A literatura promove
encontros estranhos. Um deles ocorreu entre Chico Buarque e João Cabral de Melo
Neto. Chico Buarque de Holanda é o maior compositor lírico desse país. E
justamente ele, que sempre carregou a sua poesia de um transbordamento de
emoções e sentimentos, foi se juntou ao maior poeta anti-lírico do país para
criar uma parceria improvável. Em 1965 Chico, então com pouco mais de vinte anos,
foi convidado pelo diretor do TUCA, Roberto Freire, para musicar o poema que a companhia
estava adaptando para o teatro. Daí nasceu o musical MORTE E VIDA SEVERINA. Um
dos raros poemas de João Cabral que suporta música. Cabral, como todos sabem,
era um poeta avesso a musicalidade, e se esforçou a vida inteira, para impedir
que sua poesia expressasse alguma melodia involuntária. Ele acreditava que a
musicalidade e o ritmo melódico de um poema, dispersava a atenção do leitor e o
distanciava dos conteúdos poéticos necessários para compreensão da narrativa. Através
da rima toante, frequentemente empregado pelo poeta em sua poesia para suprimir
a música, a sua linguagem tornou-se uma marca de expressão individual que o
distinguia de todos os poetas nacionais. Todos que ouvem um poema cabralino
identificam de pronto a sua dicção. Ela é áspera, árida e seca, como as
paisagens descritas em seus poemas. Em seu mundo particular, quase não se ouve
nada, mas se ver muito. João Cabral optou pelo visual ao excluir os sons de
seus poemas. A façanha dessa poesia foi a de se afastar daquilo que os legisladores
literários sempre recomendaram: uma poesia direcionada aos sentimentos. Mas a
poesia de João Cabral tomou o seu próprio rumo. Rebelou-se contra o poeta e
revelou a sua face musical graças a genialidade de Chico Buarque que
desentranhou das pedras cabralina, sons e emoções que o poeta jamais imaginou
que elas contivessem.
De repente Romeu ficou assexuado como os anjinhos das catedrais
.
Como
forma de ajustar os passos da sociedade ao ritmo do sistema, todos os regimes
de exceção, indistintamente, praticaram a censura contra a literatura, o
teatro, o cinema e outras expressões. Ditadores, reis, e governantes autoritários,
desconfiaram sempre das histórias narradas pelos artistas. Elas poderiam como
fez Shakespeare em Hamlet, desmascarar as tiranias dos lideres e constranger os
governantes perante os súditos.
A livre
expressão do pensamento, desde sempre, constituiu assim, a esses regimes, uma
ameaça devastadora, que devia ser combatido a qualquer custo. Não à toa, todos
eles mantiveram formas de interdição, que, se não extinguiram de todo a livre circulação
das ideias - como bem pretendiam os déspotas - serviu para mantê-las nos
guetos, bem longe do grande público.
Não faltam
exemplos na história de perseguições, ameaças, torturas e degredo àqueles que ousaram
desrespeitar as convenções. Em 1938 o poeta russo Óssip Mandelstam foi enviado
a um Gulag e lá morreu por ter afrontado o ditador soviético Stalin, com um poema
satírico. Stalin, alias, mantinha uma extensa rede de espionagem para assegurar
o silêncio dos artistas e esconder assim, as atrocidades promovidas por ele nos
campos de concentração.
Investir
contra a literatura não é mais um ato do passado. Nem são mais privilégios de
ditadores. A cada dia uma nova e assustadora notícia de interdição assalta a
crença de que já evoluímos o bastante para não atacar as artes. Primeiro foi a
censura do CNE conta os livros de Monteiro Lobato, supostamente acusado de racismo.
Depois veio a notícia de que o mesmo já havia ocorrido nos EUA quando escolas recusaramas obras de Mark Twain pelo mesmo motivo. Na França Hergé, autor de Tintim
também não escapou a sanha moralizante, que prefere destituir a liberdade de
expressão e artística, a discutir com seriedade as contribuições desses mestres
para formação de gerações e mais gerações de leitores.
Agora chega
a notícia de que nos EUA - mais uma vez - algumas escolas estão fazendo ediçõesespeciais de Shakespeare com o intuito de eliminar, qualquer menção em suas
obras, a atos libidinosos. Assim, palavras como pênis, vagina e suas congêneres,
simplesmente sumiram.
Ora
como isso pode ser tolerado? Em que mundo de merda nós estamos? Excluir essas
palavras do texto literário não assegura ao adolescente que ele não será
promiscuo, tarado ou coisa pior - presumindo que esse seja o objetivo da
censura. O psicanalista infantil Bruno Bettelheim em seu livro A PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS, escreveu
que “a cultura dominante deseja fingir,
particularmente no que se refere às crianças, que o lado obscuro do homem não
existe, e professa a crença num aprimoramento otimista”.
Muito
embora todas as pessoas nasçam através do ato sexual e isso seja muito natural
para boa parte da população, alguns, ilustres guardiões da decência preferem
fingir que o mundo é outro. Muitos pais, afirma BETTELHEIM, acreditam que só
suprimindo realidades desagradáveis e reforçando os aspectos positivos da vida,
assegurarão uma vida sem angustias aos filhos. Uma “dieta unilateral nutre apenas unilateralmente o espírito, e a vida real
não é só sorriso”, conclui o psicanalista.
Sobre
qualquer pretexto a censura é um ato de violência que não pode ser tolerado pela
sociedade. Ela se constitui numa afronta à liberdade e ameaça a pluralidade de
ideias que são as bases de sustentação da sociedade moderna. Essas ações são
reveladoras. Elas ilustram que não apenas os regimes autoritários, mas também,
e infelizmente, a sociedade livre não tem a menor ideia do que seja arte e suas
funções.
A
arte, quando recria o mundo em suas narrativas, não faz nada mais do que reproduzir
de forma fictícia o que é produzido pelo homem. E o que é produzido pelo
homem tem lá o seu quinhão de beleza, mas abunda também, uma asquerosa face que
duela com os encantos. Não serão as ações dos censores, que evitarão qualquer
desvio moral e restaurarão uma pretensa natureza bondosa do homem. Esqueçam. Então,
não dever ser ela (a arte), que revela ao homem a si mesmo e ao mundo, que deva
ser censurada. Antes, cabe ao homem, segundo seu arbítrio e individualidade,
repudiar qualquer ação nociva e que exponha a sociedade ao perigo.
CITAÇÃO 8
"De fato, na
história da humanidade aconteceu um fenômeno importante, capital, que é o
nascimento do pensamento científico e seu desenvolvimento. Esse fato é um valor
intrínseco, em si mesmo, que eu realmente coloco fora do relativismo cultural.
Agora, se você olha as coisas um pouco mais do alto, dirá que esse pensamento
científico que respeitamos e que nos apaixona em seus progressos passo a passo,
que se efetua no decorrer dos séculos, anos ou dias, é na realidade
profundamente vão. Já que o que nos ensina é, ao mesmo tempo, a melhor
compreender as coisas em seus detalhes e que não podemos jamais compreender na
totalidade, no conjunto.
O pensamento
científico, ao mesmo tempo que alimenta nossa reflexão e aumenta nossos
conhecimentos, mostra a insignificância última desse conhecimento. Depende do
seu ponto de vista e do nível, que é o nosso, o do homem do século XX, do mundo
ocidental, o pensamento científico é algo essencial, fundamental, e devemos
utilizá–lo. Porém, se nos tornamos metafísicos, diremos que de fato ele é
essencial, mas ao mesmo tempo é preciso saber que não serve para nada”.
(LÉVI–STRAUSS, C.
Entrevista à Bernardo Carvalho, in FOLHA DE S. PAULO, 22 de outubro de 1989).
Uma “Antígona” de tirar o fôlego na Rua da Cultura
A bonita leitura da Stultífera Navis para o clássico
sofocleano
Téo Júnior *
“Antígona”, magnífica obra legada
pela Grécia Antiga – e que dera o merecido prestígio ao seu autor, Sófocles (496
– 406 a.C), conquistando o 1º. Lugar no concurso trágico de 442 a.C, conta a
história da famosa donzela que, ao purificar o cadáver do irmão, assinaria sua
sentença de morte.
Os
conflitos e as reviravoltas que o texto vai, aos poucos, apresentando, reclamam
uma atenção e cuidado muito especiais de nossa parte, pois todo ele é permeado
de emoções viscerais e intensas, já que os personagens agem guiados por convicções
das quais não estão dispostos a retroceder tão facilmente.
Creonte,
uma vez estabelecido no trono de Tebas, parte do princípio de que deve ser obedecido
– e não questionado, sejam quais forem suas resoluções. Antígona, por seu
turno, considera-se no direito de transgredi-las, sim, quando estas não
estiverem chanceladas pelos deuses, a quem venera. Não se pode compreender o
teatro sofocleano sem se recordar de que os gregos eram profundamente religiosos
e, portanto, tementes à vingança implacável do Olimpo. Observando-se por este
ponto, notamos sem dificuldade, que são os poderosos – e não os meros mortais –
quem experimentam a audácia de burlar as leis divinas, desafiando não raro a
sabedoria dos oráculos etc., incorrendo-se desta forma em blasfêmia.
Mas,
como nada em teatro é tão simples quanto parece e antes que apontemos culpados
e inocentes, há um fator em “Antígona” ainda mais perturbador: a única criatura
que desacatou o decreto fixado pelo rei foi, ironicamente, sua própria sobrinha
– e que será dentro em breve, sua nora.
Até
que ponto o Estado pode interferir naquilo que o cidadão julga necessário
realizar? Eis a grande questão da peça, escrita há vinte e seis séculos.
Uma
leitura atenta de certos teóricos contemporâneos como Leyla Perrone (“Vira e
Mexe, Nacionalismo”; Cia. das Letras) e Umberto Eco (“Interpretação e Superinterpretação”;
Martins Fontes), desperta a atenção para com um fenômeno observado entre os
grandes textos literários: a profusão das analogias, de semelhanças que há
entre eles, cuja mensagem é a de que uma obra sempre está dialogando com a outra,
e sem que nenhuma delas perca sua originalidade. Não resisto à tentação de
estabelecer a maneira como Sófocles radiografou os poderosos: Creonte e Édipo (seu
antecessor) têm em comum a irritabilidade, a pressa em julgar quem lhes rodeia,
o (aparente) paternalismo pronto para converter-se em arrogância, e a fúria indisfarçável
que há em suas palavras quando seus desejos não são prontamente atendidos.
“Antígona”,
antes de ser uma tragédia onde três indivíduos morrem devido à resolução de um
tirano é, antes de tudo, uma parábola que sublinha aquele sentimento tão
escasso hoje em dia: o amor legítimo. Amor por parte da protagonista, ao não
permitir que o corpo de Polinices fosse profanado, servido de alimento para
aves e cães – e, ato contínuo, amor para com seus progenitores, que certamente
endossariam a empreitada. Amor de Hémon, destinado àquela que seria sua esposa,
ao rechaçar com veemência a decisão precipitada do pai. Amor de Tirésias, não
apenas para com a grandeza do gesto desta menina, mas principalmente respeito
para com as divindades – que brota, espontaneamente, de suas iluminadas
palavras.
Ao
acompanharmos “Antígona”, detendo-nos em cada detalhe, quer nas ponderações de
Ismênia, quer nos argumentos ambíguos do Coro e também no embate entre a
protagonista e o soberano (duas personalidades descomunais) temos a impressão
de estarmos ouvindo uma sinfonia, e não lendo uma obra teatral. Ao representar
“Antígona”, o mais destacado dramaturgo grego de todos os tempos – que deixou
para a humanidade peças do calibre de “Édipo-Rei” e “Electra” compôs uma linda
e admirável poesia.
“Antígona”,
por acaso, encerrou o bonito projeto do Sesc/Artes Cênicas. Como não há a menor
possibilidade de se analisar todas as peças do programa, optou-se em apreciar a
obra de Sófocles, dada sua imortalidade. Isso, é claro, sem qualquer intenção
de desmerecer nenhuma das demais. Estão de parabéns os organizadores e elencos.
Agora,
vamos a nós: o Coro, em seu todo, foi uma surpresa. Composto por vinte pessoas
– moças e rapazes em trajes quase que sumários – e que amiúde movimentavam-se
como verdadeiros malabaristas, se contorcendo em vigas de ferro, lembraram-nos
um picadeiro. Alguns atores, inclusive, apareceram nus, remetendo-nos (é
inevitável) às carnavalescas montagens de Zé Celso Martinez. Existe uma cena no
espetáculo que, a meu ver, fora extremamente inútil: quando todos eles se
abraçam, esfregando-se uns nos outros, numa estranha dança carregada de
lascívia. Sem dúvida, o diretor quis passar a ideia da unidade da opinião pública
defendendo a postura da protagonista. Porém, essa imagem, sensualizada ao
extremo, não me pareceu a mais adequada, posto que não acrescenta nada ao
enredo. Bastava o momento (feliz) em que o coro sorri, à revelia do rei,
deixando transparecer sua censura quanto ao edito, sem a necessidade de
sexualizar a cena.
IRREVERÊNCIA
Kassem,
caracterizado como um palhaço no papel do Emissário foi um equívoco: seu modo
excessivamente irreverente ao narrar ao rei a descoberta dos cuidados ao
cadáver interditado, mais lembraram o bobo da corte do que um infeliz servidor
que teve o azar de ser o portador da mesma. Sua maneira infantilizada de se
expressar é inaceitável sob qualquer aspecto, na medida em que ele está diante
de uma autoridade – a quem se deve temer – e não parlamentando com um amigo ou
um colega. Se o personagem nos diz claramente: “Eis-me aqui, contra a minha
vontade e contra a vossa, porque ninguém se alegra em ser o portador de más
notícias”, como explicar que ele fosse tão satisfeito e descontraído ao
anunciá-las?
Edênia Góis (Eurídice),
Marcelo Paz (Hémon; papel que nada tem de fácil), Régi Gondim (Corifeu) e Sandra
Azevedo (Ismênia) embora aparecendo menos, desempenharam seus papéis com
bastante competência.
A
interpretação de Jane Carvalho (Tirésias) fora louvável. Ela entrou, deixou seu
recado e retirou-se – mas eu gostaria de fazer uma ressalva: na medida em que
vai falando, o personagem começa a rolar no chão, convulsivamente,
desenhando-se a nossos olhos um quadro grotesco. É algo que não deixa de
surpreender, porque esse arrebatamento, cujo espírito revela-se demasiado
agitado e ressentido, não caracterizam o adivinho com exatidão. Como o homem
que “traz consigo a força da verdade”, Tirésias representa antes de tudo a
mansidão e a tolerância, sempre aliadas àqueles que são os intérpretes dos
deuses. No caso, não se trata nem de um erro – e sim de um evidente exagero.
O Creonte de
Lindemberg Monteiro era exatamente o que se esperava. Categórico e resoluto em
suas decisões, sua voz fez-se ouvir e respeitar. A atuação dele possui a
energia e o vigor inerentes ao grande personagem que interpreta.
Por fim, a
protagonista. Meu Deus, o que foi aquilo que vimos na Casa da Rua da Cultura no
último domingo? O desempenho de Aimée Resende foi tão sincero e corajoso, que
somente uma atriz profundamente passional seria capaz de realizar. Há na
atuação de Aimée a determinação latente que as heroínas obstinadas exigem. O
momento em que ela balança-se freneticamente, apoiada sob um cabo de aço,
despedindo-se dos cidadãos, fora simplesmente magistral e carregado de beleza.
Comovente e inesquecível.
No cômputo
geral, parece que com “Antígona”, a parada da Cia. Stultífera Navis está ganha.
A direção de Lindemberg Monteiro justificou-se na medida de se adaptar aos
nossos dias um clássico com ideias bastante sugestivas. O espetáculo fora
apresentado gratuitamente. A ovação que se seguiu ao seu término atestou que se
trata, efetivamente, de um grande trabalho.
______________________________
* É professor e pesquisador de
teatro.
Contato: @junior_teo
As humanidades não Humanizam
As humanidades, escreveu o crítico George Stein, não humanizam. Estou cada vez mais convencido disso. Até hoje, não consta que uma obra literária tenha salvado uma única criança da fome, impedido uma guerra ou estancado o sangue que os homens insistem em derramar uns dos outros. Porém, se as artes não salva, nem conforma totalmente o homem, tão pouco sem ela, essas coisas deixariam de existir.
Escrevo isso a propósito do que li aqui.
O livro não existe
“A
partir do momento em que você entrega um livro - essa é a principal angustia de
um escritor - ele deixa ser seu. O livro só existe quando cada leitor senta pra
ler. Na verdade o livro não existe dentro do livro. O livro existe na cabeça de
cada um. Se cada um aqui pegar o meu livro pra ler, cada um vai ler um livro
diferente. Esse livro só vai existir para ele”.
José Castello aqui
O profissional da memória - Poema de João Cabral
.
O PROFISSIONAL DA MEMÓRIA
Passeando presente dela
pelas ruas de Sevilha,imaginou injetar-se
lembranças, como vacina,
para quando fosse dali
poder voltar a habitá-las,
uma e outras, e duplamente,
a mulher, ruas e praças.
Assim, foi entretecendo
entre ela, e Sevilha fios
de memória, para tê-las
num só e ambíguo tecido;
foi-se injetando a presença
a seu lado numa casa,
seu íntimo numa viela,
sua face numa fachada .
Mas desconvivendo delas,
longe da vida e do corpo,
viu que a tela da lembrança
se foi puindo pouco a pouco;
já não lembrava do que
se injetou em tal esquina,
que fonte o lembrava dela,
que gesto dela, qual rima.
A lembrança foi perdendo
a trama exata tecida
até um sépia diluído
de fotografia antiga.
Mas o que perdeu de exato
de outra forma recupera:
que hoje qualquer coisa de um
traz da outra sua atmosfera.
João Cabral de Melo Neto. Museu de Tudo, p.401-402.
Lições pelo caminho
.
A docência é uma profissão de surpresas, encantos e muitas, muitas descobertas. Como ocorre em qualquer ofício, traz consigo também, volta e meia, um bocado de frustrações. Mas essas são rapidamente superadas quando, o que assistimos em sala de aula, contradiz o convencionalismo no qual se tornou o ensino atualmente e restaura a nossa confiança de que ainda há alternativa. Outro dia estava em sala e durante uma discussão surgiu uma palavra, que para maioria dos meus alunos era desconhecida. A palavra era INANIÇÃO. Alguém perguntou o sentido da palavra, quando do fundo da sala, antes mesmo que eu pudesse abrir a boca, emergiu uma resposta incomum e ao mesmo tempo brilhante, que quase me arrancou o fôlego e sufocou qualquer outra resposta que eu pudesse oferecer. “INANIÇÃO”, disse apressada a minha aluna, “É UM TIPO DE MORTE QUE SOMENTE O POBRE SABE COMO É”. Assaltado pela surpresa eu balbuciei alguma coisa que concordava com a descrição que acabava de ouvir. Nesse dia voltei para casa revigorado.
Insolvência
.
O intelectual de
esquerda, David Harvey autor do livro a Condição Pós-Moderna afirma em seu mais
recente trabalho que uma alternativa viável à crise financeira que assola os
países europeus é, dar o calote nos bancos que arruinaram as finanças dos
estados e ameaça agora a sobrevivência de milhares de trabalhadores na Espanha,
Portugal, Itália e principalmente na Grécia. No seu livro O ENIGMA DO CAPITAL, que
sai no Brasil pela Boitempo ele diz que não é justo que o trabalhador arque com
todos os ônus de uma política financeira desastrosa e desumana. Caberia,
segundo o geógrafo, ao capital especulativo e aos bancos, que geraram todo esse
imbróglio, assumir o rombo. O que tem haver o trabalhador com esse problema?
Por que os governos europeus insistem em congelar os salários, aumentar os impostos,
demitir servidores, aumentar o período de contribuição para previdência entre
outras medidas para salvar o capital financeiro? Essas e outras questões são
discutidas nesse trabalho.
O agravamento da crise europeia
.
De repente, o mundo parece ter saído
dos eixos, ou será que agora ele estar se ajustando? Por muitos anos os países europeus gozaram de uma estabilidade econômica
e social que os puseram à frente das conquistas tecnológicas, políticas e
militares. À segurança desse dias, contrastam agora com a instabilidade e as
incertezas que levam multidões às ruas, por toda europa, expressarem o seu descontentamento.
As respostas
políticas adotadas, com vistas a contornarem a situação, lembram mais os bárbaros
procedimentos médicos que tratavam o paciente anêmico infundindo sanguessugas, do
que com as intervenções cirúrgicas, que fizeram a fama da Europa um continente
civilizado.
A julgar pelos relatos
que lemos nos jornais e blogs, assistimos o desmoronamento moral, político e
social de um continente que, por séculos, ditou, a ferro e fogo, os rumos do
mundo. O risco agora é de que essa erosão econômica descambe para a desagregação
social, com consequências ainda piores para o continente. Sem emprego,
previdência social, crédito e perspectiva de alteração da economia, veremos o quão civilizados os europeus podem
ser.
UMA FORÇA DA NATUREZA - TENNESSEE WILLIAMS
.
Téo Júnior*
FORÇA DA NATUREZA
Téo Júnior*
Classificado pela crítica
mais honesta como sendo o melhor teatrólogo norte-americano do século XX depois
de O’Neill, o dramaturgo Tennessee Williams teria feito cem anos no ano passado
se não tivesse morrido em 1983.
Williams extraiu de sua
vida atribulada e infeliz a matéria-prima que ganhou corpo nos palcos e o
projetou para o estrelato. Se no teatro brasileiro Dias Gomes evidenciou a
religião mesclada às nuances políticas (“O Berço do Herói” e “O Bem Amado” são
exemplos) ou Guarnieri, que assinalou o cotidiano da classe operária, alguns
temas eram especialmente caros a Williams, todos eles podendo se resumir na
obsessão de se estabelecer o império familiar, contudo prestes a desmoronar.
Tennessee escreveu
muitas obras geniais, claro, dentre as quais: a maravilhosa “Bonde Chamado
Desejo” (1947), “Anjo de Pedra” (1954), “Gata em Teto de Zinco Quente” (1955) e
“A Noite do Iguana” (1961). Há alguns anos, Décio contou que o espetáculo que
mais lhe marcara fora justamente o “Bonde”, que ele assistiu em Nova York. Em
cena, um ator bonito e muito jovem: Marlon Brando.
As personagens
femininas de Williams, porém, destacavam-se dos homens com quem contracenavam
porque elas eram passionais, fortes, exageradas, dominadoras. Suas peças
ganharam ressonância no cinema, seus enredos foram vistos em quase todos os
idiomas e sacudiram as grandes audiências. Elizabeth Taylor, morta em março,
simbolizou, sem dúvida, a maior expressão do que uma mulher saída da pena de
Tennessee seria capaz.
Yan Michalski, outro
gigante da crítica, apreciando a atmosfera de Williams, apontou uma “sociedade
condenada” e “sensibilidades adormecidas”. Elia Kazan, primeiro diretor do
“Bonde” falou em “civilização que agoniza”. Em síntese, floresce nesta
dramaturgia a convivência atribulada entre os indivíduos, gerando (como era de
se esperar) atritos descomunais, onde parece não haver nenhuma espécie de
escapatória para eles. Todavia, nota-se o desejo instintivo de não permanecerem
paralisados ante seus flagelos. Há, nas histórias de Williams, aquele começar e
recomeçar tal qual o bordado de Penélope.
É a capacidade de
enxergar a intimidade humana sem lentes embelezadoras, atrelada a um privilégio
de constatar que a prática é muito mais triste e distinta do que supõe a vã
filosofia teórica, que faz de certos homens grandes escritores. Tennessee fora
um deles.
A função do escritor,
por mais que arranhe determinadas sensibilidades é – parafraseando Todorov –
documentar a verdade.
Ao que nos consta, a
data passara despercebida por nossos elencos. E é lamentável que nenhum
encenador tenha manifestado o interesse de dirigir qualquer texto desta força
da natureza que foi Williams. Teatro, senhores diretores, é prestação de
serviço. Não se esqueçam jamais disso, como nós não nos esquecemos.
* É crítico de teatro e colaborador do blog NAVEGANTES....
Contato: junior_teo
O poeta e a sociedade
O poema abaixo foi escrito na
década de 80 pelo escritor Affonso Romano de Sant´anna, mas é de uma atualidade
inegável. Lendo-o posso confiar nas palavras de Mario Vargas Llosa que disse
ser a poesia o espaço da restauração e preservação dos sentidos nobres das
palavras. Os muitos usos que fazemos diariamente delas, associado a algumas
circunstâncias e licenças imorais que frequentemente ocorrem na política, na
economia e em outros setores da sociedade, desgastam os sentidos originários e
induzem as palavras um sentido enviesado, que tem como funções, desmerecer,
desacreditar e lançá-las no desuso, principalmente aquelas que mais importam
para construção de uma sociedade igualitária e justa.
Uma vez que não existe mais a
palavra some com ela o objeto ou a ação que lhe dava vida. Isso está ocorrendo
nesse instante e em toda parte. Essa não é uma ação impensada, como muitos poderiam
imaginar. Ao desarmar uma palavra os políticos e os malfeitores asseguram,
silenciosamente, uma visão de mundo em que todos os inconvenientes -ao menos aqueles
que lhes doem o calo - deixam de existir. Um mundo sem “ordem” ou organizado
segundo as vontades de um grupo cria uma nova língua e com ela os valores que
orientarão todas as ações. Foi assim que o Nazismo e as ditaduras privaram as
palavras Democracia e Liberdade de circulação e instalaram um regime de terror
sem precedentes na história.
Triste mundo em que a “paz”,o
“amor”, a “esperança”, a “decência”, a “justiça” e a “honestidade”, já não são
mais tão importantes ou significam o que um dia todos nós esperávamos. Pairam
sobre elas certa desconfiança que vão pouco a pouco mudando o seu sentido para
outra esfera, menos representativa e mais envelhecida pelo cansaço provocado
pela contradição dos discursos. Contra esse ataque às palavras, contra o seu
envelhecimento, contra o descrédito é que insurgir-se o poeta. A ele cabe
restituir, contra toda prova, os sentidos primários que o sistema insiste em
desprestigiar. O poema de Affonso Romano de Sant´anna exemplifica essa prática
do poeta. Ele lança luz sobre as contradições da sociedade brasileira e
questiona os valores sobre a qual ela insiste em se assentar, ao tempo em que,
revela como o discurso, baseado na divergência das ações, torna todas as
palavras pronunciadas pelo brasileiro um faz de conta.
SOBRE
A ATUAL VERGONHA DE SER BRASILEIRO
" Este é o
país do diz e do desdiz
onde o dito é
desmentidono mesmo instante em que é dito.
Não há linguista e erudito
que apure o sentido inscrito
nesse discurso invertido.
Aqui
o dito é o não-ditoe já ninguém pergunta
se será Benedito.
Aqui
o discurso se trunca:o sim é não
o não, talvez,
o talvez
-nunca".
Marcadores:
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Sociedade
FÉRIAS
ESSE BLOG VAI SAIR DE FÉRIAS HOJE E SÓ VOLTA... AINDA NÃO SABEMOS, MAS ESPERAMOS QUE O RETORNO SEJA BREVE. O NOSSO DESTINO É CRUZAR O ATLÂNTICO E ALCANÇAR O VELHO MUNDO. A TODOS DESSA NAU DOS INSENSATOS UM FELIZ NATAL ANTECIPADO E BOAS FESTAS.
VIANA OUVE VOZES
Téo Júnior*
De
vez em quando, nós aqui do “Navegantes” temos a grata satisfação de encontrar por
aí esses quase deuses, porque, conforme assinalou Todorov, a literatura
confunde-se com a própria vida. “Deus foi o primeiro artista, e o mundo é seu
poema”, escreveu ele em A Literatura em Perigo. Partindo-se do
pressuposto de que a literatura, se não muda o mundo por si mesma, ajuda o
indivíduo a suportá-lo, é sempre muito agradável saber que esses grandes
criadores estão por aí, na planície – e não encastelados, como supúnhamos. Os
deuses, às vezes, descem do Olimpo para a superfície.
Nós,
desde sempre, temos muito apreço pelos escritores porque todos estamos carecas
de saber que escrever é uma arte que poucos possuem. Cansei de ouvir dizer que
“escrever é fácil”, “criticar é fácil”; na boca dos incautos, tudo é fácil.
Pois não é de jeito nenhum. Escrever é difícil. Requer tempo, paciência,
imaginação, talento, persistência, técnica.
Tive
o prazer de conhecer pessoalmente e conversar, embora por pouco tempo, com um
grande nome da literatura brasileira que é Viana, em Aracaju, onde ambos
moramos. Não se pode dizer que ele seja uma revelação, porque já escreve há 40
anos, mas ficou conhecido do grande público quando (re) publicou seus trabalhos
pela editora Companhia das Letras, talvez a maior do Brasil. Mas quem quiser
ofender gravemente Antonio Carlos Mangueira Viana diga que ele é
“regionalista”, pois esta classificação não se justifica, definitivamente. Ele
pode tanto falar do sertão sergipano cujo sol é de cozinhar os miolos, seu
personagem pode morar perto da praia no Rio de Janeiro ou ele pode até mesmo
narrar as agruras enfrentadas no frio parisiense. Quer em Sergipe, quer na
Europa, sejam ricos ou pobres, seus personagens sofrem, vivem experiências
dilacerantes, carregam consigo velhos fantasmas – e nós, concomitantemente, os
nossos. Nos contos de Viana, são ressaltadas tanto a alta cultura como a
miséria. Suas criaturas tanto podem ouvir Monlight
Serenade ou Waldik Soriano.
Alguns
contos são extraordinários e eu os recomendo. Em Aberto está o inferno, são imperdíveis “Batalha”, sobre um
irresponsável que engravidara uma empregada doméstica “desmiolada”, segunda a
própria ou “Doutora Eva”, que faz questão de ser juíza o dia todo, até mesmo no
banheiro. “Reverendíssimo Padre Diretor” é um justo, justíssimo acerto de
contas ente o oprimido e seu opressor.
Cine Privê, por sua vez, vale o conto
homônimo, sobre um infeliz derrotado pela existência, e o emprego que lhe
restou, foi o de limpar cabines de um cinema pornográfico. Vale conferir também
“Tia Darcy ouve vozes” e “Eliazar, Eliazar”.
O Meio do Mundo, sua estréia na
Companhia das Letras, traz contos monumentais, e talvez seja dos três o mais
aterrador e o meu preferido: “Meu Tio Tão Só”, “Dias de Jó” (ambos destacam a
solidão terrível) são indicados. Ao mesmo tempo, recordo-me de “Vá, Deralda!” –
o melhor conto que eu já li até hoje – e, por fim, o primoroso “Jardins
Suspensos”, incluído na seleção dos “100 Melhores Contos da Literatura
Brasileira do Século XX”.
Leiam
Antonio Carlos Viana, comprem seus livros, e preparem-se para sofrer. Penetrar
em sua obra é muito angustiante e ao mesmo tempo tão atraente quando subir numa
montanha russa. Sabe-se de antemão que será uma aventura incomum, mas
compensadora quando se chega ao fim e a máquina para.
A
autêntica literatura tem este poder: fazer com que nós não permaneçamos
indiferentes ante as barbaridades do mundo, cuja maldade estamos rodeados as 24
horas do dia. Viana é muito hábil para cumprir a função do escritor. Trata-se
alguém que sabe muito bem o que diz – e o diz maravilhosamente. Ele tem força
nos pulsos.
* Téo é crítico de Teatro do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador esporádico do Navegantes.
* Téo é crítico de Teatro do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador esporádico do Navegantes.
Diretor do espetáculo Baianidade Baiana comenta a crítica de Téo Júnior
Téo Júnior, jovem revelação da crítica de teatro, escreve ocasionalmente no blog "Navegantes ao Mar" e no jornal Cinform, de Aracaju. Suas publicações são quase sempre relacionadas ao teatro e, esporadicamente, de cultura de uma forma geral. O espetáculo Baianidade Baiana, ao passar por Caetité, foi vista por Téo e ele publicou sua análise aqui no blog. O diretor Alberto Damit, ao tomar conhecimento da crítica, escreveu a respeito. Como o objetivo da blog "Navegantes nao Mar" não é o de destacar uma opinião, apenas, como sendo a verdadeira, e sim fomentar as discussões, publicamos na íntegra o texto de Damit.
"Li com satisfação sua crítica a respeito de nosso Baianidade Baiana, acho importante e até nobre a discussão quando ele resulta de estudo ou até mesmo observação de uma obra artística. Acredito que o teatro tem este poder, fazer pensar e com isso melhorar nossas atitudes. Agradeço a atenção.
Porém acho necessário esclarecer algumas colocações sobre suas críticas:
Baianidade Baiana utiliza-se do Stand up e do besteirol para elucidar os devaneios preconceituosos de quem só conhece a Bahia pelo cartão postal. Durante quase dois anos, pesquisamos os motivos que fazem os turistas folclorizar e muitas vezes discriminar o jeito de ser de nos Baianos.
Somos uma Cia. que estuda o comportamento do preconceito, conhecemos bem sua manifestação. Fazemos teatro popular com o objetivo de atender a uma plateia que compreende e consome comédias, porém é comum encontrar resistência de uma pseudoelite que acredita que o teatro necessita ser construído a partir de modelos utrapassados, distanciado e sem a mácula do riso. Não é isso que achamos. A arte é diversa, assim como os gêneros do teatro, não se pode diminuir esta ou aquela manifestação artística que seja sustentada pela concordância do risos ou dos plausos, e não compreender esta tendência é quase um crime.
Me chamou atenção o fato de uma pessoa culta escrever que nosso tiíulo Baianidade Baiana é redundância. A Baianidade é presente em diversos lugares do Brasil, a Baianidade Baiana esta sim somente aqui.
Para lembrar: *Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na arte. Ela é permitida para que o escritor tenha toda a liberdade para manipular as palavras, para que ele possa passar tudo o que pensa ao leitor. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.
*"Sistema de consulta interativa - Estadão", p. 171. Editora Klick. São Paulo (1995)
A respeito de sua comparação com A Praça é Nossa, ficamos lisonjeados uma vez que este programa sempre se destacou pela diversificação em seu humor. Nesses 24 anos, foram produzidos mais de mil programas inéditos. Sem contar que já desfilaram pelo banco da praça mais de 120 artistas, entre humoristas e comediantes, que protagonizaram o respeitável número de 250 personagens.
Baianidade Baiana obteve excelentes críticas em Minas e no Espírito Santos, e foi convidado para uma temporada de três meses no Teatro Candido Mendes em Ipanema no Rio de Janeiro em 2012.
Por fim achamos que diversidade nos seus aspectos mais amplos deveria ser exercitada como um todo pela sociedade e não apenas dentro da sala de aula ou num blog. A diversidade é um princípio humanista para conseguirmos construir um mundo onde possamos viver com mais respeito, compreensão e paz.
As pessoas com elevado grau de compreensão sobre a diversidade cultural, em geral têm comportamento mais tolerante e contribuem para menor ocorrência da violência e as manifestações racistas.
Devemos todos ajudar a construir um mundo com mais DIVERSIDADE.
Alberto Damit
Diretor do espetáculo
ESPETÁCULO DIVERTIDÍSSIMO ABORDA INFERNOS PARTICULARES
.
De fato, todos nós temos sérios problemas sexuais
Téo Júnior *
Se existe um
assunto que o teatro soube explorar à exaustão, com certeza é o sexo. Desde os
gregos (“Édipo-Rei”, por exemplo, realçou o incesto, terrível e chocante,
porque relacionado a um tabu social), passando pela crise e a monotonia do
casamento, onde os cônjuges, já saturados, cogitam sem qualquer disfarce até
mesmo o adultério – circunstância que Albee compôs como ninguém – até chegarmos
aos instintos mais baixos do ser humano – leia-se devassidão – verificados nos
textos de Genet e no universo quase sempre pantanoso de Nelson Rodrigues, com
as “bonitinhas, mas ordinárias” da vida.
Desde os tempos
inenarráveis de Calígula, até os dias que correm, a humanidade jamais parou de
fazer sexo – tanto para fins de procriação ou como um mero passatempo. “Senhor,
concedei-me a virtude da castidade – mas não agora!”, escreveu Santo Agostinho.
Em “Todo Mundo
tem Problemas Sexuais”, de Domingos Oliveira e Alberto Gondim, são abordados
esses infernos no tocante à intimidade das pessoas. E aí entramos num campo
minado – e sombrio, já que a sexualidade sempre acompanhou a vida dos indivíduos
considerados saudáveis, e cuja finalidade é proporcional prazer e bem-estar, mas
que acaba se convertendo num fardo. A lista é extensa e penosa: surgem o
fantasma da impotência, homossexualidade, traição, os encontros na internet que
quase sempre culminam em frustração, sexo grupal (sic!) e um repertório
enciclopédico de palavrões que faria a alegria de uma Dercy Gonçalves.
A peça resulta
interessante porque, dividida em 6 quadros, destaca situações que seriam
consideradas dramáticas numa primeira instância, para no palco elas se
transformarem em objeto de comicidade. Embora mergulhados em suplícios
aterradores, paradoxalmente manifesta-se nesse povo o desejo incontrolável de prosseguir
sua atividade (ou tara) sexual.
Em cena, apenas
uma cama por onde todos os personagens passam. Há tipos demasiadamente
pitorescos, como o baiano safado (Eduardo Albuquerque) da 1º. quadro que se
apaixonou pela colega farmacêutica (Mariana Moreno; não se sabe qual deles é o
pior) e uma protestante ninfomaníaca (Cida Oliveira) que teve a cara de pau de
trair o marido na própria casa, com o patrão dela, gordo e bêbado.
Não diria que o
espetáculo fora maravilhoso, não há a necessidade de exagerar, mas fora bem
trabalhado. Os textos ficaram claros e estabelecidos de modo cuidadoso; uma
produção caprichada, os atores estavam seguros de seus papéis e as soluções
dramatúrgicas para temas tão variados foram inteligentemente desenvolvidas. Em
suma, uma peça divertidíssima e muito responsável.
Mas, caminhando
para o final, o espetáculo desabou num precipício: eis que surge em cena,
inesperadamente, um sujeito trajando roupão e uma touca cor de rosa, de um
excepcional mau gosto, dizendo-se o personagem “mais importante” da história e
reivindicando o direito de “se manifestar”. Identificou-se como sendo o pênis.
(Ah, Meu Deus...). É impressionante o festival de besteira que assola o teatro
e que eu sou obrigado a aturar. Onde já se viu isso? Então, o órgão masculino
narra sua “via-crúcis” e, ironicamente, fora o quadro que mais agradou ao
público, a julgar pelas gargalhadas quase que histéricas que se ouvia. Num
determinado momento, ele admite que Fernando Gomes não soube como terminar a apresentação
e pediu que ele falasse o que quisesse. O recurso que os sábios de outrora
classificaram de “deus ex machina” pôde muito bem ter funcionado nas tragédias
gregas, mas em “Todo Mundo” foi sinceramente catastrófico.
Ora, se o
diretor não soube encerrar dignamente a peça, a incompetência é dele. Salvou-se,
além dos mencionados, o desempenho de Kadu Veiga e “Todo Mundo”, exibida no
feriado do dia 15 atingiu uma audiência que raras conseguem: todas as cadeiras do Teatro Tobias Barreto foram ocupadas. Durou
2 horas.
Publicado no jornal Cinform do dia 21/11/2011, pg. 5
"A pele que habito": um filme que merece ser visto
Téo Júnior*
Aracaju
O azul da camisa de Banderas dominando a tela, armas que cumprem sua função elementar: disparar, pessoas presas a cadeiras, muito sexo - como não? - e a discussão sobre os limites e a ambição de médicos que se pretendem revolucionários, ainda que atropelando qualquer espécie de ética. Até o mais incauto indivíduo, sem dificuldade, identificaria o criador desse enredo: Chama-se Pedro Almodóvar e o filme em questão é "A Pele que Habito" (La Piel que Habito, Espanha, 2011, R$ 18 o ingresso).
Resumindo: o filme que dura 2 horas possui o magnetismo e o vigor que faltaram ao último trabalho de Pedro, "Abraços Partidos". Porém, lá estão o suspense e o drama tão comuns no universo almodovariano, sobretudo verificadas em suas obras-primas. Não possuo competência pra fazer crítica de cinema, mas arrisco dar uma opinião enquanto fã do cineasta - o único diretor que acompanho a carreira mais detidamente. Diria que "A Pele que Habito" não seja a joia da coroa da filmografia e Pedro, isto é, não chega a ser uma obra genial, mas é um trabalho interessante.
Antonio Banderas, como sempre, surpreendendo numa atuação que assinala sua experiência e sua maturidade como o grande ator que é. Estranhei Marisa Paredes, quase que não a reconheci. Meu Pai Do Céu, como Marisa está velha! Por um momento, pensei se tratar da atriz Clayde Yáconis, já na casa dos 90. O filme , entretanto, decorridos 125 minutos, pareceu que ainda tinha muito a dizer. Há algumas referências ao Brasil, inclusive um dos personagens diz claramente: "Estava com saudade". Lembro que "saudade" é a única palavra que só existe na língua portuguesa.
É uma obra recomendável.
*Téo é o mais ilustre colaborador desse blog.
Os inconvenientes indispensáveis
Almada Negreiros (O prazer de ler)
.
O escritor Mario Quintana, mestre da literatura de miudezas, escreveu: "Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores". Desconfio dos primeiros, por isso, prefiro os segundos. Por temperamento, tendo às leituras que desafiam os leitores. Nessas, seguramente, eu poderei encontrar o que falta naquelas; coragem em dizer algumas verdades incontornáveis. Nenhum livro, que recentemente saltou das listas dos mais vendidos ao colo dos leitores, foi capaz de contrariar as expectativas ou de frustrar os anseios dos seus leitores, que por isso, lhes são muito gratos. Os que esgotam os leitores não têm a mesma sorte, nem por isso estão desconfortáveis. Há desconforto maior, creio eu, em viver a pressentir e segregar os inconveniente e as desilusões do mundo, do que ter a sua certeza.
Pobre Europa
.(revoltas populares na Grécia)
Na eminência de um
colapso na economia da zona do euro, os lideres políticos, até aqui, não
conseguiram encontrar alternativa à crise, que não tenha que passar pela
socialização dos prejuízos cometidos pelos banqueiros e burocratas de plantão. Mais
uma vez a população terá que apertar o seu já asfixiante orçamento para
resgatar a máquina econômica do fundo do poço. As medidas de austeridades para
Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda e em breve Itália, punem quem não tem nada
haver com a delinquência financeira que graça no mundo capitalista. As
propostas de austeridade pesam, exclusivamente, sobre os ombros dos trabalhadores
e da população em geral. Entre as medidas, apontadas pelo FMI como única
solução para crise, estão: aumentos dos impostos, cortes nas despesas do
Estado, demissões em massa, aumento da jornada de trabalho e privatizações.
Medidas ainda mais estranguladoras foram ventiladas. Um duríssimo golpe
naqueles que têm que lidar diariamente com as incertezas da vida e um golpe
fatal naqueles que ainda nem começaram a lidar com elas. Em meio a todo esse
arrocho não se ouve noticias de que haverá diminuição do número de
parlamentares, redução dos salários dos políticos, fim dos privilégios aos
dirigentes, punição aos desastrados e gananciosos agentes financeiros que
manipulam a economia a seu bel-prazer e segundo os interesses das corporações
financeiras, que deram inicio a tudo isso. Os privilegiados continuam
intocáveis, a massa, chafurdando na lama. Dessa maneira, as propostas de austeridade
não são equilibradas na distribuição dos sacrifícios para salvar a economia do
maior bloco político do mundo; nem qualquer outro país que esteja em risco. A mim essas medidas, da forma que estão sendo
conduzidas, parecem mais uma extorsão. Em não sendo a população produtora, os
culpados desses maus feitos, que assolam as economias europeias, não tem razão
os governantes de mandarem a conta pra eles pagarem. Quem deve pagar pelo
delito, são os agentes financeiros, os especuladores, os mercados exploradores
e toda essa récua, que dirige sem nenhuma habilitação os interesses do povo. Como
tudo que está ruim, pode piorar, fala-se em reformas ainda mais profundas e vampirescas,
como se a população trabalhadora já não estivesse sendo severamente molestada
em seus direitos. Alguns políticos, aproveitando a ocasião em que estão sendo
discutidas (discutida é uma palavra estranha nesse contexto, o que estamos
vendo na verdade é um massacre contra os direitos democráticos) medidas para
contornar a crise, já pensam em incluírem no pacote de estupro aos trabalhadores, propostas que mexem com o tempo de contribuição
para aposentadoria. Uh! Espertos, não? Com as privações a que estão sendo
submetidos, os jovens europeus não precisarão se preocupar com a aposentadoria,
e sim em sobreviverem a essa tormenta financeira.
Ondjaki: a poesia da aprendizajem
.
Anarquizar as palavras.
Remodelar a língua entortando-a até o estado poético. Esse é o esforço
empregado por Ondjaki (1977), escritor angolano radicado no Brasil, em seu mais
novo trabalho, Há Prendisajens com o xão (o segredo Húmido da lesma & outras descoisas) livro que acabo de ler
com grande prazer. Nesse percurso de aprendizagens, Ondjaki procura desvendar
os segredos guardados pelas palavras e explorar todo o seu potencial poético. Recriando-as
anarquicamente, ele apanha as lições de Manoel de Barros de que a melhor maneira de poetizar as
palavras é adoecendo-as ou infringindo os códigos para renovar os sentidos e
revigora as palavras, vitimadas pelo engessamento das convenções. Os sinais dessas
prendisajens manoelinas estão por
todo o livro. As referências a Manoel de Barros vão desde as insistentes
imagens que privilegiam as insignificâncias do mundo: apetece-me des-ser-me;/reatribuir-me a átomo.... (CHÃO). Borboleta é um ser irrequieto./para vestes
usa pólen/ tem um cheiro colorido.... (PARA VIVENCIAR NADAS). Para acumular dores/o mais das vezes/
bastou um desamor. (QUE SABES TU DO ECO DO SILÊNCIO?); à linguagem perpassada
pela torção que lhes aniquila a alienação imposta pelo uso cotidiano: a despalavreação/ pode acrescer de uma vida...
ou ainda apetece-me chãonhe-ser-me....
Nas extraordinárias imagens que surgem desse exercício lúdico com as palavras
reside o maior encanto desse livro.
lágrima
é
uma sensação que escorrega.
mundo
está seco de coisas e trans-sensações
assim
a lágrima presta-se
a
desressequir o mundo.
(...)
(LÁGRIMA, GOTA, LÁGRIMA
OU: TODAS DESPEDIDAS DO MUNDO)
(...)
Solidão
é uma esteira
Onde
se evite cochilar.
(...)
(REENCONTRO COM GOTAS)
O
inchaço do coração
Facilita
o despalavrear.
A
liberdade pode advir
De
uma veia.
Com
sangue também
Se
reescreve a vida.
O
suicidado foi um apressado
Para
desconhecimentos.
(...)
(INSCRIÇÃO)
Ao implodir todo
formalismo, Ondjaki cria uma poesia marcada pelo insólito onde a violação das
convenções linguísticas, descondicionam o olhar do leitor, abrindo-o à novas e
impressionantes visões sobre o mundo. Ondjaki diverte-se com as palavras, e
diverte ainda mais o leitor, criando mundos fabulosos onde os limites para
fantasia e à criatividade simplesmente se recusam em existir. A obediência às normas e às convenções são coisas incompatíveis com a poesia desse angolano de temperamento brasileiro.
Desajuizado
.
À vista, pois, dos maiores argumentos, nenhum político brasileiro cede à verdade e se rende à moralidade. A vaidade, a imoralidade e a tentação pelo dinheiro fácil, são coisas que não se arrancam a força dos argumentos e dos apelos populares. Antes, infiltra-se no mais fundo da alma desses homens onde esquivasse dos golpes da opinião popular, da justiça e dos interesses coletivos, fazendo morada perpetua. Os maus costumes são uma tradição dos homens da política nacional. Tenho, porém, malgrado todas as opiniões em contrário, esperanças de que um dia ainda responderemos aos achaques políticos com a coragem que hoje nos falta. Até lá Tiriricas, Arrudas, Rorizes, Godoys, Caraíbas e outras excelências, continuarão desmentindo minha boa vontade e fazendo de minhas opiniões futuras um desplante.
Autocomiseração
Um passeio pelas redes sociais,
esse intrépido passatempo moderno, e logo me deparo pensando em como as pessoas
andam modestas. Em todos os lugares das redes elas se confessam a todo
instante, politicamente desinteressadas, inteligentemente deficientes, indignas
ou incapazes de realizarem qualquer coisa. Ninguém crê ou tem convicção de nada,
a não ser de sua própria imperfeição. Elas se vêem sempre como mutiladas. Frases
como: “o primeiro desejo da inteligência é desconfiar dela mesma” ou “é preciso
coragem para ser imperfeito”, seguido, do clichê socrático, “só sei que nada
sei” e “preferia ser um burro para não sofrer tanto”, entulham os perfis ou se
somam às mensagens diárias que as pessoas enviam umas às outras. Ninguém quer
parecer auto-suficiente. Nos dias atuais isso soa indigno. Vai daí que as
coisas andem tão pantanosas como estão. Ninguém tem a mínima convicção de nada.
Andam todos em círculos esperando a voz de um líder que os indique o caminho.
Com tantas trilhas abertas eu me pergunto o que estão todos ainda esperando
para se enfurnarem em uma delas. Sigam as picadas ou desbravem rotas
alternativas. Parem de ler manuais de auto-ajuda.
Hora da virada
.
Multiplicam-se pelo
mundo os sinais de que uma virada está por vir. Será? As recentes insurgências
no mundo árabe despertaram também as jovens consciências ocidentais contra os
seus tiranos? Os gritos de liberdade empoeirados, ecoaram tão alto e tão longe,
ao ponto de aterrissarem às Puerta del Sol em Madri, passando pelo coração da
máquina econômica mundial e daí para outros inesperados lugares? A julgar pela
disposição dos jovens ocupantes das praças e ruas pelo mundo, não resta dúvida
que essa virada não tarda. As manifestações que eclodem contra o sistema,
provam que as alternativas políticas e econômicas até aqui ofertadas, não
serviram para alterar em nada a rota da exclusão e opressão que por séculos
escravizam alguns homens em beneficio de outros.
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