DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES


Aprecio a todas indistintamente. Mães, filhas, avós, tias ou primas. Seja qual for o parentesco, grau de amizade ou lugar na política ou na profissão, tenho-as na conta de grandes e invejáveis seres. Rende-lhes homenagem durante um único dia é pouco. Por tudo que são e representam mereciam incontáveis dias de culto. Se, no entanto, esse foi o dia elegido para venerá-las publicamente, lembremos que os demais são para admirá-las em silêncio. Que é quando nenhum exibicionismo alegre mascara nossas reais intenções. Parabéns a todas as mulheres por mais um dia.

POR ONDA ANDA O ESTADO CIVIL?

Um dos blogs que mais leio, há um mês deixou de postar com a mesma periodicidade de sempre me deixando desolado. Desde então ao entrar nele o que vejo é a mesma e modorrenta postagem de trinta dias atrás, e nenhum sinal de retorno. O Estado Civil terá saído definitivamente da blogosfera? Custo a crer. Espero que sua ausência seja momentânea. Habituei a leitura diária das muitas e deliciosas tiradas envenenadas do senhor Pedro Mexia. Não compactuo com muitas de suas posições, principalmente políticas, mas não nego sua verve indômita e seu animo sempre aceso para discuti-las, sempre de um ponto de vista desconcertante. Faz-me falta essas discussões. Muito mais, faz-me falta suas críticas de obras literárias, vizinhas da lucidez completa e definitiva.

A MAIOR DAS VAIDADES

Os Amantes - René Magritte
Existem mil maneiras de se demonstrar afeto por alguém. Nenhuma delas é tão dispensável como o ciúme. Seria bem melhor que ele não existisse. Yago não teria veneno para destilar. Mas para maioria das pessoas, e para as mulheres em particular, não bastasse o fatídico desfecho de Desdémona, o amor só é realmente validado, endossado, e devidamente sacramentado quando um dos parceiros inchar-se voluntariamente contra o outro, porque esse olhou mais o que o normal para aquele, querendo se fazer notar mais do que qualquer pessoa. É provável que tal fato fique a dever-se mais ao egoísmo pessoal, do que a qualquer sentimento de zelo. Nada pode ser mais vaidoso do que o ciúme. O ciúme infertiliza promissores relacionamentos. O ciúme nos priva da razão. O ciúme cega. Infantiliza a relação. O ciúme esteriliza os abraços. Perturba e inquieta. Por tudo isso é que ele se constitui desnecessário.

PREFIRO ANTES O SOSSEGO DA "ROÇA"


Há muitos inconvenientes em se viver numa província, é certo. A tagarelice política, os mexericos sociais, a embriaguez religiosa e tutti quanti. Nenhum deles, no entanto, encarece o sossego de acordar vinte minutos antes do inicio do trabalho, sem se sentir desassossegado com isso. Quem vive nas grandes cidades sabe do que estou falando. As metrópoles, insaciáveis em seu gigantismo, não permitem a indolência do sono reparador, essencial para vida.

A INDISCRIÇÃO DE UM ARTISTA

A Origem do Mundo - Tela de Gustave Courbet

Há quem se horrorize com esse quadro, já posso até ouvir as suas vozes. Também, não poderia deixar de faltar, há os que façam dessa mesma cena um ato de exploração sensacionalista e maniqueísta, em todos os sentidos, imperdoável. Nunca foi segredo o gosto dos artistas em reproduzirem homens e mulheres assim como vieram ao mundo. A nudez sempre foi muito apreciada na arte, como em alguns lugares inomináveis. Desde os gregos até os séculos mais conservadores essa prática foi aceitável, difundida e reproduzida ad nausea, afinal, era o ideal de beleza e estética que se queria. Mas, um olhar mais profundo sobre essa arte pos-coubertiana, e ela se revelará comedida e muito discreta. Ao figurar as partes pudendas do homem e, da mulher em particular, sempre se teve a preocupação em representar o sexo de forma deturpada, escamoteada e por vezes tristemente fingida. Os homens frequentemente tinham uma discreta folha a cobri-lhe as vergonhas. Enquanto que a genitália feminina não passava da continuidade da pele da barriga, uma representação quase que assexuada. Desse modo, preservava-se a um só tempo, a busca pela perfeição estética, almejada por muitos, e o eterno desejo voyerista que sempre acompanhou o homem, sem ferir as convenções morais, religiosas e sociais, e sem desonrar a sociedade. Gustave Courbet (1819-1877) pintor anarquista francês, dono de um incontido desejo de provocar, dispensou, como se pode ver, qualquer acessório e pintou de forma visceral aquilo que até então era dissimulado nas academias de arte e preservado a custo na intimidade social. Claro está que ele foi acusado de pornográfico, imoral e outros tantos adjetivos desqualificativos que serviram para tornar esse arrogant bastard em mais um pária da sociedade. Sua postura iconoclasta, no entanto, serviu para dessacralizar a falsidade vigente na arte e na sociedade. Além de tudo a tela de Courbet serviu e serve ainda como combustível de um caloroso debate entre os limites entre arte erótica e pornografia. Esse é um debate para próximos post.

O APAGÃO DA CLARO


Ao cabo de engrossar as fileiras dos antenados digitalmente, encontro-me mais atrasado do que antes. Isto, porque o pretenso aparelho de internet móvel, que prometia encurtar meu torrão natal com a Conchichina, empaca na primeira tentativa de acesso com meu amigo do outro lado da rua. Abrir mais de uma página ou baixar qualquer coisa é impossível. Sinto-me, sinceramente, cansado de tanta sacanagem. Estou farto dessas empresas sebosas e dissimuladas, que abusam da boa fé dos clientes para venderem promessas falsas. Estou pensando em adotar, em caráter precário, o velho barbante e uma lata atada por um furinho, para mandar a Claro pros quintos dos infernos.

EMPALIDECER A SOMBRA


Essa postagem aqui, do meu amigo Teo, provocou, depois de longos dias passados, um delicado leitor, que se sentiu ofendido pelas palavras certeiras de Teo sobre Caetité, sua terra natal. Tanta celeuma se deu por conta de que Teo, com toda razão, se cansou do marasmo, da mesmice e do torpor Caetiteense, e num ato de coragem, tomado por poucos, resolveu encarar a vida sem lenço e sem documento feito um Rimbaud. As pessoas não toleram os tipos que não se ajustam como elas, completamente a domestificação. Escudados por um pretensioso bairrismo, que eles se esforçam em demonstrar, como se isso fosse sinônimo de preocupação com o lugar e com as pessoas, esses zelosos intrépidos dos portões da cidade, quase sempre fazem vistas grossas as maledicências políticas ou receberam alguma sinecura, que não lhes deixam nenhuma dúvida sobre as belezas dessa cidade.

CORAÇÃO VAGABUNDO

Maysa (1936 - 1977) em ação

ARQUIVO LIRA NETO/MAYSA - SÓ NUMA MULTIDÃO DE AMORES
2. FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO

CORAÇÃO VAGABUNDO

Quando fala o coração de Maysa Matarazzo

Terminada a minissérie "Maysa - Quando fala o coração", o que se comenta é a disparidade entre o que foi apresentado e a biografia da cantora Maysa - que lhe deu origem. (Quem leu o livro notou). Apesar de ter sido dirigida pelo filho dela, Jayme Monjardim, o que poderia dar ares de parcialidade, a minissérie foi feliz. A meu ver, o diretor afastou-se (sofrivelmente, óbvio) o quando pode da mãe e encontrou-se com a grande artista que foi Mysa.

Tive a grata satisfação de dizer a Lira Neto, jornalista e autor de "Maysa - Só numa multidão de amores" (Edit. Globo) que seu livro é excelente. A obra não traz a história de uma personagem apenas, mas é um passeio pelo universo da melhor música já feita no Brasil. Ninguém ficou de fora. Ainda que não fosse uma grande cantora, Maysa já merecia uma biografia, porque se trata de uma mulher íntegra, mas ao mesmo tempo transgressora, uma odiada, uma agredida, uma Janis Joplin, alguém que fez da vida o que bem quis -- o que talvez explique suas fossas e sua irremediável solidão.

A cantora, em início dos 60, por exemplo, já famosa, flertou com a recém-nascida Bossa Nova, que ganharia, pouco tempo depois, adeptos como Nara Leão, por exemplo. Algumas das interpretações de Maysa , sereníssimas, do tipo "pois há menos peixinhos a nadar no mar / do que os beijinhos que darei na sua boca (...) dentro dos meus braços / os abraços" (Chega de Saudade) ou então "o barquinho a deslizar, no macio azul do mar / céu tão azul, tudo isso é paz / tudo isso traz / uma calma de verão (...) a tardinha cai" (O Barquinho), contrastam -- e muito -- com o seu temperamento explosivo e amargo, de mundo caindo e garrafa voando.

Maysa Figueira Monjardim Matarazzo (principalmente Matarazzo) foi cantora de sucesso, como já vimos, embora seja pouco lembrada como compositora. Revelou-se com o samba canção "Ouça", dela, em fins da década de 50. Suas letras -- analisadas com toda seriedade -- não são extraordinárias como, por exemplo, as de sua amiga Dolores Duran, a autora da maravilhosa "A Noite do Meu Bem", canção que, inclusive, fora gravada por Maysa. As letras dela não são geniais, mas também não são supérfluas. Trazem a sua angústia, sua tristeza, sua inquietação interior. Ela jogou em seus inúmeros diários a mesma substância que sua contemporânea Clarice Lispector lançou em seus livros. Trata-se de um universo particular -- porém admirável.

Maysa fora vítima de seus próprios excessos. Viveu quarenta anos. Sua coleguinha (e arquiinimiga) Elis Regina, outra que se foi tragicamente, viveu trinta e seis.Esse pessoal não dura muito. Maysa fora infinita enquando viveu. A melhor interpretação para o clássico "Ne me quitte pas" (Jacques Brell), um mundo dentro de uma pessoa que ousa cantá-la, ainda é o da brasileira Maysa. Ela foi parar, inclusive, no filme "A lei do desejo" (1987), de Pedro Almodóvar, com Antonio Banderas. (Alguém aí viu?). A mulher que cantava "só digo o que penso / só faço o que gosto" era alcóolatra, e faleceu em janeiro de 1977, num acidente estúpido, que deixou sua brasília azul em petição de miséria. A perícia analisando o cadáver, constatou que ela morrera sem uma gota de álcool no sangue. Para tapar a boca daqueles que um dia a difamaram, dos que queriam vê-la pelas costas, daqueles que invejaram sua mansão e seu prestígio, dos que a sepultaram em vida. Até na hora da morte Maysa se manteve digna.

Por essas e outras é que Maysa não fora qualquer uma.

A AMÉRICA VISTA DE FORA... E DE DENTRO?

Hope?
(Navegantes ao Mar manda carta a uma amiga na América)

Então fala-me lá de sua temporada na América. Que impressões, marcas e sentimentos esses dias lhe revelaram. Vista de fora a América e os americanos desperta-nos, como você mesma provavelmente já sentiu, sentimentos ambíguos irreconciliáveis. Se de um lado vibramos e exaltamos seu exemplo de superação tão bem ilustrado nos últimos dias com o novo presidente. De outro, condenamos a paixão dominante dessa nação em adquirir todos os bens desse mundo, a qualquer preço. Quando os homens, afirmava Tocqueville, não estão ligados entre si de maneira sólida e permanente, não é possível conseguir que um grande número deles aja em comum, a não ser que se persuada cada um daqueles cujo concurso é necessário de que seu interesse particular (grifo aqui de negrito essa frase porque penso que é esse o valor mais difundido na América e por extensão ao resto do mundo) o obriga a juntar voluntariamente seus esforços aos de todos os outros; na esperanças de um mundo verdadeiramente justo e fraterno. A desagregação dos valores, a lassidão nos negócios, o desrespeito às diferenças, as imposições e violência da América ao resto do mundo, ofusca muito de suas qualidades, notadamente muito esquecidas nos últimos anos. Não há nada, à primeira vista, menos importante aos americanos do que a consolidação de sua liderança no resto do mundo, arranhada pelas recentes trapalhadas de Bush pai. Portanto, minha cara amiga, não comungo, com a opinião corrente, de que a ascensão de um novo presidente, tão coberto de louros, mudará os rumos da política expansionista dessa nação. Já vimos algo muito parecido com isso por aqui. Conte-me você como sente as mudanças que prometem abalar as estruturas do mundo.

UNIVERSO PARTICULAR


O jornalista Lira Neto, autor de Maysa - Só Numa Multidão de Amores, teve acesso à vasta obra da cantora, seus diários, sua coleção de revistas. (Na foto, a carteira de identidade de Maysa)

O PÃO E O CIRCO DE SERGIPE


O BRILHO DA ESTRELA Maria Rita cantando "Tá Perdoado" na Orla: dinheiro sujo?

REVÉILLON PICARETA? DEUS ME LIVRE!

Todo mundo sabe que sergipano é chegado numa farra. E se for com dinheiro público - dele mesmo, portanto - melhor ainda. Por exemplo, o prefeito Edvaldo Nogueira (PC do B), "indefeso", molenga, capacho do governador Déda (PT), tomou posse nesse dia 1. Houve cerimônias, etc. etc. Ambos já foram acusados de gastos escusos, inclusive com verbas que serviram para alavancar a candidatura de Déda a governador, há dois anos. Todos os artistas contratados para a festa tristemente chamada de "PT Caju"disseram que receberam bem menos do que se divulgou. Os números não batem e aí tem treita...Na campanha pare prefeito-- de onde saiu reeleito Edvaldo, esse ano, os adversários não perdoram e humilharam literalmente Edvaldo, lembrando o espisódio dos desvios. Edvaldo, bobinho, dando uma de "bom moço", de vítima, justificava-se nos debates alegando que não iria apelar para a "baixaria" nem para o "desespero". Favorito nas pesquisas, no fim das contas, a tática funcionou e ele levou no primeiro turno.
Ele responde pelos desfalques do governdor porque os dois são unha e carne. As presepadas de um caem nas costas do outro, inevitavelmente. Esta denúncia do showbizz de Sergipe foi feita pela revista VEJA, na reportagem "A Micareta Picareta", que tanto incomodou o governo, porque a matéria poderia melar a reeleição de Edvaldo.
Pronto.Todo mundo ganhou, de modo que em Sergipe está tudo azul. A prefeitura, para retribuir o carinho, bancou neste fim de ano o "Revéillon - Caju", com as presenças de Maria Rita grande cantora e do medíocre Alexandre Pires. Diz minha vizinha Lúcia, quando soube que seria Maria Rita a atração: "Não é ninguém, não!". Segundo ela, Maria Rita não vale a passagem do ônibus. Ela preferiria Eduardo Costa. Quem agüenta?
Maria Rita, como sempre, estava deslumbrante. Interpretou "Tá Perdoado" como só ela mesma é capaz. O réveillon, claro, nõ foi dos piores, mas quando a gente imagina que uma grana alta pode ter ido para o ralo, indevidamente, dá uma tristeza... Será que as verbas do réveillon do PT foram ilícitas? Não duvide...
Mais de trezentas mil cabeças receberam 2009 em Sergipe na Praia de Atalaia (Av. Santos Dumont), Aracaju.
_____________________
Obrigado a todos vocês que me leram aqui no blogg no ano passado. Em 2009, vão me lançar. Não sei de que andar.
JÚNIOR

TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA


UMA certa vez, no 1. ou 2. ano colegial, mencionei a uma colega o nome de Cartola, e lhe perguntei se ela o conhecia, no que ela fora rápida na resposta: "Cartola? Era algum mágico, por acaso?". Evidentemente, a resposta trouxe uma ignorância. Ela não fazia a mínima idéia de quem fosse -- como todo mundo hoje, honrosas exceções.

Eu vivo no pior estado da federação. O artista mais importante para os sergipanos não é sequer um indivíduo e sim uma banda de forró. Trata-se de Calcinha Preta. Roberto Carlos aqui morreria de fome e ninguém que eu conheça pagaria, em são consciência, um café num disco de Tom Jobim. A pergunta que eu faço é a seguinte: como falar de Cartola para mentalidades dessas?

Uma das razões pelas quais eu sinto amor pelas artes é o fato de alguns poucos homens se fazerem importantes, se elevarem, se imortalizarem. É quando o talento de um indivíduo atinge um patamar quase que intocável. É como se ele não fosse humano, não fosse de carne e osso. Cartola, para mim, consta nessa galeria.


Angenor de Oliveira -- é Angenor e não Agenor -- (1908 - 1980), era negro, pobre, foi um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco nem amigos importantes, nascido no morro carioca etc. Dadas as condições que um sociólogo explicaria melhgor, Cartola sairia um deliqüente de primeira ordem. Ele teve pouco, muito pouco. Merecia mais. Chegou a realizar trabalhos incompatíveis com seu enorme talento (há os que o chamem de 'gênio'), como lavador de carros, chegou a ser pedreiro, etc, essas coisas que os menos dotados de espírito fazem. Consta que nem a casa onde morava adquirira com seus proventos, e sim de uma doação.


Angenor, gente de bem, macho, trabalhador, marido de D. Euzébia (popular Zica) e sobretudo poeta. Faria 100 anos neste mês (outubro, quando escrevi o texto). Graças ao Bom Deus, a data não passou despercebida dos tabaréus, que, se não conhecem seu repertório, sabem agora, ao menos, que ele chegou a existir.


Quem prestar bem atenção às suas letras, vai constatar que ele escrevia de maneira simples -- mas comovente. Músicas de um lirismo levado às últimas conseqüências, não isento de súplicas, de queixas, de desânimo. Nem Cazuza, no auge de sua porra-louquice, resistiu a ele e gravou a terna "O mundo é um moinho", de 1974, sua obra mais bela. É mais ou menos um conselho de um homem maduro, já experimentado, a uma mocinha inexperiente e amorosamente iludida por outrem ("Mal começastes a conhecer a vida (...) Embora eu saiba que estás resolvida (...), preste atenção, querida...", deixandoo eu-poético a ver navios ("já anuncias a hora de partida"). Um conselho, um sermão tranqüilo, e não desesperado, aquele velho rogar de praga, levado às raias do sublime.


Sua vastíssima produção vem sendo descoberta por Alcione, Zeca Pagodinho, Vanessa da Mata, Ney Matogrosso e outros que não me recordo no momento. Ele teve a grata felicidade de, já velho, ver suas belas letras gravadas na sua própria voz, quando foi lançado seu primeiro disco, lá por meados da década de 70.


Outras pérolas suas são "As rosas não falam" (a mais terna declaração de amor que uma mulher já recebeu de um homem), "Tive, Sim", "Acontece", "Chega de Clamares Inocência" (esta a irmã gêmea de "O mundo é um moinho") e "Ensaboa".

Não deixem Cartola morrer. O poeta está vivo.






BIBLIOTECÁRIO

Pintura de Carl Spitzweg

Quando digo às pessoas que sou bibliotecário elas pensam imediatamente que passo os dias a ler. Outras disfarçam sua reprovação, franzindo o cenho, enquanto dizem: “Que legal, deve ser muito bom trabalhar não fazendo nada”. Desde cedo, eu já percebia, que não seria possível exigir das pessoas que soubessem a verdadeira função de um bibliotecário.

“A ditadura da mediocridade” no campus de Caetité

A moralidade, embora caindo em progressivo desuso, ainda encontra quem faz dela uma morada. Num contexto de relativo descrédito, com a política e os políticos, com as religiões, governos, empresar e universidades, manter a integridade torna-se cada vez mais um desafio, ao qual nem todos estão dispostos a enfrentar. Há, no entanto, alguma esperança. Com a devida vênia reproduzo abaixo, na integra, a carta do professor Paulo Henrique, que mesmo, miúdo, não cansa de alargar os sítios da moralidade.



“O sujeito ético só pode existir se preencher as seguintes condições: ser consciente de si e dos outros, ser dotado de vontade, ser responsável e ser livre.” M. Chauí

Durante os dois anos da minha gestão foi travada uma séria luta pela qualidade na educação superior. Uma luta pela maior disponibilidade semanal do docente, pelo acompanhamento da freqüência docente, pela implementação de projetos acadêmicos, pelo cumprimento do regime de dedicação exclusiva e pela qualidade das aulas na graduação. Com o término da minha gestão, rápida e sorrateiramente, o campus retornou ao seu antigo leito. Evidencia-se o avanço de uma estranha noção de professor horista que o desobriga da pesquisa e extensão, cuja prática passa a ser nivelada com as dos docentes das universidades particulares. Uma noção perniciosa e oportunista, defendida avidamente dentre professores do campus: “a mediocridade coroada encena ser uma instituição séria, de ‘ensino superior’” (Kothe). A luta pelo ensino superior como espaço não exclusivo à sala de aula, desconectado da pesquisa e da extensão universitárias, sucumbiu ao pseudo-compromisso reinante.

As últimas deliberações da plenária e do conselho de departamento da nova gestão do campus revelam uma luta inglória. Fato que se agrava porque deliberações são aprovadas sobre pontos não incluídos em pauta e orquestradas pelos que buscam degradar o conhecimento sob o menor enquadramento das horas-aula em dias da semana. Prática estranha às gestões anteriores do campus, em que se primava pela ampla divulgação das pautas de discussão no interesse único de promover a participação democrática e a liberdade no debate de idéias e ações. Cabe perguntar onde reside a democracia tão arrogantemente defendida em discursos pelos oportunistas de plantão? Por certo na infixidez da multicampia na Uneb, cujas moradas provisórias dos docentes fazem dos campi, e particularmente do campus de Caetité, lugares de passagem transitória. Uma ação em que o discurso que se afirma democrático se contradiz. Abandonado o debate intelectual, impera a vulgaridade dos discursos sem ação: “À mediocridade intelectual somou-se a baixaria moral”. (Kothe).

Para que aqui não se configure um discurso sem evidências, reporto-me à plenária departamental que suspendeu o Ato Administrativo 213/2006. Viu-se ali o açodamento ardiloso de ponto não incluído em pauta em que tanto a presidência da mesa quanto a plenária não dispunham dos materiais obrigatórios à instrução do ponto a ser apreciado. Um dos instrumentos para a construção do ensino superior no campus foi suspenso sob o cinismo majoritário do “sei, por ouvir dizer” e pela omissão vacilante: “Nunca as relações de compadrios foram tão escancaradas e perversas”. (Roberto Sá).

Por fim, gostaria de dizer a todos que confiaram na minha gestão - e que pelos seus atributos se identificaram com a minha posição no processo eleitoral - que equívocos fazem parte da vida e a eles estamos todos sujeitos. Apesar dos últimos acontecimentos revelarem uma postura diversa dos propósitos que sempre defendi, espero que continuem firmes na luta pela construção de um projeto sério para o campus.

“Na universidade, recebe mais salário quem foi mais salafrário. Recebe menos quem produz mais em termos acadêmicos”. F. Kothe

Paulo Henrique Duque Santos
Prof. do curso de História da UNEB/Caetité
Caetité, 23/10/2008

RAZÃO LITERÁRIA

Instado a me pronunciar sobre as qualidades que aprecio nas obras literárias, digo de pronto que elas devem provocar algum desconforto. Isso para mim basta. Porque aquelas que tentam me confortar, tenho na conta de nauseantes. Nesse sentido sou totalmente Nietzscheano. Não posso crer que sem algum desafio, esforço ou luta se faça um homem, tanto mais uma obra literária. Por isso gosto mesmo são dos amores fracassados, dos vencidos da vida, dos derrotados, dos silêncios e vazios, dos errantes e dos frustrados sociais, dos marginais e prostitutas, dos traídos, dos náufragos dos ressentidos dos iconoclastas morais e religiosos. De didatismo já temos por conta. É preciso encarar a vida com coragem. Mas antes algum esforço tem de ser distendido. Esses pontos resumem bem as razões pelas quais gostos tanto de literatura porque como disse Cesare Pavese ela é uma defesa contra as ofensas da vida.

A IMPRENSA VIGIADA




A organização Repórteres Sem Fronteiras, com cede na França, divulgou o ranking da liberdade de imprensa no mundo. O Brasil, que já ocupou a 84 colocação em 2007, subiu duas posições esse ano. Mesmo assim ficou atrás de países como o Haiti em 73 lugar, Argentina 68, Equador 75 e tantos outros. A julgar pelo estado de coação e constantes pressões a que são forçados os jornalistas em centro como Rio e São Paulo, o Brasil em vez de continuar a sua “ascensão”, corre sérios riscos de cair posições. Sim, porque a formula encontrada para chegar a brilhante conclusão dos lugares com total ou nenhuma liberdade de imprensa foi, pasmem, inquirindo 10 jornalistas locais sobre suas condições de trabalho.

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE...

DRESDEN, 1945


HIROSHIMA, 1945


VIETNÃ, 1972



NOVA YORK, 11 DE SETEMBRO 2001


IRAQUE, 2004

Valesse alguma coisa, as imagens de horror e pânico que ilustram esse post, não se repetiriam. Passado tantos anos elas continuam insignificantes, tamanha a insensatez e demência da maioria das gentes. Os homens continuam os mesmos, tão burros e gananciosos, que mesmo em face da morte mais atroz, insistem no terror, só para satisfazerem seus caprichos mais urgentes. Agora mesmo em algum lugar uma barbárie sem tamanho se anuncia. Quando eu nasci, (dizia José de Almada Negreiros, velho conhecido desse blog) as frases que hão de salvar a humanidade já estavam escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade. E quem poderá fazer isso. Depois dessas imagens tenho dúvidas de nossa capacidade.

UMA ATITUDE ACÉFALA

Quadro de Francis Bacon

Uma amiga, jura conseguir viver muito bem desligada cerebralmente das coisas. Diz que, isso a rejuvenesce. Como se o pensamento, despendesse energia de mais, ela finge não querer saber de nada. Isso a faz atingir a dormência e a paz desejada. Pra mim isso é um atentado contra a natureza. Nosso cérebro levou milhões e milhões de anos até evoluir ao estágio atual e, seguramente, não foi ignorando as coisas, que ele despontou no zênite. Pelo contrário sua evolução passou pelo exercício diário de auto-aprendizagem, até hoje não interrompida, a não ser por minha amiga. Definitivamente minha colega está cometendo um desserviço ao tentar refrear o curso normal em que ela mesma (a natureza) se colocou. Também não posso crer que minha colega esteja sozinha nesse pensamento. O que mais vemos hoje em dia são ações e atitudes acéfalas de quem, por ter cabeça, só a usa, para ostentar o último penteado da moda, ou para plugar o seu novo iPod. O resto é acessório. O pensamento a reflexão, a crítica, são a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade que assola nossa época.

RAZÕES PELAS QUAIS GOSTO DAS FRANCESAS


Eu não devia, pela obviedade dos fatos, mas aqui vão algumas razões pelas quais me apetecem as francesas. Em especial uma que nunca saiu de cena, a hoje senhora Brigitte Bardot (n. 1934). Primeiro que além de talentosas elas dispensam comentários quanto a sua beleza e formosura. Idealizada, cantada e sonhada por muitos. Ninguém jamais conseguiu ficar indiferente a elas. Inquietantes e tentadoras. Se não bastassem a generosidade com as quais a natureza lhes ornaram, calha ainda, que elas sejam destemidas e estejam sempre avant guard de seu tempo. Definindo e reconstruindo a forma e as imagens de como as mulheres são vistas elas estimulam novos pontos de vistas da figura feminina no mundo e povoam o imaginário fantástico de artistas, cineastas, etc.. Presumivelmente essas qualidades não se encontram em qualquer uma. Em razão disso nada lhes escapam. A propósito, as recentes discussões e debates dos presidenciáveis Americanos mexeram com os brios da musa do cinema francês das décadas de 50 e 60, Brigitte Bardot. BB como é carinhosamente conhecida na França, hoje bem menos atraente, mas não menos francesa, saiu ao ataque da candidata à vice de McCain, Sarah Palin. Presidenta de uma fundação de defesa dos animais que leva seu nome, Bardot disse que Sarah Palin é “uma vergonha para as mulheres”. “A Senhora, ao negar a responsabilidade dos seres humanos no aquecimento global, ao militar a favor do porte de armas e do direito de dispará-las no que quer que seja (Palin tem como hobby caçar), e com falas de uma desconcertante estupidez, é uma vergonha as mulheres e representa uma terrível ameaça a uma verdadeira catástrofe ecológica”. Escreveu a ex-atriz. Palin defende a exploração de petróleo na Reserva Nacional da Vida Selvagem e é contra a proteção de ursos polares, ameaçados pelo aquecimento global, "o que é testemunho da sua total irresponsabilidade, (e) da sua incapacidade de proteger ou de, simplesmente, respeitar a vida animal". Indignada completou: “Em nome do respeito e da preservação da natureza, desejo que você perca essas eleições já que o mundo sairá ganhando”. Definitivamente as francesas são muito mais atraentes.

O BIBLIOTECÁRIO FUNDISTA


Eu já havia ouvido falar em fundista literário. São aqueles autores cuja prolixidade se compara com a resistência de um maratonista que percorre longas distâncias. Honoré de Balzac (1799-1850) foi um deles ao procurar retratar a realidade da vida burguesa da França de sua época, em oitenta e oito obras, conhecidas como A Comédia Humana. Agora vejo com pesar que a Biblioteca Campus VI Caetité, vítima de inúmeros furtos promovido por seus usuários, inaugura uma nova modalidade de fundista. Trata-se do bibliotecário fundista. Sua tarefa é bem menos nobre do que a do literário francês. Cabe a ele ir ao encalço de usuários que tentam molestar o patrimônio e constranger os funcionários, além é claro de prejudicar as atividades de empréstimo. Para isso ele deve estar acostumado a perseguições e vexames típicos dos filmes pastelão. Semana passada, eu mesmo protagonizei uma cena dessas. Duas alunas, cheia de más intenções subtraíram descaradamente dois livros de consulta enquanto eu guardava outros livros nas estantes e minha colega estava ocupada despachando o público para fechar a biblioteca. Aproveitando-se de nossa ocupação elas fingiram estar guardando os livros e saíram em disparada, crentes de serem donas e senhoras da situação. Sua aventura terminou quando a minha começou.

A TRISTEZA


O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, porque ela pode tornar-se um vício. Eu percebo bem o que ele queria dizer. João Cabral também alertava para os perigos de se tornar triste. E dizia que todos nós, inclusive ele, tinha tendência à sonolência à morbidez e à tristeza. Por isso, era preciso manter-se desperto. A poesia que ele criou, com uma sintaxe paradoxal foi sua forma encontrada para dispersar os vícios da tristeza, que de certa forma persegue todos nós. A tristeza serve para desculpar a inércia e, sobretudo a mediocridade. Obviamente esses senhores das letras tinham toda razão. Menos cuidadoso, no entanto, foi o autor do quadro que ilustra esse post. A gente começa arrancando uma orelha e quando menos esperamos estamos cambaleando pelo campo, varado pela morte.

A VERDADEIRA FACE DA CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL


O furacão que vem varrendo as bolsas em todo o mundo desmoronou não só, a fragilidade do sistema capitalista, sobre a qual estão assentadas as maiores economias do mundo, como também, a moral dos banqueiros de Wall Street. Se bem que eles não prezem tanto assim pela moralidade. Tudo isso, no entanto, serviu para tornar evidente, o que alguns tomavam apenas por aparente (quanta ingenuidade). Que no mundo dos números e das finanças internacionais o paraíso financeiro pode ser uma mera miragem, produzida por alguma agência de risco, ou por balanços maquiados. E quem vai pagar a conta? Os governos do mundo capitalista já anunciaram a alternativa. Para socorrer os caloteiros das grandes financeiras e salvar bancos em dividas, os governos vão socializar o capital podre. É sempre assim, na hora de dividir os lucros ninguém aparece. Já para socializar as dívidas, qualquer alternativa ideológica menos ortodoxa é muito bem vinda. Pra piorar a situação e jogar mais descrédito no sistema que promete salvar a humanidade, os jornais anunciaram que a maioria dos líderes das empresas que entraram ou estão em vias de entrar em colapso financeiro nos Estados Unidos receberam bônus significativos pelos objetivos cumpridos em 2007. O primeiro lugar no pódio das compensações coube a John Thain, CEO da Marril Lynch, que no ano passado arrecadou 10,6 milhões de euros em prêmios de desempenho. Não nos enganemos sobre o que andamos a ver. Trata-se de um verdadeiro estupro anunciado por todas as mídias.

PAUL NEWMAN (1925-2008)

Cena do filme Rebeldia Indomável (1967)
Alguém pode alegar mais sedo ou mais tarde (sem razão), que esse blog só dar conta da passagem de astros do cinema, músicos famosos ou escritores afagados por algum prêmio, omitindo-se de tudo o mais. Corremos o risco realmente de nos tornarmos em pouco num caderno de obituários. Sem, porém, termos a menor intenção disso. Tudo dado à sanha com a qual o ceifeiro anda à solta. Mal temos tempo de nos recuperarmos da perda de alguém já nos vemos prostados, perplexos ante a retirada de outro. Dir-se-a então que o tempo não perdoa. Os sinos não descansam e que a vida exige seu óbolo. O último a acertar contas com o destino foi o ator americano Paul Newman. Vítima de cancro nos pulmões, Newman morreu no último dia 26 de setembro aos 83 anos. Irresistível presença masculina nas telas de cinema. Dono de uma beleza imaculada. Newman parecia moldado para o papel de bom moço. Quis, porém o destino que ele encarnasse com severidade os mais belos rebeldes do cinema. Sem, porém, nunca ter feito um vilão totalmente detestável. Jamais me esquecerei de um dos seus filmes mais empolgantes, Rebeldia Indomável (1967). “Dê para um ator um bom roteiro e ele moverá o mundo”, declarou quando foi perguntado sobre o filme. Queria eu encarniçar-me com tanta violência contra as coisas que me oprimem como Luke faz. Luke, personagem de Newman no filme, encarnava, ou melhor, se negava a encarnar o sentido de domesticação, vassalagem diante da opressão e da injustiça. Lições raras hoje em dia.

NOBEL


A Academia Sueca anunciou o Nobel de Literatura desse ano. O laureado com o prêmio foi o escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio (Nice, 13 de abril de 1940), o centésimo quinto da história a receber a honraria. O que sei desse escritor e de seus livros não daria um post. Por isso, limito-me a apenas registrar o acontecimento. Há anos venho torcendo pelo peruano Mário Vargas Llosa. Pelo visto terei que aguardar mais algum tempo.

A FALÊNCIA DA MORALIDADE



Quem corrompe quem? Os políticos que se aproveitam da situação de vulnerabilidade dos miseráveis e vencem suas resistências morais (palavrinha cada vez mais escassa no vocabulário), ao preço de trocados. Ou a população, que sede as investidas dos corruptos, demonstrando a toda classe que o que vale mesmo em política é saber quem dá mais, porque muitos estão dispostos a se venderem? Num lugar onde quem governa e quem é governado reina a imoralidade e a indecência nas relações políticas, o que podemos esperar do futuro? Com que cara nos indignaremos quando o lixo das ruas não forem recolhidos, apodrecendo pelos cantos, ou quando a iluminação pública não for satisfatória, facilitando a gatunagem e ameaçando o cidadão de bem. Ou ainda quando as estradas se tornarem intransitáveis; ou faltar água nas torneiras para necessidades mais básicas, como para lavar as vergonhas. Ou pior, seu filho, uma caixa de possibilidades, não receber a contento uma educação que lhe impeça do vexame de não saber escrever o próprio nome? Ou quando alguém for escolhido para um cargo público, não por sua capacidade e competência, e sim por interesses eleitoreiros ou afinidade familiar. Esses e muitos outros motivos são os casos de nosso atraso e da nossa ignorância há vários e vários anos. E continuarão sendo se nos tornarmos tão asquerosos quanto os políticos. Quem terá coragem de se revoltar, com a consciência limpa de quem não se vendeu, com a certeza de se estar exigindo apenas o que lhe é de direito. No passado Serra do Ramalho se queixava da violência e da arbitrariedade de seu governo. E fez valer nas urnas sua indignação. A resposta contra essa violência surgiu em forma de esperança, numa virada na situação, reconhecida por todos como inaceitável. Pois bem, a esperança de uma reviravolta não se concretizou (como era esperado). Ante a violência do primeiro, o segundo, respondeu com outra, muito mais cruel e pestilenta, porque ela age covardemente na surdina, infiltrando descrédito, degenerando as relações, desacreditando a moral, viciando as estruturas políticas, para enfim enredar a todos em seu jogo sujo e maquiavélico. O corrupto serramalhense esgueira-se pelos cantos, a procura de alguém em situação de necessidade tal que, não seja capaz de recusar uma cesta básica que aplaque sua fome, para fazer dele um vendido. A suposta incompetência política em gerar empregos, em elevar o nível da educação, em gerir com respeito os bens públicos, sem fazer deles propriedade privada, não é mais que uma estratégia para encabrestar os homens, e torná-los completamente dependentes das benesses dos maus administradores. O que esse tipo de tirania tem haver com a primeira, que violentava a dignidade física e foi retirado para nunca mais voltar? É que ambos são covardes, traiçoeiros, desleal, sebosos. Um utiliza à força bruta e a truculência para acossar todos os seus desafetos e fazer valer como vontade única, a sua própria. A outra, está que estamos vendo hoje, aparentemente nociva, é muito mais destrutível. Porque ela se aproveita da carência e da necessidade, para constranger o homem digno. Porque ela rebaixa o homem a um estado de dependência constante, viola a sua integridade e desrespeita a sua vontade, não lhe dando oportunidade de defesa, que no primeiro era possível. Ela age diariamente, diferente da anterior. O que ocorreu na eleição de Serra pertence a um Brasil de atraso, um Brasil que não deve existir mais, um Brasil dos tampos dos coronéis. O Brasil moderno vive uma nova realidade. Busca respeito internacional. Combate à corrupção com inteligência. Acende milhares de pobres a uma situação muito mais confortável e digna. Evolui em tecnologia. Ambiciona influenciar as relações internacionais. Acredita no potencial de sua gente e investe em educação. Diversifica a agricultora. Descobre novas maneiras de mover carros, que não seja distribuindo notinhas em troca de favores. Respeita a individualidade e a vontade soberana do povo e não se aproveita de sua situação financeira desfavorável para empobrecê-lo ou explora-lo ainda mais. Enquanto isso damos um passo à atrás, nas relações que são bases para o desenvolvimento de qualquer cidade. Não contribuindo com um único percentual na qualidade da educação, que geraria a força do desenvolvimento. Ao cedermos à tentação de nos corrompermos, aceitamos a política do descaramento e perpetuamos a devassidão e a desonestidade. Pois estamos comprometidos com a desordem. Somos tão desprezíveis quanto o corrupto que estende a mão ao bolso e retira R$ 50 para comprar o voto de alguém, sobre a desculpa de que está pagando desse ou daquele uma viajem para votar, nele é claro. Muitos ainda se revoltam quando são chamados de corruptos, feito virgens ofendidas, como os políticos corruptos. Reclamam que não estão sendo comprados. E exigem, bufando, que se comprove o desvio de seu caráter. Outros nem se molestam mais em serem chamados de corruptos. Esses são os piores. O que estamos fazendo da nossa cidade. Ora meus amigos, ponham a cabeça no travesseiro e reflitam. Quantos tanques de carros em Serra não andam engulhando gasolina até não poder mais. Isso não é corrupção? O combustível que alimenta o carro do corrupto é retirado de onde? Muito provavelmente o que sobra para corromper falta para desenvolve. Essa gasolina devia estar nos tratores de homens trabalhadores que pudessem beneficiar a terra, gerar riqueza, prosperidade, promover a independência das famílias e alimentar os buchos de quem tem fome. Nosso atraso vem das escolhas errada que fazemos. A única prosperidade que vemos de verdade em Serra é a dos políticos. Muitos chegaram arrastando uma cachorra, e logo saem desfilando em carros. Corrupção é uma escolha. Por isso diga NÃO.

"DE CAETITÉ PARA O MUNDO"

Waldick Soriano (na foto, em 1971) tinha ambições gigantes quando abandonou a roça, em 1958: "Para o mundo"

Teo Júnior, Aracaju

Ele tinha nome de dramaturgo grego, mas nasceu nas trincheiras da Bahia, pelas bandas de Caetité, em 1933. Eurípedes Waldick Soriano, quando completou 25 anos, em Brejinho das Ametistas, olhou pra cima, olhou para baixo e teve um estalo: "vou-me embora". Era o desejo de ir para uma cidade grande, uma civilização, alguma coisa nesse sentido, tentar a sorte. Afinal, Waldick não tinha nada a perder.
O curioso, nesses casos, é que a ânsia de deixar o grotão natal é tão grande, que a pessoa não pára para pensar nas necessidades futuras, longe de casa. Como vai comer, como vai morar, onde vai trabalhar, se encontrará amigos, essas coisas. O indivíduo quer mesmo é largar tudo, arrumar as malas e entregar para Deus.
Raul Seixas, um dia, depois ter "passado fome por dois anos", devia "agradecer ao Senhor por ter tido sucesso na vida como artista". No caso de Waldick, creio que não chegasse a tanto. Ele acalentava o desejo de ser ator (assitira, na adolescência, a muitos filmes em Caetité, ficou com a idéia na cabeça) ou cantor. Já em São Paulo, exerceu funções menores, como engraxate, ajudante de pedreiro (hoje existe essa categoria profissional? O pedreiro não dá conta do recado sizinho?), garçom, caminhoneiro, engraxate e o caralho a quatro. Durante dois anos, esperou a sorte artística chegar. E ela finalmente chegou. Em 1960, uma boa alma trafegava pela noite, onde Waldick batia ponto, e o levou para uma gravadora, onde assinou um contrato.
Durante muitos anos, Waldick obteve vendagens expressivas, mas ainda discriminado pela mídia --e nesse íterim, aparecia em programas populares (Ivan Lessa chamaria de "vagabundos") de televisão e era personagem constante de matérias de grandes revistas e jornais, como uma célebre entrevista dada, em 1975, ao pessoal do Pasquim. Ele aparecia, nessas reportagens, mais pelo estilo pessoal do que propriamente pelo repertório. Era o povo aplaudindo e a imprensa caindo de pau.
Waldick não era um cantor desprezível. Tinha uma voz bem timbranda e impunha uma presença destacada no palco. Seu repertório era um só: homem sofrendo por mulher. Casos de amor mal-resolvidos foram a grande faculdade de Waldick, que, pelo que me consta, não chegou a estudar. A isso, convencionou-se chamar de dor-de-cotovelo. Eu confesso que não sou fã de seu estilo nem de sua música, mas eu não posso fechar os olhos para ele. Ignorá-lo seria burrice de minha parte. O cara existiu, caramba! Ficou famoso, ganhou dinheiro, batalhou por uma carreira, recentemente gravou um cd e um dvd, direção de Patrícia Pillar. Suas canções mais lembradas são Eu não sou cachorro não, de 1972 (Vendeu mais do que Roberto Carlos, heim, gente?, dá título a um livro de Paulo César de Araújo, sobre o fenômeno da música brega brasileira, nos tempos da ditadura militar), Tortura de Amor e a inigualável A Dama de Vermelho, regravada por Bruno e Marrone.
Waldick era conhecido por sua calma tibetana, era tranquilo, um homem incapaz de uma grosseria. Além disso, era muito engraçado. Algumas tiradas suas são quase filosóficas, como, por exemplo, quando afirmou que "a mulher, quanto mais pobre, mais gostosa". Ele sabia do que estava falando, porque de mulher, de boemia, de serestas, ele entendia. Era um especialista no sentido mais amplo do termo. Nos bons tempos, pôs uma plaqueta no paletó onde se lia: "De Caetité para o mundo". Eu tinha vontade de perguntar a ele aonde ele queria chegar. Waldick Soriano estava para a música brega -- hoje com milhares de adeptos país afora -- como João Gilberto está para a Bossa Nova, porém o caetiteense sempre negou o estilo do qual era o papa. Ele jamais se assumiu como "brega", preferindo se considerar um cantor "romântico". E acabou.
Waldick Soriano teve um vidão. Não pôde reclamar. Estava se tratando há algumas semanas de um câncer de próstata -- que ninguém ficou sabendo -- e faleceu hoje, dia 4, no Rio, onde será enterrado no Cemitério S. Francisco Xavier, popular "Caju".
Como diria Nelsinho Motta, boa noite, Waldick Soriano.

DORIVAL CAYMMI (1914-2008)


Dorival fez pela música o que seu compadre Jorge Amado fez na literatura. Letras maliciosas, cheias de dengo, de mulher ousada, de balangandãs, enfim, compuseram o assunto de Dorival. Músicas que, lá fora, FIZERAM A CARREIRA DE uma Carmen Miranda, por exemplo. Carmen fora a maior intérprete de O que é que a Baiana Tem? , obra mais importante do mestre. Além de mulher, ele também falou claro, do mar e da vidinha dos pescadores, como na trágica A Jangada Voltou Só. Dorival Caymmi compôs sua primeira música ainda adolescente, que se chamou A Bahia também dá. Dorival também deu. Deu sua parcela de contribuição à música de um modo como poucos dariam. Há homens que passam pela vida e não deixam um cuscuz feito. Dorival deixou um patrimônio inigualável que precisa ser reconhecido agora, no momento em que ele está sendo velado. Tive o prazer de assistir, várias vezes, o show que seus três filhos fizeram para homenageá-lo. Ele estava na platéia, com D. Stella Maris, agradecido e sereno, com a tranquilidade dos bons. De quem já fez o que lhe competia. Acontece que Eu sou Baiano, Maracangalha, Só Louco são sambas imortais. Num ranking elaborado ela revista BRAVO!, que apontou as cem melhores músicas do nosso século, Dorival ficou com a medalha de prata, com João Valentão. Só perdeu para Carinhoso, de Pixinguinha, e Águas de Março, de Tom e Vinicius. Mais uma prova de que não se trata de um qualquer.
Eu adorava Caymmi.
Uma verta vez, Caetano Veloso deu o seguinte parecer sobre Dorival: "Ele é o maior dos maiores". Pronto. Esse é seu epitáfio.
Teotonio Júnior, Aracaju

PAPEL EM BRANCO


Alguém já se referiu ao ato de escrever como um suicídio antecedido de mutilação e de sofrimento atroz, para, por fim, concluir que ele também é um ato de inominável coragem física. De quase nenhum escritor, porém, temos a oportunidade de ouvir o testemunho de seu processo de criação. As razões podem ser as mais diversas. Talvez ele preserve certo sentido intimo que não lhe permite confissões, ao menos não além daquelas já interditas nos livros. Algumas revelações podem conter segredos inomináveis, indignos para um escritor. Outros ainda dispensam ao público suas fraquezas, deslizes, inquietações, e dúvidas comuns durante a confecção de uma obra. Menos tímidos estão os poetas Edgar Allan Poe e João Cabral de Melo Neto. Ambos desnudaram seus esforços poéticos e revelaram seus segredos de composição. Opondo-se àqueles escritores de tendências transcendentais, Allan Poe e João Cabral, em tempo, escreveram trabalhos reveladores. Em abril de 1846 Poe publicou nas páginas do Graham´s Lady´s and Gentleman´s Magazine um artigo intitulado “A filosofia da composição”, nele Poe revela que, ao escrever, parte sempre da consideração de um efeito, ou seja, seu propósito é atingir determinado objetivo previamente estipulado. Por isso, em vez de render-se mudo à força das palavras, caminha firme, com consciências daquilo que deseja e não sede as tentações da inspiração. João Cabral muito tempo depois de Allan Poe defende com a mesma obstinação a autonomia da escrita e revela-nos: Eu não acredito em inspiração e nem sou poeta inspirado. O ato de criação para mim é intelectual. Minha poesia trabalha a criação e a construção. Acredito na expiração. Na composição de um poema, primeiro me ocorre um tema e eu tomo nota. Depois vou estudando-o e desenvolvendo-o. Nunca escrevi um poema inspirado, soprado pelo Espírito Santo. Isso eu não sei o que é... Fazer um poema para esses escritores, não é uma condenação, como se pode ver, muito menos o resultado de uma possessão. O poema surge de uma vontade consciente. João Cabral e Edgar Allan Poe encararam como nenhum outro escritor o desafio de fazer poesia maquinalmente, talvez por isso eles não se envergonhem de falarem de seu exercício corporal com as palavras.

ALEXANDER SOLJENITSINE (1918-2008)


No último dia 03 morreu em Moscou o ganhador do Nobel de Literatura e autor de Arquipélago Gulag Alexander Soljenitsine aos 83 anos.

CITAÇÃO, 02

ALMADA NEGREIROS (1893-1970) AUTO-RETRATO
"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria. Deve haver certamente outras maneira de se salvar uma pessoa, senão estarei perdido."

DEVAGAR NÃO SE VAI AO LONGE

A única coisa que se acumula parado são gases. Então devem está cheios os burocratas, professores e os políticos. Estes últimos se encontram mais aliviados por essa época. Os muitos compromissos eleitorais confortam suas ventosidades. Dias virão que também os burocratas terão livres de seus intestinos os grandes males causados por sua inércia. Os professores não têm tanta pressa assim, talvez lhes confortem as cadeiras que lhes assentam. Eles não têm que se envergonharem disso, os eflúvios intestinais nos mostram apenas a matéria prima da qual somos feitos e que, por vezes, se soltam e nos enxovalham publicamente. Há coisas que nos fazem corar. Poucas, porém, nos embaraçam mais do que o torpor de algumas classes.


A PROPÓSITO DAS ELEIÇÕES


Todos os anos durante as eleições assistimos a um fenômeno de degeneração política. Enquanto no resto do tempo de nossas vidas comezinhas, a política e os assuntos de política não passam de serem ignorados por quase todos, durante o pleito, essas discussões incendeiam os encontros de amigos; comparecem aos almoços de família, freqüentam os intervalos das orações religiosas e ocupam a maior parte das discussões durante o dia das pessoas, seguindo até cortejos fúnebres. Por instantes tem se a impressão de que finalmente a definição vocabular para política: “a arte de bem governar os povos” ou “conjunto de objetivos que informa determinado programa de ação governamental e condiciona a sua execução”, deixou, de ser um mero adereço retórico e passou a ter algum sentido vivo. No entanto, ao nos depararmos com o primeiro grupo politicamente entusiasmado, vemos que o que eles discutem realmente, responde por outro nome. Aquilo a que por comodidade chamam de política, é na verdade mexerico, intriga, conchavo, politiquice, zona. No fundo ainda reina no nosso país a arraigada convicção de que política é não respeitar o direito à diferença de opinião e receber favores em troca de apoio – pode ser em galões de combustível ou em materiais de construção – com a desculpa de que todos fazem isso, e por fim torcer por algum cargo comissionado. Teoricamente somos todos contra a corrupção. Mas quase todos somos corruptos se da corrupção retirarmos vantagem e, quase nenhum de nós se mobiliza contra a corrupção, exceto se os resultados da corrupção perturbarem de modo sensível a nossa qualidade de vida. A lingüística ensina-nos que o sentido das palavras muda com os usos que fazemos dela. No livro Os Lusíadas, por exemplo, a palavra ministro referia-se ao grumete, ou seja, era usada para definir os homens que faziam as atividades inferiores durante as viagens. Hoje podemos desconsiderar esse sentido. Ministro passou a ser relacionado a homens que ocupam altos cargos nos governos ou em congregações religiosas e que supostamente guardam alguma qualidade que os diferem de criados de navios. O uso define o entendimento. Por isso, a continuar fazendo uso de política no sentido assistencialista, politiqueiro, corremos o risco de desqualificar o seu sentido original e acabar, por fim, por força do uso nesse ou naquele sentido, não tendo nem palavras para qualificar as imoralidades e indecências, pois essas passaram a ocupar os sentidos de política. Vem isso a propósito um discurso do poeta Almada Negreiros sobre as qualidades de um povo. Dizia ele, “o povo completo será aquele que tiver reunido no seu máximo todas as qualidades e todos os defeitos. Coragem portugueses, só vos faltam as qualidades”.

UM OLHAR SOBRE CANUDOS

FOTO: Regina Xavier

Em 2 de dezembro de 1902 o jornalista e escritor, Euclides da Cunha (1866-1908), lançava o livro Os Sertões. A obra, inspirada numa apurada investigação jornalística ocorrida cinco anos antes, sobre o levante de um bando de esfarrapados sertanejos, liderados por Antônio Vicente Mendes de Maciel – O Conselheiro – supostamente contra o estado, transformou o seu autor num nome incontornável. Convertido numa das maiores obras da nossa literatura, ela influenciou grande autores como: Mário Vargas Llosa e Sandor Marai, que escreveram livros baseadas em Euclides da Cunha. Destacado pelo jornal O Estado de São Paulo para cobrir aquilo que os alarmados republicanos da época chamavam de um levante restaurador da monarquia, “a nossa Vendéia”, uma referencia à província francesa que, em 1793, havia se rebelado contra medidas fiscais adotadas pela Revolução de 1789; a obra de Euclides da Cunha se transformou em pouco tempo no quase único relato respeitado e aceito, entre os vários entusiastas e estudiosos de Canudos. O monopólio desse registro só foi quebrado quando entrou em curso outro nome nos estudos da história de Canudos, o do professor José Calasans (1915-2001). A gênese da trajetória desse estudioso, seus trabalhos e sua contribuição para historiografia baiana, são os temas do livro José Calasans: a história reconstruída trabalho de conclusão de curso do também professor e pesquisador Jairo Carvalho do Nascimento (n.1976), recém saído do prelo e dado a público no último dia 23, no auditório da UNEB. Nesse seu mais recente trabalho, Jairo apura o percurso desbravador do professor José Calasans, responsável por uma revisão completa na historiografia de Canudos, bem como por uma contribuição inestimável, até hoje insuperável, para os estudos regionais e locais na Bahia, destacando sua valorização da oralidade como fonte e objeto da história, “postura não compartilhada pela ampla maioria dos historiadores da época”, afirma Jairo. Depurado de acessórios o livro do professor Jairo tem vários méritos. Um dos quais é, não se deixar cair na tentação de emular o seu objeto de pesquisa. Tanto é assim, que Jairo, não obstante a insuspeitável contribuição de Calasans, não esconde que esse, também adotou posturas contraditórias durante o regime ditatorial que governou o Brasil de 64 a 85. E que ainda, em alguns momentos de seu trabalho de pesquisa, “chegou a aceitar a fonte sem fazer as críticas devidas” ou que, esse, destinou “pouca atenção às incursões interpretativas a partir de referências teóricas, uma particularidade verificada, por exemplo, na sua obra: Canudos: origem e desenvolvimento de um arraial messiânico”. Em parte, essas medidas se devem a postura interpretativa adotada por Calasans, que pertenceu a corrente historiográfica dos que pretendiam interpretar o Brasil a partir do Brasil, e não se filiou a esquemas interpretativos importados. Apoiado em trechos criteriosamente citados e comentados, pode-se dizer que nada ficou de fora desse trabalho. Uma extensa bibliografia, bem como uma bibliografia temática das obras de José Calasans, completa o livro, indispensável para quem queira melhor compreender José Calasans e um pouco de Brasil. O trabalho ainda pode ser lido fora dos círculos de especialistas, afinal ele foi construído numa prosa límpida e de fácil absorção, ler-se num fôlego.