálgica das questões sociais, ao atingir o mais elevado grau de lucidez e plasticidade visual. Essa percepção da realidade dominará os temas de sua obra que, não se furtará a pôr em nível superior, pela graça dos elementos mais torpes, os temas menos elevados, pois: eis que (ela, a poesia) redime até a coisa mais abjeta,/ E adentra como rei, sem bulha ou serviçais,/ Quer os palácios, quer os tristes hospitais.
Tamanha impostura poética antecipará em meio século os motivos da poesia moderna. É o que entende pelo menos Ivan Junqueira quando afirma: Acima de qualquer outro, é Baudelaire que antecipa não apenas os temas, mas também todo o processo estético da poesia moderna.
Outro pólo de sua obra sem a qual não podemos entendê-lo gira em torno de sua percepção sobre o trabalho do poeta. Baudelaire está sempre aludindo seu oficio as formas de um labor constante.
Teria ele cerca de vinte anos quando começou a escrever os primeiros poemas de As flores do mal. Sem presa, seus poemas foram muitas vezes, depois de escritos, reescritos, provavelmente destruídos, fundidos, refundidos, entalhados, polidos e esmerilhado ao longo de 27 anos, durante os quais amadurece sua concepção estética, nos diz Ivan Junqueira.
Incompreendido em seu tempo, seus poemas foram proibidos de circularem, acusados injustamente de imoralidade. A 15 de junho de
Reproduzimos a seguir um trecho de um dos 6 poemas censurados pela 6º Vara Correcional intitulado Lesbos. Esse nome segundo os estudiosos da obra de Baudelaire seria o primeiro titulo da coletânea de poemas que mais tarde passou a ser chamada pelo poeta de As Flores do Mal. Acreditamos que esse gesto seja a melhor forma de homenagear o poeta, nunca deixando suas flores malditas serem esquecidas.
LESBOS
Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias,
Lesbos, ilha onde os beijos, meigos e ditodos,
Ardentes como sóis, frescos quais melancia,
Emolduram as noites e os dias gloriosos;
Mãe dos jogos do Lácio e das gregas orgias;
Lesbos, ilha onde os beijos são como as cascatas,
Que desabam sem medo em pélagos profundos,
E correm, soluçando, em meio às colunatas,
Secretos e febris, copiosos e infecundos,
Lesbos, ilha onde os beijos são como cascatas!
Lesbos, onde as Frinéias uma à outra esperam,
Onde jamais ficou sem eco um só queixume,
Tal como a Pafos as estrelas te veneram,
E Safo a Vênus, com razão, inspira ciúme!
Lesbos, onde as Frinéias uma à outra esperam,
Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,
Onde, diante do espelho, ó volúpia maldita!
Donzelas de ermo olhar, dos corpos amorosas,
Roçam de leve o tenro pomo que as excita;
Lesbos, terra das quentes noites voluptuosas,
(...)
NAVEGAR É PRECISO
Mas uma mudança que se queira completa, daquelas de sacudir a poeira para reiniciar ao primeiro salto, tem de ser acompanhada de uma nova proposta, e ainda uma nova cara. Por isso a imagem do mar infinito. Com isso não insinuo estar perdido, ao contrário, anuncio múltiplas possibilidade a serem alcançadas. É assim que vejo esse céu derretido. O mar é como uma estrada que leva a todos os lugares. Mesmo que se demore em algum, como Ulisses, agente está sempre percorrendo caminhos.
O visual mais sóbrio, com cores neutras, e menos aberrantes do primeiro perfil, pretende dá o tom dessa nova fase. Menos florido, mais expressão. Carregada, antes de vontade.
DEIXAR A VIDA
Farmacologia Espiritual
Nos últimos dias preocupei-me cada vez mais com a queda constante de meus pêlos, por isso procurei finalmente um médico, queria saber por que pouco a pouco eu estava desintegrando.
Eu não agüentava mais as pessoas me perguntando se eu fazia a sobrancelha, e se eu tinha errado ao fazê-las. O que dizer a elas? Nem eu sabia o que havia acontecido. Recorri ao médico então.
Ele tinha a palavra final ou a trilha para encontrar minha sobrancelha. Vocês não imaginam o quanto é constrangedor ficar careca não da cabeça, mas da sobrancelha! É mais ou menos como se sentir órfão de uma parte de si mesmo, só que essa parte lhe abandona aos pouquinhos, deixando sinais de sua ausência, e os que ficam já anunciam sua partida, aterrorizando minhas esperanças de cura.
Pra me deixar mais aliviado de todo constrangimento, e de todas as dúvidas, o médico me disse que eu iria morrer. Só não soube precisar o dia nem a hora desse fato. Mas disse que iria acontecer e quando isso ocorresse, garantiu-me que eu estaria de pelugem nova.
Bastando para tanto, que eu não mais me aborrecesse com coisas pequenas e não me desse tanto ao exercício de esforços mentais, que como combustíveis, queimam e consomem uma parte de mim. Que eu me distraísse, e não me entregasse a um eu profundo e descabido, que eu vivesse pra fora e não pra dentro. Que eu batesse e não mais contesse o choro, nem me silenciasse, nem temesse os desafios, ousasse mais, e praticasse haraquiri com a sorte.
Ouvindo-o pronunciar esses conselhos pensei estar diante de um poeta e não de um médico. Mais então foi ai que me dei conta de que um e outro têm a dom da cura. O médico da carne o poeta da alma. No instante estou precisando mais da medicina. E, de agora em diante, procurarei seguir os conselhos do senhor doutor, que parece conhecer tanto do corpo humano como da farmacologia espiritual.
Ao poeta João Cabral
João Cabral de Melo Neto nasceu em Recife, Pernambuco, em 1920. Filho e neto de donos de engenho, viveu parte da infância entre o campo e a cidade. Escreveu seu primeiro livro, Pedra do Sono, um topônimo como Brejo das Almas de Carlos Drummond de Andrade, em 1941.
Além de poeta, João Cabral foi embaixador. Serviu o Brasil em muitos países do mundo. Nenhum, no entanto, marcou tão fundo sua poesia como a Espanha.
Ao leitor acostumado com uma poesia de deslumbramento sentimental, e cunho confessional; de tradição romântica, grandiloquente, solene e cheia de pompas, nada mais estranho do que ler esse poeta.
Avesso ao confessionismo, a subjetividade, ao lirismo, que caracterizam as idéias correntes sobre poesia, João Cabral cunhou sua obra de vida palpável e dura, assim como a realidade que lhe arrebentava a retina. Sua poesia é concisa e contida no objeto. Construída sobre o signo do menos, reduz as imagens às suas formas concretas.
Sua obra mais conhecida é Morte e vida Severina (1955), ganhadora do festival de teatro de Nancy em 1966. Ainda teve uma adaptação para o cinema, com música de Chico Buarque, então um iniciante na carreira musical com 21 anos; e mais recentemente, ao completar 50 anos, ganhou uma versão em quadrinhos editada pela Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco.
Ao ler sua obra tenho a viva sensação de estar diante de um poeta inquieto e audacioso, que fez do seu ofício uma constante busca de novas possibilidades para expressão poética. A tão falada rudeza de seus versos, talvez venha de seu zelo e temperamento, que não aceitava demagogias e facilidades literárias tão ao gosto de muitos escritores atuais. Ao não se associar a essas facilidades, teve então em curso a velha e tão batida justificativa de que tal poeta é difícil e hermético, por isso marginal.
Os que já leram sua obra sabem do que estou falando, aos que ainda não leram, não percam a oportunidade de descobrirem a inventividade desse poeta. A baixo tenho um pequeno poema que escrevi em homenagem a ele.
Todo poeta brasileiro
Que quer cantar o nordeste
Tem que saber versejar
A dura flor do agreste
Que é a poesia de pedra
De Cabral, homem da peste.
Nesse chão que é de pedra
Duro, seco e de pó.
O homem teve a coragem
De desatar esse nó,
Criando como engenheiro
A arquitetura de um só.
Pra isso, então desdenhou
Do verso, demais sem vigor,
Frouxo, ralo, aguado,
Edulcorado de amargor.
Que os líricos tomaram emprestado
Do gondoleiro do amor.
Sua poesia não é brincadeira
Pra alegrar os descontentes.
Quem tiver as suas magoas
Vá chorar em outras frentes.
Que esses versos que apresento
É de homem cabra valente.
É trabalho labutado
Na fornalha de engenho.
Corta cana, fere, mata
Da pra ver todo essa gente.
Que em cima dessas pedras
Faz brotar nova semente.
A dura flor não arrefece
Nem se deixa transbordar
É precisa, na medida,
Onde o verbo faz falar
O lamento dessa gente
Que esqueceram de calar.
Aos poetas ditos líricos,
João Cabral aconselhou.
São demais os seus lamentos,
Faz-me mau a sua dor,
Vives sempre afogado
Entre sonhos de vapor.
Vê se acorda à realidade
Não se perca em desamor.
De seu sonho de ilusão
Venha ver o meu labor,
De poeta nordestino
Cabra macho de valor.
Propósitos e explicações
Meu propósito inicial com a criação desse blog é o de dar vida a um espaço onde eu possa partilhar interesses comuns com outras pessoas. Há anos venho escrevendo diários que se silenciam nas gavetas de meu armário, ou tenho segredado coisas às paredes do meu quarto, desejando sempre torna-las públicas, afim de que elas ganhem vida própria e dialoguem com seu criador, ao menos o necessário.
Escrevendo nesse espaço tenho a chance de comungar comigo mesmo e ao mesmo tempo trocar idéias e impressões sobre literatura, música, cinema e atualidades do mundo e da minha província.
Ainda aguardo a oportunidade de fazer novos amigos, que tenham ou não os mesmos interesses literários, musicais e cotidianos. O mundo seria realmente muito chato se os interesse e gostos fossem comuns a toda gente e não houvesse o contrário, o contraditório, o conciliador, o desdenhador, o sentimental, a emotiva e as diversas engrenagens que compõem essa complexa e eficiente máquina chamada raça humana.
Ao tempo em que pesa essas confissões e desejos eu imaginava se seria capaz de dar conta de escrever diariamente. Não serei o poeta de todos os dias, porque nem todos os dias é dia de poesia, mas também não me ausentarei por longo tempo.
Outro, dos tantos propósitos desse blog, é o de impor-me uma disciplina e uma rotina no trato com as palavras. O exercício de ler e de ruminar os pensamentos literários enche-nos de um desejo incontido de ouvir nossa própria voz, mesmo que essa seja, aparentemente, rouca e gaga. De modo que assim preencho essa lacuna que há anos me domina e me obrigo a fazer o que mais quero.
O nome escolhido para o domínio desse blog, vem de um hábito que por mais que eu tente me desvencilhar não me larga nunca. A palavra sestro significa justamente isso, vício, hábito, cacoete, mania. Escolhi esse nome para me lembrar de que tenho de criar outras habilidades e esquecer, ou me livrar, das velhas e incomodas manias de sempre.
Lancei meu barco no mar e pouco a pouco dou minhas primeiras remadas.



