As tentativas de ameaça à liberdade de
expressão, ocorridas no último dia 7 de janeiro em Paris, seguiu-se um
movimento contrário de resistência à intolerância e ao arbítrio dos que
empunham a fé para legitimarem suas insanidades. No mesmo instante em que eram
rechaçadas as tentativas de intimidação da livre expressão, algumas pessoas
tentavam justificar os atos dos assassinos atribuindo a culpa das mortes aos
mortos. Segundo estes, os cartunistas do Charlie
Hebdo provocaram a cólera dos radicais ao violarem preceitos sagrados do
Islã, que não tolera a representação do profeta. E o que dizer dos outros
mortos na fuga dos energúmenos que nada tinham a ver com os cartunistas? Para os
devotos das religiões da morte o respeito à fé alheia está acima das pretensões
de liberdades de expressar. Não me causa nenhum espanto estas atitudes de simpatia
de alguns aos atos dos assassinos. No dia 14 de fevereiro de 1989 o escritor indiano
Salman Rushdie foi sentenciado à morte pela maior autoridade do islamismo no
mundo o aiatolá Khomeini, líder da revolução islâmica no Irã, unicamente por ter
escrito um livro de ficção, Os versos
Satânicos. Para concretizar o seu plano de vingança contra o escritor herético,
o líder dessa sentença santa, não apenas ofereceu dinheiro vivo aos
interessados na empresa, mas também uma passagem direta, sem pedágio para o Paraíso.
O episódio insano não gerou, como agora, das autoridades religiosas ocidentais
um repúdio sério. Como ocorrido com Rushdie no passado e agora com os cartunistas
do Cherlie Hebdo, uma parcela das
pessoas, incluindo líderes religiosos e personalidades públicas não pareceu
nada demais autoridades religiosas ou seus verdugos vingarem uma discordância,
com derramamento de sangue. Embora a história diga o contrário, os agentes
higiênicos da sociedade, estão certos de que a boa-fé da religião islâmica
(como de resto ocorre com as demais inspirações divinas) só tem maravilhas.
Maomé e seus seguidores jamais se contradisseram e a religião é um poço de
bonança onde o homem cansado mata a sua sede. Essa interpretação das religiões
como oásis de candura serve apenas aos acólitos. As escrituras santas são invioláveis
em sua sabedoria e mesmo que alguns hadith
puna a apostasia com a pena de morte, ou que o homossexualismo seja um crime
passível de decapitação ou que meninas de 9 anos tenham que se casarem, assim
como uma das mulheres do profeta se cassou nessa idade, ou que outras mulheres
devam ser mutiladas para não sentirem prazer, nada disso perturba a crença
daqueles que se recusaram em condenar com veemência as barbaridades dos
fundamentalistas em Paris. O pensamento fundamentalista não tolera a livre
expressão porque ela não se conforma com as incoerências do pensamento
dogmático religioso. Extinguir pela força os juízos e juízes opostos às suas interpretações
do mundo é um grave perigo. Gostaria de entender como pessoas de fé possuem
vantagens morais sobre as demais e só por isso elas estão autorizadas a
matarem. Por que os religiosos, sejam do Islã ou de outras seitas, devem ter
imunidade divina para suas práticas, e como, perpetrando os piores horrores e
imoralidades, eles ainda gozam de destacados privilégios, como sanções a críticas?
As religiões podem oferecer consolo e elevação a algumas almas perdidas, mas
isso não pode nos impedir de lembrar que elas também são bárbaras. Todas as
religiões têm nódoas irremovíveis de sangue. Querê-las imunes às críticas,
livres da exposição de suas contradições não as ajuda a removerem o seu passado
de trevas, muito menos conter o fanatismo cego dos que matam e trucidam os que
pensam contrários às suas doutrinas de morte. Nada pode ser mais temido pelos
legisladores da fé do que ter a sua autoridade questionada. A sátira corrói a
autoridade e seus instrumentos de controle, por isso elas são combatidas, por
isso elas são temidas. Ao escarnecerem dos vultos religiosos, que escarnecem
todos os dias dos homens, o riso das charges ajudam a deslegitimar interpretações que dotam alguns de autoridade sobre a vida e a morte.
Presidentes e fraldas
Paul Strand, Cega, 1916.
Nunca me esquecerei da frase do ex-presidente Lula, que no explodir das denúncias do mensalão saiu a público a dizer: “Eu fui traído”. Depois ele esqueceu isso e voltou a abraçar os
companheiros que meteram a mão no erário público, achincalhando a República. Na
ocasião se debateu muito que não era possível que um governante de um país como
o nosso, continental, vigiasse tudo o que seus comandados faziam ou deixavam de
fazer. Ninguém sabe o que vai no coração do homem. Amenizou-se assim a
responsabilidade do presidente nos atos de seus comandados diretos. Alguns governantes, talvez tenham boa-fé e
deleguem aos seus auxiliares poderes, esperando que estes retribuam a confiança
com o máximo zelo. Coisa que nem sempre acontece. Se vale a boa-fé vale muito
mais a seleção criteriosa. A escolha de um ministro e auxiliares do alto
escalão é entre todos os atos governamentais uma demonstração de direção do
governo. Para onde vai o governo, o que quer e espera fazer? O mandatário deve
ter plena confiança em seus ministros, de outra maneira por que os escolheria.
Essa é uma lógica razoável. A escolha pelos méritos e a confiança na execução
do trabalho pelo registro do histórico de atuações pregressas na área, também é
outro critério que deveria ser observado. Esta é uma lógica razoável, insisto,
porém não no Brasil. Aqui os critérios, como bem mostrou a escolha da
presidenta Dilma na composição de seu novíssimo ministério atente a outra
lógica, somente aceita e compreendida nos escritórios e reuniões palacianas de Brasília.
Ao eleger Helder Barbalho para o ministério da pesca, Pastor George Hilton para
o ministério dos esportes, Cid Gomes para o ministério da educação e outros
trinta e tantos ministros ela queimou a desculpa dada por Lula em 2005 para se
livrar da responsabilidade das delinquências de seus auxiliares diretos. Em comum
esses nomes tem um histórico de denúncias cabeludas que a qualquer um os
tornariam desqualificados para o exercício dos cargos. O ex-governador Cid
Gomes jamais teve em sua carreira política nenhuma ligação com as discussões
sobre a educação. O ponto de maior destaque de sua carreira ocorreu quando ele
fretou com dinheiro público um jatinho para levar a mulher e a sogra para
passear pela Europa. Já o Barbalho filho é herdeiro de umas das figuras mais enlameadas
da política nacional o ex-senador Jader Barbalho que renunciou ao mandato
depois de uma enxurrada de denúncias de uso dos recursos públicos para
favorecer familiares. O caso do pastor evangélico George Hilton é ainda mais
escabroso. Eleito pelo PRB que o renegou, ele se filiou ao PFL que o expulsou
em 2005 depois dele ter sido flagrado num aeroporto com inexplicáveis R$
600,000 na mala. O homem foi expulso do PFL o partido mais escroto do país e
achou abrigo no governo Dilma. Dilma não poderá jamais dizer que não sabia ou
que se sente traída quando escândalos envolvendo esses nomes vierem a público.
Com uns ministros desses o que ela espera que ocorra? Estava certo Eça de
Queiroz, quando disse que de tempos em tempos os presidentes e as fraldas
devem ser trocados, ambos pelas mesmas razões.
Triste Bahia
Por que alguns políticos brasileiros se
acham tão especiais? Por que, ao acenderem aos governos, passam a se sentirem
diferentes, como se de repente, fossem untados com o mesmo olho sagrado que
ungiu David como rei de Israel? Diariamente eles nos dão exemplos de que o
poder é viciante e de que são capazes dos maiores enxovalhos públicos para perpetuarem
os seus privilégios de casta. O ex-governador da Bahia, estado brasileiro que é
conhecido por suas maravilhas políticas, como ter eliminado o analfabetismo,
erradicado as desigualdades, combatido a violência com inteligência,
dignificado o trabalho dos professores e construindo um estado de bem-estar
social inigualável no país, achou por bem, depois de ter conquistado para o
Estado Baiano todos esses benefícios, dar a si mesmo um prêmio. Pelos bons
serviços prestado nos oito anos (des)governo o ex-governador, um dia antes de entregar
o cargo ao nosso candidato a ungido, assinou um decreto que garante serviços
vitalícios de motorista e segurança particular aos ex-governadores da Bahia. Vida
dura está de governante
Mexerico, fuxico e outras imposturas
Recolhidas através da observação do povo
as coisas à sua volta, as quadras populares exalam sentenças judiciosas sobre o
comportamento probo de alguns e questionáveis de outros. Consciencioso, o povo
não manda recado. Exalta quem deve ser exaltado. Rir de quem deve-se rir e
troça quem deve ser troçado. Alguns dos melhores exemplos dessa atitude poético-filosófica,
confunde-se com as melhores doutrinas dos filósofos moralistas. Entenda-se
moralista aqui não no sentido dos defensores de uma moral conservadora, mas sim
como aqueles que criticam os costumes e são atentos observadores da mentalidade
e do espírito social. Corrompendo e adulterando o verniz social, que recobre as
faces verdadeiras da sociedade, a poesia popular infringe o decoro que finge
não ver o que todos veem. Dão por isso testemunho de um mundo verdadeiramente hipócrita,
mesquinho e falso.
Meu
mano, meu camarada,
Tudo
no mundo é assim:
Comigo
ocê fala de outros,
C´outros`ocê
fala de mim.
******
Quem
tem aza não avôa,
Quem
não tem quer avoar;
Quem
tem razão não se queixa,
Quem
não tem quer se queixar.
******
Alfaiate
quer tesoura
Sapateiro
quer tripeça
Moça
bonita quer outro
Moça
velha quer conversa
******
Há
duas cousas no mundo
Que
dão confusão na gente
É
padre ir para os infernos
E
doutor ficar doente
******
O
padre quando namora
Sempre
põe a mão na coroa,
Namora,
padre, namora,
Que
o senhor tudo perdoa.
Quantos poemas, considerados belos e
exemplares, foram produzidas longe de um contexto como este que descreve com tanta
penetração as imposturas sociais?
Cleptocracia
Quadro: Caravaggio- “Os Jogadores” óleo sobre tela com 99 x 107
cm, 1594.
As investigações da Política Federal que
desbaratou um esquema de corrupção nas obras públicas do Governo Federal,
especialmente na Petrobrás, começou a sua fase final. Executivos de 6 das
maiores empreiteiras do país estão sendo acusados, com vultosas provas, de
pagarem propina à dirigentes da Petrobras para ganharem licitações em obras
orçadas em bilhões de reais. Dado a sofisticação do esquema de desvio de
dinheiro, o Procurador Geral da República classificou o ato de “verdadeira aula
do crime”.
Ao mesmo tempo em que este esquema era
desvendado, outro não menos vergonhoso, assolava o Estado de São Paulo. O
Ministério Público daquele Estado avaliou que as obras do metrô, entre os anos
de 1998 e 2008, foram fraudadas, resultando em prejuízos milionárias para os
cofres públicos.
Na mesma semana em que tudo isso era
exposto ao público, outras denúncias de corrupção atingiram as Forças Armadas e
a Confederação Brasileira de Vôlei. Uma empresa americana de manutenção de
turbinas de avião denunciou à comissão americana antifraude ter subornado
funcionários da FAB e do gabinete do governo de Roraima, para conseguir
contratos no Brasil, Peru e Argentina. Já a CBV teve o seu patrocínio suspenso
com o BB em razão de uma apuração de desvio de mais 30 milhões nas contas da
CBV durante a administração do seu ex-presidente.
Todas estas vexatórias notícias sugerem para
os mais otimistas o fim da impunidade de atos ilícitos no país. Nunca antes na
história desse país ocorreu uma erupção tão grande de denúncias e investigações
de atos de delinquência. Confiando que a lama é purificadora, muitos acreditam
que agora passaremos o país a limpo.
Está mais fácil um camelo passar pelo
buraco de uma agulha do que ver isso acontecer. A perplexidade dos fatos ora
expostos com todas as vísceras, envergonha uma pequena parcela da população.
Uma diminuta parcela. A grande maioria não só ignora os fatos, mas também
colabora, a sua maneira, para que estes crimes graduados tenham nascedouros bem
simples e cotidianos, permitindo que eles se perpetuem amanhã e depois de
amanhã.
Não é difícil encontrar quem mesmo se
revoltando com as notícias deixe de perpetrar pequenos delitos. Não adianta o
padeiro torcer por ver o executivo na cadeira e continuar roubando no peso do
pãozinho. Não adianta o professor elogiar a ação da polícia e depois maquiar a
sua declaração de Imposto de Renda. De que vale a esperança de dias melhores
quando não nos furtamos o pagamento de um cala
boca às autoridades de transito, que nos flagraram rodando pelo acostamento
da rodovia ou dirigindo sem carteira.
Em Elogio da Loucura o escritor Erasmo
de Roterdã diz que a grande maioria de nós temos olhos de lince para enxergar
os defeitos alheios e de tartaruga para ver os nossos. Seria bom apanhar a
lição do escritor Holandês e fazer do caso recente uma auto crítica de nossas condutas
diárias. Se queremos mesmo passar o pais a limpo e desinfetar as consciências,
temos que primeiro iniciarmos a faxina por nossa casa. Antes de notar o
argueiro no olho do outro é preciso ver a trave no nosso.
A educação pela pedra - Maksim Górki
.Górki
.
Estou lendo o escritor Russo Górki. Ganhando meu pão, é o segundo volume da
trilogia que inclui ainda Infância e
Minha Universidade. Aleksiéi
Maksímovitch Piechkóv, mais conhecido pelo pseudônimo de Maksim Górki, isto é,
Máximo, o Amargo, nasceu em Níjni-Nóvgorod, em 1868, e morreu em Moscou em 1936.
Ele foi romancista, dramaturgo, contista e ativista político. Entre os grandes
nomes da literatura russa ele figura no rol daqueles que partiram de suas experiências
pessoais para alimentarem a sua literatura. Este fato pode ser comprovado pelos
inúmeros títulos que ele dedicou a reconstituir a sua vida de forma ficcional.
A obra de Górki está ambientada nos dramas das classes despossuídas. Seus
personagens são os trabalhadores rurais, os operários, os aventureiros e todas
as gentes do povo que como ele sentiram desde sempre as injustiças do mundo de
forma indignada. Filho de um estofador, viveu parte de sua primeira infância sob
os cuidados da avô materno. Este convívio marcará profundamente a sua
personalidade.
Em Infância e Ganhando meu pão a avó figura com a
imagem daquela que estará presenta nos acontecimentos centrais de sua formação e
de sua personalidade. Ela definirá o caráter do autor conduzindo-o as primeiras
lições sobre a vida. A certa altura lemos uma dessas duras lições. Quando um
energúmeno tenta constranger o seu neto com uma capciosa proposta de provar a
sua coragem dormindo no cemitério, ela poderia se assustar, reprender as
crianças e fazer com que o seu neto desistisse da proposta. Porém, ela não faz
nada disso. E ao contrário do que poderiam imaginar todos ela apenas lhe diz:
"Vista o casaco e leve um cobertor,
senão de manhãzinha vai ficar com frio...". Confiando na avó Aleksiei
vai. Ao acordar, depois de vencer os seus medos e derrotar o energúmeno, ele
encontra sua avó o esperando na porta do cemitério, para mais uma vez lhe tecer
aqueles valiosos conselhos que ele levará por toda a vida: “Deve-se experimentar tudo por si, querido
da minha alma, saber sozinho de tudo... Se não aprender por si, ninguém lhe
ensinará....”.
A avó do narrador é uma personagem forte, viva e cheia de
espírito. Ela aprendeu desde cedo que na vida só sobrevivem os destemidos. Esquivar o seu neto dos muitos temores existentes não o salvaria deles. Por isso ela preferi que ele se exponha agora, porque sabe que assim ele se preparará para outros ainda piores e ainda mais temerosos. O que será que teremos até o final do livro?
O olhar de Henri Cartier-Bresson
Foto: Henri Cartier-Bresson, Amarante, Portugal, 1955.
.
Se não fosse a sensibilidade do artista
como uma imagem como esta imergiria do nada para interferir no nosso olhar
cotidiano. Henri Cartier-Bresson elevou a fotografia à condição, incontornável,
de arte. Pena que o fetichismo mercadológico do nosso tempo a condicionou ao
consumo de bens perecíveis.
Dos sinceros
Com frequência me perguntam sobre os
meus livros e autores prediletos. Temo ser injusto com os que já li ou os que
ainda lerei, e escapo dizendo, que os meus autores prediletos são os sinceros.
Nessa quadra se encaixam algumas leituras que acabei de concluir: Dostoievsky, Charles
Bukovsky, Sade e Antônio Carlos Viana. Gostei muito desses autores. A razão?
eles não escreveram lá coisas muito abonadoras sobre os homens e a humanidade.
Estilo novo
.
Quem acompanha as aparições públicas da
Presidenta Dilma percebeu que nos últimos dias, após as eleições, ela trocou o
habitual terninho Vermelho No Pasarán! Pelo, Azul Petróleo. A cor lhe caiu bem,
afirmaram alguns. Outros discordando, acusaram de cafona e fora de moda a
escolha da presidenta, exigindo que ela revisse as cores de seu guarda-roupa. O
impasse não parece ter atingido a presidenta, que julga essas discórdias de
estilo, uma questão de foro íntimo. Pelo visto ela continuará usando a roupa que bem lhe aprouver, conforme a ocasião pede. Uma lição de moda e de bom gosto nos dá a nossa líder.
Meus passos são mais trôpegos do que elegantes
Meus passos são mais trôpegos do que elegantes.
Minha voz incomoda mais do que seduz.
Recuso-me a esgrimir por esgrimir, mas, se a causa
for justa, acendo o pavio do canhão sem remorso.
Andarilho por índole e poeta por vocação, achei de
ser, ainda, garimpeiro.
E não é que, entre tantos pedregulhos, de vez em
quando, encontro umas pepitas.
Difícil mesmo foi entender que não era nas pepitas
que eu devia buscar a beleza — ela já estava lá —, mas nos pedregulhos.
Esse foi o meu aprendizado pela pedra.
Poema do folclorista, poeta e pesquisador da Cultura, Marco Haurélio.
Papa Francisco
.
Estou longe de ser um religioso. Não
endomingo, não faço prece nem peregrino expiando os meus pecados. Os infernos
não me assustam. Perdi a fé em algum lugar na caminhada da vida, por razões que
a poeira do tempo encobriu. Da Igreja suspeito sempre de seus discursos.
Nada disso, no entanto, tira a minha
admiração pelas ações do Papa Francisco. Dia a dia ele dignifica o seu
sacerdócio e restitui à Igreja o prestígio perdido por anos de obscurantismo.
As suas recentes ações em prol da
reaproximação dos Católicos com o mundo Islâmico, os gestos de tolerância com a
orientação sexual dos fiéis e sua mea-culpa pelos anos de negligência da
Igreja, que covardemente acobertou denúncias de pedofilia, ocorridos nas barbas
da cúpula romana, sinaliza para uma tomada de consciência da Igreja aos seus
muitos pecados.
Estes fatos, se não redimem de todo a
Igreja de seus pecados históricos, ao menos indicia o arrependimento sincero de
quem já tanto mal fez e hoje busca corrigir os seus erros.
Ante um mundo em que os líderes estão
indispostos ao diálogo e demonstram anseios de resolvem suas conflitos
recorrendo apenas, ao arbitrário de sua força bruta, os gestos do Papa se tornam
necessários.
A cama de Procrustes
Foto: Alfred Eisenstaedt, 1950
.
Sempre que leio uma pessoa esclarecida
pedir o fim de um jornal ou uma revista, por mero capricho e divergência com
sua orientação ideológica, fico a pensar, que ainda estamos longe de
conquistarmos a democracia. Impressiona-me como ainda há quem sinta vontade de
puxar a pistola quando apanham por aí discursos que não convergem com a sua
ideia de mundo, com a sua imagem da política, da cultura, da religião e de
muitas outras formas de relações humanas.
Esses clamores incendiários, contra os
que pensam diferentes das vozes que orientam as consciências individuais, são
recorrentes nas ditaduras e em outras formas menos civilizadas de relação
social. Nas democracias o contraditório, o divergente, o ponto de vista
diferente, são, não apenas estimáveis, mas estimulados. Entende-se, nas
democracias, que os conflitos tem melhores resultados quando mediados pelo
debate de ideias e não pelo tacão das vontades individuais. Nenhuma ideia é subvalorizada,
nenhuma ideia é sobreposta a outra, os pontos de vistas são debatidos,
questionados, arguidos e se bastam pelo que nutrem de importante, não pela
força, pelo grito.
Pode não ser muito agradável tolerar
ideias que você julga intolerante, mas esse exercício, tão salutar quanto
necessário, será sempre melhor do que ter em vista, um reizinho regendo as
vontades de toda a gente, a maneira de um deus onipotente. Temos que ver o
ponto de vista de toda a gente, e não nos limitarmos a projetar os nossos
desejos e valores brutalmente sob os que pensam, diametralmente opostos a nós.
É estranho pensar um modelo ideal e único de ser humano. Mas é justamente esse modelo,
monocromático, de cultura, religião, e opiniões políticas que querem aqueles
que insistem em divergirem dos outros, aniquilando a sua existência.
Na mitologia grega há um personagem que
sujeita todas as pessoas, as mais dolorosas mutilações, somente porque elas não
se encaixam à sua sádica e perversa medida ideal. Procrustes, também chamado
Damastes e Polipémon, é o nome de um bandido que vivia na estrada que ligava
Mégara a Atenas. Os viajantes que por ali passavam, ele convidava para comer em
sua casa e oferecendo-lhes depois sua cama de ferro para que o incauto
descansasse nela, ele aproveitava essa ocasião, em que o desafortunado pegava
no sono, para amordaçá-lo a cama. Se o infeliz fosse maior do que a cama ele serravá-lhe
o “excesso”. Fosse menor do que a cama Procrustes esticava o desgraçado até que
este atingisse idêntica distância entre a cabeça e os pés, à medida da cama.
Não passa por minha cabeça que está ou
aquela revista, jornal ou outros médias são insuspeitos. Mas dá aí pedi-lhes o
fechamento não me parece sensato. Nenhum modelo político, cultural, religioso
tornou impossível pensar outras formas de convívio humano, mesmo que alguns de
seus membros insistam em pensar o contrário. Os limites serve apenas aos muitos
satisfeitos das coisas tais como estão.
A melhor forma de antagonizar com as
ideias opostas às nossas, é apontar-lhes as contradições, indagar-lhes os
valores. Como faremos isso com eles amordaçados. Deixar de ler os jornais, as revistas e outros médias pode ser outra
boa maneira de demonstrar nosso desagravo. “Se o rádio não toca a música que
você quer ouvir”, dizia Raulzito numa lição de tolerância e liberdade às
diferenças, “é muito simples, é só mudar a estação, é muito simples é só girar
o botão”. Submeter os outros a seguir os passos de um único individuo é andar a
arremedar os bufões.
Cemitério de livro
Foto: André Kertész. Homem lendo com lupa, Nova Iorque, 1959.
Não
compreendo a indignação desse jornalista aqui. Ele deve ser um celerado. Desses que
anda cagando regra pra gente que sabe bem o que faz. Certo estão os políticos espanhóis.
Eles dão uma lição ao mundo. Enterrem o Quixote, a vida segue.
Esse
é um bom exemplo de uma inovação pedagógica, que pode revolucionar a educação.
Como as pessoas não haviam pensado nisso antes? Os livros dão trabalho, custa
lê-los. A nova pedagogia exige respostas rápidas aos novos desafios. Não temos
tempo para ficar insistindo com quinquilharias velhas e obsoletos como livros
antigos.
Os
alunos não entendem os livros? Atire os livros para longe deles. Assim eliminasse
o problema. Óbvio. Afinal são apenas livros. Que mal pode haver em apagar do
convívio juvenil um livro maçante e soporífero com o D. Quixote. Há muitos mais
livros no mundo. Talvez até melhores. Quem vai saber?
Podemos
substituir essa velharia por genuínos e modernos pensamentos, que melhor se
adequem as consciências contemporâneas. As contingências modernas exigem-nos
que estejamos constantemente adequando-nos sempre à medidas de novas
inteligências.
E
há um sem-número dessas novas inteligências solicitando a nossa atenção, e que
melhor falam às novas gerações. Mas a inteligência, a erudição, as inovadoras
lições de insubmissão, a vida percebida como insuficiente, e as perspicazes maquinações
existentes no Quixote? Queixarão sem dúvida alguns. A estes diremos que essa
inteligência e erudição, além da ideia de insubmissão à vida cotidiana, já não
são mais as nossas.
Buscamos
a literatura que nos satisfaça o cumprimento de nosso destino. A literatura
como “alimento dos espíritos indóceis e propagadora da inconformidade” como essa
presente no Quixote, ameaça-nos a empregabilidade e a funcionalidade. Dizem que,
a leitura do Quixote tem sido boa escola para artistas, conclui-se daí, não
serem serias, são portanto, inúteis aos desafios do novo mundo.
Os
best-sellers infantis e juvenis que pipocam nas livrarias, estes sim, têm
melhores instruções para lidarmos com as novidades na vida moderna. Milhares de
pessoas, que consomem essa literatura, não podem estar enganados das qualidades
inequívocas desses livros, que arrebatam multidões pelo mundo.
Claro,
eles têm lá alguma indigência, mas para que exigir um repertório variado de
ideias e linguagem quando estão todos tartamudeado. Creio que, os novos
produtos literários estejam em melhores condições de substituir as antigas
literaturas na função de ensinar às pessoas as riquíssimas possibilidades que a
língua encerra. Basta ver um grupo de jovens falando. São inventivos,
primorosos no traquejo com as palavras, quase nunca, tipo assim, se repetem. Tira-se
daí que as novas literaturas estão, por certo, melhores condicionadas à
estimularem a sensibilidade e a fantasia, graças as novíssimas obras que pouco
a pouco vão substituindo os bolorentos romances.
Celebrem
a boa nova.
Adernar na praia - Como a revolução cubana quase naufragou
.
Os feitos históricos, as grandes
revoluções, remetem-nos sempre às imagens de destemidos e heroicos momentos. Napoleão cruzando os Alpes no passo de Grande São Bernardo, na representação de
Jacques-Louis David montado num imponente cavalo apontando para o alto incendiando
a marcha do seu exército para vitória. Não se pensa nesses gestos com riso no
rosto. Ante a morte iminente, que precede as batalhas, o riso se acanha. Porém,
muitos dos atos heroicos mais notáveis têm um cadinho de ridículo, um quê de
risível e cena pastelão. Alguns desses momentos prestam homenagem a Quixote.
Ao recordar os passos dos revolucionários
cubanos, liderados por Fidel Castro, na invasão que iniciou o levante contra a
ditadura de Fulgêncio Batista, em 1956, o fotógrafo da revolução Alberto Korda,
recordando as palavras de Che a propósito da travessia entre o México, onde os
revoltosos estavam, até Cuba, conta as peripécias rocambolescas enfrentadas
pelos revolucionários, até a tomada do poder, pelos destemidos barbudos.
Em dado momento, com indisfarçável ironia,
Che lembrou a Korda que o navio que transportava as esperanças de um mundo
justo para Cuba quase não chegou ao seu destino. A travessia foi marcada por
reveses cômicos. No meio do caminho, lembra Che, “os homens com expressão
angustiada, apertavam seus estômagos com as mãos, enquanto metiam suas cabeças
dentro de baldes”.
A certa altura da viagem o navio
avariou. As bombas hidráulicas que movia o Gramna,
um pequeno iate de doze metros, carregado de equipamentos e com 80 homens a bordo,
pediu arrego. A água começou a ameaçar adernar o rocinante esperançoso. O jeito
foi usar os baldes agora para outra tarefa.
Por fim, no dia 2 de dezembro de 1956, 7
dias depois de ter saído de seu destino, o barco encalhou num lamaçal nas
proximidades de um mangue, na costa de Cuba. “Foi necessário”, lembra Korda, “abandonar
quase todo o equipamento e os víveres”. Che com seu humor sarcástico lembrou
que “não foi bem um desembarque o que ocorreu, mas sim um naufrágio”.
Haverá algo mais cômico do que o tropeço
do herói no desembarque? Rimos, nos diz Bergson, do que foge à normalidade, à
previsibilidade. Rimos daquilo que desvia da ordem natural das coisas.
Imaginamos os revolucionários como homens de gestos certeiros, nobres e
precisos, mas essa ordem de coisas está apenas na nossa mentalidade idealizada sobre
as figura heroica. Os relatos de Korda restitui à nobreza dos infatigáveis combatentes
uma coloração cômica que se contrasta com o que esperávamos que acontecesse. Nada
na vida nos confirma que os fatos mais notáveis não possam nascer de atos falíveis.
Da natureza Selvagem
Nem bem iniciaram as investigações da
operação Lava Jato, já tem gente dizendo que, depois desse caso de corrupção
explicita na maior empresa pública do país, pouca coisa mais merecerá o nome de
escândalo nas Terras Papagaios. Por ora a Polícia Federal suspeita em desvios
nos valores que andam pela casa dos milhões de reais. A se confirmarem esses
valores, o mensalão, que escancarou os modos
operandi da governança nacional, estará fadado a se tornar um mero
escandalozinho de vão de escada, coisa de amanuense. Exagero à parte, penso que
no Brasil há sempre a possibilidade da coisa piorar. Aqui, nada está tão mal,
que não possa ser superado por um mal ainda maior. Muito antes do soar das
trombetas do juízo final, ainda teremos mais bons motivos para sentir saudades
do tempo em que os governantes nos roubavam apenas em quantias inferiores a bilhões.
Durma-se com um país desse.
As coisas, como andam?
Ou andamos todos desacautelados ou andamos todos com os quadro membros no chão. Uma ou outra dessas alternativas
há de explicar por que na terra do Saci se comemora o Halloween.
Das pretensões perdidas
Foto: Robert Doisneau
.
Costuma-se dizer amiúde, que envelhecer
traz consigo não apenas rugas ao rosto. E diz-se isso por se acreditar que
envelhecer traz também sabedoria. Acreditamos piamente que, em oposição a uma
ingenuidade juvenil, a velhice faz do homem um ser mais dotado para evitar os
dessabores da vida.
Mas não é bem assim. Envelhecer não afiança
ao homem segurança alguma contra os infortúnios. Talvez o torne mais pretensioso
por acreditar imune ao que ficou no passado. Do berço ao túmulo, no entanto,
não temos nenhuma garantia de sorte, mesmo velhinhos continuaremos assombrados pela
má fortuna e outros males.
A certeza disso me veio hoje ao ler nos
jornais a notícia de que o matusalém do pop, o canadense Leonard Cohen, ao completou
no último mês veneráveis 80 anos, luta contra o alcoolismo, a depressão e um
furto de bens promovido por sua ex-agente e amante, que o surrupiou todas as economias,
12 milhões de dólares, que o cantor guardava para sua aposentadoria. Dinheiro,
fama, sucesso, prestigio, velhice, nada disso nos distancia dos erros.
A vida recente do cantor canadense é a
prova viva de que o homem é, em todas as idades, vulnerável às piores quedas. As
adversidades não escolhem tempo para aparecerem. Elas não querem saber se você
é pop, rock ou finge fama. Surgem nas horas mais inconvenientes e destroem
nossas melhores pretensões, devolvendo-nos ao rosto aquele ar de
constrangimento juvenil que durante toda a vida nos esforçamos para arrancar. Acreditar
que a verdadeira sabedoria está num acumulo de tempo, não passa de uma ilusão.
Hércules e Anteu - A realidade suspensa
Vendo a capa do livro de Marco Haurélio que ainda não possuo, Os doze trabalhos de Hércules, ocorreu-me lembrar a história de Anteu. Segundo a mitologia Grega, Anteu é um gigante que obriga a todos os viajantes a lutar contra ele. Em suas lutas, cada vez que seu corpo é atirado à terra ele se levanta ainda mais forte, porque a Terra (deusa Gaia, sua mãe) lhe restitui as forças. Enquanto estiver em contato com o solo Anteu é invulnerável. A sorte dele muda quando encontra Hércules que viajava pela Líbia em busca dos pomos de ouro do Jardim das Hespérides. Hércules luta com o gigante. Na refrega atira Anteu três vezes ao chão. Três vezes o gigante se levanta ainda mais rijo. Astuto (sim, porque o herói, não é apenas um monte de músculos) Hércules percebe que o filho de Gaia (Terra) volta à luta sempre mais forte. Hércules então soergue-o do solo que o tornava invencível e o estrangula. Um sem número de pinturas reproduz esse combate e o sortilégio do herói grego para vencer o gigante ameaçador. Há muitas lições nessa história que os antigos aproveitaram dos contos populares. Uma delas é que para sobrevivermos necessitamos, como Anteu, de estar sempre com os pés bem assentes ao chão. Precisamos do nosso bocadinho diário de realidade. Mas ela ensina também que em excesso a realidade também pode ser alienante e é preciso como o herói grego fez, suspendê-la. Assim como precisamos de realidade, também precisamos de um bocado de irrealidade. São importantes os telejornais diários, os debates eleitorais, a compra de pão na padaria, mas mais do que isso são também indispensáveis as leituras literárias, as apreciações de quadros, as mitologias, as religiões, os mitos, as músicas e voos às regiões da imaginação, para suportarmos o peso e a força que nos prende ao chão.
Agustina Bessa-Luís
.
Agustina Bessa-Luís, um dos maiores
nomes da literatura portuguesa, comemora hoje 92 anos de vida. Desde a sua
estreia em 1948, entre romances, contos, ensaios, aforismos, livro de crônicas,
textos dramáticos, livros de viagens, biografias e escritos avulsos, essa escritora
já conta com mais de 70 obras assinada.
Comparada aos seus patrícios, José
Saramago e Antônio Lobo Antunes, ela é uma ilustre desconhecida do distinto
público brasileira. As razões para isso não poderiam ser outra, preferimos
antes os grandes embustes impingidos pelo mercado, a obras de engenharia humana
divorciadas do puro interesse comercial.
O professor Alcir Pécora, entusiasta da escrita de Bessa-Luís, a considera muito superior a José Saramago e António Lobo Antunes, dois dos mais
prestigiados autores portugueses entre nós. No entanto, a presença de Agustina
ainda é inexpressiva nas universidades, centros acadêmicos, livrarias e outros.
Pécora aponta algumas das possíveis razões para esse ocultamento de Agustina:
"talvez falte mais conhecimento efetivo da literatura portuguesa e menos
contato apenas por meio de agentes internacionais, que sempre vendem o mesmo
peixe".
Ledo engano
.
Ao abrir há pouco, o site da Submarino e
pesquisar os livros à venda do poeta João Cabral de Melo Neto fui surpreendido
com a inusitada ilustração do poeta na página que vende o livro Museu de Tudo.
Fiz um Print da página. Se vocês
atentarem bem verão que esse aí não é João Cabral, e sim o seu amigo e também
poeta Lêdo Ivo.
Não é a primeira vez que vejo esse equívoco
ocorrer. Recentemente o Jornal da Cultura cometeu o mesmo deslize. Nunca os achei parecidos. No entanto é
comum ver site que falam do João Cabral com a foto de Lêdo Ivo.
Isso só demonstra que no Brasil os
poetas são pouco ou muito mal apreciados, as pessoas não se lembram deles.
Quando era professor levei um dia um
conjunto de imagens com figuras do mainstream; bigbrothers, atores de novelas, jogadores de futebol e alguns literários, para
desanimo geral constatei que ninguém conhecia Leão Tolstoi, Balzac, João
Cabral, Bandeira, mas sabiam muito bem quem eram os globais.
A cultura televisiva, com grande apelo
às imagens, dita para maioria das pessoas a visão de mundo e o alcance de sua
percepção da realidade. Para além do tubo televisivo, o universo das letras,
que vive da palavra, sofre para atrair o interesse e o gosto das pessoas.
A Civilização do espetáculo
Em seu perspicaz ensaio: A Civilização do Espetáculo, o escritor
peruano Mario Vargas Llosa se insurge contra o que chama de "banalização
das artes e da literatura". Sobram ainda, criticas ao que ele chama de "triunfalismo do jornalismo
sensacionalista" e a ascensão da ideia de que a literatura deve se render
exclusivamente às esferas do entretenimento.
Llosa afirma que no passado a cultura
agia sob as consciências, para impedir que virássemos as costas à realidade. No
presente, banalizada pela covardia das universidades e pelo relativismo
cultural, a literatura deixa pouco a pouco de ajudar os leitores a entender
melhor a complexidade humana, mantê-los lúdicos sobre as deficiências da vida,
alerta-los para realidade histórica; para torna-se um passa-tempo despretensioso,
na melhor das hipóteses, avalia o ensaísta, “ela é usada para salva-los do
tédio das longas horas de viagens de ônibus, metrôs”. Em meio a todo esse novo
panorama, a literatura para sobreviver, “tornou-se light - noção que é um erro
traduzir por leve, pois, na verdade, quer dizer irresponsável e, frequentemente,
idiota."
Atuando como mecanismo de distração da
realidade e de entretenimento a literatura, acredita o pensador, perdeu seu
poder de animar consciências. Ao invés de indivíduos indóceis a manipulação da
verdade por parte dos poderes constituídos, a literatura contemporânea cria
consumidores de toda espécie de bugigangas e indivíduos autômatos.
Ao rebaixar-se ao mero entretenimento, a
literatura, acredita Mario Vargas Llosa, acorrenta o homem a sordidez
cotidiana, ao inferno doméstico e a angústia econômica, e o estimula à uma
indolência espiritual relaxada.
As consequências desse torpor, é a
criação de indivíduos preguiçosos para tarefa de pensar. "As ilusões
plasmadas com a palavra" e não dadas de pronto como no cinema de
entretenimento, por exemplo, "exigem ativa participação do leitor, esforço
de imaginação e, às vezes, em se tratando de literatura moderna, complicadas
operações de memória, associação e criação, algo de que as imagens do cinema e
da televisão dispensam os espectadores. E estes, em parte por esse motivo, tornam-se
a cada dia mais preguiçosos, mais alérgicos a um entretenimento que exija deles
esforço intelectual."
Amputada de seu valor inconformista, a
literatura de frivolidade, que domina todos os espaços na vida do leitor, com
vampiros, crimes sadomasoquistas, invasões marcianas, romances edulcorados, e
outros; divertem e principalmente dispensam os leitores de pensarem, mas, como
sugere Llosa: "são incapazes de fazê-los entender o labirinto da
psicologia humana, os mecanismos da vida social, os abismos da miséria e os
ápices da grandeza que podem coexistir no ser humano".
Não é apenas à literatura de mero
entretenimento que se volta a artilharia de críticas do ensaísta. À televisão e
aos meios de entretenimento eletrônicos ele dedica um espaço especial de
reflexões. A televisão, é dispensável comentar, rebaixou a níveis insuportáveis
a programação. Na corrida para atrair mais público e brigar pela audiência os
meios de comunicação tornaram-se um vale-tudo. Reduzindo o público a mero
espectador passivo. "A fantástica acuidade e
versatilidade com que a informação nos transporta hoje para os cenários da ação
nos cinco continentes conseguiu transformar o telespectador num mero
espectador, e o mundo num vasto teatro, ou melhor, num filme, num reality show
com enorme capacidade de entreter". p. 202.
"A informação audiovisual fugaz,
passageira, chamativa, superficial, nos faz ver a história como ficção,
distanciando-nos dela por meio do ocultamento de causas, engrenagens, contextos
e desenvolvimentos desses acontecimentos que ela nos apresenta de modo tão
vívido. Essa é a maneira de nos levarem a sentir-nos tão impotentes para mudar
o que desfila diante de nosso olhos na tela como quando vemos um filme." p.
202.
Tenho algumas reservas as opiniões de
Mario Vargas Llosa a respeito da política. Sua aversão ao socialismo e sua
adesão aos princípios neo-liberais são ao meu ver algo questionável. Simpatizo,
porém, com sua luta pessoal em favor da cultura e da defesa da literatura como
um valor elevado e indispensável na construção de uma sociedade minimamente
saudável e prospera.
Intelectual engajado, pensador que expresse suas ideias e interfira no fluxo corrente das ações cotidianas, a despeito dos discursos da moda, está escasso, Llosa talvez seja o último dessa espécie rara. Adoro, sem reservas, todas as obras literárias desse escritor e pensador, e comungo com ele da opinião que a cultura na atualidade vive ameaçada pela ideia de que deve ser apenas entretenimento e não outras coisas.
Intelectual engajado, pensador que expresse suas ideias e interfira no fluxo corrente das ações cotidianas, a despeito dos discursos da moda, está escasso, Llosa talvez seja o último dessa espécie rara. Adoro, sem reservas, todas as obras literárias desse escritor e pensador, e comungo com ele da opinião que a cultura na atualidade vive ameaçada pela ideia de que deve ser apenas entretenimento e não outras coisas.
Quem de dentro de si não sai.
.
"Quem de dentro de si
Não sai!
Vai morrer sem amar
Ninguém!" (...)
A casta a qual pertence o poetinha, é a
dos que tecem variações inúmeras sobre um mesmo tema. O amor e seus desenganos,
o amor e suas alegrias, o amor e sua perdição, o amor e suas dores, o amor e
seus muitos usos e desusos. O lirismo poético de Vinicius de Moraes constitui
um dos contributos mais importantes à nossa poesia.
Assinar:
Postagens (Atom)









.jpg)







.jpg)

