Genuflexão

De dois em dois anos os políticos, assim como Baco iluminado na pintura de Velásquez, saem de seus palacetes e concedem à malta o privilégio de sua companhia. Fingem-se dos mesmos, mas a áurea diáfana que os encobre, também os resguarda da imundície do mundo a sua volta. Muitos, solicitam os seus afagos, na vã esperança de terem assim - colhidas as migalhas do banquete - serenado a sua miséria pessoal.

Pintura: Diego Velasquez | O Triunfo de Baco ou Os Bêbedos, 1626-1628.

Kafka para presidente

O corrida eleitoral já começou. Daqui a instantes seremos alvejados por discursos prometendo mundos e fundos. Estou exausto disso. A política nacional me enoja. Os jogos de poder, engendrados na máquina política, têm sobre mim um efeito misto de ódio incontido e desprezo perpetuo. Mas sou um cidadão compassivo. Acredito no voto como uma força capaz de tudo contornar. Não deixarei de exercer o meu poder e em outubro lançarei o meu protesto. VOTAREI EM KAFKA para presidente.  

Elogio às Bibliotecas

.

Entendo que as pessoas apreciem e até exaltem as livrarias. Elas são realmente maravilhosas. Mas acho que o melhor lugar para formação de um leitor se encontra nas bibliotecas. Bibliotecas que lamentavelmente sofrem de desprestígio constante. As pessoas reclamam que não leem, por não terem livrarias em suas cidades, quando essas estão cheias de bibliotecas. Enquanto as livrarias fetichiza o livro numa relação comercial, as bibliotecas dispensam essa dependência e se dão de forma mais intima e gratuita, estabelecendo o que me parece ser um vínculo mais pura e genuíno com o livro. Nas bibliotecas os livros deixam de ser um objeto avaliado pelo valor e passa a integrar com o leitor uma relação de afeto que dura toda a sua vida.

Fotos: Recém inaugurada Biblioteca José e Gita Mindlin.

Na fachada da biblioteca está uma frase de José Mindlin que diz: "NÃO FAÇO NADA SEM ALEGRIA". Bela lição.

A Madona de Max Ernst

Max Ernst: “A virgem espanca o menino Jesus vigiado por 3 testemunhas, André Breton, Paul Eluard e o próprio artista”.

.
Nem é um quadro tão bonito. Mas de todas as Madonas esta é a minha predileta.

Da América

Susan Wood - Beat Poetry Reading, 1955.
.

Henri Miller dizia que a força de uma nação poderia ser muito bem medida pela estima desta aos seus escritores. O reconhecimento e a valorização dos escritores vitaminam uma civilização. Seria esse o caso da superioridade Americana sobre o restante do mundo? Provavelmente. Assistindo ontem ao documentário sobre o pensador Alceu Amoroso Lima, me chamou a atenção um relato de seu filho. Em viagem aos EUA o filho do pensador católico, visitou a biblioteca de Nova Iorque para pesquisar a existência de livros de seu pai. Surpreso ele encontrou 79 entradas para o nome Alceu Amoroso Lima, número muito maior de título encontrados em qualquer biblioteca brasileira. Ninguém no Brasil fica vexado com essa informação. A precariedade na distribuição de livros, associado ao sucateamento de nossas bibliotecas, bem como a falta de reconhecimento da literatura como um valor, tranquilizam as consciências sobre esse dado vergonhoso. Curioso de saber um pouco mais sobre o apreço dos Americanos pela literatura corri ao site da biblioteca de Nova Iorque e comprovei a informação do filho de Alceu Amoroso Lima. 79 entradas para o nome pesquisado. Fui mais longe um pouco e busquei o nome do poeta, folclorista e professor Marco Haurélio. 4 entradas para o nome do escritor. Muitas cidades baianas deveriam se envergonhar com essa notícia que é sinônimo de prestigio para o poeta. 


O Olhar além do olhar

Foto: Martin Munkácsi, Diego Rivera e Frida Kahlo - México 1933.
.

Espreitar ao lado, olhar ao longe. Talvez sem querer Martin Munkácsi em sua fotografia tenha não apenas retratado os maiores expoentes da pintura moderna Mexicana, mas também interpretado suas personalidades tão diversas. Diego na foto encara violentamente o espectador. Não finge ausência ou esquiva-se à presença do outro, dar-se por inteiro e diretamente. Dir-se-á que tem fome no olhar, desejo pantagruélico da realidade. Mira, portanto tudo a sua volta com a curiosidade de um menino que ver pela primeira vez o outro e se espanta. Já Frida repousa seu olhar longe. Mira o futuro o porvir. Talvez pressinta que sua época é outra. Ou talvez enxergue melhor por intermediárias retinas a dura realidade que a assombra sobre os ombros. 

O Poeta enjaulado

O Relógio

Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.
(...)

João Cabral de Melo Neto 


Corre a notícia de que ele era refratário aos transbordamentos dos sentimentos. Creio em parte. Sua forma poética bem regulada e contida, por vezes sugere essa impressão. Mas ela só ocorre ao leitor desatento. Ao leitor acostumado. Ao leitor novilho. O leitor cabralino é de outra ordem. É alguém que se detém a palavra e não escorre por ela.


Seremos eternamente gratos a João Cabral por tudo o que ele representou para a nossa poesia.

Sobre Ratos e Ideologias

Alexander Kossolapov | Herói, Líder, Deus.
.
Ao fim e ao cabo são mesmos os ratos, em suas malandrices, a conduzir o rumo da História.


A verdadeira política nacional

“Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”.

Luiz Inácio Lula da Silva

Chico Buarque - Jorge Maravilha


.

E nada como um tempo após um contratempo
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando, até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão
Do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
Ela gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócega
Ela pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta
E nada como um dia após o outro dia
Pro meu coração
E não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando, resmungando até quando, não, não, não
E como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe de razão

Mais vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando.

A salvação pelo consumo.

A sedução dos discursos consumistas enfeitiça de tal modo a vida, que as pessoas que não se enquadram no “esquema” da felicidade materialista, são vistas como antissociais, fracassadas e pintadas com qualificativos pouco nobres. Hoje em dia é quase um pecado mortal, a recusa aos apelos mercadológicos propagandeados pelos médias. O herético que professe o credo na descrença da salvação pelo consumo, vive as mesmas penitências dos pobres lançados à fogueira por rejeitarem a mentira como verdade. Não se admite, sob qualquer argumento ou peso dos fatos, a possibilidade de se viver de maneira tal, que nenhuma dessas coisas: carro, celular, roupa de grife e outros banlangandas, tenha qualquer valor de dignificação do homem, como querem fazer crer os incautos adoradores dos produtos da moda. 

Ronald Reis

Ronald Reis - Greenwich Village, New York City, 1963

Herberto Helder

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e eu me perdesse nela
a paixão grega.


Herberto Helder

O cinema de estribo, arreio e algo mais.

Quem se fia num filme, apenas porque esse tem mancebos de cabelos bem cortado, como manda a última moda, ou conta histórias sacarinas; nunca chegará a compreender o western, pois esse se mede menos por personagens empertigados e mais por questionamentos das configurações padrões de pensamento que nos encarcera a todos. O western é o gênero cinematográfico que transcendeu os limites de sua habitual perspectiva e se elevou ao patamar filosófico ao nos apresentar histórias em que os conflitos humanos mais mesquinhos: o suposto furto de gado do vizinho, a descrença dos amigos e amores na coragem de quem aparenta fragilidade; a recusa de sair de sua terra por força do dinheiro fácil e outros encerram o que verdadeiramente importa aprender ou julgamos importante aprender sobre cultura, conflitos morais, política, coragem, superação, valores sociais e muito mais. Western é o cinema que encarna todas as dimensões humanas em um microcosmo para fazer deste uma reflexão profunda das potencialidades inéditas do homem.

Inquirição

Todos os dias quando vou para faculdade um Outdoor no telhado de uma empresa química, em meio a fuligem das chaminés me inquire em letras maiúsculas: VOCÊ JÁ PECOU HOJE?

Todos os dias a resposta é a mesma. 

Disfarçado de moralidade as religiões empreendem a conquista de rebanhos mansos aos currais do céu.  

As invasões bárbaras

Na época em que o cinema, ainda não havia sido colonizado por vampiros com espinhas no rosto, aprendizes de bruxaria e outras merdolas, podia-se desgastar os olhos nas salas escuras, sem temor de ter com isso, comprometido também, outras partes do corpo.

Umas botas, somente umas botas de Espanha.

170 milhões infringidos goela a baixo.

.

.
Não foram apenas 170 milhões furtados do erário público, mas toda dignidade de uma nação. Bem não de toda, uma parte dela que mais uma vez se sentiu empalada. Um nada – dirão alguns para justificar a sua leniência - comparado a tantas outras violências históricas a que fomos submetidos. Por que então nos preocuparmos com isso? O melhor mesmo é abrirmos a temporada de troça às artistas globais, para assim neutralizarmos a vergonha das pretensões ideológicas no balaio da irreverência popularesca. O manual de más posturas sociais, aberto a todas as bandeiras ideológicas, uma coisa bem brasileira, ganha assim dia-a-dia capítulos novos. O que não nos falta são colaboradores para essa prodigalíssima empresa.

As regras do jogo

.
Percebo que certos jogos tenham regras complicadas de entender, mas não me venham dizer que esta regra é difícil: roubou vai pra cadeia sem direito a embargos infringentes. 

Enquanto isso em Brasília...

.
Em alguma esquina nas proximidades do poder em Brasília, mas bem poderia ser aí mesmo ao seu lado.

Os infringentes ou a impunidade coroada no país moralmente mais vergonhoso do mundo


Foto: Elliot Erwitt
.
O verborrágico pronunciamento do ministro Celso de Mello com abordagens matizadas, ambíguas e favoráveis aos apelos dos CORRUPTOS ao uso de recursos ad infinitum, quando acossados pela justiça, reforçou a ideia geral do povo que, para alguns abençoados brasileiros, o mundo é um lugar sem culpa e sem repressão. 

Ao considerar a letra fria da lei como juízo a ordem, e fazer vista grossa aos apelos, dos que ele chamou de: “excessos da maioria contingente”; o magistrado ignorou como é costume em casos que envolvam grandes figurões em questão no banco dos réus, a emergência de uma sociedade que repudia e repreende os delinquentes, sejam eles membro da mais alta casta existente na sociedade, ou não. 

Mas o pior de tudo em seu pronunciamento foi a insensibilidade e o desprestigiar à ideia do povo nas ruas. As grandes transformações sociais só ocorreram com o povo nas ruas. Não perceber isso é um desplante. A tese de que a lei deve agir sem paixões, invocada pelo ministro, não esconde que há sempre nos argumentos jurídicos, quando em causa a liberdade de raposas, uma maneira de manobrar as necessidades com o tacão da lógica ilusória. É realmente temeroso acolher os sentimentos de ocasião, mas esse não era o caso. O voto de outros ministros dava sustentação jurídica à recusa dos embargos infringentes e a histórica sensação de justiça devida ao povo legitimava a liquidação da fatura dos mensaleiros. 

O ordenamento social histórico, com base no abrandamento entre as normas e a conduta, tão típicos no país, acabou, por fim de duas horas de pronunciamento, realinhados para permitir aos marginais no poder todas as garantias e favores da lei. Ao povo restou o sentimento de fracasso na luta contra os malfeitores de plantão, que em algum gabinete ou secretária ministerial muito bem confortável em sua impunidade e ar-condicionado tramam novos planos de poder. 

Verdade e Pintura - a arte desmaquilada de Lucian Freud


Pinturas do artista Lucian Freud
.
Posso até entender a recusa de alguns em aceitarem essas pinturas como belas. De fato há nelas algo suspeitoso dessa ideia. São corpos macilentos, que se tornaram desvitalizados e parecem antes, prever a morte. O sentimento provocado, não é de deleite, mas deceptivo. A beleza que elas anunciam é de outra esfera. Elas habitam outra ordem de valores, a da revelação, poderias até dizer, do desmonte de ideias. Um tipo de beleza cujos critérios comuns de julgamento, não condizem com os esperados modelos estabelecidos: harmonia das formas, rigidez da carne, assepsia da pele e outros. Ao contrário, residem no fato de assumir certa contrariedade a esses modelos, e revelar homens e mulheres em sua natureza distopica. O artista procura certa verdade que insistimos, através de ardis e maquilagens, em negar a existência. A beleza, portanto, está na revelação falhada da natureza humana, e não nas formas esperadas e desejadas, muitas vezes puras enganações.  

Narcisistas ou quando existir é uma angústia

Foto: André Gelpke, Christine au miroir, 1976
.
Somos tão violentamente forçados a convivermos com imagens de realidades idealizadas, que não conseguimos nos encarar diariamente sem certos queixumes ao que de natural e incontornável há na natureza humana. Envelhecer virou um pecado. Ostentar rugas que já foi um sinal de respeito, hoje é um inequívoco índice de derrotismo e sinal de decadência. Tudo isso pode ser facilmente, segundo o credo publicitário,  redimido pelo consumo de cremes, dietas, roupas de grife, perfumes caros, carros, celulares, tintura, botox, e tantas outras fantasias encapsuladas. Enredado pelo discurso persuasivo da publicidade enganadora dos médias, traímos nossos mais puros valores e socorremos nossa auto-imagem do escárnio público, recorrendo aos artifícios cosméticos propagandeado como solução mágica de todas as nossas angustias e infelicidade. A publicidade, com seus artifícios de prestidigitador, nos seduzem com uma imagem destorcida de nós mesmos,  para depois nos vender a solução definitiva contra os males de existir. 

A fantasia da beleza

Foto: Alfred Stieglitz
.
A mulher que oferta, ao espectador anônimo, o seio em branco e preto, traz também na face um olhar de indisfarçável enfado. A oferenda, portanto parece resignada. Mas não é a antítese que me atrai. E sim sua despreocupação em transmitir uma visão idealizada, glamorizada da figura feminina. Não há uma tentativa aqui de suprimir as imperfeições, tão desejadas no mundo de hoje. Elas, ao contrário, são convocadas e expostas sem pudor. O cabelo desgrenhado, o olhar macilento, que prenuncia antes o sofrimento represado do que a chama vicejante da juventude, os seios murchos, a roupa indefinida, mostram uma despreocupação em maquilar a mulher e redimi-la das inevitáveis agressões do tempo. O ideário aqui é outro. E, no entanto, essa imagem, que não nega os sucos do tempo, nem se preocupa em artificializar a beleza, ainda assim é bela em sua sujidade realista. O caráter da beleza talvez, como sugere a imagem, não esteja numa atitude postiça, mas sim em certa sinceridade realista que não nega da vida as suas impurezas e imperfeições. 

Brassai

.
A noite de Paris, seus frequentadores, suas ruas, sua arquitetura noturna, sua textura de cores e sutis gestos de anônimos sãos os temas prediletos de Brassai, que também escreveu livro sobre a relação da fotografia com a literatura.

O declínio da crítica

Ao pensador de múltiplos saberes e larga tradição cultural, os jornais de hoje, assim como acontece com as tevês, preferem, por razões óbvias, ter como crítico o leitor impressionista e opinativo de primeira hora. A relativização da crítica desqualificou o papel de mediador do crítico entre o público e a obra e teve como principal efeito um rebaixamento do debate qualificado dos bens culturais produzidos nas últimas décadas. "Tipo assim, fantástico" , “adorei”, “desempenho magistral”, "curti muito" são algumas das novas e respeitadas contribuições do espírito renovador do homem público. O sintoma mais evidente desse fenômeno, que não atinge somente o espaço da cultura, mais também se estende por outras áreas como, a política, religião, esporte e tantos outros espaços de debate; foi que com o banimento do crítico, como alguém que desentranhar do texto noções insuspeitas e clareia zonas obscuras das obras, investindo estudo e fidelidade ao ofício, foi à tendência de enfraquecer os debates e aniquilar do espaço público o espírito crítico qualificado. Em razão disso a indústria cultural, quase sempre molestada com as insistentes intervenções críticas, conquistou o cenário perfeito para proliferação de seus ideais de transformar a cultura em entretenimento vazio, mas muito rentável.  

Três olhares sobre o homem, duas conclusões

Foto: Dorothea Lange, Resettled farm child, New Mexico, 1935.
.
Na década de 30, a serviço da Farm Security Administration, Dorothea Lange percorreu vinte e dois estados do Sul e Oeste dos Estados Unidos, registrando as péssimas condições de milhares de pobres americanos vitimas da Grande Depressão de 29. As imagens capturadas pelas lentes de Lange atestam, em grau inconteste, a degradante condição de milhares de camponeses estrangulados pela precariedade social gerada pela queda da Bolsa de Nova Iorque. Um complemento literário a esse registro está em As Vinhas da Ira (1939), do escritor John Steinbeck. O livro acompanha a saga da família Joad. Tangidos de sua terra, pela chegado do progresso, lançados à própria sorte, nas estradas americanas em busca de melhores condições de sobrevivência, essa família sintetizara milhares de outras esfarrapadas que também perderam tudo durante a crise de 29. Tanto Lange, quanto em Steinbeck, lançam um olhar solidário às vitimas da Grande Depressão. Seguindo a trilha aberto pela fotógrafa e pelo literário, o cineasta dinamarquês, Lars van Trier filmou Dogville (2003). O filme tem como cenário uma vila americana no período mais duro da crise. Ao contrário dos dois artistas anteriores, Lars van Trier lança um olhar mais fundo na realidade humana, e desconstrói, as imagens de vitimas dos desgraçados da depressão que em seu filme diante da possibilidade de aquisição de algum poder tornam-se, sem reservas nenhuma de humanidade, odiosos algozes, capazes das piores barbaridades, como as de escravizarem (física e sexualmente) uma jovem refugiada em sua vila. Enfim, um olhar distópico da natureza humana que mesmo em face da mais triste realidade, e vitimas das piores condições, ainda assim são capazes de baixar ainda mais a sua condição de civilizado e desmentir todas as boas impressões que a arte tenta constituir desse indivíduo.  

Caetano Veloso- Elegia 1938 (Carlos Drummond de Andrade)

Desalinhado

Foto: Diane Arbus, 1970
.

O riso, segundo Bergson tem um papel social. Ele é aplicado em várias situações. Uma delas é contra inadequação de conduta de um indivíduo em relação ao comportamento dos outros. Para suavizar essas tensões é preciso maleabilidade do caráter e adesão à certa “elasticidade que nos dê condições de adaptar-nos ao mundo”.

“Toda rigidez do caráter, do espírito e mesmo do corpo” nos diz Bergson “será então suspeita para a sociedade, por ser possível sinal de uma atividade adormecida e também uma atividade que se isola, e tende a afastar-se do centro comum em torno do qual a sociedade gravita, de uma excentricidade enfim. E, no entanto a sociedade não pode intervir nisso por meio de alguma repressão material, pois ela não está sendo materialmente afetada. Ela está em presença de algo que a preocupa, mas somente como sintoma – apenas uma ameaça, no máximo um gesto. Será portanto, com um simples gesto que ela responderá. O riso deve ser alguma coisa desse tipo, uma espécie de gesto social”. 

Ao cabo de ler esse excerto, do monumental trabalho sobre o Riso de Henri Bergson, sou tomado pela consciência de que, não possuo, seguindo um conceito bergsoniano, elasticidade necessária para integrar-me ao pacto social vigente. E estou, portanto, sentenciando às fileiras dos homens que sofrerão todo tipo de escárnio em represália a não adesão “ao centro comum em torno do qual a sociedade gravita”. 

É preferível o riso dos tolos, a aderência a esse mundo de estupidez. Uma virada nas páginas de jornais, uma mirada na televisão bastam para qualquer espírito sensível recusar alinhar-se o que quer que seja nesse mundo. Ante tantas provas de esterilidade do cotidiano, aderir sem resistência às frivolidades e baixezas de uma vida contingencial, só para não correr o risco de sofrer com o escárnio dos patuscos de sempre, é inaceitável.  Diante das reais vergonhas que se pode sofrer, ao aderir ao mundo, o riso alheio é preço muito pequeno a se pagar.

A Espanha cabralina

O ferrageiro de Carmona


João Cabral de Melo Neto

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
"Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor

Se flor parece a quem o diga.

La Giralda

.
Diga o que disserem os apologistas da modernidade, mas pra mim a verdadeira engenhosidade humana está na disposição em explorar seus limites e reinventar formas sempre novas de recriar o mundo sem abdicar do espírito artístico. Quando observamos esse lugar e o comparamos com os espigões que se dão ao olho em espetáculo da capacidade humana moderna, vemos que em nada ele fica a dever aos feitos do presente, ao contrário, sugerem, dadas as limitações da época e harmonia dos detalhes, uma inegável impressão de superioridade.
.

Alberto Korda - As Imagens de Cuba

Alberto Korda - La Nina de la Muneca de Palo. La Havana, Cuba, 1959.
.
Fidel Castro en el ojo de Alberto Korda
.
Mitin en la Habana. Alberto Korda
.
.
.
.
.
.

Há, entre todas as imagens aqui destacadas, uma que destoa das demais. É a última. O garoto com dedo em riste toma o lugar do líder que na imagem assume uma posição nova na ordem história de sua vida: ele ouve e não é mais ouvido. Sua autoridade está temporariamente suspensa, não se impõe mais. A inversão de papéis, sugerida pelo “instante decisivo”, captado com maestria por Alberto Korda, dar-nos outra inquietante ideia do líder, que inspirava as massas movendo apenas - ironia da foto - um único dedo. A paralisação do tempo, no instante em que a cena se dá, corrompe todas as ideias anteriormente construídas sob a figura do homem forte, do guerrilheiro, aqui fragilizado, pelo ato inesperado de uma criança. A julgar pela posição de Korda na Revolução Cubana, essa imagem revela-nos que, ante as intuições artísticas, todo ato ideológico trai a si mesmo. 

A construção de um ícone

´
.
Encontrei essa foto no Google. Ela não está creditada. Porém imagino que seja do cubano Alberto Korda. Ele foi o fotógrafo oficial da Revolução Cubana e autor da icônica Guerrillero Heroico, foto de Che Guevara, que ainda hoje estampa bandeiras em manifestações de revoltas por todo o mundo. Mesmo não tendo pegado em armas durante a Revolução, Korda ajudou a construir a imagem mítica de liderança de Fidel Castro e dos demais guerrilheiros que derrubaram a ditadura de Fulgêncio Batista. O registro de uma câmera sugere o famoso ensaio, Sobre a Fotografia, da americana Susan Sontag, produzem muitos efeitos. Ao tempo em que fornece um testemunho de que as coisas realmente aconteceram, ela também pode: incriminam, distorcer a realidade, idealizar, mitificar ou agir como um instrumento de desagravo. Apesar da presunção de veracidade que confere autoridade de que alguma coisa realmente aconteceu, uma imagem pode ser muito mais do que ela apresenta na superfície. Ao preferir uma cena à outra, ao enquadrar um instante ao em vez de outro, o fotografo induz a maneira de se ver uma realidade e solicita do espectador certa solidariedade àquilo que está sendo retratado. A emblemática imagem que ilustra esse post simboliza, inconscientemente, esse efeito do líder destemido, construída através das imagens produzida por Korda de um Fidel em atos heróicos e que inspira coragem e destemor. Ao mesmo tempo em que diverte as massas, como um comum, o Fidel de Korda, exterioriza sua liderança em gesto que induz a representação do poder em face às adversidades. Uma metáfora de sua condição irrevogável de rebatedor das adversidades cubana, frente aos ataques do inimigo. A presunção de desinteresse sugerida pela cena torna o trabalho fotográfico de Korda um ato de genialidade. Espelhando aqueles ritos sociais que tornam a fotografia um passatempo familiar despretensioso, Korda construiu uma imagem prosaica, mas de fundo inteiramente ideológico, sem parecer, no entanto, panfletário. A sedução dessa foto, seu poder sobre nós, reside no fato de que ela nos oferece uma dramatização, mas induz no subterrâneo do gesto e no enquadramento da cena, de modo sub-repticiamente, a pensarmos que a realidade, enfeixada por uma câmera, dependendo do ângulo de mirada do incauto, esconde intenções indizíveis.