O INCANSÁVEL


Anunciado para breve o lançamento de mais um livro do poeta Marco Haurélio. Mais informações aqui.

A DÚVIDA

Eu não queria crer, mas havia evidências, muitas, irrefutáveis e desconcertantes. A maior e mais perturbadora era física. Irremediavelmente marcante e por demais constrangedora. Parece até irônico, se referir a isso, como marcante, quando justamente não havia marca alguma que a distinguisse. Ocorria que, onde nas outras pessoas existia um sinal indelével de sua filiação maternal, em mim havia a prolongação da pele, que desde aquele momento até hoje, cresce, flácida e enrugada até não poder mais, denunciando os muitos anos que esse fato me assola. Nenhum sulco, marca ou sinais, que desfizessem as minhas dúvidas cresceram em mim. Assim apurei que estava só, e que minha existência era questionável, ao menos da maneira em que as outras pessoas constituíam a existência. Divorciado da maioria dos homens, a única cicatriz que insistiam em mim, era a da dúvida, parideira de toda sorte de pensamentos, inquietante moléstia, sórdida mazela dos emparedados. Pertencerei eu mesmo a esse mundo? Será certo que essa senhora da foto embotada, que me carrega pela mão, de fato foi a que me deu a vida e me precipitou no mundo, ou serei filho do amor que há entre Deus e o Diabo. Farsa é tudo uma farsa. Era a única coisa que me ocorria. Apartado do mundo e dos homens eu não conseguia repousar tranqüilo sabendo que era diferente.

AS MODERNAS TEORIAS RACIAIS

(fonte: Jornal Daily News)
.
Tempos atrás, assisti a uma palestra de um professor universitário, que falava de forma inflamada, sobre a evidente discriminação racial no filme Matrix. A obviedade do fato decorria, segundo o ilustre professor, da composição do elenco, que mais uma vez, segundo ele, seguia uma "hierarquia racial" que desprestigiava a figura dos negros. Enquanto Keanu Reeves (um legítimo representante da raça branca) ocupava o papel principal, a Laurence Fishburne restava o papel de Sancho Pança, o fiel escudeiro do herói que guiará as pessoas na guerra contra os computadores. Será mesmo que os irmãos Larry e Andy Wachowski são grandes racistas e que a escolha de Keanu Reeves para o papel principal definiria por extensão os lugares de brancos e negros na sociedade, eu me peguei questionando. Morfeu, personagem de Fishburne, sabe todos os segredos de Matrix, no entanto, ele não tem a força para destruir o sistema, tem que encontrar alguém que possa fazer isso por ele e por toda a raça humana, assegurava o professor. Baseado nessas ideias o professor argumentava que esse filme era uma grande metáfora da disputa racial que vivemos hoje. Apesar do argumento rasteiro o professor foi calorosamente aplaudido ao final de seu brilhante, genuíno e hipnotizante pensamento, que sinceramente achei um tanto forçado e muito simplista. Reduzir uma discussão tão profunda a razões tão estreitas dão a medida de como anda os ânimos e a disposição de muitos para debater com seriedade, equilíbrio e insenção a delicada e infindável questão em que muitos decidem racializar tudo o que veem pela frente. A prova mais evidente de que o professor se precipitou em seus argumentos, e de como o seu pensamento ao invés de servir de base para discussões serias, patina num lodaçal de preconceitos e juízo pré-moldados, eu tive essa semana quando o jornal americano Daily News, divulgou uma lista com nome de vinte e seis atores e atrizes que deixaram de embolsar muito dinheiro e alguns prêmios importantes como o Oscar, por recusarem protagonizar filmes que depois se tornaram fenômeno de crítica e público. Entre tantos nomes o que mais me chamou a atenção foi o de Will Smith que havia declinado do convite dos irmãos Wachowski para estrelar justamente o filme que o professor havia acusado de racista, por não ter como protagonista um negro. Baseado em seus próprios preconceitos o professor julgou ter achado o alvo perfeito para ilustrar o quanto são necessárias políticas de reparação racial, que tenham como meta evitarem distorções como essas, em que negros não são escolhidos para papéis no cinema, e possam equalizar os espaços entre brancos e negros nas telas. Na ânsia de racializar tudo o que ver pela frente os ativistas do Movimento Negro esquecem que nem todas as escolhas de protagonistas são baseadas em critérios raciais como ele julga, e sim, na livre iniciativa e na adequação do personagem ao perfil do ator. A continuar como estamos até Hamlet será severamente questionado como mais uma prova viva da segregação racial. A alegação é claro será que o ator princial era branco e não negro.
(A lista completa dos artístas e dos respectivos filmes que eles se recusaram a protagonizar estão no site do jornal, aqui).

INDISPENSÁVEL

.
.
Novidade à vista. O poeta, editor e folclorista Marco Haurélio anunciou ontem no seu blog Cordel Atemporal, o lançamento, para breve, de seu novo trabalho, CONTOS FOLCLÓRICOS BRASILEIROS. O livro sairá pela editora Paulus e conta com, ilustração de Maurício Negro e notas do Dr. Paulo Correia, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve, Portugal, segundo nos informa o blog. O trabalho se constitui numa antologia de contos populares, colhidos pelo poeta no interior baiano entre familiares e mestres de sabença. A iniciativa, ao tempo em que valoriza os saberes e a memória popular de homens e mulheres que souberam pacientemente preservar saborosas estórias; desmistifica a ideia corrente de que no Nordeste só há pobreza. Longe dos estereótipos limitadores, Marco Haurélio assume a dianteira de uma geração de escritores entusiasmados com a cultura Brasileira. Não há dúvidas de que, em se tratando de um escritor apaixonado pelo ofício literário, que exerce desde a mais tenra idade, e de alguém que valoriza as tradições e as riquezas do povo brasileiro, como poucos, podemos esperar uma obra de qualidade indiscutível. Desnecessário dizer que, desde já, esse passa a ser um livro obrigatório para todos os amantes da boa literatura.

NOVOS TEMPOS?



A história está sendo reescrita? A inédita prisão do governador em exercício José Roberto Arruda, anunciada nessa quinta-feira, poria um basta, nos inomináveis vexames atribuídos à política nos últimos 500 anos nesse país? As contundentes imagens do desrespeito às funções públicas estarão finalmente dizendo alguma coisa? Arruda será realmente punido? Arruda será o primeiro de muitos a pagar por seus atos de desrespeito ao eleitorado? Afinal acordamos às grosserias políticas? Estaria chegando ao fim uma vergonhosa tradição de impunidade? A justiça finalmente despertou de sua letargia ou a justiça que tardou em prendê-lo, acordada que foi pela opinião pública, não demorará a restituí-lo à liberdade? Estamos vendo o ponto final da farra política com o dinheiro público? Estaríamos vivendo uma nova fase na política em que não se tolera as malversações? Sejam quais forem as respostas a essas perguntas, o certo é que estamos assistindo a um acontecimento único, nesse caso, não podemos perder a ocasião de darmos um choque de moralidade na pasmaceira reinante em Brasília.

ADMITAMOS... SOMOS UM PAÍS DESAVERGONHADO


Admitimos e promovemos muitas coisas nesse país, que no discurso diário estamos sempre prontos a condenar. Não aceitamos a corrupção política, essa vergonha, essa nódoa inalterável de nossa história. No entanto, não nos constrange, nem um pouco, fraudar a declaração do imposto de renda; receber um benefício que não nos cabe; vender ou comprar um trabalho acadêmico; roubar livros das escolas públicas - pratica frequente de nossos mestres; comprar CDs e DVDs no mercado paralelo. Dispor-se a maquiar uma licitação ou molhar a mão de uma autoridade pelo perdão da falta, não cora ninguém. Estimulados por uma desavergonhada força que anima nossa sociedade, essas e outras formas de ilegalidades são toleráveis, admissíveis e apropriadamente aceitas. Na verdade chego a pensar que elas dignam muitos homens. Fica cada vez mais difícil distinguir o corrupto e o corruptor no vale-tudo desmedido da vida social. Qualquer pessoa, desde a mais tenra idade, se sente desobrigada a fazer, diante de tanta vergonha, o que é certo, justo e realmente correto. Ninguém suspeita, porém, que essas e, outras ações injuriosas, minam qualquer sonho de progresso, e que, ao contrário do que se imagina, não será a indiferença às pequenas vilanias cometidas pela população diariamente, a resposta aos maus atos dos nossos representantes.


CITAÇÃO 3

"Não há temas privilegiados ou condenados para a literatura. Tudo depende do tratamento artístico."
Sábato Magaldi
"O palavrão, por
tanto, tem de ser encarado no palco de maneira diversa do que o é na vida real: se serve a fins artísticos precisos, revelando algum aspecto da personalidade humana, embora escuso, ou lançando luz sobre as condições econômicas e sociais de certas classes, justifica-se humanamente e esteticamente."
Décio de Almeida Prado
"De fato, a evolução da literatura nos últimos cento e cinquenta anos está ligada a uma série de vitórias obtidas contra a repressão social, representada pela Censura ou pelo Poder Judiciário. As Flores do Mal, de Baudelaire, Mme Bovary, de Flaubert, O Amante de Lady Chatterley, de Lawrence, Ulysses, de Joyce, são alguns destes marcos mais representativos, por terem sido objetos de processos e condenações rumorosas, antes de passarem à categoria de tranquilas obras-primas. Cada uma de tais batalhas judiciárias acabou efetivamente por alargar os limites da arte, que os artistas pretendem seja tão amplo quanto o da ciência. Tudo é objeto de arte, mesmo o obsceno, mesmo o repugnante, como tudo é objeto de ciência, já que ambas, cada uma a seu modo, dizem respeito ao conhecimento do homem."
Décio de Almeida Prado
"Foi realmente determinado que não há nada de saudável e proveitoso na arte a não ser que ela esteja vestida?"
Jornal New York World
"Sempre acontece que, entre a proibição justa, fundada em premissas certas, para a salvaguarda da coletividade, a ignorância do fenômeno estético por parte de censores - recrutados mais como policiais do que como críticos adultos - provoca disparates como este que é a proibição de A Navalha na Carne, com fundamento na sua presumível linguagem pornográfica."
João Apolinário

INTERDIÇÕES

Os Sonhadores

Quais razões uma instituição, com fins culturais, pode alegar para censurar uma obra artística? A Casa Anísio Teixeira, situada na cidade de Caetité, terra natal do educador, tem uma, que coloca em dúvida a nossa existência no século XXI, e nos faz pensar estarmos noutra época. A Casa vê com reservas algumas obras cinematográficas e lhes impõe severas restrições, baseadas num código moral, rígido, de uma única lei. A pretexto da preservação da moralidade e dos bons costumes, toda e qualquer obra, que exponham cenas de sexo, por mais branda que sejam, por mais indispensáveis à recriação da realidade, sofre uma desmedida censura.

Em que pese o caráter sexual de algumas obras, a saber, Fale com Ela, Meninos não Choram, Má Educação, Navalha na Carne, Os Sonhadores, Anjos Exterminadores, A Última Tentação de Cristo, entre outras, inexistem, nessas, qualquer impedimento moral que desobrigue instituições culturais, com interesses em formar um público de cinema, sem preconceitos, e cidadãos conscientes, que justifique a censura que ora a Casa emprega para selecionar os seus filmes.

O sexo nesses filmes não me parece razão para censurar as obras, muito mais, que eles tratam, com muita seriedade, de outros temas, um tanto quanto delicados, mais indispensáveis. Se eventualmente essas obras têm alguma cena de sexo, são porque essas histórias mostram uma realidade sem máscaras e sem concessões ao fingimento, que reina no mundo de hoje. Se empregam um vocabulário chulo, rejeitados pela decência e pela sensibilidade, é apenas em respeito à severidade de propósitos que a encerram.

O impedimento apenas reduz essa seriedade de propósito, a um imperativo sexual, que insisto, eles não têm. Má Educação, de Pedro Almodóvar, por exemplo, retrata uma realidade que fingimos não enxergar, a da pedofilia, algo realmente condenável, mas não se ouve um comentário repudiando a imoralidade dos atos religiosos, recrimina-se antes a obra, que a denuncia. Meninos não Choram, fala de uma sociedade intolerante a orientação sexual das pessoas que não andam encabrestados como as demais, mas apenas o sexo mostrado no filme, que não corresponde às formas desejadas pela “normalidade” social, é lembrado. Fale com Ela, uma belíssima ode ao amor, coisa rara nos dias atuais, deixa de ser uma lição de tolerância e amor ao próximo, por quê? Sexo, sexo, sexo, sexo, algo que ninguém faz, aparece em alguma cena. Navalha na Carne, obra do fabuloso Plínio Marcos, retrata o submundo da prostituição e a violência nas relações humanas, nada disso parece importar. Será possível que histórias assim ainda se concebam fora de nossos cinemas?

Enquanto interditam essas obras a Casa é parcimoniosa com outras, muito menos incômodas, e seguramente, menos instrutivas. Xuxa e os duendes, As patricinhas de Beverly Hills, High School music cujo objetivo maior, passa ao largo da instrução social, e reinam impune. A exploração comercialesca desses produtos juvenis, travestidos de cinema, recebe total amparo da Fundação em detrimento das legitimas obras de arte, que com certeza têm muito mais a dizer sobre o homem e a sociedade.

Comprometidos em mostrarem a vida como ela é e não como são vendidas nas propagandas, as obras de significativos valores são estupidamente amordaçadas, num atentado as consciências. O alegado conteúdo sexual desses filmes não passa de uma afronta a nossa inteligência. As histórias mostram realidades duras e cruéis, porque retratam realidades duras e cruéis, porque a realidade, em si mesma, é frequentemente dura e cruel.

O cinema, principalmente o dos melhores realizadores, como é o caso desses filmes, distingue-se da pornografia e não são imorais, muito menos ofende a dignidade humana reduzindo-o a um produto perecível, ao contrário, eles mostram, e talvez aí esteja o legítimo motivo da censura, uma realidade que fingimos não existir.

A propósito das razões da censura contra as obras artísticas a maior referência da crítica teatral no Brasil, Décio de Almeida Prado, escreveu: “A censura baseia-se provavelmente em impulsos repressivos mais fundos, menos conscientes... O primeiro, comum a todos nós, é o desejo muito compreensível de negar o mal (chamemo-lo assim, para simplificar o problema). Sabemos que ele existe. Cruzamos diariamente, nas ruas da cidade, com a prostituição, o proxenetismo, o homossexualismo. Mas fazemos tudo para não ver, para ignorar a realidade desagradável... Não se podendo atingir a própria realidade, atinge-se a sua representação... A severidade, no campo limitado sobre o qual podemos influir, compensa-nos das nossas imensas frustrações em relação ao campo rebelde e infinitamente mais vasto da realidade...”

Sobre qualquer pretexto o cerceamento à expressão artística é um retrocesso aos avanços de nossa sociedade. Esquecidos de que o cinema é um importante bem de divulgação cultural e indispensável ao reconhecimento de uma realidade que urge ser modificada, a Casa infringe, em nome de um pretenso acolhimento da sociedade tradicional, as suas funções primárias, que é a de distribuir e divulgar objetos culturais de qualidade. Para fazer isso faria um grande favor abolindo a censura que deixa de fora de seu catálogo de filmes obras essenciais do cinema.

"Às morais de séculos anteriores temos que antepor a coragem de enfrentar a verdade, seja ela qual for".

VESTEM BEM... MUITO BEM.












Essas são de meu agrado. Estas outras também me cairiam bem.

TODA DEFERÊNCIA

O médico chegou. Não era mesmo um médico legítimo de clínica e hospital. Era na verdade um dentista de boca, prótese, ponte e reparos cariados. Isso, no entanto, não importava. Um passo à diante, um degrau à cima, e toda deferência, salamaleques e ritual de corte começava. O mundo agora era o dos sorrisos fartos da conversa solta. De repente, as línguas perdiam todas as travas. Menino assopra o fogo, corta um pedaço bem magro desse lombo de porco, pode pôr mais carne na churrasqueira, o doutor está com fome. Maria arranca uma cerveja do fundo do congelador e traz mais dois copos. Era a primeira vez que eles sentiam o mundo dos doutores. Gente bacana, que se dispunha a frequentar a sua casa. Outrossim, os vizinhos, todos, iriam ver entrarem pela porta, um moço de boa família, formado na universidade, num curso de verdade, não daqueles de fala difícil, muitas palavras e pouca ou nenhuma ação. Veriam todos, e saberiam todos, que ali, mesmo que, não passasse com regularidade o carro de lixo, mesmo que a rua estivesse um tanto esburacada e empoeirada, ou quando chovia era impossível entrar ou sair - graças a deus não choveu - todos veriam alguém importante se dignar a comer em sua casa. E dava gosto ver o doutor comer.

ARTE E BELEZA



Tenho encontrado poucas mulheres que não sejam caricaturais. Essa moça é uma delas. Conjugando talento e uma indiscretíssima beleza que não encontra definição precisa, só por isso está sempre sendo comparada com duas ou três outras hermosas raparigas que deem o sentido que a palavra não alcança, ela vem conquistando um razoável prestígio no cinema e nos corações de muitos marmanjos. O último foi o meu amigo Teo que resolveu subi-la ao altar da devoção cinematográfica jurando fidelidade eterna. Infeliz companheiro, a moça já foi fisgada. Cumpre agora a você adorá-la de longe como o resto.

ASSOMBRO

Às vezes gosto de pensar que existem certas vantagens em ser ignorante. O sujeito não tem que se explicar de nada. Não precisa pensar. Não discute e nem se preocupa. Por certo também, não critica. Deixa as coisas acontecerem, como se estivesse sendo arrastado por uma torrente e dela não quisesse se defender. Vive, como se para isso não fosse preciso, gastar um minuto de seu tempo ocupado com as tediantes tarefas de maquinar o cérebro. Munido dos instintos que a natureza lhe deu, sabe que o pulmão faz muito bem o seu trabalho, sem que se lhe diga o que deve ser feito. E só por isso o homem vive. O mesmo pensa do coração, dos rins, do fígado, e de outras e tão sábias partes do corpo que sem pensarem em, como e por que, seguem. Esses sujeitos também, refugando algumas conquistas do intelecto, não se desassossegam nem se inquietam, com o que para outros assaltam os nervos.

ERA UMA VEZ NO OESTE

A chegada de Jill personagem de Claudia Cardinale. Música de Ennio Moricone

Em 1964 como o filme Por um punhado de dólares, o cineasta italiano Sergio Leone (1929-1989) deu forma ao que se convencionou chamar mais tarde de Western Spaghetti. Esses filmes tinham entre outras características a crueza dos personagens principais, que diferentes dos personagens hollywoodianos, andavam sempre mal vestidos, sujos e com intenções inescrupulosas. Os temas giravam em torno da vingança. O filme estrelado por Clint Eastwood teve duas continuações e ficou conhecido como a trilogia dos dólares. Em 1968 Leone realizou, Era Uma Vez no Oeste, uma verdadeira obra-prima. O filme é assustadoramente arrebatador. E tem muitas razões de ser. Primeiro pela peculiar e indistinta narrativa, cheia de silêncios, esperas e ruídos ambientes que se integram ao clima de desolamento e tensão criado nos momentos exatos em que se exigem esses climas. Segundo pela impecável atuação dos atores Henry Fonda, Claudia Cardinale, Charles Bronson e Jason Robards que encarnam com veracidade incomum os seus papeis. E por fim uma trilha sonora, do mestre Ennio Moricone, que dá consistência e caracteriza os personagens. O tema principal da mocinha feita por Claudia Cardinale é especialmente memorável pelo lirismo. Obra impar do gênero, Era uma vez no Oeste, é um filme daqueles tempos em que o cinema era uma expressão artística antes de qualquer coisa.

"QUER OUVIR A MINHA IDEIA PARA UM ASSASSINATO PERFEITO?"

PACTO SINISTRO, 1951
Depois de dois fracassos retumbantes com Sob o Signo de Capricórnio (1949) e Pavor nos Bastidores (1950), Alfred Hitckcock retornou a velha forma em 1951 com Pacto Sinistro, seu 14º filme em Hollywood. Adaptado da obra de Patricia Higsmith, a mesma de O Talentoso Ripley, o filme conta a história de um inusitado e casual encontro que acabará em tragédia, nada mais hithcockiano do que isso. Num trem, Gay, interpretado por Farley Granger - que já havia trabalhado com Hitchcock em Festim Diabólico (1948) - é um jovem campeão de tênis, que segue para sua cidade natal a fim de acertar o divórcio com sua ex-mulher. Gay pretende se casar novamente, agora com a filha de um senador. No meio da viagem ele é abordado por Bruno (Robert Walker), um indiscreto fã que sabe tudo sobre sua vida. Não demora e o simpático Bruno, protótipo do vilão desequilibrado que permeia a galeria dos melhores filmes de suspense, tenta enredar Gay num ardiloso e macabro plano de assassinato. Aproveitando a situação em que ambos acabaram de se conhecer e de que até aquele momento não havia nenhuma ligação entre eles, Bruno propõe a Gay o que considera o plano perfeito. Bruno eliminaria a ex-mulher de Gay, que se recusa a aceitar o divórcio, e em troca, esse se encarregaria de matar o seu pai (o de Bruno). A evasiva recusa de Gay é interpretado por Bruno como um sinal verde para levar adiante o seu projeto homicida. Assim Bruno executa a primeira parte do plano, estrangulando a ex-mulher de Gay num parque de diversões. Avisado por Bruno da morte de Miriam, Gay se desespera; todos pensarão que foi ele o assassino de sua ex-mulher, motivos para isso não faltavam. Interrogado pela polícia o jovem tenista não consegui apresentar um álibi que alivie as suspeitas das pessoas sobre ele. Descontente com as insistentes recusas de Gay, que teima em não cumprir a sua parte no "pacto", Bruno resolve arruinar a vida do jovem esportista, incriminando-o. Como ele havia ficado com o isqueiro de Gay desde o seu primeiro encontro, ele resolve abandonar no local do crime a prova definitiva que ligaria o marido revoltado ao assassinato da ex-mulher traidora. A eletrizante sequência que se segue até a elucidação do crime com muito suspense é tipicamente hitchcockiana. Mestre em criar tipos comuns envolvidos em tramas mirabolantes Hitchcock achou no argumento dessa história o modelo ideal para exercitar o melhor de sua genialidade. Pena que o fraco desenvolvimento do roteiro prejudique o filme. A cena final quando se esclarece o assassinato deixa a desejar. Sem ser o melhor de Hitchcock, Pacto Sinistro oferece assim mesmo bons motivos para apreciar o mestre do suspense.

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE

Maggie (Elizabeth Taylor, 1958)
A propósito do post anterior, que se referia ao leitmotiv da dramaturgia rodriguiana, me ocorreu falar da peça Gata em Teto de Zinco Quente, do teatrólogo norte-americano Tennessee Williams (1911-1983). Sem possuir a mesma voltagem dos personagens rodriguianos, os de T. Williams, se assemelham aos de Nelson Rodrigues, ao demonstrarem a mesma disposição em revelar os estratos menos nobres da personalidade humana. Para além de terem várias de suas obras adaptadas para o cinema e TV, ambos, salvo as devidas diferenças, tem a capacidade de fazerem dos dramas familiares uma reflexão sobre a moralidade, pedra de toque de suas obras. Ambição, revolta, traições, sexualidade reprimida e uma feroz crítica ao moralismo recheiam as peças desses dois maravilhosos autores.

A DESFAÇATEZ DESENCARNADA

A DAMA DO LOTAÇÃO, 1978

Detesto admitir, mas o Teo está coberto de razão. Nelson Rodrigues é sem dúvida o maior teatrólogo de todos os tempos. Dono de uma irrevogável veia polemista, suas obras antes de serem pornográficas ou escandolasas, como querem alguns, na verdade não tolera a hipocrisia de uma sociedade de aparências e dissimulação como a nossa. Seus trabalhos possuem o mérito de escancarar as vilanias, os vícios inominávies de cada um, além de por a nu, literalmente, o que a maioria sempre se esforçou por manter em segredo, até o seu surgimento. Foi justamente essa atitutde francamente desafiadora contra todo e qualquer fingimento, que lhe rendeu uma serie de injurias e perseguições inquisidoras, que duram até hoje. Dizia-se que ele prevaricava a moral e os bons constumes das famílias brasileiras. Altamente moral suas histórias não tem nada de pervertidas. Se as mulheres traem seus maridos; as meninas preferem beijar outras meninas; os pais sodomizarem seus filhos, como vemos em algumas de suas peças, isso se deve antes, a precariedade moral dos homens, não do artista. Suas peças não tem nada de perversão, pelo contrário, como objeto artístico sua função é a de retratar a realidade com a máxima fidelidade. Amoral com certeza é a noção mal disfarçada de que tudo está na mais perfeita ordem.

O ESSENCIAL CONTINUA INVISÍVEL AOS OLHOS

Guardo um talento incomum para gostar de coisas, que para maioria são inúteis. É que nos dias que corre, muitas coisas são tidas como inúteis, e com tudo, ainda as desejo. A maioria delas tem haver com arte. A maioria delas interessa-me. Não por serem, como pensa a maioria (inútil), mas pelo contrario, por renovarem minha fé no homem, um exercício pra lá de exaustivo, que por mais que se esforce é necessário um exercício constante; por exigirem sempre mais, por duvidar das certezas e estilhaçar as verdades, por mais inconveniente que sejam; por incomodarem os parvos e por fim destoar da maioria.

VIDA BREVE

Drª Zilda Arns

No nosso país, dificilmente tem-se alguém para admirar. Essa espécie de gente rareia a cada dia. Por isso, a noticia da morte da Drª Zilda Arns, no terrível terremoto que sacudiu o Haiti nessa terça-feira 12, torna o fato ainda mais penoso.

ÉRIC ROHMER


A nota triste do início dessa semana foi a notícia da morte, nessa segunda feira 11, do realizador francês Éric Rohmer (1920-2010). Com mais de 50 filmes no currículo, Rohmer foi professor de Letras e escritor antes de integrar o grupo de jovens entusiasta de cinema, fundadores do movimento Nouvelle Vague. Ao lado de Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, François Truffaut e Claude Chabrol, futuros diretores de cinema, iniciou sua carreira como crítico da mítica revista de cinema Cahiers du Cinéma. No Brasil temos varias de suas obras disponível nas melhores lojas.

CONTRA A RACIALIZAÇÃO



Nascido em 17 de setembro de 2009, o blog CONTRA A RACIALIZAÇÃO NO BRASIL, reúne, como podemos ler no, quem somos: cientistas políticos, antropólogos, sociólogos, juristas, historiadores, geneticistas, biólogos, médicos, intelectuais e ativistas de movimentos sociais, interessados em alertar a população sobre os perigos que ronda o país com a implementação de políticas segregacionistas. Vale à pena conferir.

O INCANSÁVEL PENSADOR

Os homens independentes, os livres pensadores, sempre foram acusados, ora de agitadores e inconsequentes, ora, como é o caso agora, de produzirem ideias em nível inaceitável de debate. Tais afirmações para mim sempre soaram falsas. Seu único propósito é o de acomodarem no silêncio as opiniões contrarias a ordem vigente. As recentes discussões sobre as medidas do governo em racializar o problema da educação no país através do Estatuto da Igualdade Racial, demonstram bem o nível das opiniões e dos debatedores. Diferentes pesquisas evidenciam que os brasileiros de todas as cores rejeitam a nova lei (leia pesquisa CIDAN/IBPS aqui), que se aprovada terá como único mérito introduzir, pela primeira vez no país, a primeira lei racial da nossa história. As ações de Demétrio Magnoli e outros incansáveis pesquisadores da questão racial no Brasil, como Yvonne Maggie e Peter Fry vem causando descontentamento entre alguns membros do movimento negro, que, como já era esperado, se comportam muito bem em saber, que a solução encontrada para dirimir o racismo incruento, e as desigualdades sociais entre a população mais pobre, passam ao largo de envestimentos maciço em melhorias da educação básica. Como resposta a esse histórico desafio eles se contentam em celebrarem o orgulho da raça. A gota d´água dessa discussão ocorreu recentemente, quando Demétrio Magnoli escreveu um artigo contra a determinação do ministro Tarso Genro, que queria levantar a origem "racial" dos estudantes brasileiros. Na ocasião Demétrio considerou que essa medida de classificação racial era errada, anticientífica e retrógrada. Alguém discorda? No artigo, ele chamou Tarso Genro de Ministro da Classificação Racial, e considerou-o imprevisto herdeiro de racistas como Nina Rodrigues. Depois disso Tarso Genro processou Demétrio Magnoli. Os patrulhadores de plantão, e aqueles que não se preocuparam em discutirem com sinceridade o problema da educação e da desigualdade no Brasil, veem, desde então, tentanto manchar o currículo de um dos nosso mais atuantes pensadores, acusando-o, entre outras coisas de, "desonesto" e "superficial". Essas opiniões sobre o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli, refletem a mentalidade tacanha daqueles que não suportam verem suas convicções contrariadas e que, não tendo como contra-argumentar as ideias e opiniões expressas pelos verdadeiros pensadores, desqualificam o homem. Eles preferem o enfrentamento pessoal, ao de ideias. A desqualificação pessoal ocupa a maioria dos discursos dos nossos políticos, pensadores, e tuti quanti. Com isso esquivamo-nos das discussões verdadeiramente importantes e desviamos as atenções para futilidades. Não se aceita discutir com aqueles, cujas ideias não alcançaram um nível aceitável de profundidade intelectual. Com isso minimiza as opiniões de alguém tão "superficial" e sem importância. No Brasil essa foi, e pelo que vejo, continuará a ser uma prática frequente; a dos pensadores cabotinos. Não é de hoje que distendemos atenção a essas maldosas opiniões. Em 1909 o sergipano Silvio Romero escreveu um livro inteiro para desqualificar a figura de José Veríssimo, seu maior desafeto. Nesse mesmo tempo, ele não poupou tinta para espinafrar também, o já consagrado, Machado de Assis. O injurioso livro, Zeverissimações ineptas da crítica, tinha como propósito, segundo seu autor, demonstrar as; como o título já indicava, ineptas qualidades de José Veríssimo e Machado de Assis para literatura. O autor não se preocupou nem por um momento em tecer comentários sobre as obras dos autores. Preferiu antes, atacar as origens de José Veríssimo e Machado de Assis, prova suficiente das inadequações literárias de autores que "o tempo se encarregaria de varrer". Há anos um dos maiores estudiosos do folclore nacional, o potiguar Câmara Cascudo, vem sofrendo de iguais injurias. Seus detratores, acusa-no de superficial, descuidado, e outras baboseiras. Infeliz sina a do país, que não consegue conduzir um debate tão importante para o seu futuro, sem cais na vala comum do bate-boca entre comadres.

SERÃO OS MEUS OLHOS?



3 DE JANEIRO DE 2010, AVENIDA SUL.
5 DIAS APÓS A CHUVA A ÁGUA RECUA LENTAMENTE.

AS METAMORFOSES DO AMOR GREGO


Os deuses gregos sempre tiveram muita intimidade com os corpos. Causaria espanto aos crentes e adoradores de outras seitas, a forma desabusada com quanto os deuses e deusas se amavam. Para eles não havia nenhum tipo de castidade inviolável, amava-se fácil. Devemos a essa civilização muitas das grandes realizações do intelecto humano, o teatro, a música, a filosofia, as leis. Nenhum desses feitos, no entanto, foi capaz de ombrear ao ensinamento divido da enamoração dos corpos. Criem quantas amarras puder, nenhuma, subjugará a força dos corpos. Os santos cristãos estão todos sempre pudicamente cobertos de mantos, túnicas, e farta vestimenta aveludada. Nenhuma intrusão penetra a casta intimidade das santinhas. Seguros de preservarem assim a dignidade divina, eles seguem pesando as consciências contra a adoração dos corpos. Com efeito, todo esse cuidado não passa de uma mentira. A beleza dos corpos sempre foram maiores que qualquer repressão. A pudicidade cristã mal disfarçou sempre a tentação dos olhos. Não fosse assim, como explicaríamos tantos seios desnudos nas representações da virgem. Ocultado num gesto maternal o cristão ama clandestinamente.

POLÍTICA

Por mais que eles insistam em afirmarem o contrário, o que a maioria dos homens públicos brasileiros fazem, é qualquer outra coisa, menos política. Salvo honrosas exceções, facilmente nomeadas: Suplicy, Soninha, Marina Silva, Gabeira, Pedro Simon,...não vejo no quadro da política nacional qualquer outro nome digno de ser chamado de político. Agora, se pervertermos o termo que até pouco usávamos pra distinguir os homens e mulheres, encarregados de governarem com zelo a coisa pública, ai faltarão espaço para listar nomes e maus exemplos. Esses últimos temos sem conta.

AO DESPERTAR ESSA MANHÃ



Dois acordes de guitarra e dois de bateria. São quanto me basta para despertar do estado de bovinidade.

FELIZ 2010


A julgar pelo andar da carruagem e pela disposição dos homens, 2010 será como todos os anos anteriores, injusto. Tanto pior para todos nós. Não faz muito sentido, portanto, distinguir o ano que se vai com o que ora se avizinha ambos traduzem uma concepção de exigência que se vai rareando.

CACILDA BECKER, 40 ANOS DEPOIS

Obituário de Cacilda Becker no JB, pela crítica Barbara Helidora, que alguns chamam de Bárbara "Não-Me-Adora"

É difícil escrever sobre alguém que foi uma estrela, mas que ninguém conhece


Há quarenta anos, desaparecia, de forma trágica, a principal atriz brasileira de qualquer época. Mas, que mulher era aquela que mereceu do poeta Carlos Drummond de Andrade um poema tristonho? Que mulher era aquela que magnetizava seus colegas de profissão e os diretores que tiveram o privilégio de trabalhar com ela? Que mulher era aquela que, ao morrer, virou mito? Chamava-se Cacilda Becker Yáconis, paulistana de Pirrassununga, nascida numa família pobre que às vezes não tinha nem o que comer no almoço, e, na situação de penúria em que ela e suas irmãs enfrentaram, já tinha plena consciência de que seria mais dia, menos dia, alguém na vida. Ela foi mais do que isso. Foi uma legítima mulher de teatro, artista de valor invulgar e deleite para os olhos dos poucos que tiveram a primazia de vê-la em cena.


É preciso ter muito cuidado quando se escreve sobre pessoas famosas, porque corre-se o risco de supervalorizar essas pessoas, colocando-a num patamar talvez até maior do que ela merece. Não é esse o caso de Cacilda. Miúda, fragilizada, metamorfoseava-se num furacão tão logo subisse ao palco. Fora dele, lutou contra as arbitrariedades do regime militar que bloqueou as atividades cênicas no Brasil, sempre defendendo o ganha-pão de seus amigos. Fez do teatro sua razão de viver. Dignificou a atividade artística mais desvalorizada que se conhece. O crítico Yan Michalski, escrevendo no Jornal do Brasil seu obituário ("Cacilda para dentro da noite), lembrou de uma estrela que atuava num meio onde menos de 0,5% da população tem acesso. "Experimentamos hoje uma grave perda pessoal", anotou.


Há muito a falar sobre Cacilda. Eu tenho condições de fazer relatórios intermináveis a seu respeito. Esse site, no entanto, não comporta tanto. Apenas damos o registro. Cacilda merece. NAVEGANTES recomendam a leitura de dois livros que abordam sua trajetória. "Uma atriz: Cacilda Becker", de Nanci Fernandes e Maria Thereza Vargas (Edit. Perspectiva) e "Fúria Santa", de Luís André do Prado (Edit. Geração Editorial).


Cacilda Becker, maravilhosa atriz e maravilhosa mulher, em maio de 1969, estava montando "Esperando Godot", do irlandês Samuel Beckett, e sentiu-se mal em um dos intervalos. Ainda teve tempo de dizer: "Eu acho que eu estou tendo um derrame cerebral". Diagnóstico: aneurisma. Toda a classe artística, aguardando um milagre, velou a artista, durante os quase 40 dias em que se manteve hospitalizada. Foi a união mais comovente que se conhece. Ninguém descançou enquanto Cacilda manteve-se - a duras penas - viva. Faleceu em 14 de junho de 1969. Era casada com o também ator Walmor Chagas e era irmã da atriz (ainda viva) Cleyde Yáconis.


Felicidades!

DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES


Aprecio a todas indistintamente. Mães, filhas, avós, tias ou primas. Seja qual for o parentesco, grau de amizade ou lugar na política ou na profissão, tenho-as na conta de grandes e invejáveis seres. Rende-lhes homenagem durante um único dia é pouco. Por tudo que são e representam mereciam incontáveis dias de culto. Se, no entanto, esse foi o dia elegido para venerá-las publicamente, lembremos que os demais são para admirá-las em silêncio. Que é quando nenhum exibicionismo alegre mascara nossas reais intenções. Parabéns a todas as mulheres por mais um dia.

POR ONDA ANDA O ESTADO CIVIL?

Um dos blogs que mais leio, há um mês deixou de postar com a mesma periodicidade de sempre me deixando desolado. Desde então ao entrar nele o que vejo é a mesma e modorrenta postagem de trinta dias atrás, e nenhum sinal de retorno. O Estado Civil terá saído definitivamente da blogosfera? Custo a crer. Espero que sua ausência seja momentânea. Habituei a leitura diária das muitas e deliciosas tiradas envenenadas do senhor Pedro Mexia. Não compactuo com muitas de suas posições, principalmente políticas, mas não nego sua verve indômita e seu animo sempre aceso para discuti-las, sempre de um ponto de vista desconcertante. Faz-me falta essas discussões. Muito mais, faz-me falta suas críticas de obras literárias, vizinhas da lucidez completa e definitiva.

A MAIOR DAS VAIDADES

Os Amantes - René Magritte
Existem mil maneiras de se demonstrar afeto por alguém. Nenhuma delas é tão dispensável como o ciúme. Seria bem melhor que ele não existisse. Yago não teria veneno para destilar. Mas para maioria das pessoas, e para as mulheres em particular, não bastasse o fatídico desfecho de Desdémona, o amor só é realmente validado, endossado, e devidamente sacramentado quando um dos parceiros inchar-se voluntariamente contra o outro, porque esse olhou mais o que o normal para aquele, querendo se fazer notar mais do que qualquer pessoa. É provável que tal fato fique a dever-se mais ao egoísmo pessoal, do que a qualquer sentimento de zelo. Nada pode ser mais vaidoso do que o ciúme. O ciúme infertiliza promissores relacionamentos. O ciúme nos priva da razão. O ciúme cega. Infantiliza a relação. O ciúme esteriliza os abraços. Perturba e inquieta. Por tudo isso é que ele se constitui desnecessário.

PREFIRO ANTES O SOSSEGO DA "ROÇA"


Há muitos inconvenientes em se viver numa província, é certo. A tagarelice política, os mexericos sociais, a embriaguez religiosa e tutti quanti. Nenhum deles, no entanto, encarece o sossego de acordar vinte minutos antes do inicio do trabalho, sem se sentir desassossegado com isso. Quem vive nas grandes cidades sabe do que estou falando. As metrópoles, insaciáveis em seu gigantismo, não permitem a indolência do sono reparador, essencial para vida.

A INDISCRIÇÃO DE UM ARTISTA

A Origem do Mundo - Tela de Gustave Courbet

Há quem se horrorize com esse quadro, já posso até ouvir as suas vozes. Também, não poderia deixar de faltar, há os que façam dessa mesma cena um ato de exploração sensacionalista e maniqueísta, em todos os sentidos, imperdoável. Nunca foi segredo o gosto dos artistas em reproduzirem homens e mulheres assim como vieram ao mundo. A nudez sempre foi muito apreciada na arte, como em alguns lugares inomináveis. Desde os gregos até os séculos mais conservadores essa prática foi aceitável, difundida e reproduzida ad nausea, afinal, era o ideal de beleza e estética que se queria. Mas, um olhar mais profundo sobre essa arte pos-coubertiana, e ela se revelará comedida e muito discreta. Ao figurar as partes pudendas do homem e, da mulher em particular, sempre se teve a preocupação em representar o sexo de forma deturpada, escamoteada e por vezes tristemente fingida. Os homens frequentemente tinham uma discreta folha a cobri-lhe as vergonhas. Enquanto que a genitália feminina não passava da continuidade da pele da barriga, uma representação quase que assexuada. Desse modo, preservava-se a um só tempo, a busca pela perfeição estética, almejada por muitos, e o eterno desejo voyerista que sempre acompanhou o homem, sem ferir as convenções morais, religiosas e sociais, e sem desonrar a sociedade. Gustave Courbet (1819-1877) pintor anarquista francês, dono de um incontido desejo de provocar, dispensou, como se pode ver, qualquer acessório e pintou de forma visceral aquilo que até então era dissimulado nas academias de arte e preservado a custo na intimidade social. Claro está que ele foi acusado de pornográfico, imoral e outros tantos adjetivos desqualificativos que serviram para tornar esse arrogant bastard em mais um pária da sociedade. Sua postura iconoclasta, no entanto, serviu para dessacralizar a falsidade vigente na arte e na sociedade. Além de tudo a tela de Courbet serviu e serve ainda como combustível de um caloroso debate entre os limites entre arte erótica e pornografia. Esse é um debate para próximos post.

O APAGÃO DA CLARO


Ao cabo de engrossar as fileiras dos antenados digitalmente, encontro-me mais atrasado do que antes. Isto, porque o pretenso aparelho de internet móvel, que prometia encurtar meu torrão natal com a Conchichina, empaca na primeira tentativa de acesso com meu amigo do outro lado da rua. Abrir mais de uma página ou baixar qualquer coisa é impossível. Sinto-me, sinceramente, cansado de tanta sacanagem. Estou farto dessas empresas sebosas e dissimuladas, que abusam da boa fé dos clientes para venderem promessas falsas. Estou pensando em adotar, em caráter precário, o velho barbante e uma lata atada por um furinho, para mandar a Claro pros quintos dos infernos.