Um país inteiro de ferradura


A qualquer um, que a muito deixou de ter as mãos ao chão, pareceria, no mínimo estranha, para não dizer outra coisa, que um ex-ministro da justiça com reconhecido prestigio político, aceitasse defender um famoso contraventor acusado de um sem números de crimes indizíveis, cuja atuação se estendem por uma grande rede de influências em todo o aparado do Estado. A qualquer um isso pareceria uma ignomínia. Mas estamos no Brasil. Isso torna as coisas bem diferentes.

“O Anjo Safado”: peça interessante e sugestiva


Téo Júnior [*]

Enfim, depois de muita publicidade e expectativa idem, estreou no Teatro Atheneu o espetáculo “O Anjo Safado”, que permaneceu em cartaz no último final de semana. Apresentação bonita, com muita dança, música e bastante sugestiva.
A dualidade entre céu x inferno, pureza da alma x prazeres mundanos, quer dizer: o indivíduo em conflito consigo mesmo, que tanto intrigou (e fascinou) os homens no período medieval, veio à baila na peça - fascínio que teve em Gil Vicente uma dimensão maior.
Ressalte-se que, uma vez no terreno metafísico, os conceitos e aquelas normas de conduta que recebemos ao longo da vida vão sendo subvertidos por uma lógica distinta. Quando algum personagem se insere no universo pós-vida, na ótica cristã, as regras do jogo agora são outras.
O texto de Paulo Lobo é simples e direto. A maior vantagem dele foi estar isento de abordagens filosóficas complexas e que, no fim das contas, não sugere nada ou muito pouco. Teatro bom é assim: diz o que precisa ser dito de maneira econômica e eficaz.  A direção de Jorge Lins compreendeu a ideia do texto.
Guardei a sátira que foi feita em relação aos bispos gananciosos e hipócritas, e acredito que a crítica seja muito pertinente, uma vez que hoje a televisão brasileira está demasiadamente contaminada com uma leva de “pastores” picaretas e aproveitadores, alguns inclusive não resistindo à tentação de exibir horrendas sessões de exorcismo. Lobos disfarçados de cordeiros.
A cena onde a entrevistadora melindrosa Lais Bizarra (Eduardo Vieira) conversa com o chefe do inferno (o excelente Leandro Handel) foi impagável.
Duas vezes, foram exibidas cenas de orgia sexual com 15 participantes. Pura devassidão, que deixaria um pastor horrorizado.
E assim, de gargalhada em gargalhada, as verdades - algumas inconvenientes - vão sendo ditas uma por uma, e o teatro acaba se tornando uma espécie de espelho, onde o público tem a oportunidade de se enxergar e de refletir, como acreditava Molière.
Iluminação adequada, cujo palco ficou grande parte do tempo em penumbra, talvez para realçar o aspecto extraterreno do atormentado personagem José. Som e figurinos bons.
Antônio Leite, o protagonista, sozinho, já é um teatro. Teve um desempenho seguro e feliz. Trata-se de alguém que possui uma grande relação de afeto com o palco. Um ator experimentado e competente. 
Toda essa discussão coube no espaço de 1 hora.
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Crítico de teatro e colaborador do ETC’.


A Civilização do Espetáculo

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No momento em que a cultura (essa ficção) se submete à tirania do entretenimento e as pessoas se dão em espetáculos grosseiros em todos os veículos “merdiáticos”, retrocedemos a uma cultura carnavalesca, onde tudo é embrutecido, banalizado, onde o que é espalhafatoso e estúpido tem muito mais chance de ser recompensado do que o verdadeiramente meritório. Estão aí os artistas fantoches, os programas de auditórios e jornalísticos comprometidos com o lucro, os realities shows da vida, que não nos deixam mentir que o homem moderno não passa de uma besta exibicionista. Qual de nós é capaz de negar diante de tantas evidências de que vivemos naquela época “em que tudo que repugna uma joia encontramos”, como escreveu Charles Baudelaire no seu poema de abertura do livro As Flores do Mal. E são assim que correm os dias. Nem mesmo a literatura escapa do exibicionismo que prostrou os artistas a vulgaridade e entronou o frívolo como o mais novo guia da manada. O que mais se vê por aí são poetas que abdicaram de qualquer postura independente e séria, para seguirem o jogo da moda. “Nos nossos dias” escreve Mario Vargas Llosa em seu mais recente livro La Civilización del Espetáculo (ainda sem tradução para o português) “o que mais se espera dos artistas não é o talento nem a destreza, mas a pose e o escândalo, os seus atrevimentos não são mais do que as máscaras de um novo conformismo”. Oprimido pelo curral das convenções, impulsionado pelos padrões do entretenimento, o artista contemporâneo, numa embaraçosa postura de submissão aos credos vigentes, não emprega o seu oficio em ações comprometedoras do gosto publico ou dos interesses da Indústria Cultural. As efemérides ditam os rumos das coisas e o gosto médio assegura a sua qualidade. Quem será capaz de se levantar e dar uma bofetada no gosto público?

A verdade das mentiras

"Arendt explica que o mentiroso, ao contrário daquele que diz a verdade, é um homem de acção, uma vez que distorce a realidade. Em contrapartida, aquele que diz a verdade precisa de recorrer a uma retórica que impõe não a verdade em si mesma mas a sua coincidência com um interesse específico. Ele (ou ela) faz isso porque a verdade não é evidente, e só convence travestida de interesse. Ao mesmo tempo, sabemos que quem faz coincidir uma verdade com um interesse está apenas a exercitar um truque. E desconfiamos."

Pedro Mexia no blog Lei Seca

In My Life - A moldura de minha vida


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Músicas há que nos tiram o fôlego por traduzirem-nos emoções íntimas e nos revelarem infindáveis maneiras de dizer coisas, que muitas vezes, apenas pressentimos. Quando isso acontece, e não são raros esses momentos, quando se ouve boa música; eles vincam nossas vidas para sempre, moldando um gesto, uma pessoa querida, um amigo eterno, uma passagem de nossa vida, com um colorido todo especial, digno dos melhores quadros. In My Life dos Beatles é uma dessas molduras. Gosto também da versão de Ozzy Osbourne para esse hino ao amor incondicional. 

Não me recordo da primeira vez que a ouvi, mas, desde esse dia - esquecido pela memória - retorno sempre aos seus encantos, para não mais a esquecer. Mesmo que eu quisesse, porém, não seria possível apagar da minha vida essa música primaveril. Ela me toca pela singeleza de acordes e profundidade da mensagem, que possui um grau exato de exaltação romântica. Exaltação que em tudo recusa aquele sentimentalismo piegas e fácil, tantas vezes associados aos discursos líricos. 

Adeus Columbus - Excerto do livro de estreia de Philip Roth

A primeira vez que vi Brenda ela me pediu para segurar seus óculos. Então foi até a ponta do trampolim e, apertando os olhos, mirou a piscina; se estivesse vazia, Brenda não perceberia o fato, míope que era. Deu um belo mergulho e um instante depois voltava nadando para a beira da piscina, mantendo a cabeça, de cabelos avermelhados cortados curtos, erguida à frente, como se fosse uma rosa de caule longo. Rapidamente chegou à borda e veio ter comigo. “Obrigada”, disse, os olhos cheios d’água, mas não da piscina. Estendeu a mão para pegar os óculos, porém só os pôs nos lugar depois que me deu as costas e se afastou. Fiquei vendo-a ir embora. Suas mãos de repente apareceram atrás dela. Segurou a bainha do maiô com o polegar e o indicador e enfiou no devido lugar o pouco de carne que estava aparecendo. Meu sangue ferveu.

Philip Roth vence o prêmio Príncipe das Astúrias das Letras

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A literatura contemporânea deve muito a esse senhor. Seus livros são qualquer coisa de excepcional. O melhor dele é sua capacidade de transformar situações insólitas, em acontecimentos tragicômicos de alta voltagem. Ri de si mesmo, e não se levar tanto a sério; talvez seja a sua forma particular de tentar entender o mundo perscrutando os seus limites. Fico feliz em saber que ele recebeu hoje o Prêmio Príncipe da Astúrias de Literatura.  Merecido prêmio. 

Sou fã do Roth... Adoro seu estilo literário. Gosto ainda mais de seu desapego aos modismos e enfrentamento das convenções. Enfrentamento que tem lhe rendido algumas polêmicas como aquela de 2011, quando a jurada Carmen Callil do prêmio Man Booker o acusou de sexista, machista e chauvista.... Quantos elogios. Essa senhora tão politizada, não chegou a arranhar o brilho literário que estava sendo julgado. Roth agora leva mais um prestigiado prêmio para casa. Será ele o próximo Nobel? Não creio. A academia Sueca não costuma premir o estilo literário, a inventividade ou a criatividade de qualquer autor, mas sim o engajamento político dos escritores, uma infelicidade. Roth não é o tipo político, ao menos não naquele estilo panfletário e espetacular.

Para ouvidos indômitos


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Às novas gerações, adestradas pelos “médias”, afeitos ao conforto, muitas reservas, sim-nãos e cultores da mesmice, esse disco parecerá anacrônico e pouco atraente. Isso porque ele foi feito para aqueles seres insatisfeitos, que insistem em pensar a vida ao avesso das convenções. Por isso, o inesperado do som, as ousadias das letras, a genial capa, com os personagens históricos ou fantásticos, que os integrantes da banda sempre adoraram; aliado as inversões de timbres, que escancararam as portas para inovações sonoras depois desse LP, não serão julgadas apropriadas por aqueles que insistem em mais do mesmo. O espírito que governou e gestou esse disco não existe mais no mercado fonográfico. A liberdade criativa é hoje algo que os artistas apenas aspiram, sem sucesso. Seus muitos compromissos comerciais, mais o temor de melindra o público, acostumadíssimo às series ininterrupta daquilo que já foi sucesso, amedronta qualquer aspirante a explorador. Vai daí que os Beatles continuam atuais. A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sgt. Pepper, disco dos Beatles produzido em 1967, que hoje completa quarenta e cinco anos - com o mesmo vigor com o qual desempoeirou vitrolas e corações adolescentes na década de 60 - fala apenas àqueles de natureza indômita, os indóceis e àqueles que não naturalizaram a história e que não a consideram um fato inelutável.

Antônio Nóbrega - Lunário Perpétuo


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O alardeado discurso sobre a ignorância cultura do povo brasileiro tem íntima relação com os propósitos colonialistas, que por séculos orientaram os valores das elites nacionais e forjaram a visão de mundo dominante nas artes, cultura, religião e demais estruturas da nossa sociedade. O alinhamento da ignorância das elites com o preconceito dos colonizadores produziu uma visão inanimada da realidade cultural brasileira. Através de um discurso de desfiguração intentaram incutir a ideia de que as massas eram incapazes de produzir cultura, e que suas muitas manifestações não passavam de tentativas canhestras e mal sucedidas de se elevar ao nível da “verdadeira” arte. Durante muito tempo, nos diz Octavio Paz, associou-se poder aquisitivo com valor cultural e dessa maneira passou-se a desprestigiar as mensagens que emanavam do povo como formas valiosas e representativas da cultura nacional. O trabalho de Antônio Nóbrega, desde sua atuação no Quinteto Armorial até hoje, com o espetáculo Lunário Perpétuo, dignifica a cultura genuinamente nossa e desmistifica esses preconceitos e hostilidades, que por séculos distanciaram o povo de suas manifestações mais legítimas. Baseado no livro homônimo, o espetáculo Lunário Perpétuo, reconstitui as varias manifestações artísticas que estão presentes, desde há milênios, no seio das comunidades humanas instruindo, divertindo e principalmente perenizando a memória do povo. O Lunário Perpétuo foi um livro de "sabenças" que circulou pelos rincões “carrascudos” do Brasil do século XVIII. Ele continha de tudo um pouco, de biografias de santos a mapas astrológicos, de simpatias a acidentes geográficos, antigas alquimias. Informava sobre países, dava dicas de como agir em casos de terremotos, ensinava rezas, e muito mais. Um verdadeiro almanaque, que instruiu gerações e mais gerações de nordestinos e alimentou a fantasia dos nossos artistas de ontem e de hoje. Ele foi também uma valiosa fonte de informações para os cordelistas que tiravam dele os muitos argumentos para construção de seus poemas. Eu não sei quanto a vocês, mas sinto um arrepio pelo corpo como se tivesse recebido uma descarga elétrica cada vez que assisto ao DVD do espetáculo. Esse é um precioso registro das marcas de resistência da cultura brasileira, contra as muitas tentativas de homogeneização da diversidade, que sempre encontrou por aqui terreno viçoso.  

Do Belo, Da Feiura e Da Poesia

. Detalhe de Os Jardins das Delícias - Hieronymus Bosch

Por esses dias temos falado muito aqui sobre a beleza. Num mundo marcado pela feiura das guerras, dos atentados à bomba, dos genocídios e das automutilações nas manifestações pelo mundo, falar do belo passou a ser uma necessidade para se contrapor as grosserias impostas pela irracionalidade humana. A bestialidade não pode imperar impunemente. A furiosa sanha desses bastardos, que produzem tanta feiura, assaltou do mundo não apenas as belas e inestimáveis visões da beleza, mas roubaram também o seu sentido. Esse, seguramente, foi o atentado mais perigoso contra a beleza. 

A prática da linguagem exercida sobre o signo do consumismo destituiu o potencial expressivo da palavra belo, que passou a ser associada apenas a juventude e a harmonia das formas físicas. Vai daí que não apenas as visões do belo precisam ser resgatadas, mas também o seu sentido originário, desgastado pelo uso rotineiro, para vender cosméticas e falsas ideias de conquistas. 

Associando a beleza à realização pessoal, as empresas de cosméticas, os programas de televisão, as revistas de moda e seus congêneres, criaram um bando de tolos consumistas de seus produtos, que acreditam que se estiverem devidamente envelopados pelos cosméticos da moda, darão um gigantesco passo na realização de seus sonhos mais mesquinhos. Somos muito mais do que aquilo do que nos dizem sermos, ou não? 

Essa mutilação do sentido da palavra - empregada pela economia de mercado - nos impede de ver a diversidade de sentidos que o belo pode expressar.  Tomando de empréstimo as palavras de Alfredo Bosi no livro O Ser e o Tempo da Poesia, podemos caracterizar o belo como: “Belo é o que nos arranca do tédio e do cinza contemporâneo e nos reapresenta modos heroicos, sagrados ou ingênuos de viver e de pensar. Bela é a metáfora ardida, a palavra concreta, o ritmo forte. Belo é o que deixa entrever, pelo novo da aparência, o originário e o vital da essência. Por isso, o belo é raro.” p. 131. 

É preciso, portanto, purificar a palavra de seus desgastados usos. E quem melhor pode fazer isso? Ora, não há outra forma de restituir à palavra a sua eficiência linguística e sua potencialidade, do que o pensamento poético. A poesia possui as melhores condições de revigorar as palavras o seu potencial de dizer e restituir as mutilações que o rotineiro uso lhe impôs. A poesia, limpa a palavra das escórias do desgaste e mantém viva o seu potencial. Contraria assim a pestilenta manipulação promovida pelo uso abusivo em apenas uma acepção e contorna a saturação imposta pelas formas de interesses ideológicos, que não nos servem. 

O absurdo que ronda tantas vezes o cotidano nos diz Alfredo Bosi, precisa da palavra para dar-lhe algum sentido ou, no limite, manifestar a estranheza pela sua falta de sentido. O gesto poético desoprime a palavra de suas obrigações ideológicas e se realiza plenamente, quando insinua ao leitor os caminhos possíveis de sua interpretação. Apenas no texto poético, e em quase nenhum outro lugar hoje em dia, vemos o exercício pleno da nossa liberdade. Seriam esses os motivos de seu desprestigio na nossa sociedade? Ela incomoda os establishment ao dotar o homem da irresponsabilidade de pensar por conta própria e escolher o seu caminho?  Essas são perguntas para as quais as respostas serão esboçadas no próximo post.

Carlos Fuentes 1928-2012

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A morte de um homem é sempre um acontecimento trágico. Por várias razões não aceitamos o destino último, que a vida nos reserva e relutamos até o fim em abandonar a existência. Mas o ceifeiro é implacável, não tarda ao seu trabalho e nem dar descanso ao seu ofício maléfico. Agora se esse homem foi em vida um esteio, um farol para os seus semelhantes a dor de sua perca torna-se ainda mais intensa e sua superação inconcebível. Sentimos-nos assim hoje, quando foi anunciada pelos medias, a morte do escrito - de profundas raízes mexicanas - Carlos Fuentes. Sua voz esteve nos últimos anos, a partir do chamado boom da literatura Latino Americana, associada à política de defesa dos direitos humanos, e à luta dos valores culturais dos povos Latinos. Isso não é pouco. Ao lado peruano Mario Vargas Llosa e do colombiano Gabriel Garcia Marquez ele subverteu o pólo dos interesses literários no mundo ao revelar com um estilo rigoroso os dramas e alegrias de seu povo. Como disse Paulinha Laranjeira: "ele vai nos fazer falta".

O habitual jeito PT de governar

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Com a mesma desfaçatez e desprezo de sempre, o governador Jacques Wagner vem a um mês, ignorando o apelo dos professores estaduais por melhores condições de trabalho e salários dignos, compatíveis com a sua nobre função. Assim como fez com os professores das universidades, policiais e demais setores do funcionalismo público estadual nos últimos anos, Wagner se recusa a discutir o reajuste salarial exigido pelos profissionais, com a maior responsabilidade do estado, e contrataca com um discurso fajuto na mídia, que tem como único propósito, espalhar mentiras e desacreditar o movimento, perante a opinião publica. A insensibilidade desse governo em lidar com os anseios populares, não encontra rival em nenhum outro governo que já assumiu a Bahia. Nem mesmo Toninho Malvadeza, no auge de suas mais infernais maquinações políticas foi tão truculento, tão insensível e tão imoral quanto tem sido o governo Jacques Wagner. Empoleirado em seu Palácio, ele insiste no enfrentamento e ameaça os professores com o temido corte de salário. Esse expediente já é um velho conhecido dos grevistas baianos. Como o habitual modo PT de governar tem sido eficiente, Wagner não se constrange em enfiar o pé no traseiro dos professores, em que pese os dividendos políticos dessa ação. Duas coisas aí se evidenciam. Os governos baianos estão se lixando para os professores, e os professores continuam sendo uma categoria social insignificante.

As voltas que o mundo dá

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Obama no histórico ônibus em que Rosa Parks foi presa em 1955 por ter se recusado a dar o seu lugar para um homem branco. Foto Pete Souza/Casa Branca.

Serge Gainsbourg a Jane Birkin

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Para lá de todas as coisas amáveis,
para lá de todas as coisas desejáveis,

a tua nudez na ponta dos meus dedos,
uma bola de fumo pairando sobre o piano
e cada poro teu tocado como se fosse
uma tecla, uma tecla emitindo o som
de cordas surdas, as tuas veias, cada
um dos teus nervos, e eu enredado
em ti como o insecto na teia da aranha,
para lá de todas as coisas definíveis,
os contornos do teu corpo à luz
de um tecido transparente, beleza
incomparável acossada pela fealdade
das notas, dos acordes atonais, para
lá de ti, para lá de mim, a paixão
capturada pelas máquinas fotográficas,
projectada numa tela à velocidade
iludente do cinema, para lá das salas,
para lá da luz, nós os dois denegridos,
deitados no quarto escuro da paixão.

Henrique Manuel Bento Fialho, A Dança das Feridas, Colecção Insónia, 2011.

Beleza

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Não tenho nenhuma resistência diante da beleza. Sou atraído facilmente pelas formas e gesto incomuns. No lugar de Ulisses teria me lançado ao mar. Alguns vêm um mal, apreciar sem reservas os apelos emanados, pela formosura das formas. Mas a esses, não consigo, sinceramente, entender. Para mim não há desproposito maior no mundo do que hostilizar a beleza. Há qualquer coisa de anormal naqueles que se ofendem com a apreciação do belo. Decorre daí talvez uma divergência de pontos de vista. As pessoas acham belo o que lhe apetece. Cada um está suscetível a apelos diversos. Uns se enamoram facilmente por um físico esbelto, outros não diriam o mesmo. A atração tem suas próprias e inapreensíveis razões. Belo para mim, no entanto, é aquela coisa à qual demoro o olhar. Belo é aquele objeto que me suspende, temporariamente, a razão e paralisa o fôlego. Meu belo não se resume aos encantos da simetria das formas, mas nas mil e uma, inacabadas formas, que destoam do comum e instauram o surpreendente. E há melhor razão para suspender o fôlego do que a apreciação de um corpo nu?

O real mais que real

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Algumas pessoas insistem em afirmarem que a ficção, em oposição a realidade, é o império do falso, do inverídico e do impalpável. Algo a que não se pode dá crença. Mas essa afirmação parece não se encaixar bem na personagem (portanto algo falso) que Rita Hayworth criou em 1946. No auge de sua beleza, Rita, aos 28 anos, deu vida a Gilda, criação que transbordava sensualidade e ousadia, numa época de grande repressão sexual. A máquina de fazer realidades através da ficção que é Hollywood botava em cheque, o discurso dicotômico, real x ficção. Gilda tornou-se, através do impossível ficcional, o alvo do desejo de dez entre dez jovens americanos do pós-guerra. Se a realidade é algo que se pode sentir através dos sentidos (tato, paladar, olfato, audição) nada foi mais real para aqueles jovens do que aquela presença ilusória criada pela câmara escura dos cinemas e que traduzia todos os seus desejos de uma forma que a realidade ainda não havia alcançado. Tanto é verdade isso que o slogan promocional do filme era: “NUNCA HOUVE UMA MULHER COMO GILDA”. Ruy Castro, admirador do filme lembra que a presença de Gilda nas telas da época só podem ser medidas em megatons, dada sua presença marcante: “os filmes americanos não mostravam uma mulher tão sensual e dadivosa. Seu impacto em 1946 pôde ser medido até em megatons: pouco depois da estreia do filme, a bomba que os americanos explodiram no atol de Bikini, no Pacífico, na primeira experiência nuclear em tempo de paz, foi batizada de Gilda, pela equipe que a construiu. Trazia, inclusive, um desenho de Rita na carapaça numa publicidade espontânea e sem preço.” A ficção, ao contrário da realidade, nos promove uma experiência outra das coisas, muito mais intensa e viva. Por isso os gregos acreditavam que a ficção era mais importante do que a realidade. A ficção por sua natureza inapreensível nos promove uma descoberta com o essencial das coisas. A realidade, pelo contrário, é o encontro com a aparência.

Andar para trás

Daniel Barry/EPA

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A luta pelo direito à liberdade sexual na Libéria sofreu um grave golpe essa semana quando a presidenta Ellen Johnson Sirleaf defendeu uma lei que criminaliza atos homossexuais em seu país durante uma entrevista ao jornal inglês The Guardian. Na Libéria o homossexualismo é delito punível com até um ano de prisão. Mas, novas propostas de lei querem endurecer ainda mais a repressão às liberdades sexuais. "Nós gostamos de nós mesmos do jeito que somos. Temos certos valores tradicionais em nossa sociedade que gostaríamos de preservar", disse a líder da nação Africana que ganhou no ano passado o prêmio Nobel da Paz.
 
Estranha declaração para alguém que se notabilizou por sua luta em favor dos direitos das mulheres contra “certos valores tradicionais” da sociedade. A pergunta que cabe agora é: Ellen Johnson ainda é merecedora de tal galardão? Para senhora Sirleaf algumas tradições, mesmo que engendre abusos, dissemine preconceitos e fira direitos individuais básicos, pode ser tolerada comodamente. Só na cabeça de um “Nobel da Paz” pode passar uma coisa dessas.
 
As discussões sobre os limites dos abusos contra os homossexuais na Libéria iniciaram quando um relatório do Departamento de Estado Americano, acusou o país de violações dos direitos individuais. De posse desses dados a secretária de Estado, Hilary Clinton decretou em dezembro passado que a ajuda americana na reconstrução da Libéria, devastada pela guerra civil, estaria condicionada ao respeito à liberdade sexual naquele país. Isso foi o bastante para que jornais da capital Liberiana iniciassem uma campanha difamatória em editoriais e artigos que descrevem a homossexualidade, que lá é chamado de “sodomia voluntária”, como uma “profanação” e uma “abominação” da natureza humana. Opinião, corroborada pela líder nacional.
 
Parece questionável que pretensas tradições culturais justifiquem crimes de ódio. Sob a chancela das tradições já se cometeram todo tudo de barbárie, vamos permitir mais esse? "Nos últimos seis meses, temos visto um aumento preocupante na retórica anti-gay, com ataques a indivíduos que lutam pelos direitos de liberianos se relacionarem com o mesmo sexo", disse Corinne Dufka, pesquisadora sênior de Human Rights Watch na África ocidental. No mês passado, informou a mesma reportagem do jornal The Guardina, houve pelo menos seis ataques homofóbicos na capital, Monróvia.
 
A ideia de tradicional pode ser, grosso modo, associada a certas práticas engendradas no seio de um grupo social, para lhe dar uma coesão. Porém, quando um contingente significativo dessa mesma sociedade já não mais aceita as tradições e questiona os seus valores não seria porque ela já começa a dar sinais de desgaste e precisa de reformas? A insensibilidade política, de mãos dadas, com o oportunismo eleitoral pode explicar declarações tão infelizes quanto a que deu a senhora Allen Johnson. As incendiárias declarações da presidenta, não ajudam em nada no esforço de reconciliação dos ativistas do direitos homossexuais e a sociedade conservadora que nega direitos e liberdades à quem não mais tolera a opressão.
 
Não é de hoje que Estados Africanos desrespeitam, em nome das tradições culturais, as individualidades. A homossexualidade já é ilegal em 37 países do continente. Por várias razões projetos de lei baseados em puro preconceito tentam restringir ainda mais os direitos individuais. Dez mulheres foram recentemente detidas em Camarões acusada de lesbianismo. Na Nigéria, as atividades homossexuais são punidos com até 14 anos de prisão. São absurdos como esses, que deixam em suspensão qualquer crença de que os homens, mesmo aqueles que foram vítimas de violação dos direitos humanos, como é o caso da presidenta Ellen, só são capazes de enxergarem a sua própria dor.

Há mais verdades nas fábulas do que na vida real

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Como professor, o meu esforço tem sido mostrar aos meus alunos, que eles devem, em muitas circunstâncias, pensar e agir como crianças. Não parece, mas essa não é uma tarefa fácil. Não entendam crianças aí como um ser imaturo ou imberbe. Essa é uma versão criada pelos adultos, que frustraram como crianças, e se envergonham disso. Entendam crianças como, alguém que enxerga a vida como um livro aberto, cheio de possibilidades. 

A verdadeira criança é traquina, buliçosa e aventureira. Ela não pára de perguntar e viajar nas maravilhosas fantasias que encobrem o mundo racional. A criança é aquele ser que dar beliscões no cérebro dos adultos, com perguntas embaraçosas como essa: “se o homem espantalho e o homem de lata não tem boca, como eles podem falar”. A criança é aquele serzinho que assusta cotidianamente as palavras com frases desconcertantes: “o balão morreu por falta de ar” ou “as palavras que rimam são aquelas que não se dão bem com as outras?”, “Podemos ser astronautas e ilusionistas ao mesmo tempo?”. A infância, portanto, não é um estágio passageiro da vida, e sim, aquele momento em que toda uma vida pode caber num livro sobre, tigres, por exemplo. 

Fico frustrado quando meus alunos intentam me dissuadir da ideia de que os bichos não falam, ou de que fantasmas e casas mal-assombradas são coisas falsas, irreais e ilusórias. Os seres fantásticos existem na medida em que eles encenam ações prováveis e possíveis. Devemos aprender as lições de Polônio em Hamlet que disse que com: “a isca da falsidade apanha a carpa da verdade. Assim nós, os entendidos, usando de cautela e circunlóquios, chegamos ao caminho por desvios”. E assim age a fantasia. Por desvios na razão atingimos a verdade. Não é fantástico? Despidos de verdades, falseando, trapaceando, podemos descortinar o mundo e encarar com destemor os desafios da vida. Por isso não devemos duvidar da existência desses seres maravilhosos. Eles existem, são tão reais quanto os ensinamentos que eles ilustram. E tão vivos quanto os sentimentos que encarnam. 

Há mais verdade nas estórias fantásticas do que no mundo real. Não acredito, portanto, em alguém que não crer na existência do Saci Pererê, Ogro, Pinóquio, Bruxas, Duendes e principalmente me revolto contra aqueles que insistem em querer me convencer de que o Pequeno Polegar não existe. Ora, isso já é demais. Para mim essas pessoas é que vivem no mundo das ilusões e sofrem grave enfermidade. Eu tenho certeza da existência desses seres. E principalmente creio que não existe apenas um Pequeno Polegar, mas vários, todos eles espertos e ágeis como o que li no livro de Perrault.  

Não entendo como as pessoas podem se tornar tão racionais a ponto de negarem o óbvio ululante. Eu vejo alguns desses seres todos os dias. Convivo com eles. Conheço ao menos duas bruxas, um dragão e quatro princesas encantadas, todas aguardando serenamente o seu príncipe. Ainda não vi unicórnio, nem fadas, mas creio que isso não seja motivo para desacreditar em sua existência, eles estão por aí, é certo. De alguns desses seres sou muito amigo. Outros, assisto a distância, com medo do que eles possam me fazer. Nem todos são bons. Há que se ter cuidado com os seres fantásticos. Sou tímido, mas gostaria de navegar um dia com Simbad ou Gulliver. Já li muitas vezes as suas histórias e fiquei enlevado. Ficaria encantado em conhecer Lilipute de perto na nobre companhia de quem lá chegou primeiro e nos trouxe a notícia desse mundo tão surpreendente. Enquanto esse dia não chega vou traçando planos para conhecer IL BARONE RAMPANTE que me observa da estante, enquanto escrevo esse texto, doidinho para que eu o acompanhe em mais uma grande aventura. 

Narcisistas, Voyeristas, Fetichistas, com quantos istas se faz uma sociedade?

Moça com brinco de pérola - estilizado
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Na ausência de uma plataforma midiática global que lhes arranque do anonimato, as pessoas encontraram um jeito de ganharem visibilidade, e se fazer percebidas em todos os gestos do cotidiano, elevando à última potência os sentimentos narcisistas. A exemplo do programa global, as pessoas do lado de fora, se esforçam dia a dia para aparecerem.  

Como não possuem nenhum atributo físico incomum, não têm qualquer talento musical, literário ou artístico de qualquer natureza, que as torne alvo dos holofotes da fama, elas se expõem narrando as trivialidades do cotidiano infeliz e maçante em que estão atoladas; aguardando com isso, a audiência de anônimos ou conhecidos. 

Em todas as redes sociais e aos quatro ventos elas anunciam, ensandecidamente,  que: “estou indo a academia... tenho que ficar gostosa igual à Juju” ou “aguardo impacientemente no hospital os meus exames”... “daqui a pouco vou curtir a naight”, escrito assim mesmo. As novas ferramentas da internet botou toda a manada de cabeça erguida. Agora a intenção não é mais observar a proximidade do predador, mas sim chamar a atenção dele. 

Imagino que a superexposição, como vem sendo praticada nos veículos da internet, alivia as tensões daqueles que se sentem frustrados, por não conseguir chamar atenção dos outros. Numa sociedade exibicionista como a nossa, as pessoas se ressentem de não estarem cumprindo o seu papel de anunciarem à malta "inchada de vaidade", que elas também existem. 

A atenção dos pares torna-se um alimento indispensável para sobrevivência na comunidade. O esgarçado tecido emocional, que encobre as pessoas no mundo moderno, não lhes deixa ver o ridículo, e o perigo, de saírem anunciando pelas redes sociais, cada passo, gesto e pensamento de suas vidas. 

Somente a mediocridade de uma existência sem emoções e sem sentido, pode explicar esse fenômeno moderno.  Somente a solidão espiritual de uma sombra, recorre a expedientes tão insignificantes para atingir qualquer rastro de luz.

Poesia


A propósito do dia da poesia, Teo Junior resolveu me provocar. Segundo ele Bandeira é superior a Cabral. Ele disse isso porque sabe que tenho muita afeição a poesia cabralina e ao estilo duro e seco que esse poeta empreende em seu versos. Somente Teo Junior é capaz de tentar provocar uma discussão baseado em fatos tão irrelevantes. A poesia, meu amigo, pra ser de verdade, ignora, qualquer gênero, escola, ou linha de pensamento. Ela é maior do que tudo isso. Agora eu me pergunto o que será mais fácil? O que será mais poético o amor, a dor de cotovelo ou uma pedra, uma faca ou bala. Quais dessas palavras estarão em melhores condições de narrar ao homem sentimentos e emoções? Todas. O poeta extrai das palavras sugestões. Agora, durante muito tempo, a única forma aceitável e usual de fazer poesia esteve relacionada a certo transbordamento de emoções, discursos confecionais e quejados.  Quando J.C. escolheu as pedras ele optou pelo caminho mais difícil. Ele inaugurou uma poesia que arrancava dos objetos inusuais e de forma incomum uma mensagem, que não se restringia aos estados espirituais e amorosos do eu lírico. Ele disse: “todas as palavras são poética”. O bom poeta será portanto, aquele que descondiciona as palavras de seu sentido dicionário, e sugerir  à elas sentidos até então jamais empregados. Esse é o verdadeiro ofício do poeta - resgatar as palavras do sentidos convencionais. João Cabral fundou, com isso, uma poesia que ainda não existia. Poucos podem dizer isso. Poucos poetas podem dizer serem criadores de alguma coisa. Quanto aos demais - leia-se ai os líricos - eles não tiveram coragem de encarar o trabalho de fazer poesia com objetos inusuais. Eles optaram pela tradição, pelo caminho já trilhado, pela picadas conhecidas e seguras. Talvez temessem contraria o público ou pior, desmentir aquilo que os legisladores recomentaram como socialmente aceito para aquilo que o homem médio se limita a ver. Ótimo. Nem todos são suficientemente arrojados. Isso não é um problema. O problema estar em querer tornar uma coisa superior a outra. João, sempre buscou o seu próprio caminho. Assim como muitos inovadores ele abriu a sua própria estrada. Nem todo mundo aceita as novas ideias. Haverá sempre aqueles, que preferem as zonas de conforto e, outros, que mesmo despedaçados pela injustiça, desconfiança e incompreensão, nunca desistirão de inovar. Creio que só avançamos na medida em investimos em novos caminhos - não estou dizendo que devemos ignorar os velhos- porém, não devemos viver a vida inteira sem desejar algo mais. Gosto da poesia de João Cabral porque pressinto nela um vigor que não encontro em outros poetas. A poesia cabralina me descortina novas possibilidades não só de compreensão do humano, mas também, e acima de tudo, mantém sempre viva a discussão dos limites da linguagem. Ele força a palavra a dizer sempre mais do que habitualmente estava acostumada a dizer, mantendo controle sobre o discurso.

Dalton Trevisan

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Você manda dizer que não tem decisão sobre o meu caso, quer dizer que está perdido, eu não quero saber, quero o dinheiro na minha mão seja como for, 19 anos que vivo nesta ilusão, cheia de esperança e no fim tudo perdido, por tua causa que nunca se interessou no meu caso, tem que dar conta do dinheiro, na minha mão eu quero os cem contos sem falta, esperava esse dinheiro para o fim de minha vida, minha velhice, ando muito doente, sem poder me tratar, você pensa que me deixa na miséria depois de tanta esperança, dando risada depois que desfrutou a minha beleza, não pense que fica assim, você é responsável pela minha perdição, há muito devia ter resolvido meu caso, você me abandonou e nunca ligou, só interessado em se aproveitar de mim, eu era donzela quando me desencaminhou, trate de dar um jeito no corpo, quero meus cem contos, esperando de braços abertos e depois de 20 anos não tenho mais direito, é isso que você pensa? eu quero o dinheiro da pensão, você me responda sem falta, senão vou aí na tua casa, envergonhando você na frente da tua família, nunca ligou para a minha pensão, se fosse para a cadela que já foi para os quintos você tinha se mexido, olhe que eu não estou brincando, eu só quero o que é meu, depois de 19 anos você não me larga na miséria, velha, doente, e fica se regalando, ganhando bem, e me deixa arruinada, quero o que prometeu a tua palavra de amante, meus cem contos, já não me incomodo com os juros, é favor responder esta cartinha, senão eu vou aí e será pior pra você, arranco os cem contos ou o teu coração com as unhas, sem mais aceite um beijo da sempre tua

Cidinha


Dalton Trevisan é um dos mais importantes escritores
do Brasil. Nasceu em 1925 em Curitiba.
Extraído do livro Mistérios de Curitiba.
(Edit. Record, 1996).

SHAKESPEARE VETADO

 
Paulo Autran interpretando "Rei Lear" (1996), obra agora "revista" e "adaptada" nos colégios americanos.
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Chega a notícia - desastrosa, a meu ver - que algumas escolas americanas querem substituir (isto é, censurar) certos trechos do magnífico legado de William Shakespeare, o mais admirado, estudado e enaltecido dramaturgo que já apareceu. Barbara Heliodora, crítica de teatro desde 1958 e atualmente no jornal O Globo dedicou toda sua vida para desbravar a gigantesca criação shakesperiana. Estudou-o mais do que qualquer outro intelectual no país. Fala dele com absoluta paixão e independência, pois sabe que Shakespeare é eterno. "O que não estiver na Bíblia está em Shakespeare", disse ela ao falecido dramaturgo Mauro Rasi.

Qualque espécie de censura soa como sendo uma maneira melindrosa e, pior, errática de impedir que determinadas verdades venham à baila, porque nem todas as verdades - como diz meu pai - podem ser ditas. Entretanto, a literatura é o campo (quiçá o único) que está numa posição privilegiada de se dizer tudo, sem meios-termos. A literatura tenta através do talento de certos homens e mulheres reprodizir, questionar, condenar os próprios indivíduos que pertencem a uma época e a uma sociedade. É como se o livro funcionasse como um "espelho público", onde nos enxergássemos continuamente, como dizia Molière.

Nada nos ensina mais do que os absurdos ocorridos nos períodos ditatoriais que tivemos, com mais violência o de 64, cuja canga fomos obrigados a suportar durante 21 anos. Jornalistas que de uma hora para a outra "suicidavam-se", teatros incendiados, atores boicotados na véspera dos espetáculos, sem aviso prévio da Censura Oficial, escritores presos e suas obras impedidas de circular (caso de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, de 1975 - tachado de "pornográfico"), para não falarmos da odiosa tortura.

A ditadura, pelo menos no Brasil, passou. A Censura (aparentemente) passou. Permaneceu a obra.

A Censura Oficial, ou seja ela qual for, quer-me parecer, ao vetar uma obra artística de chegar até o povo, julga estar "educando" este mesmo povo, coitado, tão fraco intelectualmente, tão inepto, que necessita de intérpretes que escolham por ele o que lhe é nocivo ou benéfico. Estranha, entretando, que em pleno ano de 2012 com a internet livre e os variados meios que oferecem sexo, violência a qualquer momento, que a sociedade americana - tão avançada e evoluída - tenha esse tipo de postura. É um retrocesso de quem acredita estar auxiliando uma sociedade, focalizada exatamente em sua raiz, ou seja, nos alunos, nos jovens estudantes, suprimindo-lhes obras essencialmente literárias, e o que é ainda pior: obras já consagradas, já canonizadas. Creio que num futuro próximo, esses adultos não gostarão de saber que um dia foram trapaceados pela educação que seus pais sustentaram, mediante pagamento de impostos.

Subliminarmente ou de maneira mais explícita, o sexo sempre esteve presente em tudo. Se se for suprimir uma obra porque ela focaliza o sexo, ou a violência, ou o crime, não fica um disco, um filme, um livro de pé. Num belo dia de 1958, após o espetáculo Os 7 Gatinhos, Nelson Rodrigues pediu a palavra e foi "explicar" sua peça à plateia (adulta) que a detestara e começara a gritar palavras de ordem. Precisava? Houve quem quisesse chamar a polícia. Será que esse público que pagou ingresso, não tinha condições - por si só - de refletir, de analisar as - vá lá - monstruosidades apresentadas? E a respeito da "intenção literária" do autor, será que alguém percebeu?

Mas do que a mera referência ao sexo, ou aos órgãos genitais, era extremamente fácil para a censura classificar uma obra de "pornográfica" e acabou-se. O que precisa ser efetivamente compreendido num texto é sua profundidade literária como um todo, e não atacá-lo por uma palavra, uma frase ou uma referência. É a primeria vez que ouço falar que Shakespeare é pornográfico e alguns termos de suas peças devam ser "alterado" por outras. Assustado, eu digo: NÃO.

A literatura tem poder de alterar diversos rumos num meio. Quando ousa falar a verdade, ela passam a representar um perigo para os "donos do poder" que se veem acossados, emparedados pela força da palavra. Shakespeare não fez nada além de focalizar o íntimo dos homens, como raciocinam os poderosos, os apaixonados, como os indivíduos engendram seus crimes etc. O grande poeta inglês mostrou que os seres humanos sentem inveja um dos outros, trapeceiam, dissimulam, traem etc. Considero uma heresia censurar obras de tão alto valor moral e ético.

Que os EUA são uma nação puritana, todo mundo sabe. Ela já vetou a estudo do evolucionismo num passado não tão remoto, pois ele entra em conflito involuntariamente contra o Criacionismo Bíblico. (Consta que Darwin era religioso). Agora, tenta alterar uma obra desta importância. Nos anos 90, talvez para dar um basta nessa hipocrisia toda, uma mulher já calejada pela vida, escreveu uma peça que - coitados dos americanos - se tornou o maior êxito daquela década e excursionou o mundo. A palavrinha que os americanos odeiam ler de cara já aparecia no título da peça, e Eve Ensler teve o despudor de narrar tim tim por tim tim as funções do órgão genital feminino, repito: nos seus mínimos detalhes, mediante entrevistas com diversas mulheres. O título de sua obra-prima: Os Monólogos da Vagina. Deve ser o livro que encabeça o índex americano nesses últimos anos.


TEO JÚNIOR

Improbabilidade poética - a poesia deixa de pertencer ao poeta quando ganha as páginas dos livros


A literatura promove encontros estranhos. Um deles ocorreu entre Chico Buarque e João Cabral de Melo Neto. Chico Buarque de Holanda é o maior compositor lírico desse país. E justamente ele, que sempre carregou a sua poesia de um transbordamento de emoções e sentimentos, foi se juntou ao maior poeta anti-lírico do país para criar uma parceria improvável. Em 1965 Chico, então com pouco mais de vinte anos, foi convidado pelo diretor do TUCA, Roberto Freire, para musicar o poema que a companhia estava adaptando para o teatro. Daí nasceu o musical MORTE E VIDA SEVERINA. Um dos raros poemas de João Cabral que suporta música. Cabral, como todos sabem, era um poeta avesso a musicalidade, e se esforçou a vida inteira, para impedir que sua poesia expressasse alguma melodia involuntária. Ele acreditava que a musicalidade e o ritmo melódico de um poema, dispersava a atenção do leitor e o distanciava dos conteúdos poéticos necessários para compreensão da narrativa. Através da rima toante, frequentemente empregado pelo poeta em sua poesia para suprimir a música, a sua linguagem tornou-se uma marca de expressão individual que o distinguia de todos os poetas nacionais. Todos que ouvem um poema cabralino identificam de pronto a sua dicção. Ela é áspera, árida e seca, como as paisagens descritas em seus poemas. Em seu mundo particular, quase não se ouve nada, mas se ver muito. João Cabral optou pelo visual ao excluir os sons de seus poemas. A façanha dessa poesia foi a de se afastar daquilo que os legisladores literários sempre recomendaram: uma poesia direcionada aos sentimentos. Mas a poesia de João Cabral tomou o seu próprio rumo. Rebelou-se contra o poeta e revelou a sua face musical graças a genialidade de Chico Buarque que desentranhou das pedras cabralina, sons e emoções que o poeta jamais imaginou que elas contivessem.  

De repente Romeu ficou assexuado como os anjinhos das catedrais


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Como forma de ajustar os passos da sociedade ao ritmo do sistema, todos os regimes de exceção, indistintamente, praticaram a censura contra a literatura, o teatro, o cinema e outras expressões. Ditadores, reis, e governantes autoritários, desconfiaram sempre das histórias narradas pelos artistas. Elas poderiam como fez Shakespeare em Hamlet, desmascarar as tiranias dos lideres e constranger os governantes perante os súditos. 

A livre expressão do pensamento, desde sempre, constituiu assim, a esses regimes, uma ameaça devastadora, que devia ser combatido a qualquer custo. Não à toa, todos eles mantiveram formas de interdição, que, se não extinguiram de todo a livre circulação das ideias - como bem pretendiam os déspotas - serviu para mantê-las nos guetos, bem longe do grande público.  

Não faltam exemplos na história de perseguições, ameaças, torturas e degredo àqueles que ousaram desrespeitar as convenções. Em 1938 o poeta russo Óssip Mandelstam foi enviado a um Gulag e lá morreu por ter afrontado o ditador soviético Stalin, com um poema satírico. Stalin, alias, mantinha uma extensa rede de espionagem para assegurar o silêncio dos artistas e esconder assim, as atrocidades promovidas por ele nos campos de concentração. 

Investir contra a literatura não é mais um ato do passado. Nem são mais privilégios de ditadores. A cada dia uma nova e assustadora notícia de interdição assalta a crença de que já evoluímos o bastante para não atacar as artes. Primeiro foi a censura do CNE conta os livros de Monteiro Lobato, supostamente acusado de racismo. Depois veio a notícia de que o mesmo já havia ocorrido nos EUA quando escolas recusaramas obras de Mark Twain pelo mesmo motivo. Na França Hergé, autor de Tintim também não escapou a sanha moralizante, que prefere destituir a liberdade de expressão e artística, a discutir com seriedade as contribuições desses mestres para formação de gerações e mais gerações de leitores. 

Agora chega a notícia de que nos EUA - mais uma vez - algumas escolas estão fazendo ediçõesespeciais de Shakespeare com o intuito de eliminar, qualquer menção em suas obras, a atos libidinosos. Assim, palavras como pênis, vagina e suas congêneres, simplesmente sumiram. 

Ora como isso pode ser tolerado? Em que mundo de merda nós estamos? Excluir essas palavras do texto literário não assegura ao adolescente que ele não será promiscuo, tarado ou coisa pior - presumindo que esse seja o objetivo da censura. O psicanalista infantil Bruno Bettelheim em seu livro       A PSICANÁLISE DOS CONTOS DE FADAS, escreveu que “a cultura dominante deseja fingir, particularmente no que se refere às crianças, que o lado obscuro do homem não existe, e professa a crença num aprimoramento otimista”. 

Muito embora todas as pessoas nasçam através do ato sexual e isso seja muito natural para boa parte da população, alguns, ilustres guardiões da decência preferem fingir que o mundo é outro. Muitos pais, afirma BETTELHEIM, acreditam que só suprimindo realidades desagradáveis e reforçando os aspectos positivos da vida, assegurarão uma vida sem angustias aos filhos. Uma “dieta unilateral nutre apenas unilateralmente o espírito, e a vida real não é só sorriso”, conclui o psicanalista. 

Sobre qualquer pretexto a censura é um ato de violência que não pode ser tolerado pela sociedade. Ela se constitui numa afronta à liberdade e ameaça a pluralidade de ideias que são as bases de sustentação da sociedade moderna. Essas ações são reveladoras. Elas ilustram que não apenas os regimes autoritários, mas também, e infelizmente, a sociedade livre não tem a menor ideia do que seja arte e suas funções. 

A arte, quando recria o mundo em suas narrativas, não faz nada mais do que reproduzir de forma fictícia o que é produzido pelo homem. E o que é produzido pelo homem tem lá o seu quinhão de beleza, mas abunda também, uma asquerosa face que duela com os encantos. Não serão as ações dos censores, que evitarão qualquer desvio moral e restaurarão uma pretensa natureza bondosa do homem. Esqueçam. Então, não dever ser ela (a arte), que revela ao homem a si mesmo e ao mundo, que deva ser censurada. Antes, cabe ao homem, segundo seu arbítrio e individualidade, repudiar qualquer ação nociva e que exponha a sociedade ao perigo.  

CITAÇÃO 8


"De fato, na história da humanidade aconteceu um fenômeno importante, capital, que é o nascimento do pensamento científico e seu desenvolvimento. Esse fato é um valor intrínseco, em si mesmo, que eu realmente coloco fora do relativismo cultural. Agora, se você olha as coisas um pouco mais do alto, dirá que esse pensamento científico que respeitamos e que nos apaixona em seus progressos passo a passo, que se efetua no decorrer dos séculos, anos ou dias, é na realidade profundamente vão. Já que o que nos ensina é, ao mesmo tempo, a melhor compreender as coisas em seus detalhes e que não podemos jamais compreender na totalidade, no conjunto. 

O pensamento científico, ao mesmo tempo que alimenta nossa reflexão e aumenta nossos conhecimentos, mostra a insignificância última desse conhecimento. Depende do seu ponto de vista e do nível, que é o nosso, o do homem do século XX, do mundo ocidental, o pensamento científico é algo essencial, fundamental, e devemos utilizá–lo. Porém, se nos tornamos metafísicos, diremos que de fato ele é essencial, mas ao mesmo tempo é preciso saber que não serve para nada”.

(LÉVI–STRAUSS, C. Entrevista à Bernardo Carvalho, in FOLHA DE S. PAULO, 22 de outubro de 1989).

Uma “Antígona” de tirar o fôlego na Rua da Cultura


A bonita leitura da Stultífera Navis para o clássico sofocleano



Téo Júnior *

“Antígona”, magnífica obra legada pela Grécia Antiga – e que dera o merecido prestígio ao seu autor, Sófocles (496 – 406 a.C), conquistando o 1º. Lugar no concurso trágico de 442 a.C, conta a história da famosa donzela que, ao purificar o cadáver do irmão, assinaria sua sentença de morte. 

Os conflitos e as reviravoltas que o texto vai, aos poucos, apresentando, reclamam uma atenção e cuidado muito especiais de nossa parte, pois todo ele é permeado de emoções viscerais e intensas, já que os personagens agem guiados por convicções das quais não estão dispostos a retroceder tão facilmente. 

Creonte, uma vez estabelecido no trono de Tebas, parte do princípio de que deve ser obedecido – e não questionado, sejam quais forem suas resoluções. Antígona, por seu turno, considera-se no direito de transgredi-las, sim, quando estas não estiverem chanceladas pelos deuses, a quem venera. Não se pode compreender o teatro sofocleano sem se recordar de que os gregos eram profundamente religiosos e, portanto, tementes à vingança implacável do Olimpo. Observando-se por este ponto, notamos sem dificuldade, que são os poderosos – e não os meros mortais – quem experimentam a audácia de burlar as leis divinas, desafiando não raro a sabedoria dos oráculos etc., incorrendo-se desta forma em blasfêmia. 

Mas, como nada em teatro é tão simples quanto parece e antes que apontemos culpados e inocentes, há um fator em “Antígona” ainda mais perturbador: a única criatura que desacatou o decreto fixado pelo rei foi, ironicamente, sua própria sobrinha – e que será dentro em breve, sua nora. 

Até que ponto o Estado pode interferir naquilo que o cidadão julga necessário realizar? Eis a grande questão da peça, escrita há vinte e seis séculos. 

Uma leitura atenta de certos teóricos contemporâneos como Leyla Perrone (“Vira e Mexe, Nacionalismo”; Cia. das Letras) e Umberto Eco (“Interpretação e Superinterpretação”; Martins Fontes), desperta a atenção para com um fenômeno observado entre os grandes textos literários: a profusão das analogias, de semelhanças que há entre eles, cuja mensagem é a de que uma obra sempre está dialogando com a outra, e sem que nenhuma delas perca sua originalidade. Não resisto à tentação de estabelecer a maneira como Sófocles radiografou os poderosos: Creonte e Édipo (seu antecessor) têm em comum a irritabilidade, a pressa em julgar quem lhes rodeia, o (aparente) paternalismo pronto para converter-se em arrogância, e a fúria indisfarçável que há em suas palavras quando seus desejos não são prontamente atendidos. 

“Antígona”, antes de ser uma tragédia onde três indivíduos morrem devido à resolução de um tirano é, antes de tudo, uma parábola que sublinha aquele sentimento tão escasso hoje em dia: o amor legítimo. Amor por parte da protagonista, ao não permitir que o corpo de Polinices fosse profanado, servido de alimento para aves e cães – e, ato contínuo, amor para com seus progenitores, que certamente endossariam a empreitada. Amor de Hémon, destinado àquela que seria sua esposa, ao rechaçar com veemência a decisão precipitada do pai. Amor de Tirésias, não apenas para com a grandeza do gesto desta menina, mas principalmente respeito para com as divindades – que brota, espontaneamente, de suas iluminadas palavras. 

Ao acompanharmos “Antígona”, detendo-nos em cada detalhe, quer nas ponderações de Ismênia, quer nos argumentos ambíguos do Coro e também no embate entre a protagonista e o soberano (duas personalidades descomunais) temos a impressão de estarmos ouvindo uma sinfonia, e não lendo uma obra teatral. Ao representar “Antígona”, o mais destacado dramaturgo grego de todos os tempos – que deixou para a humanidade peças do calibre de “Édipo-Rei” e “Electra” compôs uma linda e admirável poesia. 

“Antígona”, por acaso, encerrou o bonito projeto do Sesc/Artes Cênicas. Como não há a menor possibilidade de se analisar todas as peças do programa, optou-se em apreciar a obra de Sófocles, dada sua imortalidade. Isso, é claro, sem qualquer intenção de desmerecer nenhuma das demais. Estão de parabéns os organizadores e elencos. 

Agora, vamos a nós: o Coro, em seu todo, foi uma surpresa. Composto por vinte pessoas – moças e rapazes em trajes quase que sumários – e que amiúde movimentavam-se como verdadeiros malabaristas, se contorcendo em vigas de ferro, lembraram-nos um picadeiro. Alguns atores, inclusive, apareceram nus, remetendo-nos (é inevitável) às carnavalescas montagens de Zé Celso Martinez. Existe uma cena no espetáculo que, a meu ver, fora extremamente inútil: quando todos eles se abraçam, esfregando-se uns nos outros, numa estranha dança carregada de lascívia. Sem dúvida, o diretor quis passar a ideia da unidade da opinião pública defendendo a postura da protagonista. Porém, essa imagem, sensualizada ao extremo, não me pareceu a mais adequada, posto que não acrescenta nada ao enredo. Bastava o momento (feliz) em que o coro sorri, à revelia do rei, deixando transparecer sua censura quanto ao edito, sem a necessidade de sexualizar a cena.



IRREVERÊNCIA


Kassem, caracterizado como um palhaço no papel do Emissário foi um equívoco: seu modo excessivamente irreverente ao narrar ao rei a descoberta dos cuidados ao cadáver interditado, mais lembraram o bobo da corte do que um infeliz servidor que teve o azar de ser o portador da mesma. Sua maneira infantilizada de se expressar é inaceitável sob qualquer aspecto, na medida em que ele está diante de uma autoridade – a quem se deve temer – e não parlamentando com um amigo ou um colega. Se o personagem nos diz claramente: “Eis-me aqui, contra a minha vontade e contra a vossa, porque ninguém se alegra em ser o portador de más notícias”, como explicar que ele fosse tão satisfeito e descontraído ao anunciá-las? 

Edênia Góis (Eurídice), Marcelo Paz (Hémon; papel que nada tem de fácil), Régi Gondim (Corifeu) e Sandra Azevedo (Ismênia) embora aparecendo menos, desempenharam seus papéis com bastante competência. 

A interpretação de Jane Carvalho (Tirésias) fora louvável. Ela entrou, deixou seu recado e retirou-se – mas eu gostaria de fazer uma ressalva: na medida em que vai falando, o personagem começa a rolar no chão, convulsivamente, desenhando-se a nossos olhos um quadro grotesco. É algo que não deixa de surpreender, porque esse arrebatamento, cujo espírito revela-se demasiado agitado e ressentido, não caracterizam o adivinho com exatidão. Como o homem que “traz consigo a força da verdade”, Tirésias representa antes de tudo a mansidão e a tolerância, sempre aliadas àqueles que são os intérpretes dos deuses. No caso, não se trata nem de um erro – e sim de um evidente exagero.  

O Creonte de Lindemberg Monteiro era exatamente o que se esperava. Categórico e resoluto em suas decisões, sua voz fez-se ouvir e respeitar. A atuação dele possui a energia e o vigor inerentes ao grande personagem que interpreta.  

Por fim, a protagonista. Meu Deus, o que foi aquilo que vimos na Casa da Rua da Cultura no último domingo? O desempenho de Aimée Resende foi tão sincero e corajoso, que somente uma atriz profundamente passional seria capaz de realizar. Há na atuação de Aimée a determinação latente que as heroínas obstinadas exigem. O momento em que ela balança-se freneticamente, apoiada sob um cabo de aço, despedindo-se dos cidadãos, fora simplesmente magistral e carregado de beleza. Comovente e inesquecível. 

No cômputo geral, parece que com “Antígona”, a parada da Cia. Stultífera Navis está ganha. A direção de Lindemberg Monteiro justificou-se na medida de se adaptar aos nossos dias um clássico com ideias bastante sugestivas. O espetáculo fora apresentado gratuitamente. A ovação que se seguiu ao seu término atestou que se trata, efetivamente, de um grande trabalho. 

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* É professor e pesquisador de teatro.

Contato: @junior_teo 

As humanidades não Humanizam


As humanidades, escreveu o crítico George Stein, não humanizam. Estou cada vez mais convencido disso. Até hoje, não consta que uma obra literária tenha salvado uma única criança da fome, impedido uma guerra ou estancado o sangue que os homens insistem em derramar uns dos outros. Porém, se as artes não salva, nem conforma totalmente o homem, tão pouco sem ela, essas coisas deixariam de existir.



Escrevo isso a propósito do que li aqui.

O livro não existe


“A partir do momento em que você entrega um livro - essa é a principal angustia de um escritor - ele deixa ser seu. O livro só existe quando cada leitor senta pra ler. Na verdade o livro não existe dentro do livro. O livro existe na cabeça de cada um. Se cada um aqui pegar o meu livro pra ler, cada um vai ler um livro diferente. Esse livro só vai existir para ele”.


José Castello aqui

O profissional da memória - Poema de João Cabral


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O PROFISSIONAL DA MEMÓRIA

Passeando presente dela
pelas ruas de Sevilha,
imaginou injetar-se
lembranças, como vacina,

para quando fosse dali
poder voltar a habitá-las,
uma e outras, e duplamente,
a mulher, ruas e praças.

Assim, foi entretecendo
entre ela, e Sevilha fios
de memória, para tê-las
num só e ambíguo tecido;

foi-se injetando a presença
a seu lado numa casa,
seu íntimo numa viela,
sua face numa fachada .

Mas desconvivendo delas,
longe da vida e do corpo,
viu que a tela da lembrança
se foi puindo pouco a pouco;

já não lembrava do que
se injetou em tal esquina,
que fonte o lembrava dela,
que gesto dela, qual rima.

A lembrança foi perdendo
a trama exata tecida
até um sépia diluído
de fotografia antiga.

Mas o que perdeu de exato
de outra forma recupera:
que hoje qualquer coisa de um
traz da outra sua atmosfera.


João Cabral de Melo Neto. Museu de Tudo, p.401-402.