O nacionalismo e sua vertente cariada, o bairrismo, é uma idelogia repulsiva. Por séculos suas ideias têm manchado a história de sangue ao despresar o diálogo como forma de relacionamento solidário. A limitada ação de interesses que ele congrega repele e ameaça a estabilidade do mundo. Para Gore Vidal o Nacionalismo é a última trincheira dos estúpidos.
Juventude desfibrada
O tédio da existência , a melancolia de dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamúrios insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada.... as insistentes imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra forças desertoras da vida. Coragem! Vocês podem mais...
A arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário
Transcrição da matéria do
Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002 com o artista Antonio Veronese e suas
opiniões sobre a arte contemporânea na Bienal de São Paulo:
Essa bienal é um engodo,
diz Veronese Artista brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002
do Museu Whitney em Nova York, foi à 25° Bienal de SP a convite do JT e
analisou o que vale e o que não vale o ingresso. André Nigri-Jornal da Tarde.
“Há mais emoção e história
em uma aquarela de Egon Schiele (1880-1918) do que em todo o pavilhão da Bienal
paulistana". A frase de Antonio Veronese pode dar a entender que seu
autor, um artista brasileiro que transita entre os Estados Unidos e a Europa, é
um outsider ressentido com os colegas que expõem na maior mostra de arte
contemporânea da América Latina. No entanto Veronese tem quadros seus
pendurados nas Nações Unidas (Painel Save the Children) , na FAO em Roma (
Painel Famine), no UNICEF ( JUST KIDS), no Congresso Nacional ( Painel Tensão
no Campo), na Universidade de Genebra, etc… Alem disso, Veronese expõe e vende
nos Estados Unidos e na Europa, e é um velho militante de causas sociais no Rio
de Janeiro- cidade onde fica quando visita o Brasil.
Ao comparar a obra de Egon
Schiele às instalações e performances dos 190 artistas de 70 países abrigados
na 25°Bienal de São Paulo, aberta até junho, Veronese coloca em discussão o que
se faz e o que se classifica de arte hoje e para que ela serve. “Quase tudo que
está aí não vale quase nada... É uma infantilidade preencher esse espaço com
obras que são um engodo” disse Veronese na manhã de ontem, depois de visitar o
Pavilhão do Ibirapuera a convite do Jornal da Tarde.
Ao contrário do que
aconteceu no mês passado no Whitney Museu de Nova York, não foi preciso chamar
a polícia para esfriar os ânimos de Veronese desta vez, mas sua reação foi
contundente da mesma forma. “A maioria do que vi no Whitney e que vejo aqui é
resultado de uma idéia imediatista e simplória. Esses artistas são filhos
espúrios de Duchamp” disse.
Consciente de que está
comprando uma briga feia, Veronese não poupa nem os curadores de suas críticas:
“São eles os maiores responsáveis por esse lixo. Não há mais curadoria decente
na Bienal. E digo isso sabendo que muita gente gostaria de dizer o mesmo, mas
não o faz”.
Ao ser confrontado com
algumas das obras da Bienal paulistana, Veronese foi categórico. Chamou a
instalação de José Damasceno de leviana, e ao aproximar-se da obra do gaúcho
Daniel Acosta, intitulada “Estação Avançada com Paisagem Portátil” comentou:
“Se nós mudarmos o nome disso não faz a menor diferença.. Em relação ao
trabalho do carioca Chelpa Ferro , um automóvel que foi destruído em uma
performance na abertura de Bienal, disse, “Acho um absurdo que uma bobagem
dessas ocupe espaço precioso numa bienal. Deveria estar num ferro velho”.
Qual seria a saída? Para
Veronese, as instalações vão se esgotar por si mesmas. "Não se pode
confundir decadência com vanguarda. Acreditar que tudo já foi feito e que temos
que montar essas bobagens é encenar a nossa própria decadência, diz o autor de
Famine e Tensão no Campo.
Entrevista de Antonio Veronese depois das
críticas às bienais Whitney e São Paulo.
Pergunta: Você, quando critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não
está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso
não é antidemocrático?
Antonio Veronese: Eu não nego a ninguém o direito à exibição. Só acho que essas
instalações deveriam estar num parque-de-diversão e não em museus. São objetos
para o divertimento e a interação, da mesma forma que um boliche ou stand de
tiro-ao-alvo. Mas isso, absolutamente, nao é Arte!, ainda que pareça
revolucionario afirmar o contrário.
Pergunta: O que gerou o teu protesto no Whitney?
Veronese: Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado pagando 10
dollares para ter acesso a um amontoado de “facilidades”. Os “autores” disso
são conscientes do farsismo e riem de nós. O que fazem é terrorismo estético,
uma tentativa de apagar todo o conhecimento acumulado. Eles sabem que o que
fazem não têm nenhum valor, mas contam com a elasticidade moral de curadores
simplórios e com a ignorância endêmica da crítica.
Pergunta: Você chama a esses artistas de filhos-espúrios-de-Duchamp. Por
quê?
Veronese: Arte é produto de duas experiências: uma histórica e outra
pessoal. O artista precisa conhecer a Arte que o antecedeu, senão vai ter que
inventar a roda a cada vez. Mas precisa também da segunda experiência, a
pessoal, fruto do seu trabalho contínuo, do lento avançar naquilo a que dedica.
Cézanne, aos 64 anos, já havia parido o modernismo mas reclamava que ainda não
havia conseguido ir até o fim na sua busca. O caminho é longo e exige paciência
e dedicação.
Esse pessoal das
instalações não é burro não, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na
segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos
que serviram em outras situações mas que, no caso deles, não passa de
malandragem. O urinol virado por Duchanp é consequência de uma busca pessoal,
num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser
manipulado indefinitivamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso
digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp. Propõem
mediocridade profanatoria embalada de vanguarda!
Pergunta: Que diferença existe entre essa tua crítica e a que sofreram os
impressionistas no século XIX?
Veronese: A Arte é oficio do Homem, interferência do Homem; ela não é
espontânea na natureza! É produto da interferência humana, e não pode ser
supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade
do milagre e, para Malraux, os artistas não são copistas de Deus mas seus
rivais! A "arte" conceitual pretende socializar o direito de produzir
arte, antes restrito, como é natural, aos artistas! Por isso o que produz é
facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou das maçãs de
Cezanne. Comparar minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o
modernismo é um exagero. Uma outra vez eu "incorporei” minha bota de couro
a uma instalação do Tunga no Whitney do Soho em Nova York. Só fui recuperá-la
no dia seguinte. E ela estava ainda lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém
se dera conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação
conceitual de Tunga. Isso seria impossível com uma tela de Bacon, uma escultura
de Maillol, ou mesmo com o Circo de Calder.
A crítica foi, muitas vezes
na História, preconceituosa e totalitária. Mas questionar meu direito de
exercê-la agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais
humanidade e humanismo em uma simples aquarela de Egon Shiele do que em toda a
Bienal de São Paulo reunida.
A Arte precisa do espanto,
mas só os idiotas espantam-se com o ordinário.
Desculpas para não ofertar às massas um conteúdo decente
“O problema não está no vulgo, que
pede disparates, mas
naqueles que não
sabem representar outra coisa”.
Cervantes no livro Dom Quixote
“O problema não está no vulgo, que
pede disparates, mas
naqueles que não
sabem representar outra coisa”.
Cervantes no livro Dom Quixote
Academia de ilusões e a estupidificação coletiva
.
Um fato que sempre me
espantou na academia, é que ela há muito tempo, deixou de influenciar a
sociedade para assumir passivamente e de forma muitas vezes serviu às
vulgaridades da vida moderna. Não é muito difícil encontrar professores que
insistem, talvez pela obtusidade crônica em que vivem, em dizerem que os fast-food televisivos não são danosos à
aprendizagem e que eles não comprometem a qualidade de pensar e agir dos
alunos. Esse pensamento, baseado no princípio do multiculturalismo, acabou por
lançar na vala comum todos os critérios que balizavam a qualidade do ofício artístico.
Em contraposição, ao exercício salutar do diálogo com os objetos oferecidos
como artísticos, equivocadas formas de qualificação passaram a dominar o
pensamento acadêmico. O neurocientista argentino, naturalizado brasileiro, Iván Izquierdo discorda da ingenuidade televisiva. Para ele, “ao apresentar
informações prontas e digeríveis” a tevê reverte o processo de aprendizagem e
compromete a memória. Ao eliminar a possibilidade de ordenação e criação
através da interação com os objetos a tevê, que já oferece tudo pronto, desestimula
inclusive a capacidade de memorização, comprometendo assim de forma maquiavélica
gerações e mais gerações de jovens. Ao se tornar dependente de estruturas
prontas e reconhecidas o nosso cérebro não cria mais os impulsos necessários
para expansão das capacidades de armazenamento de novas informações. Temos aí
uma porta aberta para demência, algo que qualifica muitos de nossos acadêmicos
na atualidade. Num processo inverso, ao desse desserviço que nos presta a tevê,
segundo o neurocientista, está a leitura. Para Izquierto a leitura é o melhor
exercício para memória e expansão do conhecimento. Essa constatação, diante de
um país que não ler, e de professores que não estimulam os alunos à leitura nos
põe a pensar que a suinucultura
alastrada pela tevê, rádio e outros veículos “culturais”, associado ao descaso
acadêmico vitimarão indiscriminadamente todas as potencialidades humanas do
nosso país por um longo período.
A importância da mídia livre e (bem) longe dos poderosos
.
George
Orwell, que escreveu 1984, o livro do Big Brother, e Revolução dos Bichos,
disse que “jornalismo é tudo aquilo que não querem que você publique. Todo o
resto é propaganda”.
Amparado
nessa perspectiva exemplar do escritor indiano, vejo com extrema preocupação
este 4° poder, sem dúvida mais importante do que todos os três anteriores,
estar irmanado, cada vez mais, com os grupos políticos da situação.
Na
Bahia, vejo esse tipo de relação e suponho que ela não seja benéfica e nem
saudável para a democracia. Porque dessa amizade entre jornalistas e prefeitos,
existe um fator maior do que a verdade, que coroa essa relação: dinheiro.
Nenhuma
mídia, jornal, revista, estação de TV funciona sem dinheiro. Então, a solução
encontrada é passar a cuia na mão de quem pode pagar pela informação: nossos
digníssimos políticos.
Não
espanta que as mídias, hoje em dia, sobretudo as virtuais, não escondam mais de
ninguém a quem estão apoiando, fazendo com que seu corpo editorial e suas
matérias sejam, portanto, parciais e sem nenhuma relevância social. Elas já não
disfarçam mais – e seguem atuando como legítimas porta-vozes não do povo, mas
das administrações que defendem e de quem cobram a fatura. Na época da campanha
política, fazem dos veículos verdadeiros palanques. Uma vez eleitos, como
compensação, fazem uma inequívoca publicidade dos prefeitos e políticos que
lhes pagam, divulgando amplamente suas obras, mas tomando o extremo cuidado de omitir
algo que desabone os “patrões”. Está errado.
Só
o fato de (grandes) conglomerados e (grandes) jornais serem controlados por
grupos políticos, já me espanta.
Nunca
me esqueço do livro Odorico na Cabeça, do imortal Dias Gomes, autor de O
Bem-Amado. Sentindo-se agredido em sua honra pelos ataques de um jornal de
Sucupira, Odorico – esperto – também criou sua própria imprensa para divulgar
seus projetos estapafúrdios. Trata-se da Folha de Sucupira. Essa, ele julgava
imparcial. Quanto à mídia que teve a coragem de expor suas loucuras, ele a
classificava de “marronzista”.
Quando
a imprensa faz as pazes com o poder, alguma coisa está errada.
No
interior da Bahia, sei que aonde vão os prefeitos, lá estão os “jornalistas”
atrás, no encalço. Jornalista que se preza não pode estar para cima e para
baixo com prefeito. Se quiser servir à sociedade e honrar a profissão, deve
investigar, apurar, colher as informações verdadeiras e publicá-las, sejam boas
ou ruins, doam a quem doer.
A
imprensa tem a obrigação de fiscalizar o poder, e não de se aliar a ele.
Carnaval das convenções
.Marc Hom
A origem
mais remota do carnaval esta na Grécia Antiga durante as celebrações em
agradecimento à colheita da uva. Os antigos Gregos agradeciam com festas e
muita bebedeira ao deus Baco pela safra do ano. Durante essas homenagens, que
duravam 5 dias eram frequentes a embriaguez coletiva. No frenesi das
comemorações explosões anárquicas e passionais eclodiam do meio da multidão. Em
êxtase a comunidade rebelava-se contra as pressões hierárquicas, sexuais,
religiosas e sociais que soterravam os anseios mais recônditos da psique
humana. Por um curto espaço de tempo podia-se viver livremente as fantasias e
desejos até então represada pela moralidade vigente. Suspensa temporariamente
as rígidas formas sociais, homens e mulheres, escudados pela máscara das representações,
fingiam serem o que bem desejavam. Imitavam animais, fingiam-se deuses, rainhas, reis, seres fantásticos e toda ordem de maravilhoso emanava
das mentes desobrigadas de servirem a razão instituída. Não preciso dizer que
essas festas logo foram perseguidas e os rituais caracterizados como desvios
morais e proibidos. Não se podia admitir que reis, deuses e autoridades tão
elevadas fossem frontalmente ridicularizados como eram nesses festejos.
Podia-se correr o risco de que as pessoas, ao imitarem sarcasticamente essas
autoridades, matasse o temor que as mantinha servis às suas autoridades. Dessas
representações surgiu o TEATRO em sua forma mais rudimentar. Desde os tempos
mais remotos ele teve uma função social transformadora; penetrar o impenetrável,
questionar o inquestionável e sugerir outras formas de pensar a realidade, para
além daquelas existentes. Porém, como ocorreu no passado e se repete agora no
presente, o que surgiu como uma forma espontânea de subversão a ordem
instituída e questionadora das estruturas sociais, foram descaracterizada de
sua força anárquica e subjugada aos interesses mercadológicos. Diz-se então que
foi encabrestada para assegurar a continuidade do pensamento racional. Não se
vê mais no carnaval a explosão incontrolada de “desrespeito às formas e
medidas” apontando para outras formas de consciência. Em A Origem da Tragédia, o original pensador alemão Nietzsche questiona a
cultura socrático-platônica, de cariz racionalista para valorizar a rebeldia
dos espíritos livres, originaria dos carnavais. O que ocorre há já
bastante tempo é que a Indústria Cultural tomou de assalto essa festa popular e
a transformou em uma diversão despretensiosa e controlada, onde um bando de
acéfalos, cheios de vulgaridade, descarregam suas frustrações e esperam viver,
mesmo que por poucos instantes, as alegrias controladas por um script traçado.
A Espanha Cabralina
A Espanha exerceu fascínio em inúmeros artistas. Quem conviveu com a arte, a dança, a música ou mesmo com a arquitetura espanhola de inspiração moura, jamais saiu ileso de sua presença. Em 8 anos de Sevilha, o poeta João Cabral colecionou poemas que transparecem seu encanto pela cidade e pelo país ibérico. Alguns dos seus melhores poemas, ao menos para mim, falam das paisagens sevilhanas, com sua arquitetura monumental, dança e principalmente seus toureiros que metaforizaram a poética cabralina e ilustraram as lições ascéticas desse poeta incontornável. Vejam só esse belo exemplo:
LEMBRANDO MANOLETE
Tourear, ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice
que se faz roçar pela faixa
estreita da vida, ofertada
ou touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua
expõe ao touro, reduzindo
todo seu corpo ao que é seu cinto,
e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida
para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.
Agrestes - 1985
Cativo
Existem vários tipos de
cativo. Iludem-se aqueles que associam o cativo apenas àquele individuo emparedado
nas grades de uma prisão. Essa é uma boa imagem, entre tantas, que podemos usar
para ilustrar os muitos e variados modos de se estar privado de suas faculdades
mais essenciais; a liberdade. Digo essenciais pensando em meu espírito, que não
tolera a ideia de cárcere, de nenhuma espécie, seja ele político, religioso,
tributário, social. A outros o cárcere nem é tão importante assim, pois não
esboçam nenhuma resistência às amarras, paredões, e outras engenhosas formas de
submissão. Mesmo o indivíduo que vive em um estado que lhe permite o gozo de
suas liberdades, mesmo esse, pode ilusoriamente imaginar pertencer realmente a
uma sociedade de livres, quando na verdade as evidências de sua vida o
desmentem. Há muitas arapucas dispersas
por aí prontas para abocanharem os últimos insubmissos na selva das cidades.
Não se tolera, mesmo que se diga o contrário, a hipótese de alguém viver livre
de qualquer grilhão. De certo modo, temesse esses indivíduos ou invejam-lhes a
coragem, não sei, mas acho que a segunda hipótese tem uma dose maio de verdade.
O SUPLÍCIO DE TÂNTALO
O que será melhor?
Estar cheio de sede no meio do deserto, ou estar com um copo de água encostado
aos lábios mas sem poder bebê-la? Ter sede é ter sede, seja em que
circunstância for. Mas a penitência será maior se soubermos que temos a
possibilidade de beber a água que não iremos beber.
Daí ser preferível o
estado de inconsciência perante um bem que nos falta, do que viver com a
consciência da sua inacessível existência. A chatice está no raio do
conjuntivo. Uma vida inteligente sem o modo conjuntivo seria menos inteligente
mas muito mais fácil de ser vivida. E tanto me refiro ao presente do conjuntivo
como ao pretérito imperfeito do conjuntivo ou ao futuro do conjuntivo.
O modo indicativo
dá-nos a realidade mas o conjuntivo dá-nos a merda da possibilidade. E se é
verdade que é por via da possibilidade que nos elevamos a um nível de
existência superior, também é por via da possibilidade que nos enterramos no
pântano do sofrimento. Tivéssemos apenas o modo indicativo, passado, presente
ou futuro e esse mesmo passado, presente ou futuro seriam simples, rasos, tão
implacáveis como um nascer ou pôr do Sol. Diríamos "Eu fiz, faço,
farei", "Eu fui, vou, irei", "Eu aceitei, aceito,
aceitarei" com a mesma inconsciência mecânica com que a ninfa Eco repete
os últimos sons de Narciso ou com a mesma determinação com que um animal cumpre
as suas obrigações.
Mas depois vem o
conjuntivo e estraga tudo. Olha-se para o passado e pensa-se no que poderia
teria sido, olha-se para o futuro e pensa-se no que poderá vir a ser. E, a partir
daí, tudo se torna labiríntico, tortuoso, infinitamente complexo.
Eu gosto do mito
adâmico e não me desagrada a ideia de ser filho de Adão. Mas foi com Tântalo
que começámos verdadeiramente a ser humanos.
Democracia
fotografia da iemenita Bouchra Almutawakel
.
Não acho a democracia o melhor dos modelos político. Não é o povo que realmente governa e decide. Grandes corporações e conglomerados empresariais manipulam aqui e alhures a marcha dos acontecimentos. Fazendo valer muito mais as suas vontades do que as necessidades do povo, eles desmentem, sem nenhum decoro, todos os dias, os fundamentos que sustem a ideia de que o regime existe para atender as demandas da maioria. Não precisa ter feito o Mobral para constatar que quem manda no mundo é o deus dinheiro. Os governantes de fato estão bem longe dos gabinetes políticos. Eles transitam por outra esfera social. A democracia é apenas uma festa popular engendrada nas massas para legitimar a farsa que é o governo do povo. Porém, diante da baixa qualidade dos regimes em oferta, não nos resta alternativa a não ser aguentar esse; pelo menos até que irrompa contra seu próprio peso os diques de contenção do inconformismo e faça surgir outro modelo, mais justo, menos fajuto. As notórias imperfeições da democracia, no entanto, são bem melhores, ou toleráveis do que as excrescências dos regimes totalitários, imperiais ou teocráticos que se alastram pelo mundo.
O capitalismo não poupa ninguém
.
A ingenuidade de não haver sido revelado às coisas
Esforçamo-nos a vida toda por sermos bons,
justos e honestos. Mas vêm as circunstâncias e nos arranca todas as nossas
melhores determinações. Azar, acaso ou injustiça social, chamemos do que quisermos,
o certo é que estamos à mercê de forças que, às vezes, não podemos, mesmo
querendo, controlar. Alguns de vocês devem estar agora mesmo recriminando-me
por julgar essas qualidades circunstanciais. Por certo vocês, se assim me avaliam,
as têm como inatas ou indivisíveis de alguns homens, mesmo em situações
opressivas. Pensam que os índios, as crianças, os religiosos, os santos e
outras qualidades de homem, espelham aqueles dotes que vocês tanto almejam crer
indissociável da alma humana. Creem-na, como uma marca divina, a única talvez,
que os permitam aliar o homem a um deus todo poderoso criador do céu e da
terra, bem como desse ser que insiste, em todas as suas fraquezas e vilanias,
em contradizer as qualidades supremas do criador que os moldou. Se sentem assim
a bondade, a justiça e honestidade tanto melhor para vocês. Não têm que lidar
com questionamentos morais, sociais que desmentem, ao menos naqueles que não
creem nos seus pontos de vista, na ideia de que o homem seja uma fonte
inesgotável de bondade a toda prova. Teorias religiosas que nos persuadam das
qualidades que de certo não temos dão-nos o conforto de não pensarmos além
delas. Se seguros estamos de nossas convicções e cremos nelas, mesmo que isso
não nos dê prazer, ao menos nos evita grandes preocupações, e afasta-nos a
presença da dor de pensarmos em coisas que não deveríamos pensar. Tudo,
portanto, resumi-se a entrega de nossas inquietações às respostas mais fácies.
Impostura literária
Um amigo recomenda-me a
leitura dos poemas de certo Georg Trakl. “Leia
os poema, mas evite seguir seu comportamento”. Não que eu acredite que os
poetas estejam acima do bem e do mal, ou que suas vidas sejam exemplos para
grandes coisas, mas todas às vezes que a recomendação de um autor vem seguida
de um lembrete para se distanciar de sua vida, sinto que irei gostar muito
desse artista.
Não conheço esse poeta
e não sei o que ele fez de tão cabeludo para merecer a recomendação de não ser
seguido. Porém, me encantam, os autores malditos. Para mim há mais verdades
naqueles que molestaram as certezas estabelecidas - e sinto que essas sejam as
razões de tantas recomendações - do que naqueles que insistem na fossilização
da vida.
Os poetas e artistas em
geral tornaram-se suspeitos, por não aceitarem passivos os arreios tirânicos impostos
a todos àqueles que sentem de forma insuspeita a sua vida. Miller, De Quincey, Plinio
Marcos, Genet, Bukovsky, Baudelaire, Rimbaud, Sade, Maquiavel, Hilst, Pavese,
Passolini, e outros tantos, estão no rol desses infratores da moralidade vigente.
Feito kamikazes eles se
atiraram contra as instituições fajutas implodindo seus valores de fachada. Só
por pressentirem a vida, da forma que ela lhes apresentava, insuficiente;
insubmissa e intolerável, eles foram tachados de rebeldes, desordeiros,
malucos, bandidos e outros adjetivos e qualificativos assepticamente moldados
para distanciar o público do contágio de suas pragas.
Para mim, tantas
reservas, tentam invisibilisar alguém que por sua postura inconveniente
tornou-se pernosa non grata ao status quo, e por imerecida
justificativa foram lançadas à margem da sociedade. A melhor maneira de
desmoralizar alguém é sempre distorcer a sua imagem. Dar-lhe os predicados que justifiquem
a distância das maleitas que carregam aqueles malfeitores, bandidos, escroques
e degenerados. Os julgamentos morais quase sempre são feitos com base nas
aparências. Infringir os limites estabelecidos pela sociedade pode render àqueles
subversivos, transtornos para o resto da vida.
Tempos de escândalos são muitos
.
De tempos em tempos
somos sacudidos por escândalos, que os menos desavisados encontram parentesco
com outros tantos casos semelhantes, que por momentos avexam a consciência
nacional. A malta inteira se agita como um bando de bisões assaltados pelo
predador, estourando o rebanho. Mas, logo em seguida, todos voltam a pastar
pacientes e sossegados. Vivemos assim, contamos os dias, as horas e os meses
mediante as vergonhosas ações de nossos homens públicos. Antes, durante e
depois da redemocratização não contamos um único ano em que pudemos nos
orgulhar da decência de qualquer um dos nossos líderes. As décadas estão todas
cheias de delinquência. Incorrigíveis, insistimos nos erros do passado como se
o tempo não trouxesse nenhuma lição, como se a história não existisse, como se
a vida fosse um pasto em que as gramíneas suculentas são mais emergentes do que
a vigília aos predadores.
É preciso mudar tudo para que nada mude.
Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades,
Muda-se o ser,
muda-se a confiança;
Todo o mundo é
composto de mudança,
Tomando sempre
novas qualidades.
(...)
Os versos do poema de
Camões se aplicam a quase tudo nessa vida, menos a uma esfera da nossa
sociedade, que parece imune a todo tipo de mudanças: a política. Os líderes
desse país encontraram uma maneira, muito eficaz, de emperrar as engrenagens da
mudança e empenham todas as suas ações na manutenção de suas qualidades
duvidosas.
Caçadas que não é de Pedrinho
.
Com a devida vênia reproduzo o instigante texto recolhido aqui. Lane Donato é aluna do curso de Letras da UNEB, Campus VI Caetité.
Barthes
nos diz que a língua é fascista. Estamos
presos às amarras lingüísticas e a todas as ideologias que por elas circulam,
já que a língua é por excelência, o veículo das ideologias. Não somos livres!
Mas o próprio Barthes nos ensina o caminho da liberdade: ‘trapacear’ com a
língua - artifício que só conseguimos através da Literatura.
Ao
falar de nós e pra nós, nos fazendo passear por caminhos devolutos,
experiências e dramas tão comuns à essência humana, a literatura aproxima o
abismo existente entre a vida e o homem. Vida essa que ‘não nos basta’, mas que
a literatura preenche, na medida em que saltamos para dentro da história usando
o ‘pó de pirlimpimpim’ e nos apropriamos das personagens, de seus medos,
anseios, esperanças, alegrias.
Tenho
sorte na vida... A minha infância foi uma floresta encantada e infinita. Por
ela passaram lobos-maus, caçadores, sacis, iaras, príncipes, princesas! Sofri e
senti medo da bruxa com o João e a Maria.
Aprendi com a Branca de Neve e os Sete Anões que com verdadeiros amigos
é possível vencer as piores maldições- E
mais tarde , aprendi com O
Pequeno Príncipe o valor de cada respiração , de cada amigo. Chorei
agradecida. Viajei com Gulliver... As
histórias de Verne cultivaram em mim o gosto da liberdade. Descobri também que
quando se quer voar, é preciso se arriscar a ficar tonta. E mesmo assim o vôo
sempre valerá à pena. Já o amor ao vôo e aos passarinhos quem me ensinou foi o
Manoel de Barros. Foi o Manoel que
também despertou a criança adormecida em mim. Manoel transformou-se no meu
passaporte pra infância. Cresci e estudei com o Harry Potter em Hogwarts. Vi de
perto as batalhas de Carlos Magno e seus pares de França. Conheci Lampião e seu
bando nas trilhas do Cordel. E em cada linha, reconheci a voz de minha avó,
seus causos e exemplos.
Infelizmente
nenhuma Sherazade me acalentou o sono com suas histórias fantásticas antes de
dormir... Em compensação, tive um gênio e um tapete mágico de companhia por
todo o caminho. Quando o Ali Babá disse o ‘abre-te sésamo’, eu estava lá.
Pedrinho
me mostrou a força que há na coragem. Emília que a gramática pode ser divertida
e também ensinou a não me contentar com o dado e o pronto. E o Visconde, ah! O
Visconde ensinou-me a amar a sabedoria.
Ao
lado da Florbela Espanca vivi os amar-gos de minha adolescência... Foi nessa
mesma época que aprendi a conversar com Machado de Assis, Bentinho, Capitu,
Brás Cubas... Fui à cartomante e
descobri com o Alienista, que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Foi
também na adolescência que comecei a odiar o José de Alencar.
Com
Hamlet sofri as tensões, a crueldade da dúvida, a ânsia da vingança... Foi
Hamlet que me contou que a melhor saída é tomar boas doses de coragem e lutar
contra o mar de angústias que tantas vezes nos aflige em vez de abaixar a
cabeça e sofrer as ferozes flechadas do destino. Numa de nossas conversas, percebi que não
devo me assustar com o mundo... pois ele é por vezes sem graça, sem alma... inútil!
Lamentei
a morte e o amor de Romeu e Julieta... No entanto, suspirei com uma das mais
lindas declarações do universo..tanto que guardo até hoje alguns versos na
memória e no coração..‘Ah, então, minha santa criatura, permita que os lábios
façam o que as mãos fazem; tens de concordar comigo, em que elas se unem em
prece, para que a fé não se transforme em desespero’ [p.43].
Com
Otelo descobri como o ciúme corrói o mais nobre dos sentimentos... E a Bíblia
acresceu-me a fé na vida, na nobreza do amor, em Deus e em mim. Ah! Tantas
histórias assaltam-me a memória enquanto escrevo estas linhas!
Tantos
romances conseguiram chegar com profundidade em minha alma e mostrar-me, a face
hedionda e sórdida do ser humano, as sinuosidades da vida - E a vida, vivida
pelas páginas de um bom livro, apesar de todo o mau-agouro, desgosto, ainda nos
diz, baixinho ao pé do ouvido: ‘— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai
gostar. ’
Muitos
outros personagens ainda convivem comigo. Ficam guardadinhos na caixinha mágica
da memória, sempre dispostos a aconselhar-me e a ajudar-me quando me falta a
palavra ou a coragem do gesto para expressar o que sinto.
Eles
entraram por uma porta que nunca mais se fechará: a porta do Sítio do Pica-pau
Amarelo. Desde o primeiro dia que abri
um livro do Monteiro Lobato, nunca mais saí dele. Mal sabia o Lobato que ao abrir-me as portas
do sítio, abria-me as portas do universo.
Cresci
com Narizinho e Pedrinho. Morei no
sítio, passei pelo reino das águas-claras.
O sítio ainda hoje respira compassivo nas minhas memórias de
infância. Em nenhuma dessas memórias há
lembranças racistas, preconceituosas. Pelo contrário, há apenas a nostalgia do
gosto pela aventura, pelas histórias, pela palavra.
Hoje
leio mais uma vez a notícia de censura contra a obra de Monteiro Lobato e
inevitavelmente pergunto-me: É Lobato o preconceituoso ou é a nossa sociedade
hipócrita, que joga o problema para debaixo do tapete e finge que não existe
racismo nesse país? Ele escreveu
apenas um discurso racista ou há outras dimensões em sua obra? Como limitar a
leitura de uma obra literária? Como
subestimar a imaginação de uma criança? Quem é capaz de adentrar no imaginário
de uma criança?
É
lamentável ver a violência contra a liberdade, a estupidez em tentar engessar o
discurso literário e a tentativa de escamotear um problema de ordem histórica,
política e social. Sim, o racismo sustenta as bases históricas de nossa
sociedade e é o crime mais perfeito que cometemos. Não é censurando e promovendo uma ‘ caça as
bruxas’ às obras do Monteiro Lobato que resolveremos a situação.
Ademais,
duvido muito que uma criança teça um olhar tão limitado a uma obra literária.
Porque estúpidos são os adultos, não elas.
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Quando a política se torna um palco para o rancor e a agressão pública, ainda resta muito para uma democracia plena
A propósito do que leio aqui escrevo esse texto.
Quisera eu partilhar do
mesmo entusiasmo que você caríssimo amigo. A vitória do Padre Deoclides em
Serra do Ramalho bem poderia mesmo significar um ponto final às aflições que vicejam
naquela terra. Quisera eu ter testemunhado um momento histórico. À vista dos
fatos, no entanto, assistidos nos últimos dias em Serra, atiraram contra minhas
ilusões a última pá de cal a alguma ambição de mudança de rota nas ações
políticas daquele lugar para os próximos anos. Você sugere a ideia de aliança construída
pelo diálogo, que levou a adesão da situação a um projeto encabeçado pelo Padre.
Realmente é dificílimo acreditar nisso sem humilhar a razão. A única adesão aparente - falo aparente, porque
com a vida aprendi entre outras coisas o cortejo à cautela - foi a do Padre a
um projeto político que em nada, absolutamente nada, pelo menos por enquanto, difere
da cantilena daqueles notórios malversadores do patrimônio público, que de
tanto tempo no poder, nem se lembram de ter feito outra coisa na vida. Digo e repito talvez eu esteja exagerando.
Talvez minhas palavras estejam sendo duras demais, rápidas demais, desiludidas
demais. Talvez as coisas realmente possam ser superadas, contornadas e reerguidas
com toda vivacidade, como você, eu e muitos outros desejam. Talvez o Padre não
se dobre ao peso dos muitos, “experto ao contrário”, que o lembrarão de quem o
levou ao posto de governo, e conduza com mão firme as mudanças tão necessárias e
urgentes àquela terra. Talvez!. Meu caro amigo eu poria, juro... eu poria
minhas austeras descrenças de lado com um gesto de mudança daquele em quem você
já depositou tanta confiança. Mas, como acreditar nisso se o que vemos, são as
mesmas atitudes daqueles que traíram a confiança do povo por tanto tempo. O
padre bem pode está coberto de boas intenções. Suas atitudes podem mesmo, a despeito de tudo o que vivenciei em Serra nas últimas horas, ser progressista,
como você afirma. Talvez eu esteja atrelando apressadamente a imagem do padre àqueles que o seguem, sem lhe dar o beneficio da dúvida. Porém até esta data ele não me mostrou à que veio. É cedo.
Você me chamará de louco por tentar julgar as atitudes futuras de um homem
pelas ações de poucos instantes. Mas creia-me desconfiado e nada mais. Com pouco
mais de um terço da aprovação pública o Padre Deoclides foi rejeitado por mais
de dez mil dos poucos mais de 15 mil eleitores serramalhenses. E qual a sua
atitude diante disso? Mesmo em minoria, ele não teve a sensibilidade, a
hombridade, mesmo possuindo um passado recente de pastor de rebanhos, de serenar
os ânimos e aplacar o frenesi daqueles que atentam contra a democracia ao
infligirem aos seus discordantes - lembrando que esses constituem a ampla
maioria dos serramalhenses - músicas ofensivas não só a dignidade humana, mas
também a democracia e o bom senso, que manda respeitar a todos. Se o padre é
conivente com os atos dos seus correligionários, e se suas atitudes iniciais
apontam para o mesmo caminho dos seus predecessores, o que me faria crer que
ele pode fazer diferente. Não, meu amigo, não tenho motivo para acreditar que
eles enterrarão “de vez a atitude
beócia, maniqueísta de se escolher uma cor como símbolo de gestão”... nem
tenho esperança de que eles farão “da
adoção de todas as cores um símbolo da igualdade, da não predominância de uma
preferência sobre a outra, da diversidade e do respeito às diferenças,
pressupostos fundamentais da democracia.” A tão sonhada maturidade política
deve começar pelos líderes. Quando eles frustram os gestos necessários para um
novo começo, eles apontam para os rumos que darão ao seu governo. Não me sai da
cabeça a ideia de que essas atitudes ilustram as ações futuras.
Repasto Político
.
Todos devem
ter percebido como os candidatos são tratados nessa época do ano em que
concorrem às eleições. Salvo raríssimas exceções, a maioria das pessoas os
chama de ÍDOLOS. Meu ídolo pra cá, meu ídolo pra lá. Em nenhuma outra época do
ano os políticos gozam de tanta estima do povo quanto nas eleições. Agradar um
candidato, mesmo um de índole duvidosa, pode render alguns préstimos no futuro.
Há sempre, portanto, a possibilidade de alguma púrpura, do manto de homens tão
nobres, recaírem sob aqueles que não se furtam a demonstrarem o seu
entusiasmo. Se o seus respeitados candidatos progridem, logo eles também
estarão em marcha. “Não há poder” escreveu
Victor Hugo, “que não tenha a sua corte. Não
existe fortuna que não seja lisonjeada”. Outros vão mais longe e não se
cansam de incensar o que eles insistem em chamar de qualidades exemplares para
governança. Eu cá tenho minhas dúvidas de homens tão capazes. Para mim o que as
multidões chamam, aos berros, de qualidades inequívocas para governança, não
passa de ser ingenuidade daqueles que creem facilmente nas enganosas e
sediciosas manobras perpetradas pelos gênios da propaganda. Nenhum político
hoje se priva desse acessório, que de tão eficaz tornou-se, nas últimas
eleições, item obrigatório para ter êxito nas campanhas eleitorais. Pode-se
sempre contar com os seus truques de prestidigitador para iludir a malta. Assim
ficam todos confortáveis fingindo miopia aguda e repastando os bocados de sua
sórdida estupidez.
Manoel de Barros
FRASEADOR
Hoje
eu completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze.
Naquela
ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na
fazenda,
contando que eu já decidira o que queria ser no meu futuro.
Que
eu queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de
fazer
casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador.
Meu
pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a
cabeça.
Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais
velho
perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa?
Eu
não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu:
Mas
se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar
uma
enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe
baixou
a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não
botou
enxada.
Manoel
de Barros. Memórias Inventadas: As
Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Ed. Planeta do Brasil, 2008.
Ser-Vil
O homem é um animal assustado. Acuado por demônios, ETs, pés-grandes,
fantasmas, escuro e toda sorte de sortilégios, ele não ver outra saída, a não
ser a servidão a esses mal-assombros. Seu
fim parece ser o de cultivar o medo em todos os estágios de sua vida. Não lhe ocorre, em nenhuma ocasião, que o
medo é uma força alimentada por aqueles, que desistiram de encarar o
desconhecido e se curvaram servilmente às sombras.
A coragem adiada ou sob o abrigo do medo
.
Talvez seja por meu
ceticismo crônico, ou a simples falta de evidência. Seja lá qual a razão, o
certo é que, não dou o menor ouvido às predicas de fim de mundo, que andam
assustando as pessoas por aí. Ao se aproximar a apocalíptica data dos crentes
do calendário maia, a única coisa que me acossa o juízo, é saber que esses
messias, continuarão criando outras formas de dar cabo à existência humana, tão
logo esse frenesi seja providencialmente esquecido.
Estamos mesmo
condenados a viver pelo medo, arrastando pelos séculos a firme esperança de
prever ora em formatos de plantas ou tripas de animais, ou como agora nas
fantasias de uma civilização pretérita, todas as nossas fraquezas de espírito e
incertezas da alma. Não houve um único momento na história da humanidade em que
os homens não deixaram de prever sinais de mal auguro em tudo. Investidos, como
acreditavam, do mais puro sentimento, eles alardearam todo tipo de terror.
Transformaram assim o mundo numa morada perpetua do medo.
A julgar pelos presságios
do passado, foi por um milagre, ou mero erro de cálculo - afirmam os
empedernidos - que nos permitiu chegar, sãos e salvos ao presente. Porém,
outros, abnegados visionários, muito bem dispostos, não perderam ainda,
malgrado nossas esperanças, a determinação para consertar “todos os equívocos
do passado”, e reinstauram, de tempos em tempos, uma nova previsão de
catástrofe, que sucumbirá a humanidade, dessa vez sem sombra de dúvidas, para
sempre.
Enquanto muitos vão
contando os fins dos dias eu passo as horas sonhando com as manhãs. Nada me
demove a alegria de estar vivo e cultivando a vida. Quem deseja catástrofes
vive em catástrofe. A única rota de colisão possível do homem é contra si mesmo
e seus demônios. Em tempo, levo a vida desassombrado desses seres.
Às Avessas
.
Ando em descompasso com
a realidade. Faltam-me os impulsos necessários para seguir aos muitos e
afortunados lugares de desejo do mundo contemporâneo. Quedam-me outras paradas.
Detém-me, outros objetos, muito menos
queridos pelas gentes. Não os julgo, porém, menos apetecível de cobiça por essa
razão. Seria um parvo se assim o fizesse. Sinto apenas um fastio às coisas que
a maioria não passaria sem.
O resultado. Aos olhos
do mundo moderno vivo uns sem números de tropeços, vexames e outras estultices.
Embaraços que em vez de me fazerem corar - como muitos poderiam esperar - dão-me
uma sensação de contentamento e alivio; pois não me sinto mesmo na vontade nem
na obrigação de seguir pari passu, a
vida contingencial que se me apresentam como ideal e segura. Aqueles que a
seguem, hoje não as têm tão ideais e seguras assim. Sobram-lhes inquietações e
tormentos. Falta-lhes a coragem de admitir.
Imprimo outro ritmo à existência.
Muito menos ambicioso como queriam alguns, e sonharam outros, mas, muito mais
rico do que poderiam supô-las todos. A vida, contrariando todas as certezas,
também se faz às avessas.
Das coisas que adoro fazer
Ocupo-me, de tantas coisas inúteis, que dia desses ainda
terei a vida seriamente ameaçada por esse pendor.
Rede
.
A rede faz parte da vida do Paraíba. Ela atravessa toda a sua existência. Ao nascer ele não pode contar com o luxo de uma cama, então é lançado ao balanço de uma rede, que lhe faz às vezes de berço. Ao fim da vida esse utensílio doméstico, indispensável nas famílias nordestinas, que o salvaguardou de tantos desassossegos e desalentos da longa jornada da existência, é transformado em sua última companhia na morada final. Uma das cenas mais comoventes da peça Morte e Vida Severina, ocorre quando o viajante encontra pelo caminho um funeral de um lavrador que segue numa rede ao fatal destino.
- Dentro da rede não vinha nada,
Só tua espiga debulhada.
- Dentro da rede vinha tudo,
Só tua espiga no sabugo.
- Dentro da rede coisa vasqueira,
Só a maçaroca banguela.
- Dentro da rede coisa pouca,
Tua vida que deu sem soca
(...)
Depois de tanta parceria, tanto na vida como na morte, o nordestino não pode deixar de lhe render as devidas homenagens. Sobram-lhe motivos para admirar e benquerer o balanço manso de uma rede, seja à sombra de uma árvore ou ao abrigo de uma latada, não importa. Motivos que escapam àqueles que tiveram outras experiências de existência. Para muitos a rede se constitui no único alento ao corpo molestado pela fadiga. Ainda hoje é fácil encontrar na casa de qualquer nordestino uma rede espalhada em algum canto se oferecendo ao corpo. Lá em casa não existe apenas uma, mas várias. Em Rede de Dormir o estudioso da cultura popular Luís da Câmara Cascudo escreveu: "A rede é acolhedora, compreensiva, coleante, acompanhando, tépida e brandamente, todos os caprichos da nossa fadiga e as novidades imprevistas do nosso sossego. Desloca-se, incessantemente renovada, à solicitação física do cansaço. A rede colabora na movimentação dos sonhos". Lembro-me de minha avó. Em menina ela nunca soube o que era o aconchego de uma cama. Viveu boa parte da vida espinhosa de lavradora a meia, esperando o momento sublime de abrandar seu corpo trucidado pela lida, nos braços acolhedores de uma rede. Não me admira, portanto, que hoje aos 83 anos ela prefira uma rede aos largos espraiados de uma cama.
Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo
.
Em 1904, Kafka escreveu
a seu amigo Oskar Pollark: “No fim das contas, penso que devemos ler somente
livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e
acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para
que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se
não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade,
poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como
o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós
mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta,
longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um
machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito”.
Fonte: Uma história da
Leitura de Alberto Manguel, p. 113
Genial e inesquecível - Os 100 anos do homem que inventou o teatro brasileiro
Nelson Rodrigues (1912 – 1980).
Fonte: Antônio Guerreiro/IstoÉ
Fonte: Antônio Guerreiro/IstoÉ
Lembro-me da primeira vez em que ouvi falar em Nelson Rodrigues. Eu tinha 17 anos, cursava o 3° ano do ensino médio na Bahia e, estando na casa de uma colega, ela me disse que naquela noite um homem iria decepar o órgão genital dele. Fiquei entre espantado e maravilhado com tamanha coragem. Perguntei-lhe: “Tem certeza, Zélia?”. Ao que ela me respondeu: “Eu já assisti. É hoje! Assista e você vai ver!”. Estávamos em 2002, e a Globo reprisava “Engraçadinha”, em comemoração aos 90 anos do “genial e inesquecível” Nelson Rodrigues – assim era a chamada. A minissérie que revelou Alessandra Negrini havia sido apresentada pela primeira vez em 1995.
Minha amiga referia-se à cena antológica em que Silvio, personagem de Ângelo Antônio, resolve adquirir uma navalha para mutilar-se, assim que descobriu que mantivera relações com sua irmã. Sempre acreditando que Engraçadinha fosse sua prima, não suportou o golpe da triste revelação. O pai deles manteve, num passado remoto, um relacionamento com a cunhada, mas tratou de abafar o caso – afinal, era um deputado. Silvio e Engraçadinha jamais souberam que eram irmãos.
Tive a oportunidade de ler todas as peças de Nelson, ver quase todos os seus filmes e posso asseverar: nenhum outro escritor, nacional ou estrangeiro, me fascinara tanto. Quando terminei a leitura de “A Mulher Sem Pecado”, cheguei à conclusão: é esse. Nunca mais o abandonei.
Nelson é tão fabuloso que a fortuna crítica em torno de sua literatura é quantitativamente superior a tudo o que ele escreveu ao longo de 40 anos de atividade incansável em jornais, no teatro e no cinema. Ao lado de Jorge Amado, foi o autor brasileiro mais adaptado para o cinema, com estrondoso sucesso de público. “A Dama do Lotação”, direção de Neville D’Almeida, é hoje a 3ª bilheteria do nosso cinema. Fica atrás somente de “Dona Flor” e “Tropa de Elite”.
Apesar de grande parcela de seus fãs preferir “Toda Nudez Será Castigada” (direção de Arnaldo Jabor), considerada a melhor adaptação dele para o cinema, nenhum outro filme rodriguiano impactou-me tanto como “Bonitinha, mas Ordinária” (refiro-me à versão de 1981, com Lucélia Santos, direção de Braz Chediak). O ser humano reduzido a um abutre, ao dinheiro que pode comprar tudo, ao apego excessivo às aparências, à humilhação sistemática que alguém pode impor àqueles que lhe são inferiores, ao seu ver, simbolizado na pessoa do milionário Heitor Werneck, mostraram-me um mundo vil, imundo, cuja moral vai se deslocando aos pouquinhos para o estado de putrefação. Resta ao espectador sofrer.
Sim, porque a literatura de Nelson Rodrigues não comporta a alegria nem a felicidade. O sexo, o amor, o casamento, a viuvez, a loucura – tudo está indissociável da felicidade. As personagens vivem mergulhadas em permanente estado de tensão. Acredito que Plínio Marcos, Fausto Woolf e Antonio Carlos Viana beberam da fonte de Nelson, a julgar pelos ótimos livros que publicaram.
Anarquizando geral a “sacrossanta” família brasileira – da mais pobre, como a de Silene em “7 Gatinhos” à mais rica, como a de Herculano em “Toda Nudez”, Nelson defendeu a importância de um lar asséptico. Gritando a infidelidade e exibindo no palco, sem máscaras, a prostituição e o que ela acarreta, Nelson valorizou a virgindade e o amor eterno. Escrevendo a respeito de patologias de foro íntimo, da corrupção moral dos homens, da política que fabrica canalhas, da banalização do sexo, do racismo (leia “Anjo Negro”), Nelson fora de um moralismo violento e feroz.
O homem que grande parte do País dizia ser “neurótico” e “tarado” disse, certa feita, que era contra a educação sexual na escola. “Educação sexual tem de ser dada por um veterinário a cabras, a bodes, a vacas. O ser humano não tem de ser educado para fazer sexo. O ser humano precisa ser educado para amar. Eu sou do amor eterno!”.
Nelson não era uma metamorfose ambulante. Ele tinha aquela velha opinião formada sobre tudo. Jamais será esquecido, inclusive pelos detratores do teatro dele.
* Téo Junior é crítico do Jornal Cinform de Aracaju e colaborador desse blog.
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