Cemitério de livro

Foto: André Kertész. Homem lendo com lupa, Nova Iorque, 1959.

Não compreendo a indignação desse jornalista aqui. Ele deve ser um celerado. Desses que anda cagando regra pra gente que sabe bem o que faz. Certo estão os políticos espanhóis. Eles dão uma lição ao mundo. Enterrem o Quixote, a vida segue. 

Esse é um bom exemplo de uma inovação pedagógica, que pode revolucionar a educação. Como as pessoas não haviam pensado nisso antes? Os livros dão trabalho, custa lê-los. A nova pedagogia exige respostas rápidas aos novos desafios. Não temos tempo para ficar insistindo com quinquilharias velhas e obsoletos como livros antigos. 

Os alunos não entendem os livros? Atire os livros para longe deles. Assim eliminasse o problema. Óbvio. Afinal são apenas livros. Que mal pode haver em apagar do convívio juvenil um livro maçante e soporífero com o D. Quixote. Há muitos mais livros no mundo. Talvez até melhores. Quem vai saber? 

Podemos substituir essa velharia por genuínos e modernos pensamentos, que melhor se adequem as consciências contemporâneas. As contingências modernas exigem-nos que estejamos constantemente adequando-nos sempre à medidas de novas inteligências. 

E há um sem-número dessas novas inteligências solicitando a nossa atenção, e que melhor falam às novas gerações. Mas a inteligência, a erudição, as inovadoras lições de insubmissão, a vida percebida como insuficiente, e as perspicazes maquinações existentes no Quixote? Queixarão sem dúvida alguns. A estes diremos que essa inteligência e erudição, além da ideia de insubmissão à vida cotidiana, já não são mais as nossas. 

Buscamos a literatura que nos satisfaça o cumprimento de nosso destino. A literatura como “alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade” como essa presente no Quixote, ameaça-nos a empregabilidade e a funcionalidade. Dizem que, a leitura do Quixote tem sido boa escola para artistas, conclui-se daí, não serem serias, são portanto, inúteis aos desafios do novo mundo. 

Os best-sellers infantis e juvenis que pipocam nas livrarias, estes sim, têm melhores instruções para lidarmos com as novidades na vida moderna. Milhares de pessoas, que consomem essa literatura, não podem estar enganados das qualidades inequívocas desses livros, que arrebatam multidões pelo mundo. 

Claro, eles têm lá alguma indigência, mas para que exigir um repertório variado de ideias e linguagem quando estão todos tartamudeado. Creio que, os novos produtos literários estejam em melhores condições de substituir as antigas literaturas na função de ensinar às pessoas as riquíssimas possibilidades que a língua encerra. Basta ver um grupo de jovens falando. São inventivos, primorosos no traquejo com as palavras, quase nunca, tipo assim, se repetem. Tira-se daí que as novas literaturas estão, por certo, melhores condicionadas à estimularem a sensibilidade e a fantasia, graças as novíssimas obras que pouco a pouco vão substituindo os bolorentos romances.  

Celebrem a boa nova. 

Adernar na praia - Como a revolução cubana quase naufragou

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Os feitos históricos, as grandes revoluções, remetem-nos sempre às imagens de destemidos e heroicos momentos. Napoleão cruzando os Alpes no passo de Grande São Bernardo, na representação de Jacques-Louis David montado num imponente cavalo apontando para o alto incendiando a marcha do seu exército para vitória. Não se pensa nesses gestos com riso no rosto. Ante a morte iminente, que precede as batalhas, o riso se acanha. Porém, muitos dos atos heroicos mais notáveis têm um cadinho de ridículo, um quê de risível e cena pastelão. Alguns desses momentos prestam homenagem a Quixote.  

Ao recordar os passos dos revolucionários cubanos, liderados por Fidel Castro, na invasão que iniciou o levante contra a ditadura de Fulgêncio Batista, em 1956, o fotógrafo da revolução Alberto Korda, recordando as palavras de Che a propósito da travessia entre o México, onde os revoltosos estavam, até Cuba, conta as peripécias rocambolescas enfrentadas pelos revolucionários, até a tomada do poder, pelos destemidos barbudos.  

Em dado momento, com indisfarçável ironia, Che lembrou a Korda que o navio que transportava as esperanças de um mundo justo para Cuba quase não chegou ao seu destino. A travessia foi marcada por reveses cômicos. No meio do caminho, lembra Che, “os homens com expressão angustiada, apertavam seus estômagos com as mãos, enquanto metiam suas cabeças dentro de baldes”. 

A certa altura da viagem o navio avariou. As bombas hidráulicas que movia o Gramna, um pequeno iate de doze metros, carregado de equipamentos e com 80 homens a bordo, pediu arrego. A água começou a ameaçar adernar o rocinante esperançoso. O jeito foi usar os baldes agora para outra tarefa. 

Por fim, no dia 2 de dezembro de 1956, 7 dias depois de ter saído de seu destino, o barco encalhou num lamaçal nas proximidades de um mangue, na costa de Cuba. “Foi necessário”, lembra Korda, “abandonar quase todo o equipamento e os víveres”. Che com seu humor sarcástico lembrou que “não foi bem um desembarque o que ocorreu, mas sim um naufrágio”. 

Haverá algo mais cômico do que o tropeço do herói no desembarque? Rimos, nos diz Bergson, do que foge à normalidade, à previsibilidade. Rimos daquilo que desvia da ordem natural das coisas. Imaginamos os revolucionários como homens de gestos certeiros, nobres e precisos, mas essa ordem de coisas está apenas na nossa mentalidade idealizada sobre as figura heroica. Os relatos de Korda restitui à nobreza dos infatigáveis combatentes uma coloração cômica que se contrasta com o que esperávamos que acontecesse. Nada na vida nos confirma que os fatos mais notáveis não possam nascer de atos falíveis.

Brasil

Admite-se tudo nesse país, menos a honestidade. 

Da natureza Selvagem

Nem bem iniciaram as investigações da operação Lava Jato, já tem gente dizendo que, depois desse caso de corrupção explicita na maior empresa pública do país, pouca coisa mais merecerá o nome de escândalo nas Terras Papagaios. Por ora a Polícia Federal suspeita em desvios nos valores que andam pela casa dos milhões de reais. A se confirmarem esses valores, o mensalão, que escancarou os modos operandi da governança nacional, estará fadado a se tornar um mero escandalozinho de vão de escada, coisa de amanuense. Exagero à parte, penso que no Brasil há sempre a possibilidade da coisa piorar. Aqui, nada está tão mal, que não possa ser superado por um mal ainda maior. Muito antes do soar das trombetas do juízo final, ainda teremos mais bons motivos para sentir saudades do tempo em que os governantes nos roubavam apenas em quantias inferiores a bilhões. Durma-se com um país desse. 

As coisas, como andam?

Ou andamos todos desacautelados ou andamos todos com os quadro membros no chão. Uma ou outra dessas alternativas há de explicar por que na terra do Saci se comemora o Halloween.

Das pretensões perdidas

Foto: Robert Doisneau
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Costuma-se dizer amiúde, que envelhecer traz consigo não apenas rugas ao rosto. E diz-se isso por se acreditar que envelhecer traz também sabedoria. Acreditamos piamente que, em oposição a uma ingenuidade juvenil, a velhice faz do homem um ser mais dotado para evitar os dessabores da vida.

Mas não é bem assim. Envelhecer não afiança ao homem segurança alguma contra os infortúnios. Talvez o torne mais pretensioso por acreditar imune ao que ficou no passado. Do berço ao túmulo, no entanto, não temos nenhuma garantia de sorte, mesmo velhinhos continuaremos assombrados pela má fortuna e outros males.

A certeza disso me veio hoje ao ler nos jornais a notícia de que o matusalém do pop, o canadense Leonard Cohen, ao completou no último mês veneráveis 80 anos, luta contra o alcoolismo, a depressão e um furto de bens promovido por sua ex-agente e amante, que o surrupiou todas as economias, 12 milhões de dólares, que o cantor guardava para sua aposentadoria. Dinheiro, fama, sucesso, prestigio, velhice, nada disso nos distancia dos erros.


A vida recente do cantor canadense é a prova viva de que o homem é, em todas as idades, vulnerável às piores quedas. As adversidades não escolhem tempo para aparecerem. Elas não querem saber se você é pop, rock ou finge fama. Surgem nas horas mais inconvenientes e destroem nossas melhores pretensões, devolvendo-nos ao rosto aquele ar de constrangimento juvenil que durante toda a vida nos esforçamos para arrancar. Acreditar que a verdadeira sabedoria está num acumulo de tempo, não passa de uma ilusão. 

Hércules e Anteu - A realidade suspensa


Vendo a capa do livro de Marco Haurélio que ainda não possuo, Os doze trabalhos de Hércules, ocorreu-me lembrar a história de Anteu. Segundo a mitologia Grega, Anteu é um gigante que obriga a todos os viajantes a lutar contra ele. Em suas lutas, cada vez que seu corpo é atirado à terra ele se levanta ainda mais forte, porque a Terra (deusa Gaia, sua mãe) lhe restitui as forças. Enquanto estiver em contato com o solo Anteu é invulnerável. A sorte dele muda quando encontra Hércules que viajava pela Líbia em busca dos pomos de ouro do Jardim das Hespérides. Hércules luta com o gigante. Na refrega atira Anteu três vezes ao chão. Três vezes o gigante se levanta ainda mais rijo. Astuto (sim, porque o herói, não é apenas um monte de músculos) Hércules percebe que o filho de Gaia (Terra) volta à luta sempre mais forte. Hércules então soergue-o do solo que o tornava invencível e o estrangula. Um sem número de pinturas reproduz esse combate e o sortilégio do herói grego para vencer o gigante ameaçador. Há muitas lições nessa história que os antigos aproveitaram dos contos populares. Uma delas é que para sobrevivermos necessitamos, como Anteu, de estar sempre com os pés bem assentes ao chão. Precisamos do nosso bocadinho diário de realidade. Mas ela ensina também que em excesso a realidade também pode ser alienante e é preciso como o herói grego fez, suspendê-la.  Assim como precisamos de realidade, também precisamos de um bocado de irrealidade. São importantes os telejornais diários, os debates eleitorais, a compra de pão na padaria, mas mais do que isso são também indispensáveis as leituras literárias, as apreciações de quadros, as mitologias, as religiões, os mitos, as músicas e voos às regiões da imaginação, para suportarmos o peso e a força que nos prende ao chão.

Agustina Bessa-Luís

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Agustina Bessa-Luís, um dos maiores nomes da literatura portuguesa, comemora hoje 92 anos de vida. Desde a sua estreia em 1948, entre romances, contos, ensaios, aforismos, livro de crônicas, textos dramáticos, livros de viagens, biografias e escritos avulsos, essa escritora já conta com mais de 70 obras assinada.

Comparada aos seus patrícios, José Saramago e Antônio Lobo Antunes, ela é uma ilustre desconhecida do distinto público brasileira. As razões para isso não poderiam ser outra, preferimos antes os grandes embustes impingidos pelo mercado, a obras de engenharia humana divorciadas do puro interesse comercial.

O professor Alcir Pécora, entusiasta da escrita de Bessa-Luís, a considera muito superior a José Saramago e António Lobo Antunes, dois dos mais prestigiados autores portugueses entre nós. No entanto, a presença de Agustina ainda é inexpressiva nas universidades, centros acadêmicos, livrarias e outros. Pécora aponta algumas das possíveis razões para esse ocultamento de Agustina: "talvez falte mais conhecimento efetivo da literatura portuguesa e menos contato apenas por meio de agentes internacionais, que sempre vendem o mesmo peixe".

Ledo engano

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Ao abrir há pouco, o site da Submarino e pesquisar os livros à venda do poeta João Cabral de Melo Neto fui surpreendido com a inusitada ilustração do poeta na página que vende o livro Museu de Tudo. 

Fiz um Print da página. Se vocês atentarem bem verão que esse aí não é João Cabral, e sim o seu amigo e também poeta Lêdo Ivo. 

Não é a primeira vez que vejo esse equívoco ocorrer. Recentemente o Jornal da Cultura cometeu o mesmo deslize. Nunca os achei parecidos. No entanto é comum ver site que falam do João Cabral com a foto de Lêdo Ivo.

Isso só demonstra que no Brasil os poetas são pouco ou muito mal apreciados, as pessoas não se lembram deles.

Quando era professor levei um dia um conjunto de imagens com figuras do mainstream; bigbrothers, atores de novelas, jogadores de futebol e alguns literários, para desanimo geral constatei que ninguém conhecia Leão Tolstoi, Balzac, João Cabral, Bandeira, mas sabiam muito bem quem eram os globais. 

A cultura televisiva, com grande apelo às imagens, dita para maioria das pessoas a visão de mundo e o alcance de sua percepção da realidade. Para além do tubo televisivo, o universo das letras, que vive da palavra, sofre para atrair o interesse e o gosto das pessoas.

Parecer venturoso

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Em vez de olhos que despem, temos olhos que desejam ser despidos. Pomo-nos antes e sempre a mira do espelho. Mal sabendo que a verdadeira beleza está por trás daquilo que enxergamos.  

Sem culpa

Foto: Martin Schoeller.

Num mundo sem culpabilidade as pessoas fazem coisas que a consciência não acusa nenhuma culpa nem reprova.



A Civilização do espetáculo



Em seu perspicaz ensaio: A Civilização do Espetáculo, o escritor peruano Mario Vargas Llosa se insurge contra o que chama de "banalização das artes e da literatura". Sobram ainda, criticas ao que ele chama de "triunfalismo do jornalismo sensacionalista" e a ascensão da ideia de que a literatura deve se render exclusivamente às esferas do entretenimento.

Llosa afirma que no passado a cultura agia sob as consciências, para impedir que virássemos as costas à realidade. No presente, banalizada pela covardia das universidades e pelo relativismo cultural, a literatura deixa pouco a pouco de ajudar os leitores a entender melhor a complexidade humana, mantê-los lúdicos sobre as deficiências da vida, alerta-los para realidade histórica; para torna-se um passa-tempo despretensioso, na melhor das hipóteses, avalia o ensaísta, “ela é usada para salva-los do tédio das longas horas de viagens de ônibus, metrôs”. Em meio a todo esse novo panorama, a literatura para sobreviver, “tornou-se light - noção que é um erro traduzir por leve, pois, na verdade, quer dizer irresponsável e, frequentemente, idiota."

Atuando como mecanismo de distração da realidade e de entretenimento a literatura, acredita o pensador, perdeu seu poder de animar consciências. Ao invés de indivíduos indóceis a manipulação da verdade por parte dos poderes constituídos, a literatura contemporânea cria consumidores de toda espécie de bugigangas e indivíduos autômatos.

Ao rebaixar-se ao mero entretenimento, a literatura, acredita Mario Vargas Llosa, acorrenta o homem a sordidez cotidiana, ao inferno doméstico e a angústia econômica, e o estimula à uma indolência espiritual relaxada.

As consequências desse torpor, é a criação de indivíduos preguiçosos para tarefa de pensar. "As ilusões plasmadas com a palavra" e não dadas de pronto como no cinema de entretenimento, por exemplo, "exigem ativa participação do leitor, esforço de imaginação e, às vezes, em se tratando de literatura moderna, complicadas operações de memória, associação e criação, algo de que as imagens do cinema e da televisão dispensam os espectadores. E estes, em parte por esse motivo, tornam-se a cada dia mais preguiçosos, mais alérgicos a um entretenimento que exija deles esforço intelectual."

Amputada de seu valor inconformista, a literatura de frivolidade, que domina todos os espaços na vida do leitor, com vampiros, crimes sadomasoquistas, invasões marcianas, romances edulcorados, e outros; divertem e principalmente dispensam os leitores de pensarem, mas, como sugere Llosa: "são incapazes de fazê-los entender o labirinto da psicologia humana, os mecanismos da vida social, os abismos da miséria e os ápices da grandeza que podem coexistir no ser humano".

Não é apenas à literatura de mero entretenimento que se volta a artilharia de críticas do ensaísta. À televisão e aos meios de entretenimento eletrônicos ele dedica um espaço especial de reflexões. A televisão, é dispensável comentar, rebaixou a níveis insuportáveis a programação. Na corrida para atrair mais público e brigar pela audiência os meios de comunicação tornaram-se um vale-tudo. Reduzindo o público a mero espectador passivo. "A fantástica acuidade e versatilidade com que a informação nos transporta hoje para os cenários da ação nos cinco continentes conseguiu transformar o telespectador num mero espectador, e o mundo num vasto teatro, ou melhor, num filme, num reality show com enorme capacidade de entreter". p. 202.

"A informação audiovisual fugaz, passageira, chamativa, superficial, nos faz ver a história como ficção, distanciando-nos dela por meio do ocultamento de causas, engrenagens, contextos e desenvolvimentos desses acontecimentos que ela nos apresenta de modo tão vívido. Essa é a maneira de nos levarem a sentir-nos tão impotentes para mudar o que desfila diante de nosso olhos na tela como quando vemos um filme." p. 202.

Tenho algumas reservas as opiniões de Mario Vargas Llosa a respeito da política. Sua aversão ao socialismo e sua adesão aos princípios neo-liberais são ao meu ver algo questionável. Simpatizo, porém, com sua luta pessoal em favor da cultura e da defesa da literatura como um valor elevado e indispensável na construção de uma sociedade minimamente saudável e prospera. 

Intelectual engajado, pensador que expresse suas ideias e interfira no fluxo corrente das ações cotidianas, a despeito dos discursos da moda, está escasso, Llosa talvez seja o último dessa espécie rara. Adoro, sem reservas, todas as obras literárias desse escritor e pensador, e comungo com ele da opinião que a cultura na atualidade vive ameaçada pela ideia de que deve ser apenas entretenimento e não outras coisas.

Rir de nós mesmos

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A prova de que a melhor forma de driblar nossas deficiências é rir delas.

Quem de dentro de si não sai.

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"Quem de dentro de si
Não sai!
Vai morrer sem amar
Ninguém!" (...)


A casta a qual pertence o poetinha, é a dos que tecem variações inúmeras sobre um mesmo tema. O amor e seus desenganos, o amor e suas alegrias, o amor e sua perdição, o amor e suas dores, o amor e seus muitos usos e desusos. O lirismo poético de Vinicius de Moraes constitui um dos contributos mais importantes à nossa poesia.

Estado mínimo

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O cartaz acima é uma propaganda Nazi defendendo a eutanásia de deficientes. Diz a mensagem: "Esta pessoa, sofrendo de anomalias hereditárias, custa à comunidade 60 000 marcos. Compatriota, este dinheiro também é seu". O apelo ao bolso dos "compatriotas" parece justificar o ato de extermínio daqueles que ao invés de contribuírem para máquina do Estado, tornam-se desde sempre (lembre-se que a propaganda insinua que pessoa em questão sofre de anomalias hereditárias) um fardo àqueles que supostamente produzem.

Não posso deixar de ver nessa propaganda e nas mensagens daqueles que apostam no Estado Mínimo um paralelo. Esses como aqueles ignoram o fato de que o Estado existe em função da sociedade e que essa tem obrigações humanas e não materiais.


Nas redes sociais temos visto mensagens contrárias ao Bolsa Família, contra a Reforma Agrária, a contratação de médicos para população desassistida do Estado nos lugares mais recônditos do país e a entrega dos presídios públicos à iniciativa privada. Sob a alegação de que essas ações oneram de forma ineficiente o Estado está na verdade a preocupação mesquinha e bestial de defesa de seus interesses econômicos.

Questionar

Artístico é aquilo que nos encoraja a questionar aquilo que tínhamos como inquestionável.
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Regozijar-se com meras sombras de verdades

Foto: Cartier-Bresson

Estive há pouco peregrinando por uma sítio em que jovens escrevem de tudo um pouco, música, cinema, literatura e outros standard culturais. Até aí não há nada demais nisso. Uma massa de veículos democratizou os canais de comunicação e desde então estamos todos externando opiniões como se de repente descobríssemos com incontinência verbal. 

O curioso é que essa pretensa liberdade de expressão, garantida pela massificação dos meios de comunicação, não foi capaz de estimular alguns jovens a enxergar o mundo além das focinheiras da Indústria Cultural. Por todo site o que vi foi a celebração do mundinho bovino das pretensões artísticas de pseudo-estrelas hollywoodianas, cujo único talento é servir de produto descartável a uma indústria. 

Claramente o mundo desses adolescentes lembra aquele dos simiescos homens encarcerados de Platão, cuja visão do mundo era aquela apenas refletiva nas paredes das cavernas que habitavam, regozijando-se com meras sombras de verdades.

Dos encantos

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O mundo seria um sítio tristonho se não houve tantos encantos.

A banalização da morte

Pintura: Paul Delaroche, A execução de Lady Jane Grey
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A indiferença do carrasco contrasta com toda gravidade do ato que a pouco se precipita. Para ele é só mais um dia tedioso de trabalho. Como a morte pode ser assim banalizada?

Um dia triunfal

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Conta Pessoa em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro que no dia 8 de Março de 1914 lhe aconteceu o seguinte:


"acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre."

Suportar a vida

A vida é mesmo em alguns momento insuportável, e de fato como pensava Fernando Pessoa, a arte não só ameniza esses momentos, como ainda insinua ser possível encontrar entre os escombros da vida um significado plausível para continuar existindo.

Arquiteto supremo

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Estou agora a julgar, que talvez, sim, exista um arquiteto supremo.

Fernando Pessoa

Foto: Clarence White, Mãe e filho.
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Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as coisas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


Alberto Caeiro, Poema XXVI

Você não morre, José

Foto: Maureen Bisilliat
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(...)
Mas você não morre,
você é duro, José!
(...)

Na contramão

Não sei de que lado estou nesse mundo. Se há coisa que não me seduz é marchar pari passu com quem quer que seja.
Foto: Cartier-Bresson

Seguir em frente

Se a vida umas vezes corre bem e outras correm mal, não há então porque desesperar-se.
Foto: Robert Mitchum

Dos amigos

Uns creem que o melhor amigo do homem é o cão, outros, como Vinicius de Morais preferem o Whisky (que o chamou de cachorro engarrafado), por meu turno, como não sou chegado a bichos e não me cai bem o álcool, tenho os livros na conta de amigos confiáveis.
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O novo que a gente principia

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(...)

—— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
—— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
—— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
—— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.


—— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
—— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
—— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
—— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
(...)


Morte e Vida Severina - J.C.

...

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As conveniências pessoais estão sempre desmentindo os arranjos sociais. Haverá nisso outro componente além da natural propensão humana à subversão?

Cinema e pintura




O cinema está cheio de belas fotografias. Fico rendido por filmes que por vezes nos fazem sentir diante de uma exposição fotográfica.

O timoneiro do mundo

“Timão: Ouro amarelo, fulgurante, ouro precioso! (...) Basta uma porção dele para fazer do preto, branco; do feio, belo; do errado, certo; do baixo, nobre; do velho, jovem; do cobarde, valente. Ó deuses!, por que isso? O que é isso, ó deuses? (...) [O ouro] arrasta os sacerdotes e os servos para longe do seu altar, arranca o travesseiro onde repousa a cabeça dos íntegros. Esse escravo dourado ata e desata vínculos sagrados; abençoa o amaldiçoado; torna adorável a lepra repugnante; nomeia ladrões e confere-lhes títulos, genuflexões e a aprovação na bancada dos senadores. É isso que faz a viúva anciã casar-se de novo (...). Venha, mineral execrável, prostituta vil da humanidade (...) eu o farei executar o que é próprio da sua natureza”.

William Shakespeare, in "Timão de Atenas"


Sempre achei que a literatura não fosse apenas o repositório de vaidades de alguns homens tentando mostrar virtudes linguísticas, mas que por trás do estético algumas verdades e gestos humanos se descortinassem. Todas as vezes que leio um livro tenho em conta que o real é fantasioso, maquiavélico, embrutecedor, farsante. Como disse o peruano Mario Vargas Llosa há mais verdades nas mentiras da literatura do que no mundo. Alguns usam a literatura como pura recreação despretensiosas. Intentam assim uma fuga às suas angustias e pesadelos. Eu não ignoro essas qualidades, mas a mim elas são bem mais diversas.

Os gargalos da cultura

Dados do Ministério Educação afirmam que 79% dos municípios brasileiros possuem bibliotecas públicas municipais. Hoje, 420 municípios não contam com bibliotecas. Iniciativas da Fundação Biblioteca Nacional diminuíram a ausência de bibliotecas no país. Nas escolas, a situação é outra. De acordo com informações do Ministério da Educação, apenas 30% dos estabelecimentos de ensino fundamental no País possuem espaços que funcionam como biblioteca. Um vexame que acossa poucos políticos. Em Rio do Antônio encontrei um senhor que foi prefeito da cidade na década de 70. Atento as questões culturais o Senhor Deba mandou à Câmara de Vereadores um projeto de criação de uma Biblioteca no município que na época contava com pouco mais 5 mil habitantes. Vocês pode imaginar o rebu que a ideia causou. Os vereadores se recusaram a aceitar o projeto. Seu Deba então resolveu escrever ao Instituto Nacional do Livro (órgão que na época era coordenado pelo baiano Herberto Sales, autor do clássico regionalista, Cascalho) e ao presidente da República que era o ditador Emílio Garrastazu Médici, dizendo que no interior do país a Câmara de Vereadores da cidade se recusava a criar uma biblioteca que homenageava o presidente - a biblioteca se chamaria Biblioteca Municipal Médici. Não deu outra os vereadores quando ficaram sabendo da história se apressaram em aprovar o projeto do Seu Deba.

Quadras populares. O imaginário do povo na lírica poética.

No livro Lá Detrás Daquela Serra o folclorista Marco Haurélio recolheu uma dezena de quadras populares.

Minha mãe me deu uma surra
Sexta-feira da Paixão:
Não foi surra não foi nada,
foi café com requeijão.

Em Urandi, uma senhora de 86 anos, Dona Dete, conhece essa e outras tantas quadras recolhidas por Marco.

Reafirmando o poder inventivo do povo as quadras narradas por Dona Dete, mesmo abordando o mesmo tema que as quadras colhidas por Marco, revelam a natureza engenhosa do sertanejo que acrescenta, interpõe, assimila novos elementos as histórias ouvidas, dotando-as de novidades. Veja a quadra de Dona Dete:

Minha mãe me deu uma surra
com cipó de cansanção.
Não foi surra não foi nada
foi café com requeijão.

Há outra quadra com igual tema, mas com versão diferente.

Minha mãe me deu uma surra
com cipó de fedegoso.
Quanto mais ela batia,
mais eu achava gostoso.

O poderio Americano

Henri Miller dizia que a força de uma nação poderia ser muito bem medida pelo grau de importância que esta dava aos seus escritores. Uma civilização intolerante com os escritores estaria, pensava o escritor americano, fada ao fracasso. 

As artes, afirmava o autor de Trópico de Câncer, serve de antídoto contra as moléstias do despotismo e do autoritarismo. 

Tive uma mostra dessa ideia ontem assistia ao documentário sobre a vida do educador Alceu Amoroso Lima. A certa altura do filme, o filho do pensador católico recorda que em visita aos EUA passou pela biblioteca de Nova Iorque e pesquisou a existência de alguma obra de seu pai por lá. Obteve então incríveis 79 entradas para o nome Amoroso Lima. Surpreso, ele confessou que este número supera em muito o número de títulos desse autor em qualquer biblioteca brasileira. 

A superioridade Americana sobre o resto do mundo não pode ser medida apenas pela sanha beligerante. A vitalidade da América vem, em boa medida, de seu apreço e valorização à cultura como um valor potencializador de sua sociedade. 

Ninguém, em sã consciência é capaz de desmentir o filho de Amoroso Lima. Essa é uma dura verdade. O Brasil, ao contrário da América, sofre violentamente com a má distribuição de livros a toda população e com as péssimas condições das nossas bibliotecas os problemas tomam ares de insolúveis. O reflexo disso? Uma população semialfabetizada com sérios problemas sociais e pouca perspectiva de futuro. 

Enquanto a realidade por aqui é essa, na terra do Tio Sam livro é coisa séria. 

Mais uma mostra do gigantismo americano vi ao ler o trabalho do historiador Robert Darnton, O Diabo na Água Benta, livro que relata as ações de libelistas durante os reinados de Luís XV, passando pelo até a Revolução Francesa. Num dos relatos Darnton descreve a figura de um dos maiores envenenadores, mexeriqueiros e caluniadores que França oitocentista viu, Anne-Gédéon Lafitte, marquês de Pelleport. Autor de variados trabalho que expunha ao ridículo as grandes figuras da política francesa Pelleport foi preso e ficou trancafiado na Bastilha por quatro anos. Nesse período, conta-nos o historiador, Pelleport abdicou do relatos de escarnio contra as autoridades e se dedicou a escrever um romance autobiográfico sobre os libelistas franceses. E onde estava os únicos exemplares disponíveis para pesquisa desses livros? Na América, of course. 

Da des-esperança de dias melhores

Querendo meter alguma ordem à minha cabeça para fazer de meu voto uma coisa útil, esforcei-me em ouvir os candidatos à presidência. Assisti debates, li acusações e contra-acusações. Avaliei propostas, pesei históricos, mas, mais do que isso, observei nos candidatos, seu comportamento de campanha. Do que vi e li restaram-me a convicção de que dissimular, enganar, fingir e fechar os olhos aos defeitos da sujidade dos partidos, a ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, foram as ações mais vitoriosas nessas eleições.