Farley Granger (1925-2011)
Farley Granger à esquerda
Morreu no último domingo o ator americano Farley Granger. Astro de dois filmes de Alfred Hitchcock, Granger estrelou em 1948 ao lado de James Stewart o 47º filme de do mestre do suspense, Festim Diabólico. Três anos depois ele atuou em Pacto Sinistro.
Adeus a musa de todos os tempos - Elizabeth Taylor (1932-2011)
Elizabeth Taylor
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Morreu nesta quarta-feira (23) em Los Angeles a atriz britânica Elizabeth Taylor aos 79 anos. Seus lindos olhos azuis dominaram as telas do cinema durante várias décadas, arrebatando corações de uma legião de fãs que hoje, entristecidos, lamentam a sua morte prematura. Foram mais de 60 filmes, alguns desses se tornaram logo clássicos incontestáveis, como: Gata e Teto de Zinco Quente, Um Lugar ao Sol, De repente no Último Verão, A Megera Domanda, Quem tem Medo de Virginia Woolf, Butterfield 8; pelos dois últimos ela recebeu o Oscar de melhor atriz.
O mundo precisa SIM de poesia
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A cantora Maria Bethânia foi notícia em toda rede esta semana. Tudo por conta da informação de que ela conseguiu autorização do Ministério da Cultura para captação de R$ 1,3 milhões para criar um blog intitulado “O Mundo Precisa de Poesia”. A iniciativa pretende postar diariamente um vídeo da cantora interpretando os grandes mestres da literatura. Imediatamente uma nuvem de poeira se ergueu, daqueles enfurecidos guardiãs do tesouro público protestando contra a ação da cantora.
Ao contrário destes acredito que 1,3 milhões é pouco, muito pouco mesmo para uma iniciativa que a meu ver é de utilidade publica. Toda e qualquer ação em favor do desenvolvimento da cultura, pelo menos daquela que seja digna de ser chamada assim, e são cada vez mais raras as ações nesse sentido, tem o meu apoio.
Maria Bethânia não receberá dinheiro diretamente do governo, mas via renúncia fiscal. Sei... calma lá esperem, essa é uma forma indireta de captar recursos públicos; não me creia mais tolo do que sou, explico meu ponto de vista.
Maria Bethânia quer dinheiro público para promover a poesia na sociedade, BRAVO! Sua ação provoca escândalo e revolta um grupo de intelectuais - nada mais brasileiro do que isso. Agora, ninguém se pergunta, nem questiona, até onde sei, os milhões de reais que saem dos caixas públicos para financiar os carnavais com músicas e atrações no mínimo duvidosas. Quantos milhões o governo da Bahia gasta com os trios elétricos para um número restrito de foliões festejarem, enquanto outros são espremidos pelas vergonhosas cordas, ironicamente seguradas por CORDEIROS. Quantos? Quanto o governo da Bahia renunciou para instalação da Ford por aqui?
Toda essa celeuma, acredito, vem do fato de que no Brasil dinheiro gasto com cultura, arte e poesia, é dinheiro desperdiçado, afinal poesia não serve para nada, não alimenta estômagos, nem abriga ninguém contra o frio ou as intempéries do tempo, não é mesmo? Esta é uma visão histórica que infelizmente ainda não conseguimos romper, por mais que sobrem esforços de alguns nessa frente.
Um país forte e respeitado é medido, dizia o escritor americano Henry Miller, pelo grau de importância que seu povo dar aos seus poetas. Em A Hora dos Assassinos, um ensaio sobre a obra de Arthur Rimbaud, Miller lembrou que o Egito foi grande enquanto respeitou, promoveu e incentivou os seus artistas, o mesmo ocorreu com a Grécia e a Itália. À medida que os artistas passaram a ser perseguido, estes países deixaram de ter a importância que tinham e declinaram, para nunca mais voltarem o serem o que um dia foram. Se ainda nos resta alguma memória desses povos, isso se deve - vocês hão de convir - aos seus artistas (escultores, pintores, arquitetos, e principalmente escritores) que pagaram, muitos deles, com a vida a ousadia de lembrarem aos homens a sua natureza menos nobre, as suas fraquezas, seus vícios e outras coisas imerecidas de um ser criado por um Deus todo poderoso.
Não me causa espécie está polêmica. Acho-a saudável. Não posso, porém endossar as opiniões de quem acredita que dinheiro gasto com poesia seja desperdiçável, mesmo que esse dinheiro seja no valor mencionado. Estou consciente das emergências do país, mas também acredito que parte delas poderia ser sim contornada com os esfoços de artistas, intelectuais, educadores bem intencionados. Quem já contribuiu tanto com nossa cultura, pode contribuir ainda mais.
A coragem de dizer BASTA!
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Em Desconstruir Duchamp, editado pela Vieira & Lent (2003), o poeta e crítico Affonso Romano de Sant´anna afirma que a arte do século XX desmoralizou o que entendíamos como arte. Em seu lugar - sim, porque por mais que ela se pretenda anárquica e completamente descompromissada, ela continua querendo alguma coisa - a arte contemporânea instituiu a fé como substituto da experiência estética. É preciso ser um crente para acreditar na arte contemporânea. Somente a fé impiedosa na palavra do artista, que sem nenhuma habilidade chafurda a tinta numa tela em branco e depois a expõe como arte, e na desistência completa de nossas capacidades críticas, para acreditar que os objetos grosseiros que muitas galerias, bienais, museus, casas de leilões, agentes publicitários e outros meios de comunicação nos empurra, são realmente fruto do engenho e arte que caracterizam o melhor da criatividade humana. Por isso ele pede uma revisão urgente nos valores que norteiam os sentidos da “arte” que dominam a nossa época. Infalível em suas análises críticas Affonso Romano de Sant´anna, como anuncia no título do livro, desconstrói o mito do artista moderno, criado por Marcel Duchamp (1887-1968), o dadaísta mitômano, que criou a ideia de arte conceitual - concepção que considera a ideia, o conceito por trás de uma obra artística como sendo superior ao próprio resultado final - para justificar todo tipo de escatologia. Radicalizando contra os embustes modernos Sant´anna alerta, no entanto, que nem tudo que se está produzindo hoje em dia seja de má qualidade, nem que ele seja contra a arte abstrata ou a arte contemporânea: “Não se entenda do que eu disse nos artigos anteriores que sou contra a pintura abstrata. Há pinturas abstratas excelentes. Não se entenda do que eu estou dizendo que sou contra instalações. Há algumas excelentes. Não se entenda, simploriamente, que sou contra a arte genericamente chamada de contemporânea. Não me creiam mais incompetente e tolo do que sou. Denuncio os embuste que estão misturados a coisas essenciais. Entenda-se isto sim, que estou radicalizando, correndo riscos e tirando os véus e vendas dos olhos. As vanguardas foram importantes, mas já viraram ‘estilo de época’. Há que passar a limpo o que foi feito, não para voltar à ‘academia’, ao ‘passado’, mas para sair dos desvios e dos equívocos.” Até que enfim um intelectual de calibre, com coragem de endossar o que a muito o senso comum já dizia.
CITAÇÃO 6
"Duvido que a relação entre prosperidade econômica e excelência artística seja a de causa e efeito...A pressa por 'desenvolver-se', ademais, faz-me pensar em desenfreada carreira para chegar mais cedo do que os outros ao inferno"
Octavio Paz
Benedito Nunes (1929-2011)
fonte da foto: site da Cia das Letras
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Domingo passado foi um dia triste para as letras brasileira. Além de Moacyr Scliar, o paraense Benedito Nunes também faleceu ontem. Benedito Nunes tinha 81 anos, quase todos eles dedicados à docência. Seus ensaios críticos de autores como Clarice Lispector, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, produziram um dos mais lúcidos, precisos e inquietantes estudos sobre esses autores, tanto que se tornaram referências indispensáveis. Ao despedirem-se de forma tão apressada do público, Moacyr Scliar e Benedito Nunes, deixaram um vazio impreenchível na literatura e na crítica brasileira.
Adeus a Moacyr Scliar
Bienal do Livro 2008
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Quase não pude acreditar quando abri a internet e me deparei com a notícia do falecimento do escritor gaúcho Moacyr Scliar. Scliar tinha 73 anos, morreu na madrugada deste domingo (27) no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, de falência múltipla dos órgãos devido às consequências de um acidente vascular cerebral (AVC), ocorrido no último dia 16, informa-nos o G1.
Filho de migrantes russos Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre em 1937. Sua carreira literária seguiu paralela ao ofício da medicina por boa parte de sua vida, até que o médico despiu o jaleco para envergar, com maestria própria dos melhores literários, caneta e papel. Nessa jornada foram mais de 70 obras, indiscutíveis em suas qualidades estéticas e criativas, reconhecida e admirada no Brasil e em muitos outros países.
Em 2008 durante a Bienal do Livro de São Paulo tive o prazer de conhecer pessoalmente esse maravilhoso escritor. Na ocasião ele havia sido convidado para falar num stand, não de sua obra, mas sim de uma de suas grandes paixões, a obra de Machado de Assis. Moacyr Scliar não se fez de rogado, teceu rasgados elogios a Machado, contou divertidas anedotas sobre o universo literário e gozou da vaidade que se ocupa muitos de nossos escritores, arrancando gargalhadas do público presente. Ainda me lembro de uma, das muitas histórias que ele contou que revelam o homem, por trás do escritor. Dizia assim: “Estavam reunidos dois escritores. Um falastrão e vaidoso que nunca deixava o outro falar contando sempre de suas inúmeras aventuras no exterior, das palestras proferidas, dos livros traduzidos, das amizades e de sua mais recente obra. Percebendo o tédio, com que o seu amigo ouvia aquelas histórias, o falastrão pediu desculpas, por estar aborrecendo tanto o seu colega, e prometeu parar de falar de si mesmo e disse: Agora me diga; o que você acha da minha obra?”
A suspeita da seriedade de alguns homens serviu sempre a Moacyr Scliar de antídoto contra as vaidades que seduzem aqueles que vivem sob os holofotes da fama. Sentiremos a sua ausência.
Prêmio Príncipe Claus 2010
Ana Maria Machado (foto: AE)
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A escritora e Acadêmica Ana Maria Machado recebe o Prêmio Príncipe Claus
A Acadêmica e Secretária Geral da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, receberá, no dia 24 de fevereiro, quinta-feira, um dos mais prestigiados prêmios do mundo, o Prêmio Príncipe Claus 2010. O Embaixador dos Países Baixos, em solenidade no Consulado Holandês do Rio de Janeiro, fará a entrega da láurea à escritora.
Ana Maria Machado prestará homenagem ao choro brasileiro com a apresentação de um grupo de músicos da Escola Portátil de Música, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), e atende alunos de todas as origens, inclusive comunidades carentes. O grupo, tendo à frente Maurício Carrilho, apresentará obras de Pixinguinha e Tom Jobim.
A Acadêmica é a primeira ficcionista brasileira e ganhar o prêmio. O anúncio foi feito em cerimônia pública em Amsterdam, Holanda, dia 7 de setembro do ano passado.
Notícia colhida no site da ABL de hoje 23/2/2011
Política e Literatura
.Giuseppe Arcimboldo
A literatura, mesmo a mais aparentemente idiota, é tão descompromissada ou desinteressada quanto parece ou atende a interesses maiores, e por isso, se disfarça de menor abandonado para seduzir os mais incautos, enredando-o em um sutil e atraente discurso? A resposta a essa questão trás sem dúvida outras questões muito maiores do que a primeira.
Para tornar-se válida a literatura tem necessariamente que encouraçar uma causa, empunhar uma bandeira ou se solidarizar com os desafortunados do mundo? Alguém legítima alguma coisa investindo nessas boas intenções? Quanto dessas boas intenções também não guarda interesses escusos? A literatura é tão despretensiosa ao ponto de não estimular nenhum valor ou interrese de grupos? Essas e outras questões surgem sempre quando estão em debate o papel e os interesses da literatura na sociedade.
Chamo a atenção para essas questões a propósito de uma discussão que envolve política e literatura. No centro dessa discussão está o livro Lendo Lolita em Teerã da escritora iraniana Azar Nafisi, um livro que em 2010 dividiu as opiniões de críticos e especialistas, ao reposicionar a discussão do papel da literatura na sociedade moderna no centro dos debates político-literários.
Lendo Lolita em Teerã, editado no Brasil pela Record, nos conduz à intimidade de oito mulheres que desobedecendo às determinações culturais rígidas de seu país, que proíbe a leitura de obras Ocidentais, se reúnem secretamente para ler os clássicos Orgulho e Preconceito, Madame Bovary e claro o livro que dá título a obra, Lolita do escritor russo Vladmir Nabokov. O livro ao mesmo tempo em que exalta a liberdade e o amor à literatura, abrevia, segundo os críticos, a sociedade iraniana a clichês ocidentalizados. Ao reduzir a sociedade iraniana contemporânea a tintas tão desfavoráveis, alguns críticos, dizem que a autora abre caminha para o projeto neocolonialista implementado pelos EUA na região mais próspera em petróleo do mundo.
Azar Nafizi foi professora de Literatura na Universidade de Teerã antes de ser expulso por se recusar a usa o véu, tradicional símbolo de castidade feminina desde que a Revolução Islâmica liderado pelo aiatolá Khomeine tomou o poder no país persa. Morando nos Estados Unidos desde 1997, ela leciona na Universidade Johns Hopkins. Crítica da política dos aiatolás, Nafizi desde que foi expulsa de seu país, vem acompanhando de perto a política de Mahmoud Ahmadinejad. Em um artigo publicado no ano passado no jornal The Huffington Post, ela condenou o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, sentenciada por suposto adultério, crime punido com a morte nos países islâmicos.
A despeito do tema da liberdade e do apreço à literatura, abordado em seu livro, Nafizi vem recebendo duras críticas por sua relação, pra lá de suspeita, com as esferas do poder em Washington com interesses nos recursos naturias abundantes no país dos aiatolás. A autora se defende das acusações dizendo estar mais interessada em literatura do que em política.
Esse caso ilustra o jogo de relações que envolvem a literatura numa rede em que forças excluem-se e se atraem mutuamente. Enquanto os críticos julgam a obra por seu suposto envolvimento na defesa de interesses neocolonialista. A autora rebate afirmando que o que faz é apenas literatura.
É sem dúvida, imprudente, impor aos escritores os temas e o tratamento que esses devam dar à sua obra. O leitor é quem deveria julgar a causa. Mas, o leitor está atento a esses fatos ou ignora completamente essa discussão? Mais dúvidas.
Sem uma resposta satisfatória à primeira vista, a causa toda parece se resumir ao desgastado clichê que afirma ser uma questão - engajar-se ou não - meramente de ponto de vista.
Tenho cá meus receios a ideia de que a literatura seja tão despretensiosa como querem alguns. O julgamento do quanto ela interfere na minha visão de mundo, seja para elevá-lo a uma consciência esclarecedora ou escamotear à razão, é que parece ser a verdadeira causa em questão. Não há dúvida de que em sendo um discurso, ela, influi, positiva ou negativamente na minha vida, mas até que ponto e em quais formas isso acontece é o que me inquieta.
Affonso Romano de Sant´anna - Poesia
Com a devida vênia do escritor Affonso Romano de Sant´anna publico logo abaixo o poema Apocalipse ou Gênesis Invertida. Esse poema, como explica o poeta, fará parte do seu próximo livro de poesia, cujo titulo provável é: Exercícios de Finitude, ainda sem data de lançamento. O poema foi recolhi do blog do autor aqui. Desde já agradeço o escritor pela deferência.
APOCALIPSE OU GÊNESIS INVERTIDO(*)
Qualquer semelhança com o noticiário nos jornais e na televisão é mera coincidência
No sétimo dia
(antes do fim)
as geleiras fendidas
desabarão
focas, pinguins e ursos
deixarão suas ossadas
no deserto em formação
ilhas imprevistas emergirão
e o que agora é continente
será um conteúdo
na escuridão.
No sexto dia
( antes do fim)
desnorteados pássaros
não saberão
de onde vieram e para onde vão
subvertida a ordem dos mares e florestas
seres atônitos seguirão o rumo
do vento e da aflição.
No quinto dia
(antes do fim)
choverá fogo no inverno
enlouquecidas as estações
as colheitas se perderão
devoradas por bactérias
germinadas
-do próprio grão.
No quarto dia
(antes do fim)
peixes envenenados boiarão
entre sargaços e destrocos
e os corais também mortos
não chorarão.
No terceiro dia
(antes do fim)
no esqueleto das cidades
máquinas desoladas
bactérias desesperadas
do próprio nada comerão.
No segundo dia
(antes do fim)
o homem e a mulher
cobertos de chaga e solidão
se deitarão no barro
e desaparecerão,
No primeiro ou último
dia antes do fim
Deus
desolado
se retirará
para outra galáxia
e contemplando as trevas
dissipando a criação
sentirá
um pesado vazio em suas mãos.
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A sede que nunca acaba
Inquirido durante o Jornal da Cultura de hoje (15), sobre a possibilidade dos EUA interferirem ou influenciarem nos protestos que depois do Egito tomam agora as ruas do Teerã, o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli, descartou categoricamente essa hipótese afirmando que “os Estados Unidos podem no máximo fazer comentários sobre o que acontece no Irã”.
Será mesmo? Só comentar? A história diz o contrário. A política americana desde a presidência de Andrew Jackson, sétimo presidente dos Estados Unidos, foi sempre marcada pelo intervencionismo e desrespeito a autodeterminação dos povos.
Com um discurso pretensiosamente mascarado pela difusão da liberdade entre os povos, os Estados Unidos desenvolveram a doutrina do “Destino Manifesto”, que expressa a crença de que eles seria o povo eleito por Deus para conduzir o mundo.
Tais ideia que inicialmente serviram para justificar a tomada do Texas e posteriormente a Califórnia, Novo México, Arizona, Uthar, parte do Colorado, Oklahoma, Nevada numa guerra contra os Mexicanos no final do século XIX, ampliou-se no inicio do século XX quando eles invadiram o Vietnã, fomentaram as revoltas no Panamá contra a Colômbia, tentaram uma intervenção em Cuba durante a revolução, alimentaram ditaduras no Brasil, Chile e Argentina, sustentaram regimes no mínimo suspeitos na África e no Oriente Médio e culminaram com a invasão no Afeganistão e Iraque.
Em nome da defesa da democracia, do respeito aos direitos humanos o governo de Washington, quer na verdade, garantir acesso aos riquíssimos recursos naturais abrigados em qualquer parte do mundo. E se puder fazer isso sem aparecer tanto melhor. Com esse retrospecto de desrespeito e autoritarismo me espanta a ingenuidade de Magnoli em crer que os EUA não farão nada, para derrubar seu maior obstáculo na consolidação de sua hegemonia na região mais prospera em petróleo do mundo, justamente agora que a oportunidade aparece.
Alguns minutos antes da fala de Demétrio Magnoli no Jornal de Cultura, assisti no Jornal Nacional uma matéria que justificava o questionamento da apresentadora Maria Cristina Poli ao geógrafo, e que é uma sensação de todos, menos do geógrafo. A matéria dizia que: “A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, anunciou a liberação de US$ 25 milhões para projetos que ajudem ativistas a driblar a censura na internet imposta por regimes autoritários. Esse tipo de censura foi usado, por exemplo, no início dos protestos contra Hosni Mubarak.”
Será que o Demétrio ainda acredita nas boas intenções dos EUA?
The White Stripes
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Uma guitarra envenenada pelo mesmo deus que envenenou o violino de Paganini tangeu a solidão do meu quarto nos últimos anos. Gostava de tudo no The White Stripes, que no último dia 2 anunciou o seu fim, da monotonia cromática, das versões que eles fizeram das músicas de Bob Dylan, da frenética e inquietante mistura de blues e rock carregada de pitadas de punk de butique e principalmente da rebeldia, até mesmo da inusitada formação guitarra e bateria de Jack e Meg. Eles foram sempre à prova de que três acordes dão sim em boa música e que uma dupla, não precisa ser necessariamente algo intragável, como sugerem os breganojos, que tomaram de assalto a mídia brasileira.
Elizabeth Bishop e João Cabral de Melo Neto - Poesia e confissão
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Ao ler esta tarde o blog do poeta Affonso Romano de Sant´anna, fico sabendo que este ano comemora-se o centenário da poetisa norte-americana Elizabeth Bishop. Nascida em Worcester em 11 de fevereiro de 1911, Elizabeth viveu e produziu parte de sua obra aqui no Brasil. Nesse período traduziu o melhor de nossa literatura para língua inglesa. Entre os seus poetas traduzidos está o pernambucano João Cabral de Melo Neto, que em seu livro Agrestes de 1985 - recém re-editado pela Alfaguara -, dedicou-lhe um poema intitulado SOBRE ELIZABETH BISHOP.
Quem falar como ela falou
levará a lente especial:
não agranda e nem diminui,
essa lente filtra o essencial*
(...)
João Cabral, como todos sabem, era avesso a poesia confessional, preferiu antes falar dos outros poetas e das coisas que habitavam a sua volta do que de si mesmo. Porém, num desses poemas homenagens ele deixou escapar uma dúvida: “Não haverá nesse pudor/ de falar-me uma confissão,/uma indireta confissão,/ pelo avesso, e sempre impudor?”. O artista inconfesso buscou no exemplo de outros poetas, num jogo metalingüístico, falar de sua própria impressão sobre a poesia. Toda via, não vejo nenhuma impudorada confissão nessas “linguagens alheias”. Esses exercícios metalingüísticos restringem-se ao oficio poético, e nem de longe assumem outra forma que deixe entrever outras faces desse poeta, se não a sua forma de ler e escrever poesia marcada pela rigidez e concisão absoluta.
*fonte do poema: Obra Completa de João Cabral de Melo Neto, ed. Nova Aguilar, p. 561.
Mais uma de Marco Haurélio
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O poeta Marco Haurélio me enviou o esboço da capa do seu próximo trabalho. Meus Romances de Cordel é uma seleção de sete trabalhos anteriormente publicados pelo poeta em versão clássica dessa literatura, que agora, repaginado, volta ao público em versão de livro, com ilustrações de Luciano Tasso, livremente inspirado no trabalho do holandês Escher - simplesmente divino. Os títulos são O Herói da Montanha Negra, história que abre a antologia, a seguir, temos: Belisfronte, o Filho do Pescador, Presepadas de Chicó e Astúcias de João Grilo, Os Três Conselhos Sagrados, Briga do Major Ramiro com o Diabo, História da Moura Torta e Galopando o Cavalo Pensamento. Não há dúvida que em se tratando de Marco Haurélio esse trabalho conquistará facilmente leitores de todas as idades. As razões são óbvias. Ele domina como poucos a técnica da escrita criativa. Sua sensibilidade poética, conjugada a uma memória prodigiosa, alimentada desde a mais tenra idade pela curiosidade do menino nordestino, moldaram o poeta maduro que ora temos o prazer de (re)ler.
A literatura no cinema francês
O cinema Francês, principalmente daqueles jovens que pensaram em renovar a linguagem cinematográfica nos vertiginosos anos 60, nutriu sempre uma irresistível atração pela literatura.
Com frequência é possível flagrar nos filmes de cineastas como Truffaut e Godard, cenas em que alguns dos personagens em meio à trivialidade da vida, assumem o papel de leitores incautos.
A indisfarçável paixão dos franceses pelo livro encontrou no escurinho do cinema a simbiose perfeita. Algumas dessas cenas estão na seleção de imagens logo a baixo, deliciem-se à vontade.
Anna Karina em Une Femme est Une Femme - Godard, 1961
Anna Karina em Alphaville - Godard, 1965
Domicílio Conjugal - Truffaut, 1970
La Chinoise - Godard, 1967
MARIA SCHNEIDER (1952-2011)
Maria Schneider e Marlon Brando em O Último Tango em Paris - 1972
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Um amigo escreveu-me surpreso pelo fato de eu não ter postado nenhum comentário sobre a morte da atriz francesa Maria Schneider. Todos cá sabem que esse blog nunca se furtou em prestar as últimas homenagens às personalidades que marcaram o mundo das artes (que me perdoe o Dennis Hopper).
Descrente, abri logo algumas páginas da internet procurando informações que pudessem desmentir o meu funesto mensageiro. Em vão. Infelizmente, para meu espanto, a informação estava correta. Maria Schneider havia morrido no último dia 3, quinta-feira aos 58 anos, em circunstâncias não explicadas pela família, que preferiu a discrição. Tanto melhor.
Assisti a um único filme com ela, o provocante O Último Tango em Paris de 1972, do cineasta italiano Bernardo Bertolucci. O filme tinha ainda no elenco o recém desencarnado Don Corleone, Marlon Brando, que sobre a película declarou em sua autobiografia “não me perguntem do que se trata esse filme”.
A história é sim um tanto complicada e foi construída de uma forma caótica e desordenada. Prova é que Marlon Brando diz em sua biografia que o diretor pedia aos atores que improvisassem as cenas em cima de um argumento inicial pra lá de vago. “Bertolucci permitiu que os atores moldassem a história. Quis que eu representasse o meu próprio papel e construísse a personagem de Paul como se se tratasse do meu retrato autobiográfico”.
Marlon Brando faz o papel do americano Paul que enviuvará recentemente. Perambulando por Paris a procura de um apartamento para alugar, onde pudesse desaguar suas mágoas, ele encontra por acaso a jovem Jeanne, que ao contrário de Paul iniciará a pouco sua vida conjugal com um excêntrico cineasta.
Não demoram muito eles começam uma anônima relação baseada unicamente no sexo descompromissado. Tal desinteresse tem para Paul um efeito purgativo das dores que o acometem por causa do suicídio da mulher. O caldo entorna quando o caso começa a fugir do propósito inicial.
Proibido no Brasil por quase duas décadas, não porque seu tema envolvesse algum tipo de mensagem política que pudesse ofender os ditadores, mas sim, por uma tórrida cena em que Marlon Brando, então um quarentão, sodomiza a ninfeta Schneider que na época contava com dezenove anos, auxiliado por uma manteiga.
Maria Schneider vez outros filme, nenhum, no entanto, marcou tanto quanto esse.
POESIA E SUBVERSÃO
Toda poesia é uma subversão dos signos. O poeta não se contém diante da possibilidade mágica das palavras que nomeia uma coisa, mas com ela pode estar insinuando outras. Por signo entendemos a palavra ou imagem que implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. O poeta diz uma palavra (jogo), ou constrói uma imagem, através de uma série de palavras. Nessa imagem podemos ver um cenário e seus personagens, como no poema Idade, de Mário Quintana, por exemplo:
IDADE
Estou nessa idade me que o juiz consulta o relógio e as arquibancadas já vão se esvaziando...
Seu significado imediato, sua aparência objetiva, sua significação cotidiana, fala de uma realidade facilmente apreensível - uma partida de futebol que se aproxima do fim. Desse modo, o poema, não se constitui em nenhum desafio a sua compreensão. Muito menos parece esta subvertendo coisa alguma. Porém, as leituras desses versos sugerem, para aquele dotado de sensibilidade, como algo a mais do que aquilo que ele anuncia.
Este é um modo de ler proposto pela poesia. Negando a realidade dada, construímos outras, associado com os símbolos fundados pelo poeta. Assim, esses simples versos, que nos fala da aproximação do fim de um jogo, pode se revestir numa reflexão sobre a vida e sua brevidade, ou ainda, sobre a transitoriedade, a passagem, a forma com que tudo um dia chega fatidicamente ao fim.
Esse é o artifício construído pelo poeta para alcançar zonar do inconsciente do leitor. Através da subversão dos signos dados, (idade, juiz, relógio, arquibancadas, esvaziando), o poema, transcende essa realidade, para vislumbrar outra, ocultada pela mesmice com que sempre fixamos essas palavras. Ao encararmos essas palavras como signos, elas se elevam a outros sentidos, que vão além daqueles comumente empregados. Dizem mais do que aquilo a aqui estávamos acostumados a ouvir delas, restauram assim sua vitalidade.
Uma leitura dicionaresca daria conta do sentido da mensagem. Mas poesia é algo mais.
A poesia se utiliza dos artifícios das palavras para, desequilibrando nossos sentidos, revelar-nos outros possíveis, que por conta do uso indiscriminado acabaram embotadas, adormecidas, hibernando em alguma parte de nos mesmo esperando apenas o estímulo necessário para despertar.
Ler um poema, apreciar uma obra de arte, assistir um bom filme, é o mesmo que celebrar a descoberta de algo novo. As surpresas que se ocultam por trás de uma obra podem reverter-se naquela compensação desejada pelo leitor.
Novidade à vista
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As incontáveis, e sempre bem vindas, antologias de João Cabral de Melo Neto trazem sempre fôlego novo à sua poesia, na medida em que atualiza às novas gerações a obra desse incontestável gênio das nossas letras.
A mais recente, destinada aos jovens estudantes, tem seleção de Regina Zilberman. João Cabral de Melo Neto Poemas para Ler na Escola, editado pela Objetiva, destaca poemas menos conhecido do repertório poético do autor de Morte e Vida Severina.
Essa é a segunda antologia em pouco menos de três anos que a editora Objetiva fez da poética do escritor Severino. A primeira, um primor de livro, saiu em 2007 pelo selo Alfaguara, e trazia poemas de cunho autobiográfico, recheado de fotografias do escritor na intimidade do lar. Um saboroso petisco para os admiradores da vida e da obra desse grande poeta.
A julgar pela disposição da editora, não será nem um pouco arriscado prevê para daqui a mais dois anos uma terceira ou quarta repaginação das sempre inquietantes vozes que ecoam das páginas dos livros do maior poeta da literatura brasileira. Oxalá se repita esse projeto revitalizador. As próximas gerações de leitores agradecem.
Enredo rodriguiano: o espetáculo impecável de Bruno
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O texto a seguir saiu hoje no Cinform de Aracajú, foi escrito por Téo Júnior* e reproduzido aqui com a devida vênia. Desde já eu agradeço ao Téo pela colaboração.É de amargar a boca os meandros da tragédia protagonizada por Bruno Fernandes – na realidade um animal da pior espécie – que atuava no Flamengo (acaba de ser demitido), era influente, rico e possuía, até o mês passado, expectativas de jogar na Europa, de quintuplicar seu salário e de atuar na próxima Copa. Impressiona-nos que o mundo deste rapaz tenha caído quando ele conta 25 anos apenas, sem que houvesse tempo hábil para sua carreira deslanchar. Foi como um grande castelo de cartas, que ao menor sopro vem abaixo, em fração de segundo. No presente momento, Bruno – coitado! – desempregado, preso e repudiado pelo país, conhece a antessala do inferno.
É aquele velho clichê do pobrezinho favelado que fica rico de uma hora para outra. Esses indivíduos, uma vez reconhecidos e admirados, não raro revelam-se portar um desequilíbrio emocional bastante elevado, procurando compensar – ainda que inconscientemente – antigas frustrações e privações, comportando-se de modo infantil e disparatado. Adquirem amiúde uma personalidade narcísica e agem sem pesar causas e consequências, julgando-se invencíveis. Às vezes, o desfecho é fatal.
LISTAGEM DE HORRORES
Tudo bem que Eliza Samúdio não fosse nenhuma flor que se cheirasse, tendo inclusive participado de filmes do mais baixo nível – mas a maneira com que foi assassinada não tem paralelo com nenhuma outra que eu conheça. Fora asfixiada por braços fortes, sem capacidade para defender-se; subjugada por mais de um homem, justamente para não haver chance de sobrevivência. Se não bastasse, seu cadáver fora devorado por cães já treinados para fazer misérias. Como salientou o velho Tirésias em “Antígona”, “não há vantagem alguma em alguém morrer duas vezes”. Nesse desdobro, vem à luz o abandono de Elisa, na infância, pela mãe; a reputação do pai (acusado de pedofilia); a do irmão de Bruno (estuprador, preso); a esposa do jogador (a oficial) também está vendo o sol nascer quadrado há um tempinho. Consta que o pai de Bruno, já falecido, era ladrão. A listagem de horrores dessas duas famílias parece não acabar nunca. E isso tudo nos remete a um grande palco, onde assistimos às piores catástrofes, alimentando em nossa alma a ideia vã de que essas monstruosidades habitam apenas o mundo fictício dos grandes autores, e não a vida real.
Quando Nelson Rodrigues montava suas peças, diziam-se horrores a seu respeito: ele era o “tarado”, o “imoral”, o “pornográfico”. Onde alguns poucos enxergavam nele o gênio inconformado com a condição humana, outros viam o “maluco” que precisava ser ignorado a todo custo, porque ele escrevia sobre pessoas “doentes”, “contaminando”, destarte, as sagradas famílias brasileiras.
Pois com todo o talento dramático que possuía, cuja força motriz era sempre a violência, o sexo desenfreado e as paixões avassaladoras, Nelson em quarenta anos de profissão não fora capaz de criar uma história tão fétida como a que estamos assistindo, porque ele devia crer que, por pior que fosse, o homem não chegaria a tais extremos. Ao publicar “Álbum de Família”, em 1945, recebera um tratamento tão agressivo e tão vil como se ele fosse não apenas o doido alegre da casa – mas a própria encarnação do demônio. O texto ficou 22 anos sob censura, devido ao seu conteúdo – sua fama de “anormal” começou ali. Esta peça aborda uma família como qualquer outra – vista a olho nu, todavia se observada com uma lupa, podemos acompanhar sua degradação moral ocorrendo paulatinamente, como se nós, leitores ou expectadores, fôssemos uma criança hipnotizada visualizando um enredo macabro pelo buraco da fechadura: irmãos se amando em desespero, uma mãe enamorada de seu filho, um pai que deseja em segredo a filha etc. Nelson pôs o dedo no delicado tabu do incesto sem se esquecer da selvageria gratuita praticada pelas bestas-feras. Esse material aparentemente tão nocivo à comunidade, que teve a audácia de exibir indivíduos cujos impulsos num primeiro instante permanecem recalcados, para depois se aflorarem de maneira abrupta, é um conto de fadas perto do escândalo que envolve o goleiro Bruno.
A sociedade, sempre se esforçando ao máximo para parecer digna e sadia, não suportou outrora a relevância de uma obra de arte, preferindo fechar os olhos. Hoje, os srs. Bruno Fernandes e “Macarrão”, o coadjuvante, empurram nessa mesma sociedade goela abaixo as entranhas de suas ações inomináveis, e ela é obrigada a enxergá-las, a toda hora – queira ou não queira. Bem feito!
Temos aí um caso impressionante da vida real deixando a ficção comendo poeira. Se fossem atores, e se seus desempenhos fossem projetados no cinema – não duvidem – ambos estariam no mínimo cotados ao Oscar, e fariam a fama e a riqueza de qualquer autor ou diretor que trabalhasse com eles.
Quando eu era criança, ouvia falar que o que distingue o gênio do medíocre é que o gênio está sempre à frente de seu tempo. Trinta anos depois de sua morte, o maldito teatrólogo vinga-se agora. Estejamos certos de que os sábios são realmente eternos. Os personagens Eliza Samúdio, Luiz Samúdio, Bruno Fernandes, Rodrigo Fernandes, “Macarrão”, Marcos “Bola” e Dayanne Souza eram “normais” até outro dia, até que a cortina que lhes protegia se abriu ao grande público e suas máscaras caíram totalmente. Aplausos para Nelson!
[*] Professor do Dep. de Letras da Universidade Federal de Sergipe.
Contato: teocte@hotmail.com
SUGESTÃO DE LEITURA:
“Álbum de Família”, tragédia em 3 atos
Autor: Nelson Rodrigues. 107 pgs.
Edit. Nova Fronteira
VIVER É UMA EMPRESA DE RISCO
Ele fez da vida
uma empresa de risco.
Não a entendia
sem o perigo.
Lançou-se à sorte
Como quem mesmo
Despencou do alto
De uma montanha.
Desassombrado
desafiou o medo
Que faz de cada homem
Um ser cativo.
A uma geração, que teme
E empalidece à sombra,
De algum facínora,
Deixou seu testamento,
Onde consta a saga.
uma empresa de risco.
Não a entendia
sem o perigo.
Lançou-se à sorte
Como quem mesmo
Despencou do alto
De uma montanha.
Desassombrado
desafiou o medo
Que faz de cada homem
Um ser cativo.
A uma geração, que teme
E empalidece à sombra,
De algum facínora,
Deixou seu testamento,
Onde consta a saga.
MARLYSE MEYER (1924-2010)
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Morreu ontem, segunda-feira (19), aos 86 anos, a professora, crítica e ensaísta literária Marlyse Meyer, de parada cardíaca. Alguns de seus livros abordam os temas da cultura popular como Caminhos do imaginário no Brasil editado pela Edusp. Outros de seus livros saem pela Cia das Letras, que em seu blog presta uma última e merecida homenagem à escritora.
PERGUNTAS INCÔMODAS
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A falta de coragem, esse indistinto traço da natureza humana, nem sempre deixa os homens dizerem o que sentem. Quase sempre, lhes sobra na boca o essencial, visto que omitem seus mais fundos desejos. Outros homens, no entanto, não são tão tolerantes, ao ponto de viverem com suas bocas sempre castradas, dizendo umas e, escondendo outras palavras. Esses, além de dizerem sempre o que vai por suas cabeças, por vezes, também, como quem não quisessem falar sozinhos, lançam perguntas que têm entre outros efeitos, imolar as consciências tranquilas. Por pudor, medo, ignorância, ou mesmo por falsidade não fazemos algumas perguntes que possam incomodar, mas que se fossem feitas corajosamente poderiam mudar o curso das coisas. Essa coragem tem apenas alguns homens, que como os demais, talvez tivessem medo, pudor, mas superaram suas fraquezas rejeitando qualquer conformismo que comprometesse a dignidade humana. Esses são imprescindíveis.
O ORÁCULO DESSA COPA
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Quando entrar em campo no próximo domingo os holandeses terão, mais de um adversário para bater. Eles entram com a árdua tarefa de desmistificar as bruxarias do polvo Paul, que já decidiu, quem levará o inédito troféu de campeão do mundo para casa, serão os espanhóis. Espero que os holandeses não se sintam dispensados por isso em tentarem conquistar o seu primeiro título. Carrasco dos alemães nas semifinais, o polvo Paul, tem sido figurinha em todos os jogos dessa Copa, profetizando os vencedores das partidas de futebol. Até agora ele não errou nenhum palpite, e mesmo vivendo em terras germânicas, ou melhor, águas, ele não se intimidou e, carimbou o passaporte dos comedores de caraca direto para disputa do terceiro lugar, adiando o sonho germânico de se aproximar do Brasil em número de títulos no campeonato mundial. Se fizer valer a sua fama de profeta aquático o polvo antecipa assim a nossa vingança contra a laranja mecânica.
DISCUTÍVEL POLÊMICA
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A edição de julho da revista Playboy Portuguesa, nem bem saiu e já se tornou o centro de acalentadas discussões, que giram em torno da liberdade de expressão e o respeito à fé alheia; equação de difícil equilíbrio no mundo moderno, quase sempre regido por valores movediços.
O motivo da celeuma se deve ao tema da revista desse mês, que traz na capa um Jesus Cristo sentando numa cama amparando nos braços uma mulher, que como é próprio dessas revistas, aparece seminua. Na cabeceira da cama lê-se o título do livro do escritor português José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
O alegado motivo da capa, segundo o editor da revista, foi prestar uma “última homenagem” ao escritor morto no último mês de junho em razão de complicações em sua frágil saúde.
Mas se a imagem da capa mexeu com os brios de muita gente, as que surgem no interior da revista esquentam ainda mais a polêmica. Nelas podemos ver, entre outras fotos, Jesus observando duas lésbicas trocando carícias.
A homenagem ao escritor não agradou muita gente, nem mesmo a empresa mãe que anunciou, assim que soube da publicação, seu desacordo com o tema da revista.
Alegando não ter tido conhecimento prévio da polêmica imagem, a vice-presidente da Playboy Entertainmente, Theresa Hennessy disse que se trata de "uma violação chocante das normas" e que "devido a esta e a outras questões com os editores portugueses, estamos prestes a rescindir o acordo". Por essas palavras entende-se que a matriz da revista não concorda com o tema e ameaça com rescisão a edição portuguesa da revista, que atua em Portugal a pouco mais de um ano e meio; a primeira edição saiu em março do ano passado.
Esta lançada à polêmica, com ela semeia-se a discórdia e por fim um produto francamente sofrível como são as revistas que exploram a nudez feminina, dão um salto momentâneo, naquilo que mais lhes interessam, as vendas.
As razões da polêmica são discutíveis. Para muitos elas não passam de uma armação, entre a revista portuguesa e a sede americana que ameaçando fechar a sucursal, incendeia a discussão para impor a repercussão do caso, e assim, promover a revista, que segundo informa a imprensa portuguesa vive momentos de grande dificuldade.
Decididamente José Saramago merecia melhor homenagem. Uma por exemplo, que não tivessem que relacionar o seu desentendimento com os dogmas da Igreja, com fins comerciais de uma revista masculina.
O motivo da celeuma se deve ao tema da revista desse mês, que traz na capa um Jesus Cristo sentando numa cama amparando nos braços uma mulher, que como é próprio dessas revistas, aparece seminua. Na cabeceira da cama lê-se o título do livro do escritor português José Saramago, O Evangelho Segundo Jesus Cristo.
O alegado motivo da capa, segundo o editor da revista, foi prestar uma “última homenagem” ao escritor morto no último mês de junho em razão de complicações em sua frágil saúde.
Mas se a imagem da capa mexeu com os brios de muita gente, as que surgem no interior da revista esquentam ainda mais a polêmica. Nelas podemos ver, entre outras fotos, Jesus observando duas lésbicas trocando carícias.
A homenagem ao escritor não agradou muita gente, nem mesmo a empresa mãe que anunciou, assim que soube da publicação, seu desacordo com o tema da revista.
Alegando não ter tido conhecimento prévio da polêmica imagem, a vice-presidente da Playboy Entertainmente, Theresa Hennessy disse que se trata de "uma violação chocante das normas" e que "devido a esta e a outras questões com os editores portugueses, estamos prestes a rescindir o acordo". Por essas palavras entende-se que a matriz da revista não concorda com o tema e ameaça com rescisão a edição portuguesa da revista, que atua em Portugal a pouco mais de um ano e meio; a primeira edição saiu em março do ano passado.
Esta lançada à polêmica, com ela semeia-se a discórdia e por fim um produto francamente sofrível como são as revistas que exploram a nudez feminina, dão um salto momentâneo, naquilo que mais lhes interessam, as vendas.
As razões da polêmica são discutíveis. Para muitos elas não passam de uma armação, entre a revista portuguesa e a sede americana que ameaçando fechar a sucursal, incendeia a discussão para impor a repercussão do caso, e assim, promover a revista, que segundo informa a imprensa portuguesa vive momentos de grande dificuldade.
Decididamente José Saramago merecia melhor homenagem. Uma por exemplo, que não tivessem que relacionar o seu desentendimento com os dogmas da Igreja, com fins comerciais de uma revista masculina.
CITAÇÃO 4
"Não é possível conhecer a alma, a índole e as ideias de um homem , antes que ele as manifeste no exercício do poder e na elaboração das leis"
"A esperança do lucro leva, muitas vezes, os homens à perdição"
"Entre os homens, nada há como o dinheiro para gerar maus costumes. Ele devasta as cidades e expulsa os homens de seus lares. Corrompe até o coração dos bons e ensina-lhes práticas torpes. O dinheiro induz os homens ao crime e estilo-lhes na alma toda sorte de impiedades"
"Guarda, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas"
"...feias quedas dão os homens, até os mais astutos, quando, movidos por vis interesses, entrajam com belas palavras os seus pérfidos pensamentos"
"Para os cegos não há outro caminho que o do guia"
Excertos do último livro que li, Antígona. Tradução de Domingos Paschoal Cegalla.
"A esperança do lucro leva, muitas vezes, os homens à perdição"
"Entre os homens, nada há como o dinheiro para gerar maus costumes. Ele devasta as cidades e expulsa os homens de seus lares. Corrompe até o coração dos bons e ensina-lhes práticas torpes. O dinheiro induz os homens ao crime e estilo-lhes na alma toda sorte de impiedades"
"Guarda, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas"
"...feias quedas dão os homens, até os mais astutos, quando, movidos por vis interesses, entrajam com belas palavras os seus pérfidos pensamentos"
"Para os cegos não há outro caminho que o do guia"
Excertos do último livro que li, Antígona. Tradução de Domingos Paschoal Cegalla.
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