Pirilampo

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Há, sem dúvida alguma, muitas vantagens, em ser amigo de Marco Haurélio. A melhor delas é que você nunca estará, por mais que julgue o contrário, inteiramente, formado, informado ou suficientemente satisfeito com as alternativas culturais à sua disposição. Sempre atento às novidades, sem deixar de render tributos às gerações pretéritas, a figura de Marco Haurélio reinaugura, às novas gerações, eternos mestres da Cultura mundial. E que alegria não é o sentimento de descoberta. Senti-me assim, cheio de alegria e vigor de iniciante ao ouvir, recomendado por ele, os poemas e canções de Atahualpa Yupanqui. Creio ser essa, a milésima personalidade cultural que o Marco me semeia. O que seria de mim sem esse pirilampo que tange sem esforço, as trevas que nos rodeiam? Grazie Mille Marco!

A limitação das cores, ou quanto posso ser estúpido.

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O nacionalismo e sua vertente cariada, o bairrismo, é uma idelogia repulsiva. Por séculos suas ideias têm manchado a história de sangue ao despresar o diálogo como forma de relacionamento solidário. A limitada ação de interesses que ele congrega repele e ameaça a estabilidade do mundo. Para Gore Vidal o Nacionalismo é a última trincheira dos estúpidos.

Juventude desfibrada

O tédio da existência , a melancolia de dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamúrios insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada.... as insistentes imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra forças desertoras da vida. Coragem! Vocês podem mais...

A arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário




Transcrição da matéria do Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002 com o artista Antonio Veronese e suas opiniões sobre a arte contemporânea na Bienal de São Paulo:

Essa bienal é um engodo, diz Veronese Artista brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002 do Museu Whitney em Nova York, foi à 25° Bienal de SP a convite do JT e analisou o que vale e o que não vale o ingresso. André Nigri-Jornal da Tarde.
“Há mais emoção e história em uma aquarela de Egon Schiele (1880-1918) do que em todo o pavilhão da Bienal paulistana". A frase de Antonio Veronese pode dar a entender que seu autor, um artista brasileiro que transita entre os Estados Unidos e a Europa, é um outsider ressentido com os colegas que expõem na maior mostra de arte contemporânea da América Latina. No entanto Veronese tem quadros seus pendurados nas Nações Unidas (Painel Save the Children) , na FAO em Roma ( Painel Famine), no UNICEF ( JUST KIDS), no Congresso Nacional ( Painel Tensão no Campo), na Universidade de Genebra, etc… Alem disso, Veronese expõe e vende nos Estados Unidos e na Europa, e é um velho militante de causas sociais no Rio de Janeiro- cidade onde fica quando visita o Brasil.
Ao comparar a obra de Egon Schiele às instalações e performances dos 190 artistas de 70 países abrigados na 25°Bienal de São Paulo, aberta até junho, Veronese coloca em discussão o que se faz e o que se classifica de arte hoje e para que ela serve. “Quase tudo que está aí não vale quase nada... É uma infantilidade preencher esse espaço com obras que são um engodo” disse Veronese na manhã de ontem, depois de visitar o Pavilhão do Ibirapuera a convite do Jornal da Tarde.
Ao contrário do que aconteceu no mês passado no Whitney Museu de Nova York, não foi preciso chamar a polícia para esfriar os ânimos de Veronese desta vez, mas sua reação foi contundente da mesma forma. “A maioria do que vi no Whitney e que vejo aqui é resultado de uma idéia imediatista e simplória. Esses artistas são filhos espúrios de Duchamp” disse.
Consciente de que está comprando uma briga feia, Veronese não poupa nem os curadores de suas críticas: “São eles os maiores responsáveis por esse lixo. Não há mais curadoria decente na Bienal. E digo isso sabendo que muita gente gostaria de dizer o mesmo, mas não o faz”.
Ao ser confrontado com algumas das obras da Bienal paulistana, Veronese foi categórico. Chamou a instalação de José Damasceno de leviana, e ao aproximar-se da obra do gaúcho Daniel Acosta, intitulada “Estação Avançada com Paisagem Portátil” comentou: “Se nós mudarmos o nome disso não faz a menor diferença.. Em relação ao trabalho do carioca Chelpa Ferro , um automóvel que foi destruído em uma performance na abertura de Bienal, disse, “Acho um absurdo que uma bobagem dessas ocupe espaço precioso numa bienal. Deveria estar num ferro velho”.
Qual seria a saída? Para Veronese, as instalações vão se esgotar por si mesmas. "Não se pode confundir decadência com vanguarda. Acreditar que tudo já foi feito e que temos que montar essas bobagens é encenar a nossa própria decadência, diz o autor de Famine e Tensão no Campo.
Entrevista de Antonio Veronese depois das críticas às bienais Whitney e São Paulo.
Pergunta: Você, quando critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso não é antidemocrático?
Antonio Veronese: Eu não nego a ninguém o direito à exibição. Só acho que essas instalações deveriam estar num parque-de-diversão e não em museus. São objetos para o divertimento e a interação, da mesma forma que um boliche ou stand de tiro-ao-alvo. Mas isso, absolutamente, nao é Arte!, ainda que pareça revolucionario afirmar o contrário.
Pergunta: O que gerou o teu protesto no Whitney?
Veronese: Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado pagando 10 dollares para ter acesso a um amontoado de “facilidades”. Os “autores” disso são conscientes do farsismo e riem de nós. O que fazem é terrorismo estético, uma tentativa de apagar todo o conhecimento acumulado. Eles sabem que o que fazem não têm nenhum valor, mas contam com a elasticidade moral de curadores simplórios e com a ignorância endêmica da crítica.
Pergunta: Você chama a esses artistas de filhos-espúrios-de-Duchamp. Por quê?
Veronese: Arte é produto de duas experiências: uma histórica e outra pessoal. O artista precisa conhecer a Arte que o antecedeu, senão vai ter que inventar a roda a cada vez. Mas precisa também da segunda experiência, a pessoal, fruto do seu trabalho contínuo, do lento avançar naquilo a que dedica. Cézanne, aos 64 anos, já havia parido o modernismo mas reclamava que ainda não havia conseguido ir até o fim na sua busca. O caminho é longo e exige paciência e dedicação.
Esse pessoal das instalações não é burro não, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos que serviram em outras situações mas que, no caso deles, não passa de malandragem. O urinol virado por Duchanp é consequência de uma busca pessoal, num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser manipulado indefinitivamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp. Propõem mediocridade profanatoria embalada de vanguarda!
Pergunta: Que diferença existe entre essa tua crítica e a que sofreram os impressionistas no século XIX?
Veronese: A Arte é oficio do Homem, interferência do Homem; ela não é espontânea na natureza! É produto da interferência humana, e não pode ser supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade do milagre e, para Malraux, os artistas não são copistas de Deus mas seus rivais! A "arte" conceitual pretende socializar o direito de produzir arte, antes restrito, como é natural, aos artistas! Por isso o que produz é facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou das maçãs de Cezanne. Comparar minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o modernismo é um exagero. Uma outra vez eu "incorporei” minha bota de couro a uma instalação do Tunga no Whitney do Soho em Nova York. Só fui recuperá-la no dia seguinte. E ela estava ainda lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém se dera conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação conceitual de Tunga. Isso seria impossível com uma tela de Bacon, uma escultura de Maillol, ou mesmo com o Circo de Calder.
A crítica foi, muitas vezes na História, preconceituosa e totalitária. Mas questionar meu direito de exercê-la agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais humanidade e humanismo em uma simples aquarela de Egon Shiele do que em toda a Bienal de São Paulo reunida.
A Arte precisa do espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário.

Desculpas para não ofertar às massas um conteúdo decente



“O problema não está no vulgo, que

pede disparates, mas naqueles que não   

sabem representar outra coisa”.


Cervantes no livro Dom Quixote

Academia de ilusões e a estupidificação coletiva

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Um fato que sempre me espantou na academia, é que ela há muito tempo, deixou de influenciar a sociedade para assumir passivamente e de forma muitas vezes serviu às vulgaridades da vida moderna. Não é muito difícil encontrar professores que insistem, talvez pela obtusidade crônica em que vivem, em dizerem que os fast-food televisivos não são danosos à aprendizagem e que eles não comprometem a qualidade de pensar e agir dos alunos. Esse pensamento, baseado no princípio do multiculturalismo, acabou por lançar na vala comum todos os critérios que balizavam a qualidade do ofício artístico. Em contraposição, ao exercício salutar do diálogo com os objetos oferecidos como artísticos, equivocadas formas de qualificação passaram a dominar o pensamento acadêmico. O neurocientista argentino, naturalizado brasileiro, Iván Izquierdo discorda da ingenuidade televisiva. Para ele, “ao apresentar informações prontas e digeríveis” a tevê reverte o processo de aprendizagem e compromete a memória. Ao eliminar a possibilidade de ordenação e criação através da interação com os objetos a tevê, que já oferece tudo pronto, desestimula inclusive a capacidade de memorização, comprometendo assim de forma maquiavélica gerações e mais gerações de jovens. Ao se tornar dependente de estruturas prontas e reconhecidas o nosso cérebro não cria mais os impulsos necessários para expansão das capacidades de armazenamento de novas informações. Temos aí uma porta aberta para demência, algo que qualifica muitos de nossos acadêmicos na atualidade. Num processo inverso, ao desse desserviço que nos presta a tevê, segundo o neurocientista, está a leitura. Para Izquierto a leitura é o melhor exercício para memória e expansão do conhecimento. Essa constatação, diante de um país que não ler, e de professores que não estimulam os alunos à leitura nos põe a pensar que a suinucultura alastrada pela tevê, rádio e outros veículos “culturais”, associado ao descaso acadêmico vitimarão indiscriminadamente todas as potencialidades humanas do nosso país por um longo período.  

A importância da mídia livre e (bem) longe dos poderosos

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George Orwell, que escreveu 1984, o livro do Big Brother, e Revolução dos Bichos, disse que “jornalismo é tudo aquilo que não querem que você publique. Todo o resto é propaganda”. 

Amparado nessa perspectiva exemplar do escritor indiano, vejo com extrema preocupação este 4° poder, sem dúvida mais importante do que todos os três anteriores, estar irmanado, cada vez mais, com os grupos políticos da situação. 

Na Bahia, vejo esse tipo de relação e suponho que ela não seja benéfica e nem saudável para a democracia. Porque dessa amizade entre jornalistas e prefeitos, existe um fator maior do que a verdade, que coroa essa relação: dinheiro. 

Nenhuma mídia, jornal, revista, estação de TV funciona sem dinheiro. Então, a solução encontrada é passar a cuia na mão de quem pode pagar pela informação: nossos digníssimos políticos. 

Não espanta que as mídias, hoje em dia, sobretudo as virtuais, não escondam mais de ninguém a quem estão apoiando, fazendo com que seu corpo editorial e suas matérias sejam, portanto, parciais e sem nenhuma relevância social. Elas já não disfarçam mais – e seguem atuando como legítimas porta-vozes não do povo, mas das administrações que defendem e de quem cobram a fatura. Na época da campanha política, fazem dos veículos verdadeiros palanques. Uma vez eleitos, como compensação, fazem uma inequívoca publicidade dos prefeitos e políticos que lhes pagam, divulgando amplamente suas obras, mas tomando o extremo cuidado de omitir algo que desabone os “patrões”. Está errado. 

Só o fato de (grandes) conglomerados e (grandes) jornais serem controlados por grupos políticos, já me espanta. 

Nunca me esqueço do livro Odorico na Cabeça, do imortal Dias Gomes, autor de O Bem-Amado. Sentindo-se agredido em sua honra pelos ataques de um jornal de Sucupira, Odorico – esperto – também criou sua própria imprensa para divulgar seus projetos estapafúrdios. Trata-se da Folha de Sucupira. Essa, ele julgava imparcial. Quanto à mídia que teve a coragem de expor suas loucuras, ele a classificava de “marronzista”. 

Quando a imprensa faz as pazes com o poder, alguma coisa está errada. 

No interior da Bahia, sei que aonde vão os prefeitos, lá estão os “jornalistas” atrás, no encalço. Jornalista que se preza não pode estar para cima e para baixo com prefeito. Se quiser servir à sociedade e honrar a profissão, deve investigar, apurar, colher as informações verdadeiras e publicá-las, sejam boas ou ruins, doam a quem doer. 

A imprensa tem a obrigação de fiscalizar o poder, e não de se aliar a ele.

Carnaval das convenções

.Marc Hom


A origem mais remota do carnaval esta na Grécia Antiga durante as celebrações em agradecimento à colheita da uva. Os antigos Gregos agradeciam com festas e muita bebedeira ao deus Baco pela safra do ano. Durante essas homenagens, que duravam 5 dias eram frequentes a embriaguez coletiva. No frenesi das comemorações explosões anárquicas e passionais eclodiam do meio da multidão. Em êxtase a comunidade rebelava-se contra as pressões hierárquicas, sexuais, religiosas e sociais que soterravam os anseios mais recônditos da psique humana. Por um curto espaço de tempo podia-se viver livremente as fantasias e desejos até então represada pela moralidade vigente. Suspensa temporariamente as rígidas formas sociais, homens e mulheres, escudados pela máscara das representações, fingiam serem o que bem desejavam. Imitavam animais, fingiam-se deuses, rainhas, reis, seres fantásticos e toda ordem de maravilhoso emanava das mentes desobrigadas de servirem a razão instituída. Não preciso dizer que essas festas logo foram perseguidas e os rituais caracterizados como desvios morais e proibidos. Não se podia admitir que reis, deuses e autoridades tão elevadas fossem frontalmente ridicularizados como eram nesses festejos. Podia-se correr o risco de que as pessoas, ao imitarem sarcasticamente essas autoridades, matasse o temor que as mantinha servis às suas autoridades. Dessas representações surgiu o TEATRO em sua forma mais rudimentar. Desde os tempos mais remotos ele teve uma função social transformadora; penetrar o impenetrável, questionar o inquestionável e sugerir outras formas de pensar a realidade, para além daquelas existentes. Porém, como ocorreu no passado e se repete agora no presente, o que surgiu como uma forma espontânea de subversão a ordem instituída e questionadora das estruturas sociais, foram descaracterizada de sua força anárquica e subjugada aos interesses mercadológicos. Diz-se então que foi encabrestada para assegurar a continuidade do pensamento racional. Não se vê mais no carnaval a explosão incontrolada de “desrespeito às formas e medidas” apontando para outras formas de consciência. Em A Origem da Tragédia, o original pensador alemão Nietzsche questiona a cultura socrático-platônica, de cariz racionalista para valorizar a rebeldia dos espíritos livres, originaria dos carnavais.  O que ocorre há já bastante tempo é que a Indústria Cultural tomou de assalto essa festa popular e a transformou em uma diversão despretensiosa e controlada, onde um bando de acéfalos, cheios de vulgaridade, descarregam suas frustrações e esperam viver, mesmo que por poucos instantes, as alegrias controladas por um script traçado.  

Lêdo Ivo


A morte, essa catástrofe pessoal.

A Espanha Cabralina


A Espanha exerceu fascínio em inúmeros artistas. Quem conviveu com a arte, a dança, a música ou mesmo com a arquitetura espanhola de inspiração moura, jamais saiu ileso de sua presença. Em 8 anos de Sevilha, o poeta João Cabral colecionou poemas que transparecem seu encanto pela cidade e pelo país ibérico. Alguns dos seus melhores poemas, ao menos para mim, falam das paisagens sevilhanas, com sua arquitetura monumental, dança e principalmente seus toureiros que metaforizaram a poética cabralina e ilustraram as lições ascéticas desse poeta incontornável. Vejam só esse belo exemplo:

LEMBRANDO MANOLETE

Tourear, ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice

que se faz roçar pela faixa
estreita da vida, ofertada

ou touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua

expõe ao touro, reduzindo
todo seu corpo ao que é seu cinto,

e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida

para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.

Agrestes - 1985

Cativo


Existem vários tipos de cativo. Iludem-se aqueles que associam o cativo apenas àquele individuo emparedado nas grades de uma prisão. Essa é uma boa imagem, entre tantas, que podemos usar para ilustrar os muitos e variados modos de se estar privado de suas faculdades mais essenciais; a liberdade. Digo essenciais pensando em meu espírito, que não tolera a ideia de cárcere, de nenhuma espécie, seja ele político, religioso, tributário, social. A outros o cárcere nem é tão importante assim, pois não esboçam nenhuma resistência às amarras, paredões, e outras engenhosas formas de submissão. Mesmo o indivíduo que vive em um estado que lhe permite o gozo de suas liberdades, mesmo esse, pode ilusoriamente imaginar pertencer realmente a uma sociedade de livres, quando na verdade as evidências de sua vida o desmentem.  Há muitas arapucas dispersas por aí prontas para abocanharem os últimos insubmissos na selva das cidades. Não se tolera, mesmo que se diga o contrário, a hipótese de alguém viver livre de qualquer grilhão. De certo modo, temesse esses indivíduos ou invejam-lhes a coragem, não sei, mas acho que a segunda hipótese tem uma dose maio de verdade.  

O SUPLÍCIO DE TÂNTALO


O que será melhor? Estar cheio de sede no meio do deserto, ou estar com um copo de água encostado aos lábios mas sem poder bebê-la? Ter sede é ter sede, seja em que circunstância for. Mas a penitência será maior se soubermos que temos a possibilidade de beber a água que não iremos beber. 

Daí ser preferível o estado de inconsciência perante um bem que nos falta, do que viver com a consciência da sua inacessível existência. A chatice está no raio do conjuntivo. Uma vida inteligente sem o modo conjuntivo seria menos inteligente mas muito mais fácil de ser vivida. E tanto me refiro ao presente do conjuntivo como ao pretérito imperfeito do conjuntivo ou ao futuro do conjuntivo. 

O modo indicativo dá-nos a realidade mas o conjuntivo dá-nos a merda da possibilidade. E se é verdade que é por via da possibilidade que nos elevamos a um nível de existência superior, também é por via da possibilidade que nos enterramos no pântano do sofrimento. Tivéssemos apenas o modo indicativo, passado, presente ou futuro e esse mesmo passado, presente ou futuro seriam simples, rasos, tão implacáveis como um nascer ou pôr do Sol. Diríamos "Eu fiz, faço, farei", "Eu fui, vou, irei", "Eu aceitei, aceito, aceitarei" com a mesma inconsciência mecânica com que a ninfa Eco repete os últimos sons de Narciso ou com a mesma determinação com que um animal cumpre as suas obrigações. 

Mas depois vem o conjuntivo e estraga tudo. Olha-se para o passado e pensa-se no que poderia teria sido, olha-se para o futuro e pensa-se no que poderá vir a ser. E, a partir daí, tudo se torna labiríntico, tortuoso, infinitamente complexo. 

Eu gosto do mito adâmico e não me desagrada a ideia de ser filho de Adão. Mas foi com Tântalo que começámos verdadeiramente a ser humanos.

Four more years

Democracia

fotografia da iemenita Bouchra Almutawakel
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Não acho a democracia o melhor dos modelos político. Não é o povo que realmente governa e decide. Grandes corporações e conglomerados empresariais manipulam aqui e alhures a marcha dos acontecimentos. Fazendo valer muito mais as suas vontades do que as necessidades do povo, eles desmentem, sem nenhum decoro, todos os dias, os fundamentos que sustem a ideia de que o regime existe para atender as demandas da maioria. Não precisa ter feito o Mobral para constatar que quem manda no mundo é o deus dinheiro. Os governantes de fato estão bem longe dos gabinetes políticos. Eles transitam por outra esfera social. A democracia é apenas uma festa popular engendrada nas massas para legitimar a farsa que é o governo do povo. Porém, diante da baixa qualidade dos regimes em oferta, não nos resta alternativa a não ser aguentar esse; pelo menos até que irrompa contra seu próprio peso os diques de contenção do inconformismo e faça surgir outro modelo, mais justo, menos fajuto. As notórias imperfeições da democracia, no entanto, são bem melhores, ou toleráveis do que as excrescências dos regimes totalitários, imperiais ou teocráticos que se alastram pelo mundo. 

O capitalismo não poupa ninguém

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Já não vai longe, pois nem tanto tempo se passou assim, em que todas as nações Ocidentais sonharam um dia em ser como a Grécia. Em tudo se invejava o país de Sócrates, Platão e Aristóteles. Da arquitetura monumental, passando pelas artes até chegar aos ideais de beleza. Os gregos construíram um ponto de viragem na civilização, que de tão vigoroso, pavimentou, os caminhos que abriram um novo mundo. Ninguém lhes ousava ultrapassa os feitos. Sabia-se de antemão a tarefa inglória que seria essa empresa. Às nações mais prosperaras comprazia-se com a imitação, deixando bem evidente, é claro, as fontes onde buscaram inspiração para tudo o que iam construindo a sua volta.  Não se temia o decalque. Nesse caso ele era, não só tolerado, como ainda representava um sinal de status. Poder imitar a Grécia era uma glória. Quem reproduzisse os modelos gregos de civilidade já eram bastante civilizados. Hoje, no entanto, a Grécia vive outra situação, bem menos invejável. Afundada numa crise financeira que parece não ter fim, todas as nações evitam comparações temendo o contágio das más notícias que projetam para os próximos anos um panorama trágico para nação que inventou a “tragédia”. O que os bárbaros não foram capazes de destruir em anos de tentativas frustradas contra a Grécia o Capitalismo não poupou. 

A ingenuidade de não haver sido revelado às coisas



Esforçamo-nos a vida toda por sermos bons, justos e honestos. Mas vêm as circunstâncias e nos arranca todas as nossas melhores determinações. Azar, acaso ou injustiça social, chamemos do que quisermos, o certo é que estamos à mercê de forças que, às vezes, não podemos, mesmo querendo, controlar. Alguns de vocês devem estar agora mesmo recriminando-me por julgar essas qualidades circunstanciais. Por certo vocês, se assim me avaliam, as têm como inatas ou indivisíveis de alguns homens, mesmo em situações opressivas. Pensam que os índios, as crianças, os religiosos, os santos e outras qualidades de homem, espelham aqueles dotes que vocês tanto almejam crer indissociável da alma humana. Creem-na, como uma marca divina, a única talvez, que os permitam aliar o homem a um deus todo poderoso criador do céu e da terra, bem como desse ser que insiste, em todas as suas fraquezas e vilanias, em contradizer as qualidades supremas do criador que os moldou. Se sentem assim a bondade, a justiça e honestidade tanto melhor para vocês. Não têm que lidar com questionamentos morais, sociais que desmentem, ao menos naqueles que não creem nos seus pontos de vista, na ideia de que o homem seja uma fonte inesgotável de bondade a toda prova. Teorias religiosas que nos persuadam das qualidades que de certo não temos dão-nos o conforto de não pensarmos além delas. Se seguros estamos de nossas convicções e cremos nelas, mesmo que isso não nos dê prazer, ao menos nos evita grandes preocupações, e afasta-nos a presença da dor de pensarmos em coisas que não deveríamos pensar. Tudo, portanto, resumi-se a entrega de nossas inquietações às respostas mais fácies. 

Mantra

Benditos os que não confiam a vida a ninguém

Barnardo Soares. Livro do Desassossego, p. 95.

Impostura literária


Um amigo recomenda-me a leitura dos poemas de certo Georg Trakl. “Leia os poema, mas evite seguir seu comportamento”. Não que eu acredite que os poetas estejam acima do bem e do mal, ou que suas vidas sejam exemplos para grandes coisas, mas todas às vezes que a recomendação de um autor vem seguida de um lembrete para se distanciar de sua vida, sinto que irei gostar muito desse artista. 

Não conheço esse poeta e não sei o que ele fez de tão cabeludo para merecer a recomendação de não ser seguido. Porém, me encantam, os autores malditos. Para mim há mais verdades naqueles que molestaram as certezas estabelecidas - e sinto que essas sejam as razões de tantas recomendações - do que naqueles que insistem na fossilização da vida. 

Os poetas e artistas em geral tornaram-se suspeitos, por não aceitarem passivos os arreios tirânicos impostos a todos àqueles que sentem de forma insuspeita a sua vida. Miller, De Quincey, Plinio Marcos, Genet, Bukovsky, Baudelaire, Rimbaud, Sade, Maquiavel, Hilst, Pavese, Passolini, e outros tantos, estão no rol desses infratores da moralidade vigente. 

Feito kamikazes eles se atiraram contra as instituições fajutas implodindo seus valores de fachada. Só por pressentirem a vida, da forma que ela lhes apresentava, insuficiente; insubmissa e intolerável, eles foram tachados de rebeldes, desordeiros, malucos, bandidos e outros adjetivos e qualificativos assepticamente moldados para distanciar o público do contágio de suas pragas. 

Para mim, tantas reservas, tentam invisibilisar alguém que por sua postura inconveniente tornou-se pernosa non grata ao status quo, e por imerecida justificativa foram lançadas à margem da sociedade. A melhor maneira de desmoralizar alguém é sempre distorcer a sua imagem. Dar-lhe os predicados que justifiquem a distância das maleitas que carregam aqueles malfeitores, bandidos, escroques e degenerados. Os julgamentos morais quase sempre são feitos com base nas aparências. Infringir os limites estabelecidos pela sociedade pode render àqueles subversivos, transtornos para o resto da vida. 

Tempos de escândalos são muitos


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De tempos em tempos somos sacudidos por escândalos, que os menos desavisados encontram parentesco com outros tantos casos semelhantes, que por momentos avexam a consciência nacional. A malta inteira se agita como um bando de bisões assaltados pelo predador, estourando o rebanho. Mas, logo em seguida, todos voltam a pastar pacientes e sossegados. Vivemos assim, contamos os dias, as horas e os meses mediante as vergonhosas ações de nossos homens públicos. Antes, durante e depois da redemocratização não contamos um único ano em que pudemos nos orgulhar da decência de qualquer um dos nossos líderes. As décadas estão todas cheias de delinquência. Incorrigíveis, insistimos nos erros do passado como se o tempo não trouxesse nenhuma lição, como se a história não existisse, como se a vida fosse um pasto em que as gramíneas suculentas são mais emergentes do que a vigília aos predadores.

É preciso mudar tudo para que nada mude.


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
(...)

Os versos do poema de Camões se aplicam a quase tudo nessa vida, menos a uma esfera da nossa sociedade, que parece imune a todo tipo de mudanças: a política. Os líderes desse país encontraram uma maneira, muito eficaz, de emperrar as engrenagens da mudança e empenham todas as suas ações na manutenção de suas qualidades duvidosas. 

Caçadas que não é de Pedrinho

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Com a devida vênia reproduzo o instigante texto recolhido aqui. Lane Donato é aluna do curso de Letras da UNEB, Campus VI Caetité.

 

Barthes nos diz que a língua é fascista.  Estamos presos às amarras lingüísticas e a todas as ideologias que por elas circulam, já que a língua é por excelência, o veículo das ideologias. Não somos livres! Mas o próprio Barthes nos ensina o caminho da liberdade: ‘trapacear’ com a língua - artifício que só conseguimos através da Literatura. 
 
Ao falar de nós e pra nós, nos fazendo passear por caminhos devolutos, experiências e dramas tão comuns à essência humana, a literatura aproxima o abismo existente entre a vida e o homem. Vida essa que ‘não nos basta’, mas que a literatura preenche, na medida em que saltamos para dentro da história usando o ‘pó de pirlimpimpim’ e nos apropriamos das personagens, de seus medos, anseios, esperanças, alegrias.   
 
Tenho sorte na vida... A minha infância foi uma floresta encantada e infinita. Por ela passaram lobos-maus, caçadores, sacis, iaras, príncipes, princesas! Sofri e senti medo da bruxa com o João e a Maria.  Aprendi com a Branca de Neve e os Sete Anões que com verdadeiros amigos é possível vencer as piores maldições- E  mais tarde ,  aprendi com O Pequeno Príncipe o valor de cada respiração , de cada amigo. Chorei agradecida.  Viajei com Gulliver... As histórias de Verne cultivaram em mim o gosto da liberdade. Descobri também que quando se quer voar, é preciso se arriscar a ficar tonta. E mesmo assim o vôo sempre valerá à pena. Já o amor ao vôo e aos passarinhos quem me ensinou foi o Manoel de Barros.  Foi o Manoel que também despertou a criança adormecida em mim. Manoel transformou-se no meu passaporte pra infância. Cresci e estudei com o Harry Potter em Hogwarts. Vi de perto as batalhas de Carlos Magno e seus pares de França. Conheci Lampião e seu bando nas trilhas do Cordel. E em cada linha, reconheci a voz de minha avó, seus causos e exemplos. 
 
Infelizmente nenhuma Sherazade me acalentou o sono com suas histórias fantásticas antes de dormir... Em compensação, tive um gênio e um tapete mágico de companhia por todo o caminho. Quando o Ali Babá disse o ‘abre-te sésamo’, eu estava lá. 
 
Pedrinho me mostrou a força que há na coragem. Emília que a gramática pode ser divertida e também ensinou a não me contentar com o dado e o pronto. E o Visconde, ah! O Visconde ensinou-me a amar a sabedoria. 
 
Ao lado da Florbela Espanca vivi os amar-gos de minha adolescência... Foi nessa mesma época que aprendi a conversar com Machado de Assis, Bentinho, Capitu, Brás Cubas...  Fui à cartomante e descobri com o Alienista, que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Foi também na adolescência que comecei a odiar o José de Alencar. 
 
Com Hamlet sofri as tensões, a crueldade da dúvida, a ânsia da vingança... Foi Hamlet que me contou que a melhor saída é tomar boas doses de coragem e lutar contra o mar de angústias que tantas vezes nos aflige em vez de abaixar a cabeça e sofrer as ferozes flechadas do destino.  Numa de nossas conversas, percebi que não devo me assustar com o mundo... pois ele é por vezes sem graça, sem alma... inútil! 
 
Lamentei a morte e o amor de Romeu e Julieta... No entanto, suspirei com uma das mais lindas declarações do universo..tanto que guardo até hoje alguns versos na memória e no coração..‘Ah, então, minha santa criatura, permita que os lábios façam o que as mãos fazem; tens de concordar comigo, em que elas se unem em prece, para que a fé não se transforme em desespero’ [p.43]. 
 
Com Otelo descobri como o ciúme corrói o mais nobre dos sentimentos... E a Bíblia acresceu-me a fé na vida, na nobreza do amor, em Deus e em mim. Ah! Tantas histórias assaltam-me a memória enquanto escrevo estas linhas! 
 
Tantos romances conseguiram chegar com profundidade em minha alma e mostrar-me, a face hedionda e sórdida do ser humano, as sinuosidades da vida - E a vida, vivida pelas páginas de um bom livro, apesar de todo o mau-agouro, desgosto, ainda nos diz, baixinho ao pé do ouvido: ‘— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai gostar. ’
 
Muitos outros personagens ainda convivem comigo. Ficam guardadinhos na caixinha mágica da memória, sempre dispostos a aconselhar-me e a ajudar-me quando me falta a palavra ou a coragem do gesto para expressar o que sinto. 
 
Eles entraram por uma porta que nunca mais se fechará: a porta do Sítio do Pica-pau Amarelo.  Desde o primeiro dia que abri um livro do Monteiro Lobato, nunca mais saí dele.  Mal sabia o Lobato que ao abrir-me as portas do sítio, abria-me as portas do universo. 
 
Cresci com Narizinho e Pedrinho.  Morei no sítio, passei pelo reino das águas-claras.  O sítio ainda hoje respira compassivo nas minhas memórias de infância.  Em nenhuma dessas memórias há lembranças racistas, preconceituosas. Pelo contrário, há apenas a nostalgia do gosto pela aventura, pelas histórias, pela palavra. 
 
Hoje leio mais uma vez a notícia de censura contra a obra de Monteiro Lobato e inevitavelmente pergunto-me: É Lobato o preconceituoso ou é a nossa sociedade hipócrita, que joga o problema para debaixo do tapete e finge que não existe racismo nesse país?    Ele escreveu apenas um discurso racista ou há outras dimensões em sua obra? Como limitar a leitura de uma obra literária?  Como subestimar a imaginação de uma criança? Quem é capaz de adentrar no imaginário de uma criança? 
 
É lamentável ver a violência contra a liberdade, a estupidez em tentar engessar o discurso literário e a tentativa de escamotear um problema de ordem histórica, política e social. Sim, o racismo sustenta as bases históricas de nossa sociedade e é o crime mais perfeito que cometemos.  Não é censurando e promovendo uma ‘ caça as bruxas’ às obras do Monteiro Lobato que resolveremos a situação. 
 
Ademais, duvido muito que uma criança teça um olhar tão limitado a uma obra literária. Porque estúpidos são os adultos, não elas. 

Quando a política se torna um palco para o rancor e a agressão pública, ainda resta muito para uma democracia plena

A propósito do que leio aqui escrevo esse texto.

Quisera eu partilhar do mesmo entusiasmo que você caríssimo amigo. A vitória do Padre Deoclides em Serra do Ramalho bem poderia mesmo significar um ponto final às aflições que vicejam naquela terra. Quisera eu ter testemunhado um momento histórico. À vista dos fatos, no entanto, assistidos nos últimos dias em Serra, atiraram contra minhas ilusões a última pá de cal a alguma ambição de mudança de rota nas ações políticas daquele lugar para os próximos anos. Você sugere a ideia de aliança construída pelo diálogo, que levou a adesão da situação a um projeto encabeçado pelo Padre. Realmente é dificílimo acreditar nisso sem humilhar a razão.  A única adesão aparente - falo aparente, porque com a vida aprendi entre outras coisas o cortejo à cautela - foi a do Padre a um projeto político que em nada, absolutamente nada, pelo menos por enquanto, difere da cantilena daqueles notórios malversadores do patrimônio público, que de tanto tempo no poder, nem se lembram de ter feito outra coisa na vida.  Digo e repito talvez eu esteja exagerando. Talvez minhas palavras estejam sendo duras demais, rápidas demais, desiludidas demais. Talvez as coisas realmente possam ser superadas, contornadas e reerguidas com toda vivacidade, como você, eu e muitos outros desejam. Talvez o Padre não se dobre ao peso dos muitos, “experto ao contrário”, que o lembrarão de quem o levou ao posto de governo, e conduza com mão firme as mudanças tão necessárias e urgentes àquela terra. Talvez!. Meu caro amigo eu poria, juro... eu poria minhas austeras descrenças de lado com um gesto de mudança daquele em quem você já depositou tanta confiança. Mas, como acreditar nisso se o que vemos, são as mesmas atitudes daqueles que traíram a confiança do povo por tanto tempo. O padre bem pode está coberto de boas intenções. Suas atitudes podem mesmo, a despeito de tudo o que vivenciei em Serra nas últimas horas, ser progressista, como você afirma. Talvez eu esteja atrelando apressadamente a imagem do padre àqueles que o seguem, sem lhe dar o beneficio da dúvida. Porém até esta data ele não me mostrou à que veio. É cedo. Você me chamará de louco por tentar julgar as atitudes futuras de um homem pelas ações de poucos instantes. Mas creia-me desconfiado e nada mais. Com pouco mais de um terço da aprovação pública o Padre Deoclides foi rejeitado por mais de dez mil dos poucos mais de 15 mil eleitores serramalhenses. E qual a sua atitude diante disso? Mesmo em minoria, ele não teve a sensibilidade, a hombridade, mesmo possuindo um passado recente de pastor de rebanhos, de serenar os ânimos e aplacar o frenesi daqueles que atentam contra a democracia ao infligirem aos seus discordantes - lembrando que esses constituem a ampla maioria dos serramalhenses - músicas ofensivas não só a dignidade humana, mas também a democracia e o bom senso, que manda respeitar a todos. Se o padre é conivente com os atos dos seus correligionários, e se suas atitudes iniciais apontam para o mesmo caminho dos seus predecessores, o que me faria crer que ele pode fazer diferente. Não, meu amigo, não tenho motivo para acreditar que eles enterrarão “de vez a atitude beócia, maniqueísta de se escolher uma cor como símbolo de gestão”... nem tenho esperança de que eles farão “da adoção de todas as cores um símbolo da igualdade, da não predominância de uma preferência sobre a outra, da diversidade e do respeito às diferenças, pressupostos fundamentais da democracia.” A tão sonhada maturidade política deve começar pelos líderes. Quando eles frustram os gestos necessários para um novo começo, eles apontam para os rumos que darão ao seu governo. Não me sai da cabeça a ideia de que essas atitudes ilustram as ações futuras. 

Repasto Político

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Todos devem ter percebido como os candidatos são tratados nessa época do ano em que concorrem às eleições. Salvo raríssimas exceções, a maioria das pessoas os chama de ÍDOLOS. Meu ídolo pra cá, meu ídolo pra lá. Em nenhuma outra época do ano os políticos gozam de tanta estima do povo quanto nas eleições. Agradar um candidato, mesmo um de índole duvidosa, pode render alguns préstimos no futuro. Há sempre, portanto, a possibilidade de alguma púrpura, do manto de homens tão nobres, recaírem sob aqueles que não se furtam a demonstrarem o seu entusiasmo. Se o seus respeitados candidatos progridem, logo eles também estarão em marcha. “Não há poder” escreveu Victor Hugo, “que não tenha a sua corte. Não existe fortuna que não seja lisonjeada”. Outros vão mais longe e não se cansam de incensar o que eles insistem em chamar de qualidades exemplares para governança. Eu cá tenho minhas dúvidas de homens tão capazes. Para mim o que as multidões chamam, aos berros, de qualidades inequívocas para governança, não passa de ser ingenuidade daqueles que creem facilmente nas enganosas e sediciosas manobras perpetradas pelos gênios da propaganda. Nenhum político hoje se priva desse acessório, que de tão eficaz tornou-se, nas últimas eleições, item obrigatório para ter êxito nas campanhas eleitorais. Pode-se sempre contar com os seus truques de prestidigitador para iludir a malta. Assim ficam todos confortáveis fingindo miopia aguda e repastando os bocados de sua sórdida estupidez.  



Dúvidas apócrifas


Eu cá carrego comigo algumas dúvidas... mas eles aqui e ali vão aos poucos desmentindo-me.

Manoel de Barros



FRASEADOR


Hoje eu completei oitenta e cinco anos. O poeta nasceu de treze.
Naquela ocasião escrevi uma carta aos meus pais, que moravam na
fazenda, contando que eu já decidira o que queria ser no meu futuro.
Que eu queria ser doutor. Nem doutor de curar nem doutor de
fazer casa nem doutor de medir terras. Que eu queria era ser fraseador.
Meu pai ficou meio vago depois de ler a carta. Minha mãe inclinou a
cabeça. Eu queria ser fraseador e não doutor. Então, o meu irmão mais
velho perguntou: Mas esse tal de fraseador bota mantimento em casa?
Eu não queria ser doutor, eu só queria ser fraseador. Meu irmão insistiu:
Mas se fraseador não bota mantimento em casa, nós temos que botar
uma enxada na mão desse menino pra ele deixar de variar. A mãe
baixou a cabeça um pouco mais. O pai continuou meio vago. Mas não
botou enxada.

Manoel de Barros. Memórias Inventadas: As Infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Ed. Planeta do Brasil, 2008.   

Ser-Vil


O homem é um animal assustado. Acuado por demônios, ETs, pés-grandes, fantasmas, escuro e toda sorte de sortilégios, ele não ver outra saída, a não ser a servidão a esses mal-assombros.  Seu fim parece ser o de cultivar o medo em todos os estágios de sua vida. Não lhe ocorre, em nenhuma ocasião, que o medo é uma força alimentada por aqueles, que desistiram de encarar o desconhecido e se curvaram servilmente às sombras. 

A coragem adiada ou sob o abrigo do medo



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Talvez seja por meu ceticismo crônico, ou a simples falta de evidência. Seja lá qual a razão, o certo é que, não dou o menor ouvido às predicas de fim de mundo, que andam assustando as pessoas por aí. Ao se aproximar a apocalíptica data dos crentes do calendário maia, a única coisa que me acossa o juízo, é saber que esses messias, continuarão criando outras formas de dar cabo à existência humana, tão logo esse frenesi seja providencialmente esquecido. 

Estamos mesmo condenados a viver pelo medo, arrastando pelos séculos a firme esperança de prever ora em formatos de plantas ou tripas de animais, ou como agora nas fantasias de uma civilização pretérita, todas as nossas fraquezas de espírito e incertezas da alma. Não houve um único momento na história da humanidade em que os homens não deixaram de prever sinais de mal auguro em tudo. Investidos, como acreditavam, do mais puro sentimento, eles alardearam todo tipo de terror. Transformaram assim o mundo numa morada perpetua do medo. 

A julgar pelos presságios do passado, foi por um milagre, ou mero erro de cálculo - afirmam os empedernidos - que nos permitiu chegar, sãos e salvos ao presente. Porém, outros, abnegados visionários, muito bem dispostos, não perderam ainda, malgrado nossas esperanças, a determinação para consertar “todos os equívocos do passado”, e reinstauram, de tempos em tempos, uma nova previsão de catástrofe, que sucumbirá a humanidade, dessa vez sem sombra de dúvidas, para sempre. 

Enquanto muitos vão contando os fins dos dias eu passo as horas sonhando com as manhãs. Nada me demove a alegria de estar vivo e cultivando a vida. Quem deseja catástrofes vive em catástrofe. A única rota de colisão possível do homem é contra si mesmo e seus demônios. Em tempo, levo a vida desassombrado desses seres. 

Às Avessas

 
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Ando em descompasso com a realidade. Faltam-me os impulsos necessários para seguir aos muitos e afortunados lugares de desejo do mundo contemporâneo. Quedam-me outras paradas.  Detém-me, outros objetos, muito menos queridos pelas gentes. Não os julgo, porém, menos apetecível de cobiça por essa razão. Seria um parvo se assim o fizesse. Sinto apenas um fastio às coisas que a maioria não passaria sem. 
 
O resultado. Aos olhos do mundo moderno vivo uns sem números de tropeços, vexames e outras estultices. Embaraços que em vez de me fazerem corar - como muitos poderiam esperar - dão-me uma sensação de contentamento e alivio; pois não me sinto mesmo na vontade nem na obrigação de seguir pari passu, a vida contingencial que se me apresentam como ideal e segura. Aqueles que a seguem, hoje não as têm tão ideais e seguras assim. Sobram-lhes inquietações e tormentos. Falta-lhes a coragem de admitir.  
 
Imprimo outro ritmo à existência. Muito menos ambicioso como queriam alguns, e sonharam outros, mas, muito mais rico do que poderiam supô-las todos. A vida, contrariando todas as certezas, também se faz às avessas.


Das coisas que adoro fazer


Ocupo-me, de tantas coisas inúteis, que dia desses ainda terei a vida seriamente ameaçada por esse pendor. 

Indolente


Quando já me achava inteiramente recoberto de nomes pela vida, vem você e me rebatiza. 

Rede

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A rede faz parte da vida do Paraíba. Ela atravessa toda a sua existência. Ao nascer ele não pode contar com o luxo de uma cama, então é lançado ao balanço de uma rede, que lhe faz às vezes de berço.  Ao fim da vida esse utensílio doméstico, indispensável nas famílias nordestinas, que o salvaguardou de tantos desassossegos e desalentos da longa jornada da existência, é transformado em sua última companhia na morada final. Uma das cenas mais comoventes da peça Morte e Vida Severina, ocorre quando o viajante encontra pelo caminho um funeral de um lavrador que segue numa rede ao fatal destino.

- Dentro da rede não vinha nada,
Só tua espiga debulhada.
- Dentro da rede vinha tudo,
Só tua espiga no sabugo.
- Dentro da rede coisa vasqueira,
Só a maçaroca banguela.
- Dentro da rede coisa pouca,
Tua vida que deu sem soca
(...)

Depois de tanta parceria, tanto na vida como na morte, o nordestino não pode deixar de lhe render as devidas homenagens. Sobram-lhe motivos para admirar e benquerer o balanço manso de uma rede, seja à sombra de uma árvore ou ao abrigo de uma latada, não importa. Motivos que escapam àqueles que tiveram outras experiências de existência. Para muitos a rede se constitui no único alento ao corpo molestado pela fadiga. Ainda hoje é fácil encontrar na casa de qualquer nordestino uma rede espalhada em algum canto se oferecendo ao corpo. Lá em casa não existe apenas uma, mas várias. Em Rede de Dormir o estudioso da cultura popular Luís da Câmara Cascudo escreveu: "A rede é acolhedora, compreensiva, coleante, acompanhando, tépida e brandamente, todos os caprichos da nossa fadiga e as novidades imprevistas do nosso sossego. Desloca-se, incessantemente renovada, à solicitação física do cansaço. A rede colabora na movimentação dos sonhos". Lembro-me de minha avó. Em menina ela nunca soube o que era o aconchego de uma cama. Viveu boa parte da vida espinhosa de lavradora a meia, esperando o momento sublime de abrandar seu corpo trucidado pela lida, nos braços acolhedores de uma rede. Não me admira, portanto, que hoje aos 83 anos ela prefira uma rede aos largos espraiados de uma cama.

Os limites de minha linguagem denotam os limites de meu mundo

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Em 1904, Kafka escreveu a seu amigo Oskar Pollark: “No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito”.

Fonte: Uma história da Leitura de Alberto Manguel, p. 113