Os artistas e as touradas
O que há em comum entre Goya, Picasso, Hemingway e
João Cabral? À primeira vista nada.
Porém, um detalhe chama a atenção na vida e na obra de cada um desses homens.
Ambos pintaram ou escreveram, em algum momento, sobre as touradas e os
toureiros. As cenas de virilidade e coragem que vinham das arenas despertaram
grande fascínio entre estes mestres, e de alguma forma definiram seus temas artísticos.
Seduzido pelas disputas entre homens e animais dizem
que Goya, chegou a tourear na juventude, fato que talvez explique o encanto
desse pintor por esse espetáculo ao qual dedicou uma série de gravuras e
pinturas que sugerem, com grande comedimento de recursos, as tensões ocorridas
nas Plaza de Toros.
Picasso, assim como Goya, foi outro reconhecido
amante da tauromaquia. Seus feitos
artísticos revelam a paixão por esse esporte tão violento, e ao mesmo tempo,
tão fascinante. Como Goya, ele dedicou muitos de seus trabalhos ao registro de
homens que com destemor incomum enfrentaram seus medos nas arenas de touros
munidos apenas de capa e lança.
Símbolo da cultura Ibérica, as touradas também
inspiraram paixões nos ilustres estrangeiros que viveram na Espanha. Ernest
Hemingway que viveu por lá por muitos anos, enquanto cobria a guerra civil,
acabou se enamorando pelas touradas. Em alguns de seus livros como, Por
quem os sinos dobram e O Sol também se levanta, ele se
rendeu aos duelos sangrentos e bestiais do embate entre homens e animais. Mas
foi em O Verão Perigoso obra não ficcional, que narra uma viagem do autor pela
Europa na companhia de dois grandes toureiros: Antônio Ordoñez e Luis Miguel
Dominguín, que vamos encontrar um Hemingway apaixonado pelos duelos das arenas.
João Cabral de Melo Neto foi outro destacado
admirador das disputas taurinas. Vários de seus poemas enaltecem a figura dos
valentes toureiros, como Manolete “o de nervo de madeira”.
Espetáculo controverso, as touradas inspiram hoje duelos
em outras arenas. Despida de sua mística poética, que a via como metáfora da
existência humana na luta renhida contra os maiores obstáculos ou como queria
João Cabral como, “a vitória da inteligência contra a força bruta”; a alegoria taurina, se dissolveu sob o
discurso de que a luta contra os touros não passa de um exercício de crueldade,
em que uma massa irracional volta todo o seu ódio contra as bestas ferozes de
chifres ameaçadores, pelo simples capricho de infringir ao outro dor e
sofrimento atroz.
Dentro e fora da Espanha as touradas são alvo dos ativistas
dos animais. Talvez por isso, hoje em dia elas sejam vistas com reservas
pela comunidade artística. A exceção talvez seja o peruano Mario Vargas Llosa,
atual ganhador do Nobel de Literatura, que ao contrário de seus pares
literários da atualidade, ainda continua a ver nas touradas um espetáculo poético
com raízes nas profundas tradições da cultura ibérica.
No livro, A
vida dos Animais, o escritor sul-africano J.M.Coetzee, também nobelizado, ver nas
touradas, exaltadas pelos artistas: um indício [de uma estirpe de poetas que
celebram o primitivo]. Mate-se a besta, sem dúvida, dizem eles, mas
transforme-se isso num concurso, num ritual e honre-se o adversário pela sua
força e bravura. Coma-se, também, após se ter vencido, por forma a que a sua
força e coragem entrem em quem a dominou. Olhe-se nos olhos antes de a matar, e
agradeça-se-lhe depois. Cante-se sobre ela. Pode chamar-se a isto primitivismo.
É uma atitude fácil de criticar, de ridicularizar. É profundamente masculina,
machista. Deve desconfiar-se das suas ramificações políticas. Mas, no fim de
contas, há nisto algo atraente do ponto de vista ético”.
O tema é polêmico e muito difícil. O que vocês
acham... dêem sua opinião, são a favor ou contra as touradas.
A celebração da estupidez
.
Um amigo
insistiu comigo que o melhor do entretenimento na tevê brasileira é aquele
programa transmitido pela rede Globo, onde pessoas voluntariamente se deixam
enjaular numa mansão de luxo, só para provarem o quanto são diferentes dos
animais, sem conseguir fazer isso.
A tevê
brasileira não é lá grande coisa. A maioria dos programas, principalmente
aqueles veiculados pelas emissoras líderes de audiência, são constrangedores. Eles
subestimam a capacidade dos telespectadores, violentam a infância, estimulam o
consumismo, incitam e promovem a discórdia e ainda possam de bom-mocismo, para
se autopromoverem e promoverem as marcas que financiam a baixaria que
diariamente deseducam o brasileiro. Agora nem tudo está perdido.
Se meu amigo
exercitasse o seu controle remoto com alguma freqüência, veria que, além
daqueles velhos canais que vivem da castração das consciências, há vida
inteligente na tevê, por mais surpreendente e espantoso que isso possa parecer.
Um click e meu amigo reconheceriam que o “melhor do entretenimento da tevê
brasileira” vive do torpor de sua consciência.
A ausência de
espírito crítico, desestimulada em todos os níveis da sociedade, ilude o olhar, simplifica e reduz a zero a possibilidade de
enxergar além das velhas e desgastadas realidades televisivas. Triste nação, a
que se pauta pela televisão.
O politicamente correto e a literatura
Suas dificuldades com
Delphine Roux começaram no primeiro semestre em que ele voltou a dar aula,
quando uma de suas alunas, que por acaso era uma das prediletas da professora
Roux, foi procurá-la, como chefe do departamento, para se queixar das peças de Eurípides incluídas no curso de tragédia
grega dado por Coleman. Uma das peças era Hipólito,
e a outra era Alceste; a aula, Elena
Mitnick, achava que essas obras “depreciavam as mulheres”.
“Então o que é que eu vou fazer para agradar a senhorita
Mitnick? Retirar Eurípides da minha lista de leituras?”
“Absolutamente. Está claro que tudo depende do modo como
você ensina Eurípides.”
“E qual é”, perguntou ele, “o método recomendado hoje em
dia?” pensando, naquele exato momento, que para aquele tipo de discussão ele
não tinha nem a paciência nem a civilidade necessárias. “A leitura equivocada
que a senhorita Mitnick faz dessas duas peças”, dizia Coleman a Delphine, “está
fundada em preocupações ideológicas tão estreitas e provincianas que não dá
para ser corrigida.”
“Então você não nega o que ela fiz - que você não tentou
ajudá-la.”
“Uma aluna que me diz que eu falo com ela numa ´linguagem
falocêntrica´ não pode mais ser ajudada por mim.”
“Então”, disse Delphine, sorrindo, “o problema está aí,
não é?”
Ele riu - espontaneamente, mas também com um objetivo.
“É? O inglês que eu falo não é sutil o bastante para uma inteligência tão
refinada quando a da senhorita Mitnick?”
“Coleman, você está a muito tempo fora da sala de aula”.
“E você até hoje não saiu dela. Minha cara”, disse ele,
escolhendo bem as palavras, com um sorriso calculadamente irritante, “passei a
vida inteira lendo essas peças e pensando nelas”.
“Mas nunca da perspectiva feminista da Elena”.
“Tampouco da perspectiva judaica de Moisés. Tampouco da
perspectiva nietzschiana sobre a perspectiva, tão na moda atualmente”.
“Coleman Silk é a única pessoa na face da Terra que só
tem uma perspectiva: uma perspectiva literária pura e desinteressada.”
“Quase sem exceção, minha cara” - outra vez? E por que não?
- “nossos alunos são de uma ignorância abissal. A formação deles é de uma
ruindade inacreditável. Eles levam uma vida marcada pela esterilidade
intelectual. Eles chegam sem saber nada, e a maioria deles vai embora sem saber
coisa alguma. E o que eles menos sabem, quando se matriculam no meu curso, é
como ler o teatro clássico. Lecionar na Athena, principalmente na década de 90,
ensinar para a geração que é de longe a mais burra da história dos Estados
Unidos, é a mesma coisa que subir a Broadway lá em Manhattan falando sozinho,
só que, em vez das dezoito pessoas que ouvem você na rua falando sozinho, aqui
estão todas na mesma sala de aula. O grau de conhecimento desses alunos é,
sacou, tipo assim, zero. Depois de
quase quarenta anos lidando com esse tipo de aluno - e a senhorita Mitnick é
bem típica - posso lhe afirmar que nada poderia ser pior para eles que uma leitura de Eurípides com uma perspectiva
feminista. Apresentar aos leitores mais ingênuos uma leitura feminista de
Eurípides é uma das melhore maneiras que se podem imaginar de desligar o
raciocínio deles antes mesmo de ter oportunidade de começara demolir o primeiro
´tipo assim’ deles. Chego a achar difícil acreditar que uma mulher instruída,
com uma formação acadêmica francesa como a sua, seja capaz de acreditar que existe uma leitura feminista de
Eurípides que não seja pura bobagem. Será que você realmente se converteu em
tão pouco tempo, ou será apenas uma manifestação do tradicional carreirismo
ditado pelo medo das suas colegas feministas? Porque se for mesmo carreirismo,
por mim tudo bem. É uma coisa humana, eu compreendo. Agora, se for um
compromisso intelectual com essa idiotice, então eu estou pasmo, porque você
não é nenhuma idiota. Porque você é uma pessoa instruída. Porque na França ninguém
na École Normale levaria essa bobajada a sério. Será possível? Ler duas peças
como Hipólito e Alceste, depois ouvir
uma semana de discussões em sala de aula sobre cada uma delas, e no fim não ter
nada a dizer sobre as duas peças além de que são ´degradantes para as
mulheres´- isso não é ´perspectiva´ coisa nenhuma, meu Deus - isso é abobrinha.
Abobrinha da moda”.
“A Elena é uma aluna. Ela tem vinte anos de idade. Ela
está aprendendo.”
“Sentimentalizar aluno não fica bem em você, minha cara.
Leve seus alunos a sério. A Elena não está aprendendo. Ela está repetindo que
nem um papagaio. E se ela foi procurar logo você é porque provavelmente ela
está repetindo o que ouviu de você.”
*Excerto do livro a Marca Humana do escritor americano Philip Roth. Em breve escreverei sobre o livro...
11-S ou o dia em que a anemia moral se alimentou da hipocrisia
.
Há uma semana, a mídia
brasileira -ao menos aquela de costume- não faz outra coisa a não ser bajula os
EUA. Como se no restante do mundo não estivesse acontecendo nada de relevante,
a imprensa voltou todos os seus holofotes, (não posso deixar de pensar que o
que estar acontecendo seja um show de prestidigitação) para cobrir os 10 anos
do atentado que botou abaixo um dos símbolos do poder de uma nação que até
então se achava invulnerável.
As comoventes
homenagens que estão sendo prestadas às vitimas dos atentados de 11 de setembro,
não escondem o fato de que, até agora, nada de concreto foi feito para impedir
que o ódio provoque cenas ainda mais tenebrosas do que aquelas ocorridas há dez
anos. Pelo contrário, os EUA, apoiados no medo promovido pelas imagens que
correram o mundo ao vivo -e que agora, mais uma vez voltam às retinas de
bilhões de espectadores - recrudesceram sua política expansionista baseados nas
falsas premissas de que estavam se defendendo dos invasores bárbaros.
A legitimidade das
invasões ao Iraque e ao Afeganistão, bem como as inumanas prisões de Abu Ghraib
e Guantánamo, nunca foi questionada pelas nações hegemônicas,
que preferiu ignorar a arbitrariedade de sua maior potencia militar ao invés de
censurar as ações que ainda hoje estão em curso. O que os americanos pranteiam
hoje foi o que eles semearam ontem.
¡Gracias, España!
CRIADOR E CRIATURA
FOTO DIVULGADA POR AGUSTÍN ALMODÓVAR/EL DESEO
TÉO JÚNIOR
Pedro e Antonio no
lançamento de “A Pele que Habito”. Um reencontro de dois astros 20 anos depois
Quando se fala
da Europa, imagino que as pessoas tenham uma certa inclinação em primeiro lugar
pela França, depois, talvez, pela Inglaterra?, em seguida, quem sabe, pela
Itália? Culturalmente todos esses países deram sua contribuição para a
humanidade, todavia somos um povo que vivemos de fazer escolhas. Gosto dessa
brincadeira de atribuir notas, de eleger. Admiro o glamour e a sofisticação que
sempre inspiraram a França, o poder real inglês, esses casamentos de
conto-de-fadas que paralisam o mundo – não vi o de Kate – e aprecio também a
beleza extraordinária dos italianos, o que me remete de imediato ao
Renascimento e aos quadros estupendos de Caravaggio etc. Mas, apesar de ter
respeito por todos esses, o país que mais amo é a Espanha. Admirar é uma coisa.
Amar é outra. Não sei o verdadeiro motivo. Não tanto por ela ter nos legado um
Picasso, um Galdí, um Lorca, um Dom
Quixote, o que já seria louvável - mas pelo cinema de um senhor chamado
Pedro Almodóvar Caballero. Fiquei instigado em falar sobre a Espanha, depois
que Rogério disse preferir, entre todas, a cultura francesa, destacando-se as
mulheres, cultas e lindas.
Admito, sem um
pingo de constrangimento, que meus conhecimentos sobre cinemas são escassos.
Evidentemente, sei distinguir um Fellini de um James Cameron, por exemplo (não
sou tão estúpido!) mas minha bagagem cinematográfica encerra-se pouco acima da base
de uma pirâmide. Mas foi Pedro quem me despertou o interesse por essa
extraordinária arte e, atrelado ao estilo “almodovariano”, sua língua, razão
pela qual venho estudando sistematicamente o idioma, falsamente identificado
com o português, pois as duas línguas têm mais diferenças do que semelhanças.
Sou grato ao artista Pedro por me fisgar assim de um modo tão avassalador e tão
incrivelmente fascinante.
Como o conheci?
Assistindo a um filme pouco expressivo, mas carregado de tensões. Chama-se Tacones Lejanos, tradução para o
português: De Salto Alto (1992). E
por que Almodóvar é tão bom? Porque ele é versátil. Não se prende a um estilo
único, e paradoxalmente, tem o poder de deixá-los em todos os filmes. É um e ao
mesmo tempo, muitos. Não é somente pelo colorido exacerbado, pelas paixões labirínticas
e pelo fato de suas criaturas explodirem de desejo que ele é excelente. Há as situações
triviais do cotidiano, como uma cena em Volver
(2005), onde Raimunda (a melhor personagem que Penélope Cruz ganhou na vida),
naturalmente, abaixa a calcinha para fazer xixi. Seu talento criador vai além
desses detalhes. Quando quis denunciar, Almodóvar filmou uma Má Educação inesquecível; quando quis fazer
um drama familiar, criou uma obra-prima chamada Tudo Sobre Minha Mãe. Quando quis anarquizar, fez um filme
neurótico, mas nem por desprezível, Kika.
Quando quis falar da sensibilidade humana, dirigiu Fale com Ela, que dispensa apresentações. Nenhum diretor brasileiro
– nenhum! – faz concorrência a Pedro. É, certamente, um dos maiores do mundo e
um mito para muitos.
Por fim, quero
abordar A Lei do Desejo, de 1987 que,
ao lado do arrebatador Carne Trêmula,
foi o filme dele que mais me marcou. Lá veremos Antonio Banderas – numa cena
curiosa: seu personagem Antonio, sendo penetrado por um diretor de cinema por
quem está perdidamente apaixonado, o
famoso Pablo Quintero (Eusébio Poncela, feiíssimo, por sinal). Banderas deu uma
entrevista, se não me engano em
Nova York , dizendo que foi um “homem de sorte”: “Cheguei aos
Estados Unidos com 25 filmes no currículo”, sendo A Lei do Desejo um dos últimos antes de ir embora. 1988 foi
especialmente extraordinário na carreira de ambos: foi o ano de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos,
que chegou a concorrer ao Oscar e ecoou o nome de autor e intérprete nos quatro
cantos. Banderas fez uma belíssima carreira em Hollywood, depois ainda atuaria em
Ata-Me! (1990), em sua terra natal,
muito bem avaliado por crítica e público. Almodóvar seguiu falando de sua querida
Madri, Banderas tocou a vida na América e o reencontro entre criador e criatura
aconteceu agora, duas décadas depois, quando está em cartaz A Pele que
Habito. Dois verdadeiros astros. Dois talentos que nós, espectadores,
ajudamos a consagrar. Estou curioso para
assistir Almodóvar no cinema, pois a última vez que isso aconteceu foi em 2009,
em Aracaju, num filme que julguei substancialmente fraco, Abraços Partidos.
Almodóvar é sempre
muito gratificante, e com certeza um mestre em jogar nos olhos dos seus fãs
doidas aventuras, muitas reviravoltas, muito suspense, muitas surpresas. Seu
cinema é superlativo.
Gostaria que
Rogério visse A Pele Que Habito e escrevesse
sobre ele. Também pediria aos leitores do blog que vejam o filme, e comentassem
este que será o 18º. longa de Pedro, que, no começo de sua carreira, em 1980,
dados os seus enredos, envergonhava uma
Espanha ainda puritana e moralista, e hoje, enche o país de orgulho. “Ele é a
pessoa mais inteligente que já conheci na vida!”, disse certa vez a grande
Carmen Maura (atriz maravilhosa, que, aliás, esteve magnífica em A Lei , quebrando a mobília do quarto com um
machado, para exorcizar seus demônios, ao som de Ne Me Quitte Pas.) Que bom que essa inteligência pôde ser
compartilhada com o mundo.
Minhas férias
estão quase acabando – que pena! – e, da Paulicéia Desvairada, sempre que a
ocasião requerer, escreverei minhas crônicas aqui. Se o proprietário deixar.
Infâmias literárias
As pessoas lêem na
internet qualquer bobagem atribuída a um grande escritor e saem reproduzindo
alegremente aquilo pelas redes sociais, sem certificarem a autenticidade do
escrito. A elas basta crer que, aquele autor, que todos dizem ser um exemplo
literário, gênio da criação artística, foi capaz, do alto de sua grandeza, de
produzir infâmias que estão ao nível delas.
NOTA DE REPÚDIO AO SITE “IGUANAMBI”
.
Lá, a política é a do quem paga mais
______________________
Por TÉO JÚNIOR
O site iGuanambi, é, provavelmente, a mídia
eletrônica mais visitada da microrregião, porque divulga notícias tanto do
âmbito local como nacional (algumas delas reproduções de outras fontes), publica
festas fúteis, cerimônia de 15 anos de gente que, desprovida de fama e de
talento, paga para aparecer (hello
Val Merchiori!), faz cobertura completa do show de Daniel, artista medíocre etc.
Há também um espaço, digamos, interativo, onde se leem recados para o dono da farmácia,
publica-se os aniversariantes do dia, desabafos, críticas, sugestões etc. Eu
sempre suspeitei dessa mídia de interior no sentido em que, recebendo dinheiro
de algum patrocinador ou de algum político influente, vete, sistematicamente, aquilo
que vai contra seus interesses, ainda que as informações sejam corretas. Onde o
dinheiro fala mais alto, não se pode esperar independência nem credibilidade
porque, destarte, a verdade morre na praia, quando ela desabona que pode amordaçá-la.
Estando em férias em Caetité – a mídia daqui deve ir pelo mesmo caminho (se o iGuanambi faz, por que as demais não poderiam?) – paguei 20 reais para assistir ao espetáculo Baianidade Baiana, e essa apresentação gerou uma crítica (dessas honestas e sinceras) que, uma vez ou outra, alguém se disponibiliza a fazer: eu. Escrever é um trabalho, não um mero passatempo. O mais surpreendente é que o site vetou o texto, argumentando que o mesmo feriria um acordo feito entre ele e os produtores, que não aceitam críticas justas em relação ao evento. Porém, devo lembrá-los que teatro é prestação de serviço, portanto sujeito a críticas e a elogios, a depender da competência de quem o faz.
Um trecho de minha análise diz exatamente assim: a crítica se faz fundamental, pois entendemos que o papel dela não pode ser o da complacência ou o da subserviência em relação ao elenco, como normalmente acontece nas divulgações feitas pela mídia, sem critério algum. O site vestiu a carapuça e deve ter levado um baque – pois é exatamente isso o que ele faz. Acertei.
Se o iGuanambi recusasse a publicação com uma justificativa razoável, alegando, por exemplo, que o texto estivesse mal escrito, ou despropositado, eu nem ficaria triste. Sinceramente, não. Iria refazer o trabalho, e, auxiliado por alguma pessoa mais capacitada do que eu, analisaria as possíveis falhas. iGuanambi não aceitou o texto porque (a fonte é quente) produtores do espetáculo pagaram ao site, ou seja, um contrato foi assinado no intuito de se divulgar o evento. Havendo esse consórcio, o site então não autorizou a publicação da crítica, porque iGuanambi considerou que ela “fere” sensibilidades, havendo, assim, uma “quebra” de acordo.
Nesse exercício salutar de publicar ensaios e crônicas sobre teatro, a arte que mais admiro, tenho muito orgulho de 1) brigar pelos meus textos; 2) nunca, em hipótese alguma, vender nem comprar espaço para divulgar meu nome, porque não preciso disso. Sei de meu valor; 3) prossigo na batalha incansável de ver o maior número possível de espetáculos, de escrever, mesmo enfrentando portas fechadas, que poderiam, voluntariamente, acolhê-lo.
O blog Navegantes ao Mar publicou com carinho a crítica – porque ele é livre. Não seria o caso de o iGuanambi ficar orgulhoso porque alguém escreveu a respeito de um evento patrocinado por ele mesmo? As pessoas que eventualmente visitam o site conhecem essa política do toma-lá-dá-cá?
Pode parecer que eu esteja ressentido porque meu texto foi solenemente recusado. Não é verdade. Leiam e esqueçam-se de que foi escrito por mim. Analisem a mensagem, e não o mensageiro. E vá ao site iGuanambi e compare os textos que estão lá. Enquanto essa mídia que está aí exercer esse tipo de papel, ela será de pouquíssima utilidade pública, sem qualquer razão para existir. O material vetado enobreceria o site, tão carente de conteúdo, independentemente de ter sido feito por mim ou por qualquer outro.
Determinadas pessoas detêm o poder: umas, o de pagar pelo que lhe for mais conveniente. Outras, o poder de gerir o dinheiro recebido. Uns, de subornar. Outros, de vender-se. Nós, em nossa humildade, temos também o nosso poder: o de pensar, o de raciocinar por conta própria. O poder de termos nossa consciência e usá-la, para chancelar nossa profissão. Temos o poder da palavra – isso ninguém poderá amordaçar.
O dramaturgo Federico García Lorca, o maior da Espanha, que fora assassinado pela ditadura Franco em 1936, ainda teve de ouvir um ultimato que se revelou profético: seu carrasco, ao disparar um tiro em sua nuca, teria dito: “Uma caneta na mão deste homem é mais poderosa que uma arma!”
Nunca me esqueço da maneira como Odorico Paraguaçu, o prefeito malandro de Sucupira, tratou a mídia que lhe fazia acusações: classificou-a de “marronzista”. Acontece que ele também criou um jornal, a Folha de Sucupira. Essa, sim, era a “imparcial”. Essa retórica humorística e maravilhosa se encontra no livro Odorico na Cabeça (edit. Círculo do Livro, 1983) do excepcional Dias Gomes. Até quando iremos inverter os valores?
Parece insignificante, a recusa de um texto comum. Não é. Atrás dela, existe uma política, um mercado, um establishment; daí verifica-se, sem dificuldade, como as coisas caminham. Se algo na sua aparência desprovido de valor (uma apreciação crítica) fora recusado, é de se supor que textos ainda mais complexos, mais profundos, de uma envergadura ainda maior terão o mesmo destino. “Até hoje não germinou instituição mais nociva do que o dinheiro” – nos diz Creonte, o tirano de Antígona. É triste.
"FOLHA DE SUCUPIRA"
O prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), em "O Bem-Amado", que criou um jornal para elogiar a si mesmo. Quando um poder faz as pazes com a mídia, alguma coisa está errada.
Estando em férias em Caetité – a mídia daqui deve ir pelo mesmo caminho (se o iGuanambi faz, por que as demais não poderiam?) – paguei 20 reais para assistir ao espetáculo Baianidade Baiana, e essa apresentação gerou uma crítica (dessas honestas e sinceras) que, uma vez ou outra, alguém se disponibiliza a fazer: eu. Escrever é um trabalho, não um mero passatempo. O mais surpreendente é que o site vetou o texto, argumentando que o mesmo feriria um acordo feito entre ele e os produtores, que não aceitam críticas justas em relação ao evento. Porém, devo lembrá-los que teatro é prestação de serviço, portanto sujeito a críticas e a elogios, a depender da competência de quem o faz.
Um trecho de minha análise diz exatamente assim: a crítica se faz fundamental, pois entendemos que o papel dela não pode ser o da complacência ou o da subserviência em relação ao elenco, como normalmente acontece nas divulgações feitas pela mídia, sem critério algum. O site vestiu a carapuça e deve ter levado um baque – pois é exatamente isso o que ele faz. Acertei.
Se o iGuanambi recusasse a publicação com uma justificativa razoável, alegando, por exemplo, que o texto estivesse mal escrito, ou despropositado, eu nem ficaria triste. Sinceramente, não. Iria refazer o trabalho, e, auxiliado por alguma pessoa mais capacitada do que eu, analisaria as possíveis falhas. iGuanambi não aceitou o texto porque (a fonte é quente) produtores do espetáculo pagaram ao site, ou seja, um contrato foi assinado no intuito de se divulgar o evento. Havendo esse consórcio, o site então não autorizou a publicação da crítica, porque iGuanambi considerou que ela “fere” sensibilidades, havendo, assim, uma “quebra” de acordo.
Nesse exercício salutar de publicar ensaios e crônicas sobre teatro, a arte que mais admiro, tenho muito orgulho de 1) brigar pelos meus textos; 2) nunca, em hipótese alguma, vender nem comprar espaço para divulgar meu nome, porque não preciso disso. Sei de meu valor; 3) prossigo na batalha incansável de ver o maior número possível de espetáculos, de escrever, mesmo enfrentando portas fechadas, que poderiam, voluntariamente, acolhê-lo.
O blog Navegantes ao Mar publicou com carinho a crítica – porque ele é livre. Não seria o caso de o iGuanambi ficar orgulhoso porque alguém escreveu a respeito de um evento patrocinado por ele mesmo? As pessoas que eventualmente visitam o site conhecem essa política do toma-lá-dá-cá?
Pode parecer que eu esteja ressentido porque meu texto foi solenemente recusado. Não é verdade. Leiam e esqueçam-se de que foi escrito por mim. Analisem a mensagem, e não o mensageiro. E vá ao site iGuanambi e compare os textos que estão lá. Enquanto essa mídia que está aí exercer esse tipo de papel, ela será de pouquíssima utilidade pública, sem qualquer razão para existir. O material vetado enobreceria o site, tão carente de conteúdo, independentemente de ter sido feito por mim ou por qualquer outro.
Determinadas pessoas detêm o poder: umas, o de pagar pelo que lhe for mais conveniente. Outras, o poder de gerir o dinheiro recebido. Uns, de subornar. Outros, de vender-se. Nós, em nossa humildade, temos também o nosso poder: o de pensar, o de raciocinar por conta própria. O poder de termos nossa consciência e usá-la, para chancelar nossa profissão. Temos o poder da palavra – isso ninguém poderá amordaçar.
O dramaturgo Federico García Lorca, o maior da Espanha, que fora assassinado pela ditadura Franco em 1936, ainda teve de ouvir um ultimato que se revelou profético: seu carrasco, ao disparar um tiro em sua nuca, teria dito: “Uma caneta na mão deste homem é mais poderosa que uma arma!”
Nunca me esqueço da maneira como Odorico Paraguaçu, o prefeito malandro de Sucupira, tratou a mídia que lhe fazia acusações: classificou-a de “marronzista”. Acontece que ele também criou um jornal, a Folha de Sucupira. Essa, sim, era a “imparcial”. Essa retórica humorística e maravilhosa se encontra no livro Odorico na Cabeça (edit. Círculo do Livro, 1983) do excepcional Dias Gomes. Até quando iremos inverter os valores?
Parece insignificante, a recusa de um texto comum. Não é. Atrás dela, existe uma política, um mercado, um establishment; daí verifica-se, sem dificuldade, como as coisas caminham. Se algo na sua aparência desprovido de valor (uma apreciação crítica) fora recusado, é de se supor que textos ainda mais complexos, mais profundos, de uma envergadura ainda maior terão o mesmo destino. “Até hoje não germinou instituição mais nociva do que o dinheiro” – nos diz Creonte, o tirano de Antígona. É triste.
"FOLHA DE SUCUPIRA"
O prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), em "O Bem-Amado", que criou um jornal para elogiar a si mesmo. Quando um poder faz as pazes com a mídia, alguma coisa está errada.
MESTRE AUTRAN
______________________
Por TÉO JÚNIOR
Esse espaço homenageia de forma singela a decisão da Presidente da República Dilma Rousseff por ter oficializado o grande Paulo Autran como “Patrono do Teatro Brasileiro”. A publicação está no Diário Oficial do mês de agosto.
Pode parecer
insignificante um reconhecimento tão simples, que não representa nenhuma
gratificação em dinheiro para herdeiros do grande ator, morto há 4 anos, mas o
respeito e agradecimento que essa decisão traz. É preciso que se faça justiça a
um grande brasileiro, e ainda mais quando se trata do maior ator do país.
Qualquer decisão que
venha do poder deve ser recebida com cautela, já que se montou em Brasília um
legítimo picadeiro onde noções de valores morais, de ética, de idoneidade etc.
estão amiúde se nivelando para baixo. Um reconhecimento que chega, ainda que
postumamente, de forma justa em relação à memória de um artista.
Felizmente, Paulo
Autran não precisou morrer de velho para ser lembrado. Em vida, foi saudado
como o principal nome do nosso palco e rivalizava apenas com Fernanda
Montenegro na primazia de ser o maior ator do Brasil. Recebera diversas
homenagens em vida, em gratidão às 90 peças que montou, sendo Shakespeare o
autor mais constante de seu currículo.
Não se pode, todavia,
descansar sobre os louros, pois existe o risco de se ficar acomodado. É o que
chamam comumente de “zona de conforto”. Paulo trabalhou a vida inteira e não se
iludiu com o sucesso. Identificava-se com o teatro, apenas. Esnobou a televisão
e o cinema, embora às vezes estivesse lá também. No entanto, sua mais visceral
paixão foi, reiterando, o palco.
Em 1996 decidiu montar
Rei Lear. Recebeu patrocínio de mais de 1 milhão de reais, pois não se pode
trabalhar com um artista deste quilate com mixaria. 1 milhão de reais para ser
investido numa peça parece caro – e é. Mas é preciso levar em conta também a
relevância do espetáculo. Paulo arranjou o dinheiro sem dificuldade. Lembro-me
bem quando escrevi um texto em Aracaju cobrando do governador Déda dinheiro
para o teatro, argumentando para ele que “teatro é verba”. Estão vendo aí?
Além de ator, Autran
viveu nos turbulentos anos da ditadura militar, onde a liberdade de expressão e
as artes eram cerceadas e boicotadas pelos poderosos da hora, sob a alegação
falsa de que estas últimas eram obras “subversivas”, portanto “prejudiciais” ao
público. Quem tinha o que dizer, teve de se calar, sob risco de punições
maiores. Paulo foi um defensor intransigente da liberdade e do respeito pela
categoria da qual fazia parte: a dos atores. Chamou para si a responsabilidade,
ao invés de delegá-la a terceiros. Em 1965, com o espetáculo Liberdade,
Liberdade, de Millor Fernandes e Rangel, percorreu o país para falar de algo
que já não existia totalmente no Brasil. Não adianta ter liberdade “mais ou
menos”, um “pouco” de liberdade. A liberdade deve ser total, irrestrita. Em
Alagoas, representou o espetáculo, contrariando a decisão do então governador
Simeão Filho. Pressionado por manifestações estudantis, com o apoio da
Universidade Federal daquele estado, ele liberou a peça, e os alagoanos, assim,
puderam assistir ao extraordinário ator no Teatro Marechal Deodoro, como atesta
a foto abaixo. Quem viu, viu. Uma experiência única, irrepetível. Venceu o
teatro.
Salve Paulo Autran.
Maravilhoso como ator e como ser humano consciente de seu ofício.
A Estação da Liberdade?
.
Ninguém sabe ainda ao
certo, o que esperar dos levantes no mundo árabe. Haverá ali um dia algo
parecido com uma democracia? Deposto o ditador; Líbia, Egito e outros países,
correm o risco de repetirem o mesmo script do passado, e do meio do levante ver
surgir ao invés de um governo, surja um déspota.
Ninguém ousa palpitar sobre o futuro da região. Porém, de tudo isso, podemos tirar uma grande lição. A tirania e o despotismo, como tudo na vida, um dia expira. É lamentável que um homem tenha que suportar os desmandos e a violência continua desses sádicos chamados, ditadores. Gerações e mais gerações, em todo mundo árabe cresceram amordaçados por esses regimes sufocantes. Patrocinados muitas vezes pela covardia e ganância do mundo Ocidental.
Alegra-me ver as cenas de perseguição do povo Líbio ao seu antigo governante. Kadafi deve está sentindo agora a agonia que ele empreendeu a muitos de seus opositores. Caçado como um rato sujo, ele deve está em algum buraco, (como Saddan Hussein quando foi encontrado) assaltado pela culpa e o remorso.
Ninguém ousa palpitar sobre o futuro da região. Porém, de tudo isso, podemos tirar uma grande lição. A tirania e o despotismo, como tudo na vida, um dia expira. É lamentável que um homem tenha que suportar os desmandos e a violência continua desses sádicos chamados, ditadores. Gerações e mais gerações, em todo mundo árabe cresceram amordaçados por esses regimes sufocantes. Patrocinados muitas vezes pela covardia e ganância do mundo Ocidental.
Alegra-me ver as cenas de perseguição do povo Líbio ao seu antigo governante. Kadafi deve está sentindo agora a agonia que ele empreendeu a muitos de seus opositores. Caçado como um rato sujo, ele deve está em algum buraco, (como Saddan Hussein quando foi encontrado) assaltado pela culpa e o remorso.
Poesia, Vida e Morte
João Cabral de Melo
Neto é um poeta deslocado da tradição lírica dominante na literatura
brasileira. O vigor de sua obra vem do exercício rigoroso da racionalidade
imposta na construção dos seus versos.
Contrafeito a todo
transbordamento melancólico e ao psicologismo discursivo, ele segue as lições
de Mallarmé de que não se fazem versos com ideias, sentimentos, ou proposições,
mas sim com palavras.
Sua literatura se funda
na realização concreta dum universo poético onde rigor de construção e riqueza
de significação, se interpenetra e se complementam; razão pela qual, sua poesia
feita de coisas, se orienta como forma de significar o mundo pelos elementos do
mundo.
Essas características
fogem à média de uma tradição poética estabelecida no predomínio do “sentimental-confecional”,
e formam um corpo estranho no percurso de nossas letras. Nossos mais destacados
poetas, sempre optaram do romantismo até hoje, em explorarem o interior de si
mesmos, se perdendo num labirinto de remoço, dores, queixas e muita desilusão.
Ler a obra de João
Cabral e se sentir animado, vivo, é coisa fácil. Dele, a gente sai revigorado,
e certo de que ao homem, cabe bem mais do que apenas lamber as suas chagas. Cabe,
acima de tudo, encarar os desafios impostos no percurso sinuoso que nos leva,
invariavelmente, a “indesejada das gentes”, com destemor.
A poesia cabralina nos
ensina que a vida está sempre por um fio. Ela não se dá, tem que ser tomada. Como
a poesia que ele fez e entendeu, ela não vem sem luta. Como os toureiros
ameaçados pelo chifre do touro, sob o olhar de uma plateia implacável, a vida é
um esquivar-se dos golpes mais violentos até o dia em que a lança do animal vença
a lança do homem.
Segue um poema exemplar
de João Cabral sobre sua vida e sua poesia:
ALGUNS TOUREIROS
A Antônio Houaiss
Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de
Sevilha: precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.
Vi também Julio
Aparício,
de Madrid, como
Parrita: ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.
Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da
Andaluzia, que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.
E também Antonio
Ordóñez,
que cultiva flor
antiga: perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.
Mas eu vi Manuel
Rodríguez,
Manolete, o mais
deserto, o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,
o de nervos de madeira,
de punhos secos de
fibra o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,
o que melhor calculava
o fluido aceiro da
vida, o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,
o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,
sim, eu vi Manuel
Rodríguez,
Manolete, o mais
asceta, não só cultivar sua flor
mas demonstrar aos poetas:
como domar a explosão
com mão serena e
contida, sem deixar que se derrame
a flor que traz escondida,
e como, então,
trabalhá-la
com mão certa, pouca e
extrema: sem perfumar sua flor,
sem poetizar seu poema.
ACARAJÉ, AXÉ E MUITA PREGUIÇA
calcado nos estereótipos fáceis
_____________________
Téo Júnior*
teo.camp@hotmail.com
Numa cidade como
Caetité, cuja tradição teatral é paupérrima, é um alento saber que um
espetáculo foi exibido em três sessões, ainda que montado num espaço pequeno,
como é o caso do Cine Teatro Anísio Teixeira (Pç. da Catedral, Centro). Nessas
raríssimas ocasiões, a crítica se faz fundamental, pois entendemos que o papel
dela não pode ser o da complacência ou o da subserviência em relação ao elenco,
como normalmente acontece nas divulgações feitas pela mídia, sem critério
algum; tampouco a crítica deva destruir um espetáculo, pura e simplesmente. Ela
não existe para esses fins. No entanto, sua obrigação é a de analisar – sempre
– com justiça aquilo que é oferecido ao público.
Não raro, as comédias
apresentadas (muitas a preços populares, inclusive) estão calcadas sobre
estereótipos, e os artistas perseguem o nobre objetivo de, sorrindo,
refutá-los, já que esses estereótipos – e ninguém há de discordar – são gerados
sobre ideias preconcebidas e alimentados pela ignorância. Assim sendo, faz-se
necessário rechaçá-los a qualquer custo. Algumas dessas idéias, todos nós já
conhecemos: baianos preguiçosos, nordestinos atabalhoados em cidades grandes,
gays afetados excessivamente, loiras estúpidas etc. A regra não se aplica aqui,
porém. Dir-se-ia que eles (Marcos Lima e Marcos Magno) se incomodam muito pouco
com críticas em relação à sua cultura, e ambos a proclamam até com certo
orgulho. Não é sempre assim.
O título da peça por si
só já soa estranho, porque redundante: “Baianidade Baiana” (sic!), embora o
tema nos interesse, num momento em que se discute até que ponto essa
“guetificação” cultural é apropriada ou não. Qual seria a melhor identidade? A
mais bonita? A “baianidade”, talvez? A “sergipanidade”? A “mineiridade”? Assim sendo, analisamos por
uma ótica separatista, como se esses locais fossem ilhas e não partes de um
todo, de um painel diversificado e rico em múltiplos aspectos, como é o Brasil.
Aliás, o próprio conceito de “brasilidade” está há muito batido, desde o
surgimento – lá no Modernismo – de Tarsila do Amaral, conforme assinalou Mário
de Andrade, que caracterizava seus quadros
como sendo a representação da “realidade nacional”.
Rodando a baiana –
Abriu-se espaço para imitações de artistas, mencionando-se as diferenças
abissais de classes, a negritude, o acarajé com pimenta, a sexualidade sem
culpa, o linguajar por vezes tosco, mas autêntico e piadas. Ao final, ambos
irmanaram-se com o auditório a fim de que nós, talvez não mergulhados
suficientemente nesse universo quanto eles, adivinhássemos as músicas lembradas
e por aí vai. É evidente que esse trabalho não é tão simples e eles provaram
ser bons comediantes, mas o que a dupla realiza não pode ser considerado
teatro, no sentido mais genérico do termo. Às vezes, existiam os diálogos, eles
estavam lá, incisivos ao extremo – porque um assunto puxa outro – mas sempre
caricaturais, é claro; todavia na maior parte da peça o que tivemos foi o
famoso stand-up. Em suma, trata-se mais de um humorístico no estilo “A Praça é
Nossa” do que propriamente de uma peça teatral.
O momento em que a
sonoplasta (não foi informado o nome) interrompeu a apresentação a fim de se
eximir das falhas incríveis do som que ela operava, foi de uma estupidez sem
tamanho, e “Baianidade Baiana” pecou, assim, pelo menos na sexta-feira, pela
falta de cuidado. Mas nesses casos, como eles se abrem a todo tipo de
improvisação, não se considerou o descuido uma grande falha, pois ele não
chegou a atrapalhar em nada.
A responsável pela peça
foi a “Companhia Baiana de Risos” e a direção é de Alberto Damit e Marco
Antonio Lucas. Ingressos: 20 reais.
____________________________
*
Graduado em letras pela UNEB, foi professor da Universidade Federal de Sergipe
(UFS) atualmente desenvolve Projeto de Mestrado cujo tema é a dramaturgia de Nelson
Rodrigues. É pesquisador de teatro.
O politicamente correto é uma bosta
.
Em nome da ordem, do decoro e harmonia social, há tempos a onda do politicamente correto tenta restringir as liberdades individuais e instaurar uma sociedade pautada pela assepsia ideológica, linguística e comportamental. O resultado tem sido catastrófico. Ninguém mais consegue pensar sem se sentir vigiado. Ninguém mais expõem suas opiniões livremente sem ser acusado de coisas que nunca foram. Há sempre o risco, involuntário, de se estar melindrando a sensibilidade de alguém, e com isso sofrer as piores recriminações. O excesso de regras e restrições, a que estamos sendo submetidos, infantiliza a sociedade e não garante o respeito a quem quer que seja. Pelo contrário, tutelar as pessoas, como fazia os regimes totalitários cria uma sociedade insuportável de se viver.
Contos e Fábulas do Brasil
Contos populares do sertão e do mundo
No Brasil, não são muitas as coletâneas de contos populares, apesar da alardeada riqueza da nossa cultura popular e do empenho de estudiosos, como Sílvio Romero, Câmara Cascudo e Lindolfo Gomes. A publicação de Contos e fábulas do Brasil, pela editora Nova Alexandria, se reveste, por isso, de grande importância. Coligidos por Marco Haurélio, estes contos da tradição oral brasileira estão agora imortalizados em um livro que conta, também, com belíssimas ilustrações do artista plástico paraibano Severino Ramos.
A coletânea traz contos de animais, histórias de encantamento, religiosas e acumulativas. Há, ainda, notas esclarecedoras, assinadas pelo renomado pesquisador português, Paulo Correia, da Universidade do Algarve, mostrando o percurso das histórias, o número de versões existentes nos países de língua portuguesa e os similares de outros países.
Marco Haurélio, também, na abertura de cada seção, amparado em ampla pesquisa, num trabalho que dosa rigor e criatividade, aponta variantes das histórias colhidas por ele em outras coletâneas e até o reaproveitamento de muitas delas na literatura de cordel. Os leitores da obra dos Irmãos Grimm identificarão em Maria Borralheira a versão brasileira de Cinderela. E reconhecerão em O príncipe Teiú elementos da clássica história A bela e a fera e do conto mítico Eros e Psiquê, que integra O asno de ouro, escrito por Apuleio no século II d.C.
Segundo a professora Isabel Cardigos, referência mundial no estudo do conto popular, Contos e fábulas do Brasil, é “um livro fadado para ter a maior sorte: entre os adultos e entre aquelas crianças felizes a quem os adultos vão saber recontar estas histórias para que, com a ajuda da escrita, continue a correr a antiquíssima magia dos contos de tradição oral.”
Sobre o autor: Marco Haurélio, baiano de Riacho de Santana, é escritor, editor e pesquisador da cultura popular brasileira. No campo do folclore, além deste Contos e fábulas do Brasil, escreveu Contos folclóricos brasileiros (Paulus). Para a coleção Clássicos em Cordel, da Nova Alexandria, adaptou A megera domada, de William Shakespeare, e O Conde de Monte Cristo, este um dos vencedores do Prêmio Mais Cultura de Literatura de Cordel – edição 2010.
Contos e fábulas do Brasil — Marco Haurélio
Ilustrações de Severino Ramos
ISBN 978-85-7492-265-2
16X23 cm — 216 págs.
Preço: R$ 38,00
Mais informações:
Janaína Gomes
Juliana Messias
2215-6252
Blog do livro:
Blaise Cendrars a Féla Poznanska
Sê bem-vinda. Há muito que ando fugido
do mundo, de celas antigas, domésticas,
por isso sê bem-vinda ao lugar da fuga.
Dou-te a minha mão para que sintas
o nervo nómada, a desmesura de quem parte
em aventura, o tempo que se cumpre
em cada travessia. Dou-te o meu braço
direito porque é nele que o coração
transita, como um comboio que parte
e retorna para poder voltar a partir.
Sê bem-vinda à fome, à miséria,
à solidão que a todos chega e finalmente
pergunta: que fazes aqui? Respondo
à solidão que faço o meu tempo,
nenhum relógio poderá marcar a distância,
nenhum ponteiro indicará o caminho,
seguiremos por onde lutar for resposta,
seremos a espuma dos dias mais belos,
das horas mais livres. Tu e eu, de mãos
dadas, dançando o tempo com fervor,
sem nenhum ruído que nos impeça
a poesia, a música, a liberdade.
Repara: os homens sem escudos
precisam abrigar-se de si próprios,
tudo podem contra o mundo, nenhuma
estação lhes estacionará a fuga.
Talvez descubram um dia na berma
de uma estrada batida, entre o mato
da floresta, numa duna desértica, talvez
aí descubram a sombra que os proteja
do calor insuportável que sobre eles paira
logo à nascença. Trazem dentro uma erupção
contida que só a paciência da espera
poderá suportar. E tu foste essa paciência.
És a mais bela desordem que me aconteceu.
Sentado na estação a observar
famílias inteiras em trânsito, penso
naquele impulso que um dia me impeliu
para fora das quatro paredes de um
quarto frio. Saltei pela janela, corri
sem direcção, corri para onde me levasse
a direcção de apenas correr. O meu destino
eras tu. Tu, pedaço de terra onde ergui
a única morada que me serviu de abrigo.
"A Dança das Feridas" - Henrique Bento Fialho
do mundo, de celas antigas, domésticas,
por isso sê bem-vinda ao lugar da fuga.
Dou-te a minha mão para que sintas
o nervo nómada, a desmesura de quem parte
em aventura, o tempo que se cumpre
em cada travessia. Dou-te o meu braço
direito porque é nele que o coração
transita, como um comboio que parte
e retorna para poder voltar a partir.
Sê bem-vinda à fome, à miséria,
à solidão que a todos chega e finalmente
pergunta: que fazes aqui? Respondo
à solidão que faço o meu tempo,
nenhum relógio poderá marcar a distância,
nenhum ponteiro indicará o caminho,
seguiremos por onde lutar for resposta,
seremos a espuma dos dias mais belos,
das horas mais livres. Tu e eu, de mãos
dadas, dançando o tempo com fervor,
sem nenhum ruído que nos impeça
a poesia, a música, a liberdade.
Repara: os homens sem escudos
precisam abrigar-se de si próprios,
tudo podem contra o mundo, nenhuma
estação lhes estacionará a fuga.
Talvez descubram um dia na berma
de uma estrada batida, entre o mato
da floresta, numa duna desértica, talvez
aí descubram a sombra que os proteja
do calor insuportável que sobre eles paira
logo à nascença. Trazem dentro uma erupção
contida que só a paciência da espera
poderá suportar. E tu foste essa paciência.
És a mais bela desordem que me aconteceu.
Sentado na estação a observar
famílias inteiras em trânsito, penso
naquele impulso que um dia me impeliu
para fora das quatro paredes de um
quarto frio. Saltei pela janela, corri
sem direcção, corri para onde me levasse
a direcção de apenas correr. O meu destino
eras tu. Tu, pedaço de terra onde ergui
a única morada que me serviu de abrigo.
"A Dança das Feridas" - Henrique Bento Fialho
Não basta olhar tem que enxergar
cena do filme Blow Up
.
Em depoimento no documentário, Janela da Alma, o escritor português José Saramago revela-nos como a realidade pode ser uma coisa assustadoramente fabricada, artificial e enganosa aos olhos.
Estava ele certo dia na ópera de Lisboa ocupando o lugar de sempre, que dava de frente ao palco. Num outro, por acaso, teve que mudar, e foi sentar-se num dos camarotes contíguos ao palco e lá de cima, a visão que se tinha do palco era reveladora, e foi lá que se deu uma epifania.
Durante a realização da apresentação outra coisa chamou a sua atenção, bem mais dos que a inebriante música que ocupava o ambiente e distraia os sentidos de todos, com pura beleza e encanto.
É que do lugar que antes ele ocupava se via um palco que em tudo lembrava a riqueza e o luxo das melhores casas de ópera. A sala ricamente ornada com um largo e vistoso palco sobre o qual pendia uma coroa cheia de brilho e luxo lembrava aos espectadores que aquele lugar reinava a solenidade e o decoro.
Porém, deslocado seu campo de visão dentro do mesmo ambiente, ele viu que por detrás do palco nobremente ornamentado, um emaranhado de fios, casas de aranhas, sujeira e restos de objetos esquecidos pelo tempo davam ao espaço outra dimensão, que somente a nova posição revelava.
Dessa visão ele sacou a lição que ensina: para se ter um conhecimento mínimo sobre a realidade e para descondicionar o olhar sobre os objetos, evitando criar sobre eles expectativas fantasiosas, “há que se dar a volta”.
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