Ainda sobre a memória


“Em nossos livros de leitura havia a parábola de um velho que no momento da morte revela a seus filhos a existência de um tesouro enterrado em seus vinhedos. Os filhos cavam, mas não descobrem qualquer vestígio do tesouro. Com a chegada do outono, as vinhas produzem mais que qualquer outra na região. Só então compreenderam que o pai lhes havia transmitido uma certa experiência: a felicidade não está no ouro, mas no trabalho. Tais experiências nos foram transmitidas, de modo benevolente ou ameaçador, à medida que crescíamos: “Ele é muito jovem, em breve poderá compreender”. Ou: “Um dia ainda compreenderá”. Sabia-se exatamente o significado da experiência: ela sempre fora comunicada aos jovens. De forma concisa, com a autoridade da velhice, em provérbios; de forma prolixa, com a sua loquacidade, em histórias; muitas vezes como narrativas de países longínquos, diante da lareira, contadas a pais e netos. Que foi feito de tudo isso? Quem encontra ainda pessoas que saibam contar histórias como elas devem ser contadas? Que moribundos dizem hoje palavras tão duráveis que possam ser transmitidas como um anel, de geração em geração? Quem é ajudado, hoje, por um provérbio oportuno? Quem tentará, sequer, lidar com a juventude invocando sua experiência?”



Walter Benjamin – Experiência e Pobreza – 1933

Memória ameaçada

Vista aérea de Caetité
.
A cidade se modifica numa velocidade incrível. Em quase 10 anos morando em Caetité eu não pude deixar de perceber a furiosa transformação urbana dos últimos tempos. Por todos os lados, crescem arranha-céus. Novos bairros e centros comerciais assentam onde antes havia pequenas moradias familiares ou mesmo um descampado. Não bastasse somente alargar-se até onde as vistas não alcançam os imóveis mais bem situados também são alvo da cobiça e da especulação. De olho em espaços sempre novos a sanha imobiliária põe abaixo todos os inconvenientes e se sobrepõe a memória, a história e ao registro de tempos de antanho. Com espaços cada vez mais disputados e valorizados, os velhos casarões, relíquias de outras épocas, sofrem com a cobiça desenfreada por espaços privilegiados na cidade. Com a desculpa de que são dispendiosos e inúteis, economicamente, pouco a pouco eles têm vindo abaixo, seja pelo abandono dos proprietários ou pelo descaso das autoridades públicas que fazem vistas grossas ao desmonte do patrimônio. “Não adianta reclamar contra a transformação grosseira e desnecessária da fisionomia da cidade – da nossa cidade -, os poderes são surdos pensando que são sábios”, escreveu Carlos Drummond de Andrade a propósito das insistentes intervenções urbanísticas no Rio de Janeiro que desapareceram com incontáveis igrejas na década de 40. “Para que passasse a grandiosa Avenida Presidente Vargas, primeiro derrubaram a igreja da Imaculada Conceição e a de São Domingos... depois, pouco adiante, outras duas velhas igrejas desapareceram, vítimas dum vandalismo que poderia ser evitado: a de São Pedro Apóstolo, redondinha, com paredes largas de dois metros, argamassadas a óleo de baleia, e a do Bom Jesus do Calvário, duas vezes secular e que muito aparece nas Memórias de um sargento de milícias.” Não consta que Drummond fosse nenhum crente, mas isso nunca foi empecilho à sua sensibilidade. Nesses tempos de ares tão poluídos valeria a pena subordinar o avanço do cimento à preservação da memória? Alguns destemidos resistem aos constantes e insistentes assédios dos novos empreendimentos, sem abdicar das transformações impostas pelo tempo. “Venham as torres residenciais ou hoteleiras e que sejam belas e altas e coloridas, levantadas com os mais sensacionais e variados materiais que a indústria inventa no seu incansável evoluir. Mas que não lembrem, nem de longe, aquela outra tão citada, a de Babel – para que possamos, continuar a falar a mesma linguagem de entendimento e solidariedade que é o melhor alicerce para a edificação de uma vida comunitária ideal.”

A paleta de Juan Miró

O pintor catalão Juan Miró é classificado como Surrealista. Porém, em comparação com os seus pares, Salvador Dali, René Magritte e Marx Ernest, que nunca deixaram totalmente a arte figurativa, Miró parece marcar uma cissão. Cissão que, se não o distancia dessa corrente vanguardista de todo, distingue suas obras dos demais. Ele radicalizou sua paleta ao construir um universo de seres disformes, retorcidos no tempo e no espaço que destoam da tradição de seus antecessores. 

Os traços inquietantes que molduram os quadros de Juan Miró (1893-1983) estão quase sempre associados aos desenhos infantis, aos sonhos ou mesmo as fantasias mirabolantes de uma mente caprichosa, capaz de fabular mundos cujos limites são indeterminados. Miró é um provocador. Seu pincel produziu em mais de 50 anos de atividade, um universo incomum e extraordinariamente original, inteiramente refratário a lógica convencional das classificações e das definições enclausurantes. As intrincadas formas que dominam o espaço infinito da pintura de Miró se divertem indiferentes aos olhares dos que tentam organizar a pintura, na busca de uma razão de sua existência. 

Diante de quadros tão enigmáticos como, Pintura,  Hombre y mujer ante un montón de excrementos, El Galo ou El carnaval del Alerquín, só para ficar com alguns exemplos, o espectador fica tentado ao exercício de classificação. No entanto, estou convencido de que sua obra dispensa essa operação catalográfica, na medida em que toda e qualquer classificação, atribuída a ele, ao invés de esclarecer os sentidos de sua arte, produz na verdade, um reducionismo patético, que em nada dignifica o trabalho daquele que desde sempre se tornou inclassificável. 

El carnaval de Arlequín - 1924-1925 (aqui)

Miró é o artista por excelência. Seu gênio que não aceita classificação, também renega os princípios da composição consagrada pela tradição Renascentista, que por muitos séculos dominou a arte no Ocidente.  Ao lado de Pablo Picasso, Braque, Marx Ernest e outros, ele aboliu a perspectiva, a proporção e fundou uma linguagem própria, facilmente identificável com suas convicções artísticas, que tinha como única proposição, a livre expressão. Não se confunda aqui livre expressão, com aquela noção dominante nas artes contemporâneas, que abusa do sentido da liberdade conquistada pelo artista moderno, somente para, disfarçar sua canastrice e falta de sensibilidade diante do fenômeno artístico. 

l´or de l´atzur -1967 (aqui)

 
João Cabral de Melo Neto que foi seu amigo e escreveu sobre ele um ensaio, intitulado Juan Miró, num dos períodos mais duros da ditadura de Franco, disse dele: “A obra de Miró é, essencialmente, uma luta para devolver ao pintor uma liberdade de composição há muito tempo perdida. Não uma liberdade absoluta, nem uma angélica liberação de qualquer imposição da realidade ou da necessidade de um sistema para abordar a realidade. É sim, uma luta por libertar o pintor de um sistema determinado, de uma arquitetura que limita os movimentos da pintura.”[1]. Parece ser justamente contra os limites como concluir João Cabral - da composição e por extensão das intenções - que se revoltou o pincel de Juan Miró. 

Autoretrato (Aqui)

Nele, tempo, forma e espaço foram inteiramente distorcidos criando com isso, um universo particular, habitado por seres que compartilham, com os traços primitivos, semelhança inconteste. Miró é todo intuição. Seu trabalho artístico funde imagens insólitas numa articulação que ressalta uma identidade nova aos elementos díspares, que compõem o quadro. Daí sua associação com a atmosfera onírica própria dos Surrealistas. Porém, Miró vai mais longe. O alegre colorido que emana de algumas de suas telas, revelam um mundo em que as limitações das formas, a plasticidade dos objetos, pertencem a um universo extra-artístico, portanto, estranho a pintura desse catalão, que deu ao imponderável a sensibilidade mais comovente.


[1] O ensaio encontra-se publicado nas Obras Completas de João Cabral de Melo Neto, editado pela Nova Aguilar, 1994. p. 719.

A poesia de Affonso Romano de Sant´anna

Imagem tirada daqui
.
O teórico, jornalista, crítico, cronista, poeta e professor Affonso Romano de Sant´anna resolveu a muito tempo encarar o seu oficio (ou melhor, ofícios) de forma insolente. Ele prefere a vida com riscos. E se tornou um risco, e todos nós sabemos bem disso, recusar a indiferença como modo de vida. À cordialidade do senso comum ele interpôs a autonomia de um espírito crítico e fecundo. Sua crença, fundado na ideia de que a cultura liberta o homem da ignorância, tem raízes em autores como Paul Valery, que como Romano de Sant´anna acredita que “o leão é a soma dos cordeiros assimilados”.  Em seu mais novo livro de poesia, Sísifo desce a montanha, lançado essa semana na Livraria Cultura em São Paulo, pincei um dos poemas que refletem o caráter desse homem-poeta.


"ERGUER A CABEÇA ACIMA DO REBANHO"


Erguer a cabeça acima do rebanho

é um risco

que alguns insolentes correm.



Mais fácil e costumeiro

seria olhar para as gramíneas

como a habitudinária manada.



Mas alguns erguem a cabeça

olham em torno

e percebem de onde vem o lobo.



O rebanho depende de um olhar

O amor aportou nessa casa

Recado íntimo


Ele é um prisioneiro de si mesmo. Somente pode soltar seu belo canto de cadeia...somente ele pode liberar-se de si mesmo e perder-se num presente eterno, sem tempo. Mas fale para ele não relaxar e lembrar sempre da água de Heráclito, ora num leito calmo, ora descendo uma cascata, ora evaporando-se num espaço infinito... AME O PRESENTE, GRITE AO MUNDO, em silencio! Un abbraccio.

Roberto Bolaño e a nova literatura latino-americana

.

Na década de sessenta a literatura latino-americana, em todos os seus quadrantes, viveu um período de grande produção literária e súbito reconhecimento internacional, tanto da crítica especialização como do público. 

Foram importantes para esse reconhecimento nomes com do argentino Julio Cortázar, do colombiano Gabriel Garcia Marques, esse último ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1989; os mexicanos Carlos Fuentes, Juan Rulfo e Octávio Paz também premiado como o Nobel, além do peruano Mario Vargas Llosa - Nobel de 2011 - e de alguns outros. 

Também nessa mesma década, figuras da envergadura do argentino Jorge Luis Borges e do cubano Alejo Carpentier, gênios do realismo fantástico e do realismo mágico, respectivamente, voltam a serem alvos do interesse público e completam e cenário de mestres que emolduraram para sempre, um quadro da literatura latina, que nunca mais saiu de exposição. 

Foi durante esse período ainda que a América Latina tornou-se pela primeira vez em sua história uma exportadora de produtos culturais, em uma inversão radical dos pólos de produção artística que dominava o mundo. O ponto alto dessa reviravolta culminou com a outorga do Prêmio Nobel de Literatura ao guatemalteco Miguel Angel Astúrias em 1967. 

Grosso modo, o que caracterizava a literatura desses autores, escusadas as muitas discussões sobre o assunto, quase nunca resolvido, são: o gosto pela experimentação formal, e um apurado senso crítico de suas origens históricas. Para isso, eles revisaram técnicas provenientes do Surrealismo e da literatura estadunidense do século XX, especialmente a do escritor William Faulkner. Influências que desaguaram no chamado realismo mágico e na literatura fantástica. 

Tão súbito quanto o surgimento daqueles notáveis escritores para literatura latino-americana, foi o desaparecimento precoce, nos anos seguintes, do interesse do público pelos novos autores que sucederam aqueles precursores. 



Todavia, esse hiato de paixões, entre público e autor, que durou uns bons anos, parece ter sido inteiramente interrompido com o surgimento no apagar das luzes do século XX, do escritor chileno Roberto Bolaño. 

Abdicando do projeto revisionista da história latina, Bolaño parte em suas obras (formada basicamente por poemas, contos e romances) pelas trilhas abertas pelo argentino Jorge Luis Borges, para quem a literatura, se confundia com um labirinto, cheia de possibilidades formais e temáticas. Seu universo é povoado por escritores, viajantes e aventureiros urbanos, sempre em busca de alguma coisa. Nessa viagem ele nos leva rumo a histórias em que putas assassinas, detetives selvagens e nazis, além de escritores, professores, baderneiros e outros, se confundem a turba simiesca que povoa a fauna; que alguns insistem em chamarem de vida contemporânea.

Bolaño foi autor de uma obra consagrada dentro e fora do mundo latino. Sozinho ele resgatou o interesse do público pelos novos talentos latino-americanos, revigorando assim uma tradição que ainda tem muita tinta para gastar. Infelizmente ele não poderá mais gastar essas tintas. Sua obra teve um ponto final em 2003 quando ele foi vencido pela pancreatite.

1000 frames de Hitchcock


























Um ambicioso projeto disponível (aqui) distribui ao público interessado 1000 frames de 52 filmes (originais e refilmagens) do mestre do suspense Alfred Hitchcock. É possível acompanhar quadro a quadro as melhores cenas desse vibrante cineasta, que transformou as salas de cinema num palco onde desfilavam um universo de sensações. Escolhi, para ilustrar esse post, a famosa perseguição sofrida pelo personagem de Cary Grant no filme Intriga Internacional, 1959. Estão faltando alguns frames que intensificariam o pânico do personagem, como aquele em que o avião bafeja bem pertinho do cangote do personagem enquanto ele se esquiva pelo milharal. Mesmo assim vale a pena bisbilhotar o site. Outra informação digna de nota é que essa cena foi reproduzida pelo diretor Anthony Minghella  no filme O Paciente Inglês, 1996.

Vamos tirar a ferrugem da cultura

.

Enquanto a maioria dos intelectuais (essa ficção) esquiva-se do desafio de pensar a cultura numa perspectiva que não seja puramente relativista, o poeta popular, de ontem, hoje e sempre, marcha na direção contrária. Com irreverência incomum ele desmantela as estruturas que sustêm a baixaria, e funda, numa visão crítica - falecida a muito nas consciências - uma imagem poética do mundo contemporâneo. Que frescor; que alegria, não produz esses fabulosos artistas nos nossos corações. Das sombras eles anunciam que há vida inteligente e que nem tudo está perdido.

As lições de Suassuna

.

(...)

e sem escuitar mais acordo,

cravou as espora d´oiro

nos ilhais do belo cavalo branco

de D. Jorge de  Albuquerque

e atirou-se novamente à refrega,

perdendo-se no mar de lanças.



Antero de Figueiredo

As mariposas e os holofotes

.

A imagem que ilustra este post é do personagem Terry Malloy, interpretado pelo ator Marlon Brando no filme Sindicado de Ladrões. Realizado em 1954 ele foi dirigido por Elia Kazan. Por essa interpretação Marlon Brando ganhou o seu primeiro Oscar de melhor ator. Em 1972, quase vinte anos depois, ele foi indicado, e ganhou mais uma vez, também como melhor ator, dessa vez pelo papel de Don Corleone no filme, O Poderoso Chefão, do diretor Francis Ford Coppola. 

Na cerimônia de entrega do prêmio, Marlon Brando protagonizou uma cena digna da sétima arte. Ele fez o que na época, e ainda hoje, pode ser considerado por muitos como uma heresia; recusou a honraria da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood e não compareceu para receber o prêmio. Quando seu nome foi anunciado, surgiu no meio da platéia, entre os olhares atônitos de Roger Moore e Liv Ullmann, atores escalados para recepcionar o homenageado, uma representante do ator, sua amiga Sacheen Little Feather, que, entre as vaias e os aplausos dos presentes, improvisou um discurso em defesa dos índios americanos. 


Mais tarde Marlon Brando disse que sua intenção, ao declinar do prêmio, era constranger, “uma indústria que tinha sistematicamente deturpado e denegrido a imagem dos índios durante seis décadas”. Cansado das frivolidades de Hollywood enquanto o mundo ardia em chamas na guerra do Vietnam, e os nativos americanos eram caçados como nos tempos do velho West, Brando relutava em aceitar a ideia de que um terço da humanidade estivesse parado assistindo aquela celebração fútil, enquanto tudo isso estava acontecendo sem o menor constrangimento de ninguém. Ele não poderia ter escolhido melhor vitrine para chamar a atenção do mundo sobre essas causas. A audiência da cerimônia do Oscar, na época, foi estimada em mais de 1 bilhão de pessoas. Hoje ultrapassa os três bi. 

Em sua autobiografia ele escreveu que considerava já algum tempo desadequado premiar artistas pelo seu trabalho. Os Oscar da Academia e o alvoroço que se cria à sua volta elevam segundo Brando, o trabalho do ator a um nível imerecido. “Com a quantidade de problemas graves existentes no mundo, torna-se absurdo que um fato tão inconsequente assuma tais proporções... Conheço pessoas que com seis meses de antecedência começam a pensar como irão vestidas à cerimônia e se tiverem alguma hipótese de serem nomeadas começam a memorizar o discurso de aceitação. E, se ganham, fingem então que as suas palavras são espontâneas, mas a verdade é que foram ensaiadas desde há muitos meses”. 

Definitivamente Marlon Brando não era uma pessoa razoável, hesitante ou comedida com as palavras, como exigem a carneirada. A severidade com a qual ele encarou o seu tempo diz muito desse homem que não tolerava facilmente os holofotes, que alguns insistem em manterem sempre apontados pra si. Ao rejeita o prêmio que muitos cobiçam Brando investia contra as farsas que encobrem o mundo das celebridades e também contra uma sociedade que tem como único desejo na vida sair do anonimato direto para o estrelado.  

A cerimônia do Oscar tem origem, escreveu Marlon Brando, na obsessão de Hollywood em autopromover-se; as pessoas do meio sentem uma verdadeira paixão em prestar tributo uns aos outros... isso tranqüiliza-os acerca do seu valor, especialmente depois de terem crescido no seio de uma cultura onde impera a culpa e uma forte pressão pra cada um se evidenciar. Creio que Marlon Brando foi o último de uma casta de grandes atores que não fazia arte esperando apenas os aplausos públicos.

J, Accuse...!

Riquezas pelo caminho




Fotos: Regina
.
Enquanto navegam, aqui e acolá, os tripulantes dessa nau encontram uns tesouros que enriquecem a jornada, e em momentos tempestivos, afastam as incertezas desse vasto mundo. Dessa vez, foram uns regalos preciosos, que muito acalentarão a cobiça dos exaustos marinheiros, enquanto aguardam a próxima jornada em busca de mais riquezas, que os conforte e tanjam os riscos da pobreza e outros demônios que assaltam incessantemente esses tempos.

Carros, Governo, Impostos e outras mutretas que fazem desse país uma vergonha


.
Aprendi que o princípio básico do capitalismo de mercado é a não interferência do Estado nas ações da economia. O agente regulador do mercado nas disputas, segundo a óptica liberal, deve ser, do próprio mercado. Ao estado compete, segundo Milton Friedman, ideólogo do Neoliberalismo, uma atuação limitada: “Sua principal função (a do Estado) deve ser a de proteger nossa liberdade contra os inimigos externos e contra nossos próprios compatriotas; preservar a lei e a ordem; reforçar os tratos privados” noutro trecho do seu famoso livro Capitalismo e Liberdade, Friedman atribui outra função ao Estado: “promover mercados competitivos” estimulando a concorrência e a livre iniciativa. Como vemos, a participação do Estado na vida econômica, segundo o modelo Liberal, limita-se a umas poucas ações, nenhuma delas ligadas a regulação, fiscalização ou manutenção da economia. Qualquer outro papel do Estado causaria o que os “imperdenidos homens de ideias” chamariam de desordem econômica. 

Na teoria a prática é outra. As recentes medidas que o governo brasileiro adotou para, supostamente, proteger o mercado nacional contra a especulação internacional, taxando em até 30% os produtos importados, beneficiaram diretamente as montadoras de automóveis que fabricam no país e penalizaram as empresas que importam os carros. Em nota, o ministro da economia se apressou em negar que, o reajuste tenha sido feito para impedir o crescimento das novas marcas, como desejam as montadoras nacionais. Difícil acreditar nessa história. O que está por trás disso tudo são interesses econômicos e não a defesa do trabalhador brasileiro como querem nos fazer acreditar o governo e as empresas. 

As intervenções rechaçadas pelo Neoliberalismo são sempre bem vindas para salvar empresas ameaçadas pelo livre comércio. Era agora que as ideias de Estado mínimo preconizadas pelos ideólogos; economia competitiva, livre comércio, concorrência, deveriam vir à tona. Porém, o que vemos? Mais uma vez o Estado intervindo a favor das empresas com a desculpa esfarrapada de estar, assim,“protegendo” o Brasil e o comércio nacional... balela. 

Com a entrada da concorrência chinesa no mercado de automóveis, as montadoras, que há anos monopolizam o setor, viram o mais promissor mercado consumidor de automóveis do mundo, mais uma vez ser alvo de outras raposas, e saíram logo à procura do Estado para refazer o jogo e começar tudo de novo, dessa vez com novas regras. A livre concorrência responsável, segundo os pensadores do Liberalismo, por equilibrar os preços e permitir ao consumidor uma opção viável, está sendo solenemente ignorada, sob a desculpa da ameaça do desemprego. 

Segundo matéria do jornalista Joel Leite (aqui), o carro fabricado no Brasil por essas montadoras que o governo mima, é o mais caro do mundo. Os produtos são os mesmos, mas os preços praticados não. Vejam esses exemplos: O Corolla fabricado em três países, possuem diferenças de preços consideráveis. No Brasil o carro custa, segundo informações do jornalista, US$ 37.636,00, na Argentina US$ 21.658,00 e nos EUA US$ 15.450,00. Outro exemplo de causar revolta: o Jetta é vendido no México por R$ 32,5 mil. No Brasil esse carro custa R$ 65,7 mil. Joel aponta ainda outros exemplos. O Gol I-Motion com airbags e ABS fabricado no Brasil é vendido no Chile por R$ 29 mil. Aqui, custa R$ 46 mil. 

Se o Estado realmente estivesse preocupado com o brasileiro, em vez de penalizar a concorrência, desestimulando como está fazendo, deveria cobrar das montadoras nacionais preços justos e competitivos, que pudessem fazer frente aos produtos chineses e não interferir na competição pelo mercado que empurraria os preços para baixo. Ao acionar essas medidas o governo salva, não os empregos e a indústria nacional, mas o lucro exorbitante das montadoras que não se acanham em venderem o mesmo produto em países diferentes com margem de lucro inexplicável.  

Esse governo tem vários méritos, nenhum deles, porém, está associado às ações econômicas.

Um blog incasto

.

Adoro os blogueiros portugueses. Sempre que descubro um novo, saúdo com alegria essa descoberta. Prefiro os lusos aos nacionais. Não me falta ocasião para lê-los.  O porquê dessa predileção, eu  não sei, as razões ainda me escapam. Talvez, julgo eu, sem ter certeza, seja o português castiço, que a maneira própria dos irmãos além-mar me desperte, ocultamente, uma melancolia da língua de Camões. Ou ainda, a maneira incasta, com a qual eles empregam essa mesma língua, contra as manadas a caminho do matadouro.

Visitar blog aqui (aviso, esse blog é devastador)

Esse blog hoje acordou assim...

Os artistas e as touradas


O que há em comum entre Goya, Picasso, Hemingway e João Cabral? À primeira vista nada.  Porém, um detalhe chama a atenção na vida e na obra de cada um desses homens. Ambos pintaram ou escreveram, em algum momento, sobre as touradas e os toureiros. As cenas de virilidade e coragem que vinham das arenas despertaram grande fascínio entre estes mestres, e de alguma forma definiram seus temas artísticos.



Seduzido pelas disputas entre homens e animais dizem que Goya, chegou a tourear na juventude, fato que talvez explique o encanto desse pintor por esse espetáculo ao qual dedicou uma série de gravuras e pinturas que sugerem, com grande comedimento de recursos, as tensões ocorridas nas Plaza de Toros



Picasso, assim como Goya, foi outro reconhecido amante da tauromaquia.  Seus feitos artísticos revelam a paixão por esse esporte tão violento, e ao mesmo tempo, tão fascinante. Como Goya, ele dedicou muitos de seus trabalhos ao registro de homens que com destemor incomum enfrentaram seus medos nas arenas de touros munidos apenas de capa e lança.  




Símbolo da cultura Ibérica, as touradas também inspiraram paixões nos ilustres estrangeiros que viveram na Espanha. Ernest Hemingway que viveu por lá por muitos anos, enquanto cobria a guerra civil, acabou se enamorando pelas touradas. Em alguns de seus livros como, Por quem os sinos dobram e O Sol também se levanta, ele se rendeu aos duelos sangrentos e bestiais do embate entre homens e animais. Mas foi em O Verão Perigoso obra não ficcional, que narra uma viagem do autor pela Europa na companhia de dois grandes toureiros: Antônio Ordoñez e Luis Miguel Dominguín, que vamos encontrar um Hemingway apaixonado pelos duelos das arenas.




João Cabral de Melo Neto foi outro destacado admirador das disputas taurinas. Vários de seus poemas enaltecem a figura dos valentes toureiros, como Manolete “o de nervo de madeira”. 

Espetáculo controverso, as touradas inspiram hoje duelos em outras arenas. Despida de sua mística poética, que a via como metáfora da existência humana na luta renhida contra os maiores obstáculos ou como queria João Cabral como, “a vitória da inteligência contra a força bruta”;  a alegoria taurina, se dissolveu sob o discurso de que a luta contra os touros não passa de um exercício de crueldade, em que uma massa irracional volta todo o seu ódio contra as bestas ferozes de chifres ameaçadores, pelo simples capricho de infringir ao outro dor e sofrimento atroz. 



Dentro e fora da Espanha as touradas são alvo dos ativistas dos animais. Talvez por isso, hoje em dia elas sejam vistas com reservas pela comunidade artística. A exceção talvez seja o peruano Mario Vargas Llosa, atual ganhador do Nobel de Literatura, que ao contrário de seus pares literários da atualidade, ainda continua a ver nas touradas um espetáculo poético com raízes nas profundas tradições da cultura ibérica. 



 No livro, A vida dos Animais, o escritor sul-africano J.M.Coetzee, também nobelizado,   ver nas touradas, exaltadas pelos artistas:  um indício [de uma estirpe de poetas que celebram o primitivo]. Mate-se a besta, sem dúvida, dizem eles, mas transforme-se isso num concurso, num ritual e honre-se o adversário pela sua força e bravura. Coma-se, também, após se ter vencido, por forma a que a sua força e coragem entrem em quem a dominou. Olhe-se nos olhos antes de a matar, e agradeça-se-lhe depois. Cante-se sobre ela. Pode chamar-se a isto primitivismo. É uma atitude fácil de criticar, de ridicularizar. É profundamente masculina, machista. Deve desconfiar-se das suas ramificações políticas. Mas, no fim de contas, há nisto algo atraente do ponto de vista ético”.  

O tema é polêmico e muito difícil. O que vocês acham... dêem sua opinião, são a favor ou contra as touradas.  

A celebração da estupidez

.

Um amigo insistiu comigo que o melhor do entretenimento na tevê brasileira é aquele programa transmitido pela rede Globo, onde pessoas voluntariamente se deixam enjaular numa mansão de luxo, só para provarem o quanto são diferentes dos animais, sem conseguir fazer isso. 

A tevê brasileira não é lá grande coisa. A maioria dos programas, principalmente aqueles veiculados pelas emissoras líderes de audiência, são constrangedores. Eles subestimam a capacidade dos telespectadores, violentam a infância, estimulam o consumismo, incitam e promovem a discórdia e ainda possam de bom-mocismo, para se autopromoverem e promoverem as marcas que financiam a baixaria que diariamente deseducam o brasileiro. Agora nem tudo está perdido. 

Se meu amigo exercitasse o seu controle remoto com alguma freqüência, veria que, além daqueles velhos canais que vivem da castração das consciências, há vida inteligente na tevê, por mais surpreendente e espantoso que isso possa parecer. Um click e meu amigo reconheceriam que o “melhor do entretenimento da tevê brasileira” vive do torpor de sua consciência. 

A ausência de espírito crítico, desestimulada em todos os níveis da sociedade, ilude o olhar, simplifica e reduz a zero a possibilidade de enxergar além das velhas e desgastadas realidades televisivas. Triste nação, a que se pauta pela televisão.