Poesia, Vida e Morte



João Cabral de Melo Neto é um poeta deslocado da tradição lírica dominante na literatura brasileira. O vigor de sua obra vem do exercício rigoroso da racionalidade imposta na construção dos seus versos. 

Contrafeito a todo transbordamento melancólico e ao psicologismo discursivo, ele segue as lições de Mallarmé de que não se fazem versos com ideias, sentimentos, ou proposições, mas sim com palavras.

Sua literatura se funda na realização concreta dum universo poético onde rigor de construção e riqueza de significação, se interpenetra e se complementam; razão pela qual, sua poesia feita de coisas, se orienta como forma de significar o mundo pelos elementos do mundo. 

Essas características fogem à média de uma tradição poética estabelecida no predomínio do “sentimental-confecional”, e formam um corpo estranho no percurso de nossas letras. Nossos mais destacados poetas, sempre optaram do romantismo até hoje, em explorarem o interior de si mesmos, se perdendo num labirinto de remoço, dores, queixas e muita desilusão. 

Ler a obra de João Cabral e se sentir animado, vivo, é coisa fácil. Dele, a gente sai revigorado, e certo de que ao homem, cabe bem mais do que apenas lamber as suas chagas. Cabe, acima de tudo, encarar os desafios impostos no percurso sinuoso que nos leva, invariavelmente, a “indesejada das gentes”, com destemor. 

A poesia cabralina nos ensina que a vida está sempre por um fio. Ela não se dá, tem que ser tomada. Como a poesia que ele fez e entendeu, ela não vem sem luta. Como os toureiros ameaçados pelo chifre do touro, sob o olhar de uma plateia implacável, a vida é um esquivar-se dos golpes mais violentos até o dia em que a lança do animal vença a lança do homem. 

Segue um poema exemplar de João Cabral sobre sua vida e sua poesia:
ALGUNS TOUREIROS
A Antônio Houaiss

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

sim, eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais asceta,
não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:

como domar a explosão
com mão serena e contida,
sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,

e como, então, trabalhá-la
com mão certa, pouca e extrema:
sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.


ACARAJÉ, AXÉ E MUITA PREGUIÇA

Foto: Divulgação
“Baianidade Baiana”: mais um espetáculo
calcado nos estereótipos fáceis
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Téo Júnior*
teo.camp@hotmail.com

Numa cidade como Caetité, cuja tradição teatral é paupérrima, é um alento saber que um espetáculo foi exibido em três sessões, ainda que montado num espaço pequeno, como é o caso do Cine Teatro Anísio Teixeira (Pç. da Catedral, Centro). Nessas raríssimas ocasiões, a crítica se faz fundamental, pois entendemos que o papel dela não pode ser o da complacência ou o da subserviência em relação ao elenco, como normalmente acontece nas divulgações feitas pela mídia, sem critério algum; tampouco a crítica deva destruir um espetáculo, pura e simplesmente. Ela não existe para esses fins. No entanto, sua obrigação é a de analisar – sempre – com justiça aquilo que é oferecido ao público.

Não raro, as comédias apresentadas (muitas a preços populares, inclusive) estão calcadas sobre estereótipos, e os artistas perseguem o nobre objetivo de, sorrindo, refutá-los, já que esses estereótipos – e ninguém há de discordar – são gerados sobre ideias preconcebidas e alimentados pela ignorância. Assim sendo, faz-se necessário rechaçá-los a qualquer custo. Algumas dessas idéias, todos nós já conhecemos: baianos preguiçosos, nordestinos atabalhoados em cidades grandes, gays afetados excessivamente, loiras estúpidas etc. A regra não se aplica aqui, porém. Dir-se-ia que eles (Marcos Lima e Marcos Magno) se incomodam muito pouco com críticas em relação à sua cultura, e ambos a proclamam até com certo orgulho. Não é sempre assim.

O título da peça por si só já soa estranho, porque redundante: “Baianidade Baiana” (sic!), embora o tema nos interesse, num momento em que se discute até que ponto essa “guetificação” cultural é apropriada ou não. Qual seria a melhor identidade? A mais bonita? A “baianidade”, talvez? A “sergipanidade”?  A “mineiridade”? Assim sendo, analisamos por uma ótica separatista, como se esses locais fossem ilhas e não partes de um todo, de um painel diversificado e rico em múltiplos aspectos, como é o Brasil. Aliás, o próprio conceito de “brasilidade” está há muito batido, desde o surgimento – lá no Modernismo – de Tarsila do Amaral, conforme assinalou Mário de Andrade, que caracterizava seus quadros  como sendo a representação da “realidade nacional”.

Rodando a baiana – Abriu-se espaço para imitações de artistas, mencionando-se as diferenças abissais de classes, a negritude, o acarajé com pimenta, a sexualidade sem culpa, o linguajar por vezes tosco, mas autêntico e piadas. Ao final, ambos irmanaram-se com o auditório a fim de que nós, talvez não mergulhados suficientemente nesse universo quanto eles, adivinhássemos as músicas lembradas e por aí vai. É evidente que esse trabalho não é tão simples e eles provaram ser bons comediantes, mas o que a dupla realiza não pode ser considerado teatro, no sentido mais genérico do termo. Às vezes, existiam os diálogos, eles estavam lá, incisivos ao extremo – porque um assunto puxa outro – mas sempre caricaturais, é claro; todavia na maior parte da peça o que tivemos foi o famoso stand-up. Em suma, trata-se mais de um humorístico no estilo “A Praça é Nossa” do que propriamente de uma peça teatral.

O momento em que a sonoplasta (não foi informado o nome) interrompeu a apresentação a fim de se eximir das falhas incríveis do som que ela operava, foi de uma estupidez sem tamanho, e “Baianidade Baiana” pecou, assim, pelo menos na sexta-feira, pela falta de cuidado. Mas nesses casos, como eles se abrem a todo tipo de improvisação, não se considerou o descuido uma grande falha, pois ele não chegou a atrapalhar em nada.

A responsável pela peça foi a “Companhia Baiana de Risos” e a direção é de Alberto Damit e Marco Antonio Lucas. Ingressos: 20 reais.

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* Graduado em letras pela UNEB, foi professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS) atualmente desenvolve Projeto de Mestrado cujo tema é a dramaturgia de Nelson Rodrigues. É pesquisador de teatro. 

O politicamente correto é uma bosta

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Em nome da ordem, do decoro e harmonia social, há tempos a onda do politicamente correto tenta restringir as liberdades individuais e instaurar uma sociedade pautada pela assepsia ideológica, linguística e comportamental. O resultado tem sido catastrófico. Ninguém mais consegue pensar sem se sentir vigiado. Ninguém mais expõem suas opiniões livremente sem ser acusado de coisas que nunca foram. Há sempre o risco, involuntário, de se estar melindrando a sensibilidade de alguém, e com isso sofrer as piores recriminações. O excesso de regras e restrições, a que estamos sendo submetidos, infantiliza a sociedade e não garante o respeito a quem quer que seja. Pelo contrário, tutelar as pessoas, como fazia os regimes totalitários cria uma sociedade insuportável de se viver.

Contos e Fábulas do Brasil



Contos populares do sertão e do mundo
No Brasil, não são muitas as coletâneas de contos populares, apesar da alardeada riqueza da nossa cultura popular e do empenho de estudiosos, como Sílvio Romero, Câmara Cascudo e Lindolfo Gomes. A publicação de Contos e fábulas do Brasil, pela editora Nova Alexandria, se reveste, por isso, de grande importância. Coligidos por Marco Haurélio, estes contos da tradição oral brasileira estão agora imortalizados em um livro que conta, também, com belíssimas ilustrações do artista plástico paraibano Severino Ramos.
A coletânea traz contos de animais, histórias de encantamento, religiosas e acumulativas. Há, ainda, notas esclarecedoras, assinadas pelo renomado pesquisador português, Paulo Correia, da Universidade do Algarve, mostrando o percurso das histórias, o número de versões existentes nos países de língua portuguesa e os similares de outros países.
Marco Haurélio, também, na abertura de cada seção, amparado em ampla pesquisa, num trabalho que dosa rigor e criatividade, aponta variantes das histórias colhidas por ele em outras coletâneas e até o reaproveitamento de muitas delas na literatura de cordel. Os leitores da obra dos Irmãos Grimm identificarão em Maria Borralheira a versão brasileira de Cinderela. E reconhecerão em O príncipe Teiú elementos da clássica história A bela e a fera e do conto mítico Eros e Psiquê, que integra O asno de ouro, escrito por Apuleio no século II d.C.
Segundo a professora Isabel Cardigos, referência mundial no estudo do conto popular, Contos e fábulas do Brasil, é “um livro fadado para ter a maior sorte: entre os adultos e entre aquelas crianças felizes a quem os adultos vão saber recontar estas histórias para que, com a ajuda da escrita, continue a correr a antiquíssima magia dos contos de tradição oral.”
Sobre o autor: Marco Haurélio, baiano de Riacho de Santana, é escritor, editor e pesquisador da cultura popular brasileira. No campo do folclore, além deste Contos e fábulas do Brasil, escreveu Contos folclóricos brasileiros (Paulus). Para a coleção Clássicos em Cordel, da Nova Alexandria, adaptou A megera domada, de William Shakespeare, e O Conde de Monte Cristo, este um dos vencedores do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel – edição 2010.

Contos e fábulas do Brasil — Marco Haurélio
Ilustrações de Severino Ramos
ISBN 978-85-7492-265-2
16X23 cm — 216 págs.
Preço: R$ 38,00
Mais informações:
Janaína Gomes
Juliana Messias
2215-6252
Blog do livro:

Blaise Cendrars a Féla Poznanska

Sê bem-vinda. Há muito que ando fugido
do mundo, de celas antigas, domésticas,
por isso sê bem-vinda ao lugar da fuga.
Dou-te a minha mão para que sintas
o nervo nómada, a desmesura de quem parte
em aventura, o tempo que se cumpre
em cada travessia. Dou-te o meu braço
direito porque é nele que o coração
transita, como um comboio que parte
e retorna para poder voltar a partir.

Sê bem-vinda à fome, à miséria,
à solidão que a todos chega e finalmente
pergunta: que fazes aqui? Respondo
à solidão que faço o meu tempo,
nenhum relógio poderá marcar a distância,
nenhum ponteiro indicará o caminho,
seguiremos por onde lutar for resposta,
seremos a espuma dos dias mais belos,
das horas mais livres. Tu e eu, de mãos
dadas, dançando o tempo com fervor,
sem nenhum ruído que nos impeça
a poesia, a música, a liberdade.

Repara: os homens sem escudos
precisam abrigar-se de si próprios,
tudo podem contra o mundo, nenhuma
estação lhes estacionará a fuga.
Talvez descubram um dia na berma
de uma estrada batida, entre o mato
da floresta, numa duna desértica, talvez
aí descubram a sombra que os proteja
do calor insuportável que sobre eles paira
logo à nascença. Trazem dentro uma erupção
contida que só a paciência da espera
poderá suportar. E tu foste essa paciência.

És a mais bela desordem que me aconteceu.
Sentado na estação a observar
famílias inteiras em trânsito, penso
naquele impulso que um dia me impeliu
para fora das quatro paredes de um
quarto frio. Saltei pela janela, corri
sem direcção, corri para onde me levasse
a direcção de apenas correr. O meu destino
eras tu. Tu, pedaço de terra onde ergui
a única morada que me serviu de abrigo.


"A Dança das Feridas" - Henrique Bento Fialho

Não basta olhar tem que enxergar

cena do filme Blow Up
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Em depoimento no documentário, Janela da Alma, o escritor português José Saramago revela-nos como a realidade pode ser uma coisa assustadoramente fabricada, artificial e enganosa aos olhos.  

Estava ele certo dia na ópera de Lisboa ocupando o lugar de sempre, que dava de frente ao palco.  Num outro, por acaso, teve que mudar, e foi sentar-se num dos camarotes contíguos ao palco e lá de cima, a visão que se tinha do palco era reveladora, e foi lá que se deu uma epifania. 

Durante a realização da apresentação outra coisa chamou a sua atenção, bem mais dos que a inebriante música que ocupava o ambiente e distraia os sentidos de todos, com pura beleza e encanto.  

É que do lugar que antes ele ocupava se via um palco que em tudo lembrava a riqueza e o luxo das melhores casas de ópera. A sala ricamente ornada com um largo e vistoso palco sobre o qual pendia uma coroa cheia de brilho e luxo lembrava aos espectadores que aquele lugar reinava a solenidade e o decoro. 

Porém, deslocado seu campo de visão dentro do mesmo ambiente, ele viu que por detrás do palco nobremente ornamentado, um emaranhado de fios, casas de aranhas, sujeira e restos de objetos esquecidos pelo tempo davam ao espaço outra dimensão, que somente a nova posição revelava. 

Dessa visão ele sacou a lição que ensina: para se ter um conhecimento mínimo sobre a realidade e para descondicionar o olhar sobre os objetos, evitando criar sobre eles expectativas fantasiosas, “há que se dar a volta”.    

Esplendida Alucinação. A perplexidade crítica diante da arte contemporânea


Quando os artistas Impressionistas foram hostilizados no salão de Artes de Paris, e depois se tornaram referência, a crítica de arte viveu os anos seguintes com as barbas de molho, receosa de ser comparada aos antiquados e reacionários críticos franceses, que não souberam, ou não quiseram, apreciar os quadros de Cézanne e seus companheiros. 

Amparados na covardia de muitos intelectuais, a arte contemporânea, principalmente depois de Marcel Duchamp e seus ready made, vêm se apoiando nesse temor para endossar suas experiências escatológicas, e fazer do ridículo, matéria prima para suas experiências estéticas e bizarrices. Já chegou a hora da crítica perder esse temor, e começar a reagir aos engodos que insistem em serem chamados de arte, não acham? 

Essa é a proposta do livro O Enigma Vazio: impasses da arte e da crítica do poeta e crítico mineiro Affonso Romano de Sant´anna. Nesse trabalho o crítico encara o desafio de avaliar a “arte” contemporânea de uma perspectiva questionadora de suas contribuições para renovação estética do gênero artístico, simplismente imperdível.

Lucian Freud

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É fato consumado que grande parte do que determina a qualidade de uma obra artística, está relacionado com um conjunto de valores arbitrário, que convencionado por um grupo, passa a ser visto como valoroso pelos demais. Dessa maneira valores como a beleza - relacionada a determinados atributos físicos, por exemplo - estabeleceu, por muito tempo, as qualidades exigida para fazer desse ou daquele quadro, uma obra admirável. 

Muitos artistas, no entanto, alteraram esse consenso e fizeram, a sua maneira, ver que, ao menos em arte, o que é belo e admirável é a capacidade de revelar coisas que a maioria tende a ignorar. 

O último desses grandes mestres foi o pintor alemão Lucian Freud que morreu ontem (20) aos 88 anos. Neto do psicanalista Sigmund Freud, Lucian se notabilizou pelos seus quadros que retravam personalidades, anônimos e a si mesmo, em toda sua fragilidade humana.

Creio haver uma alta dose de verdade em encarar a realidade dessa maneira, sem fantasia, sem subterfúgio, sem mascara.



INSENSATOS CORAÇÕES

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Como a arte literária abordou um dos sentimentos
mais primitivos do ser humano: a vingança
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TÉO JÚNIOR
Colaborador

O Brasil vem acompanhando, nesses últimos dias, na novela Insensato Coração (Globo) os desdobramentos da cruel vingança a que Norma (Gloria Pires) está submetendo o personagem de Gabriel Braga Nunes (Léo) e o ponto em que ela chegou. Assiste-se – não sem uma certa dose de prazer sádico – um dos grandes acertos de contas poucas vezes mostrado de maneira tão contundente numa obra de ficção televisiva. E existem, por incrível que pareça, muitas lições a tirar desse enredo fascinante. 

Léo é um vigarista e um crápula, sem dúvida – mas nessas três semanas vem penando nas mãos daquela a quem ele prejudicou tão profundamente. Léo, posto em cárcere privado, está tão desmoralizado, coitado, que é frequentemente hostilizado até pela empregada da casa, a cretina da Jandira (Cristina Galvão) e também por Ismael (Juliano Cazarré), o ajudante-de-ordem de Norma, cujo cérebro não deve ser maior do que um grão de mostarda. Está sendo sistematicamente humilhado por elementos que, em outra circunstância qualquer, ele certamente desprezaria. 

Léo vem sendo tratado de maneira tão boçal porque não lhe há saída. Submete-se aos caprichos daquela que um dia fora sua amante, porque, inteligente, sabe que a prisão seria ainda mais intolerável. Caso não aceite entrar no jogo dessas pessoas, irá para a cadeia, pois tem consciência clara de que é um criminoso. O objetivo de Norma é, portanto, este: rebaixá-lo ao nível do grotesco, encurralá-lo, fazer com que sua masculinidade e seu brio despenquem até a estaca zero. 

A capacidade de determinados indivíduos de abrirem mão de certos códigos elevados de conduta para firmarem-se como gente que sente dor e que se fere; esse desejo natural do ser humano que, uma vez prejudicado em sua dignidade e que recusa, sistematicamente, a ser títere nas mãos de supostos inimigos, chama-se justiça. 

O teatro, arte a que estou mais ligado, já nos deu provas cabais de que a vingança mais saborosa é a melhor arquitetada. Medeia (431 a.C), tragédia grega de Eurípides, é a mais lembrada, porém não é a única. Vejamos: 

Medeia gemendo – Estou vendo Medeia se debatendo no leito, gemendo, clamando pela morte dia e noite. Sua ama não sabe mais o que fazer. Já não diríamos que Medeia viva; ela vegeta, isso sim. Porque era conveniente para Jasão abandoná-la, pelas benesses, pelas vantagens que teria com um segundo casamento com Glauce, a princesa. Medeia, faceira, conseguira, malandramente, pelo simples fato de ser mulher, ludibriar o marido, a ponto de “se desculpar” com ele, pelo seu inconformismo inicial de esposa traída – para, nesta ocasião, presentear Glauce com um lindo diadema. Ao colocá-lo – maldita hora! – Glauce, infeliz, perecera carbonizada (para usarmos um termo mais leve), transformando-se numa tocha humana. Segundo a descrição que se faz da cena, Glauce ficara tão desfigurada que “o próprio pai teria dificuldade em reconhecê-la”. Não satisfeita, Medeia, furiosa, substituída, abandonada, depois de muito pensar, assassinou seus dois filhos pequenos com uma espada – unicamente com o intuito de ferir Jasão, o pai, à potência máxima. Esquecera-se de que Medeia, a “leoa”, segundo ele, conhecia todos os segredos da magia – dos quais ele mesmo necessitara um dia. 

Eurípedes quer nos dizer com essa obra-prima o seguinte: qualquer mulher, inclusive a mais tola, é capaz de dobrar um marido. Como é fácil enganar um homem. Meu Deus do Céu! 

Dizer que Medeia é uma peça que aborda apenas o fantasma da vingança é muito pouco. Assim pensando, reduzimos seu valor substancialmente. Trata-se, na realidade, de um libelo do qual se extrai o ônus que uma mulher, rebaixada em sua dor dilacerante, precisa pagar, para compensar - ainda que em proporções muito desiguais – uma ingratidão sem tamanho. 

- “Estou pagando” – Destaco outro texto muito interessante e de grande valor artístico do teatro moderno que trilhou, na essência, o mesmo caminho de Medeia. Chama-se A Visita da Velha Senhora (1955), de Friedrich Dürrenmatt, suíço. A montagem brasileira mais lembrada dessa peça recebeu a direção de Walmor Chagas, cuja protagonista fora ninguém menos que Cacilda Becker, lenda do nosso palco – onde contracenou com Sergio Cardoso. 

Eis o perfil de Claire Zahanassian, carinhosamente chamada de “Clarinha”: relapsa na infância, displicente, aluna medíocre, para quem tanto fazia subir como descer – engravidara de um namorado, um cidadão chamado Schill. Tudo bem. Este, para se livrar do fardo da paternidade (indesejável, claro), apresentou em juízo duas testemunhas em sua defesa, cujos depoimentos – confirmados posteriormente - eram falsos, alegando que ele não era o pai daquela criança. “Clarinha” teve de suportar a vergonha de, desamparada, só, amesquinhada, 17 anos de idade, arcar com as conseqüências daquela gravidez. Sumiu de sua terra, caiu na vida, literalmente, para, quase meio século depois, regressar ao vilarejo de Güllen deslumbrante – fútil, é bem verdade – mas riquíssima e famosa. Fala-se que ela é a “mulher mais rica do mundo”. “Clarinha”, aquela, chegou falando grosso e dando as cartas. Para se vingar do homem que lhe fizera sofrer tão profundamente, está disposta a dar à sua terra natal, miserável e decadente, uma fábula em dinheiro, em troca da cabeça dele, Schill, inocentemente, um dos mais animados pela sua volta. Não custa nada a ela, que já possui tudo - entregar ao povo parte dessa fortuna, com a condição de que matem aquele homem. “Pessoa decente é somente quem paga – e eu pago. (Com dinheiro), pode-se comprar tudo – até a justiça”, diz ela, taxativa. 

Nelson Rodrigues dizia que dinheiro compra até amor verdadeiro, o que dirá a justiça. 

“Clarinha”, agora no seu auge, troca de marido como quem troca de roupa; é de personalidade manipuladora. Certa de que sua fortuna fala mais alto, está tão segura de que Scilll morrerá, que fez questão de trazer consigo um caixão maravilhoso. Ele, já entrando em anos, com mulher e um casal de filhos, tem de morrer, custe o que custar. “Clarinha” está irredutível em seu desejo de resgatar sua dignidade. 

Em comum, Norma, Medeia e “Clarinha” tem isso: foram abatidas por indivíduos que se julgavam superiores a elas, mais espertos, porém, uma vez conscientes de que foram propositalmente prejudicadas por homens que um dia chegaram a amar de verdade, não hesitaram em usar todas as armas de que dispunham para igualar suas fraquezas e fazer valer seus conceitos. 


Téo Júnior, 26, foi professor universitário
e é pesquisador de teatro.
teo.cam@hotmail.com

O professor Ruy Medeiros comenta indicação de greve na Uesb

Greve na Uesb
*Por Ruy Medeiros


A Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia encontra-se em greve. Antecedidos pelo movimento de paralisação dos estudantes, os professores resolveram deflagrar greve. Todos agora estão fora das salas de aula.
A greve demorou de ocorrer. Embora indesejada por muitos, em razão dos embaraços que a sucedem, tornou-se inevitável. Quem está fora não percebe coisas graves que comprometem o presente e o futuro da educação e, com isso, as próprias gerações presente e futura.

As universidades baianas vêm sofrendo há muito tempo. Os ataques a sua autonomia são crescentes e o sufocamento de suas atividades sempre esteve na pauta dos últimos governos. E universidade mendiga é universidade sem autonomia. Não se deve esquecer que a lei que criou o CONSAD – Conselho Superior de Administração das Universidades impôs tutela à UESB, UEFS, UESC e UNEB. Houve luta pela sua revogação e gestores atuais foram seus críticos. Uma vez no governo, no entanto: “esqueçam o que eu disse e o que eu escrevi. Participemos da amnésia política”. É o oportunismo. É o cinismo. É a falta total de vergonha.

Agora o governo assesta outro golpe profundo nas universidades baianas. É a sangria. Ainda não é o decreto morte porque há estudantes, professores e funcionários cuja luta será compreendida e apoiada pela sociedade. O governo editou o Decreto nº 12.583/11, que não resiste a controle de legalidade: suprime gozo de direitos, proíbe contratações ou concurso de professores, proíbe saída de professores para pós-graduação, garroteia financeiramente cada universidade baiana.

Apesar de proibir contratação (que é feita por seleção) e concurso, o Estado da Bahia não se dispõe a devolver às universidades baianas os professores que cooptou para Secretarias, Cargos Comissionados, etc, alguns dos quais foram “bravos sindicalistas” que certamente acham muito prudente calar e ficar.

O Decreto 12.583/11, atentatório à autonomia universitária agrava a situação das universidades que se encontram sem professores suficientes, carentes de servidores, sem espaços construídos para suas necessidades, faltante de materiais. O arrocho salarial compõe o cenário e não é mero detalhe com o panorama de desvalor sob o qual a educação é tratada.

A greve não é um luxo. É a medida necessária para defender a Universidade. À medida que governos têm sucateado a Universidade Pública, a universidade privada cresce e o direito à educação passa a ser bem mercantil, um não direito nas mãos de grupos que cada vez mais se desnacionalizam.

*Ruy Medeiros é Professor do Curso de Direito da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e Advogado.

CITAÇÃO 7

Quem fez da modéstia uma virtude esperava que todos passassem a falar de si próprios como se fossem idiotas. O que é a modéstia senão uma humildade hipócrita, através da qual um homem pede perdão por ter as qualidades e os méritos que os outros não têm?


Arthur Schopenhauer


Lançamento

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Meu querido amigo Marco Haurélio lançará no próximo dia 9 de abril na Livraria Cortez em São Paulo o seu mais recente trabalho. Com uma produção considerável de livros Marco Haurélio, que transita com a mesmo desenvoltura entre a literatura, a crítica e aos estudos folclóricos, vem se inscrevendo, aos poucos, como uma das vozes mais respeitadas do universo fabuloso da Cultura Popular. Vale a pena conferir.

A cultura é sempre um peso que poucos estão dispostos a carregar

Resposta ao meu amigo Teo a respeito do caso Maria Bethânia
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Estou de acordo, meu caro amigo Teo, que o artista precisa receber o que merece. Por isso mais uma vez reafirmo minha posição em favor do projeto de Maria Bethânia e apoio a iniciativa que a meu ver pretende divulgar, incentivar e promover a literatura, num país em que nem todos têm acesso a esse bem.

Meu posicionamento contrário a maioria daqueles que criticam o projeto, decorre do fato de que nada é feito em prol da cultura desse país e pior, quando se estar em questão qualquer Projeto que viabilize uma mudança de curso nesse estado de inércia, e esse projeto envolva a literatura, a primeira preocupação - e muitas vezes única - não é estudar a proposta, sua importância cultural, muito menos sua relevância social. Daí minha discordância com aqueles que criticam esse projeto. Eles reduzem, creio, a discussão aos valores envolvidos na realização do blog. Não posso pensar de forma tão estreita.

A grande preocupação, como você pôde ver Teo, em muitos textos que criticam o projeto, resumi-se ao seu alto custo. O resto é o de menos. Tanto é assim, que ninguém teve a curiosidade, antes de tecer as mais grosseiras críticas, de ler projeto. Alguém ai o conhece, já leu, ou ao menos se preocupou em saber do que se trata de verdade?

Negar por negar é fácil, agora quem teve a curiosidade de se perguntar quanto custa a criação e manutenção de um site? Quais projetos estão envolvidos, além daqueles alardeados pela crítica? Qual a duração do projeto? Quantas pessoas estarão envolvidas na realização e produção do blog? Quanto de direitos autorais o projeto terá de pagar aos poetas, as editoras ou as famílias que detenham os direitos das inúmeras obras que serão usadas? Sim, porque diferentes do que possam imaginar muitos, os artistas precisam ser pagos pelos direitos de uso de seu trabalho. Essa última questão é de extrema relevância e mais uma vez vem a propósito a sua fala, “o artista precisa receber o que merece”. Nada mais justo então que receba!

Contestam-se os valores. Desprezam-se os meios para realização do projeto. Como se soluções para reverter o atraso cultural pudesse cair do céu ou fosse revolvidos com uma canetada como fez o governo Lula que diante do desafio de construir uma escola realmente eficiente para todos, e tentar assim resolver os problemas da desigualdade social, além da divida histórica com as comunidades negras desse país, acovardou-se e saiu pela tangente. Sem investir um único centavo na melhoria das escolas básicas o governo criou a ilusão de que tudo poderia ser resolvido com uma canetada. Assim nasceu as cotas que ignorando as carências básicas oriundas do sucateamento das escolas, obrigou as universidades a destinarem vagas àqueles que por razões mais do que apuradas por todos, não conseguiam, nas disputas caninas por uma vaga nas universidades, um lugar nas cadeiras universitárias. No entanto, o mesmo governo não poupou recursos na pretensão de comprar novos caças para substituir a velha frota do Exército Brasileiro.

Esse fato Teo dar a medida da importância que nosso governo atribui à educação. Por extensão, penso, que ele também ilustra muito bem como pensa a maioria de nossa gente, quanto está em jogo a melhoria da nossa cultura... ela é sempre cara.

Segundo pude apurar o projeto é de Hermano Vianna que convidou Maria Bethânia a se incorporar a ele pelo apelo que sua voz tem, junto ao público. No site de Bethânia ele justifica os custos da seguinte maneira: “Está no projeto: O áudio dos vídeos ficará disponível para ser baixado. O blog convidará músicos e DJs a produzirem conteúdo a partir desse material. Os melhores remixes (com vídeos e sons originais) serão publicados em seções específicas do blog. Videoartistas e animadores poderão ser convidados para transformar o poema do dia em base para novas obras. Uma ou duas vezes por mês, atores e outras pessoas poderão ser chamados para recitar alguns poemas. Também queremos criar novas ferramentas para as pessoas enviarem os vídeos umas para as outras, através de celulares. Cheguei a pesquisar a possibilidade de torpedos avisando para assinantes o momento da publicação de vídeos de seus poetas preferidos, mas mesmo só isso logo revelou custos proibitivos de transmissão de dados. Estamos ainda quebrando a cabeça para saber como resolver essas questões técnicas.” Por essas razões não me parecem serem injustificáveis os valores, até aqui usados como justificativas para desqualificar o projeto. Não podemos ignorar que um projeto como esse tem custos.

Não posso deixar de duvidar que um sentimento arraigado de desprezo pela literatura seja ai um componente a mais da rejeição do projeto. Inconscientemente, muitos ainda têm a literatura como um acessório dispensável. As razões dessas ideias? A sociologia ou a história da nossa formação explicariam melhores do que eu.



Teo e o caso Bethânia

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Meu querido amigo Teo, com sua habitual inquietação verbal, resolveu opinar sobre o caso Maria Bethânia e a polêmica em torno da criação do blog O MUNDO PRECISA DE POESIA. Sempre tivemos divergências e pontos de vistas distintos. Dessa vez não foi diferente. Fico contente que essas discordâncias, tão marcantes e creio irreversíveis entre nós, nunca abalaram nossa amizade, pelo contrário, fertilizaram nossa relação. Abaixo, reproduzo o texto que ele escreveu e pediu para ser publicado ao lado do meu. Em seguida, exponho, mais uma vez, minhas ideias...tentando contrariá-lo, claro.




MARICOTINHA QUER UM DINHEIRINHO



Teo Jr. - São Paulo
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Maria Bethânia Veloso, filha de Seu Zezinho e de Dona Canô, é uma das maiores cantoras de um país onde quase todo mundo canta. Dona de seu nariz, independente, traçou uma carreira vitoriosa que se iniciou em 1965, quando ela contava apenas 18 anos -- no momento em que ela fechou a cara, estufou o peito e interpretou "Carcará", de João do Vale. De lá para cá, muitas águas rolaram, muitos homens lhe amaram, surgiram em sua vida Teresinha, Maricotinha, Mãe Menininha e sua voz potente e poderosa denunciou muitas que seu coração ora sangrava, ora explodia.

Interpretou compositores de primeiro escalão, como Chico Buarque, Tom Jobim, Roberto Carlos, aventurou-se no "popular-popular" com Dominguinhos e Nando Cordel até descambar em Zezé di Camargo. Escapa à minha compreensão o que se passou na inteligência, na sensibilidade de Bethânia, ao gravar "É o Amor", música de quinta categoria. Para puxar o saco da cantora, disseram que em sua voz essa desgraça ganhara "vida", que ela dera uma interpretação "diferente" à música que se conhecia. Mentira. "É o Amor" é uma catástrofe cantada até por um anjo celeste. Bethânia é, sem dúvida, uma grande intérprete, mas ao que me consta ainda não está realizando milagres. Bethânia é uma cantora, não uma encantadora de serpentes. Ela acredita que o mundo precisa de poesia; mas para isso ela precisa de dinheiro. A cantora pede mais de 1 milhão de reais para viabilizar um projeto:um blog na internet onde declamaria poemas.

A ideia da cantora em difundir a literatura me parece excelente e louvável. Sabemos que a aranha vive do que tece e, ao prestar um serviço à cultura, ela precisa ser remunerada. O que me parece fora de sentido é a exorbitância que vai se pagar a ela por este trabalho. Falam em 1 milhão de lá vai cacetada e, em minha opinião, esse projeto não vale essa quantia toda. Rogério argumentou no blog que é perfeitamente saudável que a cantora receba essa quantia, e ele apoiaria da mesma forma se ao invés de 1 milhão (de reais) fossem 2 ou fossem 3. Ele lembra ainda que no Carnaval gasta-se muito mais e ninguém reclama.

Não, Rogério! Discordo. Se no Carnaval gasta-se uma fábula, é fato lastimável e merece nossa reprovação, apesar de ela ser uma festa democrática. Ivete Maria tocou esses dias no Mercado Modelo, para a comemoração do aniversário de Salvador (como se a cidade precisasse fazer aniversário para haver festa). Dois erros não geram um acerto. Maria Bethânia está de parabéns ao emprestar sua voz a este projeto, porém não acredito que seja necessária essa fortuna. Repito: a artista precisa receber o valor que merece um blog na internet -- e não o que ela quer.

O poder dos Livros


fonte click aqui

Obama, Venha Comigo a Cartago

Farley Granger (1925-2011)

Farley Granger à esquerda

Morreu no último domingo o ator americano Farley Granger. Astro de dois filmes de Alfred Hitchcock, Granger estrelou em 1948 ao lado de James Stewart o 47º filme de do mestre do suspense, Festim Diabólico. Três anos depois ele atuou em Pacto Sinistro.


Adeus a musa de todos os tempos - Elizabeth Taylor (1932-2011)

Elizabeth Taylor
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Morreu nesta quarta-feira (23) em Los Angeles a atriz britânica Elizabeth Taylor aos 79 anos. Seus lindos olhos azuis dominaram as telas do cinema durante várias décadas, arrebatando corações de uma legião de fãs que hoje, entristecidos, lamentam a sua morte prematura. Foram mais de 60 filmes, alguns desses se tornaram logo clássicos incontestáveis, como: Gata e Teto de Zinco Quente, Um Lugar ao Sol, De repente no Último Verão, A Megera Domanda, Quem tem Medo de Virginia Woolf, Butterfield 8; pelos dois últimos ela recebeu o Oscar de melhor atriz. 

O mundo precisa SIM de poesia


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A cantora Maria Bethânia foi notícia em toda rede esta semana. Tudo por conta da informação de que ela conseguiu autorização do Ministério da Cultura para captação de R$ 1,3 milhões para criar um blog intitulado “O Mundo Precisa de Poesia”. A iniciativa pretende postar diariamente um vídeo da cantora interpretando os grandes mestres da literatura. Imediatamente uma nuvem de poeira se ergueu, daqueles enfurecidos guardiãs do tesouro público protestando contra a ação da cantora.

Ao contrário destes acredito que 1,3 milhões é pouco, muito pouco mesmo para uma iniciativa que a meu ver é de utilidade publica. Toda e qualquer ação em favor do desenvolvimento da cultura, pelo menos daquela que seja digna de ser chamada assim, e são cada vez mais raras as ações nesse sentido, tem o meu apoio.

Maria Bethânia não receberá dinheiro diretamente do governo, mas via renúncia fiscal. Sei... calma lá esperem, essa é uma forma indireta de captar recursos públicos; não me creia mais tolo do que sou, explico meu ponto de vista.

Maria Bethânia quer dinheiro público para promover a poesia na sociedade, BRAVO! Sua ação provoca escândalo e revolta um grupo de intelectuais - nada mais brasileiro do que isso. Agora, ninguém se pergunta, nem questiona, até onde sei, os milhões de reais que saem dos caixas públicos para financiar os carnavais com músicas e atrações no mínimo duvidosas. Quantos milhões o governo da Bahia gasta com os trios elétricos para um número restrito de foliões festejarem, enquanto outros são espremidos pelas vergonhosas cordas, ironicamente seguradas por CORDEIROS. Quantos? Quanto o governo da Bahia renunciou para instalação da Ford por aqui?

Toda essa celeuma, acredito, vem do fato de que no Brasil dinheiro gasto com cultura, arte e poesia, é dinheiro desperdiçado, afinal poesia não serve para nada, não alimenta estômagos, nem abriga ninguém contra o frio ou as intempéries do tempo, não é mesmo? Esta é uma visão histórica que infelizmente ainda não conseguimos romper, por mais que sobrem esforços de alguns nessa frente.

Um país forte e respeitado é medido, dizia o escritor americano Henry Miller, pelo grau de importância que seu povo dar aos seus poetas. Em A Hora dos Assassinos, um ensaio sobre a obra de Arthur Rimbaud, Miller lembrou que o Egito foi grande enquanto respeitou, promoveu e incentivou os seus artistas, o mesmo ocorreu com a Grécia e a Itália. À medida que os artistas passaram a ser perseguido, estes países deixaram de ter a importância que tinham e declinaram, para nunca mais voltarem o serem o que um dia foram. Se ainda nos resta alguma memória desses povos, isso se deve - vocês hão de convir - aos seus artistas (escultores, pintores, arquitetos, e principalmente escritores) que pagaram, muitos deles, com a vida a ousadia de lembrarem aos homens a sua natureza menos nobre, as suas fraquezas, seus vícios e outras coisas imerecidas de um ser criado por um Deus todo poderoso.

Não me causa espécie está polêmica. Acho-a saudável. Não posso, porém endossar as opiniões de quem acredita que dinheiro gasto com poesia seja desperdiçável, mesmo que esse dinheiro seja no valor mencionado. Estou consciente das emergências do país, mas também acredito que parte delas poderia ser sim contornada com os esfoços de artistas, intelectuais, educadores bem intencionados. Quem já contribuiu tanto com nossa cultura, pode contribuir ainda mais.

Eita paraibana arretada

Rigoroso horizonte

A coragem de dizer BASTA!

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Em Desconstruir Duchamp, editado pela Vieira & Lent (2003), o poeta e crítico Affonso Romano de Sant´anna afirma que a arte do século XX desmoralizou o que entendíamos como arte. Em seu lugar - sim, porque por mais que ela se pretenda anárquica e completamente descompromissada, ela continua querendo alguma coisa - a arte contemporânea instituiu a fé como substituto da experiência estética. É preciso ser um crente para acreditar na arte contemporânea. Somente a fé impiedosa na palavra do artista, que sem nenhuma habilidade chafurda a tinta numa tela em branco e depois a expõe como arte, e na desistência completa de nossas capacidades críticas, para acreditar que os objetos grosseiros que muitas galerias, bienais, museus, casas de leilões, agentes publicitários e outros meios de comunicação nos empurra, são realmente fruto do engenho e arte que caracterizam o melhor da criatividade humana. Por isso ele pede uma revisão urgente nos valores que norteiam os sentidos da “arte” que dominam a nossa época. Infalível em suas análises críticas Affonso Romano de Sant´anna, como anuncia no título do livro, desconstrói o mito do artista moderno, criado por Marcel Duchamp (1887-1968), o dadaísta mitômano, que criou a ideia de arte conceitual - concepção que considera a ideia, o conceito por trás de uma obra artística como sendo superior ao próprio resultado final - para justificar todo tipo de escatologia. Radicalizando contra os embustes modernos Sant´anna alerta, no entanto, que nem tudo que se está produzindo hoje em dia seja de má qualidade, nem que ele seja contra a arte abstrata ou a arte contemporânea: “Não se entenda do que eu disse nos artigos anteriores que sou contra a pintura abstrata. Há pinturas abstratas excelentes. Não se entenda do que eu estou dizendo que sou contra instalações. Há algumas excelentes. Não se entenda, simploriamente, que sou contra a arte genericamente chamada de contemporânea. Não me creiam mais incompetente e tolo do que sou. Denuncio os embuste que estão misturados a coisas essenciais. Entenda-se isto sim, que estou radicalizando, correndo riscos e tirando os véus e vendas dos olhos. As vanguardas foram importantes, mas já viraram ‘estilo de época’. Há que passar a limpo o que foi feito, não para voltar à ‘academia’, ao ‘passado’, mas para sair dos desvios e dos equívocos.” Até que enfim um intelectual de calibre, com coragem de endossar o que a muito o senso comum já dizia.  


CITAÇÃO 6

"Duvido que a relação entre prosperidade econômica e excelência artística seja a de causa e efeito...A pressa por 'desenvolver-se', ademais, faz-me pensar em desenfreada carreira para chegar mais cedo do que os outros ao inferno"

Octavio Paz

Benedito Nunes (1929-2011)

fonte da foto: site da Cia das Letras
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Domingo passado foi um dia triste para as letras brasileira. Além de Moacyr Scliar, o paraense Benedito Nunes também faleceu ontem. Benedito Nunes tinha 81 anos, quase todos eles dedicados à docência. Seus ensaios críticos de autores como Clarice Lispector, Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto, produziram um dos mais lúcidos, precisos e inquietantes estudos sobre esses autores, tanto que se tornaram referências indispensáveis. Ao despedirem-se de forma tão apressada do público, Moacyr Scliar e Benedito Nunes, deixaram um vazio impreenchível na literatura e na crítica brasileira.


Adeus a Moacyr Scliar

Bienal do Livro 2008
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Quase não pude acreditar quando abri a internet e me deparei com a notícia do falecimento do escritor gaúcho Moacyr Scliar. Scliar tinha 73 anos, morreu na madrugada deste domingo (27) no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, de falência múltipla dos órgãos devido às consequências de um acidente vascular cerebral (AVC), ocorrido no último dia 16, informa-nos o G1.

Filho de migrantes russos Moacyr Jaime Scliar nasceu em Porto Alegre em 1937. Sua carreira literária seguiu paralela ao ofício da medicina por boa parte de sua vida, até que o médico despiu o jaleco para envergar, com maestria própria dos melhores literários, caneta e papel. Nessa jornada foram mais de 70 obras, indiscutíveis em suas qualidades estéticas e criativas, reconhecida e admirada no Brasil e em muitos outros países.

Em 2008 durante a Bienal do Livro de São Paulo tive o prazer de conhecer pessoalmente esse maravilhoso escritor. Na ocasião ele havia sido convidado para falar num stand, não de sua obra, mas sim de uma de suas grandes paixões, a obra de Machado de Assis. Moacyr Scliar não se fez de rogado, teceu rasgados elogios a Machado, contou divertidas anedotas sobre o universo literário e gozou da vaidade que se ocupa muitos de nossos escritores, arrancando gargalhadas do público presente. Ainda me lembro de uma, das muitas histórias que ele contou que revelam o homem, por trás do escritor. Dizia assim: “Estavam reunidos dois escritores. Um falastrão e vaidoso que nunca deixava o outro falar contando sempre de suas inúmeras aventuras no exterior, das palestras proferidas, dos livros traduzidos, das amizades e de sua mais recente obra. Percebendo o tédio, com que o seu amigo ouvia aquelas histórias, o falastrão pediu desculpas, por estar aborrecendo tanto o seu colega, e prometeu parar de falar de si mesmo e disse: Agora me diga; o que você acha da minha obra?”

A suspeita da seriedade de alguns homens serviu sempre a Moacyr Scliar de antídoto contra as vaidades que seduzem aqueles que vivem sob os holofotes da fama. Sentiremos a sua ausência.

Prêmio Príncipe Claus 2010

Ana Maria Machado (foto: AE)
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A escritora e Acadêmica Ana Maria Machado recebe o Prêmio Príncipe Claus

A Acadêmica e Secretária Geral da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, receberá, no dia 24 de fevereiro, quinta-feira, um dos mais prestigiados prêmios do mundo, o Prêmio Príncipe Claus 2010. O Embaixador dos Países Baixos, em solenidade no Consulado Holandês do Rio de Janeiro, fará a entrega da láurea à escritora.

Ana Maria Machado prestará homenagem ao choro brasileiro com a apresentação de um grupo de músicos da Escola Portátil de Música, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), e atende alunos de todas as origens, inclusive comunidades carentes. O grupo, tendo à frente Maurício Carrilho, apresentará obras de Pixinguinha e Tom Jobim.

A Acadêmica é a primeira ficcionista brasileira e ganhar o prêmio. O anúncio foi feito em cerimônia pública em Amsterdam, Holanda, dia 7 de setembro do ano passado.

Notícia colhida no site da ABL de hoje 23/2/2011

Política e Literatura

.Giuseppe Arcimboldo

A literatura, mesmo a mais aparentemente idiota, é tão descompromissada ou desinteressada quanto parece ou atende a interesses maiores, e por isso, se disfarça de menor abandonado para seduzir os mais incautos, enredando-o em um sutil e atraente discurso? A resposta a essa questão trás sem dúvida outras questões muito maiores do que a primeira.

Para tornar-se válida a literatura tem necessariamente que encouraçar uma causa, empunhar uma bandeira ou se solidarizar com os desafortunados do mundo? Alguém legítima alguma coisa investindo nessas boas intenções? Quanto dessas boas intenções também não guarda interesses escusos? A literatura é tão despretensiosa ao ponto de não estimular nenhum valor ou interrese de grupos? Essas e outras questões surgem sempre quando estão em debate o papel e os interesses da literatura na sociedade.

Chamo a atenção para essas questões a propósito de uma discussão que envolve política e literatura. No centro dessa discussão está o livro Lendo Lolita em Teerã da escritora iraniana Azar Nafisi, um livro que em 2010 dividiu as opiniões de críticos e especialistas, ao reposicionar a discussão do papel da literatura na sociedade moderna no centro dos debates político-literários.

Lendo Lolita em Teerã, editado no Brasil pela Record, nos conduz à intimidade de oito mulheres que desobedecendo às determinações culturais rígidas de seu país, que proíbe a leitura de obras Ocidentais, se reúnem secretamente para ler os clássicos Orgulho e Preconceito, Madame Bovary e claro o livro que dá título a obra, Lolita do escritor russo Vladmir Nabokov. O livro ao mesmo tempo em que exalta a liberdade e o amor à literatura, abrevia, segundo os críticos, a sociedade iraniana a clichês ocidentalizados. Ao reduzir a sociedade iraniana contemporânea a tintas tão desfavoráveis, alguns críticos, dizem que a autora abre caminha para o projeto neocolonialista implementado pelos EUA na região mais próspera em petróleo do mundo.

Azar Nafizi foi professora de Literatura na Universidade de Teerã antes de ser expulso por se recusar a usa o véu, tradicional símbolo de castidade feminina desde que a Revolução Islâmica liderado pelo aiatolá Khomeine tomou o poder no país persa. Morando nos Estados Unidos desde 1997, ela leciona na Universidade Johns Hopkins. Crítica da política dos aiatolás, Nafizi desde que foi expulsa de seu país, vem acompanhando de perto a política de Mahmoud Ahmadinejad. Em um artigo publicado no ano passado no jornal The Huffington Post, ela condenou o apedrejamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, sentenciada por suposto adultério, crime punido com a morte nos países islâmicos.

A despeito do tema da liberdade e do apreço à literatura, abordado em seu livro, Nafizi vem recebendo duras críticas por sua relação, pra lá de suspeita, com as esferas do poder em Washington com interesses nos recursos naturias abundantes no país dos aiatolás. A autora se defende das acusações dizendo estar mais interessada em literatura do que em política.

Esse caso ilustra o jogo de relações que envolvem a literatura numa rede em que forças excluem-se e se atraem mutuamente. Enquanto os críticos julgam a obra por seu suposto envolvimento na defesa de interesses neocolonialista. A autora rebate afirmando que o que faz é apenas literatura.

É sem dúvida, imprudente, impor aos escritores os temas e o tratamento que esses devam dar à sua obra. O leitor é quem deveria julgar a causa. Mas, o leitor está atento a esses fatos ou ignora completamente essa discussão? Mais dúvidas.

Sem uma resposta satisfatória à primeira vista, a causa toda parece se resumir ao desgastado clichê que afirma ser uma questão - engajar-se ou não - meramente de ponto de vista.

Tenho cá meus receios a ideia de que a literatura seja tão despretensiosa como querem alguns. O julgamento do quanto ela interfere na minha visão de mundo, seja para elevá-lo a uma consciência esclarecedora ou escamotear à razão, é que parece ser a verdadeira causa em questão. Não há dúvida de que em sendo um discurso, ela, influi, positiva ou negativamente na minha vida, mas até que ponto e em quais formas isso acontece é o que me inquieta.

Affonso Romano de Sant´anna - Poesia



Com a devida vênia do escritor Affonso Romano de Sant´anna publico logo abaixo o poema Apocalipse ou Gênesis Invertida. Esse poema, como explica o  poeta, fará parte do seu próximo livro de poesia, cujo titulo provável é: Exercícios de Finitude, ainda sem data de lançamento. O poema foi recolhi do blog do autor aqui. Desde já agradeço o escritor pela deferência.


APOCALIPSE OU GÊNESIS INVERTIDO(*)

Qualquer semelhança com o noticiário nos jornais e na televisão é mera coincidência



No sétimo dia

          (antes do fim)

as geleiras fendidas

          desabarão

focas, pinguins e ursos

deixarão suas ossadas

no deserto em formação

ilhas imprevistas emergirão

e o que agora é continente

será um conteúdo

na escuridão.



No sexto dia

          ( antes do fim)

desnorteados pássaros

não saberão

de onde vieram e para onde vão

subvertida a ordem dos mares e florestas

seres atônitos seguirão o rumo

do vento e da aflição.



No quinto dia

          (antes do fim)

choverá fogo no inverno

enlouquecidas as estações

as colheitas se perderão

devoradas por bactérias

germinadas

          -do próprio grão.



No quarto dia

          (antes do fim)

peixes envenenados boiarão

entre sargaços e destrocos

e os corais também mortos

não chorarão.



No terceiro dia

            (antes do fim)

no esqueleto das cidades

máquinas desoladas

bactérias desesperadas

do próprio nada comerão.


No segundo dia

          (antes do fim)

o homem e a mulher

cobertos de chaga e solidão

se deitarão no barro

e desaparecerão,


No primeiro ou último

dia antes do fim

          Deus

desolado

          se retirará

para outra galáxia

e contemplando as trevas

dissipando a criação

sentirá

um pesado vazio em suas mãos.

A sede que nunca acaba

Inquirido durante o Jornal da Cultura de hoje (15), sobre a possibilidade dos EUA interferirem ou influenciarem nos protestos que depois do Egito tomam agora as ruas do Teerã, o geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli, descartou categoricamente essa hipótese afirmando que “os Estados Unidos podem no máximo fazer comentários sobre o que acontece no Irã”.

Será mesmo? Só comentar? A história diz o contrário. A política americana desde a presidência de Andrew Jackson, sétimo presidente dos Estados Unidos, foi sempre marcada pelo intervencionismo e desrespeito a autodeterminação dos povos.

Com um discurso pretensiosamente mascarado pela difusão da liberdade entre os povos, os Estados Unidos desenvolveram a doutrina do “Destino Manifesto”, que expressa a crença de que eles seria o povo eleito por Deus para conduzir o mundo.

Tais ideia que inicialmente serviram para justificar a tomada do Texas e posteriormente a Califórnia, Novo México, Arizona, Uthar, parte do Colorado, Oklahoma, Nevada numa guerra contra os Mexicanos no final do século XIX, ampliou-se no inicio do século XX quando eles invadiram o Vietnã, fomentaram as revoltas no Panamá contra a Colômbia, tentaram uma intervenção em Cuba durante a revolução, alimentaram ditaduras no Brasil, Chile e Argentina, sustentaram regimes no mínimo suspeitos na África e no Oriente Médio e culminaram com a invasão no Afeganistão e Iraque.

Em nome da defesa da democracia, do respeito aos direitos humanos o governo de Washington, quer na verdade, garantir acesso aos riquíssimos recursos naturais abrigados em qualquer parte do mundo. E se puder fazer isso sem aparecer tanto melhor. Com esse retrospecto de desrespeito e autoritarismo me espanta a ingenuidade de Magnoli em crer que os EUA não farão nada, para derrubar seu maior obstáculo na consolidação de sua hegemonia na região mais prospera em petróleo do mundo, justamente agora que a oportunidade aparece.

Alguns minutos antes da fala de Demétrio Magnoli no Jornal de Cultura, assisti no Jornal Nacional uma matéria que justificava o questionamento da apresentadora Maria Cristina Poli ao geógrafo, e que é uma sensação de todos, menos do geógrafo. A matéria dizia que: “A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, anunciou a liberação de US$ 25 milhões para projetos que ajudem ativistas a driblar a censura na internet imposta por regimes autoritários. Esse tipo de censura foi usado, por exemplo, no início dos protestos contra Hosni Mubarak.”

Será que o Demétrio ainda acredita nas boas intenções dos EUA?

Até breve

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Uma palavra: OBRIGADO!