Meus passos são mais trôpegos do que elegantes
Meus passos são mais trôpegos do que elegantes.
Minha voz incomoda mais do que seduz.
Recuso-me a esgrimir por esgrimir, mas, se a causa
for justa, acendo o pavio do canhão sem remorso.
Andarilho por índole e poeta por vocação, achei de
ser, ainda, garimpeiro.
E não é que, entre tantos pedregulhos, de vez em
quando, encontro umas pepitas.
Difícil mesmo foi entender que não era nas pepitas
que eu devia buscar a beleza — ela já estava lá —, mas nos pedregulhos.
Esse foi o meu aprendizado pela pedra.
Poema do folclorista, poeta e pesquisador da Cultura, Marco Haurélio.
Papa Francisco
.
Estou longe de ser um religioso. Não
endomingo, não faço prece nem peregrino expiando os meus pecados. Os infernos
não me assustam. Perdi a fé em algum lugar na caminhada da vida, por razões que
a poeira do tempo encobriu. Da Igreja suspeito sempre de seus discursos.
Nada disso, no entanto, tira a minha
admiração pelas ações do Papa Francisco. Dia a dia ele dignifica o seu
sacerdócio e restitui à Igreja o prestígio perdido por anos de obscurantismo.
As suas recentes ações em prol da
reaproximação dos Católicos com o mundo Islâmico, os gestos de tolerância com a
orientação sexual dos fiéis e sua mea-culpa pelos anos de negligência da
Igreja, que covardemente acobertou denúncias de pedofilia, ocorridos nas barbas
da cúpula romana, sinaliza para uma tomada de consciência da Igreja aos seus
muitos pecados.
Estes fatos, se não redimem de todo a
Igreja de seus pecados históricos, ao menos indicia o arrependimento sincero de
quem já tanto mal fez e hoje busca corrigir os seus erros.
Ante um mundo em que os líderes estão
indispostos ao diálogo e demonstram anseios de resolvem suas conflitos
recorrendo apenas, ao arbitrário de sua força bruta, os gestos do Papa se tornam
necessários.
A cama de Procrustes
Foto: Alfred Eisenstaedt, 1950
.
Sempre que leio uma pessoa esclarecida
pedir o fim de um jornal ou uma revista, por mero capricho e divergência com
sua orientação ideológica, fico a pensar, que ainda estamos longe de
conquistarmos a democracia. Impressiona-me como ainda há quem sinta vontade de
puxar a pistola quando apanham por aí discursos que não convergem com a sua
ideia de mundo, com a sua imagem da política, da cultura, da religião e de
muitas outras formas de relações humanas.
Esses clamores incendiários, contra os
que pensam diferentes das vozes que orientam as consciências individuais, são
recorrentes nas ditaduras e em outras formas menos civilizadas de relação
social. Nas democracias o contraditório, o divergente, o ponto de vista
diferente, são, não apenas estimáveis, mas estimulados. Entende-se, nas
democracias, que os conflitos tem melhores resultados quando mediados pelo
debate de ideias e não pelo tacão das vontades individuais. Nenhuma ideia é subvalorizada,
nenhuma ideia é sobreposta a outra, os pontos de vistas são debatidos,
questionados, arguidos e se bastam pelo que nutrem de importante, não pela
força, pelo grito.
Pode não ser muito agradável tolerar
ideias que você julga intolerante, mas esse exercício, tão salutar quanto
necessário, será sempre melhor do que ter em vista, um reizinho regendo as
vontades de toda a gente, a maneira de um deus onipotente. Temos que ver o
ponto de vista de toda a gente, e não nos limitarmos a projetar os nossos
desejos e valores brutalmente sob os que pensam, diametralmente opostos a nós.
É estranho pensar um modelo ideal e único de ser humano. Mas é justamente esse modelo,
monocromático, de cultura, religião, e opiniões políticas que querem aqueles
que insistem em divergirem dos outros, aniquilando a sua existência.
Na mitologia grega há um personagem que
sujeita todas as pessoas, as mais dolorosas mutilações, somente porque elas não
se encaixam à sua sádica e perversa medida ideal. Procrustes, também chamado
Damastes e Polipémon, é o nome de um bandido que vivia na estrada que ligava
Mégara a Atenas. Os viajantes que por ali passavam, ele convidava para comer em
sua casa e oferecendo-lhes depois sua cama de ferro para que o incauto
descansasse nela, ele aproveitava essa ocasião, em que o desafortunado pegava
no sono, para amordaçá-lo a cama. Se o infeliz fosse maior do que a cama ele serravá-lhe
o “excesso”. Fosse menor do que a cama Procrustes esticava o desgraçado até que
este atingisse idêntica distância entre a cabeça e os pés, à medida da cama.
Não passa por minha cabeça que está ou
aquela revista, jornal ou outros médias são insuspeitos. Mas dá aí pedi-lhes o
fechamento não me parece sensato. Nenhum modelo político, cultural, religioso
tornou impossível pensar outras formas de convívio humano, mesmo que alguns de
seus membros insistam em pensar o contrário. Os limites serve apenas aos muitos
satisfeitos das coisas tais como estão.
A melhor forma de antagonizar com as
ideias opostas às nossas, é apontar-lhes as contradições, indagar-lhes os
valores. Como faremos isso com eles amordaçados. Deixar de ler os jornais, as revistas e outros médias pode ser outra
boa maneira de demonstrar nosso desagravo. “Se o rádio não toca a música que
você quer ouvir”, dizia Raulzito numa lição de tolerância e liberdade às
diferenças, “é muito simples, é só mudar a estação, é muito simples é só girar
o botão”. Submeter os outros a seguir os passos de um único individuo é andar a
arremedar os bufões.
Cemitério de livro
Foto: André Kertész. Homem lendo com lupa, Nova Iorque, 1959.
Não
compreendo a indignação desse jornalista aqui. Ele deve ser um celerado. Desses que
anda cagando regra pra gente que sabe bem o que faz. Certo estão os políticos espanhóis.
Eles dão uma lição ao mundo. Enterrem o Quixote, a vida segue.
Esse
é um bom exemplo de uma inovação pedagógica, que pode revolucionar a educação.
Como as pessoas não haviam pensado nisso antes? Os livros dão trabalho, custa
lê-los. A nova pedagogia exige respostas rápidas aos novos desafios. Não temos
tempo para ficar insistindo com quinquilharias velhas e obsoletos como livros
antigos.
Os
alunos não entendem os livros? Atire os livros para longe deles. Assim eliminasse
o problema. Óbvio. Afinal são apenas livros. Que mal pode haver em apagar do
convívio juvenil um livro maçante e soporífero com o D. Quixote. Há muitos mais
livros no mundo. Talvez até melhores. Quem vai saber?
Podemos
substituir essa velharia por genuínos e modernos pensamentos, que melhor se
adequem as consciências contemporâneas. As contingências modernas exigem-nos
que estejamos constantemente adequando-nos sempre à medidas de novas
inteligências.
E
há um sem-número dessas novas inteligências solicitando a nossa atenção, e que
melhor falam às novas gerações. Mas a inteligência, a erudição, as inovadoras
lições de insubmissão, a vida percebida como insuficiente, e as perspicazes maquinações
existentes no Quixote? Queixarão sem dúvida alguns. A estes diremos que essa
inteligência e erudição, além da ideia de insubmissão à vida cotidiana, já não
são mais as nossas.
Buscamos
a literatura que nos satisfaça o cumprimento de nosso destino. A literatura
como “alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade” como essa
presente no Quixote, ameaça-nos a empregabilidade e a funcionalidade. Dizem que,
a leitura do Quixote tem sido boa escola para artistas, conclui-se daí, não
serem serias, são portanto, inúteis aos desafios do novo mundo.
Os
best-sellers infantis e juvenis que pipocam nas livrarias, estes sim, têm
melhores instruções para lidarmos com as novidades na vida moderna. Milhares de
pessoas, que consomem essa literatura, não podem estar enganados das qualidades
inequívocas desses livros, que arrebatam multidões pelo mundo.
Claro,
eles têm lá alguma indigência, mas para que exigir um repertório variado de
ideias e linguagem quando estão todos tartamudeado. Creio que, os novos
produtos literários estejam em melhores condições de substituir as antigas
literaturas na função de ensinar às pessoas as riquíssimas possibilidades que a
língua encerra. Basta ver um grupo de jovens falando. São inventivos,
primorosos no traquejo com as palavras, quase nunca, tipo assim, se repetem. Tira-se
daí que as novas literaturas estão, por certo, melhores condicionadas à
estimularem a sensibilidade e a fantasia, graças as novíssimas obras que pouco
a pouco vão substituindo os bolorentos romances.
Celebrem
a boa nova.
Adernar na praia - Como a revolução cubana quase naufragou
.
Os feitos históricos, as grandes
revoluções, remetem-nos sempre às imagens de destemidos e heroicos momentos. Napoleão cruzando os Alpes no passo de Grande São Bernardo, na representação de
Jacques-Louis David montado num imponente cavalo apontando para o alto incendiando
a marcha do seu exército para vitória. Não se pensa nesses gestos com riso no
rosto. Ante a morte iminente, que precede as batalhas, o riso se acanha. Porém,
muitos dos atos heroicos mais notáveis têm um cadinho de ridículo, um quê de
risível e cena pastelão. Alguns desses momentos prestam homenagem a Quixote.
Ao recordar os passos dos revolucionários
cubanos, liderados por Fidel Castro, na invasão que iniciou o levante contra a
ditadura de Fulgêncio Batista, em 1956, o fotógrafo da revolução Alberto Korda,
recordando as palavras de Che a propósito da travessia entre o México, onde os
revoltosos estavam, até Cuba, conta as peripécias rocambolescas enfrentadas
pelos revolucionários, até a tomada do poder, pelos destemidos barbudos.
Em dado momento, com indisfarçável ironia,
Che lembrou a Korda que o navio que transportava as esperanças de um mundo
justo para Cuba quase não chegou ao seu destino. A travessia foi marcada por
reveses cômicos. No meio do caminho, lembra Che, “os homens com expressão
angustiada, apertavam seus estômagos com as mãos, enquanto metiam suas cabeças
dentro de baldes”.
A certa altura da viagem o navio
avariou. As bombas hidráulicas que movia o Gramna,
um pequeno iate de doze metros, carregado de equipamentos e com 80 homens a bordo,
pediu arrego. A água começou a ameaçar adernar o rocinante esperançoso. O jeito
foi usar os baldes agora para outra tarefa.
Por fim, no dia 2 de dezembro de 1956, 7
dias depois de ter saído de seu destino, o barco encalhou num lamaçal nas
proximidades de um mangue, na costa de Cuba. “Foi necessário”, lembra Korda, “abandonar
quase todo o equipamento e os víveres”. Che com seu humor sarcástico lembrou
que “não foi bem um desembarque o que ocorreu, mas sim um naufrágio”.
Haverá algo mais cômico do que o tropeço
do herói no desembarque? Rimos, nos diz Bergson, do que foge à normalidade, à
previsibilidade. Rimos daquilo que desvia da ordem natural das coisas.
Imaginamos os revolucionários como homens de gestos certeiros, nobres e
precisos, mas essa ordem de coisas está apenas na nossa mentalidade idealizada sobre
as figura heroica. Os relatos de Korda restitui à nobreza dos infatigáveis combatentes
uma coloração cômica que se contrasta com o que esperávamos que acontecesse. Nada
na vida nos confirma que os fatos mais notáveis não possam nascer de atos falíveis.
Da natureza Selvagem
Nem bem iniciaram as investigações da
operação Lava Jato, já tem gente dizendo que, depois desse caso de corrupção
explicita na maior empresa pública do país, pouca coisa mais merecerá o nome de
escândalo nas Terras Papagaios. Por ora a Polícia Federal suspeita em desvios
nos valores que andam pela casa dos milhões de reais. A se confirmarem esses
valores, o mensalão, que escancarou os modos
operandi da governança nacional, estará fadado a se tornar um mero
escandalozinho de vão de escada, coisa de amanuense. Exagero à parte, penso que
no Brasil há sempre a possibilidade da coisa piorar. Aqui, nada está tão mal,
que não possa ser superado por um mal ainda maior. Muito antes do soar das
trombetas do juízo final, ainda teremos mais bons motivos para sentir saudades
do tempo em que os governantes nos roubavam apenas em quantias inferiores a bilhões.
Durma-se com um país desse.
As coisas, como andam?
Ou andamos todos desacautelados ou andamos todos com os quadro membros no chão. Uma ou outra dessas alternativas
há de explicar por que na terra do Saci se comemora o Halloween.
Das pretensões perdidas
Foto: Robert Doisneau
.
Costuma-se dizer amiúde, que envelhecer
traz consigo não apenas rugas ao rosto. E diz-se isso por se acreditar que
envelhecer traz também sabedoria. Acreditamos piamente que, em oposição a uma
ingenuidade juvenil, a velhice faz do homem um ser mais dotado para evitar os
dessabores da vida.
Mas não é bem assim. Envelhecer não afiança
ao homem segurança alguma contra os infortúnios. Talvez o torne mais pretensioso
por acreditar imune ao que ficou no passado. Do berço ao túmulo, no entanto,
não temos nenhuma garantia de sorte, mesmo velhinhos continuaremos assombrados pela
má fortuna e outros males.
A certeza disso me veio hoje ao ler nos
jornais a notícia de que o matusalém do pop, o canadense Leonard Cohen, ao completou
no último mês veneráveis 80 anos, luta contra o alcoolismo, a depressão e um
furto de bens promovido por sua ex-agente e amante, que o surrupiou todas as economias,
12 milhões de dólares, que o cantor guardava para sua aposentadoria. Dinheiro,
fama, sucesso, prestigio, velhice, nada disso nos distancia dos erros.
A vida recente do cantor canadense é a
prova viva de que o homem é, em todas as idades, vulnerável às piores quedas. As
adversidades não escolhem tempo para aparecerem. Elas não querem saber se você
é pop, rock ou finge fama. Surgem nas horas mais inconvenientes e destroem
nossas melhores pretensões, devolvendo-nos ao rosto aquele ar de
constrangimento juvenil que durante toda a vida nos esforçamos para arrancar. Acreditar
que a verdadeira sabedoria está num acumulo de tempo, não passa de uma ilusão.
Hércules e Anteu - A realidade suspensa
Vendo a capa do livro de Marco Haurélio que ainda não possuo, Os doze trabalhos de Hércules, ocorreu-me lembrar a história de Anteu. Segundo a mitologia Grega, Anteu é um gigante que obriga a todos os viajantes a lutar contra ele. Em suas lutas, cada vez que seu corpo é atirado à terra ele se levanta ainda mais forte, porque a Terra (deusa Gaia, sua mãe) lhe restitui as forças. Enquanto estiver em contato com o solo Anteu é invulnerável. A sorte dele muda quando encontra Hércules que viajava pela Líbia em busca dos pomos de ouro do Jardim das Hespérides. Hércules luta com o gigante. Na refrega atira Anteu três vezes ao chão. Três vezes o gigante se levanta ainda mais rijo. Astuto (sim, porque o herói, não é apenas um monte de músculos) Hércules percebe que o filho de Gaia (Terra) volta à luta sempre mais forte. Hércules então soergue-o do solo que o tornava invencível e o estrangula. Um sem número de pinturas reproduz esse combate e o sortilégio do herói grego para vencer o gigante ameaçador. Há muitas lições nessa história que os antigos aproveitaram dos contos populares. Uma delas é que para sobrevivermos necessitamos, como Anteu, de estar sempre com os pés bem assentes ao chão. Precisamos do nosso bocadinho diário de realidade. Mas ela ensina também que em excesso a realidade também pode ser alienante e é preciso como o herói grego fez, suspendê-la. Assim como precisamos de realidade, também precisamos de um bocado de irrealidade. São importantes os telejornais diários, os debates eleitorais, a compra de pão na padaria, mas mais do que isso são também indispensáveis as leituras literárias, as apreciações de quadros, as mitologias, as religiões, os mitos, as músicas e voos às regiões da imaginação, para suportarmos o peso e a força que nos prende ao chão.
Agustina Bessa-Luís
.
Agustina Bessa-Luís, um dos maiores
nomes da literatura portuguesa, comemora hoje 92 anos de vida. Desde a sua
estreia em 1948, entre romances, contos, ensaios, aforismos, livro de crônicas,
textos dramáticos, livros de viagens, biografias e escritos avulsos, essa escritora
já conta com mais de 70 obras assinada.
Comparada aos seus patrícios, José
Saramago e Antônio Lobo Antunes, ela é uma ilustre desconhecida do distinto
público brasileira. As razões para isso não poderiam ser outra, preferimos
antes os grandes embustes impingidos pelo mercado, a obras de engenharia humana
divorciadas do puro interesse comercial.
O professor Alcir Pécora, entusiasta da escrita de Bessa-Luís, a considera muito superior a José Saramago e António Lobo Antunes, dois dos mais
prestigiados autores portugueses entre nós. No entanto, a presença de Agustina
ainda é inexpressiva nas universidades, centros acadêmicos, livrarias e outros.
Pécora aponta algumas das possíveis razões para esse ocultamento de Agustina:
"talvez falte mais conhecimento efetivo da literatura portuguesa e menos
contato apenas por meio de agentes internacionais, que sempre vendem o mesmo
peixe".
Ledo engano
.
Ao abrir há pouco, o site da Submarino e
pesquisar os livros à venda do poeta João Cabral de Melo Neto fui surpreendido
com a inusitada ilustração do poeta na página que vende o livro Museu de Tudo.
Fiz um Print da página. Se vocês
atentarem bem verão que esse aí não é João Cabral, e sim o seu amigo e também
poeta Lêdo Ivo.
Não é a primeira vez que vejo esse equívoco
ocorrer. Recentemente o Jornal da Cultura cometeu o mesmo deslize. Nunca os achei parecidos. No entanto é
comum ver site que falam do João Cabral com a foto de Lêdo Ivo.
Isso só demonstra que no Brasil os
poetas são pouco ou muito mal apreciados, as pessoas não se lembram deles.
Quando era professor levei um dia um
conjunto de imagens com figuras do mainstream; bigbrothers, atores de novelas, jogadores de futebol e alguns literários, para
desanimo geral constatei que ninguém conhecia Leão Tolstoi, Balzac, João
Cabral, Bandeira, mas sabiam muito bem quem eram os globais.
A cultura televisiva, com grande apelo
às imagens, dita para maioria das pessoas a visão de mundo e o alcance de sua
percepção da realidade. Para além do tubo televisivo, o universo das letras,
que vive da palavra, sofre para atrair o interesse e o gosto das pessoas.
A Civilização do espetáculo
Em seu perspicaz ensaio: A Civilização do Espetáculo, o escritor
peruano Mario Vargas Llosa se insurge contra o que chama de "banalização
das artes e da literatura". Sobram ainda, criticas ao que ele chama de "triunfalismo do jornalismo
sensacionalista" e a ascensão da ideia de que a literatura deve se render
exclusivamente às esferas do entretenimento.
Llosa afirma que no passado a cultura
agia sob as consciências, para impedir que virássemos as costas à realidade. No
presente, banalizada pela covardia das universidades e pelo relativismo
cultural, a literatura deixa pouco a pouco de ajudar os leitores a entender
melhor a complexidade humana, mantê-los lúdicos sobre as deficiências da vida,
alerta-los para realidade histórica; para torna-se um passa-tempo despretensioso,
na melhor das hipóteses, avalia o ensaísta, “ela é usada para salva-los do
tédio das longas horas de viagens de ônibus, metrôs”. Em meio a todo esse novo
panorama, a literatura para sobreviver, “tornou-se light - noção que é um erro
traduzir por leve, pois, na verdade, quer dizer irresponsável e, frequentemente,
idiota."
Atuando como mecanismo de distração da
realidade e de entretenimento a literatura, acredita o pensador, perdeu seu
poder de animar consciências. Ao invés de indivíduos indóceis a manipulação da
verdade por parte dos poderes constituídos, a literatura contemporânea cria
consumidores de toda espécie de bugigangas e indivíduos autômatos.
Ao rebaixar-se ao mero entretenimento, a
literatura, acredita Mario Vargas Llosa, acorrenta o homem a sordidez
cotidiana, ao inferno doméstico e a angústia econômica, e o estimula à uma
indolência espiritual relaxada.
As consequências desse torpor, é a
criação de indivíduos preguiçosos para tarefa de pensar. "As ilusões
plasmadas com a palavra" e não dadas de pronto como no cinema de
entretenimento, por exemplo, "exigem ativa participação do leitor, esforço
de imaginação e, às vezes, em se tratando de literatura moderna, complicadas
operações de memória, associação e criação, algo de que as imagens do cinema e
da televisão dispensam os espectadores. E estes, em parte por esse motivo, tornam-se
a cada dia mais preguiçosos, mais alérgicos a um entretenimento que exija deles
esforço intelectual."
Amputada de seu valor inconformista, a
literatura de frivolidade, que domina todos os espaços na vida do leitor, com
vampiros, crimes sadomasoquistas, invasões marcianas, romances edulcorados, e
outros; divertem e principalmente dispensam os leitores de pensarem, mas, como
sugere Llosa: "são incapazes de fazê-los entender o labirinto da
psicologia humana, os mecanismos da vida social, os abismos da miséria e os
ápices da grandeza que podem coexistir no ser humano".
Não é apenas à literatura de mero
entretenimento que se volta a artilharia de críticas do ensaísta. À televisão e
aos meios de entretenimento eletrônicos ele dedica um espaço especial de
reflexões. A televisão, é dispensável comentar, rebaixou a níveis insuportáveis
a programação. Na corrida para atrair mais público e brigar pela audiência os
meios de comunicação tornaram-se um vale-tudo. Reduzindo o público a mero
espectador passivo. "A fantástica acuidade e
versatilidade com que a informação nos transporta hoje para os cenários da ação
nos cinco continentes conseguiu transformar o telespectador num mero
espectador, e o mundo num vasto teatro, ou melhor, num filme, num reality show
com enorme capacidade de entreter". p. 202.
"A informação audiovisual fugaz,
passageira, chamativa, superficial, nos faz ver a história como ficção,
distanciando-nos dela por meio do ocultamento de causas, engrenagens, contextos
e desenvolvimentos desses acontecimentos que ela nos apresenta de modo tão
vívido. Essa é a maneira de nos levarem a sentir-nos tão impotentes para mudar
o que desfila diante de nosso olhos na tela como quando vemos um filme." p.
202.
Tenho algumas reservas as opiniões de
Mario Vargas Llosa a respeito da política. Sua aversão ao socialismo e sua
adesão aos princípios neo-liberais são ao meu ver algo questionável. Simpatizo,
porém, com sua luta pessoal em favor da cultura e da defesa da literatura como
um valor elevado e indispensável na construção de uma sociedade minimamente
saudável e prospera.
Intelectual engajado, pensador que expresse suas ideias e interfira no fluxo corrente das ações cotidianas, a despeito dos discursos da moda, está escasso, Llosa talvez seja o último dessa espécie rara. Adoro, sem reservas, todas as obras literárias desse escritor e pensador, e comungo com ele da opinião que a cultura na atualidade vive ameaçada pela ideia de que deve ser apenas entretenimento e não outras coisas.
Intelectual engajado, pensador que expresse suas ideias e interfira no fluxo corrente das ações cotidianas, a despeito dos discursos da moda, está escasso, Llosa talvez seja o último dessa espécie rara. Adoro, sem reservas, todas as obras literárias desse escritor e pensador, e comungo com ele da opinião que a cultura na atualidade vive ameaçada pela ideia de que deve ser apenas entretenimento e não outras coisas.
Quem de dentro de si não sai.
.
"Quem de dentro de si
Não sai!
Vai morrer sem amar
Ninguém!" (...)
A casta a qual pertence o poetinha, é a
dos que tecem variações inúmeras sobre um mesmo tema. O amor e seus desenganos,
o amor e suas alegrias, o amor e sua perdição, o amor e suas dores, o amor e
seus muitos usos e desusos. O lirismo poético de Vinicius de Moraes constitui
um dos contributos mais importantes à nossa poesia.
Estado mínimo
.
O cartaz acima é uma propaganda Nazi
defendendo a eutanásia de deficientes. Diz a mensagem: "Esta pessoa,
sofrendo de anomalias hereditárias, custa à comunidade 60 000 marcos.
Compatriota, este dinheiro também é seu". O apelo ao bolso dos
"compatriotas" parece justificar o ato de extermínio daqueles que ao
invés de contribuírem para máquina do Estado, tornam-se desde sempre (lembre-se
que a propaganda insinua que pessoa em questão sofre de anomalias hereditárias)
um fardo àqueles que supostamente produzem.
Não posso deixar de ver nessa propaganda
e nas mensagens daqueles que apostam no Estado Mínimo um paralelo. Esses como
aqueles ignoram o fato de que o Estado existe em função da sociedade e que essa
tem obrigações humanas e não materiais.
Nas redes sociais temos visto mensagens
contrárias ao Bolsa Família, contra a Reforma Agrária, a contratação de médicos
para população desassistida do Estado nos lugares mais recônditos do país e a
entrega dos presídios públicos à iniciativa privada. Sob a alegação de que
essas ações oneram de forma ineficiente o Estado está na verdade a preocupação
mesquinha e bestial de defesa de seus interesses econômicos.
Regozijar-se com meras sombras de verdades
Foto: Cartier-Bresson
Estive há pouco peregrinando por uma
sítio em que jovens escrevem de tudo um pouco, música, cinema, literatura e
outros standard culturais. Até aí não há nada demais nisso. Uma massa de
veículos democratizou os canais de comunicação e desde então estamos todos
externando opiniões como se de repente descobríssemos com incontinência verbal.
O curioso é que essa pretensa liberdade
de expressão, garantida pela massificação dos meios de comunicação, não foi
capaz de estimular alguns jovens a enxergar o mundo além das focinheiras da
Indústria Cultural. Por todo site o que vi foi a celebração do mundinho bovino
das pretensões artísticas de pseudo-estrelas hollywoodianas, cujo único talento
é servir de produto descartável a uma indústria.
Claramente o mundo desses adolescentes
lembra aquele dos simiescos homens encarcerados de Platão, cuja visão do mundo
era aquela apenas refletiva nas paredes das cavernas que habitavam,
regozijando-se com meras sombras de verdades.
Um dia triunfal
.
Conta Pessoa em carta dirigida a Adolfo
Casais Monteiro que no dia 8 de Março de 1914 lhe aconteceu o seguinte:
"acerquei-me de uma cómoda alta, e,
tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E
escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não
conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter
outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi
o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto
Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre."
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Suportar a vida
A vida é mesmo em alguns momento
insuportável, e de fato como pensava Fernando Pessoa, a arte não só ameniza
esses momentos, como ainda insinua ser possível encontrar entre os escombros da
vida um significado plausível para continuar existindo.
Fernando Pessoa
Foto: Clarence White, Mãe e filho.
.
Às vezes, em dias de luz perfeita e
exata,
Em que as coisas têm toda a realidade
que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às coisas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer coisa que
não existe
Que eu dou às coisas em troca do agrado
que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das coisas: são
belas?
Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras
dos homens
Perante as coisas,
Perante as coisas que simplesmente
existem.
Que difícil ser próprio e não ver senão
o visível!
Alberto Caeiro, Poema XXVI
O novo que a gente principia
(...)
—— Belo porque tem do novo
a surpresa e a alegria.
—— Belo como a coisa nova
na prateleira até então vazia.
—— Como qualquer coisa nova
inaugurando o seu dia.
—— Ou como o caderno novo
quando a gente o principia.
—— E belo porque o novo
todo o velho contagia.
—— Belo porque corrompe
com sangue novo a anemia.
—— Infecciona a miséria
com vida nova e sadia.
—— Com oásis, o deserto,
com ventos, a calmaria.
(...)
Morte e Vida Severina - J.C.
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