DEVAGAR NÃO SE VAI AO LONGE

A única coisa que se acumula parado são gases. Então devem está cheios os burocratas, professores e os políticos. Estes últimos se encontram mais aliviados por essa época. Os muitos compromissos eleitorais confortam suas ventosidades. Dias virão que também os burocratas terão livres de seus intestinos os grandes males causados por sua inércia. Os professores não têm tanta pressa assim, talvez lhes confortem as cadeiras que lhes assentam. Eles não têm que se envergonharem disso, os eflúvios intestinais nos mostram apenas a matéria prima da qual somos feitos e que, por vezes, se soltam e nos enxovalham publicamente. Há coisas que nos fazem corar. Poucas, porém, nos embaraçam mais do que o torpor de algumas classes.


A PROPÓSITO DAS ELEIÇÕES


Todos os anos durante as eleições assistimos a um fenômeno de degeneração política. Enquanto no resto do tempo de nossas vidas comezinhas, a política e os assuntos de política não passam de serem ignorados por quase todos, durante o pleito, essas discussões incendeiam os encontros de amigos; comparecem aos almoços de família, freqüentam os intervalos das orações religiosas e ocupam a maior parte das discussões durante o dia das pessoas, seguindo até cortejos fúnebres. Por instantes tem se a impressão de que finalmente a definição vocabular para política: “a arte de bem governar os povos” ou “conjunto de objetivos que informa determinado programa de ação governamental e condiciona a sua execução”, deixou, de ser um mero adereço retórico e passou a ter algum sentido vivo. No entanto, ao nos depararmos com o primeiro grupo politicamente entusiasmado, vemos que o que eles discutem realmente, responde por outro nome. Aquilo a que por comodidade chamam de política, é na verdade mexerico, intriga, conchavo, politiquice, zona. No fundo ainda reina no nosso país a arraigada convicção de que política é não respeitar o direito à diferença de opinião e receber favores em troca de apoio – pode ser em galões de combustível ou em materiais de construção – com a desculpa de que todos fazem isso, e por fim torcer por algum cargo comissionado. Teoricamente somos todos contra a corrupção. Mas quase todos somos corruptos se da corrupção retirarmos vantagem e, quase nenhum de nós se mobiliza contra a corrupção, exceto se os resultados da corrupção perturbarem de modo sensível a nossa qualidade de vida. A lingüística ensina-nos que o sentido das palavras muda com os usos que fazemos dela. No livro Os Lusíadas, por exemplo, a palavra ministro referia-se ao grumete, ou seja, era usada para definir os homens que faziam as atividades inferiores durante as viagens. Hoje podemos desconsiderar esse sentido. Ministro passou a ser relacionado a homens que ocupam altos cargos nos governos ou em congregações religiosas e que supostamente guardam alguma qualidade que os diferem de criados de navios. O uso define o entendimento. Por isso, a continuar fazendo uso de política no sentido assistencialista, politiqueiro, corremos o risco de desqualificar o seu sentido original e acabar, por fim, por força do uso nesse ou naquele sentido, não tendo nem palavras para qualificar as imoralidades e indecências, pois essas passaram a ocupar os sentidos de política. Vem isso a propósito um discurso do poeta Almada Negreiros sobre as qualidades de um povo. Dizia ele, “o povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades”.

UM OLHAR SOBRE CANUDOS

FOTO: Regina Xavier

Em 2 de dezembro de 1902 o jornalista e escritor, Euclides da Cunha (1866-1908), lançava o livro Os Sertões. A obra, inspirada numa apurada investigação jornalística ocorrida cinco anos antes, sobre o levante de um bando de esfarrapados sertanejos, liderados por Antônio Vicente Mendes de Maciel – O Conselheiro – supostamente contra o estado, transformou o seu autor num nome incontornável. Convertido numa das maiores obras da nossa literatura, ela influenciou grande autores como: Mário Vargas Llosa e Sandor Marai, que escreveram livros baseadas em Euclides da Cunha. Destacado pelo jornal O Estado de São Paulo para cobrir aquilo que os alarmados republicanos da época chamavam de um levante restaurador da monarquia, “a nossa Vendéia”, uma referencia à província francesa que, em 1793, havia se rebelado contra medidas fiscais adotadas pela Revolução de 1789; a obra de Euclides da Cunha se transformou em pouco tempo no quase único relato respeitado e aceito, entre os vários entusiastas e estudiosos de Canudos. O monopólio desse registro só foi quebrado quando entrou em curso outro nome nos estudos da história de Canudos, o do professor José Calasans (1915-2001). A gênese da trajetória desse estudioso, seus trabalhos e sua contribuição para historiografia baiana, são os temas do livro José Calasans: a história reconstruída trabalho de conclusão de curso do também professor e pesquisador Jairo Carvalho do Nascimento (n.1976), recém saído do prelo e dado a público no último dia 23, no auditório da UNEB. Nesse seu mais recente trabalho, Jairo apura o percurso desbravador do professor José Calasans, responsável por uma revisão completa na historiografia de Canudos, bem como por uma contribuição inestimável, até hoje insuperável, para os estudos regionais e locais na Bahia, destacando sua valorização da oralidade como fonte e objeto da história, “postura não compartilhada pela ampla maioria dos historiadores da época”, afirma Jairo. Depurado de acessórios o livro do professor Jairo tem vários méritos. Um dos quais é, não se deixar cair na tentação de emular o seu objeto de pesquisa. Tanto é assim, que Jairo, não obstante a insuspeitável contribuição de Calasans, não esconde que esse, também adotou posturas contraditórias durante o regime ditatorial que governou o Brasil de 64 a 85. E que ainda, em alguns momentos de seu trabalho de pesquisa, “chegou a aceitar a fonte sem fazer as críticas devidas” ou que, esse, destinou “pouca atenção às incursões interpretativas a partir de referências teóricas, uma particularidade verificada, por exemplo, na sua obra: Canudos: origem e desenvolvimento de um arraial messiânico”. Em parte, essas medidas se devem a postura interpretativa adotada por Calasans, que pertenceu a corrente historiográfica dos que pretendiam interpretar o Brasil a partir do Brasil, e não se filiou a esquemas interpretativos importados. Apoiado em trechos criteriosamente citados e comentados, pode-se dizer que nada ficou de fora desse trabalho. Uma extensa bibliografia, bem como uma bibliografia temática das obras de José Calasans, completa o livro, indispensável para quem queira melhor compreender José Calasans e um pouco de Brasil. O trabalho ainda pode ser lido fora dos círculos de especialistas, afinal ele foi construído numa prosa límpida e de fácil absorção, ler-se num fôlego.

MÚSICA AO AR LIVRE

FOTO: REGINA XAVIER

Nas ruas de Caetité, não obstante o frio que a essa época do ano deixa de ser normal e passa a assustador, em meio aos silvos de ventos gélidos e aos burburinhos dos carros que passam curiosos a bisbilhotar os cantos escuros, a espreita de algum caso; e dos bêbados que cantarolam tristes melodias, ouviu-se por toda parte, nessa última quarta-feira 16, uma outra música, muito mais antiga e alegre. A cidade inteira então correu a ver o que se passava. No átrio da Catedral Nossa Senhora Santana deram, com um improvável caminhão-palco, pronto para o pianista Arthur Moreira Lima, tocar algumas das músicas que se mantêm, alheias às flutuações dos gostos e dos momentos, preservadas perante possíveis contrariedades. A seguir, ameaçou chover. O céu cobriu-se de premonitórias manchas. Contudo, ninguém, que se abrigava ao relento da noite, arredou pé, caso contrário, teriam perdido as estonteantes proezas musicas de um solista virtuoso. Foram, pelo menos, uma hora e meia de absoluta comunhão, ou deveria dizer exorcismo, entre público e musico. Moreira Lima tem um repertório prodigioso, Bach, Beethoven, Chopin, Astro Piazzolla, Ernesto Nazareth, por isso, poderia ter continuado tocando por horas que ninguém cansaria de ouvir, ao menos, essa foi a impressão que ficou da reação vinda da platéia, extasiada com o som que vinha do palco de um caminhão.


CITAÇÃO, O1

Neil prova ser um autor versátil e talentoso. Foto: Thomás Levy

“os inimigos da literatura não são as pessoas que não compram os livros; são pessoas que não lêem”

HÁ VENDA DE INDULGÊNCIA NAS UNIVERSIDADES

FOTO: WILLIAM HOGART FAMOSO PINTOR INGLÊS QUE SE NOTABILIZOU PELA SÉRIE DE GRAVURAS CHAMADA "ASSUNTOS MORAIS MODERNOS".

Quem julgou que o problema era novo, avaliou errado. Há muito que ele vem ocorrendo sem nenhum impedimento. A mais de dois séculos Adam Smith já denunciava nas universidades de sua Escócia a venda de monografias e outros trabalhos acadêmicos por encomenda. A permanente prática dessa atitude vexatória desnuda o baixo grau de moralidade que permeia algumas de nossas universidades. Futuros doutores, professores e mestres, formados na malandragem, corrompem e desacreditam instituições ciosas de seu prestigio. Ninguém se pergunta, no entanto, por que tudo isso persiste. Tenho pra mim que essa prática nefasta se deve ao declínio abrupto da qualidade do corpo docente. Num ciclo vicioso de manutenção e reprodução, professores sem qualificação pedagógica mínima, sem produção cientifica (há uma ou outra honrosa exceção), e pior completamente desatualizados da nova produção literária, ascendem às cadeiras dos cursos das universidades. Esses, formados com a indulgência de alguns não exigirão dos seus, aquilo que não lhes foram exigidos; trabalho. O continuo depauperamento dos currículos e a falta de material bibliográfico, nas bibliotecas, contribui ainda para conservação dessa devassidão. Hoje já não surpreende ninguém cartazes oferecendo “trabalhos acadêmicos” em pleno mural da universidade. Não tarda é isso passa a ser uma constante. A cada dia tem uma degradação moral mais acentuada em todas as camadas da sociedade, observa o tropicalista Tom Zé. Nenhuma instancia se salva.


O ESTADO DESSE BLOG

Joseph Frank Keaton Jr. (Piqua, Kansas EUA 4 de outubro, de 1895 - Woodland Hills, Californis EUA, 1 de fevereiro, 1966), mais conhecido como Buster Keaton, foi ator e diretor de comédia que muitos consideraram superiores as de outro grande comediante, Charles Chaplin, o Carlitos. A característica básica de seus personagens era que eles não sorriam, estavam sempre de cara amarrada, num continuo ato de introspecção e larga tristeza.

ADEUS À TERRINHA

Meu povo: chega uma hora que a gente precisa ir embora. Pegar o primeiro avião, com destino à felicidade. Ou o primeiro ônibus. Ou a primeira charrete, o que for. Chegou minha hora de sair da roça. Chega de mim, né? Caetité está cada vez pior e, pelo andar da carroagem, tende a piorar cada vez mais. E essa tal de mineradora aí... sei não. (o salário é quanto?) Eu não fico, mas, quer ficar, tudo bem. Assiti agora um depoimento de Maria Bethânia, no dvd "Maricotinha" contando da infância na célebre Santo Amaro da Badalação. Que ela não queria sair, não queria deixar o pai e a mãe sozinhos, que conhecia bem a cidade e não queria largar seus amigos e blá blá blá e blá bla blá. Mas acabou deixando. Isso é besteira. Pai, mãe e amigos ficam e o melhor é tocarmos o barco.
De lá (Aracaju), continuarei, sempre que me for possível, a escrever no blog. O evento da cidade é um forrozão que está acontecendo e, me disseram, dura 3 meses. Quem agüenta três meses de forró? Dizem que os sergipanos acham pouco.
Um forte abraço. (Uma cobrança: Rogério, cadê a lista dos 5 melhores? Em que ano sairá?2015?) E a Academia Caetititeense de Letras, heim? Mara, cadê sua obra? Estou na espera. Se essa obra vier à luz, quero um exemplar com dedicatória. "A Teo, brilhante escritor, intelectual dos mais coerentes etc. etc."
Teo

FOTO DE ÁLVARO VILELA

TODA NUDEZ FOI APLAUDIDA

Darlene e Paulo Porto. Ele, viúvo; ela, uma puta triste. Agora, é enfrentar a família dele
A “Sessão Brasil” desta segunda 28 vai apresentar "Toda nudez será castigada", a versão mais feliz de uma peça de Nelson para as telas


NELSON RODRIGUES (1912 – 1980), o maior teatrólogo do país, e escritor mais adaptado para o cinema e para a televisão (o segundo é Jorge Amado) indiscutivelmente, escreveu peças magistrais, dentre elas uma pode ser classificada como obra-prima. Trata-se da “obsessão em 3 atos” Toda Nudez será castigada, escrita em 1965 e encenada a duras penas porque as atrizes mais tarimbadas do Rio (dentre elas Fernanda Montenegro) sentiram o peso da personagem Geni e repudiaram a personagem de cara. Ela é a protagonista da história. Nada menos que seis atrizes, por vai-se saber quais razões, leram a peça mas deixaram de assinar o contrato porque Geni passava dos limites. Numa das cenas – atenção: isto não está no filme, estou falando ainda da peça – depois de passar três dias seguidos num quarto com Herculano, bêbado até a medula, viúvo casto que não aceita a morte da mulher de jeito nenhum, Geni implora a ele para que a leve ao médico. “Herculano, meus ovários estão doendo!”. Saldo da brincadeira: doze relações sexuais numa biboca de quinta classe, onde Geni, digamos, “trabalha”. Que atriz, por mais emancipada que fosse, queria fazer isso, mesmo sabendo que se tratava de uma peça magistral (elas, no fundo, sabiam) digna do melhor teatro do mundo? Cleyde Yaconis quis.
O jeito, então, foi trazer de São Paulo a grande atriz, essa sim corajosa, sobretudo – para interpretar essa que julgo ser a prostituta mais famosa da nossa dramaturgia. (Outra seria Neusa Suely, de “Navalha na carne”). Nelson pôde sentir o gostinho da vingança depois, porque a peça fez um tremendo sucesso, foi enaltecida pelos melhores críticos, excursionou pelo país inteiro, até o momento em que teve de ser submetida à censura.
Arnaldo Jabor adaptou o texto em 1973. Infelizmente, a censura cortou algumas coisas do filme, também. Não sei se na exibição dessa segunda, as cenas que foram cortadas da versão original entrem. Pelo menos não entrou nos Dvds que foram comercializados. O filme faz parte da “Coleção Arnaldo Jabor”, tem apresentação do próprio. Impulsionado pelo sucesso de Toda Nudez, consagrando internacionalmente a estrela máxima do filme, Darlene Gloria, hoje crente, como a prostituta. Arnaldo filmaria outro Nelson Rodrigues em 1975, O Casamento, com duzentas mil depravações a mais que a antecessora. O romance, a meu ver, foi um passo atrás na literatura do autor, e, francamente, precisa-se de muito estômago para se chegar até o fim do livro. Esse filme não teve repercussão e até hoje muita gente sequer sabe que existe. Nem eu tive interesse de vê-lo. (Por enquanto)
Mas, do que trata o filme que será exibido nesta segunda-feira, 35 anos depois de feito? Dos “laços de família” de um viúvo milionário e que ainda mora com as três tias, velhas umas, doida outra, impertinente todas, pai de um filho adolescente fresco e irmão de um banana, Patrício (Paulo César Peréio) até o aparecimento de Geni, alterando profundamente as relações entre eles. O caso é que Herculano apaixonou-se por ela, quer casar-se, e, sobretudo, tirá-la dessa vida. “Você é humana, Geni”, ele fala no filme. Antes de conhecê-la, o puritano Herculano, quando soube de sua existência, por alto, disse que “Vagabunda é vagabunda sempre”. Num dado momento, para humilhá-la, ele grita: “Você é publica! Pública!”. Com o tempo, Herculano se apaixona por ela e está disposto a esquecer o passado e a começar uma nova vida de casado, transformando-a numa “dama”, digamos. Agora, é enfrentar o filho e as tias gagás.
Com trilha sonora de Roberto e Erasmo, elenco magistral, onde despontava o jovem Paulo Sacks (Serginho) – cadê ele? – a trama é bem rodriguiana. Nelson escrevia sobre o amor. Não importa de que jeito. Como na música de Milton Nascimento, para Nelson Rodrigues, “qualquer maneira de amor vale a pena e qualquer maneira de amor valerá”. Confira! Na madrugada de segunda para terça, 2 h da manhã, após o “Programa do Jô”.

A UNANIMIDADE INTELIGENTE

Chico Buarque, um artista magistral:43 anos de carreira
A MPB não seria o que é não fossem suas obras
O cidadão Chico Buarque de Hollanda, 63, é a certeza de qualquer artista que se preze. Não conheço um cantor digno que não tenha gravado alguma coisa escrita por ele. O restante da humanidade o considera e o respeita. “Perto do Chico Buarque”, de acordo com o fabuloso Otto Lara Resende, “todo homem é potencialmente corno. Se sua mulher está com você agora, é porque ela não teve a competência para ficar com Chico Buarque”. Mas, por que Chico é essa unanimidade toda, a ponto de ser superior a qualquer outro homem?
É simples. Porque ele é perfeito. Bonito, charmoso, rico, inteligente, talentoso... “É o único artista da MPB saído da classe média”, disse certa vez o pesquisador e historiador de música popular José Ramos Tinhorão. Dirão alguns que isso não alteraria sua criação. Talvez. Mas de classe social favorecida, teve contato mais próximo com uma cultura que, como todos nós já estamos carecas de saber, é artigo de luxo. Descende da melhor linhagem de intelectuais do país. Raízes do Brasil, o estupendo livro de seu pai, Sergio, é indispensável para quem deseja conhecer a fundo a história de nossa formação. Chico é a prova – a exceção de uma regra estúpida –, de que nem sempre os privilegiados vivem na mesquinharia, na banalidade, no ócio que aliena, enfim, comportamentos que o dinheiro fácil oferece a quem tem. Ao invés de esticar as pernas e sossegar o facho, Chico Buarque decidiu trabalhar numa notável “construção” (olha aí!) e deu-nos uma obra tão rica, tão profunda, tão bem-acabada, que não há meio de não a admirarmos. Pode-se dizer de Chico o mesmo que o velho Manuel Bandeira disse de Rachel de Queiros: “Nunca o louvaremos bem”. Em suma, ele é um grande criador. Imagine que Chico começou a escrever aos 20 anos. Deu a Nara Leão sua A Banda, para que ela a defendesse num festival desse aí, na década de 60. Sucesso nacional. Meu “pai” Nelson Rodrigues, depois de chamá-lo de “talento das novas gerações”, escreveu uma crônica dizendo que “antes de A Banda, ninguém assoviava mais. O brasileiro voltou a assoviar graças a Chico”.
Mas, como conheci Chico? Conheço-o desde quando eu tinha 15 anos. (Hoje, os meninos de 15 anos sabem o quê, pelo amor de Deus? Nada! Nessa idade não vêem um palmo adiante do nariz). Continuando: Um colega meu, me emprestou, de seu pai, um disco de vinil chamado “Os Sucessos da MPB”. Lembro-me de que quem escreveu o comentário, na contra-capa do disco, foi um senhor chamado Affonso Romano de Santanna. Vim saber, muito tempo depois, que ele é também poeta. Nesta jóia, de Chico Buarque, constavam Partido Alto (interpretação de Caetano Veloso. Caiu como uma luva para ele. Repare: “Deus me fez um cara fraco, desdentado e feio/ Pele e osso, simplesmente, quase sem recheio...”) e Folhetim. Me apaixonei particularmente por Folhetim, gravação de Gal Costa. Alguns anos depois, um crítico – não me lembro mais quem – afirmou que Gal jogou naquela interpretação, toda a sensualidade e a malícia da prostituta (“dessas que só dizem ‘sim’ ”) da letra. Eu também achei.
Já ouvi muita gente dizer que Chico é melhor compondo do que cantando. Não que ele seja um mau cantor, não é isso, mas Chico é, antes de mais nada, o compositor. Tive a oportunidade de conhecer algumas de suas obras-primas, e cito as que mais me impressionou: Bastidores (Cauby Peixoto), Sob Medida (Fafá de Belém), Atrás da Porta e Tatuagem (Elis Regina), Sem Açúcar (Maria Bethânia), Geni e o Zepelim (ele próprio), Até o Fim (Nety Matogrosso). Não me lembro, no momento, de outras.
Em 1983, Braz Chediak filmaria Perdoa-me por Me Traíres, por sinal um dos filmes mais baratos da história do cinema nacional, baseado na peça homônima de Nelson Rodrigues. Nesse enredo, o homem traído pede perdão à mulher. Pode? De acordo com ele, Judith traiu, mas a culpa é dele. Quer dizer: ela está coberta de razão em traí-lo. E para musicar isso, como é que se faz? Recorreu-se a Chico Buarque e ele não decepcionou. Escreveu a magistral Mil Perdões, que Gal Costa gravou, naquele mesmo ano, em “Baby Gal”. (“Te perdôo porque choras / quando eu choro de rir / te perdôo / por te trair”). Descobri, inclusive, que Chico tem o poder de transcender o banal, o irrelevante, o anormal, o que é doentio para as raias da genialidade. Arrisco dizer que Chico é capaz de poetizar um piolho, uma cárie, uma unha encravada, uma menstruação irregular etc. Ele tem condições de escrever sobre qualquer assunto. Muito poucos conseguem isso.
Eu gostaria de escrever mais sobre Chico Buarque, sobre o Chico & Caetano, (particularmente sobre O Quereres, que ele errou, para delírio de todo mundo. “Não sei porque eu insisto nessa profissão! Estou dando tudo de mim!”), sobre as mulheres de suas músicas, sobre suas peças, seus livros, suas entrevistas, mas nunca o assunto Chico Buarque será dado por encerrado. Creio que já disse o fundamental. Que ele é um artista completo e quase não tem rivais na MPB. Salve Chico Buarque. Não aparecerá outro tão cedo que o supere. Aposto.
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Especialmente para a Profa. Maria de Fátima

A VERBORRAGIA DA ACADEMIA

A poetisa Tania Martins, no Rio de Janeiro: a melhor
FOTO EXTRAÍDA DE SUA PÁG. NA INTERNET


É impressionante como a Prefeitura, o Hospital e a INB patrocinam a Selecta Acadêmica, um material francamente sofrível – e ninguém protesta

ANTES de mais nada, quero esclarecer aqui que não estou fazendo uma análise aprofundada das “obras” publicadas na Selecta Acadêmica, não sou especialista em coisa alguma, pelo menos por enquanto. Limito-me a contribuir para esse blog fazendo o que gosto, que é opinar. Também não é minha intenção rebaixar nenhum dos citados, até porque essa gente já está bem de vida, possui carrões, casas boas, dinheiro etc., e nada perderão com as opiniões desfavoráveis de um pobre-coitado como eu, mas vamos lá.
Eu já conhecia a revista, mas nunca tinha parado para ler atentamente as besteiras que esse pessoal escreve. Confesso que saí do livro horrorizado com o nível dos nossos queridos acadêmicos.
Analiso agora as composições de dois números, 6 e 7, publicados em meados de 2002. Com toda certeza, a Academia não parou de editar novos volumes, que comentarei, com toda honestidade que me é peculiar, posteriormente, assim que devorá-los. (Vou tentar). Mas quero discorrer sobre o que vem a ser propriamente a Academia, quem são seus membros e do que eles falam.
Em primeiro lugar, faltou um certo cuidado da Editora Globo em elaborar as revistas. Ciente de que elas viriam com falhas, logo na introdução, a direção trata de se justificar, citando Dickens, o célebre autor de David Copperfield: “Onde ocorrem mais facilmente erros é na impressão dos livros”. Tudo bem...
Como na tradicional Academia Brasileira de Letras (que negou uma cadeira ao poeta Mario Quintana e a um dos maiores dramaturgo do mundo, Nelson Rodrigues, e a concedeu a Paulo Coelho), em Caetité existem os patronos e seus ocupantes, cadeiras numeradas. Eu quero deixar registrado que sou completamente contra a Academia Brasileira. O fardão já não significa nada mais para mim, depois de disparates dessa natureza terem ocorrido. Em Caetité, somos apresentados aos “Patronos”, gente que, em alguma época, teve um certo prestígio no meio local, em curtas biografias. (Como escreveu corajosamente Paulo Francis, em seu livro de memórias, 1964 – Trinta Anos Esta Noite, “só gente de certa categoria social importa no Brasil”). Aqui acontece o mesmo. Um pobrezinho, lascado, mas que saiba escrever e tenha tino para a coisa, não tem o menor valor em Caetité. Nem adianta! Conheço gente aqui, que mal tirou o primeiro grau, e escreve muito melhor que certos “acadêmicos” que eu vejo aí. Voltando aos acadêmicos: São alguns: Maria da Conceição Pontes, que equivocadamente consta ter falecido em 23/17/1973. (Gente, estamos falando de uma publicação de Letras, Acadêmica, não poderia existir erros tão grosseiros. Dizer que a mulher morreu no mês 17...) , Manoel Teixeira Ladeia (cuja Acadêmica Fundadora vem a ser sua filha, a professora e advogada Jussara Ladeia, de quem antipatizei quando fui seu aluno), Gerson Prisco da Silva, Waldir Cardozo, Emiliana Pita (autora do Hino de Caetité), sra. Idalina Vieira Cardoso, Marion Gomes e por aí vai.
Outra coisa que me chama bastante atenção: Alguns dos “nobres” acadêmicos fazem toda a questão de ostentarem suas formações, seus concursos, como se isso fosse sinônimo de ter talento. Como se isso fosse franquia para escreverem poesia de qualidade. Lamentavelmente, não temos um material de primeira. Um é advogado, o outro é médico, é “Bacharel” pra cá, é “Doutor” pra lá... e a Academia fica a nos dever trabalhos mais apurados e mais bem feitos. Há um “poema” que, dando de barato, é o fim da picada. Trata-se de A Prostituta, de autoria de Dr. Jorge Araújo. O pedantismo está já nas primeiras linhas. Vejamos: “Não cruzarei o Aqueronte nem o Letos / sou um verme”. Ele fala em “balde de lixo em pletora” – sabem o que é pletora? Pesquisem. “Mortos pálidos projetos”. Como se considera um talento múltiplo, Jorge Araújo também publica contos, como O Estrado. Em outra composição ‘poética’, enaltece o idioma de Camões e Pessoa, cita Drummond de Andrade, e diz que “adora as perfeitas flexões / e as mais-que-perfeitas conjugações”. É isso aí. Acabei, curiosamente, de me lembrar de uma música de Caetano Veloso, Língua, talvez a maior exaltação que temos do português. “Da rosa no Rosa / Da pessoa no Pessoa”.
Um pequeno poema – Agora, André Koehne (advogado) botou pra lascar em A pequena Formiga, poema de sua autoria: “Era uma pequena vez (sic!) uma pequena formiga que morava num pequeno buraco, num pequeno beco duma pequena cidade” (...) A pequena formiga legou-nos uma pequena lição: “É uma merda ser pequeno”. É impressionante! Tirem suas próprias conclusões. Eu vou ficar quieto, que é melhor.
Jóias – Agora, há preciosidades. Em minha opinião, a melhor escritora da Academia é uma senhora chamada Tânia Martins. Essa, sim, orgulha a Academia da qual faz parte. Ela escreveu alguns livros, e não é de hoje que os jornais se interessam em publicar sua obra. Que bom ler o que Tânia escreve. Apresento aos visitantes, jóias como Identidade (“Sê estrela do mar se não podes ser luz no infinito / Sê candeia, no recesso de teu ser, se não podes ser sol iluminando mundos”) ou então em Sonhador onde ela indaga: “Que pretendias tu quando brincavas com estrelas se sabias que nunca poderia tê-las? / Por que te consomes no fogo da ansiedade / se tu soubeste que amar (...) é só saudade?”
A vocês que chegaram até aqui, o meu forte abraço e até logo!

REDESCOBRIMENTO PELO LIVRO DAS IGNORÃÇAS DO PANTANEIRO MANOEL DE BARROS


Há qualquer coisa de desconcertante na leitura de, O livro das Ignorãças, do poeta matogrossense Manoel de Barros (n. 1916). Qualquer coisa para as quais as palavras usualmente utilizadas não estão prontas para descrevê-las. Por isso, é preciso, como ele mesmo aconselha botar “delírio” no verbo, “adoecer de aflição” as palavras, desequilibrar a razão, provocá-las, reinventar sentidos para elas, para que aí sim, renovado a linguagem com suas expressões inusuais, ler a sua poesia. Diversa de toda produção poética da nossa literatura, sua obra está no ponto em que a escrita salva e redime-nos de todos os desgastes. Sua preferência pela fala do homem comum, das crianças, e da exaltação da natureza; têm como intenções reaproximar o homem, incapacitado e quase inutilizado, para valorização do que é aparentemente inútil. “Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz”, diz em AUTO-RETRATO FALO, único poema titulado de todo o livro. Ocupar-nos de uma poesia, tão intransigente com a linguagem, renova-nos os sentidos e valoriza nossa percepção do sutil. Deixar-se voar fora das asas, como quer o poeta é, experimentar enxergar sem intermediárias retinas o espetáculo da vida pelo constante redescobrimento das palavras.

A PROPÓSITO DA LIBERDADE

Por feitio sou daqueles que acreditam na liberdade e no desejo de liberdade a toda prova. Não há meio termo possível que possa dirimi essa disposição de espírito. Nem meios tons indefinidos me agradam. Não me ânimo mais a discussões ideológicas e apaixonadas que vejo serem inúteis. E cujo prólogo principia a guerra. Por isso não creio que governos que cerceiem a liberdade, se perpetuem no poder, devam ser respeitados ou defendidos. Sou radicalmente contra o encarceramento das vontades dos cidadãos ao desejo de qualquer governante. É ainda não tolero que uma vez que te decretaram que tens pneumonia, se comporte com um pneumático.

Nelson Rodrigues jamais foi um pornógrafo

Alexandre Frota: pornografia pra ninguém botar defeito. Nelson, não.

Não quero posar aqui de advogado do diabo. Não. Mas é que eu não suporto mais tanta injustiça que vem, ao longo de tantos anos, sendo praticada contra o mais visceral escritor do Brasil, o pernambucano Nelson Rodrigues, que, jornalista e já residindo no Rio de Janeiro, conseguiu a duras penas, montar a complexa Vestido de Noiva em 1943. Essa peça, graças ao espetáculo deslumbrante de Ziembinski e ao próprio enredo, inimaginável para a época, consagrou sua carreira de dramaturgo. Isso é o que distingue os gênios. Estarem à frente de seus tempos. Só.
Mas dali para frente, Nelson não viveria momentos de glórias e de louros, como merecia. Cada nova peça, cada entrevista dada, cada livro editado, seriam dores de cabeça tremendas para ele, porque os pseudoconvencionais não quiseram enxergar a vida como ela é, assim sendo, era – ainda é – mais cômodo acusar o dramaturgo de “imoral” e de “pornográfico” do que reconhecer seu enorme talento criador. Muito poucos deram a mão à palmatória. Percebo que coragem não ficou mesmo para todo mundo. A realidade é feia, cruel, amarga, as pessoas são mesquinhas, elas sim taradas sexuais e transtornadas, gente que alimenta os desejos mais abjetos, e o pobre do Nelson é quem tinha de pagar o pato? Exatamente. Seu grande erro: desmascarar a mesquinhez que vivia maravilhosamente encoberta da nossa melhor soçaite.
E outra coisa: quem disse que teatro deve ser passatempo? “Minhas peças são desagradáveis e teatro não pode ser bombom com licor”, dizia Nelson. Estou com ele e não abro. Boa literatura é aquela que choca, que provoca, que agride, que causa desconforto e náusea. (Daí porque sou contra os livros de auto-ajuda).
Dirão alguns que o sensacionalismo é a maneira mais fácil de chocar. De acordo. Mas acontece que Nelson nunca apelou para o sensacionalismo barato, infelizmente um consenso entre a maioria. Suas obras trazem uma história, marcada por tempo e espaço, e o sexo funciona simplesmente como pano de fundo. Sensacionalismo de verdade, em minha opinião, que faz muito bem é Alexandre Frota. Seus últimos filmes, sim, são a mais autêntica pornografia. Nelson, não.
Meu Deus do Céu, será que ninguém entende que essas obras são claramente morais? Nelson Rodrigues jamais se deleitou com a podridão, meu povo! Ele era um conservador ferrenho – talvez até mais do que eu ou você. Por isso acredito que Nelson sofreu (ainda sofre) uma perseguição violenta e incongruente. Escrevo este texto na esperança de que golpes baixos e barbaridades dessa natureza deixem de ser alardeados contra um mestre da nossa literatura dramática.

... END THE OSCAR GOES TO

Daqui a poucas horas teremos a octogésima edição do Oscar. Essa premiação que chama tanto a atenção do mundo tem razões que muitas vezes nos escapam. Assim, não é de se admirar que obras de qualidade duvidosa abocanhem inúmeras estatuetas. Enquanto outras com largar contribuição ao cinema, e reconhecimento da crítica especializada, saia mal na cerimônia. Podemos evocar muitos exemplos que se prestam a compreensão do que digo. Em quase sessenta anos de cinema Alfred Hitchcock criou um gênero, a saber, o suspense, e inúmeros tipos que ajudaram a impulsionar o cinema no mundo. Sobre suas obras Truffaut em livro memorável, disse: “seus filmes, realizados com um cuidado extraordinário, uma paixão exclusiva, uma emotividade extrema disfarçada por um domínio técnico raro..., desafiam o desgaste do tempo, e confirmam a imagem de Jean Cocteau ao falar de Poust: ´sua obra continuava a viver como os relógios no pulso dos soldados mortos´”. No entanto, todas as inovações e reconhecimento não foram suficientes à academia, que o indicou seis fezes ao prêmio de melhor diretor, mas só lhe deu o prêmio de consolação pelo conjunto da obra em 1968. A esse gigante ignorado completam a lista nomes como Stanley Kubrick, Fred Astaire, Orson Welles que dirigiu e atuou em seu primeiro filme Cidadão Kane (1941) apontado por nove de cada dez críticos, como o melhor filme feito até hoje, isso tudo com 24 anos de idade, ainda ficaram de fora da premiação, Federico Fellini que só ganhou o honorário; Charles Chaplin, Greta Garbo... Parece que os holofotes de Hollywood são miopias. Enxergam apenas cifrões.


... COMO DEUS CRIOU A MULHER

Juliette Binoche no filme A insustentável leveza do ser.

O cinema francês não se cansa de produzir belas e talentosas divas, para deleite do público de todo o mundo. Desde o advento de Brigitte Bardot, que fundou definitivamente o padrão de beleza cinematográfica na França, nenhum outro diretor se arriscou em comprometer sua película, deixando de fora uma deusa. Como uma formula pronta para atrair publico, eles carregaram as telas dessa presença arrebatadora chamado: símbolos sexuais. Assim, também o publico antes reprimido, passou a ver nos filmes o que só se passava em suas cabeças. A aparição de Brigitte Bardot no filme, ...e deus criou a mulher, do diretor Roger Vadim, no auge de seus dezessete aninhos pra lá de erótica, tornou, à partir da ai, o cinema nada inocente. Pelo contrário incendiou as salas escuras de uma beleza plástica incomum e reinventou a sexualidade. De lá para cá, multiplicaram-se as presenças divinas nos filmes. Catherine Deneuve, musa do cinema de Buñuel foi o sensação dos anos 60 ao estrelar a fita A Bela da Tarde. Nela Deneuve interpreta uma burguesa reprimida sexualmente que à tarde foge de sua vida medíocre para se entregar aos prazeres mais luxuriantes num bordel. Isabelle Adjani, Juliette Binoche, Irene Jacob, Emmanuelle Béart, Marion Cotillard, Laetitia Casta, Ludivine Sagnier, Audrey Tatou (por que não?) e mais recentemente Eva Green, fizeram do mero ato de assistir a um filme uma celebração à beleza. Nem mesmo os carrancudos intelectuais da revista Cahier du Cinema, resistiram a bruxuleante magia dessas mulheres. Há artigos e resenhas que mais pareciam cadernos de anatomia do que analises fílmicas, escreveu o crítico Antoine de Baecque. Difícil mesmo é deixa de se encantar por essas sereias.

O MEDO DO INFERNO

O líder da Igreja Católica em sermão aos fiéis no ano passado reafirmou sem meias palavras, que o inferno existe de verdade, não se trata de uma metáfora, mas de uma realidade concreta. Cioso de seu rebanho o papa Bento XVI lembrou a Bíblia, em sua incorruptível e invariável certeza, nas palavras de São Paulo e São Mateus. Em outra época, quando a Igreja guiava a ferro e açoite as vontades humanas, esse discurso ardia literalmente nos servos que por suas heresias e imprudência tinham seus atos corrigidos na fogueira, tal como no inferno que prega hoje o cardeal Ratzinger. Na teologia romana parece não haver outro sermão que não seja fruto do medo. “O medo, que esteriliza os abraços,(...)/ o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas.” O medo por toda parte, como em Congresso internacional do medo de Drummond. Tudo que a igreja católica tem para oferecer aos seus fieis, de ontem e hoje, não passam de conselhos apocalípticos e assombrações medievais. Menos brioso parece ser os discursos contra a própria igreja, que fecha os olhos e encobre os atos de pedófilos dos seus, ou nega-se a aceitar os apelos de muitos padres pelo fim do celibato. Se Deus existe, espero que Ele tenha uma boa desculpa para tudo isso.

MAIS LIÇÕES DE POESIA - O FERRAGEIRO DE RECIFE


Além dos autores, Mário de Andrade e Ezra Pound, que destaquei no post anterior como exemplos de autoridade literária sobre preceitos constitutivos do oficio poético, forçoso é lembrar outro nome, como o do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, quando o tema é poesia. Nele o rigor da forma e a expressividade do conteúdo exprimem como nenhum outro, até então, um acurado senso critico, traduzido num intransigente apego ao real e a lucidez mais extrema, em oposição ao lirismo e poesia dita inspirada. Acontece que com ele, a poesia deixa de ser etérea, perde seu caráter de oratória e finca pé no chão. Mesmo sendo, eminentemente, um poeta, João Cabral nunca se distanciou das reflexões que envolveram seu trabalho. Como escritor que nunca dissociou a condição e o trabalho de poeta da reflexão estética acerca da essência e função da poesia, Cabral acabou por se tornar, assim como que um, poeta-critico. E foi como poeta-critico que ele nos deixou em versos um sumário de suas idéias fixas. Como Octávio Paz se referindo a Fernando Pessoa alegando, que a biografia desse era sua obra, assim, sucede que com Cabral sua obra fala por si e dita, através de suas normas rígidas a tipologia de sua composição. A seguir um bom exemplo de como o imbricamento crítico de sua visão poética se traduzia em poesia.

O FERRAGEIRO DE CARMONA

Um ferrageiro de Carmona
Que me informava de um balcão;
“Aquilo? É de ferro fundido,
Foi a fôrma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
Que é quando se trabalha ferro;
Então, corpo a corpo com ele;
Domo-o, dobro-o, até o onde quero,

O ferro fundido é sem luta,
É só derramá-lo na fôrma.
Não há nele a queda-de-braço
E o cara-a-cara de uma forja.

Existe grande diferença
Do ferro forjado ao fundido;
É uma distância tão enorme
Que não pode medir-se a gritos.

(..............................................)

MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar. 1994. p. 595

O SECTARISMO METAFÍSICO DE ANTERO DE QUENTAL

Pintura: Antero de Quental, por Columbano Bordalo Pinheiro

Os poetas portugueses sempre foram afeitos a poesia metafísica, mesmo os realistas, como Antero de Quental (1842 - 1891) que exercitou largamente esse espírito poético. A metafísica portuguesa vem, segundo Massaud Moises, da compressão imposta pela natureza, que oprime uma pequena facha de terra que é Portugal, entre o mar e o resto do continente Europeu. Na impossibilidade de avançarem sobre largas fronteiras de terras, eles exercitam a fantasia. Os habitantes, e os poetas em particular, transcendem essa condição terrena de opressão, para um plano espiritual, realizando suas fantasias, sonhos e desejos, numa outra realidade, paralela aos acontecimentos terrenos. Nessa viagem ao mundo onírico, os poetas pretendem idealizarem um mundo onde eles possam atender aos apelos dos sentidos, dos desejos irrealizáveis na terra, como forma de expurgarem suas angustias e temores mais sombrios. Os poemas versam sobre verdades intimas como no Palácio de Ventura de Antero de Quental que descreve os sonhos de um cavaleiro –ele mesmo – na busca de um destino mais promissor: “Sonho que sou um cavaleiro andante” .... “Paladino do amor, busco anelante”... “O Palácio encantado da Ventura”... A produção poética de Antero de Quental está intimamente ligada a sua vida, esse poema corresponde a última fase de sua produção poética, fase de retorna a Punta Delgada, onde ele é acometido por uma estranha doença que lhe infunde pensamentos pessimistas e um desejo de evasão, de morte e solidão. Os versos seguintes aos de desejo de encontrar a boa sorte, ressaltam esse pessimismo: “Mas já desmaio, exausto e vacilante,”... e segue em tom derrotista: “Quebrada a espada já, rota a armadura”.... até desaguar na última estrofe em uma realidade que nem mesma a metafísica poderia lhe ocultar... “Abrem-se as portas d´ouro, com fragor/ Mas dentro encontro, só, cheio de dor,/ Silêncio e escuridão – e nada mais!”. Esse pequeno soneto metafísico de Antero de Quental expõe a melancolia e o tédio desse cavaleiro que busca, mesmo já rota a armadura, encontrar em meio às guerras no mundo, um porto seguro de suas dores, e uma recompensa por suas aventuras, mas só encontra, depois de longa jornada pela vida: “Silêncio e escuridão – e nada mais!”. Alguma semelhança com a realidade?

LIÇÃO DE POESIA



Os textos a seguir são de dois dos mais notáveis poetas e críticos literários do século XX. A leitura desses serviu-me de parâmetros para compreensão e entendimento do caráter poético. O primeiro dos textos é de Mário de Andrade, que ajudou a definir os rumos de uma geração, quando ao lado de Oswald de Andrade, deflagrou o movimento Modernista em 22, dando novos contornos e dimensões à literatura e aos comportamentos artísticos do Brasil na década de 20. O segundo é de Ezra Pound, que pode ser sem embargo considerado um dos expoentes da poesia do século passado. Um e outro tinham em comum, além da inquietação e o viço artístico, a preocupação com o desenvolvimento da arte da escrita e pretenderam, como se verá, ajudar futuras gerações. Os excertos foram extraídos, respectivamente, dos livros, Aspectos da Literatura Brasileira e A arte da Poesia.


“O ano de 1930 fica certamente assinalado na poesia brasileira pelo aparecimento de quatro livros: Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade; Libertinagem, de Manuel Bandeira; Pássaro Cego, de Augusto Frederico Schmidt e Poemas, de Murilo Mendes. Todos são poetas feitos, e embora dois deles só apareçam agora com seus primeiros volumes, desde muito que podiam ser poetas de livro. Mas quiseram escapar dos desastres quase sempre fatais da juventude. Se fizeram e fazem versos não é mais porque sejam moços, mas porque são poetas.

Essa me parece uma das lições literárias do ano. Quatro livros de poetas na força do homem. Acabaram as inconveniências da aurora. A poesia brasileira muito que tem sofrido destas inconveniências, principalmente a contemporânea, em que a licença de não metrificar botou muita gente imaginando que ninguém carece de ter ritmo mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra fazer verso-livre. Os moços se aproveitaram dessa facilidade aparente, que de fato era uma dificuldade a mais, pois, desprovido o poema dos encantos exteriores de metro e rima, ficava apenas... o talento. E já espanta, um bocado dolorosamente, esse monturinho sapeca de livros de moços, coisa inútil, rostos mais ou menos corados, excessiva promessa, resumindo: bambochata que não resiste à primeira varredura do tempo.

Devia ser proibido por lei indivíduo menor de idade, quero dizer, sem pelo menos 25 anos, publicar livro de versos. A poesia é um grande mal humano. Ela só tem direito de existir como fatalidade que é, mas esta fatalidade apenas se prova a si mesma depois de passadas as inconveniências da aurora.(...)”

ANDRADE, Mario de. Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1967, p. 27-28.


“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.

Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se obstáculo da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.

Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.

Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.

Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.

POUND,Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. Tradução de Heloysa de Lima Dantas e Paulo Paz. São Paulo: ed. Cultrix, 1976, p.11-12.

MEUS POEMAS

LUTO

Ando meio dissoluto.
Em tudo na vida reluto,
E, enquanto mais luto,
Vejo-me tanto corrupto.

Já pedir um salvo conduto.
Quem sabe um indulto
Me faz bem menos bruto
E eu possa até dar fruto.

Conquanto os produtos,
Desse ventre tão fajuto
Serão por demais inculto
E darão, na certa insulto.

Não agüento esse furto
Assim sendo faculto
A quem queira frustro
Nem precisa consulto.


9 de fevereiro de 2008.

É PRECISO MUDAR TUDO PARA QUE NADA MUDE.

CANDIDATOS A PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS.

Os noticiários dos últimos dias têm dedicado muito atenção às eleições nos Estados Unidos. A corrida presidencial ao “posto mais importante do mundo”, domina os medias. Jornais, revistas, site e blogues destacam sem parar os episódios que podem decidir o futuro do próximo ocupante da Casa Branca. A nós, que proveito temos, em tanto interessa das mídias no futuro presidente norte-americano? A caminho do posto mais cobiçado do mundo, uma serie de questões, que interessam tanto a eles quanto a nós, estariam no centro de todo esse empenho jornalístico. A julgar pelo que vemos todos os dias e, se é certo que queremos fazer um melhor exame dos presidenciáveis, acreditando que temos interesses em comum, como crê a professora Maria de Aquino, eminência parda dos debates televisivos, estaríamos ai, na verdade, penso, nos enganando redondamente. O projeto americano de nação hegemônica independe do candidato que assuma em quatro de novembro. Uns mais ou menos conservadores não impor, todos asseguram, como bons norte-americanos, seu papel continuista de potência imperialista. Hillary Clinton, John McCain e Mitt Romney, que ainda resiste à disputa, diferem pouco entre si. Barak Obama, o estreante, conquanto pese sua inexperiência, profundamente explorado por seus opositores, usa o discurso reformista e engajado para atrair os eleitores. É inegável que o apelo por mudança nos rumos da política, conduzida até aqui com notável infelicidade por Bush pai, atraia tantos eleitores. Obama é um perfeito self-made man, que subiu na vida a despeito de todas as adversidades e revés. Filho de pai queniano e mãe americana foi criado na Indonésia e fez faculdade em Haverd. Seus discurso carismáticos seguem a tonica de outro líder, também muito popular, Martin Luther King. Porém, mesmo assim, não acredito em mudanças significativas na política de lá para o resto do mundo. O que poderá haver, caso Obama vença, é uma vitória simbólica de ideais. Agora dai até uma mudança significativa em posicionamentos como avanço industrial que mexe com questões ecológicas, equilíbrio na disputa entre judeus e palestinos, imigração latina, e principalmente, tolerância diplomática com o mundo árabes é vê pra crê. O embaraço americano, com as políticas de Bush, manchou a imagem dos lideres dos Estados Unidos e provocou a descrença em prováveis mudanças.

UM RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM – JAMES JOYCE

A história desse livro se confunde com a trajetória de seu autor. James Joyce (1882-1941) contava vinte e dois anos em 1904, quando escreveu um ensaio autobiográfico, para recém fundada revista Dana. O ensaio foi recusado pelos editores, que alegaram não poder publicar aquilo que não entendiam. Na verdade a objeção fio às menções a relações sexuais descrita pelo herói. Seja como for, Joyce resolveu trabalhar na continuidade do ensaio e transformá-lo em livro. Em 1914, dez anos depois, Um Retrato do Artista Quando Jovem chegava às suas páginas finais. Mesmo assim, o livro só veio a ser publicado dois anos depois em Nova York no ano de 1916. No seu primeiro romance, James Joyce descobre que podia se tornar um artista falando sobre o processo de se tornar um artista. No livro seguimos os passos do jovem Stephen Dedalus, alter ego de Joyce. Dos primeiros anos de sua vida à juventude libertária. Divididos em cinco capítulos, seus episódios variam na forma e no estilo para ajustar-se às diferentes idades e fases do seu herói. Diverso de tudo o que havia na ficção Inglesa da época, os romances típicos eram os de H. G. Wells e Arnold Benett, Joyce inaugura uma nova fase da literatura. O que nos faz pensar que a literatura escapa aos conceitos fechados e dogmáticos que muitos tentam impor. Seu caráter é sempre o da provisoriedade. Em Joyce a estrutura narrativa não mais se assenta em ações onde o impacto direto de um personagem sobre o outro tece o drama. O que vemos, ao contrário do que ocorria no romance comum, é uma descrição psicológica do personagem, como numa série de retratos e em estágios sucessivos de seu desenvolvimento. Joyce ainda introduziria largamente o uso do monólogo interior que enfatizava as ocorrências psicológicas no personagem. Com isso ele definiu um estilo, seguido de perto por muitos outros tantos autores como, Virginia Woolf e a nossa Clarice Lispector, que não escondia sua predileção pelo estilo psicológico à moda do Irlandês. A história do livro é contada sobre o ponto de vista de uma única personagem, Stephen Dedalus, que se move à deriva no mundo e parece fadado a um destino ordinário e macilento em Dublin, até fazer valer o vaticínio de seu nome e ganhar asas rumo a um novo destino, onde: “Estava destinado a aprender sua própria sabedoria independentemente dos outros ou a aprender ele próprio a sabedoria dos outros vagando entre as ciladas do mundo”. Além dos êxitos literários logrados com o livro, Joyce ainda livrou a literatura de heróis sensíveis. Finalmente, pudemos contar alguma história de emancipação moral e espiritual sem cair naquela pasmaceira romântica. Os cansativos personagens que povoavam as histórias de antanho, onde mocinhos trilhavam rudemente suas vidas e paixões até, que, eram por elas atropeladas, cedeu lugar a uma personalidade autodeterminante. Stephen Dedalus se reinventa. Lança-se em busca de sua aventura de escritor longe de casa da religião e de seu país. Rebela-se contra seu destino e tece sua própria trama. Uma lição e tanto para esses tempos, onde a vida passou a ser conduzida arbitrariamente, a revelia de seus entes, aos ditames da moda.

Nelson, de volta

Críticas positivas, relançamento de seus livros, campeão de apresentações no Brasil e encenações inovadoras no mundo inteiro, enfim, o prestígio atual de Nelson Rodrigues confirma o que eu sempre tive certeza: de que ele é um extraordinário criador.

Especialmente para

Nelson Vinicius Rodrigues

Desde que eu bati o olho nos quatro volumes do Teatro Completo de Nelson Rodrigues (Edit. Nova Fronteira), e acompanhando as resenhas magistrais do Prof. Sábato Magaldi (da Academia Brasileira de Letras, se é que isso confere alguma importância a alguém), o juízo favorável que fiz de Nelson nunca permitiu que eu o abandonasse, nesse tempo todo. Durante anos, passei pregando no deserto, mas a fortuna crítica desses últimos dois meses atesta o que alguns de meus inimigos debilóides nunca quiseram ver: que Nelson é um monstro sagrado não apenas de nossos palcos, mas de nossa literatura.

Fui duramente criticado, atacado, menosprezado por determinadas pessoas que estranharam em mim o gosto por alguém do “perfil” de Nelson. (“Aquele chato”, “aquele tarado”). Espero que agora, elas abandonem esse mar de ignorância e pulem para meu barco. O sucesso do “maldito” Nelson não existe porque eu quero, não foi uma coisa que eu inventei para justificar meu pensamento. Ele existe porque existe – independente de minha vontade. Eu só faço reconhecer. É o que Nelson mesmo chamaria de “óbvio ululante”. O óbvio que nem todo mundo que se diz pensar pela própria cabeça, enxerga.

Possuo três materiais recentes que garantem a importância e a perenidade do dramaturgo e jornalista. O primeiro, a edição especial da revista EntreLivros – Teatro Essencial. Dos gregos, passando por Shakespeare, por Molière até nossos autores modernos, como Mauro Rasi e Miguel Falabella, Nelson mereceu um capítulo especial, assinado por Marici Salomão. “De reacionário e obsceno a unanimidade nacional”. Aclamado desde os anos 40 ao escrever o hoje clássico Vestido de Noiva, diz ela, N.R. viveria nas décadas seguintes dias de glória, censura e fracasso. Após o período de ostracismo, é agora o autor mais encenado nos palcos do país e considerado o mais importante dramaturgo nacional. Além do texto primoroso, Denise Mota, em “A grande transgressão” explica aos iniciados por que Vestido de Noiva foi um marco, e, dessa forma, modernizando nosso palco. O texto de Marici é enorme, não tenho como reproduzir aqui. Ontem, tive outra surpresa. VEJA, em sua seção VEJA Recomenda, publicou uma única resenha de livro. Trata-se de A Cabra Vadia, supostas entrevistas que ele fazia com gente que tinha determinadas posturas, na década de 60. A Agir está publicando, aos poucos, toda sua obra não-teatral, outrora pertencente a Edit. Cia. das Letras, que não renovou a publicação das obras dele e eu já estou sabendo que ela será a responsável pela publicação de escritores como Jorge Luis Borges e cogita ter em seu catálogo as obras de outro Jorge, Amado. A Agir está pondo nas livrarias edições caprichadas de Nelson. Comprei Elas Gostam de Apanhar e vale quanto pesa. É um prazer ver uma editora nessas condições apostar na inteligência e na contundência feroz de Nelson. Diz VEJA: (trechos) “Celebrado como o dramaturgo que renovou o palco brasileiro com Vestido de Noiva, N.R. foi também um grande cronista, ao mesmo tempo conservador e irreverente. (...) O cronista está em sua melhor forma, debochando dos intelectuais de passeata (...)”. O valor do livro: R$ 54,90. Creio que dentro em breve, esse valor abaixe um pouco. Mas os admiradores de Nelson não questionarão o detalhe do preço, sabem que estão levando para casa algo de importância inestimável.

Vamos agora ao texto que mais me impressionou. A dramaturgia de Nelson no mundo. Uma reportagem de 4 páginas da conceituada Bravo! (mês de janeiro). “Subúrbio Globalizado”, por Carolina Braga (de Barcelona, Espanha). O texto traz peças de Nelson que serão representadas (ou foram, recentemente) de maneira altamente inventiva, com atores estrangeiros e diretores idem. Senhora dos Afogados, por exemplo, foi representada ano passado em Londres. (Our Lady of the Drowned). O resultado da encenação foi sucesso de crítica, apesar de o público ter se dividido entre amor e ódio. Sabemos que o diretor faz da peça o que bem entende. E Kwong Loke pôs uma parede de plástico no centro do palco, para dar ênfase ao plano alucinatório do texto mítico. Em 2004, em Luxemburgo, franceses, portugueses e ucranianos apresentaram O Beijo no Asfalto (Le Baiser L ‘Asphalt). Em 2005, Valsa n. 6 foi encenada na Inglaterra, por Franko Figueiredo. “É algo que pode ser apresentado em qualquer lugar do mundo”, diz ele. Além da Inglaterra, essa peça teve uma montagem na Bélgica e duas na França.

Para a pesquisadora Ângela Leite Lopes, (que mudou-se para Paris para escrever sua tese de doutorado em cima do teatro rodriguiano), autora de Nelson Rodrigues: trágico, então moderno, “o que atrai o interesse estrangeiro para as peças dele é o domínio que o autor tem da carpintaria teatral”. “Para um diretor, o mundo fantástico e imaginário das peças de N.R. sempre oferece grandes possibilidades no palco”, é o que fala Kwong Loke, que quer levar Toda Nudez será castigada a Londres. Franko Figueiredo foi convidado a levar sua companhia, a “Caramel Box” em 2009, e Valsa n. 6, para o Japão.

Isso tudo é o mínimo. Muita coisa boa está acontecendo com o legado de Nelson Rodrigues e eu ainda não estou a par. Trata-se, em última análise, da importância universal de um grande autor, “pornográfico”simplesmente, para muita gente e gênio para os poucos que entenderam sua alma inquieta e gigantesca.

NAVEGANTES AO MAR RECOMENDAM:

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Toda Nudez Será Castigada, na montagem do “Armazém Companhia de Teatro”, RJ, na apresentada no dia 07/07/2007, no “Teatro Dom Silvério” do Chevrolet Hall, Belo Horizonte.

Por Teo

Como teatro é minha grande paixão, vou indicar cinco das peças que mais me marcou, de cinco gigantes do teatro brasileiro.

1. TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (1965), Nelson Rodrigues

Depois de ficar viúvo da única mulher que amou na vida, o milionário Herculano passa a viver um grande dilema: a paixão avassaladora pela escachada Geni, provavelmente a prostituta mais célebre da dramaturgia brasileira. Os problemas são o irmão, um parasita que vai chantagear a moça – já sua conhecida – a tirar proveito da situação, um filho adolescente fresco, que vingará o pai porque nunca permitiu que este se relacionasse com mais ninguém e as tias (sempre elas), que no teatro rodriguiano só servem para pôr mais lenha na fogueira. Só na cabeça de um Nelson Rodrigues uma história dessa dimensão poderia ser tão extraordinária. “Toda Nudez” é uma de suas obras-primas. Adaptado para o cinema em 1973, fez com que d. Darlene Glória fosse mundialmente conhecida, no papel de Geni. É o filme mais lembrado de Arnaldo Jabor e segundo a crítica, a melhor versão de Nelson para as telas. José Lino Grunewald escreveu, à época, uma crítica em que era plenamente favorável ao filme, embora lamentasse os cortes impostos pela censura. Memorável.

2. DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA (1967), Plínio Marcos

Imagine aí dois camaradas completamente diferentes, arruinados, lascados, que são obrigados a dividir o mesmo quarto, de quinta classe. O problema é que eles se odeiam e as chantagens, as pirraças, as agressões provocarão as reações mais surpreendentes. E em se tratando de outro maldito, Plínio Marcos, já se sabe que vem encrenca por aí. Escritor do submundo, dos marginais, recebeu maior influência de Nelson Rodrigues, a quem Plínio considerava “um poeta do teatro”. Um par de sapatos, um alicate etc., serão quase que protagonistas dessa peça de apenas 2 atos. O texto, porém, é muito mais vigoroso do que o filme homônimo, que trouxe Débora Falabella e Roberto Bontempo, como os protagonistas, arruinados (e nos Estados Unidos). No texto original, moram numa espécie de periferia e são, repito, dois homens, Paco e Tonho.

3. O BEM-AMADO (1968), Dias Gomes

O maior dramaturgo baiano consagrou-se com a excepcional “O Pagador de Promessas”, grande sucesso do Teatro Brasileiro de Comédia, em 1960. Mas as histórias da lendária Sucupira e do inescrupuloso Odorico são de rolar de rir, o que me obriga a incluí-la nessa lista e é, na minha opinião, o melhor texto do teatrólogo, morto em 1999. Ferreira Gullar assina um prefácio magistral na edição publicada pela Ediouro. Além desse texto, uma introdução do próprio Dias, explicando que imaginou essa “farsa-patológica” em 9 quadros, depois que leu no jornal uma reportagem na qual um político qualquer prometeu que inauguraria um cemitério de andar. Em Sucupira, o prefeito está doidinho para inaugurar um, mas o problema é que não morre ninguém. Quando se descobre que nas redondezas há um sujeito nas últimas, todo o esforço é válido para que a obra finalmente saia. Ninguém deve morrer sem ler “O Bem Amado”. Virou novela e seriado, na Globo. Quando a direção achou que a história já havia cansado (de 1980 a 1985 no ar) e que teria de acabar, Jorge Amado enviou um telegrama diretamente a Roberto Marinho, para que ele reconsiderasse. Não teve jeito.

4. AUTO DA COMPADECIDA (1956), Ariano Suassuna

Ariano Suassuna se ressentia da “Compadecida” ser conhecida do grande público somente depois de virar filme, em 1999. Ela existia há 40 anos. A malandragem, a esperteza, a ingenuidade dos sertanejos estão retratadas nas figuras de Chicó e João Grilo. Protestante convertido ao catolicismo, Ariano via uma beleza magnífica na fé católica, mas não poupou a Igreja de seus abusos, como na disputa do padre contra o bispo, por dinheiro. João Grilo passará pelo julgamento e topará com Jesus de um lado e o Diabo, do outro. O personagem entre a cruz e a espada. Uma sátira à usura, à hipocrisia e à bajulação aos poderosos, representados na figura do coronel Antonio Moraes. Henrique Oscar, crítico, conta que o mérito do autor nesta peça foi “elevar o regional, o local ao universal”. É baseada na cultura popular, “nas histórias que o povo conta” (cordéis), mas o dramaturgo paraibano recebeu influências de Plauto, Gil Vicente, Lope de Vega etc. Coisa finíssima.

5. O BOI E O BURRO NO CAMINHO DE BELÉM, (1953) Maria Clara Machado

Nossa maior autora teatral infantil. Entre suas grandes peças, eu aponto “A bruxinha que era boa” e “O Rapto das cebolinhas”. Ela dá o encantamento que toda criança necessita. Todos os grandes críticos que li a engrandecem. De seu teatro, o “Tablado” saiu muita gente de peso. Essa historinha deve ser representada no Natal. O boi e o burro, nessa “farsa-mistério” em 1 ato, se apavoram, ao constatarem que no lugar imundo onde estão, descerá o menino Jesus. Os dois, às pressas, vão organizar o ambiente para receberem o Menino com a dignidade que eles podem dar. Napoleão Muniz Freire, nome de alto relevo de nosso teatro, participou como o Pastor. O deslumbramento é intenso apenas lendo. Vista, então, deve ser encantadora. O pano cai com “Noite Feliz”. Emocionante e divertida sem ser superficial.

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5 POR 4

Navegantes ao Mar convida 3 de seus mais ilustres colaboradores, para elencarem 5 obras que, mudaram sua relação com a literatura e com o mundo. Adiantamos que essa é tarefa para cardíacos. Quem ama literatura, dificilmente restringe, a um rol tão pequeno seu gosto pessoal. Disso todos sabemos. Porém, mesmo difícil essa não é tarefa impossível. Há sempre um lugarzinho especial para esse ou aquele autor em nossa vida. Com isso pretendemos conservar acessar ou botar a prova nossa relação com essas cinco obras. Quem sabe elas não se mostrem efêmeras ou, pelo contrário, mais vivas do que nunca, quando olharmos para essa enquête daqui a alguns anos. Para tanto, elegemos como juiz de nosso teste o melhor e mais sábio dos julgadores, o tempo. Esse senhor que nasce conosco e segue-nos até o fim. O primeiro há escrever suas cinco obras fundamentais é meu amigo e irmão Teo Júnior. Os outros, Teo Poeta e Eudes Marciel julgarão a sua própria hora de contribuírem para o site. Muito obrigado a todos.

A volta da voz despida de João Cabral de Melo Neto


Em que pese o seu proverbial apego a razão consciente na hora de fazer poesia - algo profundamente estranhado por quem só conhece os lacrimosos versos de um poeta romântico- a obra de João Cabral de Melo Neto, volta a ser reeditada, dessa vez pela editora Alfaguara. Já não era sem tempo. Desde a partida do nosso maior poeta, em 1999, apenas algumas edições de Morte e vida Severina e outro poemas para vozes, haviam sido editados, pela detentora dos direitos de publicação, a editora Nova Fronteira.

Agora, desse segundo semestre até o ano que vem as livrarias de todo Brasil terá novamente em suas prateleiras os versos pungentes e corrosivos do autor de Uma faca Só Lâmina. O primeiro dos títulos, que abre a série, já está nas livrarias, e se intitula O Artista Inconfessável. Um decalque do título de um de seus poemas do livro Museu de Tudo, obra de 1974.

Trata-se de uma reconha (já que não existe nada inédito na obra do autor) dos poemas que “mostram uma faceta mais familiar e intimista” do poeta; anuncia a orelha do livro. Nada mais irônico. A vida inteira João Cabral lutou por enxugar da poesia os excessos subjetivos que a tradição romântica popularizou. Isso lhe valeu, erroneamente, o título de poeta hermético, árido, e outros tantos adjetivos equivocados. O que de certa forma denuncia, a meu ver, certo estado de comodismo e inércia de alguns leitores, que não souberam reconhecer que a poesia de João Cabral, além de rica é desafiadora.

Seu talento, posto a prova, contra o servilismo dos que só fazem poesia inspirados por uma voz inconsciente, alargou as fronteiras do oficio poético, ao assumir o desafio maior de fazer poesia à contra pêlo, “seu perfumar a rosa e sem poetizar o poema”. Obra de quem vive inteiramente seus ideais e convicções intransigentemente, para bem de seu oficio.

FILHOS, CONFORMEM-SE: SEUS PAIS NÃO FORAM PIORES DO QUE O DE FRANZ KAFKA


“Acho Kafka mais difícil de ler do que Joyce”. O comentário poderia intimidar a uns, menos a mim, por mais que tivesse partido de Paulo Francis, em seu “Diário da Corte”. Acabei de ler um dos textos mais significativos e agradáveis da literatura mundial, embora o autor não tivesse a pretensão de ser uma carta particular dessa um escrito literário – e, por isso mesmo – fascinante. Trata-se das “Cartas ao Pai”. Foram 50 folhas escritas no espaço de dez dias. É um texto pequeno. Transformado em livro, juntamente com pequenas biografias, posfácio etc., não chega à página 100.

Eu paro um momento e começo a olhar pra Kafka, na foto da primeira orelha. Para os padrões de 1924, até que não era de se jogar fora. Aquelas orelhas emborcadas lhe conferiam um certo, digamos, charme. Mais parecia um menino carente e sofrido. Antes de ler o livro, pensei olhando sua foto: “Não deve ter faltado mulher pra esse cara”. Pois não faltou, mesmo. Duas moças topariam se casar com ele, no duro, caso a besta do pai dele permitisse.

Alguns podem achar ser esta uma carta rancorosa. Não parece. É toda a verdade e todo o cinismo do pai demonstrado de maneira sucinta e didática. Um texto leve e muito bem escrito. Estranha, porém, a maneira como ele se refere ao pai, sr. Hermann Kafka. Ora “querido”, no início – mas no decorrer da carta, sempre “você”. Kafka chega a dizer que se sentia um mané perto do pai. “Da sua poltrona você regia o mundo. Sua opinião era certa, todas as outras extravagantes”. Bruto, irônico, com um humor cáustico, a personalidade do pai é traçada em pormenores que prendem o leitor do começo ao fim. Humilhou-o, porém, uma atitude do pai: um belo dia, este jogou-lhe na cara que outrora havia passado privações, que trabalhara dia e noite, para dar-lhe um sustento digno, enquanto Kafka desfrutava desse trabalho, “vivendo à larga”. É duro ou não é?

Medo – Toda a carta fala do medo que Kafka, desde cedo, sentia e que o acompanhou por toda a vida. O pai sabia disso e quis descobrir a razão. A resposta está logo nas primeiras folhas. Talvez a grossura do pai quisesse transferir a ele segurança. “Você só pode tratar um filho como você mesmo foi criado, com energia e cólera. (...) Nesse caso, isso lhe parecia adequado, porque queria fazer de mim um jovem forte e corajoso”. Resta agora saber se isso foi bom para o filho. Os pais geralmente fazem as piores m... acreditando serem atitudes excelentes aos filhos. Só que não são coisíssima nenhuma.

Vergonha e casamento – Proprietário de uma loja, o patriarca tratava a todos os empregados – sem exceção – como cachorros pulguentos. “Isso muito me envergonha”, escreveu o filho. A capacidade de sentir a dor do outro o fazia sofrer. Foram inúmeras ocasiões em que o pai expôs Kafka às decepções, muitas vezes em público. Pois bem: Kafka achava que um homem tem de ter mulher e filhos e sossegar. Engraçou-se com duas moças. Noivou, desnoivou, ficou com outra, gostou de uma outra etc., mas o pai jamais quis um casamento. Outro dia, esse bronco ofendeu uma de suas noivas porque ela era de condição inferior à deles. “As duas moças foram de fato escolhidas por casualidade, mas extremamente bem escolhidas”, Kafka disse.

Como meu “pai” Nelson Rodrigues, o grande escritor fora tuberculoso, internou-se num sanatório e lá mesmo morreu, com 40 anos de idade. Vale a pena conferir sua obra, das mais inquietantes da literatura universal, como “O Processo” e “A Metamorfose”. O único sentimento que tenho é saber que a carta jamais fora enviada, por razões até hoje no campo das hipóteses. Faleceu em 1924 e seu túmulo se encontra num cemitério judaico em Praga, capital de República Tcheca e ponto final.

Lira dos Oitenta e Cinco anos

No último dia 16 o escritor português José Saramago completou 85 anos de vida. Na esteira das comemorações sopramos ainda velinhas para os 25 anos da publicação de Memorial do Convento (1982) livro que tornou o escritor um nome incontornável.

Esse fato passou despercebido por nossos antenados cronistas literários, que não deram uma nota sobre o aniversário do até hoje único autor em língua portuguesa, ganhador do prêmio Nobel de literatura. E lá se vão nove anos.

Seria esse fato um simples lapso ou uma demonstração de desprezo pela obra do mais original e criativo escritor da atualidade? No Brasil, aparentemente, o autor de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, sempre gozou de muito prestigio. Apesar de muitos críticos possuírem um olhar enviesado, para o modo pessoal e intransigente com que Saramago trata sua obra.

Saramago, por exemplo, não permite “traduções” do português, habitualmente praticado em Portugal, para o português do Brasil. Sua escrita, para preservar certa oralidade não se vale dos parágrafos e pontuações comuns em todos os textos. As falas dos personagens se entranham em meio a narrativa, distinguidas só por iniciais maiúsculas. Salvo os devidos excessos isso não é um grande empecilho a leitura de seus livros, sempre carregados de muitas reflexões sobre o mundo atual.

As queixas dos críticos contra a forma estilística adotada por Saramago não rendeu do público o mesmo espanto. Mas valeu do autor certo estranhamento de como o exame de sua obra está sendo superficial. Não raro essas querelas desviam o espírito das discussões verdadeiramente mais valiosas e tendem, erroneamente, a manter o público ainda não leitores do autor, numa distância respeitável.

Quem, no entanto, teve o prazer de lê-lo sabe que o que realmente vale em sua obra é o espírito inconteste, e permanentemente viçoso de seu questionamento à ditadura da normalidade. Suas obras alertam sempre para algo suspeitoso e fingido das instituições, dos homens, da moral e do encolhimento perante o alheio.

Saramago continua essencial e seus livros são incontestavelmente a centelha de lucidez em meio à loucura desse mundo.

Em arte toda revolta é um ato de inteligência

[Em cima: A Virgem Castigando o Menino Jesus perante três Testemunhas: A. B. (André Breton), P. E. (Paul Éluard) e o Artista (1926), de Max Ernst.]

Os primórdios do cinema



Os irmãos Lumière

Quando os irmãos Lumière transformaram uma rudimentar máquina fotográfica em uma câmara de vídeo, no final do século XIX, eles não imaginavam que estariam criando a maior invenção do século.

O cinema nascia assim, da despretensiosa curiosidade e inventividade de dois irmãos franceses, que desacreditaram desde o inicio do futuro de seu novo invento. Auguste e Louis Lumière foram os precursores, mas o cinema só passou a ser entendido como arte, quando o talento prestidigitado de Georges Méliès (1861-1938) entrou em cena.

Pioneiro na recriação de cenários, figurinos, maquiagem, Méliès, opõe-se ao documentarismo e faz as primeiras obras de ficção: Viagem à Lua, A Conquista do Pólo. Ainda, descobriu as potencialidades de (re)crição oferecidas pelo cinema. De repente, o homem passa a ser mais do que ele é mesmo e ganha os céus. As fronteiras para qualquer ação passam a ser então os limites da imaginação com que cada homem é dotado. Orientado na busca de mundos fabulosos, até então inacessíveis, o talento de Méliès, unido a invenção dos Lumière nos dar a possibilidades de romper fronteiras na exploração de novos mundos. Mas tarde passaríamos a explorarmos a nos mesmo. Tudo isso graças a uma idéia na cabeça e uma câmara na mão.

De pequenos documentários e ficções a linguagem cinematográfica se desenvolve, criando estruturas narrativas cada vez mais apuradas. Deve-se ao norte-americano David W. Griffith (1875-1948), essas inovações. Por suas contribuições ao cinema, ele é considerado o criador da linguagem cinematográfica. Griffith deu mobilidade às ações até então teatrais demais na tela de cinema. Foi ainda o primeiro a utilizar a montagem paralela, os close, que davam mais dramaticidade e suspense na hora de contar uma história utilizando-se apenas imagens.

A esses homens maravilhosos é suas máquinas devemos toda tradição do cinema. O que se produziu em seguida, as inovações posteriores, não seriam nada sem o talento, a imaginação, a criatividade e a ousadia desses pioneiros.