Affonso Romano de Sant´anna - Poesia



Com a devida vênia do escritor Affonso Romano de Sant´anna publico logo abaixo o poema Apocalipse ou Gênesis Invertida. Esse poema, como explica o  poeta, fará parte do seu próximo livro de poesia, cujo titulo provável é: Exercícios de Finitude, ainda sem data de lançamento. O poema foi recolhi do blog do autor aqui. Desde já agradeço o escritor pela deferência.


APOCALIPSE OU GÊNESIS INVERTIDO(*)

Qualquer semelhança com o noticiário nos jornais e na televisão é mera coincidência



No sétimo dia

          (antes do fim)

as geleiras fendidas

          desabarão

focas, pinguins e ursos

deixarão suas ossadas

no deserto em formação

ilhas imprevistas emergirão

e o que agora é continente

será um conteúdo

na escuridão.



No sexto dia

          ( antes do fim)

desnorteados pássaros

não saberão

de onde vieram e para onde vão

subvertida a ordem dos mares e florestas

seres atônitos seguirão o rumo

do vento e da aflição.



No quinto dia

          (antes do fim)

choverá fogo no inverno

enlouquecidas as estações

as colheitas se perderão

devoradas por bactérias

germinadas

          -do próprio grão.



No quarto dia

          (antes do fim)

peixes envenenados boiarão

entre sargaços e destrocos

e os corais também mortos

não chorarão.



No terceiro dia

            (antes do fim)

no esqueleto das cidades

máquinas desoladas

bactérias desesperadas

do próprio nada comerão.


No segundo dia

          (antes do fim)

o homem e a mulher

cobertos de chaga e solidão

se deitarão no barro

e desaparecerão,


No primeiro ou último

dia antes do fim

          Deus

desolado

          se retirará

para outra galáxia

e contemplando as trevas

dissipando a criação

sentirá

um pesado vazio em suas mãos.

A sede que nunca acaba

Inquirido durante o Jornal da Cultura de hoje (15), sobre a possibilidade dos EUA interferirem ou influenciarem nos protestos que depois do Egito tomam agora as ruas do Teerã, o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli, descartou categoricamente essa hipótese afirmando que “os Estados Unidos podem no máximo fazer comentários sobre o que acontece no Irã”.

Será mesmo? Só comentar? A história diz o contrário. A política americana desde a presidência de Andrew Jackson, sétimo presidente dos Estados Unidos, foi sempre marcada pelo intervencionismo e desrespeito a autodeterminação dos povos.

Com um discurso pretensiosamente mascarado pela difusão da liberdade entre os povos, os Estados Unidos desenvolveram a doutrina do “Destino Manifesto”, que expressa a crença de que eles seria o povo eleito por Deus para conduzir o mundo.

Tais ideia que inicialmente serviram para justificar a tomada do Texas e posteriormente a Califórnia, Novo México, Arizona, Uthar, parte do Colorado, Oklahoma, Nevada numa guerra contra os Mexicanos no final do século XIX, ampliou-se no inicio do século XX quando eles invadiram o Vietnã, fomentaram as revoltas no Panamá contra a Colômbia, tentaram uma intervenção em Cuba durante a revolução, alimentaram ditaduras no Brasil, Chile e Argentina, sustentaram regimes no mínimo suspeitos na África e no Oriente Médio e culminaram com a invasão no Afeganistão e Iraque.

Em nome da defesa da democracia, do respeito aos direitos humanos o governo de Washington, quer na verdade, garantir acesso aos riquíssimos recursos naturais abrigados em qualquer parte do mundo. E se puder fazer isso sem aparecer tanto melhor. Com esse retrospecto de desrespeito e autoritarismo me espanta a ingenuidade de Magnoli em crer que os EUA não farão nada, para derrubar seu maior obstáculo na consolidação de sua hegemonia na região mais prospera em petróleo do mundo, justamente agora que a oportunidade aparece.

Alguns minutos antes da fala de Demétrio Magnoli no Jornal de Cultura, assisti no Jornal Nacional uma matéria que justificava o questionamento da apresentadora Maria Cristina Poli ao geógrafo, e que é uma sensação de todos, menos do geógrafo. A matéria dizia que: “A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, anunciou a liberação de US$ 25 milhões para projetos que ajudem ativistas a driblar a censura na internet imposta por regimes autoritários. Esse tipo de censura foi usado, por exemplo, no início dos protestos contra Hosni Mubarak.”

Será que o Demétrio ainda acredita nas boas intenções dos EUA?

Até breve

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Uma palavra: OBRIGADO!

The White Stripes


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Uma guitarra envenenada pelo mesmo deus que envenenou o violino de Paganini tangeu a solidão do meu quarto nos últimos anos. Gostava de tudo no The White Stripes, que no último dia 2 anunciou o seu fim, da monotonia cromática, das versões que eles fizeram das músicas de Bob Dylan, da frenética e inquietante mistura de blues e rock carregada de pitadas de punk de butique e principalmente da rebeldia, até mesmo da inusitada formação guitarra e bateria de Jack e Meg. Eles foram sempre à prova de que três acordes dão sim em boa música e que uma dupla, não precisa ser necessariamente algo intragável, como sugerem os breganojos, que tomaram de assalto a mídia brasileira.   

Elizabeth Bishop e João Cabral de Melo Neto - Poesia e confissão

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Ao ler esta tarde o blog do poeta Affonso Romano de Sant´anna, fico sabendo que este ano comemora-se o centenário da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop. Nascida em Worcester em 11 de fevereiro de 1911, Elizabeth viveu e produziu parte de sua obra aqui no Brasil. Nesse período traduziu o melhor de nossa literatura para língua inglesa. Entre os seus poetas traduzidos está o pernambucano João Cabral de Melo Neto, que em seu livro Agrestes de 1985 - recém re-editado pela Alfaguara -, dedicou-lhe um poema intitulado SOBRE ELIZABETH BISHOP.



Quem falar como ela falou

levará a lente especial:

não agranda e nem diminui,

essa lente filtra o essencial*

(...)


João Cabral, como todos sabem, era avesso a poesia confessional, preferiu antes falar dos outros poetas e das coisas que habitavam a sua volta do que de si mesmo. Porém, num desses poemas homenagens ele deixou escapar uma dúvida: “Não haverá nesse pudor/ de falar-me uma confissão,/uma indireta confissão,/ pelo avesso, e sempre impudor?”. O artista inconfesso buscou no exemplo de outros poetas, num jogo metalingüístico, falar de sua própria impressão sobre a poesia. Toda via, não vejo nenhuma impudorada confissão nessas “linguagens alheias”. Esses exercícios metalingüísticos restringem-se ao oficio poético, e nem de longe assumem outra forma que deixe entrever outras faces desse poeta, se não a sua forma de ler e escrever poesia marcada pela rigidez e concisão absoluta.


*fonte do poema: Obra Completa de João Cabral de Melo Neto, ed. Nova Aguilar, p. 561.

Mais uma de Marco Haurélio

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O poeta Marco Haurélio me enviou o esboço da capa do seu próximo trabalho. Meus Romances de Cordel é uma seleção de sete trabalhos anteriormente publicados pelo poeta em versão clássica dessa literatura, que agora, repaginado, volta ao público em versão de livro, com ilustrações de Luciano Tasso, livremente inspirado no trabalho do holandês Escher - simplesmente divino. Os títulos são O Herói da Montanha Negra, história que abre a antologia, a seguir, temos: Belisfronte, o Filho do Pescador, Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo, Os Três Conselhos Sagrados, Briga do Major Ramiro com o Diabo, História da Moura Torta e Galopando o Cavalo Pensamento. Não há dúvida que em se tratando de Marco Haurélio esse trabalho conquistará facilmente leitores de todas as idades. As razões são óbvias. Ele domina como poucos a técnica da escrita criativa. Sua sensibilidade poética, conjugada a uma memória prodigiosa, alimentada desde a mais tenra idade pela curiosidade do menino nordestino, moldaram o poeta maduro que ora temos o prazer de (re)ler.

A literatura no cinema francês

O cinema Francês, principalmente daqueles jovens que pensaram em renovar a linguagem cinematográfica nos vertiginosos anos 60, nutriu sempre uma irresistível atração pela literatura.

Com frequência é possível flagrar nos filmes de cineastas como Truffaut e Godard, cenas em que alguns dos personagens em meio à trivialidade da vida, assumem o papel de leitores incautos.

A indisfarçável paixão dos franceses pelo livro encontrou no escurinho do cinema a simbiose perfeita. Algumas dessas cenas estão na seleção de imagens logo a baixo, deliciem-se à vontade.


Anna Karina em Une Femme est Une Femme - Godard, 1961


Anna Karina em Alphaville - Godard, 1965


Domicílio Conjugal - Truffaut, 1970

La Chinoise - Godard, 1967

Jornal da Globo - Morre a atriz francesa Maria Schneider

MARIA SCHNEIDER (1952-2011)

Maria Schneider e Marlon Brando em O Último Tango em Paris - 1972

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Um amigo escreveu-me surpreso pelo fato de eu não ter postado nenhum comentário sobre a morte da atriz francesa Maria Schneider. Todos cá sabem que esse blog nunca se furtou em prestar as últimas homenagens às personalidades que marcaram o mundo das artes (que me perdoe o Dennis Hopper).

Descrente, abri logo algumas páginas da internet procurando informações que pudessem desmentir o meu funesto mensageiro. Em vão. Infelizmente, para meu espanto, a informação estava correta. Maria Schneider havia morrido no último dia 3, quinta-feira aos 58 anos, em circunstâncias não explicadas pela família, que preferiu a discrição. Tanto melhor.

Assisti a um único filme com ela, o provocante O Último Tango em Paris de 1972, do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. O filme tinha ainda no elenco o recém desencarnado Don Corleone, Marlon Brando, que sobre a película declarou em sua autobiografia “não me perguntem do que se trata esse filme”.


A história é sim um tanto complicada e foi construída de uma forma caótica e desordenada. Prova é que Marlon Brando diz em sua biografia que o diretor pedia aos atores que improvisassem as cenas em cima de um argumento inicial pra lá de vago. “Bertolucci permitiu que os atores moldassem a história. Quis que eu representasse o meu próprio papel e construísse a personagem de Paul como se se tratasse do meu retrato autobiográfico”.

Marlon Brando faz o papel do americano Paul que enviuvará recentemente. Perambulando por Paris a procura de um apartamento para alugar, onde pudesse desaguar suas mágoas, ele encontra por acaso a jovem Jeanne, que ao contrário de Paul iniciará a pouco sua vida conjugal com um excêntrico cineasta.

Não demoram muito eles começam uma anônima relação baseada unicamente no sexo descompromissado. Tal desinteresse tem para Paul um efeito purgativo das dores que o acometem por causa do suicídio da mulher. O caldo entorna quando o caso começa a fugir do propósito inicial.


Proibido no Brasil por quase duas décadas, não porque seu tema envolvesse algum tipo de mensagem política que pudesse ofender os ditadores, mas sim, por uma tórrida cena em que Marlon Brando, então um quarentão, sodomiza a ninfeta Schneider que na época contava com dezenove anos, auxiliado por uma manteiga.

Maria Schneider vez outros filme, nenhum, no entanto, marcou tanto quanto esse.

POESIA E SUBVERSÃO

Toda poesia é uma subversão dos signos. O poeta não se contém diante da possibilidade mágica das palavras que nomeia uma coisa, mas com ela pode estar insinuando outras. Por signo entendemos a palavra ou imagem que implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. O poeta diz uma palavra (jogo), ou constrói uma imagem, através de uma série de palavras. Nessa imagem podemos ver um cenário e seus personagens, como no poema Idade, de Mário Quintana, por exemplo:

IDADE

Estou nessa idade me que o juiz consulta o relógio e as arquibancadas já vão se esvaziando...

Seu significado imediato, sua aparência objetiva, sua significação cotidiana, fala de uma realidade facilmente apreensível - uma partida de futebol que se aproxima do fim. Desse modo, o poema, não se constitui em nenhum desafio a sua compreensão. Muito menos parece esta subvertendo coisa alguma. Porém, as leituras desses versos sugerem, para aquele dotado de sensibilidade, como algo a mais do que aquilo que ele anuncia.

Este é um modo de ler proposto pela poesia. Negando a realidade dada, construímos outras, associado com os símbolos fundados pelo poeta. Assim, esses simples versos, que nos fala da aproximação do fim de um jogo, pode se revestir numa reflexão sobre a vida e sua brevidade, ou ainda, sobre a transitoriedade, a passagem, a forma com que tudo um dia chega fatidicamente ao fim.

Esse é o artifício construído pelo poeta para alcançar zonar do inconsciente do leitor. Através da subversão dos signos dados, (idade, juiz, relógio, arquibancadas, esvaziando), o poema, transcende essa realidade, para vislumbrar outra, ocultada pela mesmice com que sempre fixamos essas palavras. Ao encararmos essas palavras como signos, elas se elevam a outros sentidos, que vão além daqueles comumente empregados. Dizem mais do que aquilo a aqui estávamos acostumados a ouvir delas, restauram assim sua vitalidade.

Uma leitura dicionaresca daria conta do sentido da mensagem. Mas poesia é algo mais. 

A poesia se utiliza dos artifícios das palavras para, desequilibrando nossos sentidos, revelar-nos outros possíveis, que por conta do uso indiscriminado acabaram embotadas, adormecidas, hibernando em alguma parte de nos mesmo esperando apenas o estímulo necessário para despertar.

Ler um poema, apreciar uma obra de arte, assistir um bom filme, é o mesmo que celebrar a descoberta de algo novo. As surpresas que se ocultam por trás de uma obra podem reverter-se naquela compensação desejada pelo leitor.

CITAÇÃO 5

"Os homens são como ondas: quando uma geração floresce, a outra declina."

Homero

Novidade à vista


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As incontáveis, e sempre bem vindas, antologias de João Cabral de Melo Neto trazem sempre fôlego novo à sua poesia, na medida em que atualiza às novas gerações a obra desse incontestável gênio das nossas letras.

A mais recente, destinada aos jovens estudantes, tem seleção de Regina Zilberman. João Cabral de Melo Neto Poemas para Ler na Escola, editado pela Objetiva, destaca poemas menos conhecido do repertório poético do autor de Morte e Vida Severina.

Essa é a segunda antologia em pouco menos de três anos que a editora Objetiva fez da poética do escritor Severino. A primeira, um primor de livro, saiu em 2007 pelo selo Alfaguara, e trazia poemas de cunho autobiográfico, recheado de fotografias do escritor na intimidade do lar. Um saboroso petisco para os admiradores da vida e da obra desse grande poeta.

A julgar pela disposição da editora, não será nem um pouco arriscado prevê para daqui a mais dois anos uma terceira ou quarta repaginação das sempre inquietantes vozes que ecoam das páginas dos livros do maior poeta da literatura brasileira. Oxalá se repita esse projeto revitalizador. As próximas gerações de leitores agradecem.

Enredo rodriguiano: o espetáculo impecável de Bruno

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O texto a seguir saiu hoje no Cinform de Aracajú, foi escrito por Téo Júnior* e reproduzido aqui com a devida vênia. Desde já eu agradeço ao Téo pela colaboração.


É de amargar a boca os meandros da tragédia protagonizada por Bruno Fernandes – na realidade um animal da pior espécie – que atuava no Flamengo (acaba de ser demitido), era influente, rico e possuía, até o mês passado, expectativas de jogar na Europa, de quintuplicar seu salário e de atuar na próxima Copa. Impressiona-nos que o mundo deste rapaz tenha caído quando ele conta 25 anos apenas, sem que houvesse tempo hábil para sua carreira deslanchar. Foi como um grande castelo de cartas, que ao menor sopro vem abaixo, em fração de segundo. No presente momento, Bruno – coitado! – desempregado, preso e repudiado pelo país, conhece a antessala do inferno.

É aquele velho clichê do pobrezinho favelado que fica rico de uma hora para outra. Esses indivíduos, uma vez reconhecidos e admirados, não raro revelam-se portar um desequilíbrio emocional bastante elevado, procurando compensar – ainda que inconscientemente – antigas frustrações e privações, comportando-se de modo infantil e disparatado. Adquirem amiúde uma personalidade narcísica e agem sem pesar causas e consequências, julgando-se invencíveis. Às vezes, o desfecho é fatal.


LISTAGEM DE HORRORES


Tudo bem que Eliza Samúdio não fosse nenhuma flor que se cheirasse, tendo inclusive participado de filmes do mais baixo nível – mas a maneira com que foi assassinada não tem paralelo com nenhuma outra que eu conheça. Fora asfixiada por braços fortes, sem capacidade para defender-se; subjugada por mais de um homem, justamente para não haver chance de sobrevivência. Se não bastasse, seu cadáver fora devorado por cães já treinados para fazer misérias. Como salientou o velho Tirésias em “Antígona”, “não há vantagem alguma em alguém morrer duas vezes”. Nesse desdobro, vem à luz o abandono de Elisa, na infância, pela mãe; a reputação do pai (acusado de pedofilia); a do irmão de Bruno (estuprador, preso); a esposa do jogador (a oficial) também está vendo o sol nascer quadrado há um tempinho. Consta que o pai de Bruno, já falecido, era ladrão. A listagem de horrores dessas duas famílias parece não acabar nunca. E isso tudo nos remete a um grande palco, onde assistimos às piores catástrofes, alimentando em nossa alma a ideia vã de que essas monstruosidades habitam apenas o mundo fictício dos grandes autores, e não a vida real.

Quando Nelson Rodrigues montava suas peças, diziam-se horrores a seu respeito: ele era o “tarado”, o “imoral”, o “pornográfico”. Onde alguns poucos enxergavam nele o gênio inconformado com a condição humana, outros viam o “maluco” que precisava ser ignorado a todo custo, porque ele escrevia sobre pessoas “doentes”, “contaminando”, destarte, as sagradas famílias brasileiras.


ENREDO MACABRO


Pois com todo o talento dramático que possuía, cuja força motriz era sempre a violência, o sexo desenfreado e as paixões avassaladoras, Nelson em quarenta anos de profissão não fora capaz de criar uma história tão fétida como a que estamos assistindo, porque ele devia crer que, por pior que fosse, o homem não chegaria a tais extremos. Ao publicar “Álbum de Família”, em 1945, recebera um tratamento tão agressivo e tão vil como se ele fosse não apenas o doido alegre da casa – mas a própria encarnação do demônio. O texto ficou 22 anos sob censura, devido ao seu conteúdo – sua fama de “anormal” começou ali. Esta peça aborda uma família como qualquer outra – vista a olho nu, todavia se observada com uma lupa, podemos acompanhar sua degradação moral ocorrendo paulatinamente, como se nós, leitores ou expectadores, fôssemos uma criança hipnotizada visualizando um enredo macabro pelo buraco da fechadura: irmãos se amando em desespero, uma mãe enamorada de seu filho, um pai que deseja em segredo a filha etc. Nelson pôs o dedo no delicado tabu do incesto sem se esquecer da selvageria gratuita praticada pelas bestas-feras. Esse material aparentemente tão nocivo à comunidade, que teve a audácia de exibir indivíduos cujos impulsos num primeiro instante permanecem recalcados, para depois se aflorarem de maneira abrupta, é um conto de fadas perto do escândalo que envolve o goleiro Bruno.

A sociedade, sempre se esforçando ao máximo para parecer digna e sadia, não suportou outrora a relevância de uma obra de arte, preferindo fechar os olhos. Hoje, os srs. Bruno Fernandes e “Macarrão”, o coadjuvante, empurram nessa mesma sociedade goela abaixo as entranhas de suas ações inomináveis, e ela é obrigada a enxergá-las, a toda hora – queira ou não queira. Bem feito!

Temos aí um caso impressionante da vida real deixando a ficção comendo poeira. Se fossem atores, e se seus desempenhos fossem projetados no cinema – não duvidem – ambos estariam no mínimo cotados ao Oscar, e fariam a fama e a riqueza de qualquer autor ou diretor que trabalhasse com eles.

Quando eu era criança, ouvia falar que o que distingue o gênio do medíocre é que o gênio está sempre à frente de seu tempo. Trinta anos depois de sua morte, o maldito teatrólogo vinga-se agora. Estejamos certos de que os sábios são realmente eternos. Os personagens Eliza Samúdio, Luiz Samúdio, Bruno Fernandes, Rodrigo Fernandes, “Macarrão”, Marcos “Bola” e Dayanne Souza eram “normais” até outro dia, até que a cortina que lhes protegia se abriu ao grande público e suas máscaras caíram totalmente. Aplausos para Nelson!



[*] Professor do Dep. de Letras da Universidade Federal de Sergipe.
Contato: teocte@hotmail.com



SUGESTÃO DE LEITURA:

Álbum de Família”, tragédia em 3 atos

Autor: Nelson Rodrigues. 107 pgs.

Edit. Nova Fronteira

VIVER É UMA EMPRESA DE RISCO

Ele fez da vida

uma empresa de risco.

Não a entendia

sem o perigo.

Lançou-se à sorte

Como quem mesmo

Despencou do alto

De uma montanha.

Desassombrado

desafiou o medo

Que faz de cada homem

Um ser cativo.

A uma geração, que teme

E empalidece à sombra,

De algum facínora,

Deixou seu testamento,

Onde consta a saga.

MARLYSE MEYER (1924-2010)


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Morreu ontem, segunda-feira (19), aos 86 anos, a professora, crítica e ensaísta literária Marlyse Meyer, de parada cardíaca. Alguns de seus livros abordam os temas da cultura popular como Caminhos do imaginário no Brasil editado pela Edusp. Outros de seus livros saem pela Cia das Letras, que em seu blog presta uma última e merecida homenagem à escritora.

PERGUNTAS INCÔMODAS

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A falta de coragem, esse indistinto traço da natureza humana, nem sempre deixa os homens dizerem o que sentem. Quase sempre, lhes sobra na boca o essencial, visto que omitem seus mais fundos desejos. Outros homens, no entanto, não são tão tolerantes, ao ponto de viverem com suas bocas sempre castradas, dizendo umas e, escondendo outras palavras. Esses, além de dizerem sempre o que vai por suas cabeças, por vezes, também, como quem não quisessem falar sozinhos, lançam perguntas que têm entre outros efeitos, imolar as consciências tranquilas. Por pudor, medo, ignorância, ou mesmo por falsidade não fazemos algumas perguntes que possam incomodar, mas que se fossem feitas corajosamente poderiam mudar o curso das coisas. Essa coragem tem apenas alguns homens, que como os demais, talvez tivessem medo, pudor, mas superaram suas fraquezas rejeitando qualquer conformismo que comprometesse a dignidade humana. Esses são imprescindíveis.

O ORÁCULO DESSA COPA

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Quando entrar em campo no próximo domingo os holandeses terão, mais de um adversário para bater. Eles entram com a árdua tarefa de desmistificar as bruxarias do polvo Paul, que já decidiu, quem levará o inédito troféu de campeão do mundo para casa, serão os espanhóis. Espero que os holandeses não se sintam dispensados por isso em tentarem conquistar o seu primeiro título. Carrasco dos alemães nas semifinais, o polvo Paul, tem sido figurinha em todos os jogos dessa Copa, profetizando os vencedores das partidas de futebol. Até agora ele não errou nenhum palpite, e mesmo vivendo em terras germânicas, ou melhor, águas, ele não se intimidou e, carimbou o passaporte dos comedores de caraca direto para disputa do terceiro lugar, adiando o sonho germânico de se aproximar do Brasil em número de títulos no campeonato mundial. Se fizer valer a sua fama de profeta aquático o polvo antecipa assim a nossa vingança contra a laranja mecânica.

DISCUTÍVEL POLÊMICA

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A edição de julho da revista Playboy Portuguesa, nem bem saiu e já se tornou o centro de acalentadas discussões, que giram em torno da liberdade de expressão e o respeito à fé alheia; equação de difícil equilíbrio no mundo moderno, quase sempre regido por valores movediços.


O motivo da celeuma se deve ao tema da revista desse mês, que traz na capa um Jesus Cristo sentando numa cama amparando nos braços uma mulher, que como é próprio dessas revistas, aparece seminua. Na cabeceira da cama lê-se o título do livro do escritor português José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo.

O alegado motivo da capa, segundo o editor da revista, foi prestar uma “última homenagem” ao escritor morto no último mês de junho em razão de complicações em sua frágil saúde.

Mas se a imagem da capa mexeu com os brios de muita gente, as que surgem no interior da revista esquentam ainda mais a polêmica. Nelas podemos ver, entre outras fotos, Jesus observando duas lésbicas trocando carícias.

A homenagem ao escritor não agradou muita gente, nem mesmo a empresa mãe que anunciou, assim que soube da publicação, seu desacordo com o tema da revista.

Alegando não ter tido conhecimento prévio da polêmica imagem, a vice-presidente da Playboy Entertainmente, Theresa Hennessy disse que se trata de "uma violação chocante das normas" e que "devido a esta e a outras questões com os editores portugueses, estamos prestes a rescindir o acordo". Por essas palavras entende-se que a matriz da revista não concorda com o tema e ameaça com rescisão a edição portuguesa da revista, que atua em Portugal a pouco mais de um ano e meio; a primeira edição saiu em março do ano passado.

Esta lançada à polêmica, com ela semeia-se a discórdia e por fim um produto francamente sofrível como são as revistas que exploram a nudez feminina, dão um salto momentâneo, naquilo que mais lhes interessam, as vendas.

As razões da polêmica são discutíveis. Para muitos elas não passam de uma armação, entre a revista portuguesa e a sede americana que ameaçando fechar a sucursal, incendeia a discussão para impor a repercussão do caso, e assim, promover a revista, que segundo informa a imprensa portuguesa vive momentos de grande dificuldade.

Decididamente José Saramago merecia melhor homenagem. Uma por exemplo, que não tivessem que relacionar o seu desentendimento com os dogmas da Igreja, com fins comerciais de uma revista masculina.



CITAÇÃO 4

"Não é possível conhecer a alma, a índole e as ideias de um homem , antes que ele as manifeste no exercício do poder e na elaboração das leis"

"A esperança do lucro leva, muitas vezes, os homens à perdição"


"Entre os homens, nada há como o dinheiro para gerar maus costumes. Ele devasta as cidades e expulsa os homens de seus lares. Corrompe até o coração dos bons e ensina-lhes práticas torpes. O dinheiro induz os homens ao crime e estilo-lhes na alma toda sorte de impiedades"


"Guarda, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas"


"...feias quedas dão os homens, até os mais astutos, quando, movidos por vis interesses, entrajam com belas palavras os seus pérfidos pensamentos"


"Para os cegos não há outro caminho que o do guia"


Excertos do último livro que li, Antígona. Tradução de Domingos Paschoal Cegalla.

RESSENTIDOS


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Com exceção de alguns intelectuais e religiosos portugueses, a notícia da morte do escritor José Saramago (1922-2010), consternou uma legião de fãs no mundo inteiro.

Notável romancista, José Saramago deixou-nos uma obra maiúscula que, em tudo dignifica a tradição literária portuguesa que nos legou autores como o Pe. Antônio Vieira, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e muitos outros.

Foram mais de dezoito títulos entre romances, contos, teatro, poesia e diário, destacando, quase sempre, a sua indizível insatisfação com a opção do homem contemporâneo em estreitar a sua perspectiva quase ao nível da cegueira absoluta. Entre os seus títulos mais conhecidos estão, Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira e o polêmico O Evangelho de Jesus Cristo.

Não faltam nessas obras o traço personalíssimo do gênio, nem as marcas de sua juventude pobre e uma profunda indignação contra a sociedade portuguesa, descrita por ele em correspondência com o amigo José Rodrigues Miguéis, sem piedade nem reserva de qualquer natureza, como tacanha. “Há dias fui ao jantar de entrega do Prêmio Camilo à Isabel da Nóbrega: é de morrer. Tanta impostura, tanta falsidade, tanto esforço para parecer mais inteligente que o vizinho, e sobretudo mais célebre. E tudo isto sob a capa de modéstia jesuítica, uma capa cheia de buracos de orgulho e de inveja. E esta gente é a nata, e esta gente conduz, orienta, dá entrevistas, pontifica, tem opiniões acerca de tudo e de coisa nenhuma”.

Por sua maneira controvertida de contradizer a versão oficial, sublinhada pelo vezo inconformista de quem não nada com a corrente, pelo seu inegável apreço à verdade, que não lhe deixava quieto, quando os outros empregavam eufemismo diante de fatos dolorosos; José Saramago granjeou inúmeros desafetos na sociedade portuguesa.

Tais incomposturas desse autor, diante de uma sociedade cuja elite abdicou há tempos de respeitar e ser respeitada, não foram perdoados, nem mesmo após a sua precoce partida. Sobram, nesses dias em que inúmeros admiradores estão enlutados, incontáveis discursos, seja nos jornais ou na blogosfera, contra sua persona política-literária, contestadíssima.

Periódicos e blogues portugueses reservaram àquele que foi o único autor da língua portuguesa, laureado com a maior distinção da literatura, o Nobel, um diminuto e ridículo espaço, que mal disfarça a indiferença com que Saramago sempre foi tratado em sua terra natal.

Críticas imerecidas preferem destacar, ante a criatividade e a imaginação fértil que celebrizou o autor de Levantado do Chão, a predileção por uma linguagem barroca, bem como a displicência com a pontuação ou a completa indiferença as estruturas convencionais da narrativa, como obstáculo a leitura, esquecendo-se que isso nunca foi empecilho aos números leitores apaixonados, que Saramago conquistou em décadas de ofício literário.

Para o jornal Correio da Manhã, popular jornal de Portugal, a passagem do maior autor contemporâneo da literatura portuguesa não teve a menor importância. Prova disso foi a quase omissão em suas páginas da morte do escritor que, quando apareceu mereceu o mesmo destaque na capa do jornal que um “professor que mostra pênis e dá aulas”. Lamentável. Pior do que isso, somente a recusa do presidente Cavaco Silva em comparecer a despedida do maior nome da cultura portuguesa no exterior.

Tanta indiferença ao mais destacado gênio da cultura portuguesa, me fez lembrar a nossa imprensa na ocasião da morte do maior artista de nossa época, Paulo Autran. Na semana em que morreu o ator, em que foram anunciados os ganhadores do Nobel, Tropa de Elite foi sucesso antes mesmo de estrear no cinema, e, estreando, arrebentou – o destaque da capa de Época, revista da editora Globo, foi o furto do relógio do apresentador Luciano Hulk. Em matéria de notícias desinteressante, portugueses e brasileiros rivalizam caninamente.

A relação de Saramago com a sociedade portuguesa nunca foi fácil, ele nunca se afinou com as bases da elite e por isso pagou um alto preço. A cobertura da imprensa e a repercussão de sua morte são reveladores dessa relação, pra lá de conflituosa. Sua versão pouco favorável da maledicência dos poderosos, seu questionamento a castidade da sociedade lusa, bem como seu desacordo com os dogmas religiosos, tão arraigados na cultura portuguesa, mais a sua proverbial feição ao comunismo, nunca foi bem digerida pelos conservadores. Ela acabou de azedar de vez, quando na década de 90, depois que Sousa Lara vetou a candidatura de O Evangelho segundo Jesus Cristo a um importante prêmio da literatura européia.

Tanta indiferença acabou por empurrá-lo de vez para o auto-exílio nas ilhas Canárias, onde viveu os últimos anos ao lado de sua mulher Pilar Del Rio. Imperdoável em sua maneira de pensar e agir, Saramago, manteve-se a distância, mas preservou a pena e a consciência crítica ativa.

Não se admira que, em se vendo pintada de forma tão desfavorável, essa sociedade, refletida nos livros de Saramago, deva-lhe render qualquer homenagem. Se, no entanto, não podemos esperar qualquer gesto de reconhecimento desse tempo ao gênio de um artista como Saramago, resta-nos o conforto de saber que as próximas gerações, bem menos ressentidas do que essa, saberão julgar o escritor e o homem com a devida justiça. Assim esperamos.

SAUDADE

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Quando Gandhi foi assassinado por um fanático nos anos 40, o filósofo francês Jean-Paul Sartre disse dele: “no futuro ninguém acreditará que um homem como Gandhi existiu”. Por razões óbvias, as gerações futuras duvidarão que um homem como José Saramago viveu depois de Gandhi. Um e outro, Gandhi e Saramago, foram ardorosos humanistas. Ambos empunharam as únicas armas que conheciam, a palavra, para conquistar os sonhos de um mundo justo, decente, sem fanatismo, compromissado com causas verdadeiramente dignas de se engajarem. Defenderam, quando parecia indefensável, a causa dos menos favorecidos. Pregaram, sem nenhum proselitismo, a igualdade e a tolerância, em meio ao mais profundo caos. Viveram com o único propósito de esclarecer aos homens que aquilo que lhes aprisionavam eram eles mesmos. Livres de toda ignorância, política, religiosa, social, escolar, herdada ou forçada, todos os homens poderiam refazer os seus caminhos. Creio que como Gandhi, José Saramago, assegurou enquanto estava vivo o seu nome na imortalidade.  

JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)

foto tirada no FSM 2005



Soube a pouco da morte do mestre das letras portuguesa José Saramago. Imediatamente senti-me só, desamparado e extremamente entristecido, como só alguém que tivesse rompido abruptamente os laços com um ente muito amado, soubesse o que se passa.

E todos nós aprendemos amar Saramago, justamente, pelas qualidades e pela coragem de se indignar, furiosamente, contra toda e qualquer vilania, que oprime, insistentemente, os homens, destituindo-os de todas as forças vitais que o protegem.

Filho de pais e avós analfabetos, criadores de porcos, Saramago soube como poucos transformar a voz dos desfavorecidos em sua própria voz. Uma voz poderosa, respeitada, e temida pelos distintos senhores da política e da religião.

Um ente incomum, capaz das maiores e heróicas ações para defender, não só a si, alvo constante das chacotas dos insensíveis, mas também, e com igual empenho, toda e qualquer pessoa, das injustiças que grassam no mundo.

Saramago soube, desde cedo, que somente uma política civilizada, fraterna; seria capaz de rivalizar contra a tirânica força dos gananciosos, espoliadores e facínoras que insistem em tornarem o mundo um lugar cada vez mais perigoso para se viver, desse modo, engajou-se em todas as lutas por um mundo menos arbitrário, em que coubessem todos sem distinção, sem diferenças.

Seremos eternamente gratos a ele por seu exemplo, por nos dar esperança, por nos fazer acreditar, a revelia de todas as certezas, que ainda existe no homem uma força superior a de sua natureza menos nobre. Com ele aprendemos a valorizar o mundo, a enxergá-lo melhor, a lutar por justiça, a duvidar das certezas e fazer delas uma força revitalizadora em todos os momentos.

Fica agora um vazio, e a certeza de que o mundo passou, desde esse momento, em que ficamos privados de sua voz, assustadoramente inseguro, solitário e muito mais burro.

...E ASSIM SE PASSARAM DOIS ANOS


Sobre a vida sergipana; vantagens e desvantagens


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O texto a seguir foi escrito por Teo

Amigos, há dois anos, precisamente no dia 7 de junho de 2008, um sábado (me lembro como hoje) me jogaram na R. Riachuelo (esq. com Itabaiana), bairro São José, classe média - e “seja o que Deus quiser”. Estava recém-formado e como é de vosso conhecimento, eu não tinha rigorosamente nada a perder. Supunha, com muita razão, que a estupidez e a boçalidade dos sergipanos seriam um pouquinho mais toleráveis do que a mesquinhez de Caetité. Saí, por conta própria, da zona de conforto em que me encontrava, para penar nessa oca global (me perdoem a expressão) que se chama Aracaju.

Muito bem: aqui estou. Pesando os prós e os contras, creio que tenha valido muito a pena ter feito essa grande aventura que, aliás, eu recomendo. Sou um mochileiro, gosto de me arriscar. Quem não largar tudo pra sair de casa, por medo, para mim é um fraco. Muita gente fala maravilhosamente bem de Caetité, mas se lhe fosse dada a oportunidade de sair de lá, não ficaria viva alma para contar a história. Não gosto de Caetité. Não vou mentir para vocês. Gosto das pessoas que lá residem, minha família, meus amigos, mas não gosto da cidade. Subir os degraus da República Coliseu e pegar fila com Rogério no supermercado era das coisas mais agradáveis que se podia fazer na cidade.

Na véspera de minha viagem, lembro-me de que Rogério me presenteou com Vestido de Noiva, a obra-prima rodriguiana e falamos um pouco desse místico Severino do Aracaju, do Auto da Compadecida. (Marco Nanini, na versão para o cinema). À noite, com as malas prontas, saí para comer pastel com Juliana e Eliana, minhas colegas. Rastros de poeira ficaram para traz.

Aqui, tive acesso a muitas coisas das quais necessito para sobreviver: dinheiro (óbvio), porque ninguém é obrigado a sofrer, livros, peças etc. Em Caetité, com toda a ruindade, descobri muita coisa interessante, acervos valiosíssimos. Em Sergipe também vim a descobrir novos autores, novas peças, assisti a muitos espetáculos (minha paixão), a maioria de bom nível. Li, por falar nisso, no domingo último, Um Bonde Chamado Desejo e encantei-me com a personalidade dúbia da personagem Blanche Dubois, irmã de Stella. Um texto fascinante de Tennessee, americano. (Uma Rua Chamada Pecado foi o título do filme baseado nesta peça, se não me engano. Rogério poderia confirmar), com Marlon Brando como Stanley. E assim vamos tocando a vida.

Diz Fiódor Dostoiévski que “o imbecil do homem se habitua a tudo”. Exatamente, amigos. Exatamente! Estou já acostumado à estupidez de Sergipe há muito tempo, tanto que nada aqui mais me impressiona. Educação, aqui, é artigo de luxo. Podem acreditar!

Todavia, o conhecimento, a cultura, as bibliotecas que o estado pode me proporcionar devem me levar a algum lugar, espero. Só não sei exatamente aonde. A São Paulo? A Madri?

Dois anos de ausência, voltando à terra natal em duas ocasiões, apenas. Nem sei se é motivo para comemoração.

Até breve!

O MEDO DO MAL

capa do livro
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Acabo de adquirir um livro da poetisa mineira Henriqueta Lisboa (1901-1985). Até essa data não conhecia essa senhora, que segundo, nos informa a contracapa do livro, tratar-se de uma respeitada poetisa modernista e eminente professora de Literatura. O livro em questão, não faz parte de sua produção poética e sim de entusiasta da cultura popular. O título é: Literatura Oral para Infância e a Juventude: Lendas, Contos & Fábulas Populares no Brasil, edição 2002, Peirópolis. Como o título sugere, trata-se de uma seleção de contos, lendas e fábulas, colhidas do imaginário popular por autores como Amadeu Amaral, Affonso Arinos, Nina Rodrigues e outros 15 nomes. Henriqueta é responsável apenas pela seleção dessas histórias editadas pela primeira vez na década de 50 e que agora sai em caprichada edição, prefaciada e ilustrada por Ricardo Azevedo. Além do fato do livro ser uma recolha de histórias colhidas por grandes autores e obras há muito esgotadas e/ou na eminência do esquecimento, chamou minha atenção os critérios de seleção dos contos feitos pela autora, que ciosa em "melindrar a saúde mental da infância", deixou de fora contos em que o "mundo da sombra, do medo, da irreverência e do mal seja poupado, na medida do possível, a sensibilidades imaturas". Fiquei curioso em saber quais histórias eram essas que melindravam "a saúde mental da infância". Numa rápida inspeção pelo sumário do livro, constatei que nenhuma história, ao menos nos títulos, fazia qualquer referência à morte, por exemplo. Calha então saber que os autores, mesmo aqueles preocupados em transmitirem importantes valores ou em preservarem o rico patrimônio herdado de nossas tradições populares, revistam quase sempre seu trabalho de um zelo moral que deixa parte da vida - parte significativa - renegada ao esquecimento. Tanto brio e tanto garbo na preservação das consciências "imaturas" bem poderia ser sinônimo de uma genuína preocupação com as consciências, não fosse o particular de que elas revestem a vida de detalhes parciais, nunca inteiriça.

O INCANSÁVEL


Anunciado para breve o lançamento de mais um livro do poeta Marco Haurélio. Mais informações aqui.

A DÚVIDA

Eu não queria crer, mas havia evidências, muitas, irrefutáveis e desconcertantes. A maior e mais perturbadora era física. Irremediavelmente marcante e por demais constrangedora. Parece até irônico, se referir a isso, como marcante, quando justamente não havia marca alguma que a distinguisse. Ocorria que, onde nas outras pessoas existia um sinal indelével de sua filiação maternal, em mim havia a prolongação da pele, que desde aquele momento até hoje, cresce, flácida e enrugada até não poder mais, denunciando os muitos anos que esse fato me assola. Nenhum sulco, marca ou sinais, que desfizessem as minhas dúvidas cresceram em mim. Assim apurei que estava só, e que minha existência era questionável, ao menos da maneira em que as outras pessoas constituíam a existência. Divorciado da maioria dos homens, a única cicatriz que insistiam em mim, era a da dúvida, parideira de toda sorte de pensamentos, inquietante moléstia, sórdida mazela dos emparedados. Pertencerei eu mesmo a esse mundo? Será certo que essa senhora da foto embotada, que me carrega pela mão, de fato foi a que me deu a vida e me precipitou no mundo, ou serei filho do amor que há entre Deus e o Diabo. Farsa é tudo uma farsa. Era a única coisa que me ocorria. Apartado do mundo e dos homens eu não conseguia repousar tranqüilo sabendo que era diferente.

AS MODERNAS TEORIAS RACIAIS

(fonte: Jornal Daily News)
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Tempos atrás, assisti a uma palestra de um professor universitário, que falava de forma inflamada, sobre a evidente discriminação racial no filme Matrix. A obviedade do fato decorria, segundo o ilustre professor, da composição do elenco, que mais uma vez, segundo ele, seguia uma "hierarquia racial" que desprestigiava a figura dos negros. Enquanto Keanu Reeves (um legítimo representante da raça branca) ocupava o papel principal, a Laurence Fishburne restava o papel de Sancho Pança, o fiel escudeiro do herói que guiará as pessoas na guerra contra os computadores. Será mesmo que os irmãos Larry e Andy Wachowski são grandes racistas e que a escolha de Keanu Reeves para o papel principal definiria por extensão os lugares de brancos e negros na sociedade, eu me peguei questionando. Morfeu, personagem de Fishburne, sabe todos os segredos de Matrix, no entanto, ele não tem a força para destruir o sistema, tem que encontrar alguém que possa fazer isso por ele e por toda a raça humana, assegurava o professor. Baseado nessas ideias o professor argumentava que esse filme era uma grande metáfora da disputa racial que vivemos hoje. Apesar do argumento rasteiro o professor foi calorosamente aplaudido ao final de seu brilhante, genuíno e hipnotizante pensamento, que sinceramente achei um tanto forçado e muito simplista. Reduzir uma discussão tão profunda a razões tão estreitas dão a medida de como anda os ânimos e a disposição de muitos para debater com seriedade, equilíbrio e insenção a delicada e infindável questão em que muitos decidem racializar tudo o que veem pela frente. A prova mais evidente de que o professor se precipitou em seus argumentos, e de como o seu pensamento ao invés de servir de base para discussões serias, patina num lodaçal de preconceitos e juízo pré-moldados, eu tive essa semana quando o jornal americano Daily News, divulgou uma lista com nome de vinte e seis atores e atrizes que deixaram de embolsar muito dinheiro e alguns prêmios importantes como o Oscar, por recusarem protagonizar filmes que depois se tornaram fenômeno de crítica e público. Entre tantos nomes o que mais me chamou a atenção foi o de Will Smith que havia declinado do convite dos irmãos Wachowski para estrelar justamente o filme que o professor havia acusado de racista, por não ter como protagonista um negro. Baseado em seus próprios preconceitos o professor julgou ter achado o alvo perfeito para ilustrar o quanto são necessárias políticas de reparação racial, que tenham como meta evitarem distorções como essas, em que negros não são escolhidos para papéis no cinema, e possam equalizar os espaços entre brancos e negros nas telas. Na ânsia de racializar tudo o que ver pela frente os ativistas do Movimento Negro esquecem que nem todas as escolhas de protagonistas são baseadas em critérios raciais como ele julga, e sim, na livre iniciativa e na adequação do personagem ao perfil do ator. A continuar como estamos até Hamlet será severamente questionado como mais uma prova viva da segregação racial. A alegação é claro será que o ator princial era branco e não negro.
(A lista completa dos artístas e dos respectivos filmes que eles se recusaram a protagonizar estão no site do jornal, aqui).

INDISPENSÁVEL

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Novidade à vista. O poeta, editor e folclorista Marco Haurélio anunciou ontem no seu blog Cordel Atemporal, o lançamento, para breve, de seu novo trabalho, CONTOS FOLCLÓRICOS BRASILEIROS. O livro sairá pela editora Paulus e conta com, ilustração de Maurício Negro e notas do Dr. Paulo Correia, do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve, Portugal, segundo nos informa o blog. O trabalho se constitui numa antologia de contos populares, colhidos pelo poeta no interior baiano entre familiares e mestres de sabença. A iniciativa, ao tempo em que valoriza os saberes e a memória popular de homens e mulheres que souberam pacientemente preservar saborosas estórias; desmistifica a ideia corrente de que no Nordeste só há pobreza. Longe dos estereótipos limitadores, Marco Haurélio assume a dianteira de uma geração de escritores entusiasmados com a cultura Brasileira. Não há dúvidas de que, em se tratando de um escritor apaixonado pelo ofício literário, que exerce desde a mais tenra idade, e de alguém que valoriza as tradições e as riquezas do povo brasileiro, como poucos, podemos esperar uma obra de qualidade indiscutível. Desnecessário dizer que, desde já, esse passa a ser um livro obrigatório para todos os amantes da boa literatura.

NOVOS TEMPOS?



A história está sendo reescrita? A inédita prisão do governador em exercício José Roberto Arruda, anunciada nessa quinta-feira, poria um basta, nos inomináveis vexames atribuídos à política nos últimos 500 anos nesse país? As contundentes imagens do desrespeito às funções públicas estarão finalmente dizendo alguma coisa? Arruda será realmente punido? Arruda será o primeiro de muitos a pagar por seus atos de desrespeito ao eleitorado? Afinal acordamos às grosserias políticas? Estaria chegando ao fim uma vergonhosa tradição de impunidade? A justiça finalmente despertou de sua letargia ou a justiça que tardou em prendê-lo, acordada que foi pela opinião pública, não demorará a restituí-lo à liberdade? Estamos vendo o ponto final da farra política com o dinheiro público? Estaríamos vivendo uma nova fase na política em que não se tolera as malversações? Sejam quais forem as respostas a essas perguntas, o certo é que estamos assistindo a um acontecimento único, nesse caso, não podemos perder a ocasião de darmos um choque de moralidade na pasmaceira reinante em Brasília.

ADMITAMOS... SOMOS UM PAÍS DESAVERGONHADO


Admitimos e promovemos muitas coisas nesse país, que no discurso diário estamos sempre prontos a condenar. Não aceitamos a corrupção política, essa vergonha, essa nódoa inalterável de nossa história. No entanto, não nos constrange, nem um pouco, fraudar a declaração do imposto de renda; receber um benefício que não nos cabe; vender ou comprar um trabalho acadêmico; roubar livros das escolas públicas - pratica frequente de nossos mestres; comprar CDs e DVDs no mercado paralelo. Dispor-se a maquiar uma licitação ou molhar a mão de uma autoridade pelo perdão da falta, não cora ninguém. Estimulados por uma desavergonhada força que anima nossa sociedade, essas e outras formas de ilegalidades são toleráveis, admissíveis e apropriadamente aceitas. Na verdade chego a pensar que elas dignam muitos homens. Fica cada vez mais difícil distinguir o corrupto e o corruptor no vale-tudo desmedido da vida social. Qualquer pessoa, desde a mais tenra idade, se sente desobrigada a fazer, diante de tanta vergonha, o que é certo, justo e realmente correto. Ninguém suspeita, porém, que essas e, outras ações injuriosas, minam qualquer sonho de progresso, e que, ao contrário do que se imagina, não será a indiferença às pequenas vilanias cometidas pela população diariamente, a resposta aos maus atos dos nossos representantes.