Manoel de Barros
FRASEADOR
Hoje
eu completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze.
Naquela
ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na
fazenda,
contando que eu já decidira o que queria ser no meu futuro.
Que
eu queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de
fazer
casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador.
Meu
pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a
cabeça.
Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais
velho
perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa?
Eu
não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu:
Mas
se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar
uma
enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe
baixou
a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não
botou
enxada.
Manoel
de Barros. Memórias Inventadas: As
Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Ed. Planeta do Brasil, 2008.
Ser-Vil
O homem é um animal assustado. Acuado por demônios, ETs, pés-grandes,
fantasmas, escuro e toda sorte de sortilégios, ele não ver outra saída, a não
ser a servidão a esses mal-assombros. Seu
fim parece ser o de cultivar o medo em todos os estágios de sua vida. Não lhe ocorre, em nenhuma ocasião, que o
medo é uma força alimentada por aqueles, que desistiram de encarar o
desconhecido e se curvaram servilmente às sombras.
A coragem adiada ou sob o abrigo do medo
.
Talvez seja por meu
ceticismo crônico, ou a simples falta de evidência. Seja lá qual a razão, o
certo é que, não dou o menor ouvido às predicas de fim de mundo, que andam
assustando as pessoas por aí. Ao se aproximar a apocalíptica data dos crentes
do calendário maia, a única coisa que me acossa o juízo, é saber que esses
messias, continuarão criando outras formas de dar cabo à existência humana, tão
logo esse frenesi seja providencialmente esquecido.
Estamos mesmo
condenados a viver pelo medo, arrastando pelos séculos a firme esperança de
prever ora em formatos de plantas ou tripas de animais, ou como agora nas
fantasias de uma civilização pretérita, todas as nossas fraquezas de espírito e
incertezas da alma. Não houve um único momento na história da humanidade em que
os homens não deixaram de prever sinais de mal auguro em tudo. Investidos, como
acreditavam, do mais puro sentimento, eles alardearam todo tipo de terror.
Transformaram assim o mundo numa morada perpetua do medo.
A julgar pelos presságios
do passado, foi por um milagre, ou mero erro de cálculo - afirmam os
empedernidos - que nos permitiu chegar, sãos e salvos ao presente. Porém,
outros, abnegados visionários, muito bem dispostos, não perderam ainda,
malgrado nossas esperanças, a determinação para consertar “todos os equívocos
do passado”, e reinstauram, de tempos em tempos, uma nova previsão de
catástrofe, que sucumbirá a humanidade, dessa vez sem sombra de dúvidas, para
sempre.
Enquanto muitos vão
contando os fins dos dias eu passo as horas sonhando com as manhãs. Nada me
demove a alegria de estar vivo e cultivando a vida. Quem deseja catástrofes
vive em catástrofe. A única rota de colisão possível do homem é contra si mesmo
e seus demônios. Em tempo, levo a vida desassombrado desses seres.
Às Avessas
.
Ando em descompasso com
a realidade. Faltam-me os impulsos necessários para seguir aos muitos e
afortunados lugares de desejo do mundo contemporâneo. Quedam-me outras paradas.
Detém-me, outros objetos, muito menos
queridos pelas gentes. Não os julgo, porém, menos apetecível de cobiça por essa
razão. Seria um parvo se assim o fizesse. Sinto apenas um fastio às coisas que
a maioria não passaria sem.
O resultado. Aos olhos
do mundo moderno vivo uns sem números de tropeços, vexames e outras estultices.
Embaraços que em vez de me fazerem corar - como muitos poderiam esperar - dão-me
uma sensação de contentamento e alivio; pois não me sinto mesmo na vontade nem
na obrigação de seguir pari passu, a
vida contingencial que se me apresentam como ideal e segura. Aqueles que a
seguem, hoje não as têm tão ideais e seguras assim. Sobram-lhes inquietações e
tormentos. Falta-lhes a coragem de admitir.
Imprimo outro ritmo à existência.
Muito menos ambicioso como queriam alguns, e sonharam outros, mas, muito mais
rico do que poderiam supô-las todos. A vida, contrariando todas as certezas,
também se faz às avessas.
Das coisas que adoro fazer
Ocupo-me, de tantas coisas inúteis, que dia desses ainda
terei a vida seriamente ameaçada por esse pendor.
Rede
.
A rede faz parte da vida do Paraíba. Ela atravessa toda a sua existência. Ao nascer ele não pode contar com o luxo de uma cama, então é lançado ao balanço de uma rede, que lhe faz às vezes de berço. Ao fim da vida esse utensílio doméstico, indispensável nas famílias nordestinas, que o salvaguardou de tantos desassossegos e desalentos da longa jornada da existência, é transformado em sua última companhia na morada final. Uma das cenas mais comoventes da peça Morte e Vida Severina, ocorre quando o viajante encontra pelo caminho um funeral de um lavrador que segue numa rede ao fatal destino.
- Dentro da rede não vinha nada,
Só tua espiga debulhada.
- Dentro da rede vinha tudo,
Só tua espiga no sabugo.
- Dentro da rede coisa vasqueira,
Só a maçaroca banguela.
- Dentro da rede coisa pouca,
Tua vida que deu sem soca
(...)
Depois de tanta parceria, tanto na vida como na morte, o nordestino não pode deixar de lhe render as devidas homenagens. Sobram-lhe motivos para admirar e benquerer o balanço manso de uma rede, seja à sombra de uma árvore ou ao abrigo de uma latada, não importa. Motivos que escapam àqueles que tiveram outras experiências de existência. Para muitos a rede se constitui no único alento ao corpo molestado pela fadiga. Ainda hoje é fácil encontrar na casa de qualquer nordestino uma rede espalhada em algum canto se oferecendo ao corpo. Lá em casa não existe apenas uma, mas várias. Em Rede de Dormir o estudioso da cultura popular Luís da Câmara Cascudo escreveu: "A rede é acolhedora, compreensiva, coleante, acompanhando, tépida e brandamente, todos os caprichos da nossa fadiga e as novidades imprevistas do nosso sossego. Desloca-se, incessantemente renovada, à solicitação física do cansaço. A rede colabora na movimentação dos sonhos". Lembro-me de minha avó. Em menina ela nunca soube o que era o aconchego de uma cama. Viveu boa parte da vida espinhosa de lavradora a meia, esperando o momento sublime de abrandar seu corpo trucidado pela lida, nos braços acolhedores de uma rede. Não me admira, portanto, que hoje aos 83 anos ela prefira uma rede aos largos espraiados de uma cama.
Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo
.
Em 1904, Kafka escreveu
a seu amigo Oskar Pollark: “No fim das contas, penso que devemos ler somente
livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e
acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para
que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se
não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade,
poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como
o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós
mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta,
longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um
machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito”.
Fonte: Uma história da
Leitura de Alberto Manguel, p. 113
Genial e inesquecível - Os 100 anos do homem que inventou o teatro brasileiro
Nelson Rodrigues (1912 – 1980).
Fonte: Antônio Guerreiro/IstoÉ
Fonte: Antônio Guerreiro/IstoÉ
Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar em Nelson Rodrigues. Eu tinha 17 anos, cursava o 3° ano do ensino médio na Bahia e, estando na casa de uma colega, ela me disse que naquela noite um homem iria decepar o órgão genital dele. Fiquei entre espantado e maravilhado com tamanha coragem. Perguntei-lhe: “Tem certeza, Zélia?”. Ao que ela me respondeu: “Eu já assisti. É hoje! Assista e você vai ver!”. Estávamos em 2002, e a Globo reprisava “Engraçadinha”, em comemoração aos 90 anos do “genial e inesquecível” Nelson Rodrigues – assim era a chamada. A minissérie que revelou Alessandra Negrini havia sido apresentada pela primeira vez em 1995.
Minha amiga referia-se à cena antológica em que Silvio, personagem de Ângelo Antônio, resolve adquirir uma navalha para mutilar-se, assim que descobriu que mantivera relações com sua irmã. Sempre acreditando que Engraçadinha fosse sua prima, não suportou o golpe da triste revelação. O pai deles manteve, num passado remoto, um relacionamento com a cunhada, mas tratou de abafar o caso – afinal, era um deputado. Silvio e Engraçadinha jamais souberam que eram irmãos.
Tive a oportunidade de ler todas as peças de Nelson, ver quase todos os seus filmes e posso asseverar: nenhum outro escritor, nacional ou estrangeiro, me fascinara tanto. Quando terminei a leitura de “A Mulher Sem Pecado”, cheguei à conclusão: é esse. Nunca mais o abandonei.
Nelson é tão fabuloso que a fortuna crítica em torno de sua literatura é quantitativamente superior a tudo o que ele escreveu ao longo de 40 anos de atividade incansável em jornais, no teatro e no cinema. Ao lado de Jorge Amado, foi o autor brasileiro mais adaptado para o cinema, com estrondoso sucesso de público. “A Dama do Lotação”, direção de Neville D’Almeida, é hoje a 3ª bilheteria do nosso cinema. Fica atrás somente de “Dona Flor” e “Tropa de Elite”.
Apesar de grande parcela de seus fãs preferir “Toda Nudez Será Castigada” (direção de Arnaldo Jabor), considerada a melhor adaptação dele para o cinema, nenhum outro filme rodriguiano impactou-me tanto como “Bonitinha, mas Ordinária” (refiro-me à versão de 1981, com Lucélia Santos, direção de Braz Chediak). O ser humano reduzido a um abutre, ao dinheiro que pode comprar tudo, ao apego excessivo às aparências, à humilhação sistemática que alguém pode impor àqueles que lhe são inferiores, ao seu ver, simbolizado na pessoa do milionário Heitor Werneck, mostraram-me um mundo vil, imundo, cuja moral vai se deslocando aos pouquinhos para o estado de putrefação. Resta ao espectador sofrer.
Sim, porque a literatura de Nelson Rodrigues não comporta a alegria nem a felicidade. O sexo, o amor, o casamento, a viuvez, a loucura – tudo está indissociável da felicidade. As personagens vivem mergulhadas em permanente estado de tensão. Acredito que Plínio Marcos, Fausto Woolf e Antonio Carlos Viana beberam da fonte de Nelson, a julgar pelos ótimos livros que publicaram.
Anarquizando geral a “sacrossanta” família brasileira – da mais pobre, como a de Silene em “7 Gatinhos” à mais rica, como a de Herculano em “Toda Nudez”, Nelson defendeu a importância de um lar asséptico. Gritando a infidelidade e exibindo no palco, sem máscaras, a prostituição e o que ela acarreta, Nelson valorizou a virgindade e o amor eterno. Escrevendo a respeito de patologias de foro íntimo, da corrupção moral dos homens, da política que fabrica canalhas, da banalização do sexo, do racismo (leia “Anjo Negro”), Nelson fora de um moralismo violento e feroz.
O homem que grande parte do País dizia ser “neurótico” e “tarado” disse, certa feita, que era contra a educação sexual na escola. “Educação sexual tem de ser dada por um veterinário a cabras, a bodes, a vacas. O ser humano não tem de ser educado para fazer sexo. O ser humano precisa ser educado para amar. Eu sou do amor eterno!”.
Nelson não era uma metamorfose ambulante. Ele tinha aquela velha opinião formada sobre tudo. Jamais será esquecido, inclusive pelos detratores do teatro dele.
* Téo Junior é crítico do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador desse blog.
Henrique Manuel Bento Fialho - Petardo anti-sonolência.
fonte da foto aqui
.
Só há paz possível e
algum alento à modorra cotidiana, na arte. Depois de uma semana sisífica volto
a ler o Henrique M. Bento Fialho. Como sempre ele atira contra mim e as convicções
bovinas um petardo anti-sonolência. Sua poesia é um despertar das ilusões, um
chamamento às consciências. Vai dai que alguns, convictos panglosianos da
normalidade social, não enxergarão grande coisa nesses versos. Tenho, porém
comigo a plena convicção de que muitos daqueles que pressentem algo de tortuoso
e desajustado na política, na sociedade e na cultura contemporânea sentirão neles
uma verdade inconveniente. E são de inconvenientes contra as correntes que nos
arrastam pela “torrente dos dias” que
são feitos os versos desse português arisco ao convencionalismo. Ao contrário
de seus compatriotas, Henrique suspeito de cada gesto da vida moderna. Sem maneirismo
ou figuras obscuras sua poesia dispensa o vocabulário insólito “sobre amores-perfeitos,/ Cidades ardidas, noites melancólicas... para
percorrer os caminhos da vida com a sinceridade que rareia em todas as esferas
sociais. Implacável contra a complacência que reina nas relações humanas,
Henrique, na contramão daqueles que não dispensam uma sinecura, sentencia: Prefiro um emprego honesto à suinicultura/ Dos
salões nobres, das universidades vazias. Até conhecer a poesia do Henrique
Manuel Bento Fialho eu não sabia que era possível escrever poesia com tanta
agudeza e ferocidade de espírito.
Não quero ser poeta num país onde os
poetas
Estão ao nível dos secretários de estado,
Escrevem com o giz remoído das unhas
Versos de encantar musas imberbes
E olham para o lado, fingindo que não vêem,
Sempre que passam pela própria sombra.
Prefiro um emprego honesto à suinicultura
Dos salões nobres, das universidades vazias,
Dos colóquios a meia-luz nos jardins da fundação.
Um emprego honesto pode ser: plantar
Cornucópias na testa do consumo, regar
Palavras a esmo, lavrar as alcatifas poeirentas
De uma livraria mainstream arrastando os pés
Das mesas carregadas de lixo, como arrastados
Vamos nós na torrente dos dias.
Ou talvez arrumar crises nas prateleiras da austeridade,
Enquanto do outro lado do mostruário
Os poetas do meu país escrevem sobre amores-perfeitos,
Cidades ardidas, noites melancólicas e coisas assim
Fodidas.
Estão ao nível dos secretários de estado,
Escrevem com o giz remoído das unhas
Versos de encantar musas imberbes
E olham para o lado, fingindo que não vêem,
Sempre que passam pela própria sombra.
Prefiro um emprego honesto à suinicultura
Dos salões nobres, das universidades vazias,
Dos colóquios a meia-luz nos jardins da fundação.
Um emprego honesto pode ser: plantar
Cornucópias na testa do consumo, regar
Palavras a esmo, lavrar as alcatifas poeirentas
De uma livraria mainstream arrastando os pés
Das mesas carregadas de lixo, como arrastados
Vamos nós na torrente dos dias.
Ou talvez arrumar crises nas prateleiras da austeridade,
Enquanto do outro lado do mostruário
Os poetas do meu país escrevem sobre amores-perfeitos,
Cidades ardidas, noites melancólicas e coisas assim
Fodidas.
A utopia necessária
fonte: aqui
.
Meus alunos questionam-me sempre sobre o verdadeiro valor da literatura. Eu não deveria, pela obviedade dos fatos, e pela posição em que eles se encontram, voltar a esse assunto. Porém percebo cada vez mais o imperioso da discussão, e julgo inevitável falar mais do mesmo. Então lhes digo: Não sei o verdadeiro valor da literatura, porém suspeito de algumas coisas sobre ela. A literatura aponta caminhos alternativos aos oferecidos pela realidade. Questiona o inelutável da existência e revigora as utopias quando todos insistem em afirmarem que o sonho acabou. Diz-se então assim, que ela intui um futuro diferente daqueles ofertado pelo mundo dos que cansaram de sonhar. Insubmisso, questionador, ela insiste em rotas inexploradas e abre picadas nas consciências insones. Isso já seria o suficiente para torná-la uma ferramenta indispensável ao progresso da sociedade, mas ela ainda nos oferece mais, muito mais. Dá-nos, malgrado nossos esforços em contrário, uma consciência crítica, civil e política, além de uma consciência da própria linguagem ao questionar o seu convencionalismo e apontar para suas potencialidades mais surpreendentes. Estão aí os Barros, Cabrais, Meireles, Leminkins que não nos deixam mentir. Em um mundo marcado pelo fetichismo mercadológico ela ainda se constitui no único refugio possível de nos livrar da sedução do canto comercialesco, que nos intenta bestializar com sua sordidez. Em um mundo poliédrico ela nos aproxima de outras realidades desmitificando o desconhecido e evitando assim os males da xenofobia. Quereis saber mais sobre isso? Leiam um livro e tirem vocês mesmo as suas próprias conclusões.
Van Gogh
.
Vincent van Gogh teve uma vida desgraçada. Foi autodidata. Em pouco mais de
30 anos de vida conheceu todo tipo de opróbrio. Foi rejeitado pelo pai,
incompreendido pelos artistas de sua época, passou fome, peregrinou de um lugar
a outro errando em busca de um pouso, sem nunca encontrar sua Shangri-la. Uma
vida realmente miserável. “Os próprios cães da rua não quereriam dar em troco
desta a sua”. Nada disso foi suficiente para silenciá-lo ou fazê-lo renegar o
seu oficio. Seu sonho artístico era inegociável. Seu zelo por embeleza o mundo
incorrigível. A despeito da incompreensão paterna, da indiferença social e do
escárnio popular ele nunca se divorciou da ideia de se tornar um artista e
contribuir, a sua própria maneira, com o mundo bem diferente daquele que ele
herdou. As imagens abaixo não parecem de terem sido pintadas por alguém que
conheceu o desespero. Mas foram. Nesta era metálica de sonhos egoístas as
pinturas de Van Gogh violam aquela máxima que associam uma vida desgostosa a
uma obra taciturna e desalentadora, sem brilho e sem sonhos. Os sonhos podem
servir de salvaguarda à nossa resistência ante tantas certezas de dias piores.
Depois de Van Gogh não temos mais o direito de pensar pequeno ou nos
entristecermos. Depois dele todos os nossos problemas parecem menores e
insignificantes.
Hesitar
Hesitar:
demonstrar dúvida, fraquejar diante de duas ou mais possibilidades, postergar
para um futuro incerto as resoluções determinadas pelas emergentes necessidades
do agora; faltar; embaraçar-se diante de resoluções que não devem ser ignoradas;
esquivar-se ante o pontapé sem reagir; receio; medo; insegurança; refrear as
palavras, gestos e ações por pudor ou temor; deixar à sorte ou o vento encaminhar
as coisas; assistir ao longe os acontecimentos sem intervir; aguardar que as
coisas se solucionem feito um passe de mágica; pesar; recuar ante o adversário;
temer ante a adversidade; julgar desfavoravelmente; desculpar-se por falta de
convicção; sacrificar-se; renunciar ante a refrega. Por certo encontraríamos
muitos outros meio de definir a palavra hesitação. Ela está entranhada em nossa
natureza de forma incontornável.
Útil e honesto - Montaigne
"É um erro julgar a beleza e a grandeza de uma ação pela sua utilidade e imaginar que devemos fazer e considerar honesto tudo o que é útil."
Montaigne, Ensaios III: Do útil e do honesto, p. 367.
Montaigne, Ensaios III: Do útil e do honesto, p. 367.
A Crítica
.
.
A nossa geração se recusa
a dá atenção à crítica. Teatro, cinema, literatura e música rejeitam
violentamente as observações e julgamentos desses investigadores que a cada dia
somem dos jornais, revista e veículos mediáticos, para o limbo das discussões artísticas.
Até gente civilizada não entende «para que servem» os críticos. Tenho cá comigo uma opinião de que tudo isso
se deve ao fato de que, uma estúpida e corrosiva ideia de que não há nada mais a
se dizer sobre as coisas, associado à preguiça mental que papagueia a
imaginação alheia e entronaram a banalidade, o fútil e o opiniático como
valores insuperáveis, são algumas das razões do desprestígio da função crítica
na nossa sociedade. Eu prefiro antes uma sociedade aberta à crítica, do que aquelas
que, marginalizam homens e mulheres por não se darem facilmente por satisfeitas
e insistirem em fazerem inconvenientes questionamentos onde a maioria via (ou fingia)
um consenso. Muitas das noções que hoje damos por adquiridas foram formuladas
pela crítica mais aguda. A crítica sincera é muito mais construtiva do que o
elogio imerecido. Mas as pessoas preferem o inebriante perfume dos discursos
panegíricos, as ásperas, mas honestas opiniões, que nem sempre estão em conformidade
com o esperado, daqueles malditos transgressores do conformismo.
Amado Nervo (1870-1919) México
EM PAZ
Já bem perto do meu ocaso, eu te bendigo, ó Vida,
porque nunca me deste esperança mentida,
nem trabalhos injustos, ou pena imerecida;
porque vejo, ao fim de tão rude jornada,
que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;
que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas
foi porque as adocei ou as fiz amargosas:
se roseiras plantei, não colhi senão rosas.
... Decerto, aos meus ardores vai suceder o inverno;
mas tu não me disseste que maio fosse eterno!
Longas achei, confesso, minhas noites de penas;
mas não me prometeste noites boas, apenas,
e em troca tive algumas santamente serenas...
fui amado, afagou-me o Sol. Para quê mais?
Vida, nada me deves! Vida, estamos em paz!
Acaso
Preso a uma cadeia de acontecimentos e infortúnios que, ocasionalmente surgem, nenhum homem pode se dizer inteiramente livre. A liberdade é um alvo a ser alcançando, um desejo de realização, porém, nada garante o seu êxito. O acaso, esse componente indissociável da vida, muitas vezes se interpõe as pretensões mais nobre e alteram a rota de uma vida, que acreditávamos inalterável. Quando isso acontece, e não são raras às vezes em que podem ocorrer esses dissabores, vemos atirados ao pó todas as ilusões de uma vida segura, estável e minimamente equilibrada.
Um país inteiro de ferradura
A qualquer um, que a muito deixou de ter as mãos ao chão, pareceria, no mínimo estranha, para não dizer outra coisa, que um ex-ministro da justiça com reconhecido prestigio político, aceitasse defender um famoso contraventor acusado de um sem números de crimes indizíveis, cuja atuação se estendem por uma grande rede de influências em todo o aparado do Estado. A qualquer um isso pareceria uma ignomínia. Mas estamos no Brasil. Isso torna as coisas bem diferentes.
“O Anjo Safado”: peça interessante e sugestiva
Téo Júnior [*]
Enfim,
depois de muita publicidade e expectativa idem, estreou no Teatro Atheneu o
espetáculo “O Anjo Safado”, que permaneceu em cartaz no último final de semana.
Apresentação bonita, com muita dança, música e bastante sugestiva.
A
dualidade entre céu x inferno, pureza da alma x prazeres mundanos, quer dizer:
o indivíduo em conflito consigo mesmo, que tanto intrigou (e fascinou) os
homens no período medieval, veio à baila na peça - fascínio que teve em Gil
Vicente uma dimensão maior.
Ressalte-se
que, uma vez no terreno metafísico, os conceitos e aquelas normas de conduta
que recebemos ao longo da vida vão sendo subvertidos por uma lógica distinta. Quando
algum personagem se insere no universo pós-vida, na ótica cristã, as regras do
jogo agora são outras.
O
texto de Paulo Lobo é simples e direto. A maior vantagem dele foi estar isento de
abordagens filosóficas complexas e que, no fim das contas, não sugere nada ou
muito pouco. Teatro bom é assim: diz o que precisa ser dito de maneira
econômica e eficaz. A direção de Jorge
Lins compreendeu a ideia do texto.
Guardei
a sátira que foi feita em relação aos bispos gananciosos e hipócritas, e
acredito que a crítica seja muito pertinente, uma vez que hoje a televisão
brasileira está demasiadamente contaminada com uma leva de “pastores” picaretas
e aproveitadores, alguns inclusive não resistindo à tentação de exibir
horrendas sessões de exorcismo. Lobos disfarçados de cordeiros.
A
cena onde a entrevistadora melindrosa Lais Bizarra (Eduardo Vieira) conversa
com o chefe do inferno (o excelente Leandro Handel) foi impagável.
Duas
vezes, foram exibidas cenas de orgia sexual com 15 participantes. Pura
devassidão, que deixaria um pastor horrorizado.
E
assim, de gargalhada em gargalhada, as verdades - algumas inconvenientes - vão
sendo ditas uma por uma, e o teatro acaba se tornando uma espécie de espelho,
onde o público tem a oportunidade de se enxergar e de refletir, como acreditava
Molière.
Iluminação
adequada, cujo palco ficou grande parte do tempo em penumbra, talvez para
realçar o aspecto extraterreno do atormentado personagem José. Som e figurinos
bons.
Antônio
Leite, o protagonista, sozinho, já é um teatro. Teve um desempenho seguro e
feliz. Trata-se de alguém que possui uma grande relação de afeto com o palco.
Um ator experimentado e competente.
Toda
essa discussão coube no espaço de 1 hora.
_______________________________________
Crítico de teatro e colaborador do ETC’.
Contato: teo.camp@hotmail.com
A Civilização do Espetáculo
.
No momento em que a
cultura (essa ficção) se submete à tirania do entretenimento e as pessoas se
dão em espetáculos grosseiros em todos os veículos “merdiáticos”, retrocedemos
a uma cultura carnavalesca, onde tudo é embrutecido, banalizado, onde o que é
espalhafatoso e estúpido tem muito mais chance de ser recompensado do que o verdadeiramente
meritório. Estão aí os artistas fantoches, os programas de auditórios e jornalísticos
comprometidos com o lucro, os realities shows da vida, que não nos deixam
mentir que o homem moderno não passa de uma besta exibicionista. Qual de nós é
capaz de negar diante de tantas evidências de que vivemos naquela época “em que
tudo que repugna uma joia encontramos”, como escreveu Charles Baudelaire no seu
poema de abertura do livro As Flores do
Mal. E são assim que correm os dias. Nem mesmo a literatura escapa do
exibicionismo que prostrou os artistas a vulgaridade e entronou o frívolo como
o mais novo guia da manada. O que mais se vê por aí são poetas que abdicaram de
qualquer postura independente e séria, para seguirem o jogo da moda. “Nos nossos
dias” escreve Mario Vargas Llosa em seu mais recente livro La Civilización del Espetáculo (ainda sem tradução para o
português) “o que mais se espera dos artistas não é o talento nem a destreza,
mas a pose e o escândalo, os seus atrevimentos não são mais do que as máscaras
de um novo conformismo”. Oprimido pelo curral das convenções, impulsionado
pelos padrões do entretenimento, o artista contemporâneo, numa embaraçosa
postura de submissão aos credos vigentes, não emprega o seu oficio em ações
comprometedoras do gosto publico ou dos interesses da Indústria Cultural. As efemérides
ditam os rumos das coisas e o gosto médio assegura a sua qualidade. Quem será
capaz de se levantar e dar uma bofetada no gosto público?
A verdade das mentiras
"Arendt explica que o mentiroso, ao contrário daquele que diz a verdade, é um homem de acção, uma vez que distorce a realidade. Em contrapartida, aquele que diz a verdade precisa de recorrer a uma retórica que impõe não a verdade em si mesma mas a sua coincidência com um interesse específico. Ele (ou ela) faz isso porque a verdade não é evidente, e só convence travestida de interesse. Ao mesmo tempo, sabemos que quem faz coincidir uma verdade com um interesse está apenas a exercitar um truque. E desconfiamos."
Pedro Mexia no blog Lei Seca
Pedro Mexia no blog Lei Seca
In My Life - A moldura de minha vida
.
Músicas há que nos
tiram o fôlego por traduzirem-nos emoções íntimas e nos revelarem infindáveis
maneiras de dizer coisas, que muitas vezes, apenas pressentimos. Quando isso
acontece, e não são raros esses momentos, quando se ouve boa música; eles
vincam nossas vidas para sempre, moldando um gesto, uma pessoa querida, um
amigo eterno, uma passagem de nossa vida, com um colorido todo especial,
digno dos melhores quadros. In My Life dos Beatles é uma dessas molduras. Gosto
também da versão de Ozzy Osbourne para esse hino ao amor incondicional.
Não me recordo da
primeira vez que a ouvi, mas, desde esse dia - esquecido pela memória - retorno
sempre aos seus encantos, para não mais a esquecer. Mesmo que eu quisesse,
porém, não seria possível apagar da minha vida essa música primaveril. Ela me
toca pela singeleza de acordes e profundidade da mensagem, que possui um grau
exato de exaltação romântica. Exaltação que em tudo recusa aquele sentimentalismo
piegas e fácil, tantas vezes associados aos discursos líricos.
Adeus Columbus - Excerto do livro de estreia de Philip Roth
A primeira vez que vi Brenda ela me pediu para segurar seus óculos. Então foi até a ponta do trampolim e, apertando os olhos, mirou a piscina; se estivesse vazia, Brenda não perceberia o fato, míope que era. Deu um belo mergulho e um instante depois voltava nadando para a beira da piscina, mantendo a cabeça, de cabelos avermelhados cortados curtos, erguida à frente, como se fosse uma rosa de caule longo. Rapidamente chegou à borda e veio ter comigo. “Obrigada”, disse, os olhos cheios d’água, mas não da piscina. Estendeu a mão para pegar os óculos, porém só os pôs nos lugar depois que me deu as costas e se afastou. Fiquei vendo-a ir embora. Suas mãos de repente apareceram atrás dela. Segurou a bainha do maiô com o polegar e o indicador e enfiou no devido lugar o pouco de carne que estava aparecendo. Meu sangue ferveu.
Philip Roth vence o prêmio Príncipe das Astúrias das Letras
.
A literatura
contemporânea deve muito a esse senhor. Seus livros são qualquer coisa de
excepcional. O melhor dele é sua capacidade de transformar situações insólitas,
em acontecimentos tragicômicos de alta voltagem. Ri de si mesmo, e não se levar
tanto a sério; talvez seja a sua forma particular de tentar entender o mundo
perscrutando os seus limites. Fico feliz em saber que ele recebeu hoje o Prêmio
Príncipe da Astúrias de Literatura. Merecido prêmio.
Sou fã do Roth... Adoro
seu estilo literário. Gosto ainda mais de seu desapego aos modismos e
enfrentamento das convenções. Enfrentamento que tem lhe rendido algumas
polêmicas como aquela de 2011, quando a jurada Carmen Callil do prêmio Man
Booker o acusou de sexista, machista e chauvista.... Quantos elogios. Essa
senhora tão politizada, não chegou a arranhar o brilho literário que estava
sendo julgado. Roth agora leva mais um prestigiado prêmio para casa. Será ele o
próximo Nobel? Não creio. A academia Sueca não costuma premir o estilo
literário, a inventividade ou a criatividade de qualquer autor, mas sim o
engajamento político dos escritores, uma infelicidade. Roth não é o tipo
político, ao menos não naquele estilo panfletário e espetacular.
Para ouvidos indômitos
.
Às novas gerações,
adestradas pelos “médias”, afeitos ao conforto, muitas reservas, sim-nãos e cultores
da mesmice, esse disco parecerá anacrônico e pouco atraente. Isso porque ele
foi feito para aqueles seres insatisfeitos, que insistem em pensar a vida ao avesso
das convenções. Por isso, o inesperado do som, as ousadias das letras, a genial
capa, com os personagens históricos ou fantásticos, que os integrantes da banda
sempre adoraram; aliado as inversões de timbres, que escancararam as portas para
inovações sonoras depois desse LP, não serão julgadas apropriadas por aqueles
que insistem em mais do mesmo. O espírito que governou e gestou esse disco não
existe mais no mercado fonográfico. A liberdade criativa é hoje algo que os
artistas apenas aspiram, sem sucesso. Seus muitos compromissos comerciais, mais
o temor de melindra o público, acostumadíssimo às series ininterrupta daquilo
que já foi sucesso, amedronta qualquer aspirante a explorador. Vai daí que os
Beatles continuam atuais. A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sgt.
Pepper, disco dos Beatles produzido em 1967, que hoje completa quarenta e cinco
anos - com o mesmo vigor com o qual desempoeirou vitrolas e corações
adolescentes na década de 60 - fala apenas àqueles de natureza indômita, os
indóceis e àqueles que não naturalizaram a história e que não a consideram um
fato inelutável.
Antônio Nóbrega - Lunário Perpétuo
.
O alardeado discurso
sobre a ignorância cultura do povo brasileiro tem íntima relação com os propósitos
colonialistas, que por séculos orientaram os valores das elites nacionais e
forjaram a visão de mundo dominante nas artes, cultura, religião e demais
estruturas da nossa sociedade. O alinhamento da ignorância das elites com o
preconceito dos colonizadores produziu uma visão inanimada da realidade
cultural brasileira. Através de um
discurso de desfiguração intentaram incutir a ideia de que as massas eram
incapazes de produzir cultura, e que suas muitas manifestações não passavam de
tentativas canhestras e mal sucedidas de se elevar ao nível da “verdadeira”
arte. Durante muito tempo, nos diz Octavio Paz, associou-se poder aquisitivo com valor
cultural e dessa maneira passou-se a desprestigiar as mensagens que emanavam do
povo como formas valiosas e representativas da cultura nacional. O trabalho de Antônio
Nóbrega, desde sua atuação no Quinteto
Armorial até hoje, com o espetáculo Lunário Perpétuo, dignifica a cultura
genuinamente nossa e desmistifica esses preconceitos e hostilidades, que por
séculos distanciaram o povo de suas manifestações mais legítimas. Baseado no
livro homônimo, o espetáculo Lunário Perpétuo, reconstitui as varias
manifestações artísticas que estão presentes, desde há milênios, no seio das
comunidades humanas instruindo, divertindo e principalmente perenizando a memória
do povo. O Lunário Perpétuo foi um livro de "sabenças" que circulou pelos rincões “carrascudos” do Brasil do século XVIII. Ele continha de tudo um
pouco, de biografias de santos a mapas astrológicos, de simpatias a acidentes geográficos,
antigas alquimias. Informava sobre países, dava dicas de como agir em casos de
terremotos, ensinava rezas, e muito mais. Um verdadeiro almanaque, que instruiu
gerações e mais gerações de nordestinos e alimentou a fantasia dos nossos
artistas de ontem e de hoje. Ele foi também uma valiosa fonte de informações
para os cordelistas que tiravam dele os muitos argumentos para construção de
seus poemas. Eu não sei quanto a vocês, mas sinto um arrepio pelo corpo como se
tivesse recebido uma descarga elétrica cada vez que assisto ao DVD do
espetáculo. Esse é um precioso registro das marcas de resistência da cultura
brasileira, contra as muitas tentativas de homogeneização da diversidade, que
sempre encontrou por aqui terreno viçoso.
Do Belo, Da Feiura e Da Poesia
. Detalhe de Os Jardins das Delícias - Hieronymus Bosch
Por esses dias temos
falado muito aqui sobre a beleza. Num mundo marcado pela feiura das guerras,
dos atentados à bomba, dos genocídios e das automutilações nas manifestações
pelo mundo, falar do belo passou a ser uma necessidade para se contrapor as
grosserias impostas pela irracionalidade humana. A bestialidade não pode
imperar impunemente. A furiosa sanha desses bastardos, que produzem tanta
feiura, assaltou do mundo não apenas as belas e inestimáveis visões da beleza,
mas roubaram também o seu sentido. Esse, seguramente, foi o atentado mais
perigoso contra a beleza.
A prática da linguagem
exercida sobre o signo do consumismo destituiu o potencial expressivo da
palavra belo, que passou a ser associada apenas a juventude e a harmonia das
formas físicas. Vai daí que não apenas as visões do belo precisam ser
resgatadas, mas também o seu sentido originário, desgastado pelo uso rotineiro,
para vender cosméticas e falsas ideias de conquistas.
Associando a beleza à
realização pessoal, as empresas de cosméticas, os programas de televisão, as
revistas de moda e seus congêneres, criaram um bando de tolos consumistas de
seus produtos, que acreditam que se estiverem devidamente envelopados pelos
cosméticos da moda, darão um gigantesco passo na realização de seus sonhos mais
mesquinhos. Somos muito mais do que aquilo do que nos dizem sermos, ou não?
Essa mutilação do
sentido da palavra - empregada pela economia de mercado - nos impede de ver a
diversidade de sentidos que o belo pode expressar. Tomando de empréstimo as palavras de Alfredo
Bosi no livro O Ser e o Tempo da Poesia, podemos caracterizar o belo como: “Belo é o que nos arranca do tédio e do
cinza contemporâneo e nos reapresenta modos heroicos, sagrados ou ingênuos de
viver e de pensar. Bela é a metáfora ardida, a palavra concreta, o ritmo forte.
Belo é o que deixa entrever, pelo novo da aparência, o originário e o vital da
essência. Por isso, o belo é raro.” p. 131.
É preciso, portanto,
purificar a palavra de seus desgastados usos. E quem melhor pode fazer isso?
Ora, não há outra forma de restituir à palavra a sua eficiência linguística e
sua potencialidade, do que o pensamento poético. A poesia possui as melhores
condições de revigorar as palavras o seu potencial de dizer e restituir as
mutilações que o rotineiro uso lhe impôs. A poesia, limpa a palavra das
escórias do desgaste e mantém viva o seu potencial. Contraria assim a
pestilenta manipulação promovida pelo uso abusivo em apenas uma acepção e
contorna a saturação imposta pelas formas de interesses ideológicos, que não
nos servem.
O absurdo que ronda
tantas vezes o cotidano nos diz Alfredo Bosi, precisa da palavra para dar-lhe
algum sentido ou, no limite, manifestar a estranheza pela sua falta de sentido.
O gesto poético desoprime a palavra de suas obrigações ideológicas e se realiza
plenamente, quando insinua ao leitor os caminhos possíveis de sua
interpretação. Apenas no texto poético, e em quase nenhum outro lugar hoje em
dia, vemos o exercício pleno da nossa liberdade. Seriam esses os motivos de seu
desprestigio na nossa sociedade? Ela incomoda os establishment ao dotar o homem da irresponsabilidade de pensar por
conta própria e escolher o seu caminho? Essas
são perguntas para as quais as respostas serão esboçadas no próximo post.
Carlos Fuentes 1928-2012
.
A morte de um homem é sempre
um acontecimento trágico. Por várias razões não aceitamos o destino último,
que a vida nos reserva e relutamos até o fim em abandonar a existência. Mas o
ceifeiro é implacável, não tarda ao seu trabalho e nem dar descanso ao seu
ofício maléfico. Agora se esse homem foi em vida um esteio, um farol para os
seus semelhantes a dor de sua perca torna-se ainda mais intensa e sua superação
inconcebível. Sentimos-nos assim hoje, quando foi anunciada pelos medias, a
morte do escrito - de profundas raízes mexicanas - Carlos Fuentes. Sua voz esteve
nos últimos anos, a partir do chamado boom da literatura Latino Americana,
associada à política de defesa dos direitos humanos, e à luta dos valores
culturais dos povos Latinos. Isso não é pouco. Ao lado peruano Mario Vargas
Llosa e do colombiano Gabriel Garcia Marquez ele subverteu o pólo dos interesses
literários no mundo ao revelar com um estilo rigoroso os dramas e alegrias de
seu povo. Como disse Paulinha Laranjeira: "ele vai nos fazer falta".
O habitual jeito PT de governar
.
Com a mesma desfaçatez e desprezo de sempre, o governador Jacques Wagner vem a um mês, ignorando o apelo dos professores estaduais por melhores condições de trabalho e salários dignos, compatíveis com a sua nobre função. Assim como fez com os professores das universidades, policiais e demais setores do funcionalismo público estadual nos últimos anos, Wagner se recusa a discutir o reajuste salarial exigido pelos profissionais, com a maior responsabilidade do estado, e contrataca com um discurso fajuto na mídia, que tem como único propósito, espalhar mentiras e desacreditar o movimento, perante a opinião publica. A insensibilidade desse governo em lidar com os anseios populares, não encontra rival em nenhum outro governo que já assumiu a Bahia. Nem mesmo Toninho Malvadeza, no auge de suas mais infernais maquinações políticas foi tão truculento, tão insensível e tão imoral quanto tem sido o governo Jacques Wagner. Empoleirado em seu Palácio, ele insiste no enfrentamento e ameaça os professores com o temido corte de salário. Esse expediente já é um velho conhecido dos grevistas baianos. Como o habitual modo PT de governar tem sido eficiente, Wagner não se constrange em enfiar o pé no traseiro dos professores, em que pese os dividendos políticos dessa ação. Duas coisas aí se evidenciam. Os governos baianos estão se lixando para os professores, e os professores continuam sendo uma categoria social insignificante.
Serge Gainsbourg a Jane Birkin
.
Para lá de todas as coisas amáveis,
para lá de todas as coisas desejáveis,
a tua nudez na ponta dos meus dedos,
uma bola de fumo pairando sobre o piano
e cada poro teu tocado como se fosse
uma tecla, uma tecla emitindo o som
de cordas surdas, as tuas veias, cada
um dos teus nervos, e eu enredado
em ti como o insecto na teia da aranha,
para lá de todas as coisas definíveis,
os contornos do teu corpo à luz
de um tecido transparente, beleza
incomparável acossada pela fealdade
das notas, dos acordes atonais, para
lá de ti, para lá de mim, a paixão
capturada pelas máquinas fotográficas,
projectada numa tela à velocidade
iludente do cinema, para lá das salas,
para lá da luz, nós os dois denegridos,
deitados no quarto escuro da paixão.
Para lá de todas as coisas amáveis,
para lá de todas as coisas desejáveis,
a tua nudez na ponta dos meus dedos,
uma bola de fumo pairando sobre o piano
e cada poro teu tocado como se fosse
uma tecla, uma tecla emitindo o som
de cordas surdas, as tuas veias, cada
um dos teus nervos, e eu enredado
em ti como o insecto na teia da aranha,
para lá de todas as coisas definíveis,
os contornos do teu corpo à luz
de um tecido transparente, beleza
incomparável acossada pela fealdade
das notas, dos acordes atonais, para
lá de ti, para lá de mim, a paixão
capturada pelas máquinas fotográficas,
projectada numa tela à velocidade
iludente do cinema, para lá das salas,
para lá da luz, nós os dois denegridos,
deitados no quarto escuro da paixão.
Henrique Manuel Bento Fialho, A Dança das Feridas, Colecção Insónia, 2011.
Beleza
.
Não tenho nenhuma
resistência diante da beleza. Sou atraído facilmente pelas formas e gesto
incomuns. No lugar de Ulisses teria me lançado ao mar. Alguns vêm um mal,
apreciar sem reservas os apelos emanados, pela formosura das formas. Mas a
esses, não consigo, sinceramente, entender. Para mim não há desproposito maior
no mundo do que hostilizar a beleza. Há qualquer coisa de anormal naqueles que
se ofendem com a apreciação do belo. Decorre daí talvez uma divergência de
pontos de vista. As pessoas acham belo o que lhe apetece. Cada um está suscetível
a apelos diversos. Uns se enamoram facilmente por um físico esbelto, outros não
diriam o mesmo. A atração tem suas próprias e inapreensíveis razões. Belo para
mim, no entanto, é aquela coisa à qual demoro o olhar. Belo é aquele objeto que
me suspende, temporariamente, a razão e paralisa o fôlego. Meu belo não se
resume aos encantos da simetria das formas, mas nas mil e uma, inacabadas
formas, que destoam do comum e instauram o surpreendente. E há melhor razão
para suspender o fôlego do que a apreciação de um corpo nu?
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