ARTE E BELEZA



Tenho encontrado poucas mulheres que não sejam caricaturais. Essa moça é uma delas. Conjugando talento e uma indiscretíssima beleza que não encontra definição precisa, só por isso está sempre sendo comparada com duas ou três outras hermosas raparigas que deem o sentido que a palavra não alcança, ela vem conquistando um razoável prestígio no cinema e nos corações de muitos marmanjos. O último foi o meu amigo Teo que resolveu subi-la ao altar da devoção cinematográfica jurando fidelidade eterna. Infeliz companheiro, a moça já foi fisgada. Cumpre agora a você adorá-la de longe como o resto.

ASSOMBRO

Às vezes gosto de pensar que existem certas vantagens em ser ignorante. O sujeito não tem que se explicar de nada. Não precisa pensar. Não discute e nem se preocupa. Por certo também, não critica. Deixa as coisas acontecerem, como se estivesse sendo arrastado por uma torrente e dela não quisesse se defender. Vive, como se para isso não fosse preciso, gastar um minuto de seu tempo ocupado com as tediantes tarefas de maquinar o cérebro. Munido dos instintos que a natureza lhe deu, sabe que o pulmão faz muito bem o seu trabalho, sem que se lhe diga o que deve ser feito. E só por isso o homem vive. O mesmo pensa do coração, dos rins, do fígado, e de outras e tão sábias partes do corpo que sem pensarem em, como e por que, seguem. Esses sujeitos também, refugando algumas conquistas do intelecto, não se desassossegam nem se inquietam, com o que para outros assaltam os nervos.

ERA UMA VEZ NO OESTE

A chegada de Jill personagem de Claudia Cardinale. Música de Ennio Moricone

Em 1964 como o filme Por um punhado de dólares, o cineasta italiano Sergio Leone (1929-1989) deu forma ao que se convencionou chamar mais tarde de Western Spaghetti. Esses filmes tinham entre outras características a crueza dos personagens principais, que diferentes dos personagens hollywoodianos, andavam sempre mal vestidos, sujos e com intenções inescrupulosas. Os temas giravam em torno da vingança. O filme estrelado por Clint Eastwood teve duas continuações e ficou conhecido como a trilogia dos dólares. Em 1968 Leone realizou, Era Uma Vez no Oeste, uma verdadeira obra-prima. O filme é assustadoramente arrebatador. E tem muitas razões de ser. Primeiro pela peculiar e indistinta narrativa, cheia de silêncios, esperas e ruídos ambientes que se integram ao clima de desolamento e tensão criado nos momentos exatos em que se exigem esses climas. Segundo pela impecável atuação dos atores Henry Fonda, Claudia Cardinale, Charles Bronson e Jason Robards que encarnam com veracidade incomum os seus papeis. E por fim uma trilha sonora, do mestre Ennio Moricone, que dá consistência e caracteriza os personagens. O tema principal da mocinha feita por Claudia Cardinale é especialmente memorável pelo lirismo. Obra impar do gênero, Era uma vez no Oeste, é um filme daqueles tempos em que o cinema era uma expressão artística antes de qualquer coisa.

"QUER OUVIR A MINHA IDEIA PARA UM ASSASSINATO PERFEITO?"

PACTO SINISTRO, 1951
Depois de dois fracassos retumbantes com Sob o Signo de Capricórnio (1949) e Pavor nos Bastidores (1950), Alfred Hitckcock retornou a velha forma em 1951 com Pacto Sinistro, seu 14º filme em Hollywood. Adaptado da obra de Patricia Higsmith, a mesma de O Talentoso Ripley, o filme conta a história de um inusitado e casual encontro que acabará em tragédia, nada mais hithcockiano do que isso. Num trem, Gay, interpretado por Farley Granger - que já havia trabalhado com Hitchcock em Festim Diabólico (1948) - é um jovem campeão de tênis, que segue para sua cidade natal a fim de acertar o divórcio com sua ex-mulher. Gay pretende se casar novamente, agora com a filha de um senador. No meio da viagem ele é abordado por Bruno (Robert Walker), um indiscreto fã que sabe tudo sobre sua vida. Não demora e o simpático Bruno, protótipo do vilão desequilibrado que permeia a galeria dos melhores filmes de suspense, tenta enredar Gay num ardiloso e macabro plano de assassinato. Aproveitando a situação em que ambos acabaram de se conhecer e de que até aquele momento não havia nenhuma ligação entre eles, Bruno propõe a Gay o que considera o plano perfeito. Bruno eliminaria a ex-mulher de Gay, que se recusa a aceitar o divórcio, e em troca, esse se encarregaria de matar o seu pai (o de Bruno). A evasiva recusa de Gay é interpretado por Bruno como um sinal verde para levar adiante o seu projeto homicida. Assim Bruno executa a primeira parte do plano, estrangulando a ex-mulher de Gay num parque de diversões. Avisado por Bruno da morte de Miriam, Gay se desespera; todos pensarão que foi ele o assassino de sua ex-mulher, motivos para isso não faltavam. Interrogado pela polícia o jovem tenista não consegui apresentar um álibi que alivie as suspeitas das pessoas sobre ele. Descontente com as insistentes recusas de Gay, que teima em não cumprir a sua parte no "pacto", Bruno resolve arruinar a vida do jovem esportista, incriminando-o. Como ele havia ficado com o isqueiro de Gay desde o seu primeiro encontro, ele resolve abandonar no local do crime a prova definitiva que ligaria o marido revoltado ao assassinato da ex-mulher traidora. A eletrizante sequência que se segue até a elucidação do crime com muito suspense é tipicamente hitchcockiana. Mestre em criar tipos comuns envolvidos em tramas mirabolantes Hitchcock achou no argumento dessa história o modelo ideal para exercitar o melhor de sua genialidade. Pena que o fraco desenvolvimento do roteiro prejudique o filme. A cena final quando se esclarece o assassinato deixa a desejar. Sem ser o melhor de Hitchcock, Pacto Sinistro oferece assim mesmo bons motivos para apreciar o mestre do suspense.

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE

Maggie (Elizabeth Taylor, 1958)
A propósito do post anterior, que se referia ao leitmotiv da dramaturgia rodriguiana, me ocorreu falar da peça Gata em Teto de Zinco Quente, do teatrólogo norte-americano Tennessee Williams (1911-1983). Sem possuir a mesma voltagem dos personagens rodriguianos, os de T. Williams, se assemelham aos de Nelson Rodrigues, ao demonstrarem a mesma disposição em revelar os estratos menos nobres da personalidade humana. Para além de terem várias de suas obras adaptadas para o cinema e TV, ambos, salvo as devidas diferenças, tem a capacidade de fazerem dos dramas familiares uma reflexão sobre a moralidade, pedra de toque de suas obras. Ambição, revolta, traições, sexualidade reprimida e uma feroz crítica ao moralismo recheiam as peças desses dois maravilhosos autores.

A DESFAÇATEZ DESENCARNADA

A DAMA DO LOTAÇÃO, 1978

Detesto admitir, mas o Teo está coberto de razão. Nelson Rodrigues é sem dúvida o maior teatrólogo de todos os tempos. Dono de uma irrevogável veia polemista, suas obras antes de serem pornográficas ou escandolasas, como querem alguns, na verdade não tolera a hipocrisia de uma sociedade de aparências e dissimulação como a nossa. Seus trabalhos possuem o mérito de escancarar as vilanias, os vícios inominávies de cada um, além de por a nu, literalmente, o que a maioria sempre se esforçou por manter em segredo, até o seu surgimento. Foi justamente essa atitutde francamente desafiadora contra todo e qualquer fingimento, que lhe rendeu uma serie de injurias e perseguições inquisidoras, que duram até hoje. Dizia-se que ele prevaricava a moral e os bons constumes das famílias brasileiras. Altamente moral suas histórias não tem nada de pervertidas. Se as mulheres traem seus maridos; as meninas preferem beijar outras meninas; os pais sodomizarem seus filhos, como vemos em algumas de suas peças, isso se deve antes, a precariedade moral dos homens, não do artista. Suas peças não tem nada de perversão, pelo contrário, como objeto artístico sua função é a de retratar a realidade com a máxima fidelidade. Amoral com certeza é a noção mal disfarçada de que tudo está na mais perfeita ordem.

O ESSENCIAL CONTINUA INVISÍVEL AOS OLHOS

Guardo um talento incomum para gostar de coisas, que para maioria são inúteis. É que nos dias que corre, muitas coisas são tidas como inúteis, e com tudo, ainda as desejo. A maioria delas tem haver com arte. A maioria delas interessa-me. Não por serem, como pensa a maioria (inútil), mas pelo contrario, por renovarem minha fé no homem, um exercício pra lá de exaustivo, que por mais que se esforce é necessário um exercício constante; por exigirem sempre mais, por duvidar das certezas e estilhaçar as verdades, por mais inconveniente que sejam; por incomodarem os parvos e por fim destoar da maioria.

VIDA BREVE

Drª Zilda Arns

No nosso país, dificilmente tem-se alguém para admirar. Essa espécie de gente rareia a cada dia. Por isso, a noticia da morte da Drª Zilda Arns, no terrível terremoto que sacudiu o Haiti nessa terça-feira 12, torna o fato ainda mais penoso.

ÉRIC ROHMER


A nota triste do início dessa semana foi a notícia da morte, nessa segunda feira 11, do realizador francês Éric Rohmer (1920-2010). Com mais de 50 filmes no currículo, Rohmer foi professor de Letras e escritor antes de integrar o grupo de jovens entusiasta de cinema, fundadores do movimento Nouvelle Vague. Ao lado de Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, François Truffaut e Claude Chabrol, futuros diretores de cinema, iniciou sua carreira como crítico da mítica revista de cinema Cahiers du Cinéma. No Brasil temos varias de suas obras disponível nas melhores lojas.

CONTRA A RACIALIZAÇÃO



Nascido em 17 de setembro de 2009, o blog CONTRA A RACIALIZAÇÃO NO BRASIL, reúne, como podemos ler no, quem somos: cientistas políticos, antropólogos, sociólogos, juristas, historiadores, geneticistas, biólogos, médicos, intelectuais e ativistas de movimentos sociais, interessados em alertar a população sobre os perigos que ronda o país com a implementação de políticas segregacionistas. Vale à pena conferir.

O INCANSÁVEL PENSADOR

Os homens independentes, os livres pensadores, sempre foram acusados, ora de agitadores e inconsequentes, ora, como é o caso agora, de produzirem ideias em nível inaceitável de debate. Tais afirmações para mim sempre soaram falsas. Seu único propósito é o de acomodarem no silêncio as opiniões contrarias a ordem vigente. As recentes discussões sobre as medidas do governo em racializar o problema da educação no país através do Estatuto da Igualdade Racial, demonstram bem o nível das opiniões e dos debatedores. Diferentes pesquisas evidenciam que os brasileiros de todas as cores rejeitam a nova lei (leia pesquisa CIDAN/IBPS aqui), que se aprovada terá como único mérito introduzir, pela primeira vez no país, a primeira lei racial da nossa história. As ações de Demétrio Magnoli e outros incansáveis pesquisadores da questão racial no Brasil, como Yvonne Maggie e Peter Fry vem causando descontentamento entre alguns membros do movimento negro, que, como já era esperado, se comportam muito bem em saber, que a solução encontrada para dirimir o racismo incruento, e as desigualdades sociais entre a população mais pobre, passam ao largo de envestimentos maciço em melhorias da educação básica. Como resposta a esse histórico desafio eles se contentam em celebrarem o orgulho da raça. A gota d´água dessa discussão ocorreu recentemente, quando Demétrio Magnoli escreveu um artigo contra a determinação do ministro Tarso Genro, que queria levantar a origem "racial" dos estudantes brasileiros. Na ocasião Demétrio considerou que essa medida de classificação racial era errada, anticientífica e retrógrada. Alguém discorda? No artigo, ele chamou Tarso Genro de Ministro da Classificação Racial, e considerou-o imprevisto herdeiro de racistas como Nina Rodrigues. Depois disso Tarso Genro processou Demétrio Magnoli. Os patrulhadores de plantão, e aqueles que não se preocuparam em discutirem com sinceridade o problema da educação e da desigualdade no Brasil, veem, desde então, tentanto manchar o currículo de um dos nosso mais atuantes pensadores, acusando-o, entre outras coisas de, "desonesto" e "superficial". Essas opiniões sobre o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli, refletem a mentalidade tacanha daqueles que não suportam verem suas convicções contrariadas e que, não tendo como contra-argumentar as ideias e opiniões expressas pelos verdadeiros pensadores, desqualificam o homem. Eles preferem o enfrentamento pessoal, ao de ideias. A desqualificação pessoal ocupa a maioria dos discursos dos nossos políticos, pensadores, e tuti quanti. Com isso esquivamo-nos das discussões verdadeiramente importantes e desviamos as atenções para futilidades. Não se aceita discutir com aqueles, cujas ideias não alcançaram um nível aceitável de profundidade intelectual. Com isso minimiza as opiniões de alguém tão "superficial" e sem importância. No Brasil essa foi, e pelo que vejo, continuará a ser uma prática frequente; a dos pensadores cabotinos. Não é de hoje que distendemos atenção a essas maldosas opiniões. Em 1909 o sergipano Silvio Romero escreveu um livro inteiro para desqualificar a figura de José Veríssimo, seu maior desafeto. Nesse mesmo tempo, ele não poupou tinta para espinafrar também, o já consagrado, Machado de Assis. O injurioso livro, Zeverissimações ineptas da crítica, tinha como propósito, segundo seu autor, demonstrar as; como o título já indicava, ineptas qualidades de José Veríssimo e Machado de Assis para literatura. O autor não se preocupou nem por um momento em tecer comentários sobre as obras dos autores. Preferiu antes, atacar as origens de José Veríssimo e Machado de Assis, prova suficiente das inadequações literárias de autores que "o tempo se encarregaria de varrer". Há anos um dos maiores estudiosos do folclore nacional, o potiguar Câmara Cascudo, vem sofrendo de iguais injurias. Seus detratores, acusa-no de superficial, descuidado, e outras baboseiras. Infeliz sina a do país, que não consegue conduzir um debate tão importante para o seu futuro, sem cais na vala comum do bate-boca entre comadres.

SERÃO OS MEUS OLHOS?



3 DE JANEIRO DE 2010, AVENIDA SUL.
5 DIAS APÓS A CHUVA A ÁGUA RECUA LENTAMENTE.

AS METAMORFOSES DO AMOR GREGO


Os deuses gregos sempre tiveram muita intimidade com os corpos. Causaria espanto aos crentes e adoradores de outras seitas, a forma desabusada com quanto os deuses e deusas se amavam. Para eles não havia nenhum tipo de castidade inviolável, amava-se fácil. Devemos a essa civilização muitas das grandes realizações do intelecto humano, o teatro, a música, a filosofia, as leis. Nenhum desses feitos, no entanto, foi capaz de ombrear ao ensinamento divido da enamoração dos corpos. Criem quantas amarras puder, nenhuma, subjugará a força dos corpos. Os santos cristãos estão todos sempre pudicamente cobertos de mantos, túnicas, e farta vestimenta aveludada. Nenhuma intrusão penetra a casta intimidade das santinhas. Seguros de preservarem assim a dignidade divina, eles seguem pesando as consciências contra a adoração dos corpos. Com efeito, todo esse cuidado não passa de uma mentira. A beleza dos corpos sempre foram maiores que qualquer repressão. A pudicidade cristã mal disfarçou sempre a tentação dos olhos. Não fosse assim, como explicaríamos tantos seios desnudos nas representações da virgem. Ocultado num gesto maternal o cristão ama clandestinamente.

POLÍTICA

Por mais que eles insistam em afirmarem o contrário, o que a maioria dos homens públicos brasileiros fazem, é qualquer outra coisa, menos política. Salvo honrosas exceções, facilmente nomeadas: Suplicy, Soninha, Marina Silva, Gabeira, Pedro Simon,...não vejo no quadro da política nacional qualquer outro nome digno de ser chamado de político. Agora, se pervertermos o termo que até pouco usávamos pra distinguir os homens e mulheres, encarregados de governarem com zelo a coisa pública, ai faltarão espaço para listar nomes e maus exemplos. Esses últimos temos sem conta.

AO DESPERTAR ESSA MANHÃ



Dois acordes de guitarra e dois de bateria. São quanto me basta para despertar do estado de bovinidade.

FELIZ 2010


A julgar pelo andar da carruagem e pela disposição dos homens, 2010 será como todos os anos anteriores, injusto. Tanto pior para todos nós. Não faz muito sentido, portanto, distinguir o ano que se vai com o que ora se avizinha ambos traduzem uma concepção de exigência que se vai rareando.

CACILDA BECKER, 40 ANOS DEPOIS

Obituário de Cacilda Becker no JB, pela crítica Barbara Helidora, que alguns chamam de Bárbara "Não-Me-Adora"

É difícil escrever sobre alguém que foi uma estrela, mas que ninguém conhece


Há quarenta anos, desaparecia, de forma trágica, a principal atriz brasileira de qualquer época. Mas, que mulher era aquela que mereceu do poeta Carlos Drummond de Andrade um poema tristonho? Que mulher era aquela que magnetizava seus colegas de profissão e os diretores que tiveram o privilégio de trabalhar com ela? Que mulher era aquela que, ao morrer, virou mito? Chamava-se Cacilda Becker Yáconis, paulistana de Pirrassununga, nascida numa família pobre que às vezes não tinha nem o que comer no almoço, e, na situação de penúria em que ela e suas irmãs enfrentaram, já tinha plena consciência de que seria mais dia, menos dia, alguém na vida. Ela foi mais do que isso. Foi uma legítima mulher de teatro, artista de valor invulgar e deleite para os olhos dos poucos que tiveram a primazia de vê-la em cena.


É preciso ter muito cuidado quando se escreve sobre pessoas famosas, porque corre-se o risco de supervalorizar essas pessoas, colocando-a num patamar talvez até maior do que ela merece. Não é esse o caso de Cacilda. Miúda, fragilizada, metamorfoseava-se num furacão tão logo subisse ao palco. Fora dele, lutou contra as arbitrariedades do regime militar que bloqueou as atividades cênicas no Brasil, sempre defendendo o ganha-pão de seus amigos. Fez do teatro sua razão de viver. Dignificou a atividade artística mais desvalorizada que se conhece. O crítico Yan Michalski, escrevendo no Jornal do Brasil seu obituário ("Cacilda para dentro da noite), lembrou de uma estrela que atuava num meio onde menos de 0,5% da população tem acesso. "Experimentamos hoje uma grave perda pessoal", anotou.


Há muito a falar sobre Cacilda. Eu tenho condições de fazer relatórios intermináveis a seu respeito. Esse site, no entanto, não comporta tanto. Apenas damos o registro. Cacilda merece. NAVEGANTES recomendam a leitura de dois livros que abordam sua trajetória. "Uma atriz: Cacilda Becker", de Nanci Fernandes e Maria Thereza Vargas (Edit. Perspectiva) e "Fúria Santa", de Luís André do Prado (Edit. Geração Editorial).


Cacilda Becker, maravilhosa atriz e maravilhosa mulher, em maio de 1969, estava montando "Esperando Godot", do irlandês Samuel Beckett, e sentiu-se mal em um dos intervalos. Ainda teve tempo de dizer: "Eu acho que eu estou tendo um derrame cerebral". Diagnóstico: aneurisma. Toda a classe artística, aguardando um milagre, velou a artista, durante os quase 40 dias em que se manteve hospitalizada. Foi a união mais comovente que se conhece. Ninguém descançou enquanto Cacilda manteve-se - a duras penas - viva. Faleceu em 14 de junho de 1969. Era casada com o também ator Walmor Chagas e era irmã da atriz (ainda viva) Cleyde Yáconis.


Felicidades!

DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES


Aprecio a todas indistintamente. Mães, filhas, avós, tias ou primas. Seja qual for o parentesco, grau de amizade ou lugar na política ou na profissão, tenho-as na conta de grandes e invejáveis seres. Rende-lhes homenagem durante um único dia é pouco. Por tudo que são e representam mereciam incontáveis dias de culto. Se, no entanto, esse foi o dia elegido para venerá-las publicamente, lembremos que os demais são para admirá-las em silêncio. Que é quando nenhum exibicionismo alegre mascara nossas reais intenções. Parabéns a todas as mulheres por mais um dia.

POR ONDA ANDA O ESTADO CIVIL?

Um dos blogs que mais leio, há um mês deixou de postar com a mesma periodicidade de sempre me deixando desolado. Desde então ao entrar nele o que vejo é a mesma e modorrenta postagem de trinta dias atrás, e nenhum sinal de retorno. O Estado Civil terá saído definitivamente da blogosfera? Custo a crer. Espero que sua ausência seja momentânea. Habituei a leitura diária das muitas e deliciosas tiradas envenenadas do senhor Pedro Mexia. Não compactuo com muitas de suas posições, principalmente políticas, mas não nego sua verve indômita e seu animo sempre aceso para discuti-las, sempre de um ponto de vista desconcertante. Faz-me falta essas discussões. Muito mais, faz-me falta suas críticas de obras literárias, vizinhas da lucidez completa e definitiva.

A MAIOR DAS VAIDADES

Os Amantes - René Magritte
Existem mil maneiras de se demonstrar afeto por alguém. Nenhuma delas é tão dispensável como o ciúme. Seria bem melhor que ele não existisse. Yago não teria veneno para destilar. Mas para maioria das pessoas, e para as mulheres em particular, não bastasse o fatídico desfecho de Desdémona, o amor só é realmente validado, endossado, e devidamente sacramentado quando um dos parceiros inchar-se voluntariamente contra o outro, porque esse olhou mais o que o normal para aquele, querendo se fazer notar mais do que qualquer pessoa. É provável que tal fato fique a dever-se mais ao egoísmo pessoal, do que a qualquer sentimento de zelo. Nada pode ser mais vaidoso do que o ciúme. O ciúme infertiliza promissores relacionamentos. O ciúme nos priva da razão. O ciúme cega. Infantiliza a relação. O ciúme esteriliza os abraços. Perturba e inquieta. Por tudo isso é que ele se constitui desnecessário.

PREFIRO ANTES O SOSSEGO DA "ROÇA"


Há muitos inconvenientes em se viver numa província, é certo. A tagarelice política, os mexericos sociais, a embriaguez religiosa e tutti quanti. Nenhum deles, no entanto, encarece o sossego de acordar vinte minutos antes do inicio do trabalho, sem se sentir desassossegado com isso. Quem vive nas grandes cidades sabe do que estou falando. As metrópoles, insaciáveis em seu gigantismo, não permitem a indolência do sono reparador, essencial para vida.

A INDISCRIÇÃO DE UM ARTISTA

A Origem do Mundo - Tela de Gustave Courbet

Há quem se horrorize com esse quadro, já posso até ouvir as suas vozes. Também, não poderia deixar de faltar, há os que façam dessa mesma cena um ato de exploração sensacionalista e maniqueísta, em todos os sentidos, imperdoável. Nunca foi segredo o gosto dos artistas em reproduzirem homens e mulheres assim como vieram ao mundo. A nudez sempre foi muito apreciada na arte, como em alguns lugares inomináveis. Desde os gregos até os séculos mais conservadores essa prática foi aceitável, difundida e reproduzida ad nausea, afinal, era o ideal de beleza e estética que se queria. Mas, um olhar mais profundo sobre essa arte pos-coubertiana, e ela se revelará comedida e muito discreta. Ao figurar as partes pudendas do homem e, da mulher em particular, sempre se teve a preocupação em representar o sexo de forma deturpada, escamoteada e por vezes tristemente fingida. Os homens frequentemente tinham uma discreta folha a cobri-lhe as vergonhas. Enquanto que a genitália feminina não passava da continuidade da pele da barriga, uma representação quase que assexuada. Desse modo, preservava-se a um só tempo, a busca pela perfeição estética, almejada por muitos, e o eterno desejo voyerista que sempre acompanhou o homem, sem ferir as convenções morais, religiosas e sociais, e sem desonrar a sociedade. Gustave Courbet (1819-1877) pintor anarquista francês, dono de um incontido desejo de provocar, dispensou, como se pode ver, qualquer acessório e pintou de forma visceral aquilo que até então era dissimulado nas academias de arte e preservado a custo na intimidade social. Claro está que ele foi acusado de pornográfico, imoral e outros tantos adjetivos desqualificativos que serviram para tornar esse arrogant bastard em mais um pária da sociedade. Sua postura iconoclasta, no entanto, serviu para dessacralizar a falsidade vigente na arte e na sociedade. Além de tudo a tela de Courbet serviu e serve ainda como combustível de um caloroso debate entre os limites entre arte erótica e pornografia. Esse é um debate para próximos post.

O APAGÃO DA CLARO


Ao cabo de engrossar as fileiras dos antenados digitalmente, encontro-me mais atrasado do que antes. Isto, porque o pretenso aparelho de internet móvel, que prometia encurtar meu torrão natal com a Conchichina, empaca na primeira tentativa de acesso com meu amigo do outro lado da rua. Abrir mais de uma página ou baixar qualquer coisa é impossível. Sinto-me, sinceramente, cansado de tanta sacanagem. Estou farto dessas empresas sebosas e dissimuladas, que abusam da boa fé dos clientes para venderem promessas falsas. Estou pensando em adotar, em caráter precário, o velho barbante e uma lata atada por um furinho, para mandar a Claro pros quintos dos infernos.

EMPALIDECER A SOMBRA


Essa postagem aqui, do meu amigo Teo, provocou, depois de longos dias passados, um delicado leitor, que se sentiu ofendido pelas palavras certeiras de Teo sobre Caetité, sua terra natal. Tanta celeuma se deu por conta de que Teo, com toda razão, se cansou do marasmo, da mesmice e do torpor Caetiteense, e num ato de coragem, tomado por poucos, resolveu encarar a vida sem lenço e sem documento feito um Rimbaud. As pessoas não toleram os tipos que não se ajustam como elas, completamente a domestificação. Escudados por um pretensioso bairrismo, que eles se esforçam em demonstrar, como se isso fosse sinônimo de preocupação com o lugar e com as pessoas, esses zelosos intrépidos dos portões da cidade, quase sempre fazem vistas grossas as maledicências políticas ou receberam alguma sinecura, que não lhes deixam nenhuma dúvida sobre as belezas dessa cidade.

CORAÇÃO VAGABUNDO

Maysa (1936 - 1977) em ação

ARQUIVO LIRA NETO/MAYSA - SÓ NUMA MULTIDÃO DE AMORES
2. FESTIVAL INTERNACIONAL DA CANÇÃO

CORAÇÃO VAGABUNDO

Quando fala o coração de Maysa Matarazzo

Terminada a minissérie "Maysa - Quando fala o coração", o que se comenta é a disparidade entre o que foi apresentado e a biografia da cantora Maysa - que lhe deu origem. (Quem leu o livro notou). Apesar de ter sido dirigida pelo filho dela, Jayme Monjardim, o que poderia dar ares de parcialidade, a minissérie foi feliz. A meu ver, o diretor afastou-se (sofrivelmente, óbvio) o quando pode da mãe e encontrou-se com a grande artista que foi Mysa.

Tive a grata satisfação de dizer a Lira Neto, jornalista e autor de "Maysa - Só numa multidão de amores" (Edit. Globo) que seu livro é excelente. A obra não traz a história de uma personagem apenas, mas é um passeio pelo universo da melhor música já feita no Brasil. Ninguém ficou de fora. Ainda que não fosse uma grande cantora, Maysa já merecia uma biografia, porque se trata de uma mulher íntegra, mas ao mesmo tempo transgressora, uma odiada, uma agredida, uma Janis Joplin, alguém que fez da vida o que bem quis -- o que talvez explique suas fossas e sua irremediável solidão.

A cantora, em início dos 60, por exemplo, já famosa, flertou com a recém-nascida Bossa Nova, que ganharia, pouco tempo depois, adeptos como Nara Leão, por exemplo. Algumas das interpretações de Maysa , sereníssimas, do tipo "pois há menos peixinhos a nadar no mar / do que os beijinhos que darei na sua boca (...) dentro dos meus braços / os abraços" (Chega de Saudade) ou então "o barquinho a deslizar, no macio azul do mar / céu tão azul, tudo isso é paz / tudo isso traz / uma calma de verão (...) a tardinha cai" (O Barquinho), contrastam -- e muito -- com o seu temperamento explosivo e amargo, de mundo caindo e garrafa voando.

Maysa Figueira Monjardim Matarazzo (principalmente Matarazzo) foi cantora de sucesso, como já vimos, embora seja pouco lembrada como compositora. Revelou-se com o samba canção "Ouça", dela, em fins da década de 50. Suas letras -- analisadas com toda seriedade -- não são extraordinárias como, por exemplo, as de sua amiga Dolores Duran, a autora da maravilhosa "A Noite do Meu Bem", canção que, inclusive, fora gravada por Maysa. As letras dela não são geniais, mas também não são supérfluas. Trazem a sua angústia, sua tristeza, sua inquietação interior. Ela jogou em seus inúmeros diários a mesma substância que sua contemporânea Clarice Lispector lançou em seus livros. Trata-se de um universo particular -- porém admirável.

Maysa fora vítima de seus próprios excessos. Viveu quarenta anos. Sua coleguinha (e arquiinimiga) Elis Regina, outra que se foi tragicamente, viveu trinta e seis.Esse pessoal não dura muito. Maysa fora infinita enquando viveu. A melhor interpretação para o clássico "Ne me quitte pas" (Jacques Brell), um mundo dentro de uma pessoa que ousa cantá-la, ainda é o da brasileira Maysa. Ela foi parar, inclusive, no filme "A lei do desejo" (1987), de Pedro Almodóvar, com Antonio Banderas. (Alguém aí viu?). A mulher que cantava "só digo o que penso / só faço o que gosto" era alcóolatra, e faleceu em janeiro de 1977, num acidente estúpido, que deixou sua brasília azul em petição de miséria. A perícia analisando o cadáver, constatou que ela morrera sem uma gota de álcool no sangue. Para tapar a boca daqueles que um dia a difamaram, dos que queriam vê-la pelas costas, daqueles que invejaram sua mansão e seu prestígio, dos que a sepultaram em vida. Até na hora da morte Maysa se manteve digna.

Por essas e outras é que Maysa não fora qualquer uma.

A AMÉRICA VISTA DE FORA... E DE DENTRO?

Hope?
(Navegantes ao Mar manda carta a uma amiga na América)

Então fala-me lá de sua temporada na América. Que impressões, marcas e sentimentos esses dias lhe revelaram. Vista de fora a América e os americanos desperta-nos, como você mesma provavelmente já sentiu, sentimentos ambíguos irreconciliáveis. Se de um lado vibramos e exaltamos seu exemplo de superação tão bem ilustrado nos últimos dias com o novo presidente. De outro, condenamos a paixão dominante dessa nação em adquirir todos os bens desse mundo, a qualquer preço. Quando os homens, afirmava Tocqueville, não estão ligados entre si de maneira sólida e permanente, não é possível conseguir que um grande número deles aja em comum, a não ser que se persuada cada um daqueles cujo concurso é necessário de que seu interesse particular (grifo aqui de negrito essa frase porque penso que é esse o valor mais difundido na América e por extensão ao resto do mundo) o obriga a juntar voluntariamente seus esforços aos de todos os outros; na esperanças de um mundo verdadeiramente justo e fraterno. A desagregação dos valores, a lassidão nos negócios, o desrespeito às diferenças, as imposições e violência da América ao resto do mundo, ofusca muito de suas qualidades, notadamente muito esquecidas nos últimos anos. Não há nada, à primeira vista, menos importante aos americanos do que a consolidação de sua liderança no resto do mundo, arranhada pelas recentes trapalhadas de Bush pai. Portanto, minha cara amiga, não comungo, com a opinião corrente, de que a ascensão de um novo presidente, tão coberto de louros, mudará os rumos da política expansionista dessa nação. Já vimos algo muito parecido com isso por aqui. Conte-me você como sente as mudanças que prometem abalar as estruturas do mundo.

UNIVERSO PARTICULAR


O jornalista Lira Neto, autor de Maysa - Só Numa Multidão de Amores, teve acesso à vasta obra da cantora, seus diários, sua coleção de revistas. (Na foto, a carteira de identidade de Maysa)

O PÃO E O CIRCO DE SERGIPE


O BRILHO DA ESTRELA Maria Rita cantando "Tá Perdoado" na Orla: dinheiro sujo?

REVÉILLON PICARETA? DEUS ME LIVRE!

Todo mundo sabe que sergipano é chegado numa farra. E se for com dinheiro público - dele mesmo, portanto - melhor ainda. Por exemplo, o prefeito Edvaldo Nogueira (PC do B), "indefeso", molenga, capacho do governador Déda (PT), tomou posse nesse dia 1. Houve cerimônias, etc. etc. Ambos já foram acusados de gastos escusos, inclusive com verbas que serviram para alavancar a candidatura de Déda a governador, há dois anos. Todos os artistas contratados para a festa tristemente chamada de "PT Caju"disseram que receberam bem menos do que se divulgou. Os números não batem e aí tem treita...Na campanha pare prefeito-- de onde saiu reeleito Edvaldo, esse ano, os adversários não perdoram e humilharam literalmente Edvaldo, lembrando o espisódio dos desvios. Edvaldo, bobinho, dando uma de "bom moço", de vítima, justificava-se nos debates alegando que não iria apelar para a "baixaria" nem para o "desespero". Favorito nas pesquisas, no fim das contas, a tática funcionou e ele levou no primeiro turno.
Ele responde pelos desfalques do governdor porque os dois são unha e carne. As presepadas de um caem nas costas do outro, inevitavelmente. Esta denúncia do showbizz de Sergipe foi feita pela revista VEJA, na reportagem "A Micareta Picareta", que tanto incomodou o governo, porque a matéria poderia melar a reeleição de Edvaldo.
Pronto.Todo mundo ganhou, de modo que em Sergipe está tudo azul. A prefeitura, para retribuir o carinho, bancou neste fim de ano o "Revéillon - Caju", com as presenças de Maria Rita grande cantora e do medíocre Alexandre Pires. Diz minha vizinha Lúcia, quando soube que seria Maria Rita a atração: "Não é ninguém, não!". Segundo ela, Maria Rita não vale a passagem do ônibus. Ela preferiria Eduardo Costa. Quem agüenta?
Maria Rita, como sempre, estava deslumbrante. Interpretou "Tá Perdoado" como só ela mesma é capaz. O réveillon, claro, nõ foi dos piores, mas quando a gente imagina que uma grana alta pode ter ido para o ralo, indevidamente, dá uma tristeza... Será que as verbas do réveillon do PT foram ilícitas? Não duvide...
Mais de trezentas mil cabeças receberam 2009 em Sergipe na Praia de Atalaia (Av. Santos Dumont), Aracaju.
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Obrigado a todos vocês que me leram aqui no blogg no ano passado. Em 2009, vão me lançar. Não sei de que andar.
JÚNIOR

TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA


UMA certa vez, no 1. ou 2. ano colegial, mencionei a uma colega o nome de Cartola, e lhe perguntei se ela o conhecia, no que ela fora rápida na resposta: "Cartola? Era algum mágico, por acaso?". Evidentemente, a resposta trouxe uma ignorância. Ela não fazia a mínima idéia de quem fosse -- como todo mundo hoje, honrosas exceções.

Eu vivo no pior estado da federação. O artista mais importante para os sergipanos não é sequer um indivíduo e sim uma banda de forró. Trata-se de Calcinha Preta. Roberto Carlos aqui morreria de fome e ninguém que eu conheça pagaria, em são consciência, um café num disco de Tom Jobim. A pergunta que eu faço é a seguinte: como falar de Cartola para mentalidades dessas?

Uma das razões pelas quais eu sinto amor pelas artes é o fato de alguns poucos homens se fazerem importantes, se elevarem, se imortalizarem. É quando o talento de um indivíduo atinge um patamar quase que intocável. É como se ele não fosse humano, não fosse de carne e osso. Cartola, para mim, consta nessa galeria.


Angenor de Oliveira -- é Angenor e não Agenor -- (1908 - 1980), era negro, pobre, foi um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco nem amigos importantes, nascido no morro carioca etc. Dadas as condições que um sociólogo explicaria melhgor, Cartola sairia um deliqüente de primeira ordem. Ele teve pouco, muito pouco. Merecia mais. Chegou a realizar trabalhos incompatíveis com seu enorme talento (há os que o chamem de 'gênio'), como lavador de carros, chegou a ser pedreiro, etc, essas coisas que os menos dotados de espírito fazem. Consta que nem a casa onde morava adquirira com seus proventos, e sim de uma doação.


Angenor, gente de bem, macho, trabalhador, marido de D. Euzébia (popular Zica) e sobretudo poeta. Faria 100 anos neste mês (outubro, quando escrevi o texto). Graças ao Bom Deus, a data não passou despercebida dos tabaréus, que, se não conhecem seu repertório, sabem agora, ao menos, que ele chegou a existir.


Quem prestar bem atenção às suas letras, vai constatar que ele escrevia de maneira simples -- mas comovente. Músicas de um lirismo levado às últimas conseqüências, não isento de súplicas, de queixas, de desânimo. Nem Cazuza, no auge de sua porra-louquice, resistiu a ele e gravou a terna "O mundo é um moinho", de 1974, sua obra mais bela. É mais ou menos um conselho de um homem maduro, já experimentado, a uma mocinha inexperiente e amorosamente iludida por outrem ("Mal começastes a conhecer a vida (...) Embora eu saiba que estás resolvida (...), preste atenção, querida...", deixandoo eu-poético a ver navios ("já anuncias a hora de partida"). Um conselho, um sermão tranqüilo, e não desesperado, aquele velho rogar de praga, levado às raias do sublime.


Sua vastíssima produção vem sendo descoberta por Alcione, Zeca Pagodinho, Vanessa da Mata, Ney Matogrosso e outros que não me recordo no momento. Ele teve a grata felicidade de, já velho, ver suas belas letras gravadas na sua própria voz, quando foi lançado seu primeiro disco, lá por meados da década de 70.


Outras pérolas suas são "As rosas não falam" (a mais terna declaração de amor que uma mulher já recebeu de um homem), "Tive, Sim", "Acontece", "Chega de Clamares Inocência" (esta a irmã gêmea de "O mundo é um moinho") e "Ensaboa".

Não deixem Cartola morrer. O poeta está vivo.






BIBLIOTECÁRIO

Pintura de Carl Spitzweg

Quando digo às pessoas que sou bibliotecário elas pensam imediatamente que passo os dias a ler. Outras disfarçam sua reprovação, franzindo o cenho, enquanto dizem: “Que legal, deve ser muito bom trabalhar não fazendo nada”. Desde cedo, eu já percebia, que não seria possível exigir das pessoas que soubessem a verdadeira função de um bibliotecário.

“A ditadura da mediocridade” no campus de Caetité

A moralidade, embora caindo em progressivo desuso, ainda encontra quem faz dela uma morada. Num contexto de relativo descrédito, com a política e os políticos, com as religiões, governos, empresar e universidades, manter a integridade torna-se cada vez mais um desafio, ao qual nem todos estão dispostos a enfrentar. Há, no entanto, alguma esperança. Com a devida vênia reproduzo abaixo, na integra, a carta do professor Paulo Henrique, que mesmo, miúdo, não cansa de alargar os sítios da moralidade.



“O sujeito ético só pode existir se preencher as seguintes condições: ser consciente de si e dos outros, ser dotado de vontade, ser responsável e ser livre.” M. Chauí

Durante os dois anos da minha gestão foi travada uma séria luta pela qualidade na educação superior. Uma luta pela maior disponibilidade semanal do docente, pelo acompanhamento da freqüência docente, pela implementação de projetos acadêmicos, pelo cumprimento do regime de dedicação exclusiva e pela qualidade das aulas na graduação. Com o término da minha gestão, rápida e sorrateiramente, o campus retornou ao seu antigo leito. Evidencia-se o avanço de uma estranha noção de professor horista que o desobriga da pesquisa e extensão, cuja prática passa a ser nivelada com as dos docentes das universidades particulares. Uma noção perniciosa e oportunista, defendida avidamente dentre professores do campus: “a mediocridade coroada encena ser uma instituição séria, de ‘ensino superior’” (Kothe). A luta pelo ensino superior como espaço não exclusivo à sala de aula, desconectado da pesquisa e da extensão universitárias, sucumbiu ao pseudo-compromisso reinante.

As últimas deliberações da plenária e do conselho de departamento da nova gestão do campus revelam uma luta inglória. Fato que se agrava porque deliberações são aprovadas sobre pontos não incluídos em pauta e orquestradas pelos que buscam degradar o conhecimento sob o menor enquadramento das horas-aula em dias da semana. Prática estranha às gestões anteriores do campus, em que se primava pela ampla divulgação das pautas de discussão no interesse único de promover a participação democrática e a liberdade no debate de idéias e ações. Cabe perguntar onde reside a democracia tão arrogantemente defendida em discursos pelos oportunistas de plantão? Por certo na infixidez da multicampia na Uneb, cujas moradas provisórias dos docentes fazem dos campi, e particularmente do campus de Caetité, lugares de passagem transitória. Uma ação em que o discurso que se afirma democrático se contradiz. Abandonado o debate intelectual, impera a vulgaridade dos discursos sem ação: “À mediocridade intelectual somou-se a baixaria moral”. (Kothe).

Para que aqui não se configure um discurso sem evidências, reporto-me à plenária departamental que suspendeu o Ato Administrativo 213/2006. Viu-se ali o açodamento ardiloso de ponto não incluído em pauta em que tanto a presidência da mesa quanto a plenária não dispunham dos materiais obrigatórios à instrução do ponto a ser apreciado. Um dos instrumentos para a construção do ensino superior no campus foi suspenso sob o cinismo majoritário do “sei, por ouvir dizer” e pela omissão vacilante: “Nunca as relações de compadrios foram tão escancaradas e perversas”. (Roberto Sá).

Por fim, gostaria de dizer a todos que confiaram na minha gestão - e que pelos seus atributos se identificaram com a minha posição no processo eleitoral - que equívocos fazem parte da vida e a eles estamos todos sujeitos. Apesar dos últimos acontecimentos revelarem uma postura diversa dos propósitos que sempre defendi, espero que continuem firmes na luta pela construção de um projeto sério para o campus.

“Na universidade, recebe mais salário quem foi mais salafrário. Recebe menos quem produz mais em termos acadêmicos”. F. Kothe

Paulo Henrique Duque Santos
Prof. do curso de História da UNEB/Caetité
Caetité, 23/10/2008

RAZÃO LITERÁRIA

Instado a me pronunciar sobre as qualidades que aprecio nas obras literárias, digo de pronto que elas devem provocar algum desconforto. Isso para mim basta. Porque aquelas que tentam me confortar, tenho na conta de nauseantes. Nesse sentido sou totalmente Nietzscheano. Não posso crer que sem algum desafio, esforço ou luta se faça um homem, tanto mais uma obra literária. Por isso gosto mesmo são dos amores fracassados, dos vencidos da vida, dos derrotados, dos silêncios e vazios, dos errantes e dos frustrados sociais, dos marginais e prostitutas, dos traídos, dos náufragos dos ressentidos dos iconoclastas morais e religiosos. De didatismo já temos por conta. É preciso encarar a vida com coragem. Mas antes algum esforço tem de ser distendido. Esses pontos resumem bem as razões pelas quais gostos tanto de literatura porque como disse Cesare Pavese ela é uma defesa contra as ofensas da vida.