O que há em comum entre Goya, Picasso, Hemingway e
João Cabral? À primeira vista nada.
Porém, um detalhe chama a atenção na vida e na obra de cada um desses homens.
Ambos pintaram ou escreveram, em algum momento, sobre as touradas e os
toureiros. As cenas de virilidade e coragem que vinham das arenas despertaram
grande fascínio entre estes mestres, e de alguma forma definiram seus temas artísticos.
Seduzido pelas disputas entre homens e animais dizem
que Goya, chegou a tourear na juventude, fato que talvez explique o encanto
desse pintor por esse espetáculo ao qual dedicou uma série de gravuras e
pinturas que sugerem, com grande comedimento de recursos, as tensões ocorridas
nas Plaza de Toros.
Picasso, assim como Goya, foi outro reconhecido
amante da tauromaquia. Seus feitos
artísticos revelam a paixão por esse esporte tão violento, e ao mesmo tempo,
tão fascinante. Como Goya, ele dedicou muitos de seus trabalhos ao registro de
homens que com destemor incomum enfrentaram seus medos nas arenas de touros
munidos apenas de capa e lança.
Símbolo da cultura Ibérica, as touradas também
inspiraram paixões nos ilustres estrangeiros que viveram na Espanha. Ernest
Hemingway que viveu por lá por muitos anos, enquanto cobria a guerra civil,
acabou se enamorando pelas touradas. Em alguns de seus livros como, Por
quem os sinos dobram e O Sol também se levanta, ele se
rendeu aos duelos sangrentos e bestiais do embate entre homens e animais. Mas
foi em O Verão Perigoso obra não ficcional, que narra uma viagem do autor pela
Europa na companhia de dois grandes toureiros: Antônio Ordoñez e Luis Miguel
Dominguín, que vamos encontrar um Hemingway apaixonado pelos duelos das arenas.
João Cabral de Melo Neto foi outro destacado
admirador das disputas taurinas. Vários de seus poemas enaltecem a figura dos
valentes toureiros, como Manolete “o de nervo de madeira”.
Espetáculo controverso, as touradas inspiram hoje duelos
em outras arenas. Despida de sua mística poética, que a via como metáfora da
existência humana na luta renhida contra os maiores obstáculos ou como queria
João Cabral como, “a vitória da inteligência contra a força bruta”; a alegoria taurina, se dissolveu sob o
discurso de que a luta contra os touros não passa de um exercício de crueldade,
em que uma massa irracional volta todo o seu ódio contra as bestas ferozes de
chifres ameaçadores, pelo simples capricho de infringir ao outro dor e
sofrimento atroz.
Dentro e fora da Espanha as touradas são alvo dos ativistas
dos animais. Talvez por isso, hoje em dia elas sejam vistas com reservas
pela comunidade artística. A exceção talvez seja o peruano Mario Vargas Llosa,
atual ganhador do Nobel de Literatura, que ao contrário de seus pares
literários da atualidade, ainda continua a ver nas touradas um espetáculo poético
com raízes nas profundas tradições da cultura ibérica.
No livro, A
vida dos Animais, o escritor sul-africano J.M.Coetzee, também nobelizado, ver nas
touradas, exaltadas pelos artistas: um indício [de uma estirpe de poetas que
celebram o primitivo]. Mate-se a besta, sem dúvida, dizem eles, mas
transforme-se isso num concurso, num ritual e honre-se o adversário pela sua
força e bravura. Coma-se, também, após se ter vencido, por forma a que a sua
força e coragem entrem em quem a dominou. Olhe-se nos olhos antes de a matar, e
agradeça-se-lhe depois. Cante-se sobre ela. Pode chamar-se a isto primitivismo.
É uma atitude fácil de criticar, de ridicularizar. É profundamente masculina,
machista. Deve desconfiar-se das suas ramificações políticas. Mas, no fim de
contas, há nisto algo atraente do ponto de vista ético”.
O tema é polêmico e muito difícil. O que vocês
acham... dêem sua opinião, são a favor ou contra as touradas.



















