A UNANIMIDADE INTELIGENTE

Chico Buarque, um artista magistral:43 anos de carreira
A MPB não seria o que é não fossem suas obras
O cidadão Chico Buarque de Hollanda, 63, é a certeza de qualquer artista que se preze. Não conheço um cantor digno que não tenha gravado alguma coisa escrita por ele. O restante da humanidade o considera e o respeita. “Perto do Chico Buarque”, de acordo com o fabuloso Otto Lara Resende, “todo homem é potencialmente corno. Se sua mulher está com você agora, é porque ela não teve a competência para ficar com Chico Buarque”. Mas, por que Chico é essa unanimidade toda, a ponto de ser superior a qualquer outro homem?
É simples. Porque ele é perfeito. Bonito, charmoso, rico, inteligente, talentoso... “É o único artista da MPB saído da classe média”, disse certa vez o pesquisador e historiador de música popular José Ramos Tinhorão. Dirão alguns que isso não alteraria sua criação. Talvez. Mas de classe social favorecida, teve contato mais próximo com uma cultura que, como todos nós já estamos carecas de saber, é artigo de luxo. Descende da melhor linhagem de intelectuais do país. Raízes do Brasil, o estupendo livro de seu pai, Sergio, é indispensável para quem deseja conhecer a fundo a história de nossa formação. Chico é a prova – a exceção de uma regra estúpida –, de que nem sempre os privilegiados vivem na mesquinharia, na banalidade, no ócio que aliena, enfim, comportamentos que o dinheiro fácil oferece a quem tem. Ao invés de esticar as pernas e sossegar o facho, Chico Buarque decidiu trabalhar numa notável “construção” (olha aí!) e deu-nos uma obra tão rica, tão profunda, tão bem-acabada, que não há meio de não a admirarmos. Pode-se dizer de Chico o mesmo que o velho Manuel Bandeira disse de Rachel de Queiros: “Nunca o louvaremos bem”. Em suma, ele é um grande criador. Imagine que Chico começou a escrever aos 20 anos. Deu a Nara Leão sua A Banda, para que ela a defendesse num festival desse aí, na década de 60. Sucesso nacional. Meu “pai” Nelson Rodrigues, depois de chamá-lo de “talento das novas gerações”, escreveu uma crônica dizendo que “antes de A Banda, ninguém assoviava mais. O brasileiro voltou a assoviar graças a Chico”.
Mas, como conheci Chico? Conheço-o desde quando eu tinha 15 anos. (Hoje, os meninos de 15 anos sabem o quê, pelo amor de Deus? Nada! Nessa idade não vêem um palmo adiante do nariz). Continuando: Um colega meu, me emprestou, de seu pai, um disco de vinil chamado “Os Sucessos da MPB”. Lembro-me de que quem escreveu o comentário, na contra-capa do disco, foi um senhor chamado Affonso Romano de Santanna. Vim saber, muito tempo depois, que ele é também poeta. Nesta jóia, de Chico Buarque, constavam Partido Alto (interpretação de Caetano Veloso. Caiu como uma luva para ele. Repare: “Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio/ Pele e osso, simplesmente, quase sem recheio...”) e Folhetim. Me apaixonei particularmente por Folhetim, gravação de Gal Costa. Alguns anos depois, um crítico – não me lembro mais quem – afirmou que Gal jogou naquela interpretação, toda a sensualidade e a malícia da prostituta (“dessas que só dizem ‘sim’ ”) da letra. Eu também achei.
Já ouvi muita gente dizer que Chico é melhor compondo do que cantando. Não que ele seja um mau cantor, não é isso, mas Chico é, antes de mais nada, o compositor. Tive a oportunidade de conhecer algumas de suas obras-primas, e cito as que mais me impressionou: Bastidores (Cauby Peixoto), Sob Medida (Fafá de Belém), Atrás da Porta e Tatuagem (Elis Regina), Sem Açúcar (Maria Bethânia), Geni e o Zepelim (ele próprio), Até o Fim (Nety Matogrosso). Não me lembro, no momento, de outras.
Em 1983, Braz Chediak filmaria Perdoa-me por Me Traíres, por sinal um dos filmes mais baratos da história do cinema nacional, baseado na peça homônima de Nelson Rodrigues. Nesse enredo, o homem traído pede perdão à mulher. Pode? De acordo com ele, Judith traiu, mas a culpa é dele. Quer dizer: ela está coberta de razão em traí-lo. E para musicar isso, como é que se faz? Recorreu-se a Chico Buarque e ele não decepcionou. Escreveu a magistral Mil Perdões, que Gal Costa gravou, naquele mesmo ano, em “Baby Gal”. (“Te perdôo porque choras / quando eu choro de rir / te perdôo / por te trair”). Descobri, inclusive, que Chico tem o poder de transcender o banal, o irrelevante, o anormal, o que é doentio para as raias da genialidade. Arrisco dizer que Chico é capaz de poetizar um piolho, uma cárie, uma unha encravada, uma menstruação irregular etc. Ele tem condições de escrever sobre qualquer assunto. Muito poucos conseguem isso.
Eu gostaria de escrever mais sobre Chico Buarque, sobre o Chico & Caetano, (particularmente sobre O Quereres, que ele errou, para delírio de todo mundo. “Não sei porque eu insisto nessa profissão! Estou dando tudo de mim!”), sobre as mulheres de suas músicas, sobre suas peças, seus livros, suas entrevistas, mas nunca o assunto Chico Buarque será dado por encerrado. Creio que já disse o fundamental. Que ele é um artista completo e quase não tem rivais na MPB. Salve Chico Buarque. Não aparecerá outro tão cedo que o supere. Aposto.
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Especialmente para a Profa. Maria de Fátima

A VERBORRAGIA DA ACADEMIA

A poetisa Tania Martins, no Rio de Janeiro: a melhor
FOTO EXTRAÍDA DE SUA PÁG. NA INTERNET


É impressionante como a Prefeitura, o Hospital e a INB patrocinam a Selecta Acadêmica, um material francamente sofrível – e ninguém protesta

ANTES de mais nada, quero esclarecer aqui que não estou fazendo uma análise aprofundada das “obras” publicadas na Selecta Acadêmica, não sou especialista em coisa alguma, pelo menos por enquanto. Limito-me a contribuir para esse blog fazendo o que gosto, que é opinar. Também não é minha intenção rebaixar nenhum dos citados, até porque essa gente já está bem de vida, possui carrões, casas boas, dinheiro etc., e nada perderão com as opiniões desfavoráveis de um pobre-coitado como eu, mas vamos lá.
Eu já conhecia a revista, mas nunca tinha parado para ler atentamente as besteiras que esse pessoal escreve. Confesso que saí do livro horrorizado com o nível dos nossos queridos acadêmicos.
Analiso agora as composições de dois números, 6 e 7, publicados em meados de 2002. Com toda certeza, a Academia não parou de editar novos volumes, que comentarei, com toda honestidade que me é peculiar, posteriormente, assim que devorá-los. (Vou tentar). Mas quero discorrer sobre o que vem a ser propriamente a Academia, quem são seus membros e do que eles falam.
Em primeiro lugar, faltou um certo cuidado da Editora Globo em elaborar as revistas. Ciente de que elas viriam com falhas, logo na introdução, a direção trata de se justificar, citando Dickens, o célebre autor de David Copperfield: “Onde ocorrem mais facilmente erros é na impressão dos livros”. Tudo bem...
Como na tradicional Academia Brasileira de Letras (que negou uma cadeira ao poeta Mario Quintana e a um dos maiores dramaturgo do mundo, Nelson Rodrigues, e a concedeu a Paulo Coelho), em Caetité existem os patronos e seus ocupantes, cadeiras numeradas. Eu quero deixar registrado que sou completamente contra a Academia Brasileira. O fardão já não significa nada mais para mim, depois de disparates dessa natureza terem ocorrido. Em Caetité, somos apresentados aos “Patronos”, gente que, em alguma época, teve um certo prestígio no meio local, em curtas biografias. (Como escreveu corajosamente Paulo Francis, em seu livro de memórias, 1964 – Trinta Anos Esta Noite, “só gente de certa categoria social importa no Brasil”). Aqui acontece o mesmo. Um pobrezinho, lascado, mas que saiba escrever e tenha tino para a coisa, não tem o menor valor em Caetité. Nem adianta! Conheço gente aqui, que mal tirou o primeiro grau, e escreve muito melhor que certos “acadêmicos” que eu vejo aí. Voltando aos acadêmicos: São alguns: Maria da Conceição Pontes, que equivocadamente consta ter falecido em 23/17/1973. (Gente, estamos falando de uma publicação de Letras, Acadêmica, não poderia existir erros tão grosseiros. Dizer que a mulher morreu no mês 17...) , Manoel Teixeira Ladeia (cuja Acadêmica Fundadora vem a ser sua filha, a professora e advogada Jussara Ladeia, de quem antipatizei quando fui seu aluno), Gerson Prisco da Silva, Waldir Cardozo, Emiliana Pita (autora do Hino de Caetité), sra. Idalina Vieira Cardoso, Marion Gomes e por aí vai.
Outra coisa que me chama bastante atenção: Alguns dos “nobres” acadêmicos fazem toda a questão de ostentarem suas formações, seus concursos, como se isso fosse sinônimo de ter talento. Como se isso fosse franquia para escreverem poesia de qualidade. Lamentavelmente, não temos um material de primeira. Um é advogado, o outro é médico, é “Bacharel” pra cá, é “Doutor” pra lá... e a Academia fica a nos dever trabalhos mais apurados e mais bem feitos. Há um “poema” que, dando de barato, é o fim da picada. Trata-se de A Prostituta, de autoria de Dr. Jorge Araújo. O pedantismo está já nas primeiras linhas. Vejamos: “Não cruzarei o Aqueronte nem o Letos / sou um verme”. Ele fala em “balde de lixo em pletora” – sabem o que é pletora? Pesquisem. “Mortos pálidos projetos”. Como se considera um talento múltiplo, Jorge Araújo também publica contos, como O Estrado. Em outra composição ‘poética’, enaltece o idioma de Camões e Pessoa, cita Drummond de Andrade, e diz que “adora as perfeitas flexões / e as mais-que-perfeitas conjugações”. É isso aí. Acabei, curiosamente, de me lembrar de uma música de Caetano Veloso, Língua, talvez a maior exaltação que temos do português. “Da rosa no Rosa / Da pessoa no Pessoa”.
Um pequeno poema – Agora, André Koehne (advogado) botou pra lascar em A pequena Formiga, poema de sua autoria: “Era uma pequena vez (sic!) uma pequena formiga que morava num pequeno buraco, num pequeno beco duma pequena cidade” (...) A pequena formiga legou-nos uma pequena lição: “É uma merda ser pequeno”. É impressionante! Tirem suas próprias conclusões. Eu vou ficar quieto, que é melhor.
Jóias – Agora, há preciosidades. Em minha opinião, a melhor escritora da Academia é uma senhora chamada Tânia Martins. Essa, sim, orgulha a Academia da qual faz parte. Ela escreveu alguns livros, e não é de hoje que os jornais se interessam em publicar sua obra. Que bom ler o que Tânia escreve. Apresento aos visitantes, jóias como Identidade (“Sê estrela do mar se não podes ser luz no infinito / Sê candeia, no recesso de teu ser, se não podes ser sol iluminando mundos”) ou então em Sonhador onde ela indaga: “Que pretendias tu quando brincavas com estrelas se sabias que nunca poderia tê-las? / Por que te consomes no fogo da ansiedade / se tu soubeste que amar (...) é só saudade?”
A vocês que chegaram até aqui, o meu forte abraço e até logo!

REDESCOBRIMENTO PELO LIVRO DAS IGNORÃÇAS DO PANTANEIRO MANOEL DE BARROS


Há qualquer coisa de desconcertante na leitura de, O livro das Ignorãças, do poeta matogrossense Manoel de Barros (n. 1916). Qualquer coisa para as quais as palavras usualmente utilizadas não estão prontas para descrevê-las. Por isso, é preciso, como ele mesmo aconselha botar “delírio” no verbo, “adoecer de aflição” as palavras, desequilibrar a razão, provocá-las, reinventar sentidos para elas, para que aí sim, renovado a linguagem com suas expressões inusuais, ler a sua poesia. Diversa de toda produção poética da nossa literatura, sua obra está no ponto em que a escrita salva e redime-nos de todos os desgastes. Sua preferência pela fala do homem comum, das crianças, e da exaltação da natureza; têm como intenções reaproximar o homem, incapacitado e quase inutilizado, para valorização do que é aparentemente inútil. “Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz”, diz em AUTO-RETRATO FALO, único poema titulado de todo o livro. Ocupar-nos de uma poesia, tão intransigente com a linguagem, renova-nos os sentidos e valoriza nossa percepção do sutil. Deixar-se voar fora das asas, como quer o poeta é, experimentar enxergar sem intermediárias retinas o espetáculo da vida pelo constante redescobrimento das palavras.

A PROPÓSITO DA LIBERDADE

Por feitio sou daqueles que acreditam na liberdade e no desejo de liberdade a toda prova. Não há meio termo possível que possa dirimi essa disposição de espírito. Nem meios tons indefinidos me agradam. Não me ânimo mais a discussões ideológicas e apaixonadas que vejo serem inúteis. E cujo prólogo principia a guerra. Por isso não creio que governos que cerceiem a liberdade, se perpetuem no poder, devam ser respeitados ou defendidos. Sou radicalmente contra o encarceramento das vontades dos cidadãos ao desejo de qualquer governante. É ainda não tolero que uma vez que te decretaram que tens pneumonia, se comporte com um pneumático.

Nelson Rodrigues jamais foi um pornógrafo

Alexandre Frota: pornografia pra ninguém botar defeito. Nelson, não.

Não quero posar aqui de advogado do diabo. Não. Mas é que eu não suporto mais tanta injustiça que vem, ao longo de tantos anos, sendo praticada contra o mais visceral escritor do Brasil, o pernambucano Nelson Rodrigues, que, jornalista e já residindo no Rio de Janeiro, conseguiu a duras penas, montar a complexa Vestido de Noiva em 1943. Essa peça, graças ao espetáculo deslumbrante de Ziembinski e ao próprio enredo, inimaginável para a época, consagrou sua carreira de dramaturgo. Isso é o que distingue os gênios. Estarem à frente de seus tempos. Só.
Mas dali para frente, Nelson não viveria momentos de glórias e de louros, como merecia. Cada nova peça, cada entrevista dada, cada livro editado, seriam dores de cabeça tremendas para ele, porque os pseudoconvencionais não quiseram enxergar a vida como ela é, assim sendo, era – ainda é – mais cômodo acusar o dramaturgo de “imoral” e de “pornográfico” do que reconhecer seu enorme talento criador. Muito poucos deram a mão à palmatória. Percebo que coragem não ficou mesmo para todo mundo. A realidade é feia, cruel, amarga, as pessoas são mesquinhas, elas sim taradas sexuais e transtornadas, gente que alimenta os desejos mais abjetos, e o pobre do Nelson é quem tinha de pagar o pato? Exatamente. Seu grande erro: desmascarar a mesquinhez que vivia maravilhosamente encoberta da nossa melhor soçaite.
E outra coisa: quem disse que teatro deve ser passatempo? “Minhas peças são desagradáveis e teatro não pode ser bombom com licor”, dizia Nelson. Estou com ele e não abro. Boa literatura é aquela que choca, que provoca, que agride, que causa desconforto e náusea. (Daí porque sou contra os livros de auto-ajuda).
Dirão alguns que o sensacionalismo é a maneira mais fácil de chocar. De acordo. Mas acontece que Nelson nunca apelou para o sensacionalismo barato, infelizmente um consenso entre a maioria. Suas obras trazem uma história, marcada por tempo e espaço, e o sexo funciona simplesmente como pano de fundo. Sensacionalismo de verdade, em minha opinião, que faz muito bem é Alexandre Frota. Seus últimos filmes, sim, são a mais autêntica pornografia. Nelson, não.
Meu Deus do Céu, será que ninguém entende que essas obras são claramente morais? Nelson Rodrigues jamais se deleitou com a podridão, meu povo! Ele era um conservador ferrenho – talvez até mais do que eu ou você. Por isso acredito que Nelson sofreu (ainda sofre) uma perseguição violenta e incongruente. Escrevo este texto na esperança de que golpes baixos e barbaridades dessa natureza deixem de ser alardeados contra um mestre da nossa literatura dramática.

... END THE OSCAR GOES TO

Daqui a poucas horas teremos a octogésima edição do Oscar. Essa premiação que chama tanto a atenção do mundo tem razões que muitas vezes nos escapam. Assim, não é de se admirar que obras de qualidade duvidosa abocanhem inúmeras estatuetas. Enquanto outras com largar contribuição ao cinema, e reconhecimento da crítica especializada, saia mal na cerimônia. Podemos evocar muitos exemplos que se prestam a compreensão do que digo. Em quase sessenta anos de cinema Alfred Hitchcock criou um gênero, a saber, o suspense, e inúmeros tipos que ajudaram a impulsionar o cinema no mundo. Sobre suas obras Truffaut em livro memorável, disse: “seus filmes, realizados com um cuidado extraordinário, uma paixão exclusiva, uma emotividade extrema disfarçada por um domínio técnico raro..., desafiam o desgaste do tempo, e confirmam a imagem de Jean Cocteau ao falar de Poust: ´sua obra continuava a viver como os relógios no pulso dos soldados mortos´”. No entanto, todas as inovações e reconhecimento não foram suficientes à academia, que o indicou seis fezes ao prêmio de melhor diretor, mas só lhe deu o prêmio de consolação pelo conjunto da obra em 1968. A esse gigante ignorado completam a lista nomes como Stanley Kubrick, Fred Astaire, Orson Welles que dirigiu e atuou em seu primeiro filme Cidadão Kane (1941) apontado por nove de cada dez críticos, como o melhor filme feito até hoje, isso tudo com 24 anos de idade, ainda ficaram de fora da premiação, Federico Fellini que só ganhou o honorário; Charles Chaplin, Greta Garbo... Parece que os holofotes de Hollywood são miopias. Enxergam apenas cifrões.


... COMO DEUS CRIOU A MULHER

Juliette Binoche no filme A insustentável leveza do ser.

O cinema francês não se cansa de produzir belas e talentosas divas, para deleite do público de todo o mundo. Desde o advento de Brigitte Bardot, que fundou definitivamente o padrão de beleza cinematográfica na França, nenhum outro diretor se arriscou em comprometer sua película, deixando de fora uma deusa. Como uma formula pronta para atrair publico, eles carregaram as telas dessa presença arrebatadora chamado: símbolos sexuais. Assim, também o publico antes reprimido, passou a ver nos filmes o que só se passava em suas cabeças. A aparição de Brigitte Bardot no filme, ...e deus criou a mulher, do diretor Roger Vadim, no auge de seus dezessete aninhos pra lá de erótica, tornou, à partir da ai, o cinema nada inocente. Pelo contrário incendiou as salas escuras de uma beleza plástica incomum e reinventou a sexualidade. De lá para cá, multiplicaram-se as presenças divinas nos filmes. Catherine Deneuve, musa do cinema de Buñuel foi o sensação dos anos 60 ao estrelar a fita A Bela da Tarde. Nela Deneuve interpreta uma burguesa reprimida sexualmente que à tarde foge de sua vida medíocre para se entregar aos prazeres mais luxuriantes num bordel. Isabelle Adjani, Juliette Binoche, Irene Jacob, Emmanuelle Béart, Marion Cotillard, Laetitia Casta, Ludivine Sagnier, Audrey Tatou (por que não?) e mais recentemente Eva Green, fizeram do mero ato de assistir a um filme uma celebração à beleza. Nem mesmo os carrancudos intelectuais da revista Cahier du Cinema, resistiram a bruxuleante magia dessas mulheres. Há artigos e resenhas que mais pareciam cadernos de anatomia do que analises fílmicas, escreveu o crítico Antoine de Baecque. Difícil mesmo é deixa de se encantar por essas sereias.

O MEDO DO INFERNO

O líder da Igreja Católica em sermão aos fiéis no ano passado reafirmou sem meias palavras, que o inferno existe de verdade, não se trata de uma metáfora, mas de uma realidade concreta. Cioso de seu rebanho o papa Bento XVI lembrou a Bíblia, em sua incorruptível e invariável certeza, nas palavras de São Paulo e São Mateus. Em outra época, quando a Igreja guiava a ferro e açoite as vontades humanas, esse discurso ardia literalmente nos servos que por suas heresias e imprudência tinham seus atos corrigidos na fogueira, tal como no inferno que prega hoje o cardeal Ratzinger. Na teologia romana parece não haver outro sermão que não seja fruto do medo. “O medo, que esteriliza os abraços,(...)/ o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.” O medo por toda parte, como em Congresso internacional do medo de Drummond. Tudo que a igreja católica tem para oferecer aos seus fieis, de ontem e hoje, não passam de conselhos apocalípticos e assombrações medievais. Menos brioso parece ser os discursos contra a própria igreja, que fecha os olhos e encobre os atos de pedófilos dos seus, ou nega-se a aceitar os apelos de muitos padres pelo fim do celibato. Se Deus existe, espero que Ele tenha uma boa desculpa para tudo isso.

MAIS LIÇÕES DE POESIA - O FERRAGEIRO DE RECIFE


Além dos autores, Mário de Andrade e Ezra Pound, que destaquei no post anterior como exemplos de autoridade literária sobre preceitos constitutivos do oficio poético, forçoso é lembrar outro nome, como o do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, quando o tema é poesia. Nele o rigor da forma e a expressividade do conteúdo exprimem como nenhum outro, até então, um acurado senso critico, traduzido num intransigente apego ao real e a lucidez mais extrema, em oposição ao lirismo e poesia dita inspirada. Acontece que com ele, a poesia deixa de ser etérea, perde seu caráter de oratória e finca pé no chão. Mesmo sendo, eminentemente, um poeta, João Cabral nunca se distanciou das reflexões que envolveram seu trabalho. Como escritor que nunca dissociou a condição e o trabalho de poeta da reflexão estética acerca da essência e função da poesia, Cabral acabou por se tornar, assim como que um, poeta-critico. E foi como poeta-critico que ele nos deixou em versos um sumário de suas idéias fixas. Como Octávio Paz se referindo a Fernando Pessoa alegando, que a biografia desse era sua obra, assim, sucede que com Cabral sua obra fala por si e dita, através de suas normas rígidas a tipologia de sua composição. A seguir um bom exemplo de como o imbricamento crítico de sua visão poética se traduzia em poesia.

O FERRAGEIRO DE CARMONA

Um ferrageiro de Carmona
Que me informava de um balcão;
“Aquilo? É de ferro fundido,
Foi a fôrma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
Que é quando se trabalha ferro;
Então, corpo a corpo com ele;
Domo-o, dobro-o, até o onde quero,

O ferro fundido é sem luta,
É só derramá-lo na fôrma.
Não há nele a queda-de-braço
E o cara-a-cara de uma forja.

Existe grande diferença
Do ferro forjado ao fundido;
É uma distância tão enorme
Que não pode medir-se a gritos.

(..............................................)

MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1994. p. 595

O SECTARISMO METAFÍSICO DE ANTERO DE QUENTAL

Pintura: Antero de Quental, por Columbano Bordalo Pinheiro

Os poetas portugueses sempre foram afeitos a poesia metafísica, mesmo os realistas, como Antero de Quental (1842 - 1891) que exercitou largamente esse espírito poético. A metafísica portuguesa vem, segundo Massaud Moises, da compressão imposta pela natureza, que oprime uma pequena facha de terra que é Portugal, entre o mar e o resto do continente Europeu. Na impossibilidade de avançarem sobre largas fronteiras de terras, eles exercitam a fantasia. Os habitantes, e os poetas em particular, transcendem essa condição terrena de opressão, para um plano espiritual, realizando suas fantasias, sonhos e desejos, numa outra realidade, paralela aos acontecimentos terrenos. Nessa viagem ao mundo onírico, os poetas pretendem idealizarem um mundo onde eles possam atender aos apelos dos sentidos, dos desejos irrealizáveis na terra, como forma de expurgarem suas angustias e temores mais sombrios. Os poemas versam sobre verdades intimas como no Palácio de Ventura de Antero de Quental que descreve os sonhos de um cavaleiro –ele mesmo – na busca de um destino mais promissor: “Sonho que sou um cavaleiro andante” .... “Paladino do amor, busco anelante”... “O Palácio encantado da Ventura”... A produção poética de Antero de Quental está intimamente ligada a sua vida, esse poema corresponde a última fase de sua produção poética, fase de retorna a Punta Delgada, onde ele é acometido por uma estranha doença que lhe infunde pensamentos pessimistas e um desejo de evasão, de morte e solidão. Os versos seguintes aos de desejo de encontrar a boa sorte, ressaltam esse pessimismo: “Mas já desmaio, exausto e vacilante,”... e segue em tom derrotista: “Quebrada a espada já, rota a armadura”.... até desaguar na última estrofe em uma realidade que nem mesma a metafísica poderia lhe ocultar... “Abrem-se as portas d´ouro, com fragor/ Mas dentro encontro, só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão – e nada mais!”. Esse pequeno soneto metafísico de Antero de Quental expõe a melancolia e o tédio desse cavaleiro que busca, mesmo já rota a armadura, encontrar em meio às guerras no mundo, um porto seguro de suas dores, e uma recompensa por suas aventuras, mas só encontra, depois de longa jornada pela vida: “Silêncio e escuridão – e nada mais!”. Alguma semelhança com a realidade?

LIÇÃO DE POESIA



Os textos a seguir são de dois dos mais notáveis poetas e críticos literários do século XX. A leitura desses serviu-me de parâmetros para compreensão e entendimento do caráter poético. O primeiro dos textos é de Mário de Andrade, que ajudou a definir os rumos de uma geração, quando ao lado de Oswald de Andrade, deflagrou o movimento Modernista em 22, dando novos contornos e dimensões à literatura e aos comportamentos artísticos do Brasil na década de 20. O segundo é de Ezra Pound, que pode ser sem embargo considerado um dos expoentes da poesia do século passado. Um e outro tinham em comum, além da inquietação e o viço artístico, a preocupação com o desenvolvimento da arte da escrita e pretenderam, como se verá, ajudar futuras gerações. Os excertos foram extraídos, respectivamente, dos livros, Aspectos da Literatura Brasileira e A arte da Poesia.


“O ano de 1930 fica certamente assinalado na poesia brasileira pelo aparecimento de quatro livros: Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade; Libertinagem, de Manuel Bandeira; Pássaro Cego, de Augusto Frederico Schmidt e Poemas, de Murilo Mendes. Todos são poetas feitos, e embora dois deles só apareçam agora com seus primeiros volumes, desde muito que podiam ser poetas de livro. Mas quiseram escapar dos desastres quase sempre fatais da juventude. Se fizeram e fazem versos não é mais porque sejam moços, mas porque são poetas.

Essa me parece uma das lições literárias do ano. Quatro livros de poetas na força do homem. Acabaram as inconveniências da aurora. A poesia brasileira muito que tem sofrido destas inconveniências, principalmente a contemporânea, em que a licença de não metrificar botou muita gente imaginando que ninguém carece de ter ritmo mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra fazer verso-livre. Os moços se aproveitaram dessa facilidade aparente, que de fato era uma dificuldade a mais, pois, desprovido o poema dos encantos exteriores de metro e rima, ficava apenas... o talento. E já espanta, um bocado dolorosamente, esse monturinho sapeca de livros de moços, coisa inútil, rostos mais ou menos corados, excessiva promessa, resumindo: bambochata que não resiste à primeira varredura do tempo.

Devia ser proibido por lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos 25 anos, publicar livro de versos. A poesia é um grande mal humano. Ela só tem direito de existir como fatalidade que é, mas esta fatalidade apenas se prova a si mesma depois de passadas as inconveniências da aurora.(...)”

ANDRADE, Mario de. Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1967, p. 27-28.


“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.

Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.

Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.

Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.

Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.

POUND,Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.

MEUS POEMAS

LUTO

Ando meio dissoluto.
Em tudo na vida reluto,
E, enquanto mais luto,
Vejo-me tanto corrupto.

Já pedir um salvo conduto.
Quem sabe um indulto
Me faz bem menos bruto
E eu possa até dar fruto.

Conquanto os produtos,
Desse ventre tão fajuto
Serão por demais inculto
E darão, na certa insulto.

Não agüento esse furto
Assim sendo faculto
A quem queira frustro
Nem precisa consulto.


9 de fevereiro de 2008.

É PRECISO MUDAR TUDO PARA QUE NADA MUDE.

CANDIDATOS A PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS.

Os noticiários dos últimos dias têm dedicado muito atenção às eleições nos Estados Unidos. A corrida presidencial ao “posto mais importante do mundo”, domina os medias. Jornais, revistas, site e blogues destacam sem parar os episódios que podem decidir o futuro do próximo ocupante da Casa Branca. A nós, que proveito temos, em tanto interessa das mídias no futuro presidente norte-americano? A caminho do posto mais cobiçado do mundo, uma serie de questões, que interessam tanto a eles quanto a nós, estariam no centro de todo esse empenho jornalístico. A julgar pelo que vemos todos os dias e, se é certo que queremos fazer um melhor exame dos presidenciáveis, acreditando que temos interesses em comum, como crê a professora Maria de Aquino, eminência parda dos debates televisivos, estaríamos ai, na verdade, penso, nos enganando redondamente. O projeto americano de nação hegemônica independe do candidato que assuma em quatro de novembro. Uns mais ou menos conservadores não impor, todos asseguram, como bons norte-americanos, seu papel continuista de potência imperialista. Hillary Clinton, John McCain e Mitt Romney, que ainda resiste à disputa, diferem pouco entre si. Barak Obama, o estreante, conquanto pese sua inexperiência, profundamente explorado por seus opositores, usa o discurso reformista e engajado para atrair os eleitores. É inegável que o apelo por mudança nos rumos da política, conduzida até aqui com notável infelicidade por Bush pai, atraia tantos eleitores. Obama é um perfeito self-made man, que subiu na vida a despeito de todas as adversidades e revés. Filho de pai queniano e mãe americana foi criado na Indonésia e fez faculdade em Haverd. Seus discurso carismáticos seguem a tonica de outro líder, também muito popular, Martin Luther King. Porém, mesmo assim, não acredito em mudanças significativas na política de lá para o resto do mundo. O que poderá haver, caso Obama vença, é uma vitória simbólica de ideais. Agora dai até uma mudança significativa em posicionamentos como avanço industrial que mexe com questões ecológicas, equilíbrio na disputa entre judeus e palestinos, imigração latina, e principalmente, tolerância diplomática com o mundo árabes é vê pra crê. O embaraço americano, com as políticas de Bush, manchou a imagem dos lideres dos Estados Unidos e provocou a descrença em prováveis mudanças.

UM RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM – JAMES JOYCE

A história desse livro se confunde com a trajetória de seu autor. James Joyce (1882-1941) contava vinte e dois anos em 1904, quando escreveu um ensaio autobiográfico, para recém fundada revista Dana. O ensaio foi recusado pelos editores, que alegaram não poder publicar aquilo que não entendiam. Na verdade a objeção fio às menções a relações sexuais descrita pelo herói. Seja como for, Joyce resolveu trabalhar na continuidade do ensaio e transformá-lo em livro. Em 1914, dez anos depois, Um Retrato do Artista Quando Jovem chegava às suas páginas finais. Mesmo assim, o livro só veio a ser publicado dois anos depois em Nova York no ano de 1916. No seu primeiro romance, James Joyce descobre que podia se tornar um artista falando sobre o processo de se tornar um artista. No livro seguimos os passos do jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce. Dos primeiros anos de sua vida à juventude libertária. Divididos em cinco capítulos, seus episódios variam na forma e no estilo para ajustar-se às diferentes idades e fases do seu herói. Diverso de tudo o que havia na ficção Inglesa da época, os romances típicos eram os de H. G. Wells e Arnold Benett, Joyce inaugura uma nova fase da literatura. O que nos faz pensar que a literatura escapa aos conceitos fechados e dogmáticos que muitos tentam impor. Seu caráter é sempre o da provisoriedade. Em Joyce a estrutura narrativa não mais se assenta em ações onde o impacto direto de um personagem sobre o outro tece o drama. O que vemos, ao contrário do que ocorria no romance comum, é uma descrição psicológica do personagem, como numa série de retratos e em estágios sucessivos de seu desenvolvimento. Joyce ainda introduziria largamente o uso do monólogo interior que enfatizava as ocorrências psicológicas no personagem. Com isso ele definiu um estilo, seguido de perto por muitos outros tantos autores como, Virginia Woolf e a nossa Clarice Lispector, que não escondia sua predileção pelo estilo psicológico à moda do Irlandês. A história do livro é contada sobre o ponto de vista de uma única personagem, Stephen Dedalus, que se move à deriva no mundo e parece fadado a um destino ordinário e macilento em Dublin, até fazer valer o vaticínio de seu nome e ganhar asas rumo a um novo destino, onde: “Estava destinado a aprender sua própria sabedoria independentemente dos outros ou a aprender ele próprio a sabedoria dos outros vagando entre as ciladas do mundo”. Além dos êxitos literários logrados com o livro, Joyce ainda livrou a literatura de heróis sensíveis. Finalmente, pudemos contar alguma história de emancipação moral e espiritual sem cair naquela pasmaceira romântica. Os cansativos personagens que povoavam as histórias de antanho, onde mocinhos trilhavam rudemente suas vidas e paixões até, que, eram por elas atropeladas, cedeu lugar a uma personalidade autodeterminante. Stephen Dedalus se reinventa. Lança-se em busca de sua aventura de escritor longe de casa da religião e de seu país. Rebela-se contra seu destino e tece sua própria trama. Uma lição e tanto para esses tempos, onde a vida passou a ser conduzida arbitrariamente, a revelia de seus entes, aos ditames da moda.

Nelson, de volta

Críticas positivas, relançamento de seus livros, campeão de apresentações no Brasil e encenações inovadoras no mundo inteiro, enfim, o prestígio atual de Nelson Rodrigues confirma o que eu sempre tive certeza: de que ele é um extraordinário criador.

Especialmente para

Nelson Vinicius Rodrigues

Desde que eu bati o olho nos quatro volumes do Teatro Completo de Nelson Rodrigues (Edit. Nova Fronteira), e acompanhando as resenhas magistrais do Prof. Sábato Magaldi (da Academia Brasileira de Letras, se é que isso confere alguma importância a alguém), o juízo favorável que fiz de Nelson nunca permitiu que eu o abandonasse, nesse tempo todo. Durante anos, passei pregando no deserto, mas a fortuna crítica desses últimos dois meses atesta o que alguns de meus inimigos debilóides nunca quiseram ver: que Nelson é um monstro sagrado não apenas de nossos palcos, mas de nossa literatura.

Fui duramente criticado, atacado, menosprezado por determinadas pessoas que estranharam em mim o gosto por alguém do “perfil” de Nelson. (“Aquele chato”, “aquele tarado”). Espero que agora, elas abandonem esse mar de ignorância e pulem para meu barco. O sucesso do “maldito” Nelson não existe porque eu quero, não foi uma coisa que eu inventei para justificar meu pensamento. Ele existe porque existe – independente de minha vontade. Eu só faço reconhecer. É o que Nelson mesmo chamaria de “óbvio ululante”. O óbvio que nem todo mundo que se diz pensar pela própria cabeça, enxerga.

Possuo três materiais recentes que garantem a importância e a perenidade do dramaturgo e jornalista. O primeiro, a edição especial da revista EntreLivros – Teatro Essencial. Dos gregos, passando por Shakespeare, por Molière até nossos autores modernos, como Mauro Rasi e Miguel Falabella, Nelson mereceu um capítulo especial, assinado por Marici Salomão. “De reacionário e obsceno a unanimidade nacional”. Aclamado desde os anos 40 ao escrever o hoje clássico Vestido de Noiva, diz ela, N.R. viveria nas décadas seguintes dias de glória, censura e fracasso. Após o período de ostracismo, é agora o autor mais encenado nos palcos do país e considerado o mais importante dramaturgo nacional. Além do texto primoroso, Denise Mota, em “A grande transgressão” explica aos iniciados por que Vestido de Noiva foi um marco, e, dessa forma, modernizando nosso palco. O texto de Marici é enorme, não tenho como reproduzir aqui. Ontem, tive outra surpresa. VEJA, em sua seção VEJA Recomenda, publicou uma única resenha de livro. Trata-se de A Cabra Vadia, supostas entrevistas que ele fazia com gente que tinha determinadas posturas, na década de 60. A Agir está publicando, aos poucos, toda sua obra não-teatral, outrora pertencente a Edit. Cia. das Letras, que não renovou a publicação das obras dele e eu já estou sabendo que ela será a responsável pela publicação de escritores como Jorge Luis Borges e cogita ter em seu catálogo as obras de outro Jorge, Amado. A Agir está pondo nas livrarias edições caprichadas de Nelson. Comprei Elas Gostam de Apanhar e vale quanto pesa. É um prazer ver uma editora nessas condições apostar na inteligência e na contundência feroz de Nelson. Diz VEJA: (trechos) “Celebrado como o dramaturgo que renovou o palco brasileiro com Vestido de Noiva, N.R. foi também um grande cronista, ao mesmo tempo conservador e irreverente. (...) O cronista está em sua melhor forma, debochando dos intelectuais de passeata (...)”. O valor do livro: R$ 54,90. Creio que dentro em breve, esse valor abaixe um pouco. Mas os admiradores de Nelson não questionarão o detalhe do preço, sabem que estão levando para casa algo de importância inestimável.

Vamos agora ao texto que mais me impressionou. A dramaturgia de Nelson no mundo. Uma reportagem de 4 páginas da conceituada Bravo! (mês de janeiro). “Subúrbio Globalizado”, por Carolina Braga (de Barcelona, Espanha). O texto traz peças de Nelson que serão representadas (ou foram, recentemente) de maneira altamente inventiva, com atores estrangeiros e diretores idem. Senhora dos Afogados, por exemplo, foi representada ano passado em Londres. (Our Lady of the Drowned). O resultado da encenação foi sucesso de crítica, apesar de o público ter se dividido entre amor e ódio. Sabemos que o diretor faz da peça o que bem entende. E Kwong Loke pôs uma parede de plástico no centro do palco, para dar ênfase ao plano alucinatório do texto mítico. Em 2004, em Luxemburgo, franceses, portugueses e ucranianos apresentaram O Beijo no Asfalto (Le Baiser L ‘Asphalt). Em 2005, Valsa n. 6 foi encenada na Inglaterra, por Franko Figueiredo. “É algo que pode ser apresentado em qualquer lugar do mundo”, diz ele. Além da Inglaterra, essa peça teve uma montagem na Bélgica e duas na França.

Para a pesquisadora Ângela Leite Lopes, (que mudou-se para Paris para escrever sua tese de doutorado em cima do teatro rodriguiano), autora de Nelson Rodrigues: trágico, então moderno, “o que atrai o interesse estrangeiro para as peças dele é o domínio que o autor tem da carpintaria teatral”. “Para um diretor, o mundo fantástico e imaginário das peças de N.R. sempre oferece grandes possibilidades no palco”, é o que fala Kwong Loke, que quer levar Toda Nudez será castigada a Londres. Franko Figueiredo foi convidado a levar sua companhia, a “Caramel Box” em 2009, e Valsa n. 6, para o Japão.

Isso tudo é o mínimo. Muita coisa boa está acontecendo com o legado de Nelson Rodrigues e eu ainda não estou a par. Trata-se, em última análise, da importância universal de um grande autor, “pornográfico”simplesmente, para muita gente e gênio para os poucos que entenderam sua alma inquieta e gigantesca.

NAVEGANTES AO MAR RECOMENDAM:

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Toda Nudez Será Castigada, na montagem do “Armazém Companhia de Teatro”, RJ, na apresentada no dia 07/07/2007, no “Teatro Dom Silvério” do Chevrolet Hall, Belo Horizonte.

Por Teo

Como teatro é minha grande paixão, vou indicar cinco das peças que mais me marcou, de cinco gigantes do teatro brasileiro.

1. TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (1965), Nelson Rodrigues

Depois de ficar viúvo da única mulher que amou na vida, o milionário Herculano passa a viver um grande dilema: a paixão avassaladora pela escachada Geni, provavelmente a prostituta mais célebre da dramaturgia brasileira. Os problemas são o irmão, um parasita que vai chantagear a moça – já sua conhecida – a tirar proveito da situação, um filho adolescente fresco, que vingará o pai porque nunca permitiu que este se relacionasse com mais ninguém e as tias (sempre elas), que no teatro rodriguiano só servem para pôr mais lenha na fogueira. Só na cabeça de um Nelson Rodrigues uma história dessa dimensão poderia ser tão extraordinária. “Toda Nudez” é uma de suas obras-primas. Adaptado para o cinema em 1973, fez com que d. Darlene Glória fosse mundialmente conhecida, no papel de Geni. É o filme mais lembrado de Arnaldo Jabor e segundo a crítica, a melhor versão de Nelson para as telas. José Lino Grunewald escreveu, à época, uma crítica em que era plenamente favorável ao filme, embora lamentasse os cortes impostos pela censura. Memorável.

2. DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA (1967), Plínio Marcos

Imagine aí dois camaradas completamente diferentes, arruinados, lascados, que são obrigados a dividir o mesmo quarto, de quinta classe. O problema é que eles se odeiam e as chantagens, as pirraças, as agressões provocarão as reações mais surpreendentes. E em se tratando de outro maldito, Plínio Marcos, já se sabe que vem encrenca por aí. Escritor do submundo, dos marginais, recebeu maior influência de Nelson Rodrigues, a quem Plínio considerava “um poeta do teatro”. Um par de sapatos, um alicate etc., serão quase que protagonistas dessa peça de apenas 2 atos. O texto, porém, é muito mais vigoroso do que o filme homônimo, que trouxe Débora Falabella e Roberto Bontempo, como os protagonistas, arruinados (e nos Estados Unidos). No texto original, moram numa espécie de periferia e são, repito, dois homens, Paco e Tonho.

3. O BEM-AMADO (1968), Dias Gomes

O maior dramaturgo baiano consagrou-se com a excepcional “O Pagador de Promessas”, grande sucesso do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1960. Mas as histórias da lendária Sucupira e do inescrupuloso Odorico são de rolar de rir, o que me obriga a incluí-la nessa lista e é, na minha opinião, o melhor texto do teatrólogo, morto em 1999. Ferreira Gullar assina um prefácio magistral na edição publicada pela Ediouro. Além desse texto, uma introdução do próprio Dias, explicando que imaginou essa “farsa-patológica” em 9 quadros, depois que leu no jornal uma reportagem na qual um político qualquer prometeu que inauguraria um cemitério de andar. Em Sucupira, o prefeito está doidinho para inaugurar um, mas o problema é que não morre ninguém. Quando se descobre que nas redondezas há um sujeito nas últimas, todo o esforço é válido para que a obra finalmente saia. Ninguém deve morrer sem ler “O Bem Amado”. Virou novela e seriado, na Globo. Quando a direção achou que a história já havia cansado (de 1980 a 1985 no ar) e que teria de acabar, Jorge Amado enviou um telegrama diretamente a Roberto Marinho, para que ele reconsiderasse. Não teve jeito.

4. AUTO DA COMPADECIDA (1956), Ariano Suassuna

Ariano Suassuna se ressentia da “Compadecida” ser conhecida do grande público somente depois de virar filme, em 1999. Ela existia há 40 anos. A malandragem, a esperteza, a ingenuidade dos sertanejos estão retratadas nas figuras de Chicó e João Grilo. Protestante convertido ao catolicismo, Ariano via uma beleza magnífica na fé católica, mas não poupou a Igreja de seus abusos, como na disputa do padre contra o bispo, por dinheiro. João Grilo passará pelo julgamento e topará com Jesus de um lado e o Diabo, do outro. O personagem entre a cruz e a espada. Uma sátira à usura, à hipocrisia e à bajulação aos poderosos, representados na figura do coronel Antonio Moraes. Henrique Oscar, crítico, conta que o mérito do autor nesta peça foi “elevar o regional, o local ao universal”. É baseada na cultura popular, “nas histórias que o povo conta” (cordéis), mas o dramaturgo paraibano recebeu influências de Plauto, Gil Vicente, Lope de Vega etc. Coisa finíssima.

5. O BOI E O BURRO NO CAMINHO DE BELÉM, (1953) Maria Clara Machado

Nossa maior autora teatral infantil. Entre suas grandes peças, eu aponto “A bruxinha que era boa” e “O Rapto das cebolinhas”. Ela dá o encantamento que toda criança necessita. Todos os grandes críticos que li a engrandecem. De seu teatro, o “Tablado” saiu muita gente de peso. Essa historinha deve ser representada no Natal. O boi e o burro, nessa “farsa-mistério” em 1 ato, se apavoram, ao constatarem que no lugar imundo onde estão, descerá o menino Jesus. Os dois, às pressas, vão organizar o ambiente para receberem o Menino com a dignidade que eles podem dar. Napoleão Muniz Freire, nome de alto relevo de nosso teatro, participou como o Pastor. O deslumbramento é intenso apenas lendo. Vista, então, deve ser encantadora. O pano cai com “Noite Feliz”. Emocionante e divertida sem ser superficial.

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5 POR 4

Navegantes ao Mar convida 3 de seus mais ilustres colaboradores, para elencarem 5 obras que, mudaram sua relação com a literatura e com o mundo. Adiantamos que essa é tarefa para cardíacos. Quem ama literatura, dificilmente restringe, a um rol tão pequeno seu gosto pessoal. Disso todos sabemos. Porém, mesmo difícil essa não é tarefa impossível. Há sempre um lugarzinho especial para esse ou aquele autor em nossa vida. Com isso pretendemos conservar acessar ou botar a prova nossa relação com essas cinco obras. Quem sabe elas não se mostrem efêmeras ou, pelo contrário, mais vivas do que nunca, quando olharmos para essa enquête daqui a alguns anos. Para tanto, elegemos como juiz de nosso teste o melhor e mais sábio dos julgadores, o tempo. Esse senhor que nasce conosco e segue-nos até o fim. O primeiro há escrever suas cinco obras fundamentais é meu amigo e irmão Teo Júnior. Os outros, Teo Poeta e Eudes Marciel julgarão a sua própria hora de contribuírem para o site. Muito obrigado a todos.

A volta da voz despida de João Cabral de Melo Neto


Em que pese o seu proverbial apego a razão consciente na hora de fazer poesia - algo profundamente estranhado por quem só conhece os lacrimosos versos de um poeta romântico- a obra de João Cabral de Melo Neto, volta a ser reeditada, dessa vez pela editora Alfaguara. Já não era sem tempo. Desde a partida do nosso maior poeta, em 1999, apenas algumas edições de Morte e vida Severina e outro poemas para vozes, haviam sido editados, pela detentora dos direitos de publicação, a editora Nova Fronteira.

Agora, desse segundo semestre até o ano que vem as livrarias de todo Brasil terá novamente em suas prateleiras os versos pungentes e corrosivos do autor de Uma faca Só Lâmina. O primeiro dos títulos, que abre a série, já está nas livrarias, e se intitula O Artista Inconfessável. Um decalque do título de um de seus poemas do livro Museu de Tudo, obra de 1974.

Trata-se de uma reconha (já que não existe nada inédito na obra do autor) dos poemas que “mostram uma faceta mais familiar e intimista” do poeta; anuncia a orelha do livro. Nada mais irônico. A vida inteira João Cabral lutou por enxugar da poesia os excessos subjetivos que a tradição romântica popularizou. Isso lhe valeu, erroneamente, o título de poeta hermético, árido, e outros tantos adjetivos equivocados. O que de certa forma denuncia, a meu ver, certo estado de comodismo e inércia de alguns leitores, que não souberam reconhecer que a poesia de João Cabral, além de rica é desafiadora.

Seu talento, posto a prova, contra o servilismo dos que só fazem poesia inspirados por uma voz inconsciente, alargou as fronteiras do oficio poético, ao assumir o desafio maior de fazer poesia à contra pêlo, “seu perfumar a rosa e sem poetizar o poema”. Obra de quem vive inteiramente seus ideais e convicções intransigentemente, para bem de seu oficio.

FILHOS, CONFORMEM-SE: SEUS PAIS NÃO FORAM PIORES DO QUE O DE FRANZ KAFKA


“Acho Kafka mais difícil de ler do que Joyce”. O comentário poderia intimidar a uns, menos a mim, por mais que tivesse partido de Paulo Francis, em seu “Diário da Corte”. Acabei de ler um dos textos mais significativos e agradáveis da literatura mundial, embora o autor não tivesse a pretensão de ser uma carta particular dessa um escrito literário – e, por isso mesmo – fascinante. Trata-se das “Cartas ao Pai”. Foram 50 folhas escritas no espaço de dez dias. É um texto pequeno. Transformado em livro, juntamente com pequenas biografias, posfácio etc., não chega à página 100.

Eu paro um momento e começo a olhar pra Kafka, na foto da primeira orelha. Para os padrões de 1924, até que não era de se jogar fora. Aquelas orelhas emborcadas lhe conferiam um certo, digamos, charme. Mais parecia um menino carente e sofrido. Antes de ler o livro, pensei olhando sua foto: “Não deve ter faltado mulher pra esse cara”. Pois não faltou, mesmo. Duas moças topariam se casar com ele, no duro, caso a besta do pai dele permitisse.

Alguns podem achar ser esta uma carta rancorosa. Não parece. É toda a verdade e todo o cinismo do pai demonstrado de maneira sucinta e didática. Um texto leve e muito bem escrito. Estranha, porém, a maneira como ele se refere ao pai, sr. Hermann Kafka. Ora “querido”, no início – mas no decorrer da carta, sempre “você”. Kafka chega a dizer que se sentia um mané perto do pai. “Da sua poltrona você regia o mundo. Sua opinião era certa, todas as outras extravagantes”. Bruto, irônico, com um humor cáustico, a personalidade do pai é traçada em pormenores que prendem o leitor do começo ao fim. Humilhou-o, porém, uma atitude do pai: um belo dia, este jogou-lhe na cara que outrora havia passado privações, que trabalhara dia e noite, para dar-lhe um sustento digno, enquanto Kafka desfrutava desse trabalho, “vivendo à larga”. É duro ou não é?

Medo – Toda a carta fala do medo que Kafka, desde cedo, sentia e que o acompanhou por toda a vida. O pai sabia disso e quis descobrir a razão. A resposta está logo nas primeiras folhas. Talvez a grossura do pai quisesse transferir a ele segurança. “Você só pode tratar um filho como você mesmo foi criado, com energia e cólera. (...) Nesse caso, isso lhe parecia adequado, porque queria fazer de mim um jovem forte e corajoso”. Resta agora saber se isso foi bom para o filho. Os pais geralmente fazem as piores m... acreditando serem atitudes excelentes aos filhos. Só que não são coisíssima nenhuma.

Vergonha e casamento – Proprietário de uma loja, o patriarca tratava a todos os empregados – sem exceção – como cachorros pulguentos. “Isso muito me envergonha”, escreveu o filho. A capacidade de sentir a dor do outro o fazia sofrer. Foram inúmeras ocasiões em que o pai expôs Kafka às decepções, muitas vezes em público. Pois bem: Kafka achava que um homem tem de ter mulher e filhos e sossegar. Engraçou-se com duas moças. Noivou, desnoivou, ficou com outra, gostou de uma outra etc., mas o pai jamais quis um casamento. Outro dia, esse bronco ofendeu uma de suas noivas porque ela era de condição inferior à deles. “As duas moças foram de fato escolhidas por casualidade, mas extremamente bem escolhidas”, Kafka disse.

Como meu “pai” Nelson Rodrigues, o grande escritor fora tuberculoso, internou-se num sanatório e lá mesmo morreu, com 40 anos de idade. Vale a pena conferir sua obra, das mais inquietantes da literatura universal, como “O Processo” e “A Metamorfose”. O único sentimento que tenho é saber que a carta jamais fora enviada, por razões até hoje no campo das hipóteses. Faleceu em 1924 e seu túmulo se encontra num cemitério judaico em Praga, capital de República Tcheca e ponto final.

Lira dos Oitenta e Cinco anos

No último dia 16 o escritor português José Saramago completou 85 anos de vida. Na esteira das comemorações sopramos ainda velinhas para os 25 anos da publicação de Memorial do Convento (1982) livro que tornou o escritor um nome incontornável.

Esse fato passou despercebido por nossos antenados cronistas literários, que não deram uma nota sobre o aniversário do até hoje único autor em língua portuguesa, ganhador do prêmio Nobel de literatura. E lá se vão nove anos.

Seria esse fato um simples lapso ou uma demonstração de desprezo pela obra do mais original e criativo escritor da atualidade? No Brasil, aparentemente, o autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, sempre gozou de muito prestigio. Apesar de muitos críticos possuírem um olhar enviesado, para o modo pessoal e intransigente com que Saramago trata sua obra.

Saramago, por exemplo, não permite “traduções” do português, habitualmente praticado em Portugal, para o português do Brasil. Sua escrita, para preservar certa oralidade não se vale dos parágrafos e pontuações comuns em todos os textos. As falas dos personagens se entranham em meio a narrativa, distinguidas só por iniciais maiúsculas. Salvo os devidos excessos isso não é um grande empecilho a leitura de seus livros, sempre carregados de muitas reflexões sobre o mundo atual.

As queixas dos críticos contra a forma estilística adotada por Saramago não rendeu do público o mesmo espanto. Mas valeu do autor certo estranhamento de como o exame de sua obra está sendo superficial. Não raro essas querelas desviam o espírito das discussões verdadeiramente mais valiosas e tendem, erroneamente, a manter o público ainda não leitores do autor, numa distância respeitável.

Quem, no entanto, teve o prazer de lê-lo sabe que o que realmente vale em sua obra é o espírito inconteste, e permanentemente viçoso de seu questionamento à ditadura da normalidade. Suas obras alertam sempre para algo suspeitoso e fingido das instituições, dos homens, da moral e do encolhimento perante o alheio.

Saramago continua essencial e seus livros são incontestavelmente a centelha de lucidez em meio à loucura desse mundo.

Em arte toda revolta é um ato de inteligência

[Em cima: A Virgem Castigando o Menino Jesus perante três Testemunhas: A. B. (André Breton), P. E. (Paul Éluard) e o Artista (1926), de Max Ernst.]

Os primórdios do cinema



Os irmãos Lumière

Quando os irmãos Lumière transformaram uma rudimentar máquina fotográfica em uma câmara de vídeo, no final do século XIX, eles não imaginavam que estariam criando a maior invenção do século.

O cinema nascia assim, da despretensiosa curiosidade e inventividade de dois irmãos franceses, que desacreditaram desde o inicio do futuro de seu novo invento. Auguste e Louis Lumière foram os precursores, mas o cinema só passou a ser entendido como arte, quando o talento prestidigitado de Georges Méliès (1861-1938) entrou em cena.

Pioneiro na recriação de cenários, figurinos, maquiagem, Méliès, opõe-se ao documentarismo e faz as primeiras obras de ficção: Viagem à Lua, A Conquista do Pólo. Ainda, descobriu as potencialidades de (re)crição oferecidas pelo cinema. De repente, o homem passa a ser mais do que ele é mesmo e ganha os céus. As fronteiras para qualquer ação passam a ser então os limites da imaginação com que cada homem é dotado. Orientado na busca de mundos fabulosos, até então inacessíveis, o talento de Méliès, unido a invenção dos Lumière nos dar a possibilidades de romper fronteiras na exploração de novos mundos. Mas tarde passaríamos a explorarmos a nos mesmo. Tudo isso graças a uma idéia na cabeça e uma câmara na mão.

De pequenos documentários e ficções a linguagem cinematográfica se desenvolve, criando estruturas narrativas cada vez mais apuradas. Deve-se ao norte-americano David W. Griffith (1875-1948), essas inovações. Por suas contribuições ao cinema, ele é considerado o criador da linguagem cinematográfica. Griffith deu mobilidade às ações até então teatrais demais na tela de cinema. Foi ainda o primeiro a utilizar a montagem paralela, os close, que davam mais dramaticidade e suspense na hora de contar uma história utilizando-se apenas imagens.

A esses homens maravilhosos é suas máquinas devemos toda tradição do cinema. O que se produziu em seguida, as inovações posteriores, não seriam nada sem o talento, a imaginação, a criatividade e a ousadia desses pioneiros.

A IMPRENSA DESCARADA


A melhor revista brasileira em circulação, de longe é VEJA. A pior, Época. Mais uma vez essa publicação dá destaque a um funcionário, Luciano Hulk. Não bastasse Sandy e Jr., Vera Fisher etc. Só lembrando, Época pertence a Globo e já superou ISTOÉ em tiragem, mas não em qualidade. Não é uma leitura recomendável. Revista panfletária e idiota. Esse tipo de bajulação, e de notas que não são notícia, nem nada, que não interessam a ninguém que pense, não ficam a dever com essas revistas de sacanagem, de vigésima categoria.
Na semana em que morreu o ator Paulo Autran, foram anunciados os ganhadores do Nobel, “Tropa de Elite” foi sucesso antes mesmo de estrear no cimema, e, estreando, arrebentou – a capa de
Época é justamente o furto do relógio de Luciano Hulk. A quem interessa isso? Será falta de assunto? A bandidagem está aí para vitimar todo mundo. Pobre ou rico. Quem, num assalto, tem a sorte de só ser furtado deve dar graças a Deus. É o tipo de “jornalismo” oportunista, que, aproveitando de uma situação tão banal, não perde a chance de elevar a categoria social de determinadas pessoas, que pouco ou nada influenciam para a cultura do Brasil.
Triste.

Autran em seu último trabalho, "O Avarento" (Foto: Folha Online)


A CULTURA TAMBÉM COSPE

Dedico este texto a uma grande influenciadora, que já me emprestou tanto material, tanta revista.. não posso me esquecer dela, Luciene Aguiar Oliveira.
Alô? Aqui é Teo. Com esse espaço a meu inteiro dispor, é com tristeza que escrevo sobre o passamento do maior ator deste país, Paulo Autran, 85. Morreu há exatas 3 horas. Li o óbito, assinado pelo Dr. Riad Younes. Dele (Paulo) pode-se dizer o mesmo que se disse sobre um jornalista de renome da society carioca, finado Zózimo Barrozo do Amaral. O editor disse assim: “Morreu o jornalista que tratava a todos bem, mas se tratava mal”. Zózimo fumava muito, morreu de câncer. O mesmo problema de Autran. Creio que no trato pessoal, Autran tratasse muito bem as pessoas, quero dizer, o público, com sua interpretação que foi uma glória para o Brasil. Seu talento já era uma forma de cortesia para com aqueles que o valorizavam, como eu. Infelizmente, não tive a oportunidade de vê-lo representando. Paciência. A última peça dele é um texto que já li, de uma tal Edições Jakson – antiqüíssima – chamado O Avarento, comédia do francês Jean-Baptiste Molière. Foram, ao que me consta, 90 peças feitas. Participou também de um dos mais discutidos filmes brasileiros, do nosso amigo Glauber Rocha, Terra em Transe, com Danuza Leão, sra. Wainer. 1967, salvo engano (confirmem para mim, por favor). Mas suponho que ele fazia pouco da sua carreira na televisão e no cinema. Paulo Autran amava, de verdade, um palco, o que já serve de estímulo para pessoas como eu.
Não estamos em condições de perder, sem mais nem menos, gente como Paulo Autran. A cultura do Brasil já é uma coisa tão rala, tão pouca, tão... que é o cúmulo perdermos um mestre como ele. A passagem no panorama da cultura nacional, ou melhor, de um pepino que houve há mais de 40 anos, envolve seu nome.
Não foi qualquer mal-entendido. Foi uma baixaria que marcou uma geração. Ele pertencia a uma companhia, chamada Tonia-Celi-Autran, e ele não ficou prestando quando Paulo Francis começou a espinafrar por escrito d. Tonia Carrero, esposa de Celi. Isso porque Autran era extremamente ligado aos colegas, e não admitia que uma dama, uma amiga, fosse tão violentada daquele jeito. Tonia, coitada, fazer o quê? Autran, e Celi compraram a briga e o pau comeu. Os três resolveram os ataques no tapa. Paulo Autran cuspiu tudo o que tinha, na cara de Francis e jamais se falaram. O jornalista disse mais tarde, num gesto de extrema nobreza, que se arrependeu das críticas, pois elas atingiam a pessoa Tonia Carreiro e não a atriz. Na época dos artigos, alguém foi falar a Francis: “Mas, meu amigo, Tonia tem uma beleza de primeiro mundo”. De fato. Tonia era lindíssima. Francis retrucou: “Uma beleza de primeiro mundo, mas um talento de quinto”. Essa foi das menores. Só não escrevo as que eu sei aqui porque não é necessário. Igor Luzz chamaria de “constrangedor”.
Está provado então, que a cultura também cospe, provavelmente também feda, também faça xixi, também vomite tal e coisa.
Paulo Autran deixou um país mais pobre, com sua morte, e nós, amantes do teatro (do seu teatro) sentimo-nos como se estivéssemos perdendo alguém próximo a nós, um professor de cabelos já grisalhos e ranzinza, mas sempre apostando na determinação dos alunos, de rapazes novinhos, bobinhos e inexperientes de teatro, da vida e de tudo. Mas estes sempre sonhando com uma posição.
Boa noite.

POR QUE ÍGOR NÃO ME SUPORTA?

Porque ele não admite concorrência. Eu jamais – em minha modéstia – quis ser empecilho para ninguém. Nunca fui de confrontar nem de subestimar a condição intelectual do meu próximo ou do meu distante. Isso não é de meu gosto. Muito ao contrário. Quando não sei sobre determinada coisa, paro para ouvir quem sabe. Admiro quem tenha algo a passar, mas a arrogância intelectual é inadmissível sob qualquer hipótese.
O “grande gênio” – O grande problema de Igor, suspeito, é que ele sofra de complexo de inferioridade, ele deve ter algum trauma, ainda não descoberto. Daí sua necessidade de se auto-afirmar, ofendendo o outro sem dó nem piedade. Ele despreza tudo, sem ter a mais vaga noção do que se trata. Acha-se um gênio quando na verdade não passa de um cretino de botequim. Não sabe nada, não entende nada. Em minha opinião, Igor não deveria manifestar-se sobre coisa alguma. Ele cortou relações comigo (imaginem, logo eu!) porque se julgava o detentor absoluto da informação e da cultura, quando na verdade a “cultura” que ele tem qualquer pessoa também dispõe. Igor não deve ser levado a sério porque: ataca, sem nenhuma consistência autores que ele nunca leu, menospreza os verdadeiros artistas, enaltece os menores etc. etc. Esse tipo de gente, que só sabe malhar, jamais vai deixar algo que preste. Igor opinando não é boa coisa, porque seus preconceitos são potencialmente nocivos e nada do que ele diz soa como interessante. É uma pena. Igor tinha tudo para ser uma pessoa destacada, inteligente. Tem informação, mas ele não sabe como processá-las. Conhece obras-primas do cinema, mas não entende o sentido delas. Despreza produções brasileiras, sob o argumento simplório e imbecil de “tudo ó que é produzido no Brasil não presta”. Pode isso?
Em termos de arte, creio que o Brasil produziu consideravelmente. A música é o melhor exemplo. Esse coitado chamou Caetano Veloso de “ignorante”. Trata-se de, ninguém menos que o rei da música brasileira. Igor não tem a milésima parte da décima parte da cultura de Caetano. Vanessa da Mata gravou recentemente Eu sou neguinha?, anteriormente gravada por Cássia Eller. Já que você é tão extraordinário assim, meu caro e ex-amigo, desafio você a escrever qualquer coisa e dar a qualquer cantor de brega, para ver se ele grava. Estou aguardando. Você é tão extraordinário para escrever? Escreva logo o seu livro e mande para a Editora Companhia das Letras, para eu conferir se eles terão a coragem de publicar qualquer coisa sua. Igor chama as pessoas de “burras” aleatoriamente – e elas aceitam, e já me chamou de “nordestino de fé em Deus”, como se isso me rebaixasse de alguma maneira.
Eu tenho a impressão de que o conhecimento de Igor seja mesmo o de enciclopédia. Explico: A pessoa vai lá ao autor fulano de tal, lê a pequena biografia, confere a fotinha para ver se é ela mesma, tira uma citação do nada e a reproduz, dando a impressão de que leu toda a obra ou, pelo menos, todo um livro desse autor. Esse tipo de gente passa por inteligente brincando... E eu acho bom ter cuidado com elas. Perigo.
Uma das coisas das quais mais me orgulhou até hoje foi demonstrar meu conhecimento e não esconder minhas ignorâncias em determinadas coisas. Não há nada demais em não conhecer tudo. A gente vive aprendendo. Não sei quem é fulano, mas quero conhecê-lo. O imbecil não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe. Igor me confunde com um deles. Eu tenho muito mais chance de crescer do que Igor por vários motivos. Primeiro: vou-me embora para Pasárgada. Vou morar numa metrópole e ter acesso a tudo. Igor vai permanecer em Vitória da Conquista, sertão da Bahia. Não creio que ele queira ir para outro canto. Tenho chances de crescer, pessoal e intelectualmente, porque oportunidades para batalhadores como eu não faltarão jamais. Igor é uma pessoa sem perspectivas, “cansada por natureza” que “cultiva o ócio criativo”. Qual criatividade tem na preguiça de Igor?, pelo amor de Deus?
Finalizando e reiterando: Igor não questiona. Igor ataca. Igor não opina fundamentando em fatos, algo com substância. Igor julga sem ter base. Critica o que conhece e o que não conhece. Algumas pessoas chamam para uma discussão, analisando o que efetivamente se verifica. Igor rebaixa. Algumas pessoas fazem críticas construtivas a alguém, para que estas cresçam. Igor humilha. Conheço autores que Igor não tem a mais vaga noção de quem sejam, e tenho a liberdade de discordar dele quando julgo necessário. Isso é independência. Não engulo as teorias burras dele e não faço concessão a ninguém que eu vejo que não merece. É por isso – só por isso – que Igor cortou relações comigo. Waaal!

O FILHO DO ANJO

A partir dessa semana Navegantes ao Mar passa a contar com a parceria ilustra de um grande amigo e dedicado companheiro. Teo, o filho mais novo de Nelson Rodrigues. Uma pena que seu pai não teve tempo de conhecê-lo, ele teria orgulho.

Sua prosa límpida e sem floreios são as marcas mais evidentes de um grande leitor. A foto acima de sua biblioteca não me deixa mentir. Apaixonado por literatura, jornalismo, artes cênicas e música ele vem somar esforços em cria um espaço para opiniões, e discussões sobre esse universo.

A leitura de seus textos pega na veia pela sinceridade e grau de informação. Ele é o que poderíamos chamar de uma pequena enciclopédia ou um almanaque. É, sem dúvidas, uma fonte de grande conhecimento para todos, que têm o privilegio de contar com sua amizade e companheirismo.

O ensaio abaixo foi só o começo. Nele já podemos perceber uma de suas inúmeras idéias fixas. Nelson Rodrigues é sua grande influência. Podemos esperar bons textos sobre esse homem tão marginalizado e ainda tão incompreendido. Teo nos dará as coordenadas para interpretação criteriosa e sem preconceitos do universo rodrigueano.

NELSON RODRIGUES: PORNOGRAFANDO E SUBVERTENDO (*)


Não vou teorizar mais sobre sua vastíssima obra e sua personalidade ímpar, já que seu nome é um dos mais folclóricos do Rio, cidade que o acolheu e assassinou seu irmão, e sim falar da paixão que sinto por ele e explico: Ninguém precisou me falar que ele era o maior teatrólogo do país. Eu mesmo descobri lendo (e relendo) suas peças. O gigantismo de sua literatura foi apresentado no 4º. e último volume do Teatro Completo – Tragédias Cariocas 2, onde o organizador, Sábato Magaldi (da Academia Brasileira de Letras), além de ter resenhado todas as peças separadamente, reuniu tudo o que se escreveu sobre a morte de Nelson, no fim do ano de 1980, menos de 15 dias depois da morte de Jonh Lennon. Apaixonei-me por todos os depoimentos – veiculados nos seus respectivos jornais – e ali reproduzidos com total exatidão – e pela forma carinhosa com que falavam sobre o morto recente e como aquela geração de brilhantes jornalistas iria sentir a falta da inteligência pulsante de Nelson. Como se acostumar, sem a força de seu talento? Um deles, não me recordo qual, disse se tratar do “maior dramaturgo brasileiro e um dos mais importantes do mundo”. Carlos Heitor Cony lembrava a dificuldade de Nelson, em seus últimos dias, de adoçar a xicrinha de café. Ele escreveu: “Como a natureza é capaz de dotar certos homens de tanta inteligência, e ao mesmo tempo dar-lhe uma saúde tão débil?” O grande Tristão de Athayde falou da inimizade que nutriram e o reencontro três anos antes. “Zuenir Ventura é testemunha do calor com que nos abraçamos. Esse foi um dos dias mais felizes de minha vida intelectual e pessoal”. De Nova Yorque, Paulo Francis dizia que “para os célebres, é bom morrer no Brasil. O morto passa a ser canonizado”. “Não temos tanta gente assim”
Persegui a vida e a obra desse homem por muito tempo e li tudo o que escreveram dele. Pesando os prós e contras, saibam que o resultado é bastante positivo. Além de brilhante teatrólogo, foi o maior cronista do cotidiano e também esportivo de qualquer época. Sobre essa última, suas hipérboles para comentar a simples atitude, a presença de um jogador no campo, são magistrais. Em 1970, a Seleção fora desacreditada para o México, depois da vergonhosa derrota em 1966. Nelson foi um profeta. “O escrete brasileiro voltará campeão do mundo”. Dito e feito. O Brasil ganhou o tricampeonato e Nelson resumiu a alma de toda uma nação vitoriosa. “Somos 90 milhões de reis. O bêbado caído na sarjeta é um rei. As datilógrafas, as colegiais, todos somos reis.”
Além disso, convém dizer que, como Shakespeare, foi um imenso poeta. Não simplesmente um escritor de fatos corriqueiros e banais. Ninguém soube separar o amor das outras bobagens, do que ele. Não interessa a ideologia. Não interessa se hoje ele pode parecer demasiado conservador. O que vale é a profundidade de seu raciocínio e suas certezas definitivas. O homem que era contra a educação sexual (“educação sexual deve ser dada pelo veterinário a bezerras, vacas, cabritas...”), contra a pílula, contra a nudez gratuita, a favor da castidade (esse que era o “grande tarado”...) afirmou, certa vez, o seguinte: “Todo amor é eterno. Se acabou, é porque não era amor. O verdadeiro amor está para além da vida e da morte. Por isso, estou certo de que a pior forma de adultério é a viúva que se casa de novo”.
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(*) Na verdade, esse título é uma compilação de
um livro dedicado a outro grande teatrólogo
- e também maldito – Plínio Marcos, enormemente
influenciado pela obra rodriguiana.

CRÉDITO DA FOTO:

ENTRE PARES
Nelson Rodrigues (de gravata), passando o tempo com Vinicius de Moraes e Otto Lara Resende: “O amigo é um momento de eternidade”

Enquanto o nosso não vem


Dia 11, próxima terça-feira, a academia de Estocolmo anunciara ao mundo o mais novo ganhador do Nobel de Literatura. Uma das minhas próximas leituras, Philip Roth, está no pário.

Encabeçam ainda a lista Don DeLillo, Amos Oz, e o peruano Mario Vargas Llosa. Minha torcida é a favor do autor de A Guerra do Fim do Mundo.

Mario Vargas Llosa construiu uma prolífica carreira literária e uma vigorante carreira internacional. Suas atividades, no entanto, não se limitam a literatura. Em 1990 ele concorreu à presidência de seu país, mas foi derrotado, por Alberto Fujimori. Fujimori vive hoje as voltas com um processo na Suprema Corte do país, que o acusa de corrupção e abusos dos direitos humanos. Llosa vive na Inglaterra desde então.

Se levar o prêmio o peruano Mario Vargas Llosa será o quarto Sul-Americano a receber a honraria. Os outros foram: Os chilenos Gabriela Mistral, 1945, Pablo Neruda, 1971 e o colombiano Gabriel Garcia Márquez em 1982.

O Brasil ainda espera sua chance. Na década de noventa o nome do poeta João Cabral de Melo Neto esteve sempre cotado. Mais infelizmente não ganhou. O único autor de língua portuguesa a receber o prêmio é o português José Saramago, que ganhou em 1998.

ENCANTADORA SEDUÇÃO


Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto...
William Butler Yeats



Ser linda e ganhar muito dinheiro desfilando não foram o bastante para Carla Bruni. Desde 2002 ela desfila outros dotes, não menos encantador e sedutor como os já demonstrados antes.

Ela agora fascina cantando. Seu álbum de estréia, Quelqu’un M’a Dit, um disco delicado e divinamente sussurrado em um francófono delicioso e sedutor, como vocês podem conferir aqui, tornou-se um dos álbuns mais falados em 2002.

Em 2007, Carla volta ao cenário musical com No Promises. Dessa vez juntando suas duas paixões, música e literatura, ela interpreta poemas de autores anglófonos, como William Butler Yeats, Emily Dickinson, Walter de la Mare ou Dorothy Parker.

Ainda não pude conferir o resultado. A produção cultural européia seja ela de cinema, música, literatura, demora uma eternidade pra chegar ao Brasil. As edições importadas são uma fortuna. É por isso que o mercado paralelo incha cada vez mais. Desmoralizando indústria e viciando o sistema. Assim, saem perdendo autores, fãs e a cultura.


PECADOS DO EXCESSO

Matéria do Jornal da Globo de ontem, destaca baixa expectativa de vida entre os roqueiros. Com base em uma pesquisa cientistas ingleses descobriram que a media de idade, entre os roqueiros de sucesso, não passa de 35 anos na Europa e 45 nos Estados Unidos, quando a media é quase o dobro da taxa geral da população.

O motivo: abuso de drogas, bebidas e o suicídio. As chances de morrer nos primeiros cinco anos de sucesso são maiores. A idade mais perigosa é 27 anos.

Foi com essa idade que três das maiores lendas da contra cultura morreram nos anos 60. Janis Joplin, Jimi Hendrix, e Jim Morrison o vocalista do The Doors. Ambos vitima dos excessos. Outro, que completa o rol de famosos que também morreu com essa idade, foi o vocalista do Nirvana, Kurt Cobain, que se matou com um tiro.

A funesta estatística constata que a alta mortalidade das estrelas da música acontece nos primeiros 25 anos de fama. Os que escapam a essa fase passam a viver, segundo os pesquisadores, como a maioria dos mortais. O que explica fenômenos como Mick Jagger, Rod Stewart e Ozzy Osbourne.

Ninguém sabe, no entanto, explicar como Keith Richard, guitarrista dos Rolling Stones, ainda está vivo. Conhecido pelos excessos, ele declarou recentemente que cheirou, pasmem, as cinzas de seu pai com cocaína.

A vida passa e o mundo do Rock continua produzindo suas lendas.

UM NOVO DIA


Mas aí vem.

Um outro círculo

Um outro tempo

Uma outra hora.

E o meu coração

Em prantos que hoje chora,

Amanhã

Ao nascer do dia

Ao romper da aurora.

Em viva luz

Que anuncia o agora,

Dirá adeus

Para tudo o que me devora.

FOTOGRAFIA É ARTE?


O fato de levantarmos essa questão vem de uma inquietação pessoal, até aqui não resolvida.

Sempre questionei as idéias reducionistas que tentam enquadrar o conceito de arte como um conjunto de preceitos e regras rigidamente estabelecidas; hierarquizadas por um sujeito oculto, e aceitas sem reservas por quem queira.

Essa excitação se acentuou quando discutia com um amigo o valor artístico da fotografia. Ele contestava, afirmando ser ele também um artista, se tirar fotos fosse uma forma de expressão de arte. Poor boy...

Dizia, enervado, que a fotografia não passava de um esboço pálido e inútil para atingir a arte. Caprichoso esse amigo, não?

Eu não pude concordar com ele por duas razões. Primeiro que o oficio do artista não é uma licença, concedida a esse ou aquele homem – por mais que isso hoje em dia seja a norma – e que, mesmo ele desacreditando-se como artista, eu insistia; por que não ser um com uma máquina na mão?

Segundo que para mim, o valor que cabe como critério de arte - não importam os meios - é sua capacidade de inventividade e imaginação que, toda obra artística deve incutir.

Conjugados esses elementos -inventividade e imaginação- eles serão capazes de dar forma e organização a experiências simbólica, ricamente instrutiva.

A fotografia como expressão artística, altera as aparências e reinterpreta o mundo fazendo com que percebamos tudo a nossa volta em novos termos. Dando com isso, conotações artísticas a qualquer coisa. Afinal, o que faz com que algo seja arte e não apenas habilidade é por que, e não como, tal coisa é feita. O que devemos fazer são as perguntas certas para tirarmos o conceito de arte.

A foto que ilustra esse post, do artista francês Yves Klein, é um bom exemplo do que tenho tentado mostrar, desde então ao meu amigo, como de inventividade e imaginação fotográfica. Quem ao se deparar com essa foto não se inquietará com uma situação tão insólita. Um misto de desespero e surpresa.

Por sua natureza inventiva, o toque do artista, envolve necessariamente a imaginação. Sempre que observo essa foto, penso que, a ela caberia uma epígrafe como: Quando se ama o abismo, é preciso ter assas, do filosofo alemão Nietzsche. O anseio de expressar um sentimento de liberdade, a qualquer preso, é o que move os ideais heróicos de alguns homens. A foto recria simbolicamente esse espírito irrequieto.

Que outra imagem simboliza tão completamente esse ideário de liberdade? Houve e sempre haverá novas e variadas formas de alcançar metaforicamente essa idéia. A fotografia, assim com a pintura a música o teatro a literatura, representam respostas paralelas às expressões do mundo ampliando o nosso modo de ver e compreender a realidade.