Há mais verdades nas fábulas do que na vida real

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Como professor, o meu esforço tem sido mostrar aos meus alunos, que eles devem, em muitas circunstâncias, pensar e agir como crianças. Não parece, mas essa não é uma tarefa fácil. Não entendam crianças aí como um ser imaturo ou imberbe. Essa é uma versão criada pelos adultos, que frustraram como crianças, e se envergonham disso. Entendam crianças como, alguém que enxerga a vida como um livro aberto, cheio de possibilidades. 

A verdadeira criança é traquina, buliçosa e aventureira. Ela não pára de perguntar e viajar nas maravilhosas fantasias que encobrem o mundo racional. A criança é aquele ser que dar beliscões no cérebro dos adultos, com perguntas embaraçosas como essa: “se o homem espantalho e o homem de lata não tem boca, como eles podem falar”. A criança é aquele serzinho que assusta cotidianamente as palavras com frases desconcertantes: “o balão morreu por falta de ar” ou “as palavras que rimam são aquelas que não se dão bem com as outras?”, “Podemos ser astronautas e ilusionistas ao mesmo tempo?”. A infância, portanto, não é um estágio passageiro da vida, e sim, aquele momento em que toda uma vida pode caber num livro sobre, tigres, por exemplo. 

Fico frustrado quando meus alunos intentam me dissuadir da ideia de que os bichos não falam, ou de que fantasmas e casas mal-assombradas são coisas falsas, irreais e ilusórias. Os seres fantásticos existem na medida em que eles encenam ações prováveis e possíveis. Devemos aprender as lições de Polônio em Hamlet que disse que com: “a isca da falsidade apanha a carpa da verdade. Assim nós, os entendidos, usando de cautela e circunlóquios, chegamos ao caminho por desvios”. E assim age a fantasia. Por desvios na razão atingimos a verdade. Não é fantástico? Despidos de verdades, falseando, trapaceando, podemos descortinar o mundo e encarar com destemor os desafios da vida. Por isso não devemos duvidar da existência desses seres maravilhosos. Eles existem, são tão reais quanto os ensinamentos que eles ilustram. E tão vivos quanto os sentimentos que encarnam. 

Há mais verdade nas estórias fantásticas do que no mundo real. Não acredito, portanto, em alguém que não crer na existência do Saci Pererê, Ogro, Pinóquio, Bruxas, Duendes e principalmente me revolto contra aqueles que insistem em querer me convencer de que o Pequeno Polegar não existe. Ora, isso já é demais. Para mim essas pessoas é que vivem no mundo das ilusões e sofrem grave enfermidade. Eu tenho certeza da existência desses seres. E principalmente creio que não existe apenas um Pequeno Polegar, mas vários, todos eles espertos e ágeis como o que li no livro de Perrault.  

Não entendo como as pessoas podem se tornar tão racionais a ponto de negarem o óbvio ululante. Eu vejo alguns desses seres todos os dias. Convivo com eles. Conheço ao menos duas bruxas, um dragão e quatro princesas encantadas, todas aguardando serenamente o seu príncipe. Ainda não vi unicórnio, nem fadas, mas creio que isso não seja motivo para desacreditar em sua existência, eles estão por aí, é certo. De alguns desses seres sou muito amigo. Outros, assisto a distância, com medo do que eles possam me fazer. Nem todos são bons. Há que se ter cuidado com os seres fantásticos. Sou tímido, mas gostaria de navegar um dia com Simbad ou Gulliver. Já li muitas vezes as suas histórias e fiquei enlevado. Ficaria encantado em conhecer Lilipute de perto na nobre companhia de quem lá chegou primeiro e nos trouxe a notícia desse mundo tão surpreendente. Enquanto esse dia não chega vou traçando planos para conhecer IL BARONE RAMPANTE que me observa da estante, enquanto escrevo esse texto, doidinho para que eu o acompanhe em mais uma grande aventura. 

Narcisistas, Voyeristas, Fetichistas, com quantos istas se faz uma sociedade?

Moça com brinco de pérola - estilizado
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Na ausência de uma plataforma midiática global que lhes arranque do anonimato, as pessoas encontraram um jeito de ganharem visibilidade, e se fazer percebidas em todos os gestos do cotidiano, elevando à última potência os sentimentos narcisistas. A exemplo do programa global, as pessoas do lado de fora, se esforçam dia a dia para aparecerem.  

Como não possuem nenhum atributo físico incomum, não têm qualquer talento musical, literário ou artístico de qualquer natureza, que as torne alvo dos holofotes da fama, elas se expõem narrando as trivialidades do cotidiano infeliz e maçante em que estão atoladas; aguardando com isso, a audiência de anônimos ou conhecidos. 

Em todas as redes sociais e aos quatro ventos elas anunciam, ensandecidamente,  que: “estou indo a academia... tenho que ficar gostosa igual à Juju” ou “aguardo impacientemente no hospital os meus exames”... “daqui a pouco vou curtir a naight”, escrito assim mesmo. As novas ferramentas da internet botou toda a manada de cabeça erguida. Agora a intenção não é mais observar a proximidade do predador, mas sim chamar a atenção dele. 

Imagino que a superexposição, como vem sendo praticada nos veículos da internet, alivia as tensões daqueles que se sentem frustrados, por não conseguir chamar atenção dos outros. Numa sociedade exibicionista como a nossa, as pessoas se ressentem de não estarem cumprindo o seu papel de anunciarem à malta "inchada de vaidade", que elas também existem. 

A atenção dos pares torna-se um alimento indispensável para sobrevivência na comunidade. O esgarçado tecido emocional, que encobre as pessoas no mundo moderno, não lhes deixa ver o ridículo, e o perigo, de saírem anunciando pelas redes sociais, cada passo, gesto e pensamento de suas vidas. 

Somente a mediocridade de uma existência sem emoções e sem sentido, pode explicar esse fenômeno moderno.  Somente a solidão espiritual de uma sombra, recorre a expedientes tão insignificantes para atingir qualquer rastro de luz.

Poesia


A propósito do dia da poesia, Teo Junior resolveu me provocar. Segundo ele Bandeira é superior a Cabral. Ele disse isso porque sabe que tenho muita afeição a poesia cabralina e ao estilo duro e seco que esse poeta empreende em seu versos. Somente Teo Junior é capaz de tentar provocar uma discussão baseado em fatos tão irrelevantes. A poesia, meu amigo, pra ser de verdade, ignora, qualquer gênero, escola, ou linha de pensamento. Ela é maior do que tudo isso. Agora eu me pergunto o que será mais fácil? O que será mais poético o amor, a dor de cotovelo ou uma pedra, uma faca ou bala. Quais dessas palavras estarão em melhores condições de narrar ao homem sentimentos e emoções? Todas. O poeta extrai das palavras sugestões. Agora, durante muito tempo, a única forma aceitável e usual de fazer poesia esteve relacionada a certo transbordamento de emoções, discursos confecionais e quejados.  Quando J.C. escolheu as pedras ele optou pelo caminho mais difícil. Ele inaugurou uma poesia que arrancava dos objetos inusuais e de forma incomum uma mensagem, que não se restringia aos estados espirituais e amorosos do eu lírico. Ele disse: “todas as palavras são poética”. O bom poeta será portanto, aquele que descondiciona as palavras de seu sentido dicionário, e sugerir  à elas sentidos até então jamais empregados. Esse é o verdadeiro ofício do poeta - resgatar as palavras do sentidos convencionais. João Cabral fundou, com isso, uma poesia que ainda não existia. Poucos podem dizer isso. Poucos poetas podem dizer serem criadores de alguma coisa. Quanto aos demais - leia-se ai os líricos - eles não tiveram coragem de encarar o trabalho de fazer poesia com objetos inusuais. Eles optaram pela tradição, pelo caminho já trilhado, pela picadas conhecidas e seguras. Talvez temessem contraria o público ou pior, desmentir aquilo que os legisladores recomentaram como socialmente aceito para aquilo que o homem médio se limita a ver. Ótimo. Nem todos são suficientemente arrojados. Isso não é um problema. O problema estar em querer tornar uma coisa superior a outra. João, sempre buscou o seu próprio caminho. Assim como muitos inovadores ele abriu a sua própria estrada. Nem todo mundo aceita as novas ideias. Haverá sempre aqueles, que preferem as zonas de conforto e, outros, que mesmo despedaçados pela injustiça, desconfiança e incompreensão, nunca desistirão de inovar. Creio que só avançamos na medida em investimos em novos caminhos - não estou dizendo que devemos ignorar os velhos- porém, não devemos viver a vida inteira sem desejar algo mais. Gosto da poesia de João Cabral porque pressinto nela um vigor que não encontro em outros poetas. A poesia cabralina me descortina novas possibilidades não só de compreensão do humano, mas também, e acima de tudo, mantém sempre viva a discussão dos limites da linguagem. Ele força a palavra a dizer sempre mais do que habitualmente estava acostumada a dizer, mantendo controle sobre o discurso.

Dalton Trevisan

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Você manda dizer que não tem decisão sobre o meu caso, quer dizer que está perdido, eu não quero saber, quero o dinheiro na minha mão seja como for, 19 anos que vivo nesta ilusão, cheia de esperança e no fim tudo perdido, por tua causa que nunca se interessou no meu caso, tem que dar conta do dinheiro, na minha mão eu quero os cem contos sem falta, esperava esse dinheiro para o fim de minha vida, minha velhice, ando muito doente, sem poder me tratar, você pensa que me deixa na miséria depois de tanta esperança, dando risada depois que desfrutou a minha beleza, não pense que fica assim, você é responsável pela minha perdição, há muito devia ter resolvido meu caso, você me abandonou e nunca ligou, só interessado em se aproveitar de mim, eu era donzela quando me desencaminhou, trate de dar um jeito no corpo, quero meus cem contos, esperando de braços abertos e depois de 20 anos não tenho mais direito, é isso que você pensa? eu quero o dinheiro da pensão, você me responda sem falta, senão vou aí na tua casa, envergonhando você na frente da tua família, nunca ligou para a minha pensão, se fosse para a cadela que já foi para os quintos você tinha se mexido, olhe que eu não estou brincando, eu só quero o que é meu, depois de 19 anos você não me larga na miséria, velha, doente, e fica se regalando, ganhando bem, e me deixa arruinada, quero o que prometeu a tua palavra de amante, meus cem contos, já não me incomodo com os juros, é favor responder esta cartinha, senão eu vou aí e será pior pra você, arranco os cem contos ou o teu coração com as unhas, sem mais aceite um beijo da sempre tua

Cidinha


Dalton Trevisan é um dos mais importantes escritores
do Brasil. Nasceu em 1925 em Curitiba.
Extraído do livro Mistérios de Curitiba.
(Edit. Record, 1996).

SHAKESPEARE VETADO

 
Paulo Autran interpretando "Rei Lear" (1996), obra agora "revista" e "adaptada" nos colégios americanos.
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Chega a notícia - desastrosa, a meu ver - que algumas escolas americanas querem substituir (isto é, censurar) certos trechos do magnífico legado de William Shakespeare, o mais admirado, estudado e enaltecido dramaturgo que já apareceu. Barbara Heliodora, crítica de teatro desde 1958 e atualmente no jornal O Globo dedicou toda sua vida para desbravar a gigantesca criação shakesperiana. Estudou-o mais do que qualquer outro intelectual no país. Fala dele com absoluta paixão e independência, pois sabe que Shakespeare é eterno. "O que não estiver na Bíblia está em Shakespeare", disse ela ao falecido dramaturgo Mauro Rasi.

Qualque espécie de censura soa como sendo uma maneira melindrosa e, pior, errática de impedir que determinadas verdades venham à baila, porque nem todas as verdades - como diz meu pai - podem ser ditas. Entretanto, a literatura é o campo (quiçá o único) que está numa posição privilegiada de se dizer tudo, sem meios-termos. A literatura tenta através do talento de certos homens e mulheres reprodizir, questionar, condenar os próprios indivíduos que pertencem a uma época e a uma sociedade. É como se o livro funcionasse como um "espelho público", onde nos enxergássemos continuamente, como dizia Molière.

Nada nos ensina mais do que os absurdos ocorridos nos períodos ditatoriais que tivemos, com mais violência o de 64, cuja canga fomos obrigados a suportar durante 21 anos. Jornalistas que de uma hora para a outra "suicidavam-se", teatros incendiados, atores boicotados na véspera dos espetáculos, sem aviso prévio da Censura Oficial, escritores presos e suas obras impedidas de circular (caso de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, de 1975 - tachado de "pornográfico"), para não falarmos da odiosa tortura.

A ditadura, pelo menos no Brasil, passou. A Censura (aparentemente) passou. Permaneceu a obra.

A Censura Oficial, ou seja ela qual for, quer-me parecer, ao vetar uma obra artística de chegar até o povo, julga estar "educando" este mesmo povo, coitado, tão fraco intelectualmente, tão inepto, que necessita de intérpretes que escolham por ele o que lhe é nocivo ou benéfico. Estranha, entretando, que em pleno ano de 2012 com a internet livre e os variados meios que oferecem sexo, violência a qualquer momento, que a sociedade americana - tão avançada e evoluída - tenha esse tipo de postura. É um retrocesso de quem acredita estar auxiliando uma sociedade, focalizada exatamente em sua raiz, ou seja, nos alunos, nos jovens estudantes, suprimindo-lhes obras essencialmente literárias, e o que é ainda pior: obras já consagradas, já canonizadas. Creio que num futuro próximo, esses adultos não gostarão de saber que um dia foram trapaceados pela educação que seus pais sustentaram, mediante pagamento de impostos.

Subliminarmente ou de maneira mais explícita, o sexo sempre esteve presente em tudo. Se se for suprimir uma obra porque ela focaliza o sexo, ou a violência, ou o crime, não fica um disco, um filme, um livro de pé. Num belo dia de 1958, após o espetáculo Os 7 Gatinhos, Nelson Rodrigues pediu a palavra e foi "explicar" sua peça à plateia (adulta) que a detestara e começara a gritar palavras de ordem. Precisava? Houve quem quisesse chamar a polícia. Será que esse público que pagou ingresso, não tinha condições - por si só - de refletir, de analisar as - vá lá - monstruosidades apresentadas? E a respeito da "intenção literária" do autor, será que alguém percebeu?

Mas do que a mera referência ao sexo, ou aos órgãos genitais, era extremamente fácil para a censura classificar uma obra de "pornográfica" e acabou-se. O que precisa ser efetivamente compreendido num texto é sua profundidade literária como um todo, e não atacá-lo por uma palavra, uma frase ou uma referência. É a primeria vez que ouço falar que Shakespeare é pornográfico e alguns termos de suas peças devam ser "alterado" por outras. Assustado, eu digo: NÃO.

A literatura tem poder de alterar diversos rumos num meio. Quando ousa falar a verdade, ela passam a representar um perigo para os "donos do poder" que se veem acossados, emparedados pela força da palavra. Shakespeare não fez nada além de focalizar o íntimo dos homens, como raciocinam os poderosos, os apaixonados, como os indivíduos engendram seus crimes etc. O grande poeta inglês mostrou que os seres humanos sentem inveja um dos outros, trapeceiam, dissimulam, traem etc. Considero uma heresia censurar obras de tão alto valor moral e ético.

Que os EUA são uma nação puritana, todo mundo sabe. Ela já vetou a estudo do evolucionismo num passado não tão remoto, pois ele entra em conflito involuntariamente contra o Criacionismo Bíblico. (Consta que Darwin era religioso). Agora, tenta alterar uma obra desta importância. Nos anos 90, talvez para dar um basta nessa hipocrisia toda, uma mulher já calejada pela vida, escreveu uma peça que - coitados dos americanos - se tornou o maior êxito daquela década e excursionou o mundo. A palavrinha que os americanos odeiam ler de cara já aparecia no título da peça, e Eve Ensler teve o despudor de narrar tim tim por tim tim as funções do órgão genital feminino, repito: nos seus mínimos detalhes, mediante entrevistas com diversas mulheres. O título de sua obra-prima: Os Monólogos da Vagina. Deve ser o livro que encabeça o índex americano nesses últimos anos.


TEO JÚNIOR

Improbabilidade poética - a poesia deixa de pertencer ao poeta quando ganha as páginas dos livros


A literatura promove encontros estranhos. Um deles ocorreu entre Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto. Chico Buarque de Holanda é o maior compositor lírico desse país. E justamente ele, que sempre carregou a sua poesia de um transbordamento de emoções e sentimentos, foi se juntou ao maior poeta anti-lírico do país para criar uma parceria improvável. Em 1965 Chico, então com pouco mais de vinte anos, foi convidado pelo diretor do TUCA, Roberto Freire, para musicar o poema que a companhia estava adaptando para o teatro. Daí nasceu o musical MORTE E VIDA SEVERINA. Um dos raros poemas de João Cabral que suporta música. Cabral, como todos sabem, era um poeta avesso a musicalidade, e se esforçou a vida inteira, para impedir que sua poesia expressasse alguma melodia involuntária. Ele acreditava que a musicalidade e o ritmo melódico de um poema, dispersava a atenção do leitor e o distanciava dos conteúdos poéticos necessários para compreensão da narrativa. Através da rima toante, frequentemente empregado pelo poeta em sua poesia para suprimir a música, a sua linguagem tornou-se uma marca de expressão individual que o distinguia de todos os poetas nacionais. Todos que ouvem um poema cabralino identificam de pronto a sua dicção. Ela é áspera, árida e seca, como as paisagens descritas em seus poemas. Em seu mundo particular, quase não se ouve nada, mas se ver muito. João Cabral optou pelo visual ao excluir os sons de seus poemas. A façanha dessa poesia foi a de se afastar daquilo que os legisladores literários sempre recomendaram: uma poesia direcionada aos sentimentos. Mas a poesia de João Cabral tomou o seu próprio rumo. Rebelou-se contra o poeta e revelou a sua face musical graças a genialidade de Chico Buarque que desentranhou das pedras cabralina, sons e emoções que o poeta jamais imaginou que elas contivessem.  

De repente Romeu ficou assexuado como os anjinhos das catedrais


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Como forma de ajustar os passos da sociedade ao ritmo do sistema, todos os regimes de exceção, indistintamente, praticaram a censura contra a literatura, o teatro, o cinema e outras expressões. Ditadores, reis, e governantes autoritários, desconfiaram sempre das histórias narradas pelos artistas. Elas poderiam como fez Shakespeare em Hamlet, desmascarar as tiranias dos lideres e constranger os governantes perante os súditos. 

A livre expressão do pensamento, desde sempre, constituiu assim, a esses regimes, uma ameaça devastadora, que devia ser combatido a qualquer custo. Não à toa, todos eles mantiveram formas de interdição, que, se não extinguiram de todo a livre circulação das ideias - como bem pretendiam os déspotas - serviu para mantê-las nos guetos, bem longe do grande público.  

Não faltam exemplos na história de perseguições, ameaças, torturas e degredo àqueles que ousaram desrespeitar as convenções. Em 1938 o poeta russo Óssip Mandelstam foi enviado a um Gulag e lá morreu por ter afrontado o ditador soviético Stalin, com um poema satírico. Stalin, alias, mantinha uma extensa rede de espionagem para assegurar o silêncio dos artistas e esconder assim, as atrocidades promovidas por ele nos campos de concentração. 

Investir contra a literatura não é mais um ato do passado. Nem são mais privilégios de ditadores. A cada dia uma nova e assustadora notícia de interdição assalta a crença de que já evoluímos o bastante para não atacar as artes. Primeiro foi a censura do CNE conta os livros de Monteiro Lobato, supostamente acusado de racismo. Depois veio a notícia de que o mesmo já havia ocorrido nos EUA quando escolas recusaramas obras de Mark Twain pelo mesmo motivo. Na França Hergé, autor de Tintim também não escapou a sanha moralizante, que prefere destituir a liberdade de expressão e artística, a discutir com seriedade as contribuições desses mestres para formação de gerações e mais gerações de leitores. 

Agora chega a notícia de que nos EUA - mais uma vez - algumas escolas estão fazendo ediçõesespeciais de Shakespeare com o intuito de eliminar, qualquer menção em suas obras, a atos libidinosos. Assim, palavras como pênis, vagina e suas congêneres, simplesmente sumiram. 

Ora como isso pode ser tolerado? Em que mundo de merda nós estamos? Excluir essas palavras do texto literário não assegura ao adolescente que ele não será promiscuo, tarado ou coisa pior - presumindo que esse seja o objetivo da censura. O psicanalista infantil Bruno Bettelheim em seu livro       A PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS, escreveu que “a cultura dominante deseja fingir, particularmente no que se refere às crianças, que o lado obscuro do homem não existe, e professa a crença num aprimoramento otimista”. 

Muito embora todas as pessoas nasçam através do ato sexual e isso seja muito natural para boa parte da população, alguns, ilustres guardiões da decência preferem fingir que o mundo é outro. Muitos pais, afirma BETTELHEIM, acreditam que só suprimindo realidades desagradáveis e reforçando os aspectos positivos da vida, assegurarão uma vida sem angustias aos filhos. Uma “dieta unilateral nutre apenas unilateralmente o espírito, e a vida real não é só sorriso”, conclui o psicanalista. 

Sobre qualquer pretexto a censura é um ato de violência que não pode ser tolerado pela sociedade. Ela se constitui numa afronta à liberdade e ameaça a pluralidade de ideias que são as bases de sustentação da sociedade moderna. Essas ações são reveladoras. Elas ilustram que não apenas os regimes autoritários, mas também, e infelizmente, a sociedade livre não tem a menor ideia do que seja arte e suas funções. 

A arte, quando recria o mundo em suas narrativas, não faz nada mais do que reproduzir de forma fictícia o que é produzido pelo homem. E o que é produzido pelo homem tem lá o seu quinhão de beleza, mas abunda também, uma asquerosa face que duela com os encantos. Não serão as ações dos censores, que evitarão qualquer desvio moral e restaurarão uma pretensa natureza bondosa do homem. Esqueçam. Então, não dever ser ela (a arte), que revela ao homem a si mesmo e ao mundo, que deva ser censurada. Antes, cabe ao homem, segundo seu arbítrio e individualidade, repudiar qualquer ação nociva e que exponha a sociedade ao perigo.  

CITAÇÃO 8


"De fato, na história da humanidade aconteceu um fenômeno importante, capital, que é o nascimento do pensamento científico e seu desenvolvimento. Esse fato é um valor intrínseco, em si mesmo, que eu realmente coloco fora do relativismo cultural. Agora, se você olha as coisas um pouco mais do alto, dirá que esse pensamento científico que respeitamos e que nos apaixona em seus progressos passo a passo, que se efetua no decorrer dos séculos, anos ou dias, é na realidade profundamente vão. Já que o que nos ensina é, ao mesmo tempo, a melhor compreender as coisas em seus detalhes e que não podemos jamais compreender na totalidade, no conjunto. 

O pensamento científico, ao mesmo tempo que alimenta nossa reflexão e aumenta nossos conhecimentos, mostra a insignificância última desse conhecimento. Depende do seu ponto de vista e do nível, que é o nosso, o do homem do século XX, do mundo ocidental, o pensamento científico é algo essencial, fundamental, e devemos utilizá–lo. Porém, se nos tornamos metafísicos, diremos que de fato ele é essencial, mas ao mesmo tempo é preciso saber que não serve para nada”.

(LÉVI–STRAUSS, C. Entrevista à Bernardo Carvalho, in FOLHA DE S. PAULO, 22 de outubro de 1989).

Uma “Antígona” de tirar o fôlego na Rua da Cultura


A bonita leitura da Stultífera Navis para o clássico sofocleano



Téo Júnior *

“Antígona”, magnífica obra legada pela Grécia Antiga – e que dera o merecido prestígio ao seu autor, Sófocles (496 – 406 a.C), conquistando o 1º. Lugar no concurso trágico de 442 a.C, conta a história da famosa donzela que, ao purificar o cadáver do irmão, assinaria sua sentença de morte. 

Os conflitos e as reviravoltas que o texto vai, aos poucos, apresentando, reclamam uma atenção e cuidado muito especiais de nossa parte, pois todo ele é permeado de emoções viscerais e intensas, já que os personagens agem guiados por convicções das quais não estão dispostos a retroceder tão facilmente. 

Creonte, uma vez estabelecido no trono de Tebas, parte do princípio de que deve ser obedecido – e não questionado, sejam quais forem suas resoluções. Antígona, por seu turno, considera-se no direito de transgredi-las, sim, quando estas não estiverem chanceladas pelos deuses, a quem venera. Não se pode compreender o teatro sofocleano sem se recordar de que os gregos eram profundamente religiosos e, portanto, tementes à vingança implacável do Olimpo. Observando-se por este ponto, notamos sem dificuldade, que são os poderosos – e não os meros mortais – quem experimentam a audácia de burlar as leis divinas, desafiando não raro a sabedoria dos oráculos etc., incorrendo-se desta forma em blasfêmia. 

Mas, como nada em teatro é tão simples quanto parece e antes que apontemos culpados e inocentes, há um fator em “Antígona” ainda mais perturbador: a única criatura que desacatou o decreto fixado pelo rei foi, ironicamente, sua própria sobrinha – e que será dentro em breve, sua nora. 

Até que ponto o Estado pode interferir naquilo que o cidadão julga necessário realizar? Eis a grande questão da peça, escrita há vinte e seis séculos. 

Uma leitura atenta de certos teóricos contemporâneos como Leyla Perrone (“Vira e Mexe, Nacionalismo”; Cia. das Letras) e Umberto Eco (“Interpretação e Superinterpretação”; Martins Fontes), desperta a atenção para com um fenômeno observado entre os grandes textos literários: a profusão das analogias, de semelhanças que há entre eles, cuja mensagem é a de que uma obra sempre está dialogando com a outra, e sem que nenhuma delas perca sua originalidade. Não resisto à tentação de estabelecer a maneira como Sófocles radiografou os poderosos: Creonte e Édipo (seu antecessor) têm em comum a irritabilidade, a pressa em julgar quem lhes rodeia, o (aparente) paternalismo pronto para converter-se em arrogância, e a fúria indisfarçável que há em suas palavras quando seus desejos não são prontamente atendidos. 

“Antígona”, antes de ser uma tragédia onde três indivíduos morrem devido à resolução de um tirano é, antes de tudo, uma parábola que sublinha aquele sentimento tão escasso hoje em dia: o amor legítimo. Amor por parte da protagonista, ao não permitir que o corpo de Polinices fosse profanado, servido de alimento para aves e cães – e, ato contínuo, amor para com seus progenitores, que certamente endossariam a empreitada. Amor de Hémon, destinado àquela que seria sua esposa, ao rechaçar com veemência a decisão precipitada do pai. Amor de Tirésias, não apenas para com a grandeza do gesto desta menina, mas principalmente respeito para com as divindades – que brota, espontaneamente, de suas iluminadas palavras. 

Ao acompanharmos “Antígona”, detendo-nos em cada detalhe, quer nas ponderações de Ismênia, quer nos argumentos ambíguos do Coro e também no embate entre a protagonista e o soberano (duas personalidades descomunais) temos a impressão de estarmos ouvindo uma sinfonia, e não lendo uma obra teatral. Ao representar “Antígona”, o mais destacado dramaturgo grego de todos os tempos – que deixou para a humanidade peças do calibre de “Édipo-Rei” e “Electra” compôs uma linda e admirável poesia. 

“Antígona”, por acaso, encerrou o bonito projeto do Sesc/Artes Cênicas. Como não há a menor possibilidade de se analisar todas as peças do programa, optou-se em apreciar a obra de Sófocles, dada sua imortalidade. Isso, é claro, sem qualquer intenção de desmerecer nenhuma das demais. Estão de parabéns os organizadores e elencos. 

Agora, vamos a nós: o Coro, em seu todo, foi uma surpresa. Composto por vinte pessoas – moças e rapazes em trajes quase que sumários – e que amiúde movimentavam-se como verdadeiros malabaristas, se contorcendo em vigas de ferro, lembraram-nos um picadeiro. Alguns atores, inclusive, apareceram nus, remetendo-nos (é inevitável) às carnavalescas montagens de Zé Celso Martinez. Existe uma cena no espetáculo que, a meu ver, fora extremamente inútil: quando todos eles se abraçam, esfregando-se uns nos outros, numa estranha dança carregada de lascívia. Sem dúvida, o diretor quis passar a ideia da unidade da opinião pública defendendo a postura da protagonista. Porém, essa imagem, sensualizada ao extremo, não me pareceu a mais adequada, posto que não acrescenta nada ao enredo. Bastava o momento (feliz) em que o coro sorri, à revelia do rei, deixando transparecer sua censura quanto ao edito, sem a necessidade de sexualizar a cena.



IRREVERÊNCIA


Kassem, caracterizado como um palhaço no papel do Emissário foi um equívoco: seu modo excessivamente irreverente ao narrar ao rei a descoberta dos cuidados ao cadáver interditado, mais lembraram o bobo da corte do que um infeliz servidor que teve o azar de ser o portador da mesma. Sua maneira infantilizada de se expressar é inaceitável sob qualquer aspecto, na medida em que ele está diante de uma autoridade – a quem se deve temer – e não parlamentando com um amigo ou um colega. Se o personagem nos diz claramente: “Eis-me aqui, contra a minha vontade e contra a vossa, porque ninguém se alegra em ser o portador de más notícias”, como explicar que ele fosse tão satisfeito e descontraído ao anunciá-las? 

Edênia Góis (Eurídice), Marcelo Paz (Hémon; papel que nada tem de fácil), Régi Gondim (Corifeu) e Sandra Azevedo (Ismênia) embora aparecendo menos, desempenharam seus papéis com bastante competência. 

A interpretação de Jane Carvalho (Tirésias) fora louvável. Ela entrou, deixou seu recado e retirou-se – mas eu gostaria de fazer uma ressalva: na medida em que vai falando, o personagem começa a rolar no chão, convulsivamente, desenhando-se a nossos olhos um quadro grotesco. É algo que não deixa de surpreender, porque esse arrebatamento, cujo espírito revela-se demasiado agitado e ressentido, não caracterizam o adivinho com exatidão. Como o homem que “traz consigo a força da verdade”, Tirésias representa antes de tudo a mansidão e a tolerância, sempre aliadas àqueles que são os intérpretes dos deuses. No caso, não se trata nem de um erro – e sim de um evidente exagero.  

O Creonte de Lindemberg Monteiro era exatamente o que se esperava. Categórico e resoluto em suas decisões, sua voz fez-se ouvir e respeitar. A atuação dele possui a energia e o vigor inerentes ao grande personagem que interpreta.  

Por fim, a protagonista. Meu Deus, o que foi aquilo que vimos na Casa da Rua da Cultura no último domingo? O desempenho de Aimée Resende foi tão sincero e corajoso, que somente uma atriz profundamente passional seria capaz de realizar. Há na atuação de Aimée a determinação latente que as heroínas obstinadas exigem. O momento em que ela balança-se freneticamente, apoiada sob um cabo de aço, despedindo-se dos cidadãos, fora simplesmente magistral e carregado de beleza. Comovente e inesquecível. 

No cômputo geral, parece que com “Antígona”, a parada da Cia. Stultífera Navis está ganha. A direção de Lindemberg Monteiro justificou-se na medida de se adaptar aos nossos dias um clássico com ideias bastante sugestivas. O espetáculo fora apresentado gratuitamente. A ovação que se seguiu ao seu término atestou que se trata, efetivamente, de um grande trabalho. 

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* É professor e pesquisador de teatro.

Contato: @junior_teo 

As humanidades não Humanizam


As humanidades, escreveu o crítico George Stein, não humanizam. Estou cada vez mais convencido disso. Até hoje, não consta que uma obra literária tenha salvado uma única criança da fome, impedido uma guerra ou estancado o sangue que os homens insistem em derramar uns dos outros. Porém, se as artes não salva, nem conforma totalmente o homem, tão pouco sem ela, essas coisas deixariam de existir.



Escrevo isso a propósito do que li aqui.

O livro não existe


“A partir do momento em que você entrega um livro - essa é a principal angustia de um escritor - ele deixa ser seu. O livro só existe quando cada leitor senta pra ler. Na verdade o livro não existe dentro do livro. O livro existe na cabeça de cada um. Se cada um aqui pegar o meu livro pra ler, cada um vai ler um livro diferente. Esse livro só vai existir para ele”.


José Castello aqui

O profissional da memória - Poema de João Cabral


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O PROFISSIONAL DA MEMÓRIA

Passeando presente dela
pelas ruas de Sevilha,
imaginou injetar-se
lembranças, como vacina,

para quando fosse dali
poder voltar a habitá-las,
uma e outras, e duplamente,
a mulher, ruas e praças.

Assim, foi entretecendo
entre ela, e Sevilha fios
de memória, para tê-las
num só e ambíguo tecido;

foi-se injetando a presença
a seu lado numa casa,
seu íntimo numa viela,
sua face numa fachada .

Mas desconvivendo delas,
longe da vida e do corpo,
viu que a tela da lembrança
se foi puindo pouco a pouco;

já não lembrava do que
se injetou em tal esquina,
que fonte o lembrava dela,
que gesto dela, qual rima.

A lembrança foi perdendo
a trama exata tecida
até um sépia diluído
de fotografia antiga.

Mas o que perdeu de exato
de outra forma recupera:
que hoje qualquer coisa de um
traz da outra sua atmosfera.


João Cabral de Melo Neto. Museu de Tudo, p.401-402.

Lições pelo caminho

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A docência é uma profissão de surpresas, encantos e muitas, muitas descobertas. Como ocorre em qualquer ofício, traz consigo também, volta e meia, um bocado de frustrações. Mas essas são rapidamente superadas quando, o que assistimos em sala de aula, contradiz o convencionalismo no qual se tornou o ensino atualmente e restaura a nossa confiança de que ainda há alternativa. Outro dia estava em sala e durante uma discussão surgiu uma palavra, que para maioria dos meus alunos era desconhecida. A palavra era INANIÇÃO. Alguém perguntou o sentido da palavra, quando do fundo da sala, antes mesmo que eu pudesse abrir a boca, emergiu uma resposta incomum e ao mesmo tempo brilhante, que quase me arrancou o fôlego e sufocou qualquer outra resposta que eu pudesse oferecer. “INANIÇÃO”, disse apressada a minha aluna, “É UM TIPO DE MORTE QUE SOMENTE O POBRE SABE COMO É”. Assaltado pela surpresa eu balbuciei alguma coisa que concordava com a descrição que acabava de ouvir. Nesse dia voltei para casa revigorado.  

Insolvência

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O intelectual de esquerda, David Harvey autor do livro a Condição Pós-Moderna afirma em seu mais recente trabalho que uma alternativa viável à crise financeira que assola os países europeus é, dar o calote nos bancos que arruinaram as finanças dos estados e ameaça agora a sobrevivência de milhares de trabalhadores na Espanha, Portugal, Itália e principalmente na Grécia. No seu livro O ENIGMA DO CAPITAL, que sai no Brasil pela Boitempo ele diz que não é justo que o trabalhador arque com todos os ônus de uma política financeira desastrosa e desumana. Caberia, segundo o geógrafo, ao capital especulativo e aos bancos, que geraram todo esse imbróglio, assumir o rombo. O que tem haver o trabalhador com esse problema? Por que os governos europeus insistem em congelar os salários, aumentar os impostos, demitir servidores, aumentar o período de contribuição para previdência entre outras medidas para salvar o capital financeiro? Essas e outras questões são discutidas nesse trabalho.

Para não esquecer


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Alguém aí ainda é capaz de julgar, que não vai nada de errado no mundo?

O agravamento da crise europeia

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De repente, o mundo parece ter saído dos eixos, ou será que agora ele estar se ajustando? Por muitos anos os países europeus gozaram de uma estabilidade econômica e social que os puseram à frente das conquistas tecnológicas, políticas e militares. À segurança desse dias, contrastam agora com a instabilidade e as incertezas que levam multidões às ruas, por toda europa, expressarem o seu descontentamento. 

As respostas políticas adotadas, com vistas a contornarem a situação, lembram mais os bárbaros procedimentos médicos que tratavam o paciente anêmico infundindo sanguessugas, do que com as intervenções cirúrgicas, que fizeram a fama da Europa um continente civilizado. 

A julgar pelos relatos que lemos nos jornais e blogs, assistimos o desmoronamento moral, político e social de um continente que, por séculos, ditou, a ferro e fogo, os rumos do mundo. O risco agora é de que essa erosão econômica descambe para a desagregação social, com consequências ainda piores para o continente. Sem emprego, previdência social, crédito e perspectiva de alteração da economia,  veremos o quão civilizados os europeus podem ser.

UMA FORÇA DA NATUREZA - TENNESSEE WILLIAMS

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Téo Júnior*


Classificado pela crítica mais honesta como sendo o melhor teatrólogo norte-americano do século XX depois de O’Neill, o dramaturgo Tennessee Williams teria feito cem anos no ano passado se não tivesse morrido em 1983.  

Williams extraiu de sua vida atribulada e infeliz a matéria-prima que ganhou corpo nos palcos e o projetou para o estrelato. Se no teatro brasileiro Dias Gomes evidenciou a religião mesclada às nuances políticas (“O Berço do Herói” e “O Bem Amado” são exemplos) ou Guarnieri, que assinalou o cotidiano da classe operária, alguns temas eram especialmente caros a Williams, todos eles podendo se resumir na obsessão de se estabelecer o império familiar, contudo prestes a desmoronar.

Tennessee escreveu muitas obras geniais, claro, dentre as quais: a maravilhosa “Bonde Chamado Desejo” (1947), “Anjo de Pedra” (1954), “Gata em Teto de Zinco Quente” (1955) e “A Noite do Iguana” (1961). Há alguns anos, Décio contou que o espetáculo que mais lhe marcara fora justamente o “Bonde”, que ele assistiu em Nova York. Em cena, um ator bonito e muito jovem: Marlon Brando. 

As personagens femininas de Williams, porém, destacavam-se dos homens com quem contracenavam porque elas eram passionais, fortes, exageradas, dominadoras. Suas peças ganharam ressonância no cinema, seus enredos foram vistos em quase todos os idiomas e sacudiram as grandes audiências. Elizabeth Taylor, morta em março, simbolizou, sem dúvida, a maior expressão do que uma mulher saída da pena de Tennessee seria capaz.

 FORÇA DA NATUREZA


Yan Michalski, outro gigante da crítica, apreciando a atmosfera de Williams, apontou uma “sociedade condenada” e “sensibilidades adormecidas”. Elia Kazan, primeiro diretor do “Bonde” falou em “civilização que agoniza”. Em síntese, floresce nesta dramaturgia a convivência atribulada entre os indivíduos, gerando (como era de se esperar) atritos descomunais, onde parece não haver nenhuma espécie de escapatória para eles. Todavia, nota-se o desejo instintivo de não permanecerem paralisados ante seus flagelos. Há, nas histórias de Williams, aquele começar e recomeçar tal qual o bordado de Penélope. 

É a capacidade de enxergar a intimidade humana sem lentes embelezadoras, atrelada a um privilégio de constatar que a prática é muito mais triste e distinta do que supõe a vã filosofia teórica, que faz de certos homens grandes escritores. Tennessee fora um deles. 

A função do escritor, por mais que arranhe determinadas sensibilidades é – parafraseando Todorov – documentar a verdade. 

Ao que nos consta, a data passara despercebida por nossos elencos. E é lamentável que nenhum encenador tenha manifestado o interesse de dirigir qualquer texto desta força da natureza que foi Williams. Teatro, senhores diretores, é prestação de serviço. Não se esqueçam jamais disso, como nós não nos esquecemos. 

* É crítico de teatro e colaborador do blog NAVEGANTES.... Contato: junior_teo

O poeta e a sociedade

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O poema abaixo foi escrito na década de 80 pelo escritor Affonso Romano de Sant´anna, mas é de uma atualidade inegável. Lendo-o posso confiar nas palavras de Mario Vargas Llosa que disse ser a poesia o espaço da restauração e preservação dos sentidos nobres das palavras. Os muitos usos que fazemos diariamente delas, associado a algumas circunstâncias e licenças imorais que frequentemente ocorrem na política, na economia e em outros setores da sociedade, desgastam os sentidos originários e induzem as palavras um sentido enviesado, que tem como funções, desmerecer, desacreditar e lançá-las no desuso, principalmente aquelas que mais importam para construção de uma sociedade igualitária e justa. 

Uma vez que não existe mais a palavra some com ela o objeto ou a ação que lhe dava vida. Isso está ocorrendo nesse instante e em toda parte. Essa não é uma ação impensada, como muitos poderiam imaginar. Ao desarmar uma palavra os políticos e os malfeitores asseguram, silenciosamente, uma visão de mundo em que todos os inconvenientes -ao menos aqueles que lhes doem o calo - deixam de existir. Um mundo sem “ordem” ou organizado segundo as vontades de um grupo cria uma nova língua e com ela os valores que orientarão todas as ações. Foi assim que o Nazismo e as ditaduras privaram as palavras Democracia e Liberdade de circulação e instalaram um regime de terror sem precedentes na história. 

Triste mundo em que a “paz”,o “amor”, a “esperança”, a “decência”, a “justiça” e a “honestidade”, já não são mais tão importantes ou significam o que um dia todos nós esperávamos. Pairam sobre elas certa desconfiança que vão pouco a pouco mudando o seu sentido para outra esfera, menos representativa e mais envelhecida pelo cansaço provocado pela contradição dos discursos. Contra esse ataque às palavras, contra o seu envelhecimento, contra o descrédito é que insurgir-se o poeta. A ele cabe restituir, contra toda prova, os sentidos primários que o sistema insiste em desprestigiar. O poema de Affonso Romano de Sant´anna exemplifica essa prática do poeta. Ele lança luz sobre as contradições da sociedade brasileira e questiona os valores sobre a qual ela insiste em se assentar, ao tempo em que, revela como o discurso, baseado na divergência das ações, torna todas as palavras pronunciadas pelo brasileiro um faz de conta.


SOBRE A ATUAL VERGONHA DE SER BRASILEIRO

" Este é o país do diz e do desdiz
onde o dito é desmentido
no mesmo instante em que é dito.
Não há linguista e erudito
que apure o sentido inscrito
nesse discurso invertido.

Aqui
      o dito é o não-dito
      e  já ninguém pergunta
      se será  Benedito.

Aqui
      o discurso se trunca:
      o sim é não
      o não, talvez,

   o talvez

                -nunca".

FÉRIAS

ESSE BLOG VAI SAIR DE FÉRIAS HOJE E SÓ VOLTA... AINDA NÃO SABEMOS, MAS ESPERAMOS QUE O RETORNO SEJA BREVE. O NOSSO DESTINO É CRUZAR O ATLÂNTICO E ALCANÇAR O VELHO MUNDO. A TODOS DESSA NAU DOS INSENSATOS UM FELIZ NATAL ANTECIPADO E BOAS FESTAS.

VIANA OUVE VOZES


Téo Júnior*

De vez em quando, nós aqui do “Navegantes” temos a grata satisfação de encontrar por aí esses quase deuses, porque, conforme assinalou Todorov, a literatura confunde-se com a própria vida. “Deus foi o primeiro artista, e o mundo é seu poema”, escreveu ele em A Literatura em Perigo. Partindo-se do pressuposto de que a literatura, se não muda o mundo por si mesma, ajuda o indivíduo a suportá-lo, é sempre muito agradável saber que esses grandes criadores estão por aí, na planície – e não encastelados, como supúnhamos. Os deuses, às vezes, descem do Olimpo para a superfície.  

Nós, desde sempre, temos muito apreço pelos escritores porque todos estamos carecas de saber que escrever é uma arte que poucos possuem. Cansei de ouvir dizer que “escrever é fácil”, “criticar é fácil”; na boca dos incautos, tudo é fácil. Pois não é de jeito nenhum. Escrever é difícil. Requer tempo, paciência, imaginação, talento, persistência, técnica.  

Tive o prazer de conhecer pessoalmente e conversar, embora por pouco tempo, com um grande nome da literatura brasileira que é Viana, em Aracaju, onde ambos moramos. Não se pode dizer que ele seja uma revelação, porque já escreve há 40 anos, mas ficou conhecido do grande público quando (re) publicou seus trabalhos pela editora Companhia das Letras, talvez a maior do Brasil. Mas quem quiser ofender gravemente Antonio Carlos Mangueira Viana diga que ele é “regionalista”, pois esta classificação não se justifica, definitivamente. Ele pode tanto falar do sertão sergipano cujo sol é de cozinhar os miolos, seu personagem pode morar perto da praia no Rio de Janeiro ou ele pode até mesmo narrar as agruras enfrentadas no frio parisiense. Quer em Sergipe, quer na Europa, sejam ricos ou pobres, seus personagens sofrem, vivem experiências dilacerantes, carregam consigo velhos fantasmas – e nós, concomitantemente, os nossos. Nos contos de Viana, são ressaltadas tanto a alta cultura como a miséria. Suas criaturas tanto podem ouvir Monlight Serenade ou Waldik Soriano. 

Alguns contos são extraordinários e eu os recomendo. Em Aberto está o inferno, são imperdíveis “Batalha”, sobre um irresponsável que engravidara uma empregada doméstica “desmiolada”, segunda a própria ou “Doutora Eva”, que faz questão de ser juíza o dia todo, até mesmo no banheiro. “Reverendíssimo Padre Diretor” é um justo, justíssimo acerto de contas ente o oprimido e seu opressor. 

Cine Privê, por sua vez, vale o conto homônimo, sobre um infeliz derrotado pela existência, e o emprego que lhe restou, foi o de limpar cabines de um cinema pornográfico. Vale conferir também “Tia Darcy ouve vozes” e “Eliazar, Eliazar”.  

O Meio do Mundo, sua estréia na Companhia das Letras, traz contos monumentais, e talvez seja dos três o mais aterrador e o meu preferido: “Meu Tio Tão Só”, “Dias de Jó” (ambos destacam a solidão terrível) são indicados. Ao mesmo tempo, recordo-me de “Vá, Deralda!” – o melhor conto que eu já li até hoje – e, por fim, o primoroso “Jardins Suspensos”, incluído na seleção dos “100 Melhores Contos da Literatura Brasileira do Século XX”.  

Leiam Antonio Carlos Viana, comprem seus livros, e preparem-se para sofrer. Penetrar em sua obra é muito angustiante e ao mesmo tempo tão atraente quando subir numa montanha russa. Sabe-se de antemão que será uma aventura incomum, mas compensadora quando se chega ao fim e a máquina para. 

A autêntica literatura tem este poder: fazer com que nós não permaneçamos indiferentes ante as barbaridades do mundo, cuja maldade estamos rodeados as 24 horas do dia. Viana é muito hábil para cumprir a função do escritor. Trata-se alguém que sabe muito bem o que diz – e o diz maravilhosamente. Ele tem força nos pulsos. 



* Téo é crítico de Teatro do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador esporádico do Navegantes.

Diretor do espetáculo Baianidade Baiana comenta a crítica de Téo Júnior

Téo Júnior, jovem revelação da crítica de teatro, escreve ocasionalmente no blog "Navegantes ao Mar" e no jornal Cinform, de Aracaju. Suas publicações são quase sempre relacionadas ao teatro e, esporadicamente, de cultura de uma forma geral. O espetáculo Baianidade Baiana, ao passar por Caetité, foi vista por Téo e ele publicou sua análise aqui no blog. O diretor Alberto Damit, ao tomar conhecimento da crítica, escreveu a respeito. Como o objetivo da blog "Navegantes nao Mar" não é o de destacar uma opinião, apenas, como sendo a verdadeira, e sim fomentar as discussões, publicamos na íntegra o texto de Damit.

"Li com satisfação sua crítica a respeito de nosso Baianidade Baiana, acho importante e até nobre a discussão quando ele resulta de estudo ou até mesmo observação de uma obra artística. Acredito que o teatro tem este poder, fazer pensar e com isso melhorar nossas atitudes. Agradeço a atenção.

Porém acho necessário esclarecer algumas colocações sobre suas críticas:

Baianidade Baiana utiliza-se do Stand up e do besteirol para elucidar os devaneios preconceituosos de quem só conhece a Bahia pelo cartão postal. Durante quase dois anos, pesquisamos os motivos que fazem os turistas folclorizar e muitas vezes discriminar o jeito de ser de nos Baianos.

Somos uma Cia. que estuda o comportamento do preconceito, conhecemos bem sua manifestação. Fazemos teatro popular com o objetivo de atender a uma plateia que compreende e consome comédias, porém é comum encontrar resistência de uma pseudoelite que acredita que o teatro necessita ser construído a partir de modelos utrapassados, distanciado e sem a mácula do riso. Não é isso que achamos. A arte é diversa, assim como os gêneros do teatro, não se pode diminuir esta ou aquela manifestação artística que seja sustentada pela concordância do risos ou dos plausos, e não compreender esta tendência é quase um crime.

Me chamou atenção o fato de uma pessoa culta escrever que nosso tiíulo Baianidade Baiana é redundância. A Baianidade é presente em diversos lugares do Brasil, a Baianidade Baiana esta sim somente aqui.

Para lembrar: *Licença poética é uma incorreção de linguagem permitida na arte. Ela é permitida para que o escritor tenha toda a liberdade para manipular as palavras, para que ele possa passar tudo o que pensa ao leitor. Em sentido mais amplo, são opiniões, afirmações, teorias e situações que não seriam aceitáveis fora do campo da literatura.

*"Sistema de consulta interativa - Estadão", p. 171. Editora Klick. São Paulo (1995)

A respeito de sua comparação com A Praça é Nossa, ficamos lisonjeados uma vez que este programa sempre se destacou pela diversificação em seu humor. Nesses 24 anos, foram produzidos mais de mil programas inéditos. Sem contar que já desfilaram pelo banco da praça mais de 120 artistas, entre humoristas e comediantes, que protagonizaram o respeitável número de 250 personagens.

Baianidade Baiana obteve excelentes críticas em Minas e no Espírito Santos, e foi convidado para uma temporada de três meses no Teatro Candido Mendes em Ipanema no Rio de Janeiro em 2012.

Por fim achamos que diversidade nos seus aspectos mais amplos deveria ser exercitada como um todo pela sociedade e não apenas dentro da sala de aula ou num blog. A diversidade é um princípio humanista para conseguirmos construir um mundo onde possamos viver com mais respeito, compreensão e paz.

As pessoas com elevado grau de compreensão sobre a diversidade cultural, em geral têm comportamento mais tolerante e contribuem para menor ocorrência da violência e as manifestações racistas.

Devemos todos ajudar a construir um mundo com mais DIVERSIDADE.

Alberto Damit
Diretor do espetáculo


ESPETÁCULO DIVERTIDÍSSIMO ABORDA INFERNOS PARTICULARES


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De fato, todos nós temos sérios problemas sexuais

Téo Júnior *

Se existe um assunto que o teatro soube explorar à exaustão, com certeza é o sexo. Desde os gregos (“Édipo-Rei”, por exemplo, realçou o incesto, terrível e chocante, porque relacionado a um tabu social), passando pela crise e a monotonia do casamento, onde os cônjuges, já saturados, cogitam sem qualquer disfarce até mesmo o adultério – circunstância que Albee compôs como ninguém – até chegarmos aos instintos mais baixos do ser humano – leia-se devassidão – verificados nos textos de Genet e no universo quase sempre pantanoso de Nelson Rodrigues, com as “bonitinhas, mas ordinárias” da vida.

Desde os tempos inenarráveis de Calígula, até os dias que correm, a humanidade jamais parou de fazer sexo – tanto para fins de procriação ou como um mero passatempo. “Senhor, concedei-me a virtude da castidade – mas não agora!”, escreveu Santo Agostinho.  

Em “Todo Mundo tem Problemas Sexuais”, de Domingos Oliveira e Alberto Gondim, são abordados esses infernos no tocante à intimidade das pessoas. E aí entramos num campo minado – e sombrio, já que a sexualidade sempre acompanhou a vida dos indivíduos considerados saudáveis, e cuja finalidade é proporcional prazer e bem-estar, mas que acaba se convertendo num fardo. A lista é extensa e penosa: surgem o fantasma da impotência, homossexualidade, traição, os encontros na internet que quase sempre culminam em frustração, sexo grupal (sic!) e um repertório enciclopédico de palavrões que faria a alegria de uma Dercy Gonçalves.

A peça resulta interessante porque, dividida em 6 quadros, destaca situações que seriam consideradas dramáticas numa primeira instância, para no palco elas se transformarem em objeto de comicidade. Embora mergulhados em suplícios aterradores, paradoxalmente manifesta-se nesse povo o desejo incontrolável de prosseguir sua atividade (ou tara) sexual.

Em cena, apenas uma cama por onde todos os personagens passam. Há tipos demasiadamente pitorescos, como o baiano safado (Eduardo Albuquerque) da 1º. quadro que se apaixonou pela colega farmacêutica (Mariana Moreno; não se sabe qual deles é o pior) e uma protestante ninfomaníaca (Cida Oliveira) que teve a cara de pau de trair o marido na própria casa, com o patrão dela, gordo e bêbado.  

Não diria que o espetáculo fora maravilhoso, não há a necessidade de exagerar, mas fora bem trabalhado. Os textos ficaram claros e estabelecidos de modo cuidadoso; uma produção caprichada, os atores estavam seguros de seus papéis e as soluções dramatúrgicas para temas tão variados foram inteligentemente desenvolvidas. Em suma, uma peça divertidíssima e muito responsável.

 O PÊNIS QUE FALA

Mas, caminhando para o final, o espetáculo desabou num precipício: eis que surge em cena, inesperadamente, um sujeito trajando roupão e uma touca cor de rosa, de um excepcional mau gosto, dizendo-se o personagem “mais importante” da história e reivindicando o direito de “se manifestar”. Identificou-se como sendo o pênis. (Ah, Meu Deus...). É impressionante o festival de besteira que assola o teatro e que eu sou obrigado a aturar. Onde já se viu isso? Então, o órgão masculino narra sua “via-crúcis” e, ironicamente, fora o quadro que mais agradou ao público, a julgar pelas gargalhadas quase que histéricas que se ouvia. Num determinado momento, ele admite que Fernando Gomes não soube como terminar a apresentação e pediu que ele falasse o que quisesse. O recurso que os sábios de outrora classificaram de “deus ex machina” pôde muito bem ter funcionado nas tragédias gregas, mas em “Todo Mundo” foi sinceramente catastrófico.  

Ora, se o diretor não soube encerrar dignamente a peça, a incompetência é dele. Salvou-se, além dos mencionados, o desempenho de Kadu Veiga e “Todo Mundo”, exibida no feriado do dia 15 atingiu uma audiência que raras conseguem: todas as cadeiras do Teatro Tobias Barreto foram ocupadas. Durou 2 horas.

 *É crítico de teatro. Contato: junior_teo

Publicado no jornal Cinform do dia 21/11/2011, pg. 5