The me, me, me generation
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O tédio da existência, a melancolia de
dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamurios
insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do
facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada. As insistentes
imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não
escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra
forças desertoras da vida.
Triunfalismo mercadológico
.
Somente ontem à noite pude assistir na
integra a entrevista do escritor Peruano Mario Vargas Llosa ao Roda Viva. Adoro
a literatura do Llosa, tenho-a como uma de minhas favoritas. Para mim ele é um
intelectual completo, daqueles que não fogem as discussões mais espinhosas de
seu tempo e cuja disposição para questionamentos parece ser sempre incansável. No
mundo de pouco ou nenhuma criticidade, sua presença no cenário social, agitando
e insuflando debates garante a permanência de uma ambiente menos bucéfalo. Uma
coisa, no entanto, me inquieta nele, a sua reverência ao Capitalismo e ao Neoliberalismo
como modelos econômicos e sociais capazes de resgatar ao homem alguma
dignidade. Essa postura panfletária soa ainda mais contrastante quando sabemos
de sua disposição para combater o rebaixamento da arte contemporânea e sua
espetacularização. Seu mais recente trabalho, La Civilizacion Del Espectaculo atestam essa militância contra a
banalização das artes e o triunfalismo mercadológico. A ele não parece supor
que uma e outra coisa sejam indissociáveis. Seguindo apenas a sua implacável
rejeição à ordem socialista, Vargas Llosa parece ter esquecido que a
civilização na qual as mercadorias assumiram o comando das coisas, dos preços,
dos valores, aviltando todas as relações, também se apoderou das artes e a está
rebaixando a níveis desfibrados.
Peça fraca e sem emoção
São muitos os equívocos do monólogo Solo Almodóvar
por Téo Júnior
Salvador
Pedro Almodóvar, um dos mais extraordinários diretores de
cinema do mundo e o principal de seu país, Espanha, que se notabilizou nesses
últimos trinta anos como sendo dono de um estilo personalíssimo e imediatamente
reconhecível, que Adriana Calcanhotto citou na bela música Esquadros,
mereceu a homenagem da atriz Simone Brault no espetáculo Solo Almodóvar,
em cartaz no Teatro Martim Gonçalves (Canela) neste último fim de semana. O
início da peça, para começo de conversa, é uma cópia ipsis litteris de
uma cena de Tudo Sobre Minha Mãe, aquela em que Agrado (Antonia San
Juan) entretém os espectadores com a “história de sua vida” porque as
principais atrizes faltaram. Daí, nossa Dolores se entrega a discussões
estéreis sobre as dificuldades que os travestis enfrentam, suas experiências
com os homens – quase sempre frustradas –, e o tempo custa a passar.
Colabora para o descalabro da montagem, a protagonista
dedicar todo o espetáculo pronunciando um portunhol sofrível, quando ela
poderia perfeitamente optar pelo português. No palco, uma enorme sandália
remete ao filme De Salto Alto; as músicas e certas cenas que Simone
interpreta e alude estão, claro, na filmografia do diretor, com destaque para A
Lei do Desejo, onde Antonio Banderas contracenou, no longínquo 1987, com o
hoje obscuro Eusébio Poncela (há uma inesquecível cena de sexo). A
interpretação de Simone para Lo Dudo (Duvido), do Trio Los Panchos, não
é à toa. Os figurinos estavam caprichados.
Almodóvar, mestre no colorido exacerbado e que soube
retratar como ninguém o universo feminino (Volver), os travestis e suas
obsessões (Má Educação) e a sexualidade mostrada de forma bonita até (Carne
Trêmula) merecia um roteiro original e satisfatório – o que, infelizmente,
o autor Vinnicius Morais, em mais de uma hora de encenação, não pôde oferecer.
Quem sabe na próxima vez.
Não há limites para quem tem coragem
Fitzcarraldo - filme de 1982 do realizador Werner Herzog
.
Alguns diretores são-nos mais queridos
do que outros. As razões são que, uns nos dizem pouco, enquanto outros nos
emudecem os sentidos ao transmitirem aquele "frisson nouveau", como bem expressou Victor Hugo ao ler pela
primeira vez as Flores do Mal. Os
filmes do alemão Werner Herzog estão para mim nessa segunda categoria. Longe de
ser uma unanimidade do grande público os seus filmes distinguem-se dos blockbuster
hollywoodianos pela capacidade incomum de narrarem histórias de homens em
enfrentamento com o mundo selvagem e desafiador sem cederem aos perigos ou
questionarem seus propósitos; um mundo maior do que suas forças podem vencer. Nessa
luta, seus personagens nem sempre se dão bem. Nada mais ante-comercial do que
histórias de “derrotados”. Porém, se enganam aqueles que pensam que os filmes Herzog
fala sobre derrotistas e fracassados. Os resultados podem não serem o esperado.
O que contam em seus filmes são as atitudes. Num mundo de culta a celebridade o arrivista
social é o modelo de homem ideal. As qualidades e os valores do homem moderno
se medem pelo sucesso e as conquista. Os personagens de Herzog representam
muito bem esses sentimentos de conquista, nos fazendo refletir acima de tudo
sobre as suas conseqüências. Movidos pela ambição desmedida muitos entram num
espiral febril de sonhos de vitória a qualquer custo. Pelo caminho encontram
forças superiores, que os farão provar os limites de sua coragem ante os
desafios impostos pela busca de realizações utópicas. A pretensa superioridade
humana é posta à prova no embate contra as forças da natureza. Nessa luta os
desfibrados e os desertores são os primeiros a caírem. Tombam contra o seu
próprio peso e são arrastados pelas torrentes, vales, abismos e toda sorte de
perigos os põem em marcha ré. No cinema Herzogiano a única celebração possível
é àqueles destemidos aventureiros que se impõem desafios capazes de questionar
os limites do homem. Com Herzog aprendemos que não há limites para quem tem coragem.
Antologia Falhada
Encontrei hoje numa livraria da USP uma antologia da poesia portuguesa contemporânea. Corri avidamente para o exemplar. Antes de desembolsar o valor cobrado pelo livro, tomei o cuidado de buscar no sumário os autores elencados para composição do panorama. Como não encontrei qualquer menção ao Henrique Fialho devolvi o livro a estante. Uma antologia que se preze sobre a poesia lusa, não pode ignorar a presença desse autor. Em qualquer recolha que se faça sobre a contemporaneidade poética o Henrique Fialho é presença indispensável, ou isso, ou a condenação do livro ao encarceramento das estantes.
Sim reluz, mas não está a venda
Hoje,
entre tantos e tão sábios
saberes, nenhum foi capaz
de vencer, ou ao menos
constranger,
as vaidades e imorais
imposturas, dos que,
valem-se do dinheiro
para com ele tudo corromper.
Não há moral que,
de tão forte, não se dobre
ao poder do pequeno nobre.
Valores que não se vençam,
beleza que não se compre,
mesa que não cesse
e amores que não se julguem,
Pela cotação do ouro ou do cobre.
Quando em lugar
das virtudes de caráter,
o homem entrona
as baixezas e vilanias,
mais hediondas de su´alma,
testifica sem pudor,
que embora finja,
nascido de um deus,
uma besta o pariu e te criou.
Esse poema nasceu de uma conversa com o Marco Haurélio, sobre o julgamento das pessoas sobre aqueles que se negam a se enquadrarem na dependência do dinheiro para viverem suas vidas.
À Deriva
Dai-me, senhor!
Nenhum juízo,
Para não ter que
Ler aviso, nas
Estradas por onde
Andar.
Percorrer,
Sem temer perigo
Estradas, desertos, abismos
E quanto mais
Me aprouver
Alcançar.
De resto,
Deixai por conta
Do acaso e da lembrança
Os muitos pontos
que meus pés
irão desbravar.
Serei
Feliz e contente
apenas, com o pó
Que levo rente,
Ao chão
Do meu caminhar.
Refúgio ao fácil
Figurativismo
Abstrato (2004)
Frequentemente acusa-se a arte,
principalmente a contemporânea, de anódina. Ninguém poderá culpar o expectador moderno de insensível
por julgar tão desclassificado o que se estar sendo ofertado nas bienais,
museus e salas de exposições mundo afora. Desde que a arte passou a ser tida,
como uma atitude e não como uma expressão de conteúdo estético, uma onda
decadente de pseudo-artistas aproveitou a suposta facilidade de criação, para
fazer de suas más qualidades estética e falta de talento, objeto de seu ofício.
Em visita recente à Pinacoteca de São Paulo, deparei-me com um quadro do
multiperformático (deve ser isso que ele é) “artista” brasileiro Nelson Leiner,
que se insere nesse contexto de casuísmo e decadentismo artísticos para se
fazer respeitado. Intitulado Figurativismo Abstrato, a “obra” é
composta da superposição de imagens de personagens animados cujo propósito,
aparente, e sempre repetido, é o de transgredir, desmistificar e ridicularizar
a importância da arte. Em contraste com a imponência e o garbo do espaço o melífluo
artista impõe uma galhofa. Ora eu me pergunto, se se quer ainda por em causa o estatuto
de nobreza da arte e torná-la um produto consumível e descartável, é preciso mesmo
divorciar-se da criatividade e impor como padrão o exercício de expressão de
mundo pessoal do artista como única alternativa à arte contemporânea?
Pirilampo
.
Há,
sem dúvida alguma, muitas vantagens, em ser amigo de Marco Haurélio. A melhor
delas é que você nunca estará, por mais que julgue o contrário, inteiramente,
formado, informado ou suficientemente satisfeito com as alternativas culturais
à sua disposição. Sempre atento às novidades, sem deixar de render tributos às
gerações pretéritas, a figura de Marco Haurélio reinaugura, às novas gerações,
eternos mestres da Cultura mundial. E que alegria não é o sentimento de
descoberta. Senti-me assim, cheio de alegria e vigor de iniciante ao ouvir,
recomendado por ele, os poemas e canções de Atahualpa Yupanqui. Creio ser essa,
a milésima personalidade cultural que o Marco me semeia. O que seria de mim sem
esse pirilampo que tange sem esforço, as trevas que nos rodeiam? Grazie Mille Marco!
A limitação das cores, ou quanto posso ser estúpido.
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O nacionalismo e sua vertente cariada, o bairrismo, é uma idelogia repulsiva. Por séculos suas ideias têm manchado a história de sangue ao despresar o diálogo como forma de relacionamento solidário. A limitada ação de interesses que ele congrega repele e ameaça a estabilidade do mundo. Para Gore Vidal o Nacionalismo é a última trincheira dos estúpidos.
Juventude desfibrada
O tédio da existência , a melancolia de dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamúrios insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada.... as insistentes imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra forças desertoras da vida. Coragem! Vocês podem mais...
A arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário
Transcrição da matéria do
Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002 com o artista Antonio Veronese e suas
opiniões sobre a arte contemporânea na Bienal de São Paulo:
Essa bienal é um engodo,
diz Veronese Artista brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002
do Museu Whitney em Nova York, foi à 25° Bienal de SP a convite do JT e
analisou o que vale e o que não vale o ingresso. André Nigri-Jornal da Tarde.
“Há mais emoção e história
em uma aquarela de Egon Schiele (1880-1918) do que em todo o pavilhão da Bienal
paulistana". A frase de Antonio Veronese pode dar a entender que seu
autor, um artista brasileiro que transita entre os Estados Unidos e a Europa, é
um outsider ressentido com os colegas que expõem na maior mostra de arte
contemporânea da América Latina. No entanto Veronese tem quadros seus
pendurados nas Nações Unidas (Painel Save the Children) , na FAO em Roma (
Painel Famine), no UNICEF ( JUST KIDS), no Congresso Nacional ( Painel Tensão
no Campo), na Universidade de Genebra, etc… Alem disso, Veronese expõe e vende
nos Estados Unidos e na Europa, e é um velho militante de causas sociais no Rio
de Janeiro- cidade onde fica quando visita o Brasil.
Ao comparar a obra de Egon
Schiele às instalações e performances dos 190 artistas de 70 países abrigados
na 25°Bienal de São Paulo, aberta até junho, Veronese coloca em discussão o que
se faz e o que se classifica de arte hoje e para que ela serve. “Quase tudo que
está aí não vale quase nada... É uma infantilidade preencher esse espaço com
obras que são um engodo” disse Veronese na manhã de ontem, depois de visitar o
Pavilhão do Ibirapuera a convite do Jornal da Tarde.
Ao contrário do que
aconteceu no mês passado no Whitney Museu de Nova York, não foi preciso chamar
a polícia para esfriar os ânimos de Veronese desta vez, mas sua reação foi
contundente da mesma forma. “A maioria do que vi no Whitney e que vejo aqui é
resultado de uma idéia imediatista e simplória. Esses artistas são filhos
espúrios de Duchamp” disse.
Consciente de que está
comprando uma briga feia, Veronese não poupa nem os curadores de suas críticas:
“São eles os maiores responsáveis por esse lixo. Não há mais curadoria decente
na Bienal. E digo isso sabendo que muita gente gostaria de dizer o mesmo, mas
não o faz”.
Ao ser confrontado com
algumas das obras da Bienal paulistana, Veronese foi categórico. Chamou a
instalação de José Damasceno de leviana, e ao aproximar-se da obra do gaúcho
Daniel Acosta, intitulada “Estação Avançada com Paisagem Portátil” comentou:
“Se nós mudarmos o nome disso não faz a menor diferença.. Em relação ao
trabalho do carioca Chelpa Ferro , um automóvel que foi destruído em uma
performance na abertura de Bienal, disse, “Acho um absurdo que uma bobagem
dessas ocupe espaço precioso numa bienal. Deveria estar num ferro velho”.
Qual seria a saída? Para
Veronese, as instalações vão se esgotar por si mesmas. "Não se pode
confundir decadência com vanguarda. Acreditar que tudo já foi feito e que temos
que montar essas bobagens é encenar a nossa própria decadência, diz o autor de
Famine e Tensão no Campo.
Entrevista de Antonio Veronese depois das
críticas às bienais Whitney e São Paulo.
Pergunta: Você, quando critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não
está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso
não é antidemocrático?
Antonio Veronese: Eu não nego a ninguém o direito à exibição. Só acho que essas
instalações deveriam estar num parque-de-diversão e não em museus. São objetos
para o divertimento e a interação, da mesma forma que um boliche ou stand de
tiro-ao-alvo. Mas isso, absolutamente, nao é Arte!, ainda que pareça
revolucionario afirmar o contrário.
Pergunta: O que gerou o teu protesto no Whitney?
Veronese: Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado pagando 10
dollares para ter acesso a um amontoado de “facilidades”. Os “autores” disso
são conscientes do farsismo e riem de nós. O que fazem é terrorismo estético,
uma tentativa de apagar todo o conhecimento acumulado. Eles sabem que o que
fazem não têm nenhum valor, mas contam com a elasticidade moral de curadores
simplórios e com a ignorância endêmica da crítica.
Pergunta: Você chama a esses artistas de filhos-espúrios-de-Duchamp. Por
quê?
Veronese: Arte é produto de duas experiências: uma histórica e outra
pessoal. O artista precisa conhecer a Arte que o antecedeu, senão vai ter que
inventar a roda a cada vez. Mas precisa também da segunda experiência, a
pessoal, fruto do seu trabalho contínuo, do lento avançar naquilo a que dedica.
Cézanne, aos 64 anos, já havia parido o modernismo mas reclamava que ainda não
havia conseguido ir até o fim na sua busca. O caminho é longo e exige paciência
e dedicação.
Esse pessoal das
instalações não é burro não, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na
segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos
que serviram em outras situações mas que, no caso deles, não passa de
malandragem. O urinol virado por Duchanp é consequência de uma busca pessoal,
num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser
manipulado indefinitivamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso
digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp. Propõem
mediocridade profanatoria embalada de vanguarda!
Pergunta: Que diferença existe entre essa tua crítica e a que sofreram os
impressionistas no século XIX?
Veronese: A Arte é oficio do Homem, interferência do Homem; ela não é
espontânea na natureza! É produto da interferência humana, e não pode ser
supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade
do milagre e, para Malraux, os artistas não são copistas de Deus mas seus
rivais! A "arte" conceitual pretende socializar o direito de produzir
arte, antes restrito, como é natural, aos artistas! Por isso o que produz é
facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou das maçãs de
Cezanne. Comparar minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o
modernismo é um exagero. Uma outra vez eu "incorporei” minha bota de couro
a uma instalação do Tunga no Whitney do Soho em Nova York. Só fui recuperá-la
no dia seguinte. E ela estava ainda lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém
se dera conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação
conceitual de Tunga. Isso seria impossível com uma tela de Bacon, uma escultura
de Maillol, ou mesmo com o Circo de Calder.
A crítica foi, muitas vezes
na História, preconceituosa e totalitária. Mas questionar meu direito de
exercê-la agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais
humanidade e humanismo em uma simples aquarela de Egon Shiele do que em toda a
Bienal de São Paulo reunida.
A Arte precisa do espanto,
mas só os idiotas espantam-se com o ordinário.
Desculpas para não ofertar às massas um conteúdo decente
“O problema não está no vulgo, que
pede disparates, mas
naqueles que não
sabem representar outra coisa”.
Cervantes no livro Dom Quixote
“O problema não está no vulgo, que
pede disparates, mas
naqueles que não
sabem representar outra coisa”.
Cervantes no livro Dom Quixote
Academia de ilusões e a estupidificação coletiva
.
Um fato que sempre me
espantou na academia, é que ela há muito tempo, deixou de influenciar a
sociedade para assumir passivamente e de forma muitas vezes serviu às
vulgaridades da vida moderna. Não é muito difícil encontrar professores que
insistem, talvez pela obtusidade crônica em que vivem, em dizerem que os fast-food televisivos não são danosos à
aprendizagem e que eles não comprometem a qualidade de pensar e agir dos
alunos. Esse pensamento, baseado no princípio do multiculturalismo, acabou por
lançar na vala comum todos os critérios que balizavam a qualidade do ofício artístico.
Em contraposição, ao exercício salutar do diálogo com os objetos oferecidos
como artísticos, equivocadas formas de qualificação passaram a dominar o
pensamento acadêmico. O neurocientista argentino, naturalizado brasileiro, Iván Izquierdo discorda da ingenuidade televisiva. Para ele, “ao apresentar
informações prontas e digeríveis” a tevê reverte o processo de aprendizagem e
compromete a memória. Ao eliminar a possibilidade de ordenação e criação
através da interação com os objetos a tevê, que já oferece tudo pronto, desestimula
inclusive a capacidade de memorização, comprometendo assim de forma maquiavélica
gerações e mais gerações de jovens. Ao se tornar dependente de estruturas
prontas e reconhecidas o nosso cérebro não cria mais os impulsos necessários
para expansão das capacidades de armazenamento de novas informações. Temos aí
uma porta aberta para demência, algo que qualifica muitos de nossos acadêmicos
na atualidade. Num processo inverso, ao desse desserviço que nos presta a tevê,
segundo o neurocientista, está a leitura. Para Izquierto a leitura é o melhor
exercício para memória e expansão do conhecimento. Essa constatação, diante de
um país que não ler, e de professores que não estimulam os alunos à leitura nos
põe a pensar que a suinucultura
alastrada pela tevê, rádio e outros veículos “culturais”, associado ao descaso
acadêmico vitimarão indiscriminadamente todas as potencialidades humanas do
nosso país por um longo período.
A importância da mídia livre e (bem) longe dos poderosos
.
George
Orwell, que escreveu 1984, o livro do Big Brother, e Revolução dos Bichos,
disse que “jornalismo é tudo aquilo que não querem que você publique. Todo o
resto é propaganda”.
Amparado
nessa perspectiva exemplar do escritor indiano, vejo com extrema preocupação
este 4° poder, sem dúvida mais importante do que todos os três anteriores,
estar irmanado, cada vez mais, com os grupos políticos da situação.
Na
Bahia, vejo esse tipo de relação e suponho que ela não seja benéfica e nem
saudável para a democracia. Porque dessa amizade entre jornalistas e prefeitos,
existe um fator maior do que a verdade, que coroa essa relação: dinheiro.
Nenhuma
mídia, jornal, revista, estação de TV funciona sem dinheiro. Então, a solução
encontrada é passar a cuia na mão de quem pode pagar pela informação: nossos
digníssimos políticos.
Não
espanta que as mídias, hoje em dia, sobretudo as virtuais, não escondam mais de
ninguém a quem estão apoiando, fazendo com que seu corpo editorial e suas
matérias sejam, portanto, parciais e sem nenhuma relevância social. Elas já não
disfarçam mais – e seguem atuando como legítimas porta-vozes não do povo, mas
das administrações que defendem e de quem cobram a fatura. Na época da campanha
política, fazem dos veículos verdadeiros palanques. Uma vez eleitos, como
compensação, fazem uma inequívoca publicidade dos prefeitos e políticos que
lhes pagam, divulgando amplamente suas obras, mas tomando o extremo cuidado de omitir
algo que desabone os “patrões”. Está errado.
Só
o fato de (grandes) conglomerados e (grandes) jornais serem controlados por
grupos políticos, já me espanta.
Nunca
me esqueço do livro Odorico na Cabeça, do imortal Dias Gomes, autor de O
Bem-Amado. Sentindo-se agredido em sua honra pelos ataques de um jornal de
Sucupira, Odorico – esperto – também criou sua própria imprensa para divulgar
seus projetos estapafúrdios. Trata-se da Folha de Sucupira. Essa, ele julgava
imparcial. Quanto à mídia que teve a coragem de expor suas loucuras, ele a
classificava de “marronzista”.
Quando
a imprensa faz as pazes com o poder, alguma coisa está errada.
No
interior da Bahia, sei que aonde vão os prefeitos, lá estão os “jornalistas”
atrás, no encalço. Jornalista que se preza não pode estar para cima e para
baixo com prefeito. Se quiser servir à sociedade e honrar a profissão, deve
investigar, apurar, colher as informações verdadeiras e publicá-las, sejam boas
ou ruins, doam a quem doer.
A
imprensa tem a obrigação de fiscalizar o poder, e não de se aliar a ele.
Carnaval das convenções
.Marc Hom
A origem
mais remota do carnaval esta na Grécia Antiga durante as celebrações em
agradecimento à colheita da uva. Os antigos Gregos agradeciam com festas e
muita bebedeira ao deus Baco pela safra do ano. Durante essas homenagens, que
duravam 5 dias eram frequentes a embriaguez coletiva. No frenesi das
comemorações explosões anárquicas e passionais eclodiam do meio da multidão. Em
êxtase a comunidade rebelava-se contra as pressões hierárquicas, sexuais,
religiosas e sociais que soterravam os anseios mais recônditos da psique
humana. Por um curto espaço de tempo podia-se viver livremente as fantasias e
desejos até então represada pela moralidade vigente. Suspensa temporariamente
as rígidas formas sociais, homens e mulheres, escudados pela máscara das representações,
fingiam serem o que bem desejavam. Imitavam animais, fingiam-se deuses, rainhas, reis, seres fantásticos e toda ordem de maravilhoso emanava
das mentes desobrigadas de servirem a razão instituída. Não preciso dizer que
essas festas logo foram perseguidas e os rituais caracterizados como desvios
morais e proibidos. Não se podia admitir que reis, deuses e autoridades tão
elevadas fossem frontalmente ridicularizados como eram nesses festejos.
Podia-se correr o risco de que as pessoas, ao imitarem sarcasticamente essas
autoridades, matasse o temor que as mantinha servis às suas autoridades. Dessas
representações surgiu o TEATRO em sua forma mais rudimentar. Desde os tempos
mais remotos ele teve uma função social transformadora; penetrar o impenetrável,
questionar o inquestionável e sugerir outras formas de pensar a realidade, para
além daquelas existentes. Porém, como ocorreu no passado e se repete agora no
presente, o que surgiu como uma forma espontânea de subversão a ordem
instituída e questionadora das estruturas sociais, foram descaracterizada de
sua força anárquica e subjugada aos interesses mercadológicos. Diz-se então que
foi encabrestada para assegurar a continuidade do pensamento racional. Não se
vê mais no carnaval a explosão incontrolada de “desrespeito às formas e
medidas” apontando para outras formas de consciência. Em A Origem da Tragédia, o original pensador alemão Nietzsche questiona a
cultura socrático-platônica, de cariz racionalista para valorizar a rebeldia
dos espíritos livres, originaria dos carnavais. O que ocorre há já
bastante tempo é que a Indústria Cultural tomou de assalto essa festa popular e
a transformou em uma diversão despretensiosa e controlada, onde um bando de
acéfalos, cheios de vulgaridade, descarregam suas frustrações e esperam viver,
mesmo que por poucos instantes, as alegrias controladas por um script traçado.
A Espanha Cabralina
A Espanha exerceu fascínio em inúmeros artistas. Quem conviveu com a arte, a dança, a música ou mesmo com a arquitetura espanhola de inspiração moura, jamais saiu ileso de sua presença. Em 8 anos de Sevilha, o poeta João Cabral colecionou poemas que transparecem seu encanto pela cidade e pelo país ibérico. Alguns dos seus melhores poemas, ao menos para mim, falam das paisagens sevilhanas, com sua arquitetura monumental, dança e principalmente seus toureiros que metaforizaram a poética cabralina e ilustraram as lições ascéticas desse poeta incontornável. Vejam só esse belo exemplo:
LEMBRANDO MANOLETE
Tourear, ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice
que se faz roçar pela faixa
estreita da vida, ofertada
ou touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua
expõe ao touro, reduzindo
todo seu corpo ao que é seu cinto,
e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida
para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.
Agrestes - 1985
Cativo
Existem vários tipos de
cativo. Iludem-se aqueles que associam o cativo apenas àquele individuo emparedado
nas grades de uma prisão. Essa é uma boa imagem, entre tantas, que podemos usar
para ilustrar os muitos e variados modos de se estar privado de suas faculdades
mais essenciais; a liberdade. Digo essenciais pensando em meu espírito, que não
tolera a ideia de cárcere, de nenhuma espécie, seja ele político, religioso,
tributário, social. A outros o cárcere nem é tão importante assim, pois não
esboçam nenhuma resistência às amarras, paredões, e outras engenhosas formas de
submissão. Mesmo o indivíduo que vive em um estado que lhe permite o gozo de
suas liberdades, mesmo esse, pode ilusoriamente imaginar pertencer realmente a
uma sociedade de livres, quando na verdade as evidências de sua vida o
desmentem. Há muitas arapucas dispersas
por aí prontas para abocanharem os últimos insubmissos na selva das cidades.
Não se tolera, mesmo que se diga o contrário, a hipótese de alguém viver livre
de qualquer grilhão. De certo modo, temesse esses indivíduos ou invejam-lhes a
coragem, não sei, mas acho que a segunda hipótese tem uma dose maio de verdade.
O SUPLÍCIO DE TÂNTALO
O que será melhor?
Estar cheio de sede no meio do deserto, ou estar com um copo de água encostado
aos lábios mas sem poder bebê-la? Ter sede é ter sede, seja em que
circunstância for. Mas a penitência será maior se soubermos que temos a
possibilidade de beber a água que não iremos beber.
Daí ser preferível o
estado de inconsciência perante um bem que nos falta, do que viver com a
consciência da sua inacessível existência. A chatice está no raio do
conjuntivo. Uma vida inteligente sem o modo conjuntivo seria menos inteligente
mas muito mais fácil de ser vivida. E tanto me refiro ao presente do conjuntivo
como ao pretérito imperfeito do conjuntivo ou ao futuro do conjuntivo.
O modo indicativo
dá-nos a realidade mas o conjuntivo dá-nos a merda da possibilidade. E se é
verdade que é por via da possibilidade que nos elevamos a um nível de
existência superior, também é por via da possibilidade que nos enterramos no
pântano do sofrimento. Tivéssemos apenas o modo indicativo, passado, presente
ou futuro e esse mesmo passado, presente ou futuro seriam simples, rasos, tão
implacáveis como um nascer ou pôr do Sol. Diríamos "Eu fiz, faço,
farei", "Eu fui, vou, irei", "Eu aceitei, aceito,
aceitarei" com a mesma inconsciência mecânica com que a ninfa Eco repete
os últimos sons de Narciso ou com a mesma determinação com que um animal cumpre
as suas obrigações.
Mas depois vem o
conjuntivo e estraga tudo. Olha-se para o passado e pensa-se no que poderia
teria sido, olha-se para o futuro e pensa-se no que poderá vir a ser. E, a partir
daí, tudo se torna labiríntico, tortuoso, infinitamente complexo.
Eu gosto do mito
adâmico e não me desagrada a ideia de ser filho de Adão. Mas foi com Tântalo
que começámos verdadeiramente a ser humanos.
Democracia
fotografia da iemenita Bouchra Almutawakel
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Não acho a democracia o melhor dos modelos político. Não é o povo que realmente governa e decide. Grandes corporações e conglomerados empresariais manipulam aqui e alhures a marcha dos acontecimentos. Fazendo valer muito mais as suas vontades do que as necessidades do povo, eles desmentem, sem nenhum decoro, todos os dias, os fundamentos que sustem a ideia de que o regime existe para atender as demandas da maioria. Não precisa ter feito o Mobral para constatar que quem manda no mundo é o deus dinheiro. Os governantes de fato estão bem longe dos gabinetes políticos. Eles transitam por outra esfera social. A democracia é apenas uma festa popular engendrada nas massas para legitimar a farsa que é o governo do povo. Porém, diante da baixa qualidade dos regimes em oferta, não nos resta alternativa a não ser aguentar esse; pelo menos até que irrompa contra seu próprio peso os diques de contenção do inconformismo e faça surgir outro modelo, mais justo, menos fajuto. As notórias imperfeições da democracia, no entanto, são bem melhores, ou toleráveis do que as excrescências dos regimes totalitários, imperiais ou teocráticos que se alastram pelo mundo.
O capitalismo não poupa ninguém
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A ingenuidade de não haver sido revelado às coisas
Esforçamo-nos a vida toda por sermos bons,
justos e honestos. Mas vêm as circunstâncias e nos arranca todas as nossas
melhores determinações. Azar, acaso ou injustiça social, chamemos do que quisermos,
o certo é que estamos à mercê de forças que, às vezes, não podemos, mesmo
querendo, controlar. Alguns de vocês devem estar agora mesmo recriminando-me
por julgar essas qualidades circunstanciais. Por certo vocês, se assim me avaliam,
as têm como inatas ou indivisíveis de alguns homens, mesmo em situações
opressivas. Pensam que os índios, as crianças, os religiosos, os santos e
outras qualidades de homem, espelham aqueles dotes que vocês tanto almejam crer
indissociável da alma humana. Creem-na, como uma marca divina, a única talvez,
que os permitam aliar o homem a um deus todo poderoso criador do céu e da
terra, bem como desse ser que insiste, em todas as suas fraquezas e vilanias,
em contradizer as qualidades supremas do criador que os moldou. Se sentem assim
a bondade, a justiça e honestidade tanto melhor para vocês. Não têm que lidar
com questionamentos morais, sociais que desmentem, ao menos naqueles que não
creem nos seus pontos de vista, na ideia de que o homem seja uma fonte
inesgotável de bondade a toda prova. Teorias religiosas que nos persuadam das
qualidades que de certo não temos dão-nos o conforto de não pensarmos além
delas. Se seguros estamos de nossas convicções e cremos nelas, mesmo que isso
não nos dê prazer, ao menos nos evita grandes preocupações, e afasta-nos a
presença da dor de pensarmos em coisas que não deveríamos pensar. Tudo,
portanto, resumi-se a entrega de nossas inquietações às respostas mais fácies.
Impostura literária
Um amigo recomenda-me a
leitura dos poemas de certo Georg Trakl. “Leia
os poema, mas evite seguir seu comportamento”. Não que eu acredite que os
poetas estejam acima do bem e do mal, ou que suas vidas sejam exemplos para
grandes coisas, mas todas às vezes que a recomendação de um autor vem seguida
de um lembrete para se distanciar de sua vida, sinto que irei gostar muito
desse artista.
Não conheço esse poeta
e não sei o que ele fez de tão cabeludo para merecer a recomendação de não ser
seguido. Porém, me encantam, os autores malditos. Para mim há mais verdades
naqueles que molestaram as certezas estabelecidas - e sinto que essas sejam as
razões de tantas recomendações - do que naqueles que insistem na fossilização
da vida.
Os poetas e artistas em
geral tornaram-se suspeitos, por não aceitarem passivos os arreios tirânicos impostos
a todos àqueles que sentem de forma insuspeita a sua vida. Miller, De Quincey, Plinio
Marcos, Genet, Bukovsky, Baudelaire, Rimbaud, Sade, Maquiavel, Hilst, Pavese,
Passolini, e outros tantos, estão no rol desses infratores da moralidade vigente.
Feito kamikazes eles se
atiraram contra as instituições fajutas implodindo seus valores de fachada. Só
por pressentirem a vida, da forma que ela lhes apresentava, insuficiente;
insubmissa e intolerável, eles foram tachados de rebeldes, desordeiros,
malucos, bandidos e outros adjetivos e qualificativos assepticamente moldados
para distanciar o público do contágio de suas pragas.
Para mim, tantas
reservas, tentam invisibilisar alguém que por sua postura inconveniente
tornou-se pernosa non grata ao status quo, e por imerecida
justificativa foram lançadas à margem da sociedade. A melhor maneira de
desmoralizar alguém é sempre distorcer a sua imagem. Dar-lhe os predicados que justifiquem
a distância das maleitas que carregam aqueles malfeitores, bandidos, escroques
e degenerados. Os julgamentos morais quase sempre são feitos com base nas
aparências. Infringir os limites estabelecidos pela sociedade pode render àqueles
subversivos, transtornos para o resto da vida.
Tempos de escândalos são muitos
.
De tempos em tempos
somos sacudidos por escândalos, que os menos desavisados encontram parentesco
com outros tantos casos semelhantes, que por momentos avexam a consciência
nacional. A malta inteira se agita como um bando de bisões assaltados pelo
predador, estourando o rebanho. Mas, logo em seguida, todos voltam a pastar
pacientes e sossegados. Vivemos assim, contamos os dias, as horas e os meses
mediante as vergonhosas ações de nossos homens públicos. Antes, durante e
depois da redemocratização não contamos um único ano em que pudemos nos
orgulhar da decência de qualquer um dos nossos líderes. As décadas estão todas
cheias de delinquência. Incorrigíveis, insistimos nos erros do passado como se
o tempo não trouxesse nenhuma lição, como se a história não existisse, como se
a vida fosse um pasto em que as gramíneas suculentas são mais emergentes do que
a vigília aos predadores.
É preciso mudar tudo para que nada mude.
Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades,
Muda-se o ser,
muda-se a confiança;
Todo o mundo é
composto de mudança,
Tomando sempre
novas qualidades.
(...)
Os versos do poema de
Camões se aplicam a quase tudo nessa vida, menos a uma esfera da nossa
sociedade, que parece imune a todo tipo de mudanças: a política. Os líderes
desse país encontraram uma maneira, muito eficaz, de emperrar as engrenagens da
mudança e empenham todas as suas ações na manutenção de suas qualidades
duvidosas.
Caçadas que não é de Pedrinho
.
Com a devida vênia reproduzo o instigante texto recolhido aqui. Lane Donato é aluna do curso de Letras da UNEB, Campus VI Caetité.
Barthes
nos diz que a língua é fascista. Estamos
presos às amarras lingüísticas e a todas as ideologias que por elas circulam,
já que a língua é por excelência, o veículo das ideologias. Não somos livres!
Mas o próprio Barthes nos ensina o caminho da liberdade: ‘trapacear’ com a
língua - artifício que só conseguimos através da Literatura.
Ao
falar de nós e pra nós, nos fazendo passear por caminhos devolutos,
experiências e dramas tão comuns à essência humana, a literatura aproxima o
abismo existente entre a vida e o homem. Vida essa que ‘não nos basta’, mas que
a literatura preenche, na medida em que saltamos para dentro da história usando
o ‘pó de pirlimpimpim’ e nos apropriamos das personagens, de seus medos,
anseios, esperanças, alegrias.
Tenho
sorte na vida... A minha infância foi uma floresta encantada e infinita. Por
ela passaram lobos-maus, caçadores, sacis, iaras, príncipes, princesas! Sofri e
senti medo da bruxa com o João e a Maria.
Aprendi com a Branca de Neve e os Sete Anões que com verdadeiros amigos
é possível vencer as piores maldições- E
mais tarde , aprendi com O
Pequeno Príncipe o valor de cada respiração , de cada amigo. Chorei
agradecida. Viajei com Gulliver... As
histórias de Verne cultivaram em mim o gosto da liberdade. Descobri também que
quando se quer voar, é preciso se arriscar a ficar tonta. E mesmo assim o vôo
sempre valerá à pena. Já o amor ao vôo e aos passarinhos quem me ensinou foi o
Manoel de Barros. Foi o Manoel que
também despertou a criança adormecida em mim. Manoel transformou-se no meu
passaporte pra infância. Cresci e estudei com o Harry Potter em Hogwarts. Vi de
perto as batalhas de Carlos Magno e seus pares de França. Conheci Lampião e seu
bando nas trilhas do Cordel. E em cada linha, reconheci a voz de minha avó,
seus causos e exemplos.
Infelizmente
nenhuma Sherazade me acalentou o sono com suas histórias fantásticas antes de
dormir... Em compensação, tive um gênio e um tapete mágico de companhia por
todo o caminho. Quando o Ali Babá disse o ‘abre-te sésamo’, eu estava lá.
Pedrinho
me mostrou a força que há na coragem. Emília que a gramática pode ser divertida
e também ensinou a não me contentar com o dado e o pronto. E o Visconde, ah! O
Visconde ensinou-me a amar a sabedoria.
Ao
lado da Florbela Espanca vivi os amar-gos de minha adolescência... Foi nessa
mesma época que aprendi a conversar com Machado de Assis, Bentinho, Capitu,
Brás Cubas... Fui à cartomante e
descobri com o Alienista, que de médico e louco, todo mundo tem um pouco. Foi
também na adolescência que comecei a odiar o José de Alencar.
Com
Hamlet sofri as tensões, a crueldade da dúvida, a ânsia da vingança... Foi
Hamlet que me contou que a melhor saída é tomar boas doses de coragem e lutar
contra o mar de angústias que tantas vezes nos aflige em vez de abaixar a
cabeça e sofrer as ferozes flechadas do destino. Numa de nossas conversas, percebi que não
devo me assustar com o mundo... pois ele é por vezes sem graça, sem alma... inútil!
Lamentei
a morte e o amor de Romeu e Julieta... No entanto, suspirei com uma das mais
lindas declarações do universo..tanto que guardo até hoje alguns versos na
memória e no coração..‘Ah, então, minha santa criatura, permita que os lábios
façam o que as mãos fazem; tens de concordar comigo, em que elas se unem em
prece, para que a fé não se transforme em desespero’ [p.43].
Com
Otelo descobri como o ciúme corrói o mais nobre dos sentimentos... E a Bíblia
acresceu-me a fé na vida, na nobreza do amor, em Deus e em mim. Ah! Tantas
histórias assaltam-me a memória enquanto escrevo estas linhas!
Tantos
romances conseguiram chegar com profundidade em minha alma e mostrar-me, a face
hedionda e sórdida do ser humano, as sinuosidades da vida - E a vida, vivida
pelas páginas de um bom livro, apesar de todo o mau-agouro, desgosto, ainda nos
diz, baixinho ao pé do ouvido: ‘— Sonhe-me, vale a pena. Sonhe-me, que vai
gostar. ’
Muitos
outros personagens ainda convivem comigo. Ficam guardadinhos na caixinha mágica
da memória, sempre dispostos a aconselhar-me e a ajudar-me quando me falta a
palavra ou a coragem do gesto para expressar o que sinto.
Eles
entraram por uma porta que nunca mais se fechará: a porta do Sítio do Pica-pau
Amarelo. Desde o primeiro dia que abri
um livro do Monteiro Lobato, nunca mais saí dele. Mal sabia o Lobato que ao abrir-me as portas
do sítio, abria-me as portas do universo.
Cresci
com Narizinho e Pedrinho. Morei no
sítio, passei pelo reino das águas-claras.
O sítio ainda hoje respira compassivo nas minhas memórias de
infância. Em nenhuma dessas memórias há
lembranças racistas, preconceituosas. Pelo contrário, há apenas a nostalgia do
gosto pela aventura, pelas histórias, pela palavra.
Hoje
leio mais uma vez a notícia de censura contra a obra de Monteiro Lobato e
inevitavelmente pergunto-me: É Lobato o preconceituoso ou é a nossa sociedade
hipócrita, que joga o problema para debaixo do tapete e finge que não existe
racismo nesse país? Ele escreveu
apenas um discurso racista ou há outras dimensões em sua obra? Como limitar a
leitura de uma obra literária? Como
subestimar a imaginação de uma criança? Quem é capaz de adentrar no imaginário
de uma criança?
É
lamentável ver a violência contra a liberdade, a estupidez em tentar engessar o
discurso literário e a tentativa de escamotear um problema de ordem histórica,
política e social. Sim, o racismo sustenta as bases históricas de nossa
sociedade e é o crime mais perfeito que cometemos. Não é censurando e promovendo uma ‘ caça as
bruxas’ às obras do Monteiro Lobato que resolveremos a situação.
Ademais,
duvido muito que uma criança teça um olhar tão limitado a uma obra literária.
Porque estúpidos são os adultos, não elas.
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Quando a política se torna um palco para o rancor e a agressão pública, ainda resta muito para uma democracia plena
A propósito do que leio aqui escrevo esse texto.
Quisera eu partilhar do
mesmo entusiasmo que você caríssimo amigo. A vitória do Padre Deoclides em
Serra do Ramalho bem poderia mesmo significar um ponto final às aflições que vicejam
naquela terra. Quisera eu ter testemunhado um momento histórico. À vista dos
fatos, no entanto, assistidos nos últimos dias em Serra, atiraram contra minhas
ilusões a última pá de cal a alguma ambição de mudança de rota nas ações
políticas daquele lugar para os próximos anos. Você sugere a ideia de aliança construída
pelo diálogo, que levou a adesão da situação a um projeto encabeçado pelo Padre.
Realmente é dificílimo acreditar nisso sem humilhar a razão. A única adesão aparente - falo aparente, porque
com a vida aprendi entre outras coisas o cortejo à cautela - foi a do Padre a
um projeto político que em nada, absolutamente nada, pelo menos por enquanto, difere
da cantilena daqueles notórios malversadores do patrimônio público, que de
tanto tempo no poder, nem se lembram de ter feito outra coisa na vida. Digo e repito talvez eu esteja exagerando.
Talvez minhas palavras estejam sendo duras demais, rápidas demais, desiludidas
demais. Talvez as coisas realmente possam ser superadas, contornadas e reerguidas
com toda vivacidade, como você, eu e muitos outros desejam. Talvez o Padre não
se dobre ao peso dos muitos, “experto ao contrário”, que o lembrarão de quem o
levou ao posto de governo, e conduza com mão firme as mudanças tão necessárias e
urgentes àquela terra. Talvez!. Meu caro amigo eu poria, juro... eu poria
minhas austeras descrenças de lado com um gesto de mudança daquele em quem você
já depositou tanta confiança. Mas, como acreditar nisso se o que vemos, são as
mesmas atitudes daqueles que traíram a confiança do povo por tanto tempo. O
padre bem pode está coberto de boas intenções. Suas atitudes podem mesmo, a despeito de tudo o que vivenciei em Serra nas últimas horas, ser progressista,
como você afirma. Talvez eu esteja atrelando apressadamente a imagem do padre àqueles que o seguem, sem lhe dar o beneficio da dúvida. Porém até esta data ele não me mostrou à que veio. É cedo.
Você me chamará de louco por tentar julgar as atitudes futuras de um homem
pelas ações de poucos instantes. Mas creia-me desconfiado e nada mais. Com pouco
mais de um terço da aprovação pública o Padre Deoclides foi rejeitado por mais
de dez mil dos poucos mais de 15 mil eleitores serramalhenses. E qual a sua
atitude diante disso? Mesmo em minoria, ele não teve a sensibilidade, a
hombridade, mesmo possuindo um passado recente de pastor de rebanhos, de serenar
os ânimos e aplacar o frenesi daqueles que atentam contra a democracia ao
infligirem aos seus discordantes - lembrando que esses constituem a ampla
maioria dos serramalhenses - músicas ofensivas não só a dignidade humana, mas
também a democracia e o bom senso, que manda respeitar a todos. Se o padre é
conivente com os atos dos seus correligionários, e se suas atitudes iniciais
apontam para o mesmo caminho dos seus predecessores, o que me faria crer que
ele pode fazer diferente. Não, meu amigo, não tenho motivo para acreditar que
eles enterrarão “de vez a atitude
beócia, maniqueísta de se escolher uma cor como símbolo de gestão”... nem
tenho esperança de que eles farão “da
adoção de todas as cores um símbolo da igualdade, da não predominância de uma
preferência sobre a outra, da diversidade e do respeito às diferenças,
pressupostos fundamentais da democracia.” A tão sonhada maturidade política
deve começar pelos líderes. Quando eles frustram os gestos necessários para um
novo começo, eles apontam para os rumos que darão ao seu governo. Não me sai da
cabeça a ideia de que essas atitudes ilustram as ações futuras.
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