Querendo meter alguma ordem à minha
cabeça para fazer de meu voto uma coisa útil, esforcei-me em ouvir os
candidatos à presidência. Assisti debates, li acusações e contra-acusações.
Avaliei propostas, pesei históricos, mas, mais do que isso, observei nos
candidatos, seu comportamento de campanha. Do que vi e li restaram-me a
convicção de que dissimular, enganar, fingir e fechar os olhos aos defeitos da
sujidade dos partidos, a ponto de apreciar e admirar grandes vícios como
grandes virtudes, foram as ações mais vitoriosas nessas eleições.
Renúncia
Foto: Lucien Clergue, 1965
.
"Fiz a aprendizagem da minha
condição e, com passividade absoluta, acatei leis antigas. Aprendi o meu papel
no casamento e na cama. Fui uma deusa morta, não uma mulher viva. Distribuí
sorrisos, fiz sopas, massas guisadas, bolos de erva-doce, lavei copos e pratos,
estendi cuecas, meias, lençóis; à noite, abri as pernas, arfei de cansaço e
aborrecimento, recebi o esperma conjugal, virei-me para o lado e adormeci. Mas
a máscara ainda não estava enterrada na carne do meu rosto. Numa noite de
Verão, raspei os nós dos dedos na parede até os ver sangrar, mordi os braços,
cuspi no espelho, arranquei a roupa do corpo e, assim nua, fugi. Uma
desconhecida encontrou-me no largo da aldeia, encolhida junto de um canteiro de
goivos. Levou-me para casa, lavou-me as feridas. Depois, sem nada perguntar,
explicou-me o óbvio: não há maior tragédia na vida de uma mulher do que a
renúncia; antes o desespero e a loucura."
Invocando imagens dolorosas, Ana Cássia
Rebelo, reclama um desfasamento da condição do feminino às práticas de
submissão a um modo de vida opressivo. Seus textos me
encantam. Sua escrita me desenfastia da realidade e me proporciona perspectivas
novas entre coisas mínimas.Como é bom lê-la. Como é bom encontrar
uma escritora de verdade.
Celebração a liberdade.
Walt Whitman celebrou em sua literatura
a liberdade, a espontaneidade, a rebeldia, o sofrimento, contra uma ordem
institucional dominada por valores hipócritas e uma racionalidade utilitária.
Mais importante do que o prazer, era a liberdade e a possibilidade de sermos
nós próprios nem que fosse à custa de sacrifícios e sofrimentos. Fernando
Pessoa, discípulo confesso de Whitman celebrou a sua lição com um poema
arrebatador que em tudo dignifica os ensinamentos do mestre.
SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN
(...)
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali
sentir de mais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos
encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e
mecânica
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou
se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus
versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça p’ra baixo, pendurado numa espécie de
estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inacessível.
Abram-me todas as portas!
Por força que hei-de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu franzino e civilizado, meto dentro as
portas,
Porque neste momento não sou franzino nem
civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso,
querendo passar,
E que há-de passar por força, porque quando quero
passar sou Deus!
Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui p’ra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes,
souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá
a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!
Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao
fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo,
deixa-me ir...
É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra
Infinito...
Prá frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar
com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer
coisa,
Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com
isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o
corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por
baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai
bater,
De me (...)
De ser a cadela de todos os cães e eles não bastam,
De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade
tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o
acabado,
E tudo para te cantar, para te saudar e (...)
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os
astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
E (...)
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstracta do corpo fazendo maelstroms na
alma...
Arre! Vamos lá prá frente!
Se o próprio Deus impede, vamos lá prá frente... Não
faz diferença...
Vamos lá prá frente
Vamos lá prá frente sem ser para parte nenhuma...
Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa?
Pum! pum! pum! pum! pum!
Agora, sim, partamos, vá lá prá frente, pum!
Pum
Pum
Heia...heia...heia...heia...heia...
(...)
Desobediência civil
O demencial modo de vida americano, calcado
no trabalho para o consumo (incensado como modelo de civilização e querido por
todas as sociedades modernas) teve em Henry David Thoreau a mais franca das
oposições. Sobre os escritor de Thoreau basta dizer que influenciou o
pensamento pacifista de Gandhi e fundou as bases da consciência ambiental
contemporânea. Seu livro - Walden ou, A Vida nos Bosques - é um manifesto
contra a sociedade industrial e um libelo contra o consenso do American Way of
life. Leitura obrigatória para quem pensa o mundo sem porteiras.
"Fui para os bosques viver de livre vontade,
Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não
vivi!"
— Thoreau
O código
Foto: Gordon Parks, Alunos muçulmanos,
Chicago, Illinois, 1963.
.
As privações não aparecem na fotografia;
as hierarquias não aparecem nas fotografias; as pessoas não aparecem numa
fotografia, apenas vemos os corpos sujeitos a um código; mas as sugestões
virtuais desses corpos podem bem ser induzidas pelo fotografo a instigar a
imaginação, a visão das privações, hierarquias e outros tantos males. Numa
época em que as imagens se tornaram quase que onipresentes me interessa a
fotografia menos como documento histórico, álbum de família e registro
narcisistas. Interessa-me mais a fotografia enquanto enigma.
O popular no erudito
.
Em todas as épocas, a cultura popular
nutriu com um veio riquíssimo o manancial que alimentou a genialidade de
grandes poetas e artistas de todo o mundo. Do Renascimento com Rabelais,
Shakespeare, Cervantes, passando pelo Neoclassicismo inspirado nos mitos
gregos, do Romantismo até o Modernismo nenhum movimento literário ignorou as
contribuições da cultura popular. Incorporando elementos do folclore e da fala
regional, fundindo imagens originais, ritos e lendas, a literatura dos grandes
mestres perenizou as grandes manifestações culturais e de quebra vitaminaram
com a força da imaginação venerável dos povos, a sua própria literatura. A
recente reedição das obras completas do gaúcho Raul Bopp atesta a força da
cultura popular e sua permanência na cultura como um todo. Bopp é autor do
poema épico Cobra Norato (1931), inspirado em uma das mais conhecidas lentas do
folclore amazônico. Esse poema, segundo Drummond, é um dos grandes projetos
poéticos do modernismo Brasileiro. Alguns atribuem a ele o feito de ligar o
movimento Modernista ao restante do Brasil.
As lições de Ulisses
.
O dramático retorno de Ulisses à Ítaca é
cheio de reveses. Tendo vencido todos, ele ainda haverá de enfrentar o maior
deles, a reconquista de sua casa assediada por forasteiro que cortejam a sua
esposa. Disfarçado, pelas razões que todos conhecem, ele terá que provar quem é
para retomar o seu posto. E a que expediente ele recorre para fazer isso? Ele
invoca o passado. É a sua vida pregressa ao cerco de Troia, às suas memórias de
infância, as experiências de vida ao lado de sua mulher que o permitirão
penetrar na sua terra e lhe assegurar as últimas vitórias sobre os usurpadores
de seu trono. A sua velha ama reconhece-o graças a uma cicatriz que tem desde
criança, Penélope reconhece-o devido a um segredo que só eles partilham a
respeito da construção da sua cama, o pai reconhece-o quando o filho começa a
nomear os nomes das árvores que aquele lhe ensinou quando era criança. E não
esqueçamos Argos, o seu fiel cão. As aventuras de Ulisses partilham conosco a
ideia de que a construção sólida de um futuro está intimamente ligada a
valorização e reconhecimento de nosso passado. Haverá sempre um perigo a nos
rondar cada vez que nos esquecermos do nosso passado. A nossa identidade, o
nosso sentido de futuro está assegurado pelas memórias que temos de nossa vida.
Perder a memória é perder o sentido de quem somos. Sem isso não poderemos jamais
imaginar para onde vamos e qual o propósito de nossa vida. Além disso, nossa
terra estará sempre assombrada por ameaçadores intrusos sempre dispostos a nos
deliberar os caminhos de nossa existência. Só há uma maneira de defendermos a
nossa terra, tomar posse de nossas memórias e assegurar a sua perpetuação.
A Metamorfose em versão de cordel
A releitura de João Gomes de Sá vai além das
preocupações com a forma. Aliado à melhor tradição poética da literatura de
cordel, que tem em Leandro Gomes de Barros seu maior expoente, Gomes de Sá,
consegue recriar a atmosfera claustrofóbica e de emparedamento dos homens em
meio às exigências de um mundo insensível e cada vez mais desumano.
Que profissão cansativa
Remuneração ruim!
Eu vou pedir demissão
Senão será o meu fim!
Mas não faço esse pedido,
Pois tenho compreendido:
Todos dependem de mim!
(...)
É o desafio maior
Viver em sociedade,
Pois todos vivem somente
A individualidade,
Sobretudo quando o ter
Se sobrepõe sobre o ser
Assassinando a igualdade.
Digna de nota também é a insubmissão do autor Gomes
de Sá ao texto original. Com a convicção de quem sabe que nenhum texto adaptado
é inteiramente fiel à sua fonte, ele toma a liberdade de intervir na história,
dando a ela uma pitada de Nordeste ao que ela tem de árida e insólita. Vejam
como exemplo a estrofe em que o personagem Gregor Samsa, em um pequeno
vislumbre de liberdade, sai de sua angústia física da única maneira que lhe é
possível: pela imaginação.
Com cuidado especial,
Deixou a imaginação
Viajar por muitos mares,
Cidade e também sertão.
Comentou: — Não há imposto
Para impedir o meu gosto
De voar na ficção.
Essa releitura é obrigatória para todos os amantes
da boa literatura.
A Divina Comédia em versão de cordel
Ao abordar temas tão
diversos como religião, sociedade, política e moral, a obra de Dante tornou-se
uma fonte inesgotável para pintores, escultores, músicos e muitos outros
artistas. Tão variados quanto os temas são as versões que já se fizeram até
aqui dessa obra. Já era hora de esse clássico universal ganhar, também, a sua
versão em cordel. Essa tarefa foi abraçada pelo poeta Moreira de Acopiara,
artesão das palavras, que encanta e diverte semeando versos como quem planta um
jardim de emoções.
Moreira de Acopiara nos
conduz pela odisseia de Dante, desbravando as regiões do Inferno e Purgatório,
até alcançar o Céu, onde é aguardado por sua amada Beatriz. O início da obra
ocorre com os versos que descreve o poeta Dante, desorientado e frustrado,
depois de muito caminhar pela vida:
Pelos caminhos da vida,
Depois de tanta procura
E frustrações que deixaram
Minha alma em grande amargura,
Me encontrei perdido um dia
No meio de selva escura.
Acossado por feras,
Dante é resgatado por Virgílio que o conduz pelo Inferno e Purgatório até o
entregar a “espírito mais digno”. Inquieto, Dante quer saber por que Virgílio
saiu de sua morada etérea para socorrê-lo nesse momento de amargura:
Disse Virgílio: “Não temas,
Pois se vim em teu encalço
Foi mandado pelo amor
Que não consegue ser falso
E só deseja livrá-lo
Do perigo e do percalço.
Definitivamente, essa é uma obra imperdível.
Genuflexão
De dois em dois anos os políticos, assim
como Baco iluminado na pintura de Velásquez, saem de seus palacetes e concedem
à malta o privilégio de sua companhia. Fingem-se dos mesmos, mas a áurea
diáfana que os encobre, também os resguarda da imundície do mundo a sua volta.
Muitos, solicitam os seus afagos, na vã esperança de terem assim - colhidas as
migalhas do banquete - serenado a sua miséria pessoal.
Pintura: Diego Velasquez | O Triunfo de
Baco ou Os Bêbedos, 1626-1628.
Kafka para presidente
O corrida
eleitoral já começou. Daqui a instantes seremos alvejados por discursos
prometendo mundos e fundos. Estou exausto disso. A política nacional me enoja. Os
jogos de poder, engendrados na máquina política, têm sobre mim um efeito misto
de ódio incontido e desprezo perpetuo. Mas sou um
cidadão compassivo. Acredito no voto como uma força capaz de tudo contornar. Não
deixarei de exercer o meu poder e em outubro lançarei o meu protesto. VOTAREI
EM KAFKA para presidente.
Elogio às Bibliotecas
.
Entendo que as pessoas apreciem e até exaltem as livrarias. Elas são realmente maravilhosas. Mas acho que o melhor lugar para formação de um leitor se encontra nas bibliotecas. Bibliotecas que lamentavelmente sofrem de desprestígio constante. As pessoas reclamam que não leem,
por não terem livrarias em suas cidades, quando essas estão cheias de
bibliotecas. Enquanto as livrarias fetichiza o livro numa relação comercial, as
bibliotecas dispensam essa dependência e se dão de forma mais intima e
gratuita, estabelecendo o que me parece ser um vínculo mais pura e genuíno com
o livro. Nas bibliotecas os livros deixam de ser um objeto avaliado pelo valor
e passa a integrar com o leitor uma relação de afeto que dura toda a sua vida.
Fotos: Recém inaugurada Biblioteca José e Gita Mindlin.
Na fachada da biblioteca está uma frase de José Mindlin que diz: "NÃO FAÇO NADA SEM ALEGRIA". Bela lição.
Fotos: Recém inaugurada Biblioteca José e Gita Mindlin.
Na fachada da biblioteca está uma frase de José Mindlin que diz: "NÃO FAÇO NADA SEM ALEGRIA". Bela lição.
Da América
Susan Wood - Beat Poetry Reading, 1955.
.
Henri Miller dizia que a força de uma nação poderia ser muito bem medida pela estima desta aos seus escritores. O reconhecimento e a valorização dos escritores vitaminam uma civilização. Seria esse o caso da superioridade Americana sobre o restante do mundo? Provavelmente. Assistindo ontem ao documentário sobre o pensador Alceu Amoroso Lima, me chamou a atenção um relato de seu filho. Em viagem aos EUA o filho do pensador católico, visitou a biblioteca de Nova Iorque para pesquisar a existência de livros de seu pai. Surpreso ele encontrou 79 entradas para o nome Alceu Amoroso Lima, número muito maior de título encontrados em qualquer biblioteca brasileira. Ninguém no Brasil fica vexado com essa informação. A precariedade na distribuição de livros, associado ao sucateamento de nossas bibliotecas, bem como a falta de reconhecimento da literatura como um valor, tranquilizam as consciências sobre esse dado vergonhoso. Curioso de saber um pouco mais sobre o apreço dos Americanos pela literatura corri ao site da biblioteca de Nova Iorque e comprovei a informação do filho de Alceu Amoroso Lima. 79 entradas para o nome pesquisado. Fui mais longe um pouco e busquei o nome do poeta, folclorista e professor Marco Haurélio. 4 entradas para o nome do escritor. Muitas cidades baianas deveriam se envergonhar com essa notícia que é sinônimo de prestigio para o poeta.
O Olhar além do olhar
Foto: Martin Munkácsi, Diego Rivera e Frida Kahlo - México 1933.
.
Espreitar ao lado, olhar ao longe.
Talvez sem querer Martin Munkácsi em sua fotografia tenha não apenas retratado
os maiores expoentes da pintura moderna Mexicana, mas também interpretado suas
personalidades tão diversas. Diego na foto encara violentamente o espectador.
Não finge ausência ou esquiva-se à presença do outro, dar-se por inteiro e
diretamente. Dir-se-á que tem fome no olhar, desejo pantagruélico da realidade.
Mira, portanto tudo a sua volta com a curiosidade de um menino que ver pela
primeira vez o outro e se espanta. Já Frida repousa seu olhar longe. Mira o
futuro o porvir. Talvez pressinta que sua época é outra. Ou talvez enxergue
melhor por intermediárias retinas a dura realidade que a assombra sobre os
ombros.
O Poeta enjaulado
O Relógio
Ao redor da vida do homem
há certas caixas de vidro,
dentro das quais, como em jaula,
se ouve palpitar um bicho.
(...)
João Cabral de Melo Neto
Corre a notícia de que ele era
refratário aos transbordamentos dos sentimentos. Creio em parte. Sua forma
poética bem regulada e contida, por vezes sugere essa impressão. Mas ela só
ocorre ao leitor desatento. Ao leitor acostumado. Ao leitor novilho. O leitor
cabralino é de outra ordem. É alguém que se detém a palavra e não escorre por
ela.
Seremos eternamente gratos a João Cabral
por tudo o que ele representou para a nossa poesia.
A verdadeira política nacional
“Sarney tem história no Brasil
suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”.
Luiz Inácio Lula da Silva
Chico Buarque - Jorge Maravilha
.
E
nada como um tempo após um contratempo
Pro
meu coração
E
não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando,
resmungando, até quando, não, não, não
E
como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe
de razão
Mais
vale uma filha na mão
Do
que dois pais voando
Você
não gosta de mim, mas sua filha gosta
Você
não gosta de mim, mas sua filha gosta
Ela
gosta do tango, do dengo, do mengo, domingo e de cócega
Ela
pega e me pisca, belisca, petisca, me arrisca e me enrosca
Você
não gosta de mim, mas sua filha gosta
E
nada como um dia após o outro dia
Pro
meu coração
E
não vale a pena ficar, apenas ficar
Chorando,
resmungando até quando, não, não, não
E
como já dizia Jorge Maravilha
Prenhe
de razão
Mais
vale uma filha na mão do que dois pais sobrevoando.
A salvação pelo consumo.
A sedução dos discursos
consumistas enfeitiça de tal modo a vida, que as pessoas que não se enquadram
no “esquema” da felicidade materialista, são vistas como antissociais,
fracassadas e pintadas com qualificativos pouco nobres. Hoje em dia é quase um pecado
mortal, a recusa aos apelos mercadológicos propagandeados pelos médias. O herético que professe o credo na
descrença da salvação pelo consumo, vive as mesmas penitências dos pobres
lançados à fogueira por rejeitarem a mentira como verdade. Não se
admite, sob qualquer argumento ou peso dos fatos, a possibilidade de se viver de
maneira tal, que nenhuma dessas coisas: carro, celular, roupa de grife e outros
banlangandas, tenha qualquer valor de dignificação do homem, como querem fazer
crer os incautos adoradores dos produtos da moda.
Herberto Helder
Li
algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando
alguém morria perguntavam apenas:
tinha
paixão?
quando
alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se
tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo
talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo
corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão
pela paixão,
tinha?
e
então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se
posso morrer gregamente,
que
paixão?
os
grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os
grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens
e mulheres perdem a aura
na
usura,
na
política,
no
comércio,
na
indústria,
dedos
conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos
objectos entrando e saindo
dos
dez tão poucos dedos para tantos
objectos
do mundo
e
o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode
manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e
fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra
soprada a que forno com que fôlego,
que
alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem
de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham
muito alto a música e que eu dance,
fluido,
infindável, apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os
cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão
e
eu me perdesse nela
a
paixão grega.
Herberto
Helder
O cinema de estribo, arreio e algo mais.
Quem
se fia num filme, apenas porque esse tem mancebos de cabelos bem cortado, como
manda a última moda, ou conta histórias sacarinas; nunca chegará a compreender
o western, pois esse se mede menos por personagens empertigados e mais por
questionamentos das configurações padrões de pensamento que nos encarcera a
todos. O western é o gênero cinematográfico que transcendeu os limites de sua
habitual perspectiva e se elevou ao patamar filosófico ao nos apresentar
histórias em que os conflitos humanos mais mesquinhos: o suposto furto de gado
do vizinho, a descrença dos amigos e amores na coragem de quem aparenta
fragilidade; a recusa de sair de sua terra por força do dinheiro fácil e outros
encerram o que verdadeiramente importa aprender ou julgamos importante aprender
sobre cultura, conflitos morais, política, coragem, superação, valores sociais
e muito mais. Western é o cinema que encarna todas as dimensões humanas em um
microcosmo para fazer deste uma reflexão profunda das potencialidades inéditas
do homem.
Inquirição
Todos
os dias quando vou para faculdade um Outdoor no telhado de uma empresa química,
em meio a fuligem das chaminés me inquire em letras maiúsculas: VOCÊ JÁ PECOU
HOJE?
Todos
os dias a resposta é a mesma.
Disfarçado
de moralidade as religiões empreendem a conquista de rebanhos mansos aos currais
do céu.
As invasões bárbaras
Na
época em que o cinema, ainda não havia sido colonizado por vampiros com espinhas no
rosto, aprendizes de bruxaria e outras merdolas, podia-se desgastar os olhos
nas salas escuras, sem temor de ter com isso, comprometido também, outras partes do corpo.
170 milhões infringidos goela a baixo.
.
.
Não
foram apenas 170 milhões furtados do erário público, mas toda dignidade de uma
nação. Bem não de toda, uma parte dela que mais uma vez se sentiu empalada. Um
nada – dirão alguns para justificar a sua leniência - comparado a tantas outras
violências históricas a que fomos submetidos. Por que então nos preocuparmos
com isso? O melhor mesmo é abrirmos a temporada de troça às artistas globais,
para assim neutralizarmos a vergonha das pretensões ideológicas no balaio da
irreverência popularesca. O manual de más posturas sociais, aberto a todas as
bandeiras ideológicas, uma coisa bem brasileira, ganha assim dia-a-dia
capítulos novos. O que não nos falta são colaboradores para essa prodigalíssima
empresa.
Os infringentes ou a impunidade coroada no país moralmente mais vergonhoso do mundo
.
O
verborrágico pronunciamento do ministro Celso de Mello com abordagens matizadas, ambíguas e favoráveis aos apelos dos CORRUPTOS ao uso de recursos ad infinitum, quando acossados pela justiça, reforçou a ideia geral
do povo que, para alguns abençoados brasileiros, o mundo é um lugar sem culpa e
sem repressão.
Ao
considerar a letra fria da lei como juízo a ordem, e fazer vista grossa aos apelos, dos que
ele chamou de: “excessos da maioria contingente”; o magistrado ignorou como é
costume em casos que envolvam grandes figurões em questão no banco dos réus, a emergência
de uma sociedade que repudia e repreende os delinquentes, sejam eles membro da
mais alta casta existente na sociedade, ou não.
Mas
o pior de tudo em seu pronunciamento foi a insensibilidade e o desprestigiar à ideia
do povo nas ruas. As grandes transformações sociais só ocorreram com o povo nas
ruas. Não perceber isso é um desplante. A tese de que a lei deve agir sem
paixões, invocada pelo ministro, não esconde que há sempre nos argumentos jurídicos,
quando em causa a liberdade de raposas, uma maneira de manobrar as necessidades
com o tacão da lógica ilusória. É realmente temeroso acolher os sentimentos de
ocasião, mas esse não era o caso. O voto de outros ministros dava sustentação jurídica
à recusa dos embargos infringentes e a histórica sensação de justiça devida ao
povo legitimava a liquidação da fatura dos mensaleiros.
O
ordenamento social histórico, com base no abrandamento entre as normas e a
conduta, tão típicos no país, acabou, por fim de duas horas de pronunciamento, realinhados
para permitir aos marginais no poder todas as garantias e favores da lei. Ao
povo restou o sentimento de fracasso na luta contra os malfeitores de plantão,
que em algum gabinete ou secretária ministerial muito bem confortável em sua
impunidade e ar-condicionado tramam novos planos de poder.
Verdade e Pintura - a arte desmaquilada de Lucian Freud
Pinturas do artista Lucian Freud
.
Posso
até entender a recusa de alguns em aceitarem essas pinturas como belas. De fato
há nelas algo suspeitoso dessa ideia. São corpos macilentos, que se tornaram desvitalizados
e parecem antes, prever a morte. O sentimento provocado, não é de deleite, mas
deceptivo. A beleza que elas anunciam é de outra esfera. Elas habitam outra
ordem de valores, a da revelação, poderias até dizer, do desmonte de ideias. Um
tipo de beleza cujos critérios comuns de julgamento, não condizem com os
esperados modelos estabelecidos: harmonia das formas, rigidez da carne, assepsia
da pele e outros. Ao contrário, residem no fato de assumir certa contrariedade
a esses modelos, e revelar homens e mulheres em sua natureza distopica. O
artista procura certa verdade que insistimos, através de ardis e maquilagens,
em negar a existência. A beleza, portanto, está na revelação falhada da
natureza humana, e não nas formas esperadas e desejadas, muitas vezes puras
enganações.
Narcisistas ou quando existir é uma angústia
Foto: André Gelpke, Christine au miroir, 1976
.
Somos tão violentamente
forçados a convivermos com imagens de realidades idealizadas, que não conseguimos
nos encarar diariamente sem certos queixumes ao que de natural e incontornável há
na natureza humana. Envelhecer virou um pecado. Ostentar rugas que já foi um
sinal de respeito, hoje é um inequívoco índice de derrotismo e sinal de
decadência. Tudo isso pode ser facilmente, segundo o credo publicitário, redimido pelo consumo de cremes, dietas,
roupas de grife, perfumes caros, carros, celulares, tintura, botox, e tantas
outras fantasias encapsuladas. Enredado pelo discurso persuasivo da publicidade
enganadora dos médias, traímos nossos
mais puros valores e socorremos nossa auto-imagem do escárnio público,
recorrendo aos artifícios cosméticos propagandeado como solução mágica de todas
as nossas angustias e infelicidade. A publicidade, com seus artifícios de prestidigitador,
nos seduzem com uma imagem destorcida de nós mesmos, para depois nos vender a solução definitiva contra
os males de existir.
A fantasia da beleza
Foto: Alfred Stieglitz
.
A mulher que oferta, ao
espectador anônimo, o seio em branco e preto, traz também na face um olhar de indisfarçável
enfado. A oferenda, portanto parece resignada. Mas não é a antítese que me atrai.
E sim sua despreocupação em transmitir uma visão idealizada, glamorizada da
figura feminina. Não há uma tentativa aqui de suprimir as imperfeições, tão
desejadas no mundo de hoje. Elas, ao contrário, são convocadas e expostas sem
pudor. O cabelo desgrenhado, o olhar macilento, que prenuncia antes o
sofrimento represado do que a chama vicejante da juventude, os seios murchos, a
roupa indefinida, mostram uma despreocupação em maquilar a mulher e redimi-la
das inevitáveis agressões do tempo. O ideário aqui é outro. E, no entanto, essa
imagem, que não nega os sucos do tempo, nem se preocupa em artificializar a
beleza, ainda assim é bela em sua sujidade realista. O caráter da beleza talvez,
como sugere a imagem, não esteja numa atitude postiça, mas sim em certa
sinceridade realista que não nega da vida as suas impurezas e imperfeições.
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