Os infringentes ou a impunidade coroada no país moralmente mais vergonhoso do mundo
.
O
verborrágico pronunciamento do ministro Celso de Mello com abordagens matizadas, ambíguas e favoráveis aos apelos dos CORRUPTOS ao uso de recursos ad infinitum, quando acossados pela justiça, reforçou a ideia geral
do povo que, para alguns abençoados brasileiros, o mundo é um lugar sem culpa e
sem repressão.
Ao
considerar a letra fria da lei como juízo a ordem, e fazer vista grossa aos apelos, dos que
ele chamou de: “excessos da maioria contingente”; o magistrado ignorou como é
costume em casos que envolvam grandes figurões em questão no banco dos réus, a emergência
de uma sociedade que repudia e repreende os delinquentes, sejam eles membro da
mais alta casta existente na sociedade, ou não.
Mas
o pior de tudo em seu pronunciamento foi a insensibilidade e o desprestigiar à ideia
do povo nas ruas. As grandes transformações sociais só ocorreram com o povo nas
ruas. Não perceber isso é um desplante. A tese de que a lei deve agir sem
paixões, invocada pelo ministro, não esconde que há sempre nos argumentos jurídicos,
quando em causa a liberdade de raposas, uma maneira de manobrar as necessidades
com o tacão da lógica ilusória. É realmente temeroso acolher os sentimentos de
ocasião, mas esse não era o caso. O voto de outros ministros dava sustentação jurídica
à recusa dos embargos infringentes e a histórica sensação de justiça devida ao
povo legitimava a liquidação da fatura dos mensaleiros.
O
ordenamento social histórico, com base no abrandamento entre as normas e a
conduta, tão típicos no país, acabou, por fim de duas horas de pronunciamento, realinhados
para permitir aos marginais no poder todas as garantias e favores da lei. Ao
povo restou o sentimento de fracasso na luta contra os malfeitores de plantão,
que em algum gabinete ou secretária ministerial muito bem confortável em sua
impunidade e ar-condicionado tramam novos planos de poder.
Verdade e Pintura - a arte desmaquilada de Lucian Freud
Pinturas do artista Lucian Freud
.
Posso
até entender a recusa de alguns em aceitarem essas pinturas como belas. De fato
há nelas algo suspeitoso dessa ideia. São corpos macilentos, que se tornaram desvitalizados
e parecem antes, prever a morte. O sentimento provocado, não é de deleite, mas
deceptivo. A beleza que elas anunciam é de outra esfera. Elas habitam outra
ordem de valores, a da revelação, poderias até dizer, do desmonte de ideias. Um
tipo de beleza cujos critérios comuns de julgamento, não condizem com os
esperados modelos estabelecidos: harmonia das formas, rigidez da carne, assepsia
da pele e outros. Ao contrário, residem no fato de assumir certa contrariedade
a esses modelos, e revelar homens e mulheres em sua natureza distopica. O
artista procura certa verdade que insistimos, através de ardis e maquilagens,
em negar a existência. A beleza, portanto, está na revelação falhada da
natureza humana, e não nas formas esperadas e desejadas, muitas vezes puras
enganações.
Narcisistas ou quando existir é uma angústia
Foto: André Gelpke, Christine au miroir, 1976
.
Somos tão violentamente
forçados a convivermos com imagens de realidades idealizadas, que não conseguimos
nos encarar diariamente sem certos queixumes ao que de natural e incontornável há
na natureza humana. Envelhecer virou um pecado. Ostentar rugas que já foi um
sinal de respeito, hoje é um inequívoco índice de derrotismo e sinal de
decadência. Tudo isso pode ser facilmente, segundo o credo publicitário, redimido pelo consumo de cremes, dietas,
roupas de grife, perfumes caros, carros, celulares, tintura, botox, e tantas
outras fantasias encapsuladas. Enredado pelo discurso persuasivo da publicidade
enganadora dos médias, traímos nossos
mais puros valores e socorremos nossa auto-imagem do escárnio público,
recorrendo aos artifícios cosméticos propagandeado como solução mágica de todas
as nossas angustias e infelicidade. A publicidade, com seus artifícios de prestidigitador,
nos seduzem com uma imagem destorcida de nós mesmos, para depois nos vender a solução definitiva contra
os males de existir.
A fantasia da beleza
Foto: Alfred Stieglitz
.
A mulher que oferta, ao
espectador anônimo, o seio em branco e preto, traz também na face um olhar de indisfarçável
enfado. A oferenda, portanto parece resignada. Mas não é a antítese que me atrai.
E sim sua despreocupação em transmitir uma visão idealizada, glamorizada da
figura feminina. Não há uma tentativa aqui de suprimir as imperfeições, tão
desejadas no mundo de hoje. Elas, ao contrário, são convocadas e expostas sem
pudor. O cabelo desgrenhado, o olhar macilento, que prenuncia antes o
sofrimento represado do que a chama vicejante da juventude, os seios murchos, a
roupa indefinida, mostram uma despreocupação em maquilar a mulher e redimi-la
das inevitáveis agressões do tempo. O ideário aqui é outro. E, no entanto, essa
imagem, que não nega os sucos do tempo, nem se preocupa em artificializar a
beleza, ainda assim é bela em sua sujidade realista. O caráter da beleza talvez,
como sugere a imagem, não esteja numa atitude postiça, mas sim em certa
sinceridade realista que não nega da vida as suas impurezas e imperfeições.
O declínio da crítica
Ao pensador de
múltiplos saberes e larga tradição cultural, os jornais de hoje, assim como
acontece com as tevês, preferem, por razões óbvias, ter como crítico o leitor
impressionista e opinativo de primeira hora. A relativização da crítica
desqualificou o papel de mediador do crítico entre o público e a obra e teve
como principal efeito um rebaixamento do debate qualificado dos bens culturais
produzidos nas últimas décadas. "Tipo assim, fantástico" , “adorei”,
“desempenho magistral”, "curti muito" são algumas das novas e
respeitadas contribuições do espírito renovador do homem público. O sintoma
mais evidente desse fenômeno, que não atinge somente o espaço da cultura, mais
também se estende por outras áreas como, a política, religião, esporte e tantos
outros espaços de debate; foi que com o banimento do crítico, como alguém que
desentranhar do texto noções insuspeitas e clareia zonas obscuras das obras,
investindo estudo e fidelidade ao ofício, foi à tendência de enfraquecer os
debates e aniquilar do espaço público o espírito crítico qualificado. Em razão
disso a indústria cultural, quase sempre molestada com as insistentes intervenções
críticas, conquistou o cenário perfeito para proliferação de seus ideais de
transformar a cultura em entretenimento vazio, mas muito rentável.
Três olhares sobre o homem, duas conclusões
Foto:
Dorothea Lange, Resettled farm child, New Mexico, 1935.
.
Na década de 30, a serviço da Farm
Security Administration, Dorothea Lange percorreu vinte e dois estados do Sul e
Oeste dos Estados Unidos, registrando as péssimas condições de milhares de
pobres americanos vitimas da Grande Depressão de 29. As imagens capturadas
pelas lentes de Lange atestam, em grau inconteste, a degradante condição de
milhares de camponeses estrangulados pela precariedade social gerada pela queda da Bolsa de Nova Iorque. Um complemento literário a esse registro está em As Vinhas da Ira (1939), do escritor
John Steinbeck. O livro acompanha a saga da família Joad. Tangidos de sua terra, pela chegado do progresso, lançados à própria sorte, nas estradas americanas em
busca de melhores condições de sobrevivência, essa família sintetizara milhares
de outras esfarrapadas que também perderam tudo durante a crise de 29. Tanto
Lange, quanto em Steinbeck, lançam um olhar solidário às vitimas da Grande
Depressão. Seguindo a trilha aberto pela fotógrafa e pelo literário, o cineasta
dinamarquês, Lars van Trier filmou Dogville (2003). O filme tem como cenário uma
vila americana no período mais duro da crise. Ao contrário dos dois artistas
anteriores, Lars van Trier lança um olhar mais fundo na realidade humana, e
desconstrói, as imagens de vitimas dos desgraçados da depressão que em seu filme diante da
possibilidade de aquisição de algum poder tornam-se, sem reservas nenhuma de
humanidade, odiosos algozes, capazes das piores barbaridades, como as de
escravizarem (física e sexualmente) uma jovem refugiada em sua vila. Enfim, um
olhar distópico da natureza humana que mesmo em face da mais triste realidade,
e vitimas das piores condições, ainda assim são capazes de baixar ainda mais a
sua condição de civilizado e desmentir todas as boas impressões que a arte
tenta constituir desse indivíduo.
Desalinhado
Foto: Diane Arbus, 1970
.O riso, segundo Bergson tem um papel social. Ele é aplicado em várias situações. Uma delas é contra inadequação de conduta de um indivíduo em relação ao comportamento dos outros. Para suavizar essas tensões é preciso maleabilidade do caráter e adesão à certa “elasticidade que nos dê condições de adaptar-nos ao mundo”.
“Toda
rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo” nos
diz Bergson “será então suspeita para a
sociedade, por ser possível sinal de uma atividade adormecida e também uma
atividade que se isola, e tende a afastar-se do centro comum em torno do qual a
sociedade gravita, de uma excentricidade enfim. E, no entanto a
sociedade não pode intervir nisso por meio de alguma repressão material, pois
ela não está sendo materialmente afetada. Ela está em presença de algo que a
preocupa, mas somente como sintoma – apenas uma ameaça, no máximo um gesto.
Será portanto, com um simples gesto que ela responderá. O riso deve ser alguma
coisa desse tipo, uma espécie de gesto social”.
Ao cabo de ler esse
excerto, do monumental trabalho sobre o Riso de Henri Bergson, sou tomado pela
consciência de que, não possuo, seguindo um conceito bergsoniano, elasticidade
necessária para integrar-me ao pacto social vigente. E estou, portanto,
sentenciando às fileiras dos homens que sofrerão todo tipo de escárnio em
represália a não adesão “ao centro comum em torno do qual a sociedade gravita”.
É preferível o riso dos
tolos, a aderência a esse mundo de estupidez. Uma virada nas páginas de jornais, uma mirada na televisão bastam para qualquer espírito sensível recusar alinhar-se o que quer que seja nesse mundo. Ante tantas provas de
esterilidade do cotidiano, aderir sem resistência às frivolidades e baixezas de
uma vida contingencial, só para não correr o risco de sofrer com o escárnio dos
patuscos de sempre, é inaceitável. Diante das reais vergonhas que se pode sofrer, ao aderir ao
mundo, o riso alheio é preço muito pequeno a se pagar.
A Espanha cabralina
O ferrageiro de Carmona
João Cabral de Melo Neto
Um
ferrageiro de Carmona,
que
me informava de um balcão:
"Aquilo?
É de ferro fundido,
foi
a forma que fez, não a mão.
Só
trabalho em ferro forjado
que
é quando se trabalha ferro
então,
corpo a corpo com ele,
domo-o,
dobro-o, até o onde quero.
O
ferro fundido é sem luta
é
só derramá-lo na forma.
Não
há nele a queda de braço
e
o cara a cara de uma forja.
Existe
a grande diferença
do
ferro forjado ao fundido:
é
uma distância tão enorme
que
não pode medir-se a gritos.
Conhece
a Giralda, em Sevilha?
De
certo subiu lá em cima.
Reparou
nas flores de ferro
dos
quatro jarros das esquinas?
Pois
aquilo é ferro forjado.
Flores
criadas numa outra língua.
Nada
têm das flores de forma,
moldadas
pelas das campinas.
Dou-lhe
aqui humilde receita,
Ao
senhor que dizem ser poeta:
O
ferro não deve fundir-se
nem
deve a voz ter diarréia.
Forjar:
domar o ferro à força,
Não
até uma flor já sabida,
Mas
ao que pode até ser flor
Se
flor parece a quem o diga.
La Giralda
.
Diga o que disserem os apologistas da
modernidade, mas pra mim a verdadeira engenhosidade humana está na disposição
em explorar seus limites e reinventar formas sempre novas de recriar o mundo
sem abdicar do espírito artístico. Quando observamos esse lugar e o comparamos
com os espigões que se dão ao olho em espetáculo da capacidade humana moderna,
vemos que em nada ele fica a dever aos feitos do presente, ao contrário,
sugerem, dadas as limitações da época e harmonia dos detalhes, uma inegável
impressão de superioridade.
.
Alberto Korda - As Imagens de Cuba
Alberto Korda - La Nina de la Muneca de Palo. La Havana, Cuba, 1959.
.
Fidel Castro en el ojo de Alberto Korda
.
Mitin en la Habana. Alberto Korda
.
.
.
.
.
.
Há, entre todas as imagens aqui destacadas,
uma que destoa das demais. É a última. O garoto com dedo em riste toma o lugar
do líder que na imagem assume uma posição nova na ordem história de sua vida:
ele ouve e não é mais ouvido. Sua autoridade está temporariamente suspensa, não se impõe mais. A inversão de papéis, sugerida pelo “instante
decisivo”, captado com maestria por Alberto Korda, dar-nos outra inquietante
ideia do líder, que inspirava as massas movendo apenas - ironia da foto - um
único dedo. A paralisação do tempo, no instante em que a cena se dá, corrompe
todas as ideias anteriormente construídas sob a figura do homem forte, do
guerrilheiro, aqui fragilizado, pelo ato inesperado de uma criança. A julgar
pela posição de Korda na Revolução Cubana, essa imagem revela-nos que, ante as intuições artísticas, todo ato ideológico trai a si mesmo.
A construção de um ícone
.
Encontrei essa foto no Google. Ela não
está creditada. Porém imagino que seja do cubano Alberto Korda. Ele foi o
fotógrafo oficial da Revolução Cubana e autor da icônica Guerrillero Heroico, foto de Che Guevara, que ainda hoje estampa
bandeiras em manifestações de revoltas por todo o mundo. Mesmo não tendo pegado
em armas durante a Revolução, Korda ajudou a construir a imagem mítica de
liderança de Fidel Castro e dos demais guerrilheiros que derrubaram a ditadura
de Fulgêncio Batista. O registro de uma câmera sugere o famoso ensaio, Sobre a Fotografia,
da americana Susan Sontag, produzem muitos efeitos. Ao tempo em que fornece um
testemunho de que as coisas realmente aconteceram, ela também pode: incriminam,
distorcer a realidade, idealizar, mitificar ou agir como um instrumento de
desagravo. Apesar da presunção de veracidade que confere autoridade de que
alguma coisa realmente aconteceu, uma imagem pode ser muito mais do que ela
apresenta na superfície. Ao preferir uma cena à outra, ao enquadrar um instante
ao em vez de outro, o fotografo induz a maneira de se ver uma realidade e
solicita do espectador certa solidariedade àquilo que está sendo retratado. A
emblemática imagem que ilustra esse post simboliza, inconscientemente, esse efeito
do líder destemido, construída através das imagens produzida por Korda de um
Fidel em atos heróicos e que inspira coragem e destemor. Ao mesmo tempo em que
diverte as massas, como um comum, o Fidel de Korda, exterioriza sua liderança
em gesto que induz a representação do poder em face às adversidades. Uma
metáfora de sua condição irrevogável de rebatedor das adversidades cubana,
frente aos ataques do inimigo. A presunção de desinteresse sugerida pela cena
torna o trabalho fotográfico de Korda um ato de genialidade. Espelhando aqueles
ritos sociais que tornam a fotografia um passatempo familiar despretensioso,
Korda construiu uma imagem prosaica, mas de fundo inteiramente ideológico, sem
parecer, no entanto, panfletário. A sedução dessa foto, seu poder sobre nós,
reside no fato de que ela nos oferece uma dramatização, mas induz no subterrâneo
do gesto e no enquadramento da cena, de modo sub-repticiamente, a pensarmos que
a realidade, enfeixada por uma câmera, dependendo do ângulo de mirada do
incauto, esconde intenções indizíveis.
Desmaquilar a realidade
O mundo de hoje em que uma enxurrada de
imagens solicita a nossa atenção o que vemos são os gestos repetidos,
coreografados e milimetricamente estudados para transmitirem uma imagem que
está longe de ser natural. Os gestos repetidos não nos deixam ver o que pode a
realidade. As muitas imagens que correm na internet especialmente as das redes
sociais atestam a nossa permanência na caverna de Platão, se regozijando com
meras imagens da verdade. As fotografias de Garry Winogrand convocam-nos a
observarmos o mundo fora dos esquemas previsíveis flertando com instantes
desmaquilado.
As ilusões perdidas
Foto: Lewis Hine
Não sou mais dado a ilusões e fantasias.
Talvez por isso esteja confortável com a ideia de que o homem é uma causa
perdida. Não há nisso qualquer pessimismo, fatalismo ou entreguismo como
daqueles que pressentindo essas coisas adoece da alma. Prefiro antes pensar que
seja apenas uma constatação - uma obviedade incontornável- que como tal faz
parte da ordem contraditória da vida que não nos cabe questionar. A putativa
natureza humana é coisa que não se extingue sem extinguir o homem. Não serei
eu, portanto o responsável por azeitar as engrenagens que faz correr macia e
sem sobressaltos as correias da existência. Haverá sempre modos de infringir a
ordem, e não será esse, modo irresponsável, o verdadeiro motor da vida? Chega
de metafísica. Basta-me agora andar por cá; fazer alguns amigos, estender a
vista ao mais largo que puder, viver algumas aventuras, ler uns bons livros,
semear uma família e o mais, prolongar essas horas antes que o ponteiro pare de
bater. Se calhar, ainda bem sou capaz de voltar a ter ilusões, afinal todo
produto da natureza é imperfeito.
The me, me, me generation
.
O tédio da existência, a melancolia de
dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamurios
insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do
facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada. As insistentes
imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não
escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra
forças desertoras da vida.
Triunfalismo mercadológico
.
Somente ontem à noite pude assistir na
integra a entrevista do escritor Peruano Mario Vargas Llosa ao Roda Viva. Adoro
a literatura do Llosa, tenho-a como uma de minhas favoritas. Para mim ele é um
intelectual completo, daqueles que não fogem as discussões mais espinhosas de
seu tempo e cuja disposição para questionamentos parece ser sempre incansável. No
mundo de pouco ou nenhuma criticidade, sua presença no cenário social, agitando
e insuflando debates garante a permanência de uma ambiente menos bucéfalo. Uma
coisa, no entanto, me inquieta nele, a sua reverência ao Capitalismo e ao Neoliberalismo
como modelos econômicos e sociais capazes de resgatar ao homem alguma
dignidade. Essa postura panfletária soa ainda mais contrastante quando sabemos
de sua disposição para combater o rebaixamento da arte contemporânea e sua
espetacularização. Seu mais recente trabalho, La Civilizacion Del Espectaculo atestam essa militância contra a
banalização das artes e o triunfalismo mercadológico. A ele não parece supor
que uma e outra coisa sejam indissociáveis. Seguindo apenas a sua implacável
rejeição à ordem socialista, Vargas Llosa parece ter esquecido que a
civilização na qual as mercadorias assumiram o comando das coisas, dos preços,
dos valores, aviltando todas as relações, também se apoderou das artes e a está
rebaixando a níveis desfibrados.
Peça fraca e sem emoção
São muitos os equívocos do monólogo Solo Almodóvar
por Téo Júnior
Salvador
Pedro Almodóvar, um dos mais extraordinários diretores de
cinema do mundo e o principal de seu país, Espanha, que se notabilizou nesses
últimos trinta anos como sendo dono de um estilo personalíssimo e imediatamente
reconhecível, que Adriana Calcanhotto citou na bela música Esquadros,
mereceu a homenagem da atriz Simone Brault no espetáculo Solo Almodóvar,
em cartaz no Teatro Martim Gonçalves (Canela) neste último fim de semana. O
início da peça, para começo de conversa, é uma cópia ipsis litteris de
uma cena de Tudo Sobre Minha Mãe, aquela em que Agrado (Antonia San
Juan) entretém os espectadores com a “história de sua vida” porque as
principais atrizes faltaram. Daí, nossa Dolores se entrega a discussões
estéreis sobre as dificuldades que os travestis enfrentam, suas experiências
com os homens – quase sempre frustradas –, e o tempo custa a passar.
Colabora para o descalabro da montagem, a protagonista
dedicar todo o espetáculo pronunciando um portunhol sofrível, quando ela
poderia perfeitamente optar pelo português. No palco, uma enorme sandália
remete ao filme De Salto Alto; as músicas e certas cenas que Simone
interpreta e alude estão, claro, na filmografia do diretor, com destaque para A
Lei do Desejo, onde Antonio Banderas contracenou, no longínquo 1987, com o
hoje obscuro Eusébio Poncela (há uma inesquecível cena de sexo). A
interpretação de Simone para Lo Dudo (Duvido), do Trio Los Panchos, não
é à toa. Os figurinos estavam caprichados.
Almodóvar, mestre no colorido exacerbado e que soube
retratar como ninguém o universo feminino (Volver), os travestis e suas
obsessões (Má Educação) e a sexualidade mostrada de forma bonita até (Carne
Trêmula) merecia um roteiro original e satisfatório – o que, infelizmente,
o autor Vinnicius Morais, em mais de uma hora de encenação, não pôde oferecer.
Quem sabe na próxima vez.
Não há limites para quem tem coragem
Fitzcarraldo - filme de 1982 do realizador Werner Herzog
.
Alguns diretores são-nos mais queridos
do que outros. As razões são que, uns nos dizem pouco, enquanto outros nos
emudecem os sentidos ao transmitirem aquele "frisson nouveau", como bem expressou Victor Hugo ao ler pela
primeira vez as Flores do Mal. Os
filmes do alemão Werner Herzog estão para mim nessa segunda categoria. Longe de
ser uma unanimidade do grande público os seus filmes distinguem-se dos blockbuster
hollywoodianos pela capacidade incomum de narrarem histórias de homens em
enfrentamento com o mundo selvagem e desafiador sem cederem aos perigos ou
questionarem seus propósitos; um mundo maior do que suas forças podem vencer. Nessa
luta, seus personagens nem sempre se dão bem. Nada mais ante-comercial do que
histórias de “derrotados”. Porém, se enganam aqueles que pensam que os filmes Herzog
fala sobre derrotistas e fracassados. Os resultados podem não serem o esperado.
O que contam em seus filmes são as atitudes. Num mundo de culta a celebridade o arrivista
social é o modelo de homem ideal. As qualidades e os valores do homem moderno
se medem pelo sucesso e as conquista. Os personagens de Herzog representam
muito bem esses sentimentos de conquista, nos fazendo refletir acima de tudo
sobre as suas conseqüências. Movidos pela ambição desmedida muitos entram num
espiral febril de sonhos de vitória a qualquer custo. Pelo caminho encontram
forças superiores, que os farão provar os limites de sua coragem ante os
desafios impostos pela busca de realizações utópicas. A pretensa superioridade
humana é posta à prova no embate contra as forças da natureza. Nessa luta os
desfibrados e os desertores são os primeiros a caírem. Tombam contra o seu
próprio peso e são arrastados pelas torrentes, vales, abismos e toda sorte de
perigos os põem em marcha ré. No cinema Herzogiano a única celebração possível
é àqueles destemidos aventureiros que se impõem desafios capazes de questionar
os limites do homem. Com Herzog aprendemos que não há limites para quem tem coragem.
Antologia Falhada
Encontrei hoje numa livraria da USP uma antologia da poesia portuguesa contemporânea. Corri avidamente para o exemplar. Antes de desembolsar o valor cobrado pelo livro, tomei o cuidado de buscar no sumário os autores elencados para composição do panorama. Como não encontrei qualquer menção ao Henrique Fialho devolvi o livro a estante. Uma antologia que se preze sobre a poesia lusa, não pode ignorar a presença desse autor. Em qualquer recolha que se faça sobre a contemporaneidade poética o Henrique Fialho é presença indispensável, ou isso, ou a condenação do livro ao encarceramento das estantes.
Sim reluz, mas não está a venda
Hoje,
entre tantos e tão sábios
saberes, nenhum foi capaz
de vencer, ou ao menos
constranger,
as vaidades e imorais
imposturas, dos que,
valem-se do dinheiro
para com ele tudo corromper.
Não há moral que,
de tão forte, não se dobre
ao poder do pequeno nobre.
Valores que não se vençam,
beleza que não se compre,
mesa que não cesse
e amores que não se julguem,
Pela cotação do ouro ou do cobre.
Quando em lugar
das virtudes de caráter,
o homem entrona
as baixezas e vilanias,
mais hediondas de su´alma,
testifica sem pudor,
que embora finja,
nascido de um deus,
uma besta o pariu e te criou.
Esse poema nasceu de uma conversa com o Marco Haurélio, sobre o julgamento das pessoas sobre aqueles que se negam a se enquadrarem na dependência do dinheiro para viverem suas vidas.
À Deriva
Dai-me, senhor!
Nenhum juízo,
Para não ter que
Ler aviso, nas
Estradas por onde
Andar.
Percorrer,
Sem temer perigo
Estradas, desertos, abismos
E quanto mais
Me aprouver
Alcançar.
De resto,
Deixai por conta
Do acaso e da lembrança
Os muitos pontos
que meus pés
irão desbravar.
Serei
Feliz e contente
apenas, com o pó
Que levo rente,
Ao chão
Do meu caminhar.
Refúgio ao fácil
Figurativismo
Abstrato (2004)
Frequentemente acusa-se a arte,
principalmente a contemporânea, de anódina. Ninguém poderá culpar o expectador moderno de insensível
por julgar tão desclassificado o que se estar sendo ofertado nas bienais,
museus e salas de exposições mundo afora. Desde que a arte passou a ser tida,
como uma atitude e não como uma expressão de conteúdo estético, uma onda
decadente de pseudo-artistas aproveitou a suposta facilidade de criação, para
fazer de suas más qualidades estética e falta de talento, objeto de seu ofício.
Em visita recente à Pinacoteca de São Paulo, deparei-me com um quadro do
multiperformático (deve ser isso que ele é) “artista” brasileiro Nelson Leiner,
que se insere nesse contexto de casuísmo e decadentismo artísticos para se
fazer respeitado. Intitulado Figurativismo Abstrato, a “obra” é
composta da superposição de imagens de personagens animados cujo propósito,
aparente, e sempre repetido, é o de transgredir, desmistificar e ridicularizar
a importância da arte. Em contraste com a imponência e o garbo do espaço o melífluo
artista impõe uma galhofa. Ora eu me pergunto, se se quer ainda por em causa o estatuto
de nobreza da arte e torná-la um produto consumível e descartável, é preciso mesmo
divorciar-se da criatividade e impor como padrão o exercício de expressão de
mundo pessoal do artista como única alternativa à arte contemporânea?
Pirilampo
.
Há,
sem dúvida alguma, muitas vantagens, em ser amigo de Marco Haurélio. A melhor
delas é que você nunca estará, por mais que julgue o contrário, inteiramente,
formado, informado ou suficientemente satisfeito com as alternativas culturais
à sua disposição. Sempre atento às novidades, sem deixar de render tributos às
gerações pretéritas, a figura de Marco Haurélio reinaugura, às novas gerações,
eternos mestres da Cultura mundial. E que alegria não é o sentimento de
descoberta. Senti-me assim, cheio de alegria e vigor de iniciante ao ouvir,
recomendado por ele, os poemas e canções de Atahualpa Yupanqui. Creio ser essa,
a milésima personalidade cultural que o Marco me semeia. O que seria de mim sem
esse pirilampo que tange sem esforço, as trevas que nos rodeiam? Grazie Mille Marco!
A limitação das cores, ou quanto posso ser estúpido.
.
O nacionalismo e sua vertente cariada, o bairrismo, é uma idelogia repulsiva. Por séculos suas ideias têm manchado a história de sangue ao despresar o diálogo como forma de relacionamento solidário. A limitada ação de interesses que ele congrega repele e ameaça a estabilidade do mundo. Para Gore Vidal o Nacionalismo é a última trincheira dos estúpidos.
Juventude desfibrada
O tédio da existência , a melancolia de dias não vividos, o sentido de nulidade, os queixumes clichês, os lamúrios insistentes são frequentes mensagens transmitidas pelos adolescentes do facebook. Essa é uma geração decadente, fútil e desfibrada.... as insistentes imagens de festas, passeios, viagens e sorrisos moldados de forma teatral, não escondem, apenas disfarça sua impotência anêmica de reagirem com coragem contra forças desertoras da vida. Coragem! Vocês podem mais...
A arte precisa provocar o espanto, mas só os idiotas espantam-se com o ordinário
Transcrição da matéria do
Jornal da Tarde de 13 de abril de 2002 com o artista Antonio Veronese e suas
opiniões sobre a arte contemporânea na Bienal de São Paulo:
Essa bienal é um engodo,
diz Veronese Artista brasileiro que exigiu o dinheiro de volta na Bienal 2002
do Museu Whitney em Nova York, foi à 25° Bienal de SP a convite do JT e
analisou o que vale e o que não vale o ingresso. André Nigri-Jornal da Tarde.
“Há mais emoção e história
em uma aquarela de Egon Schiele (1880-1918) do que em todo o pavilhão da Bienal
paulistana". A frase de Antonio Veronese pode dar a entender que seu
autor, um artista brasileiro que transita entre os Estados Unidos e a Europa, é
um outsider ressentido com os colegas que expõem na maior mostra de arte
contemporânea da América Latina. No entanto Veronese tem quadros seus
pendurados nas Nações Unidas (Painel Save the Children) , na FAO em Roma (
Painel Famine), no UNICEF ( JUST KIDS), no Congresso Nacional ( Painel Tensão
no Campo), na Universidade de Genebra, etc… Alem disso, Veronese expõe e vende
nos Estados Unidos e na Europa, e é um velho militante de causas sociais no Rio
de Janeiro- cidade onde fica quando visita o Brasil.
Ao comparar a obra de Egon
Schiele às instalações e performances dos 190 artistas de 70 países abrigados
na 25°Bienal de São Paulo, aberta até junho, Veronese coloca em discussão o que
se faz e o que se classifica de arte hoje e para que ela serve. “Quase tudo que
está aí não vale quase nada... É uma infantilidade preencher esse espaço com
obras que são um engodo” disse Veronese na manhã de ontem, depois de visitar o
Pavilhão do Ibirapuera a convite do Jornal da Tarde.
Ao contrário do que
aconteceu no mês passado no Whitney Museu de Nova York, não foi preciso chamar
a polícia para esfriar os ânimos de Veronese desta vez, mas sua reação foi
contundente da mesma forma. “A maioria do que vi no Whitney e que vejo aqui é
resultado de uma idéia imediatista e simplória. Esses artistas são filhos
espúrios de Duchamp” disse.
Consciente de que está
comprando uma briga feia, Veronese não poupa nem os curadores de suas críticas:
“São eles os maiores responsáveis por esse lixo. Não há mais curadoria decente
na Bienal. E digo isso sabendo que muita gente gostaria de dizer o mesmo, mas
não o faz”.
Ao ser confrontado com
algumas das obras da Bienal paulistana, Veronese foi categórico. Chamou a
instalação de José Damasceno de leviana, e ao aproximar-se da obra do gaúcho
Daniel Acosta, intitulada “Estação Avançada com Paisagem Portátil” comentou:
“Se nós mudarmos o nome disso não faz a menor diferença.. Em relação ao
trabalho do carioca Chelpa Ferro , um automóvel que foi destruído em uma
performance na abertura de Bienal, disse, “Acho um absurdo que uma bobagem
dessas ocupe espaço precioso numa bienal. Deveria estar num ferro velho”.
Qual seria a saída? Para
Veronese, as instalações vão se esgotar por si mesmas. "Não se pode
confundir decadência com vanguarda. Acreditar que tudo já foi feito e que temos
que montar essas bobagens é encenar a nossa própria decadência, diz o autor de
Famine e Tensão no Campo.
Entrevista de Antonio Veronese depois das
críticas às bienais Whitney e São Paulo.
Pergunta: Você, quando critica as bienais do Whitney e de São Paulo, não
está negando aos artistas conceituais o direito de expor seus trabalhos? Isso
não é antidemocrático?
Antonio Veronese: Eu não nego a ninguém o direito à exibição. Só acho que essas
instalações deveriam estar num parque-de-diversão e não em museus. São objetos
para o divertimento e a interação, da mesma forma que um boliche ou stand de
tiro-ao-alvo. Mas isso, absolutamente, nao é Arte!, ainda que pareça
revolucionario afirmar o contrário.
Pergunta: O que gerou o teu protesto no Whitney?
Veronese: Foi uma reação natural de quem se sentiu ludibriado pagando 10
dollares para ter acesso a um amontoado de “facilidades”. Os “autores” disso
são conscientes do farsismo e riem de nós. O que fazem é terrorismo estético,
uma tentativa de apagar todo o conhecimento acumulado. Eles sabem que o que
fazem não têm nenhum valor, mas contam com a elasticidade moral de curadores
simplórios e com a ignorância endêmica da crítica.
Pergunta: Você chama a esses artistas de filhos-espúrios-de-Duchamp. Por
quê?
Veronese: Arte é produto de duas experiências: uma histórica e outra
pessoal. O artista precisa conhecer a Arte que o antecedeu, senão vai ter que
inventar a roda a cada vez. Mas precisa também da segunda experiência, a
pessoal, fruto do seu trabalho contínuo, do lento avançar naquilo a que dedica.
Cézanne, aos 64 anos, já havia parido o modernismo mas reclamava que ainda não
havia conseguido ir até o fim na sua busca. O caminho é longo e exige paciência
e dedicação.
Esse pessoal das
instalações não é burro não, conhece a História, mas tenta dar uma rasteira na
segunda exigência, a da experiência pessoal. Socorre-se para isso de conceitos
que serviram em outras situações mas que, no caso deles, não passa de
malandragem. O urinol virado por Duchanp é consequência de uma busca pessoal,
num contexto particular e específico. Mas defender que o urinol possa ser
manipulado indefinitivamente é encenar a nossa própria decadência. Por isso
digo que os conceitualistas são filhos espúrios de Duchamp. Propõem
mediocridade profanatoria embalada de vanguarda!
Pergunta: Que diferença existe entre essa tua crítica e a que sofreram os
impressionistas no século XIX?
Veronese: A Arte é oficio do Homem, interferência do Homem; ela não é
espontânea na natureza! É produto da interferência humana, e não pode ser
supérflua ou presunçosa. Victor Hugo dizia que a obra de arte é uma variedade
do milagre e, para Malraux, os artistas não são copistas de Deus mas seus
rivais! A "arte" conceitual pretende socializar o direito de produzir
arte, antes restrito, como é natural, aos artistas! Por isso o que produz é
facilmente copiável, diferentemente de um retrado de Rembrandt ou das maçãs de
Cezanne. Comparar minha crítica com as que sofreram o impressionismo e o
modernismo é um exagero. Uma outra vez eu "incorporei” minha bota de couro
a uma instalação do Tunga no Whitney do Soho em Nova York. Só fui recuperá-la
no dia seguinte. E ela estava ainda lá, no mesmo lugar em que a deixei. Ninguém
se dera conta de que, por 24 horas, eu havia me tornado co-autor da instalação
conceitual de Tunga. Isso seria impossível com uma tela de Bacon, uma escultura
de Maillol, ou mesmo com o Circo de Calder.
A crítica foi, muitas vezes
na História, preconceituosa e totalitária. Mas questionar meu direito de
exercê-la agora é também uma forma de totalitarismo. Para mim há mais
humanidade e humanismo em uma simples aquarela de Egon Shiele do que em toda a
Bienal de São Paulo reunida.
A Arte precisa do espanto,
mas só os idiotas espantam-se com o ordinário.
Desculpas para não ofertar às massas um conteúdo decente
“O problema não está no vulgo, que
pede disparates, mas
naqueles que não
sabem representar outra coisa”.
Cervantes no livro Dom Quixote
“O problema não está no vulgo, que
pede disparates, mas
naqueles que não
sabem representar outra coisa”.
Cervantes no livro Dom Quixote
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