Caetano Veloso- Elegia 1938 (Carlos Drummond de Andrade)

Desalinhado

Foto: Diane Arbus, 1970
.

O riso, segundo Bergson tem um papel social. Ele é aplicado em várias situações. Uma delas é contra inadequação de conduta de um indivíduo em relação ao comportamento dos outros. Para suavizar essas tensões é preciso maleabilidade do caráter e adesão à certa “elasticidade que nos dê condições de adaptar-nos ao mundo”.

“Toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo” nos diz Bergson “será então suspeita para a sociedade, por ser possível sinal de uma atividade adormecida e também uma atividade que se isola, e tende a afastar-se do centro comum em torno do qual a sociedade gravita, de uma excentricidade enfim. E, no entanto a sociedade não pode intervir nisso por meio de alguma repressão material, pois ela não está sendo materialmente afetada. Ela está em presença de algo que a preocupa, mas somente como sintoma – apenas uma ameaça, no máximo um gesto. Será portanto, com um simples gesto que ela responderá. O riso deve ser alguma coisa desse tipo, uma espécie de gesto social”. 

Ao cabo de ler esse excerto, do monumental trabalho sobre o Riso de Henri Bergson, sou tomado pela consciência de que, não possuo, seguindo um conceito bergsoniano, elasticidade necessária para integrar-me ao pacto social vigente. E estou, portanto, sentenciando às fileiras dos homens que sofrerão todo tipo de escárnio em represália a não adesão “ao centro comum em torno do qual a sociedade gravita”. 

É preferível o riso dos tolos, a aderência a esse mundo de estupidez. Uma virada nas páginas de jornais, uma mirada na televisão bastam para qualquer espírito sensível recusar alinhar-se o que quer que seja nesse mundo. Ante tantas provas de esterilidade do cotidiano, aderir sem resistência às frivolidades e baixezas de uma vida contingencial, só para não correr o risco de sofrer com o escárnio dos patuscos de sempre, é inaceitável.  Diante das reais vergonhas que se pode sofrer, ao aderir ao mundo, o riso alheio é preço muito pequeno a se pagar.

A Espanha cabralina

O ferrageiro de Carmona


João Cabral de Melo Neto

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor

Se flor parece a quem o diga.

La Giralda

.
Diga o que disserem os apologistas da modernidade, mas pra mim a verdadeira engenhosidade humana está na disposição em explorar seus limites e reinventar formas sempre novas de recriar o mundo sem abdicar do espírito artístico. Quando observamos esse lugar e o comparamos com os espigões que se dão ao olho em espetáculo da capacidade humana moderna, vemos que em nada ele fica a dever aos feitos do presente, ao contrário, sugerem, dadas as limitações da época e harmonia dos detalhes, uma inegável impressão de superioridade.
.

Alberto Korda - As Imagens de Cuba

Alberto Korda - La Nina de la Muneca de Palo. La Havana, Cuba, 1959.
.
Fidel Castro en el ojo de Alberto Korda
.
Mitin en la Habana. Alberto Korda
.
.
.
.
.
.

Há, entre todas as imagens aqui destacadas, uma que destoa das demais. É a última. O garoto com dedo em riste toma o lugar do líder que na imagem assume uma posição nova na ordem história de sua vida: ele ouve e não é mais ouvido. Sua autoridade está temporariamente suspensa, não se impõe mais. A inversão de papéis, sugerida pelo “instante decisivo”, captado com maestria por Alberto Korda, dar-nos outra inquietante ideia do líder, que inspirava as massas movendo apenas - ironia da foto - um único dedo. A paralisação do tempo, no instante em que a cena se dá, corrompe todas as ideias anteriormente construídas sob a figura do homem forte, do guerrilheiro, aqui fragilizado, pelo ato inesperado de uma criança. A julgar pela posição de Korda na Revolução Cubana, essa imagem revela-nos que, ante as intuições artísticas, todo ato ideológico trai a si mesmo. 

A construção de um ícone

´
.
Encontrei essa foto no Google. Ela não está creditada. Porém imagino que seja do cubano Alberto Korda. Ele foi o fotógrafo oficial da Revolução Cubana e autor da icônica Guerrillero Heroico, foto de Che Guevara, que ainda hoje estampa bandeiras em manifestações de revoltas por todo o mundo. Mesmo não tendo pegado em armas durante a Revolução, Korda ajudou a construir a imagem mítica de liderança de Fidel Castro e dos demais guerrilheiros que derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista. O registro de uma câmera sugere o famoso ensaio, Sobre a Fotografia, da americana Susan Sontag, produzem muitos efeitos. Ao tempo em que fornece um testemunho de que as coisas realmente aconteceram, ela também pode: incriminam, distorcer a realidade, idealizar, mitificar ou agir como um instrumento de desagravo. Apesar da presunção de veracidade que confere autoridade de que alguma coisa realmente aconteceu, uma imagem pode ser muito mais do que ela apresenta na superfície. Ao preferir uma cena à outra, ao enquadrar um instante ao em vez de outro, o fotografo induz a maneira de se ver uma realidade e solicita do espectador certa solidariedade àquilo que está sendo retratado. A emblemática imagem que ilustra esse post simboliza, inconscientemente, esse efeito do líder destemido, construída através das imagens produzida por Korda de um Fidel em atos heróicos e que inspira coragem e destemor. Ao mesmo tempo em que diverte as massas, como um comum, o Fidel de Korda, exterioriza sua liderança em gesto que induz a representação do poder em face às adversidades. Uma metáfora de sua condição irrevogável de rebatedor das adversidades cubana, frente aos ataques do inimigo. A presunção de desinteresse sugerida pela cena torna o trabalho fotográfico de Korda um ato de genialidade. Espelhando aqueles ritos sociais que tornam a fotografia um passatempo familiar despretensioso, Korda construiu uma imagem prosaica, mas de fundo inteiramente ideológico, sem parecer, no entanto, panfletário. A sedução dessa foto, seu poder sobre nós, reside no fato de que ela nos oferece uma dramatização, mas induz no subterrâneo do gesto e no enquadramento da cena, de modo sub-repticiamente, a pensarmos que a realidade, enfeixada por uma câmera, dependendo do ângulo de mirada do incauto, esconde intenções indizíveis.  


Desmaquilar a realidade

.

O mundo de hoje em que uma enxurrada de imagens solicita a nossa atenção o que vemos são os gestos repetidos, coreografados e milimetricamente estudados para transmitirem uma imagem que está longe de ser natural. Os gestos repetidos não nos deixam ver o que pode a realidade. As muitas imagens que correm na internet especialmente as das redes sociais atestam a nossa permanência na caverna de Platão, se regozijando com meras imagens da verdade. As fotografias de Garry Winogrand convocam-nos a observarmos o mundo fora dos esquemas previsíveis flertando com instantes desmaquilado. 

As ilusões perdidas

Foto: Lewis Hine


Não sou mais dado a ilusões e fantasias. Talvez por isso esteja confortável com a ideia de que o homem é uma causa perdida. Não há nisso qualquer pessimismo, fatalismo ou entreguismo como daqueles que pressentindo essas coisas adoece da alma. Prefiro antes pensar que seja apenas uma constatação - uma obviedade incontornável- que como tal faz parte da ordem contraditória da vida que não nos cabe questionar. A putativa natureza humana é coisa que não se extingue sem extinguir o homem. Não serei eu, portanto o responsável por azeitar as engrenagens que faz correr macia e sem sobressaltos as correias da existência. Haverá sempre modos de infringir a ordem, e não será esse, modo irresponsável, o verdadeiro motor da vida? Chega de metafísica. Basta-me agora andar por cá; fazer alguns amigos, estender a vista ao mais largo que puder, viver algumas aventuras, ler uns bons livros, semear uma família e o mais, prolongar essas horas antes que o ponteiro pare de bater. Se calhar, ainda bem sou capaz de voltar a ter ilusões, afinal todo produto da natureza é imperfeito.

Lewis Hine

Foto: Lewis Hine

The me, me, me generation

.
O tédio da existência, a melancolia de dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamurios insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada. As insistentes imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra forças desertoras da vida.

Triunfalismo mercadológico



.

Somente ontem à noite pude assistir na integra a entrevista do escritor Peruano Mario Vargas Llosa ao Roda Viva. Adoro a literatura do Llosa, tenho-a como uma de minhas favoritas. Para mim ele é um intelectual completo, daqueles que não fogem as discussões mais espinhosas de seu tempo e cuja disposição para questionamentos parece ser sempre incansável. No mundo de pouco ou nenhuma criticidade, sua presença no cenário social, agitando e insuflando debates garante a permanência de uma ambiente menos bucéfalo. Uma coisa, no entanto, me inquieta nele, a sua reverência ao Capitalismo e ao Neoliberalismo como modelos econômicos e sociais capazes de resgatar ao homem alguma dignidade. Essa postura panfletária soa ainda mais contrastante quando sabemos de sua disposição para combater o rebaixamento da arte contemporânea e sua espetacularização. Seu mais recente trabalho, La Civilizacion Del Espectaculo atestam essa militância contra a banalização das artes e o triunfalismo mercadológico. A ele não parece supor que uma e outra coisa sejam indissociáveis. Seguindo apenas a sua implacável rejeição à ordem socialista, Vargas Llosa parece ter esquecido que a civilização na qual as mercadorias assumiram o comando das coisas, dos preços, dos valores, aviltando todas as relações, também se apoderou das artes e a está rebaixando a níveis desfibrados. 

Peça fraca e sem emoção



São muitos os equívocos do monólogo Solo Almodóvar

por Téo Júnior
Salvador 


Pedro Almodóvar, um dos mais extraordinários diretores de cinema do mundo e o principal de seu país, Espanha, que se notabilizou nesses últimos trinta anos como sendo dono de um estilo personalíssimo e imediatamente reconhecível, que Adriana Calcanhotto citou na bela música Esquadros, mereceu a homenagem da atriz Simone Brault no espetáculo Solo Almodóvar, em cartaz no Teatro Martim Gonçalves (Canela) neste último fim de semana. O início da peça, para começo de conversa, é uma cópia ipsis litteris de uma cena de Tudo Sobre Minha Mãe, aquela em que Agrado (Antonia San Juan) entretém os espectadores com a “história de sua vida” porque as principais atrizes faltaram. Daí, nossa Dolores se entrega a discussões estéreis sobre as dificuldades que os travestis enfrentam, suas experiências com os homens – quase sempre frustradas –, e o tempo custa a passar.

Colabora para o descalabro da montagem, a protagonista dedicar todo o espetáculo pronunciando um portunhol sofrível, quando ela poderia perfeitamente optar pelo português. No palco, uma enorme sandália remete ao filme De Salto Alto; as músicas e certas cenas que Simone interpreta e alude estão, claro, na filmografia do diretor, com destaque para A Lei do Desejo, onde Antonio Banderas contracenou, no longínquo 1987, com o hoje obscuro Eusébio Poncela (há uma inesquecível cena de sexo). A interpretação de Simone para Lo Dudo (Duvido), do Trio Los Panchos, não é à toa. Os figurinos estavam caprichados.

Almodóvar, mestre no colorido exacerbado e que soube retratar como ninguém o universo feminino (Volver), os travestis e suas obsessões (Má Educação) e a sexualidade mostrada de forma bonita até (Carne Trêmula) merecia um roteiro original e satisfatório – o que, infelizmente, o autor Vinnicius Morais, em mais de uma hora de encenação, não pôde oferecer. Quem sabe na próxima vez.


Não há limites para quem tem coragem

Fitzcarraldo - filme de 1982 do realizador Werner Herzog
.
Alguns diretores são-nos mais queridos do que outros. As razões são que, uns nos dizem pouco, enquanto outros nos emudecem os sentidos ao transmitirem aquele "frisson nouveau", como bem expressou Victor Hugo ao ler pela primeira vez as Flores do Mal. Os filmes do alemão Werner Herzog estão para mim nessa segunda categoria. Longe de ser uma unanimidade do grande público os seus filmes distinguem-se dos blockbuster hollywoodianos pela capacidade incomum de narrarem histórias de homens em enfrentamento com o mundo selvagem e desafiador sem cederem aos perigos ou questionarem seus propósitos; um mundo maior do que suas forças podem vencer. Nessa luta, seus personagens nem sempre se dão bem. Nada mais ante-comercial do que histórias de “derrotados”. Porém, se enganam aqueles que pensam que os filmes Herzog fala sobre derrotistas e fracassados. Os resultados podem não serem o esperado. O que contam em seus filmes são as atitudes.  Num mundo de culta a celebridade o arrivista social é o modelo de homem ideal. As qualidades e os valores do homem moderno se medem pelo sucesso e as conquista. Os personagens de Herzog representam muito bem esses sentimentos de conquista, nos fazendo refletir acima de tudo sobre as suas conseqüências. Movidos pela ambição desmedida muitos entram num espiral febril de sonhos de vitória a qualquer custo. Pelo caminho encontram forças superiores, que os farão provar os limites de sua coragem ante os desafios impostos pela busca de realizações utópicas. A pretensa superioridade humana é posta à prova no embate contra as forças da natureza. Nessa luta os desfibrados e os desertores são os primeiros a caírem. Tombam contra o seu próprio peso e são arrastados pelas torrentes, vales, abismos e toda sorte de perigos os põem em marcha ré. No cinema Herzogiano a única celebração possível é àqueles destemidos aventureiros que se impõem desafios capazes de questionar os limites do homem. Com Herzog aprendemos que não há limites para quem tem coragem. 

Dia de, dia da, dia dos...

As efemérides, só nos faz lembrar que somos todos um rebanho. 

Antologia Falhada

Encontrei hoje numa livraria da USP uma antologia da poesia portuguesa contemporânea. Corri avidamente para o exemplar. Antes de desembolsar o valor cobrado pelo livro, tomei o cuidado de buscar no sumário os autores elencados para composição do panorama. Como não encontrei qualquer menção ao Henrique Fialho devolvi o livro a estante. Uma antologia que se preze sobre a poesia lusa, não pode ignorar a presença desse autor. Em qualquer recolha que se faça sobre a contemporaneidade poética o Henrique Fialho é presença indispensável, ou isso, ou a condenação do livro ao encarceramento das estantes.  

Sim reluz, mas não está a venda


Hoje,
entre tantos e tão sábios
saberes, nenhum foi capaz
de vencer, ou ao menos
constranger,
as vaidades e imorais
imposturas, dos que,
valem-se do dinheiro
para com ele tudo corromper.

Não há moral que,
de tão forte, não se dobre
ao poder do pequeno nobre.
Valores que não se vençam,
beleza que não se compre,
mesa que não cesse
e amores que não se julguem,
Pela cotação do ouro ou  do cobre.

Quando em lugar
das virtudes de caráter,
o homem entrona
as baixezas e vilanias,
mais hediondas de su´alma,
testifica sem pudor,
que embora finja,
nascido de um deus,
uma besta o pariu e te criou.



Esse poema nasceu de uma conversa com o Marco Haurélio, sobre o julgamento das pessoas sobre aqueles que se negam a se enquadrarem na dependência do dinheiro para viverem suas vidas. 


À Deriva


Dai-me, senhor!
Nenhum juízo,
Para não ter que
Ler aviso, nas
Estradas por onde
Andar.

Percorrer,
Sem temer perigo
Estradas, desertos, abismos
E quanto mais
Me aprouver
Alcançar.

De resto,
Deixai por conta
Do acaso e da lembrança
Os muitos pontos
que meus pés
irão desbravar.

Serei
Feliz e contente
apenas, com o pó
Que levo rente,
Ao chão
Do meu caminhar.

Refúgio ao fácil

Figurativismo Abstrato (2004)

Frequentemente acusa-se a arte, principalmente a contemporânea, de anódina.  Ninguém poderá culpar o expectador moderno de insensível por julgar tão desclassificado o que se estar sendo ofertado nas bienais, museus e salas de exposições mundo afora. Desde que a arte passou a ser tida, como uma atitude e não como uma expressão de conteúdo estético, uma onda decadente de pseudo-artistas aproveitou a suposta facilidade de criação, para fazer de suas más qualidades estética e falta de talento, objeto de seu ofício. Em visita recente à Pinacoteca de São Paulo, deparei-me com um quadro do multiperformático (deve ser isso que ele é) “artista” brasileiro Nelson Leiner, que se insere nesse contexto de casuísmo e decadentismo artísticos para se fazer respeitado. Intitulado Figurativismo Abstrato, a “obra” é composta da superposição de imagens de personagens animados cujo propósito, aparente, e sempre repetido, é o de transgredir, desmistificar e ridicularizar a importância da arte. Em contraste com a imponência e o garbo do espaço o melífluo artista impõe uma galhofa. Ora eu me pergunto, se se quer ainda por em causa o estatuto de nobreza da arte e torná-la um produto consumível e descartável, é preciso mesmo divorciar-se da criatividade e impor como padrão o exercício de expressão de mundo pessoal do artista como única alternativa à arte contemporânea?


Papéis trocados

Elliot Erwit

Pirilampo

.
Há, sem dúvida alguma, muitas vantagens, em ser amigo de Marco Haurélio. A melhor delas é que você nunca estará, por mais que julgue o contrário, inteiramente, formado, informado ou suficientemente satisfeito com as alternativas culturais à sua disposição. Sempre atento às novidades, sem deixar de render tributos às gerações pretéritas, a figura de Marco Haurélio reinaugura, às novas gerações, eternos mestres da Cultura mundial. E que alegria não é o sentimento de descoberta. Senti-me assim, cheio de alegria e vigor de iniciante ao ouvir, recomendado por ele, os poemas e canções de Atahualpa Yupanqui. Creio ser essa, a milésima personalidade cultural que o Marco me semeia. O que seria de mim sem esse pirilampo que tange sem esforço, as trevas que nos rodeiam? Grazie Mille Marco!

A limitação das cores, ou quanto posso ser estúpido.

.
O nacionalismo e sua vertente cariada, o bairrismo, é uma idelogia repulsiva. Por séculos suas ideias têm manchado a história de sangue ao despresar o diálogo como forma de relacionamento solidário. A limitada ação de interesses que ele congrega repele e ameaça a estabilidade do mundo. Para Gore Vidal o Nacionalismo é a última trincheira dos estúpidos.

Juventude desfibrada

O tédio da existência , a melancolia de dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamúrios insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada.... as insistentes imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra forças desertoras da vida. Coragem! Vocês podem mais...

A arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário




Transcrição da matéria do Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002 com o artista Antonio Veronese e suas opiniões sobre a arte contemporânea na Bienal de São Paulo:

Essa bienal é um engodo, diz Veronese Artista brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002 do Museu Whitney em Nova York, foi à 25° Bienal de SP a convite do JT e analisou o que vale e o que não vale o ingresso. André Nigri-Jornal da Tarde.
“Há mais emoção e história em uma aquarela de Egon Schiele (1880-1918) do que em todo o pavilhão da Bienal paulistana". A frase de Antonio Veronese pode dar a entender que seu autor, um artista brasileiro que transita entre os Estados Unidos e a Europa, é um outsider ressentido com os colegas que expõem na maior mostra de arte contemporânea da América Latina. No entanto Veronese tem quadros seus pendurados nas Nações Unidas (Painel Save the Children) , na FAO em Roma ( Painel Famine), no UNICEF ( JUST KIDS), no Congresso Nacional ( Painel Tensão no Campo), na Universidade de Genebra, etc… Alem disso, Veronese expõe e vende nos Estados Unidos e na Europa, e é um velho militante de causas sociais no Rio de Janeiro- cidade onde fica quando visita o Brasil.
Ao comparar a obra de Egon Schiele às instalações e performances dos 190 artistas de 70 países abrigados na 25°Bienal de São Paulo, aberta até junho, Veronese coloca em discussão o que se faz e o que se classifica de arte hoje e para que ela serve. “Quase tudo que está aí não vale quase nada... É uma infantilidade preencher esse espaço com obras que são um engodo” disse Veronese na manhã de ontem, depois de visitar o Pavilhão do Ibirapuera a convite do Jornal da Tarde.
Ao contrário do que aconteceu no mês passado no Whitney Museu de Nova York, não foi preciso chamar a polícia para esfriar os ânimos de Veronese desta vez, mas sua reação foi contundente da mesma forma. “A maioria do que vi no Whitney e que vejo aqui é resultado de uma idéia imediatista e simplória. Esses artistas são filhos espúrios de Duchamp” disse.
Consciente de que está comprando uma briga feia, Veronese não poupa nem os curadores de suas críticas: “São eles os maiores responsáveis por esse lixo. Não há mais curadoria decente na Bienal. E digo isso sabendo que muita gente gostaria de dizer o mesmo, mas não o faz”.
Ao ser confrontado com algumas das obras da Bienal paulistana, Veronese foi categórico. Chamou a instalação de José Damasceno de leviana, e ao aproximar-se da obra do gaúcho Daniel Acosta, intitulada “Estação Avançada com Paisagem Portátil” comentou: “Se nós mudarmos o nome disso não faz a menor diferença.. Em relação ao trabalho do carioca Chelpa Ferro , um automóvel que foi destruído em uma performance na abertura de Bienal, disse, “Acho um absurdo que uma bobagem dessas ocupe espaço precioso numa bienal. Deveria estar num ferro velho”.
Qual seria a saída? Para Veronese, as instalações vão se esgotar por si mesmas. "Não se pode confundir decadência com vanguarda. Acreditar que tudo já foi feito e que temos que montar essas bobagens é encenar a nossa própria decadência, diz o autor de Famine e Tensão no Campo.
Entrevista de Antonio Veronese depois das críticas às bienais Whitney e São Paulo.
Pergunta: Você, quando critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso não é antidemocrático?
Antonio Veronese: Eu não nego a ninguém o direito à exibição. Só acho que essas instalações deveriam estar num parque-de-diversão e não em museus. São objetos para o divertimento e a interação, da mesma forma que um boliche ou stand de tiro-ao-alvo. Mas isso, absolutamente, nao é Arte!, ainda que pareça revolucionario afirmar o contrário.
Pergunta: O que gerou o teu protesto no Whitney?
Veronese: Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado pagando 10 dollares para ter acesso a um amontoado de “facilidades”. Os “autores” disso são conscientes do farsismo e riem de nós. O que fazem é terrorismo estético, uma tentativa de apagar todo o conhecimento acumulado. Eles sabem que o que fazem não têm nenhum valor, mas contam com a elasticidade moral de curadores simplórios e com a ignorância endêmica da crítica.
Pergunta: Você chama a esses artistas de filhos-espúrios-de-Duchamp. Por quê?
Veronese: Arte é produto de duas experiências: uma histórica e outra pessoal. O artista precisa conhecer a Arte que o antecedeu, senão vai ter que inventar a roda a cada vez. Mas precisa também da segunda experiência, a pessoal, fruto do seu trabalho contínuo, do lento avançar naquilo a que dedica. Cézanne, aos 64 anos, já havia parido o modernismo mas reclamava que ainda não havia conseguido ir até o fim na sua busca. O caminho é longo e exige paciência e dedicação.
Esse pessoal das instalações não é burro não, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos que serviram em outras situações mas que, no caso deles, não passa de malandragem. O urinol virado por Duchanp é consequência de uma busca pessoal, num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser manipulado indefinitivamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp. Propõem mediocridade profanatoria embalada de vanguarda!
Pergunta: Que diferença existe entre essa tua crítica e a que sofreram os impressionistas no século XIX?
Veronese: A Arte é oficio do Homem, interferência do Homem; ela não é espontânea na natureza! É produto da interferência humana, e não pode ser supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade do milagre e, para Malraux, os artistas não são copistas de Deus mas seus rivais! A "arte" conceitual pretende socializar o direito de produzir arte, antes restrito, como é natural, aos artistas! Por isso o que produz é facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou das maçãs de Cezanne. Comparar minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o modernismo é um exagero. Uma outra vez eu "incorporei” minha bota de couro a uma instalação do Tunga no Whitney do Soho em Nova York. Só fui recuperá-la no dia seguinte. E ela estava ainda lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém se dera conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação conceitual de Tunga. Isso seria impossível com uma tela de Bacon, uma escultura de Maillol, ou mesmo com o Circo de Calder.
A crítica foi, muitas vezes na História, preconceituosa e totalitária. Mas questionar meu direito de exercê-la agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais humanidade e humanismo em uma simples aquarela de Egon Shiele do que em toda a Bienal de São Paulo reunida.
A Arte precisa do espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário.

Desculpas para não ofertar às massas um conteúdo decente



“O problema não está no vulgo, que

pede disparates, mas naqueles que não   

sabem representar outra coisa”.


Cervantes no livro Dom Quixote

Academia de ilusões e a estupidificação coletiva

.

Um fato que sempre me espantou na academia, é que ela há muito tempo, deixou de influenciar a sociedade para assumir passivamente e de forma muitas vezes serviu às vulgaridades da vida moderna. Não é muito difícil encontrar professores que insistem, talvez pela obtusidade crônica em que vivem, em dizerem que os fast-food televisivos não são danosos à aprendizagem e que eles não comprometem a qualidade de pensar e agir dos alunos. Esse pensamento, baseado no princípio do multiculturalismo, acabou por lançar na vala comum todos os critérios que balizavam a qualidade do ofício artístico. Em contraposição, ao exercício salutar do diálogo com os objetos oferecidos como artísticos, equivocadas formas de qualificação passaram a dominar o pensamento acadêmico. O neurocientista argentino, naturalizado brasileiro, Iván Izquierdo discorda da ingenuidade televisiva. Para ele, “ao apresentar informações prontas e digeríveis” a tevê reverte o processo de aprendizagem e compromete a memória. Ao eliminar a possibilidade de ordenação e criação através da interação com os objetos a tevê, que já oferece tudo pronto, desestimula inclusive a capacidade de memorização, comprometendo assim de forma maquiavélica gerações e mais gerações de jovens. Ao se tornar dependente de estruturas prontas e reconhecidas o nosso cérebro não cria mais os impulsos necessários para expansão das capacidades de armazenamento de novas informações. Temos aí uma porta aberta para demência, algo que qualifica muitos de nossos acadêmicos na atualidade. Num processo inverso, ao desse desserviço que nos presta a tevê, segundo o neurocientista, está a leitura. Para Izquierto a leitura é o melhor exercício para memória e expansão do conhecimento. Essa constatação, diante de um país que não ler, e de professores que não estimulam os alunos à leitura nos põe a pensar que a suinucultura alastrada pela tevê, rádio e outros veículos “culturais”, associado ao descaso acadêmico vitimarão indiscriminadamente todas as potencialidades humanas do nosso país por um longo período.  

A importância da mídia livre e (bem) longe dos poderosos

.

George Orwell, que escreveu 1984, o livro do Big Brother, e Revolução dos Bichos, disse que “jornalismo é tudo aquilo que não querem que você publique. Todo o resto é propaganda”. 

Amparado nessa perspectiva exemplar do escritor indiano, vejo com extrema preocupação este 4° poder, sem dúvida mais importante do que todos os três anteriores, estar irmanado, cada vez mais, com os grupos políticos da situação. 

Na Bahia, vejo esse tipo de relação e suponho que ela não seja benéfica e nem saudável para a democracia. Porque dessa amizade entre jornalistas e prefeitos, existe um fator maior do que a verdade, que coroa essa relação: dinheiro. 

Nenhuma mídia, jornal, revista, estação de TV funciona sem dinheiro. Então, a solução encontrada é passar a cuia na mão de quem pode pagar pela informação: nossos digníssimos políticos. 

Não espanta que as mídias, hoje em dia, sobretudo as virtuais, não escondam mais de ninguém a quem estão apoiando, fazendo com que seu corpo editorial e suas matérias sejam, portanto, parciais e sem nenhuma relevância social. Elas já não disfarçam mais – e seguem atuando como legítimas porta-vozes não do povo, mas das administrações que defendem e de quem cobram a fatura. Na época da campanha política, fazem dos veículos verdadeiros palanques. Uma vez eleitos, como compensação, fazem uma inequívoca publicidade dos prefeitos e políticos que lhes pagam, divulgando amplamente suas obras, mas tomando o extremo cuidado de omitir algo que desabone os “patrões”. Está errado. 

Só o fato de (grandes) conglomerados e (grandes) jornais serem controlados por grupos políticos, já me espanta. 

Nunca me esqueço do livro Odorico na Cabeça, do imortal Dias Gomes, autor de O Bem-Amado. Sentindo-se agredido em sua honra pelos ataques de um jornal de Sucupira, Odorico – esperto – também criou sua própria imprensa para divulgar seus projetos estapafúrdios. Trata-se da Folha de Sucupira. Essa, ele julgava imparcial. Quanto à mídia que teve a coragem de expor suas loucuras, ele a classificava de “marronzista”. 

Quando a imprensa faz as pazes com o poder, alguma coisa está errada. 

No interior da Bahia, sei que aonde vão os prefeitos, lá estão os “jornalistas” atrás, no encalço. Jornalista que se preza não pode estar para cima e para baixo com prefeito. Se quiser servir à sociedade e honrar a profissão, deve investigar, apurar, colher as informações verdadeiras e publicá-las, sejam boas ou ruins, doam a quem doer. 

A imprensa tem a obrigação de fiscalizar o poder, e não de se aliar a ele.

Carnaval das convenções

.Marc Hom


A origem mais remota do carnaval esta na Grécia Antiga durante as celebrações em agradecimento à colheita da uva. Os antigos Gregos agradeciam com festas e muita bebedeira ao deus Baco pela safra do ano. Durante essas homenagens, que duravam 5 dias eram frequentes a embriaguez coletiva. No frenesi das comemorações explosões anárquicas e passionais eclodiam do meio da multidão. Em êxtase a comunidade rebelava-se contra as pressões hierárquicas, sexuais, religiosas e sociais que soterravam os anseios mais recônditos da psique humana. Por um curto espaço de tempo podia-se viver livremente as fantasias e desejos até então represada pela moralidade vigente. Suspensa temporariamente as rígidas formas sociais, homens e mulheres, escudados pela máscara das representações, fingiam serem o que bem desejavam. Imitavam animais, fingiam-se deuses, rainhas, reis, seres fantásticos e toda ordem de maravilhoso emanava das mentes desobrigadas de servirem a razão instituída. Não preciso dizer que essas festas logo foram perseguidas e os rituais caracterizados como desvios morais e proibidos. Não se podia admitir que reis, deuses e autoridades tão elevadas fossem frontalmente ridicularizados como eram nesses festejos. Podia-se correr o risco de que as pessoas, ao imitarem sarcasticamente essas autoridades, matasse o temor que as mantinha servis às suas autoridades. Dessas representações surgiu o TEATRO em sua forma mais rudimentar. Desde os tempos mais remotos ele teve uma função social transformadora; penetrar o impenetrável, questionar o inquestionável e sugerir outras formas de pensar a realidade, para além daquelas existentes. Porém, como ocorreu no passado e se repete agora no presente, o que surgiu como uma forma espontânea de subversão a ordem instituída e questionadora das estruturas sociais, foram descaracterizada de sua força anárquica e subjugada aos interesses mercadológicos. Diz-se então que foi encabrestada para assegurar a continuidade do pensamento racional. Não se vê mais no carnaval a explosão incontrolada de “desrespeito às formas e medidas” apontando para outras formas de consciência. Em A Origem da Tragédia, o original pensador alemão Nietzsche questiona a cultura socrático-platônica, de cariz racionalista para valorizar a rebeldia dos espíritos livres, originaria dos carnavais.  O que ocorre há já bastante tempo é que a Indústria Cultural tomou de assalto essa festa popular e a transformou em uma diversão despretensiosa e controlada, onde um bando de acéfalos, cheios de vulgaridade, descarregam suas frustrações e esperam viver, mesmo que por poucos instantes, as alegrias controladas por um script traçado.  

Lêdo Ivo


A morte, essa catástrofe pessoal.

A Espanha Cabralina


A Espanha exerceu fascínio em inúmeros artistas. Quem conviveu com a arte, a dança, a música ou mesmo com a arquitetura espanhola de inspiração moura, jamais saiu ileso de sua presença. Em 8 anos de Sevilha, o poeta João Cabral colecionou poemas que transparecem seu encanto pela cidade e pelo país ibérico. Alguns dos seus melhores poemas, ao menos para mim, falam das paisagens sevilhanas, com sua arquitetura monumental, dança e principalmente seus toureiros que metaforizaram a poética cabralina e ilustraram as lições ascéticas desse poeta incontornável. Vejam só esse belo exemplo:

LEMBRANDO MANOLETE

Tourear, ou viver como expor-se;
expor a vida à louca foice

que se faz roçar pela faixa
estreita da vida, ofertada

ou touro; essa estreita cintura
que é onde o matador a sua

expõe ao touro, reduzindo
todo seu corpo ao que é seu cinto,

e nesse cinto toda a vida
que expõe ao touro, oferecida

para que a rompa; com o frio
ar de quem não está sobre um fio.

Agrestes - 1985

Cativo


Existem vários tipos de cativo. Iludem-se aqueles que associam o cativo apenas àquele individuo emparedado nas grades de uma prisão. Essa é uma boa imagem, entre tantas, que podemos usar para ilustrar os muitos e variados modos de se estar privado de suas faculdades mais essenciais; a liberdade. Digo essenciais pensando em meu espírito, que não tolera a ideia de cárcere, de nenhuma espécie, seja ele político, religioso, tributário, social. A outros o cárcere nem é tão importante assim, pois não esboçam nenhuma resistência às amarras, paredões, e outras engenhosas formas de submissão. Mesmo o indivíduo que vive em um estado que lhe permite o gozo de suas liberdades, mesmo esse, pode ilusoriamente imaginar pertencer realmente a uma sociedade de livres, quando na verdade as evidências de sua vida o desmentem.  Há muitas arapucas dispersas por aí prontas para abocanharem os últimos insubmissos na selva das cidades. Não se tolera, mesmo que se diga o contrário, a hipótese de alguém viver livre de qualquer grilhão. De certo modo, temesse esses indivíduos ou invejam-lhes a coragem, não sei, mas acho que a segunda hipótese tem uma dose maio de verdade.  

O SUPLÍCIO DE TÂNTALO


O que será melhor? Estar cheio de sede no meio do deserto, ou estar com um copo de água encostado aos lábios mas sem poder bebê-la? Ter sede é ter sede, seja em que circunstância for. Mas a penitência será maior se soubermos que temos a possibilidade de beber a água que não iremos beber. 

Daí ser preferível o estado de inconsciência perante um bem que nos falta, do que viver com a consciência da sua inacessível existência. A chatice está no raio do conjuntivo. Uma vida inteligente sem o modo conjuntivo seria menos inteligente mas muito mais fácil de ser vivida. E tanto me refiro ao presente do conjuntivo como ao pretérito imperfeito do conjuntivo ou ao futuro do conjuntivo. 

O modo indicativo dá-nos a realidade mas o conjuntivo dá-nos a merda da possibilidade. E se é verdade que é por via da possibilidade que nos elevamos a um nível de existência superior, também é por via da possibilidade que nos enterramos no pântano do sofrimento. Tivéssemos apenas o modo indicativo, passado, presente ou futuro e esse mesmo passado, presente ou futuro seriam simples, rasos, tão implacáveis como um nascer ou pôr do Sol. Diríamos "Eu fiz, faço, farei", "Eu fui, vou, irei", "Eu aceitei, aceito, aceitarei" com a mesma inconsciência mecânica com que a ninfa Eco repete os últimos sons de Narciso ou com a mesma determinação com que um animal cumpre as suas obrigações. 

Mas depois vem o conjuntivo e estraga tudo. Olha-se para o passado e pensa-se no que poderia teria sido, olha-se para o futuro e pensa-se no que poderá vir a ser. E, a partir daí, tudo se torna labiríntico, tortuoso, infinitamente complexo. 

Eu gosto do mito adâmico e não me desagrada a ideia de ser filho de Adão. Mas foi com Tântalo que começámos verdadeiramente a ser humanos.

Four more years

Democracia

fotografia da iemenita Bouchra Almutawakel
.
Não acho a democracia o melhor dos modelos político. Não é o povo que realmente governa e decide. Grandes corporações e conglomerados empresariais manipulam aqui e alhures a marcha dos acontecimentos. Fazendo valer muito mais as suas vontades do que as necessidades do povo, eles desmentem, sem nenhum decoro, todos os dias, os fundamentos que sustem a ideia de que o regime existe para atender as demandas da maioria. Não precisa ter feito o Mobral para constatar que quem manda no mundo é o deus dinheiro. Os governantes de fato estão bem longe dos gabinetes políticos. Eles transitam por outra esfera social. A democracia é apenas uma festa popular engendrada nas massas para legitimar a farsa que é o governo do povo. Porém, diante da baixa qualidade dos regimes em oferta, não nos resta alternativa a não ser aguentar esse; pelo menos até que irrompa contra seu próprio peso os diques de contenção do inconformismo e faça surgir outro modelo, mais justo, menos fajuto. As notórias imperfeições da democracia, no entanto, são bem melhores, ou toleráveis do que as excrescências dos regimes totalitários, imperiais ou teocráticos que se alastram pelo mundo.