Rir de nós mesmos

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A prova de que a melhor forma de driblar nossas deficiências é rir delas.

Quem de dentro de si não sai.

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"Quem de dentro de si
Não sai!
Vai morrer sem amar
Ninguém!" (...)


A casta a qual pertence o poetinha, é a dos que tecem variações inúmeras sobre um mesmo tema. O amor e seus desenganos, o amor e suas alegrias, o amor e sua perdição, o amor e suas dores, o amor e seus muitos usos e desusos. O lirismo poético de Vinicius de Moraes constitui um dos contributos mais importantes à nossa poesia.

Estado mínimo

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O cartaz acima é uma propaganda Nazi defendendo a eutanásia de deficientes. Diz a mensagem: "Esta pessoa, sofrendo de anomalias hereditárias, custa à comunidade 60 000 marcos. Compatriota, este dinheiro também é seu". O apelo ao bolso dos "compatriotas" parece justificar o ato de extermínio daqueles que ao invés de contribuírem para máquina do Estado, tornam-se desde sempre (lembre-se que a propaganda insinua que pessoa em questão sofre de anomalias hereditárias) um fardo àqueles que supostamente produzem.

Não posso deixar de ver nessa propaganda e nas mensagens daqueles que apostam no Estado Mínimo um paralelo. Esses como aqueles ignoram o fato de que o Estado existe em função da sociedade e que essa tem obrigações humanas e não materiais.


Nas redes sociais temos visto mensagens contrárias ao Bolsa Família, contra a Reforma Agrária, a contratação de médicos para população desassistida do Estado nos lugares mais recônditos do país e a entrega dos presídios públicos à iniciativa privada. Sob a alegação de que essas ações oneram de forma ineficiente o Estado está na verdade a preocupação mesquinha e bestial de defesa de seus interesses econômicos.

Questionar

Artístico é aquilo que nos encoraja a questionar aquilo que tínhamos como inquestionável.
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Regozijar-se com meras sombras de verdades

Foto: Cartier-Bresson

Estive há pouco peregrinando por uma sítio em que jovens escrevem de tudo um pouco, música, cinema, literatura e outros standard culturais. Até aí não há nada demais nisso. Uma massa de veículos democratizou os canais de comunicação e desde então estamos todos externando opiniões como se de repente descobríssemos com incontinência verbal. 

O curioso é que essa pretensa liberdade de expressão, garantida pela massificação dos meios de comunicação, não foi capaz de estimular alguns jovens a enxergar o mundo além das focinheiras da Indústria Cultural. Por todo site o que vi foi a celebração do mundinho bovino das pretensões artísticas de pseudo-estrelas hollywoodianas, cujo único talento é servir de produto descartável a uma indústria. 

Claramente o mundo desses adolescentes lembra aquele dos simiescos homens encarcerados de Platão, cuja visão do mundo era aquela apenas refletiva nas paredes das cavernas que habitavam, regozijando-se com meras sombras de verdades.

Dos encantos

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O mundo seria um sítio tristonho se não houve tantos encantos.

A banalização da morte

Pintura: Paul Delaroche, A execução de Lady Jane Grey
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A indiferença do carrasco contrasta com toda gravidade do ato que a pouco se precipita. Para ele é só mais um dia tedioso de trabalho. Como a morte pode ser assim banalizada?

Um dia triunfal

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Conta Pessoa em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro que no dia 8 de Março de 1914 lhe aconteceu o seguinte:


"acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre."

Suportar a vida

A vida é mesmo em alguns momento insuportável, e de fato como pensava Fernando Pessoa, a arte não só ameniza esses momentos, como ainda insinua ser possível encontrar entre os escombros da vida um significado plausível para continuar existindo.

Arquiteto supremo

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Estou agora a julgar, que talvez, sim, exista um arquiteto supremo.

Fernando Pessoa

Foto: Clarence White, Mãe e filho.
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Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


Alberto Caeiro, Poema XXVI

Você não morre, José

Foto: Maureen Bisilliat
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(...)
Mas você não morre,
você é duro, José!
(...)

Na contramão

Não sei de que lado estou nesse mundo. Se há coisa que não me seduz é marchar pari passu com quem quer que seja.
Foto: Cartier-Bresson

Seguir em frente

Se a vida umas vezes corre bem e outras correm mal, não há então porque desesperar-se.
Foto: Robert Mitchum

Dos amigos

Uns creem que o melhor amigo do homem é o cão, outros, como Vinicius de Morais preferem o Whisky (que o chamou de cachorro engarrafado), por meu turno, como não sou chegado a bichos e não me cai bem o álcool, tenho os livros na conta de amigos confiáveis.
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O novo que a gente principia

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(...)

—— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
—— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
—— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
—— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.


—— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
—— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
—— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
—— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
(...)


Morte e Vida Severina - J.C.

...

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As conveniências pessoais estão sempre desmentindo os arranjos sociais. Haverá nisso outro componente além da natural propensão humana à subversão?

Cinema e pintura




O cinema está cheio de belas fotografias. Fico rendido por filmes que por vezes nos fazem sentir diante de uma exposição fotográfica.

O timoneiro do mundo

“Timão: Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso! (...) Basta uma porção dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente. Ó deuses!, por que isso? O que é isso, ó deuses? (...) [O ouro] arrasta os sacerdotes e os servos para longe do seu altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabeça dos íntegros. Esse escravo dourado ata e desata vínculos sagrados; abençoa o amaldiçoado; torna adorável a lepra repugnante; nomeia ladrões e confere-lhes títulos, genuflexões e a aprovação na bancada dos senadores. É isso que faz a viúva anciã casar-se de novo (...). Venha, mineral execrável, prostituta vil da humanidade (...) eu o farei executar o que é próprio da sua natureza”.

William Shakespeare, in "Timão de Atenas"


Sempre achei que a literatura não fosse apenas o repositório de vaidades de alguns homens tentando mostrar virtudes linguísticas, mas que por trás do estético algumas verdades e gestos humanos se descortinassem. Todas as vezes que leio um livro tenho em conta que o real é fantasioso, maquiavélico, embrutecedor, farsante. Como disse o peruano Mario Vargas Llosa há mais verdades nas mentiras da literatura do que no mundo. Alguns usam a literatura como pura recreação despretensiosas. Intentam assim uma fuga às suas angustias e pesadelos. Eu não ignoro essas qualidades, mas a mim elas são bem mais diversas.

Os gargalos da cultura

Dados do Ministério Educação afirmam que 79% dos municípios brasileiros possuem bibliotecas públicas municipais. Hoje, 420 municípios não contam com bibliotecas. Iniciativas da Fundação Biblioteca Nacional diminuíram a ausência de bibliotecas no país. Nas escolas, a situação é outra. De acordo com informações do Ministério da Educação, apenas 30% dos estabelecimentos de ensino fundamental no País possuem espaços que funcionam como biblioteca. Um vexame que acossa poucos políticos. Em Rio do Antônio encontrei um senhor que foi prefeito da cidade na década de 70. Atento as questões culturais o Senhor Deba mandou à Câmara de Vereadores um projeto de criação de uma Biblioteca no município que na época contava com pouco mais 5 mil habitantes. Vocês pode imaginar o rebu que a ideia causou. Os vereadores se recusaram a aceitar o projeto. Seu Deba então resolveu escrever ao Instituto Nacional do Livro (órgão que na época era coordenado pelo baiano Herberto Sales, autor do clássico regionalista, Cascalho) e ao presidente da República que era o ditador Emílio Garrastazu Médici, dizendo que no interior do país a Câmara de Vereadores da cidade se recusava a criar uma biblioteca que homenageava o presidente - a biblioteca se chamaria Biblioteca Municipal Médici. Não deu outra os vereadores quando ficaram sabendo da história se apressaram em aprovar o projeto do Seu Deba.

Quadras populares. O imaginário do povo na lírica poética.

No livro Lá Detrás Daquela Serra o folclorista Marco Haurélio recolheu uma dezena de quadras populares.

Minha mãe me deu uma surra
Sexta-feira da Paixão:
Não foi surra não foi nada,
foi café com requeijão.

Em Urandi, uma senhora de 86 anos, Dona Dete, conhece essa e outras tantas quadras recolhidas por Marco.

Reafirmando o poder inventivo do povo as quadras narradas por Dona Dete, mesmo abordando o mesmo tema que as quadras colhidas por Marco, revelam a natureza engenhosa do sertanejo que acrescenta, interpõe, assimila novos elementos as histórias ouvidas, dotando-as de novidades. Veja a quadra de Dona Dete:

Minha mãe me deu uma surra
com cipó de cansanção.
Não foi surra não foi nada
foi café com requeijão.

Há outra quadra com igual tema, mas com versão diferente.

Minha mãe me deu uma surra
com cipó de fedegoso.
Quanto mais ela batia,
mais eu achava gostoso.

O poderio Americano

Henri Miller dizia que a força de uma nação poderia ser muito bem medida pelo grau de importância que esta dava aos seus escritores. Uma civilização intolerante com os escritores estaria, pensava o escritor americano, fada ao fracasso. 

As artes, afirmava o autor de Trópico de Câncer, serve de antídoto contra as moléstias do despotismo e do autoritarismo. 

Tive uma mostra dessa ideia ontem assistia ao documentário sobre a vida do educador Alceu Amoroso Lima. A certa altura do filme, o filho do pensador católico recorda que em visita aos EUA passou pela biblioteca de Nova Iorque e pesquisou a existência de alguma obra de seu pai por lá. Obteve então incríveis 79 entradas para o nome Amoroso Lima. Surpreso, ele confessou que este número supera em muito o número de títulos desse autor em qualquer biblioteca brasileira. 

A superioridade Americana sobre o resto do mundo não pode ser medida apenas pela sanha beligerante. A vitalidade da América vem, em boa medida, de seu apreço e valorização à cultura como um valor potencializador de sua sociedade. 

Ninguém, em sã consciência é capaz de desmentir o filho de Amoroso Lima. Essa é uma dura verdade. O Brasil, ao contrário da América, sofre violentamente com a má distribuição de livros a toda população e com as péssimas condições das nossas bibliotecas os problemas tomam ares de insolúveis. O reflexo disso? Uma população semialfabetizada com sérios problemas sociais e pouca perspectiva de futuro. 

Enquanto a realidade por aqui é essa, na terra do Tio Sam livro é coisa séria. 

Mais uma mostra do gigantismo americano vi ao ler o trabalho do historiador Robert Darnton, O Diabo na Água Benta, livro que relata as ações de libelistas durante os reinados de Luís XV, passando pelo até a Revolução Francesa. Num dos relatos Darnton descreve a figura de um dos maiores envenenadores, mexeriqueiros e caluniadores que França oitocentista viu, Anne-Gédéon Lafitte, marquês de Pelleport. Autor de variados trabalho que expunha ao ridículo as grandes figuras da política francesa Pelleport foi preso e ficou trancafiado na Bastilha por quatro anos. Nesse período, conta-nos o historiador, Pelleport abdicou do relatos de escarnio contra as autoridades e se dedicou a escrever um romance autobiográfico sobre os libelistas franceses. E onde estava os únicos exemplares disponíveis para pesquisa desses livros? Na América, of course. 

Da des-esperança de dias melhores

Querendo meter alguma ordem à minha cabeça para fazer de meu voto uma coisa útil, esforcei-me em ouvir os candidatos à presidência. Assisti debates, li acusações e contra-acusações. Avaliei propostas, pesei históricos, mas, mais do que isso, observei nos candidatos, seu comportamento de campanha. Do que vi e li restaram-me a convicção de que dissimular, enganar, fingir e fechar os olhos aos defeitos da sujidade dos partidos, a ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, foram as ações mais vitoriosas nessas eleições. 

Renúncia

Foto: Lucien Clergue, 1965
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"Fiz a aprendizagem da minha condição e, com passividade absoluta, acatei leis antigas. Aprendi o meu papel no casamento e na cama. Fui uma deusa morta, não uma mulher viva. Distribuí sorrisos, fiz sopas, massas guisadas, bolos de erva-doce, lavei copos e pratos, estendi cuecas, meias, lençóis; à noite, abri as pernas, arfei de cansaço e aborrecimento, recebi o esperma conjugal, virei-me para o lado e adormeci. Mas a máscara ainda não estava enterrada na carne do meu rosto. Numa noite de Verão, raspei os nós dos dedos na parede até os ver sangrar, mordi os braços, cuspi no espelho, arranquei a roupa do corpo e, assim nua, fugi. Uma desconhecida encontrou-me no largo da aldeia, encolhida junto de um canteiro de goivos. Levou-me para casa, lavou-me as feridas. Depois, sem nada perguntar, explicou-me o óbvio: não há maior tragédia na vida de uma mulher do que a renúncia; antes o desespero e a loucura."

Invocando imagens dolorosas, Ana Cássia Rebelo, reclama um desfasamento da condição do feminino às práticas de submissão a um modo de vida opressivo. Seus textos me encantam. Sua escrita me desenfastia da realidade e me proporciona perspectivas novas entre coisas mínimas.Como é bom lê-la. Como é bom encontrar uma escritora de verdade.

Celebração a liberdade.

Walt Whitman celebrou em sua literatura a liberdade, a espontaneidade, a rebeldia, o sofrimento, contra uma ordem institucional dominada por valores hipócritas e uma racionalidade utilitária. Mais importante do que o prazer, era a liberdade e a possibilidade de sermos nós próprios nem que fosse à custa de sacrifícios e sofrimentos. Fernando Pessoa, discípulo confesso de Whitman celebrou a sua lição com um poema arrebatador que em tudo dignifica os ensinamentos do mestre.

SAUDAÇÃO A WALT WHITMAN

(...)
Nunca posso ler os teus versos a fio... Há ali sentir de mais...
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a actividade humana e mecânica
Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,
Ou de cabeça p’ra baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No tecto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do tecto da tua intensidade inacessível.

Abram-me todas as portas!
Por força que hei-de passar!
Minha senha? Walt Whitman!
Mas não dou senha nenhuma...
Passo sem explicações...
Se for preciso meto dentro as portas...
Sim — eu franzino e civilizado, meto dentro as portas,
Porque neste momento não sou franzino nem civilizado,
Sou EU, um universo pensante de carne e osso, querendo passar,
E que há-de passar por força, porque quando quero passar sou Deus!

Tirem esse lixo da minha frente!
Metam-me em gavetas essas emoções!
Daqui p’ra fora, políticos, literatos,
Comerciantes pacatos, polícia, meretrizes, souteneurs,
Tudo isso é a letra que mata, não o espírito que dá a vida.
O espírito que dá a vida neste momento sou EU!

Que nenhum filho da puta se me atravesse no caminho!
O meu caminho é pelo infinito fora até chegar ao fim!
Se sou capaz de chegar ao fim ou não, não é contigo, deixa-me ir...
É comigo, com Deus, com o sentido-eu da palavra Infinito...
Prá frente!
Meto esporas!
Sinto as esporas, sou o próprio cavalo em que monto,
Porque eu, por minha vontade de me consubstanciar com Deus,
Posso ser tudo, ou posso ser nada, ou qualquer coisa,
Conforme me der na gana... Ninguém tem nada com isso...
Loucura furiosa! Vontade de ganir, de saltar,
De urrar, zurrar, dar pulos, pinotes, gritos com o corpo,
De me cramponner às rodas dos veículos e meter por baixo,
De me meter adiante do giro do chicote que vai bater,
De me (...)
De ser a cadela de todos os cães e eles não bastam,
De ser o volante de todas as máquinas e a velocidade tem limite,
De ser o esmagado, o deixado, o deslocado, o acabado,
E tudo para te cantar, para te saudar e (...)
Dança comigo, Walt, lá do outro mundo esta fúria,
Salta comigo neste batuque que esbarra com os astros,
Cai comigo sem forças no chão,
Esbarra comigo tonto nas paredes,
Parte-te e esfrangalha-te comigo
E (...)
Em tudo, por tudo, à roda de tudo, sem tudo,
Raiva abstracta do corpo fazendo maelstroms na alma...

Arre! Vamos lá prá frente!
Se o próprio Deus impede, vamos lá prá frente... Não faz diferença...
Vamos lá prá frente
Vamos lá prá frente sem ser para parte nenhuma...
Infinito! Universo! Meta sem meta! Que importa?
Pum! pum! pum! pum! pum!
Agora, sim, partamos, vá lá prá frente, pum!
Pum
Pum
Heia...heia...heia...heia...heia...


(...)

Desobediência civil



O demencial modo de vida americano, calcado no trabalho para o consumo (incensado como modelo de civilização e querido por todas as sociedades modernas) teve em Henry David Thoreau a mais franca das oposições. Sobre os escritor de Thoreau basta dizer que influenciou o pensamento pacifista de Gandhi e fundou as bases da consciência ambiental contemporânea. Seu livro - Walden ou, A Vida nos Bosques - é um manifesto contra a sociedade industrial e um libelo contra o consenso do American Way of life. Leitura obrigatória para quem pensa o mundo sem porteiras.

"Fui para os bosques viver de livre vontade,
Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!"


— Thoreau

O código

Foto: Gordon Parks, Alunos muçulmanos, Chicago, Illinois, 1963.
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As privações não aparecem na fotografia; as hierarquias não aparecem nas fotografias; as pessoas não aparecem numa fotografia, apenas vemos os corpos sujeitos a um código; mas as sugestões virtuais desses corpos podem bem ser induzidas pelo fotografo a instigar a imaginação, a visão das privações, hierarquias e outros tantos males. Numa época em que as imagens se tornaram quase que onipresentes me interessa a fotografia menos como documento histórico, álbum de família e registro narcisistas. Interessa-me mais a fotografia enquanto enigma.

O popular no erudito

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Em todas as épocas, a cultura popular nutriu com um veio riquíssimo o manancial que alimentou a genialidade de grandes poetas e artistas de todo o mundo. Do Renascimento com Rabelais, Shakespeare, Cervantes, passando pelo Neoclassicismo inspirado nos mitos gregos, do Romantismo até o Modernismo nenhum movimento literário ignorou as contribuições da cultura popular. Incorporando elementos do folclore e da fala regional, fundindo imagens originais, ritos e lendas, a literatura dos grandes mestres perenizou as grandes manifestações culturais e de quebra vitaminaram com a força da imaginação venerável dos povos, a sua própria literatura. A recente reedição das obras completas do gaúcho Raul Bopp atesta a força da cultura popular e sua permanência na cultura como um todo. Bopp é autor do poema épico Cobra Norato (1931), inspirado em uma das mais conhecidas lentas do folclore amazônico. Esse poema, segundo Drummond, é um dos grandes projetos poéticos do modernismo Brasileiro. Alguns atribuem a ele o feito de ligar o movimento Modernista ao restante do Brasil.

As lições de Ulisses

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O dramático retorno de Ulisses à Ítaca é cheio de reveses. Tendo vencido todos, ele ainda haverá de enfrentar o maior deles, a reconquista de sua casa assediada por forasteiro que cortejam a sua esposa. Disfarçado, pelas razões que todos conhecem, ele terá que provar quem é para retomar o seu posto. E a que expediente ele recorre para fazer isso? Ele invoca o passado. É a sua vida pregressa ao cerco de Troia, às suas memórias de infância, as experiências de vida ao lado de sua mulher que o permitirão penetrar na sua terra e lhe assegurar as últimas vitórias sobre os usurpadores de seu trono. A sua velha ama reconhece-o graças a uma cicatriz que tem desde criança, Penélope reconhece-o devido a um segredo que só eles partilham a respeito da construção da sua cama, o pai reconhece-o quando o filho começa a nomear os nomes das árvores que aquele lhe ensinou quando era criança. E não esqueçamos Argos, o seu fiel cão. As aventuras de Ulisses partilham conosco a ideia de que a construção sólida de um futuro está intimamente ligada a valorização e reconhecimento de nosso passado. Haverá sempre um perigo a nos rondar cada vez que nos esquecermos do nosso passado. A nossa identidade, o nosso sentido de futuro está assegurado pelas memórias que temos de nossa vida. Perder a memória é perder o sentido de quem somos. Sem isso não poderemos jamais imaginar para onde vamos e qual o propósito de nossa vida. Além disso, nossa terra estará sempre assombrada por ameaçadores intrusos sempre dispostos a nos deliberar os caminhos de nossa existência. Só há uma maneira de defendermos a nossa terra, tomar posse de nossas memórias e assegurar a sua perpetuação.

A Metamorfose em versão de cordel

A releitura de João Gomes de Sá vai além das preocupações com a forma. Aliado à melhor tradição poética da literatura de cordel, que tem em Leandro Gomes de Barros seu maior expoente, Gomes de Sá, consegue recriar a atmosfera claustrofóbica e de emparedamento dos homens em meio às exigências de um mundo insensível e cada vez mais desumano.

Que profissão cansativa
Remuneração ruim!
Eu vou pedir demissão
Senão será o meu fim!
Mas não faço esse pedido,
Pois tenho compreendido:
Todos dependem de mim!

(...)

É o desafio maior
Viver em sociedade,
Pois todos vivem somente
A individualidade,
Sobretudo quando o ter
Se sobrepõe sobre o ser
Assassinando a igualdade.

Digna de nota também é a insubmissão do autor Gomes de Sá ao texto original. Com a convicção de quem sabe que nenhum texto adaptado é inteiramente fiel à sua fonte, ele toma a liberdade de intervir na história, dando a ela uma pitada de Nordeste ao que ela tem de árida e insólita. Vejam como exemplo a estrofe em que o personagem Gregor Samsa, em um pequeno vislumbre de liberdade, sai de sua angústia física da única maneira que lhe é possível: pela imaginação.

Com cuidado especial,
Deixou a imaginação
Viajar por muitos mares,
Cidade e também sertão.
Comentou: — Não há imposto
Para impedir o meu gosto
De voar na ficção.

Essa releitura é obrigatória para todos os amantes da boa literatura.



A Divina Comédia em versão de cordel

Ao abordar temas tão diversos como religião, sociedade, política e moral, a obra de Dante tornou-se uma fonte inesgotável para pintores, escultores, músicos e muitos outros artistas. Tão variados quanto os temas são as versões que já se fizeram até aqui dessa obra. Já era hora de esse clássico universal ganhar, também, a sua versão em cordel. Essa tarefa foi abraçada pelo poeta Moreira de Acopiara, artesão das palavras, que encanta e diverte semeando versos como quem planta um jardim de emoções.

Moreira de Acopiara nos conduz pela odisseia de Dante, desbravando as regiões do Inferno e Purgatório, até alcançar o Céu, onde é aguardado por sua amada Beatriz. O início da obra ocorre com os versos que descreve o poeta Dante, desorientado e frustrado, depois de muito caminhar pela vida:

Pelos caminhos da vida,
Depois de tanta procura
E frustrações que deixaram
Minha alma em grande amargura,
Me encontrei perdido um dia
No meio de selva escura.

Acossado por feras, Dante é resgatado por Virgílio que o conduz pelo Inferno e Purgatório até o entregar a “espírito mais digno”. Inquieto, Dante quer saber por que Virgílio saiu de sua morada etérea para socorrê-lo nesse momento de amargura:

Disse Virgílio: “Não temas,
Pois se vim em teu encalço
Foi mandado pelo amor
Que não consegue ser falso
E só deseja livrá-lo
Do perigo e do percalço.


Definitivamente, essa é uma obra imperdível.


Genuflexão

De dois em dois anos os políticos, assim como Baco iluminado na pintura de Velásquez, saem de seus palacetes e concedem à malta o privilégio de sua companhia. Fingem-se dos mesmos, mas a áurea diáfana que os encobre, também os resguarda da imundície do mundo a sua volta. Muitos, solicitam os seus afagos, na vã esperança de terem assim - colhidas as migalhas do banquete - serenado a sua miséria pessoal.

Pintura: Diego Velasquez | O Triunfo de Baco ou Os Bêbedos, 1626-1628.

Kafka para presidente

O corrida eleitoral já começou. Daqui a instantes seremos alvejados por discursos prometendo mundos e fundos. Estou exausto disso. A política nacional me enoja. Os jogos de poder, engendrados na máquina política, têm sobre mim um efeito misto de ódio incontido e desprezo perpetuo. Mas sou um cidadão compassivo. Acredito no voto como uma força capaz de tudo contornar. Não deixarei de exercer o meu poder e em outubro lançarei o meu protesto. VOTAREI EM KAFKA para presidente.  

Elogio às Bibliotecas

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Entendo que as pessoas apreciem e até exaltem as livrarias. Elas são realmente maravilhosas. Mas acho que o melhor lugar para formação de um leitor se encontra nas bibliotecas. Bibliotecas que lamentavelmente sofrem de desprestígio constante. As pessoas reclamam que não leem, por não terem livrarias em suas cidades, quando essas estão cheias de bibliotecas. Enquanto as livrarias fetichiza o livro numa relação comercial, as bibliotecas dispensam essa dependência e se dão de forma mais intima e gratuita, estabelecendo o que me parece ser um vínculo mais pura e genuíno com o livro. Nas bibliotecas os livros deixam de ser um objeto avaliado pelo valor e passa a integrar com o leitor uma relação de afeto que dura toda a sua vida.

Fotos: Recém inaugurada Biblioteca José e Gita Mindlin.

Na fachada da biblioteca está uma frase de José Mindlin que diz: "NÃO FAÇO NADA SEM ALEGRIA". Bela lição.

A Madona de Max Ernst

Max Ernst: “A virgem espanca o menino Jesus vigiado por 3 testemunhas, André Breton, Paul Eluard e o próprio artista”.

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Nem é um quadro tão bonito. Mas de todas as Madonas esta é a minha predileta.