Elucidário

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No último capítulo do clássico livro CANTADORES o folclorista cearense Leonardo Mota nos apresenta os modos de pronunciar próprios dos cantadores de sua época.

Sem lhes adulterar o registro, reproduzindo-o tal qual o encontrou, o trabalho de Leonardo sugere com uma recolha dessas expressões, a rica prosódia dos menestréis que corriam mundo cantando aventuras de heróis e feitos maravilhosos.

Com o iluminado título de ELUCIDÁRIO o folclorista elenca uma série de expressões usadas pelos cantadores que se constitui um verdadeiro dicionário "cacoépico".

Alguém aí é capaz de me dizer o que significa:


"Aguentar tempo sem se amoitar".

O enfado de pensar em demasia



Pensar em demasia é muito fatigante. Quando? Questiono-me ao ler um post no facebook de alguém que se diz cansado de pensar. Na busca de alento a sua consciência pesada, a tal pessoa, socorreu-se no que acreditava ser o último recurso disponível a um cérebro exaurido por mil inquietações: um livro cheio de sacanagem canhestra em linguagem rasteira, que vem fazendo as cabeças daqueles que desejam sossegar as suas cansadas mentes, com algo menos comprometedor aos seus doridos neurônios. Poucas vezes vi com tanta candura a utilização dessa literatura barata. É para isso mesmo que elas servem, asseguram-me seus leitores, para não ter que pensar. Deixar escapar o cérebro para rotas desconhecidas e percorrer caminhos ainda não desbravados é demais fatigante, ainda mais para quem estar tão desacostumado a essas rotinas de aventureiros. Esvaziar as suas consciências de qualquer tarefa mais pesada do que mergulhar num vazio de sentidos e nulidades, que não terão reverberações após o dobrar da última página, deve ter lá a sua eficiência, porque não canso de ver gente se socorrendo nesse refúgio. O enfado de uma existência vazia, só pode mesmo ser recompensado com uma alegoria de histórias vazias, onde a vida só tem sentido quando apanhada de quatro na cama tomando mil chibatadas antes de voltar ao vazio que a levou às peias.  Amortizar assim a tarefa de pensar, com ações de não ter que pensar, tem sido o exasperado recurso dos que imaginam pensar demais. As pessoas não sabem o que é pensar, porque nunca viveram a consciência de pensar. Estando apenas atulhadas de insignificâncias, imaginam com isso estar a pensar em demasia. Cercados por entulhos de informações inúteis que as impedem de avaliar o pensamento com critérios de qualidade que se distingue da quantidade. Iludem-se com a ideia de que andam pensando além do suportável. Estar com a cabeça cheia não é estar cansado de pensar é estar cansado de não pensar. Pensar para percebermos que não devemos pensar tanto. Pensar para refrear o pensamento. É não pensar. O verdadeiro pensamento não se cansa. A cada passo dado, a cada nova descoberta ele se constitui num renovado interesse sobre si mesmo e sobre o seu alcance.


A pedagogia do reducionismo

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Deformam o texto, mutilam a literatura, impor versões esdruxula, e dizem com isso que estão ensinando as pessoas a pensar, só pode ser piada. Dessas ações só podem surgir as piores aberrações. Versões anacrônicas com viés moralista desqualificam as potencialidades do conto e de qualquer outra narrativa (vide o estado islâmico que ler o corão com um olho escrutinador).

Hoje os contos, que os professores não leem, só aparecem às crianças em versões amesquinhadas. Simplificadas de seus significados mais profundos. Dão-se muito mais para especulações moralistas do que para encorajamentos e enfrentamentos dos dilemas que as ameaçará no percurso da vida. Servem antes ao panfletismo, do que auxiliam a criança a desenvolver sua imaginação e estímulo à criatividade. Para encontrar um significado mais profundo, nos contos, assegurou Bruno Bettelheim, devemos ser capazes de transcender os limites estreitos. A simplificação rasteira serve a outros propósitos.

Além de desconhecerem os contos, que muitas vezes só viram nas versões da Disney, desconhecem ainda os estudiosos do tema. Mais isso não os demove de suas nobres tarefas de erradicar os supostos preconceitos que esses contos disseminam. Em suas cabeças reinam apenas a militância dos bons hábitos. Em que pese os danos dessas leituras, sem anteparo de alguma memória histórica, essa pedagogia canhestra, ganha mais e mais adeptos. No livro de Bruno Bettelheim que avalia as contribuições dos contos para a psicologia das crianças ele afirma que:

“As escolhas das crianças são baseadas não tanto sobre o certo versus o errado, mas sobre quem desperta sua simpatia e quem desperta sua antipatia. O conto de fadas oferece soluções sob formas que a criança pode apreender no seu nível de compreensão".

Portanto os contos falam da eterna batalha do bem contra o mal. De forças destrutivas que ameaçam a vida. Os contos ajudam as crianças a entenderem os difíceis dilemas da existência e as ajudam a entender que nessa batalha haverá sempre a possibilidade de enfrentamento das dificuldades. São tão pródigos em auxílio às consciências que eram, segundo Bettelheim prescritos pelos velhos hindus como exercícios de meditação:

“Num conto de fadas, os processos internos são externalizados e tornam-se compreensíveis enquanto representados pelas figuras da estória e seus incidentes. Por esta razão, na medicina tradicional hindu um conto de fadas personificando seu problema particular era oferecido para meditação a uma pessoa desorientada psiquicamente. Esperava-se que meditando sobre a estória a pessoa perturbada fosse levada a visualizar tanto a natureza do impasse existencial que sofria, como a possibilidade de sua resolução. A partir do que um conto específico implicava acerca de desesperos, esperanças e métodos do homem para vencer tribulações, o paciente poderia descobrir não só um caminho para fora de sua desgraça mas também um caminho para se encontrar, como fazia o herói da estória”.

A tarefa do conto é ajudar a criança a conseguir uma consciência mais madura para civilizar as pressões caóticas de seu inconsciente. Retalhá-lo, ao mero discurso panfletário, é o mesmo que inutilizar a sua força.

“O conto de fadas é terapêutico porque o paciente encontra sua própria solução através da contemplação do que a estória parece implicar acerca de seus conflitos internos neste momento da vida”.

Sobre a forma simbólica, que melhor fala às crianças, os contos, sugerem que o mau não compensa, que as ações perversas não valem a pena. E que diante de uma grande dificuldade, de um obstáculo aparentemente intransponível, como a luta contra um dragão, um lobo, um ogro ou um outro ser superior as suas forças, ainda assim é possível vencer os seus problemas.

“O conto de fadas é apresentado de um modo simples, caseiro; não fazem solicitações ao leitor. Isto evita que até a menor das crianças se sinta compelida a atuar de modo específico, e nunca a leva a se sentir inferior. Longe de fazer solicitações, o conto de fadas reassegura, dá esperança para o futuro, e oferece a promessa de um final feliz. Por esta razão, Lewis Carrol chamou-o um ´presente de amor´". 

Impor uma leitura miúda da história para atender uma pauta moralista é o mesmo que esvaziar o conto de seu sentido profundo que reside na busca de uma verdadeira consciência de nossa existência. "Hoje, como no passado, a tarefa mais importante e também mais difícil na criação de uma criança é ajudá-la a encontrar significado na vida. "


... No momento em que seus lábios a tocaram, a princesa abriu os olhos e, despertando, contemplou-o com TERNURA.

No trecho acima temos o momento em que o príncipe acorda a princesa. 

Uma visão desinformada dos contos vê neste tipo de cena uma realização de desejos irrealistas, esquecendo completamente a mensagem importante que transmitem os contos às criança.

A julgar pelas lições dadas nas escolas as obras literárias torna-se dia a dia um mero instrumento utilitário e informativo de programas panfletários; não se distinguiria hoje um romance de uma lista telefônica; um poema, de uma caixa de medicamentos. A obra literária serve a tudo, menos a arte.

Leituras pedestres, criam leitores pedestres.

As leituras esquizofrênicas propugnam uma leitura voltada aos temas políticos, uma espécie de literatura engajada. Nessa nova versão de leitura tudo o que não está voltado aos temas em pauta é simplesmente ignorado. A literatura perde sua completa autonomia e sujeita-se a uma pauta alheia onde o autor da obra e leitor devem ser ambos tutelados. Cria-se com isso uma literatura mostruário, bem aos moldes daquela ação papal que mandou encobrir todas as vergonhas das estátuas do Vaticano porque eram "imorais", ignorando simplesmente que elas estavam dentro de um contexto que muito provavelmente não lhes cabiam na cabeça.

Os professores tirariam melhor proveito da obra se a presumissem fora de seus programas reducionistas. Os contos têm melhor eficiência quando não são vistos pela ótica de cenas isoladas, capciosamente iluminadas para parecer sugerir o que definitivamente não sugerem. Essas leituras amortecem os sentidos e roubam-lhes todos os significados mais profundos, como os que:

“...sugerem as experiências que são necessárias para desenvolver (na criança) ainda mais o seu caráter. Os contos de fadas declaram que uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa apesar da adversidade - mas apenas se ela não se intimidar com as lutas do destino, sem as quais nunca se adquire verdadeira identidade. Estas estórias prometem à criança que, se ela ousar se engajar nesta busca atemorizante, os poderes benevolentes virão em sua ajuda, e ela o conseguirá. As estórias também advertem que os muito temerosos e de mente medíocre, que não se arriscam a se encontrar, devem se estabelecer numa existência monótona - se um destino ainda pior não recair sobre eles.”

A esquizofrenia das leituras políticas chegou ao ponto de vivermos a obra para “catar” registros de condutas, desvios de programas, metáforas insidiosas, esquecendo-se de todo o resto. Há um delírio de listas, de prescrições que querem influir a toda gente um peso de culpa às obras literárias.

A visão reducionista das histórias ao predomínio dos temas de configurações morais e políticas, alijou os contos, no que eles tem de mais proveitoso: “ajudar as crianças  na tarefa de conseguir uma consciência mais madura para civilizar as pressões caóticas de seu inconsciente”.

O programa dos Estudos Culturais em sua versão atual torna toda e qualquer obra, especialmente aquelas de origem europeia em um panfleto dos discursos de dominação do imperialismo em sua forma mais insidiosa. Sobre as pressões desses discursos estapafúrdios esvaziamos as potencialidades dos melhores textos literários apenas para sujeitá-los aos modismos.



O riso fácil

Quino / Guernica

As pessoas acham que troçar os outros e dizer grosserias é a única forma de ser engraçado. Pode até ser por um momento. A piada admite esse expediente pedestre. Como de resto a piada admite qualquer coisa. Mas valendo-se apenas desse recurso a piada se apequena. Pode revelar-se vantajoso ao riso o flagrante de desordens, desarmonias e desequilíbrios cotidianos que embaracem a ordem perfeita das coisas desequilibrando as forças que fragilmente a sustêm. O riso tem portanto que ver com surpreender a rotina com achados que a desestabilize. Mas se usarmos rotineiramente o recurso da troça-grosseira então a piada deixa de ser piada. A melhor piada é sempre aquela fruto da excepcionalidade.

Os sinos de minha infância

Foto: Vista noturna da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Malta, Paraíba.

Não vai longe o tempo em que os sinos das igrejas eram um valioso instrumento de comunicação. Esses monstrengos que habitam sozinhos as torres das Igrejas Católicas davam à população toda espécies de notícia. Hoje reduzido as suas funções, esses valiosos instrumentos comunitários, servem apenas, quando muito, a marcação das horas e anúncio das missas dominicais. Contudo, a memória do seu uso nos tempos de antanho estão associadas aos mais curiosos e saborosos ritos e usos coletivos. Pelas características do toque, sabia-se quando um membro da comunidade falecia. As badaladas ritmadas informavam se o morto era homem, mulher ou anjinho. Em um estudo que li sobre a etnografia dos sinos o autor atesta que as badaladas informava ainda às comunidade do passado, sobre toda sorte de perigo que rondava os vilarejos dispersos por um vasto território. Os sinos eram como espécies de protetores. Eventuais perigo, como de fogo, invasão, saqueamento, e outros males que se aproximavam ameaçadoramente eram, nos tempos remotos do mundo feudal, prenunciados pelas rebatidas dos sinos. Isso não existe mais. Muitos sinos foram substituídos nas Igrejas por aparelhos sonoros que imitam as badalados de forma artificial. O fogo, os saques e os invasores resolve-se com outros recursos que chegam bem antes dos sinos saberem. Os sons genuínos que ecoavam nos campanários reluzentes são hoje longínquas memórias perdidas no labirinto de nossas lembranças afetivas de um tempo que o tempo se encarregou de mudar. Uma de minhas mais antigas recordações de infância está ligada aos sons dos sinos da Igreja Matriz de Nossas Senhora da Conceição na cidade de Malta na Paraíba. Quando miúdo me lembro de ouvir os sons desses canários de aço, convidando as pessoas da cidade a preservarem sua fé, madrugando na primeira missa do dia. A partir das cinco horas da manhã os sinos iniciavam suas implacáveis súplicas pela visita dos fiéis. Eles só cessavam de badalar às seis horas, quando os bancos da igreja já estavam ocupados por todos que importavam com os ritos católicos, diga-se aí, toda a comunidade. Não faltava ninguém. Inclusive as vovozinhas e seus netinhos relutantes, que não percebia por que, havia sido arrancado mais uma vez de casa tão cedo, para ouvir a missa, quando se sabia que missa tinha todos os dias.   

O desencanto pátrio

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Quem buscar informações hoje no país, não deixará de sentir que os médias são escritos por gente que perspectiva a realidade de forma dicotômica. Ora ela é preta, ora é branca. Rareia alguma leitura que aceite todas as cores como inerentes ao mundo. Observo também que ninguém que escreva hoje é capaz de acrescentar sonhos à realidade. O país parece desencantado. 

Téo Junior- Livros #Navegantes ao mar


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A partir de hoje, e durante todo o ano, o meu colega Téo, velho colaborador do Navegantes, apresentará a cada fim de mês um vídeo com dicas literárias. Serão postados comentários sobre o que de melhor existe no universo das palavras. Teatro, poesia, romance, biografias, jornalismo literário e muitas outras saborosas dicas serão oferecidas todos os meses aos interessados em conhecer um mundo novo e cheio de possibilidades. A promessa é de que ele aborde todos os gêneros, sem abdicar de seu particular modo bem-humorado de descrever as suas impressões de leitura e nem descarte o seu habitual juízo crítico, que como ele mesmo gosta de afirmar “não peca por ser sincero, demasiadamente sincero”.  Nessa primeira postagem Téo, nos preparou uma seleção de três obras, que expõem a nu a trajetória de vida de três grandes personalidades das artes do século XX. Os personagens dessa primeira leva de comentários, são dignos representantes de seus postos artísticos. Cada um à sua maneira ocupou, com muito talento, o lugar de destaque em suas respectivas áreas de atuação e vincaram para sempre a sua permanência nas consciências artísticas de sua geração. Confiram o post. Esperamos que todos vocês gostem. Comentem. Aguardamos vocês na próxima publicação. 

A celebração do movimento




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Algo que me impressiona muito nas fotografias de Jacques Henri Lartigue é o fato de seus personagens estarem sempre em movimento. Eles não conhecem o repouso. Lartigue é um fotografo dos corpos em constante deslocamento; seus flagrantes são de saltos, nados, corridas, gestos contorcidos. Todos os seus personagens parecem estar sempre tentando infringir, malgrado sua natureza, as leis da física que os prendem ao chão. Qual a razão dessa inquietação? 

A sondagem da alma do povo

Foto: Jan.
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O estudo da cultura popular é muito vasto. Abarca aspectos religiosos, culinários, orais, linguísticos, históricos de povos e comunidades por muitos lugares. Diante dessa imensidão o pesquisador iniciante se questiona: Quais os melhores critérios que eu devo me valer para penetrar na alma do povo e colher as suas histórias, suas tradições e seus valores com o maior respeito às suas tradições? Uma boa leitura para entendimento do caráter singular do pesquisador da cultura popular está em Dinâmica do Folclore

Neste livro o folclorista, etnólogo e historiador Edison Carneiro (1912-1972) eminente pesquisador da cultura popular, reuni alguns aspectos que mais angustiam o pesquisador iniciante na tarefa de sondagem da alma popular. São reunidas algumas lições sobre os melhores comportamento daqueles que anseia percorrer os rincões dos brasis, pesquisando o rico manancial criado pelo povo, respeitando as sabedorias e não adulterando as suas sagradas tradições. Uma dessas lições diz respeito ao comportamento do pesquisador na abordagem dos depoimentos que revelam alguns aspectos das tradições, crenças e fatos do povo.   

No capitulo lições de pesquisa, Carneiro diz que, "nunca se deve subestimar a inteligência do povo". O pesquisador da cultura popular, segundo ele, não se deve tomar pela ideia de que já sebe tudo, nem de que vai apenas confirmar o que sabe. "O pesquisador deverá propor a questão como se nada soubesse do que está perguntando e deixar que o informante diga com franqueza o que sabe. Perguntar, por exemplo, ´Se você falar no nome do Sujo ao meio-dia, que acontece? e não ´O diabo lhe aparece se você falar no nome dele ao meio-dia?".

Os traquejos da pesquisa forjarão um pesquisador respeitoso da alma popular. Quanto a questão de dar algo em troca, em retribuição pela gentileza do povo, isso é muito discutível. O antigo manual de Paul Sebillot recomendava que, depois de reunidos os camponeses, se desse tabaco e aguardente a eles.

Edison Carneiro abordando essa questão sugere um outro caminho para convencer o povo a falar sobre suas práticas cotidianos. Ele diz que "é um erro tentar conseguir a confiança do grupo através de donativos em dinheiro ou de promessas que excitem a ambição geral. Muito útil será à pesquisa se, através da sua atitude respeitosa e cordial, o observador chegar a ser considerado "pessoa de casa", a quem todos, VOLUNTARIAMENTE, prestem informações ou façam confidências.".

Edson Carneiro fala ainda de algo muito interessante. “É preciso”, diz o folclorista, “para o bom andamento da pesquisa, um convívio cotidiano com a realidade cultural da qual se espera extrair informações”. Para Carneiro não é em um dia ou dois que o pesquisador coletará as informações que pertinentes as elucidações de suas dúvidas.  

Um exemplo de sucesso nessa tarefa pode ser visto nos trabalho de Frei Chico. Francisco Van Der Poel, popularmente conhecido como frei Chico, holandês, de 75 anos, sendo 46 vividos no Brasil e dez no Vale do Jequitinhonha peregrinou pelas regiões do triângulo mineiro e nordeste do Brasil carregando a fé e a esperança para milhares de almas, ao mesmo tempo em que pesquisava e anotava as velhas tradições do povo. Em 2013, 40 anos após o início de sua jornada pelos brasis, frei Chico lançou o “Dicionário da Religiosidade Popular”, um catatau que reúne em 1.150 páginas, 8.570 verbetes e 6.433 notas de rodapé as tradições do povo narradas pelo povo.

O poeta e folclorista Marco Haurélio, um dos maiores estudiosos da cultura popular na atualidade, chama a atenção para o fato de que para melhor compreensão das contribuição de Sebillot: “É preciso... situar Paul Sebillot em seu tempo.... Boa parte dos estudiosos, incluindo Wilhelm e Jakob Grimm, não tinha uma ligação direta com o que mais tarde Thoms definiu como "folk-lore". Acreditava no iminente desaparecimento das tradições populares (antiguidades) e na necessidade de seu registro.”

Apanhadas essas lições, os interessados em seguir a viagem de descoberta dos cenários meio reais, meio fantásticos, que o povo conserva na memória, terão dado um grande passo na tarefa de penetração dos mistérios populares.

Cantos de trabalho o aboio nordestino



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As cantigas de trabalhos são criações artísticas autênticas do povo, que se valem delas para, entre outras coisas, estimular os ânimos na batalha pela sobrevivência diária. Oneyda Alvarenga, em seu livro Música Popular Brasileira, afirma que, no Brasil, existe uma variedade imensa de cantos de trabalho.

A maioria dessas cantigas estão relacionadas às atividades rurais. O adjutório acelerava as tarefas da colheita do algodão, do plantio do milho, do arroz, do feijão. Elas são ainda importantes na colheita e trato da mandioca, no preparo da farinha ou nos trabalhos de produção da cachaça ou da rapadura, nos engenhos e alambiques que ainda resistem à cultura industrial desses produtos.

Um das forma mais conhecidas dessas cantigas de trabalho, é o aboio. Popularíssima no Nordeste Brasileiro essa forma de canto, ainda está presente no dia a dia de muitos trabalhadores sertanejos que ainda lidam com o gado nas velhas formas tradicionais.

Oneyda Alvarenga afirma que, “os aboios constituem um dos mais importantes grupos dos nossos cantos de trabalho rurais”.

Mas o que são aboios? Mário de Andrade, autor modernista que pesquisou muito das tradições populares, definiu em, As melodias do Boi, o canto de aboio, como: “um canto melancólico com que os sertanejos do Nordeste ajudam a marcha das boiadas. É antes uma vocalização oscilante entre as vogais A e Ô. A expressão de impulso final “Oh dá!” também muda para “Êh, boi!”. (ANDRADE, 1987, p. 54).

A vocalização das vogais em altissonante alarido constitui a forma pura de aboio. Porém, a forma tradicional divide lugar com histórias versadas, que contam feitos de vaqueiros e histórias de bois valentes, que botavam à prova a coragem e a destreza dos vaqueiros nos sertões carrascosos.

Em 1998 o Globo Rural produziu um documentário que conta a história do aboio através do depoimento de velhos vaqueiros e acadêmicos.

Meteorologia popular



Muito antes do tempo enlouquecer, e dos sinais andarem trocados, e já não mais se saber quais os dias chuvosos, ou quais os de seca, a sabedoria popular, orientada pelos saberes antigos, antevia, se o ano seria bom para plantação, ou se frustrado por algum revés, o homem do campo teria que investir redobrados esforços para vencer as dificuldades pela sobrevivência.

Inda ontem estes sábios, dados a vaticínios de seca e inverno, consultavam os céus, os astros, os animais e os cantos dos passarinhos para predizerem o futuro meteorológico da sua comunidade. Os sinais estavam por toda parte.

Câmara Cascudo, que foi quem melhor observou os costumes do povo, sobre as predicas meteorológicas, escreveu: "Existem no Brasil, e universalmente, fórmulas da previsão tradicional para o conhecimento do futuro inverno. Deduz o povo o prognóstico de vegetais, animais, aspectos atmosféricos, nuvens, estrelas, constelações, incidência pluvial em determinados dias...”.

A lua apareceu embarcada num halo avermelhado e grande por trás da silhueta de um carnaubal? isso indicia uma boa quadra invernosa. Se a aura que envolve a lua for pequena as chuvas serão poucas. Sobre a cumeeira da casa pousou uma borboleta e por lá esqueceu-se por três dias? É bom preparar a terra, tudo indica que o céu apronta água pra derramar sobre os homens.

Além dos astros celestes e dos insetos, a percepção de outros seres pressagia ao homem do campo os rumos do tempo: “Sapo cantando ao anoitecer, bom tempo vai fazer”. Ditos e expressões populares exprimem um sem-número de alegorias meteorológicas que correm pela boca do povo exemplificando em analogias simples o comportamento do tempo. “Cabras tossindo e espirrando, o tempo está mudando.” Ou ainda "Formiga carregando ovos barranco acima, é chuva que se aproxima.”, “Céu pedrento muita chuva e muito vento”.

Verdadeiros prodígios, os homens do campo conhecem a linguagem, não apenas dos animais e dos astros, são versados ainda na linguagem dos ventos, que de acordo com sua direção podem lhes indicam os caminhos, a sorte ou os maus destinos.  “Vento norte, três dias forte”, ou então “Vento de Lomba, frio na tromba”. Se ele muda de direção repentina, talvez indique algum desgosto: “Vento de leste não traz nada que preste”. Os ventos ainda exemplificam, através de sua inconstância, alguma infidelidade: “Amigos de ocasião são como o bom tempo, mudam com o vento”. “O vento tanto junta a palha como a espalha”, “Vento de todo o lado é mandado p’lo diabo”.

Em Tradições, ciência do povo, Cascudo observa que esses ditos e expressões meteorológicas do povo são “sem idade”, eles, segundo o mestre potiguar, são: “resultados de longos e obscuros processos de raciocínio, critérios-soluções, herdadas, indeformáveis, e reproduzidas íntegras, ante o automóvel e o avião”.

Destacamos abaixo alguns ditos e seus países de origem, segundo Sartori em seu livro: Clima e percepção.

"Asas abertas no galinheiro, sinal de aguaceiro." (Índia);
"Andorinhas a mil braças, céu azul sem jaça; andorinha rente ao chão, muita chuva com trovão." (China; Japão; Coreia; Rússia; Turquia; França e Suíça);
"Mosquitos voando em bando é sinal de chuva." (China)
"Sapo cantando ao anoitecer, bom tempo vai fazer." (Espanha)
"Gato se lambendo é sinal de chuva." (Reino Unido, Holanda e Bélgica)
"Céu avermelhado de manhã, chuva de tarde; tarde avermelhada, tempo bom." (China)
"Quando o Sol está em casa, a chuva não tarda." (Índios Zuni, do Novo México, EUA)
"Um círculo grande em volta da Lua é sinal de chuva iminente; um círculo pequeno é sinal de que a chuva ainda demora." (Índia)


A sabedoria popular é infinita. Tudo isso, e mais alguma coisa, se pode aprender com o povo, que guarda em sua simplicidade, os códigos de acesso aos segredos da natureza e outras maravilhas.   

O anjo embriagado

Ao pensar o Japão poucos são os que imagina essa potência asiática tendo que lidar com os males que afligem as nações pobres do mundo. Corrupção, miséria, desigualdade e violência, não nos parece fazer parte do cenário japonês. Habituamo-nos a ver o Japão como uma nação avançada. Custa-nos imaginá-lo doutro modo.

Porém este oásis de prosperidade, encravado no Pacífico, também já viveu dias de nação empobrecida. Esse é o tema do filme O Anjo Embriagado do cineasta japonês Akira Kurosawa. O filme foi realizado em 1948 logo após a derrocada japonesa na II Grande Guerra. Ele conta a história de uma sociedade as voltas com a pobreza extrema e ainda tendo que lidar com as gangues que se valiam da instabilidade social para cometer crimes.



É em meio a miséria que surgem dois personagens que conduzirão a história das dificuldades japonesas no pós-guerra. O excelente Takashi Shimura interpreta um médico alcoólatra que vive na periferia de Tóquio com sua vó e uma ex-paciente que ele curou de uma grave doença. Certo dia ele recebe mais um paciente em seu consultório indigente, que fica às margens de um pântano, para um atendimento de emergência. Interpretado por Toshiro Mifune, ator fetiche de Kurosawa, em sua primeira colaboração com o mestre japonês, o paciente é um conhecido gangster que se encontra ferido por um tiro na mão após se envolver em mais uma confusão. Depois de fazer o curativo o doutor Shimura descobre que o paciente guarda outra ferida; ele está com tuberculose.


Durante as décadas de 20 e 40 o Japão viveu uma verdadeira epidemia dessa doença em todo o seu território. A moléstia se agravou no pós-guerra em razão das péssimas condições de saúde sanitária que viveu o país com a vitória dos aliados sobre o eixo. Observador atento de seu país, Kurosawa nos dar um relato das agruras sociais que viveram milhares de japoneses durante essa época e aponta a insistência de alguns poucos abnegados como o médico Shimura como os responsáveis pela reviravolta do país sobre os problemas incontornáveis de insalubridade sanitária e instabilidade social.

O filme se desenrola através da recusa do paciente em aceitar o diagnóstico do médico.  Mifune que também é viciado em álcool, jogos, e estar com sua vida mergulhada no crime, devido a liderança que exerce na Yakuza, reluta a se submeter ao tratamento. Vivendo da exploração de jogos, prostituição e da extorsão de comerciantes, Mifune teme ser visto pelos seus companheiros e pelas pessoas que ele roupa como um fraco. Mesmo debilitado pela doença ele persiste na ideia de não se submeter ao tratamento do doutor Shimura. Para piorar a sua situação Mifune ver o seu antigo chefe sair da prisão e reclamar o seu posto de líder da gangue sobre a região.



Notória por possuir códigos de conduta estritos e natureza muito organizada a Yakuza adotou em sua criação as estruturas hierárquica tradicionais japonesas como lealdade e o respeito aos membros superiores, que por sua vez devotam seu poder na proteção de seus aliados. Porém no filme, Kurosawa desmente esses princípios e sugere que a ambição de riqueza das organizações criminosas jamais se valeram de qualquer princípio como a solidariedade aos membros em apuros, quando estava em jogo as conquistas de riquezas.

Rechaçado pelo antigo líder e abandonado à própria sorte Mifune recorre aos superiores hierárquicos numa última tentativa de escapar a má sorte da doença fatídica, mas acaba descobrindo que os membros da Yakuza que ele tanto venerava tramam contra ele. Desesperado ele finalmente ver que o crime a que ele tanto devotou esforços planeja substitui-lo como uma peça defeituosa que já não serve mais.  



Uma dramática lição, nos ensina Korosawa, esta de pertencer a um mundo em que a vida de um homem está submetida a um tenebroso modelo funcionalista em que se você já não atente às exigências do sistema, nada o impede de lhe substituir, ao primeiro sinal de defeito. 

O silêncio

Foto: Neal Slavin, woman behind glass shard

No interesse da cultura livre, cartunistas, chargistas, libelistas e humoristas ansiaram sempre por empregar a sua arte à qualquer coisa que implicasse embaraço, instabilidade e críticas à regimes e ações humanas contrárias à livre circulação de ideias. Audaciosamente estes homens duvidaram daquilo que muitos temiam pela tradição ou pela intimidação. Ao perspectivarem regimes de ângulos nada favoráveis esses agentes da liberdade destruíram verdades absolutas e ajudaram a deslegitimar e derrubar governos em diversas épocas e lugares, que usavam o argumento da autoridade e da legitimidade para agirem contra o espírito livre. A história nós mostra como as investidas contra as iniquidades de governos, religiões e culturas da morte foram importantes para corroerem essas ideias em favor de ambientes mais saudáveis às relações humanas. O fundamentalismo islâmico, que ora ameaça o frágil sistema de tolerância que harmoniza os homens nas diferenças, é apenas a face recente de um mal que aflige a humanidade em todas as épocas e lugares, a intolerância. Investir contra o avanço do autoritarismo que prega a violência contra as expressões de livre pensamento não é como querem nos fazer crer alguns; desrespeitar a religião dos islâmicos. As investidas satíricas dos cartunistas anarco-libertários do Charlie Hebdo se volta contra o fanatismo daqueles que usam a fé para praticar as maiores atrocidades. Os muitos anos de secularismo em que vivemos talvez não nós deixe ver os muitos males que as religiões fizeram antes de se integrarem ao corpo da sociedade sem imposições macabras, sem empalhamento de inocentes, sem cárceres às opiniões hostis, sem fogueiras às ideias, sem mutilações a obras literárias, sem intimidações a cientistas, sem degredo e morte aos livres pensadores. Estas conquistas não vieram sem levantes daqueles que viram nas práticas dos homens de fé o caráter odioso que impedia a vida de seguir o curso que bem entendesse.
  

Liberdade de expressão



O texto a seguir é de Téo Júnior. Téo é revisor, crítico de teatro e colaborador eventual deste blog.
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Não existe Jornalismo livre sem provocação. Nada justifica o atentado ao Charlie Hebdo Officiel. O humor, a crítica, a charge são uma forma artística importantíssima.

O terror do político mentiroso é se ver amanhã, na primeira página do jornal, sendo caricaturado com nariz de Pinóquio.

Nelson Rodrigues, reaça até a medula, dizia de D. Hélder, respeitadíssimo: "D. Hélder só olha para o céu para saber se leva ou não o guarda-chuva".

Paulo Francis, com ares de superioridade -- que tanta falta faz --, dos EUA, dizia que no Brasil só tinha índio e vaca.

Por mais que irrite, por mais que a gente discorde, por mais que seja ofensiva, a liberdade de pensamento não pode ser tolhida porque ela é um pilar da democracia. Na democracia, todos falam. Quem não concordar não compre, não veja, vai ler outra coisa.

Se a gente começar a justificar o terrorismo alegando falta de respeito à religião...

Um país às escuras

Agora falta pouco. Depois de empreender uma política de privatizações, de manchar sua história com escândalos de corrupção que não estancam nunca; (menos de um ano depois do julgamento do Mensalão o Supremo já se prepara para o julgar de outro escândalo de proporções ainda maiores do que o anterior); de praticar o mais vergonhoso fisiologismo na política e de privilegiar banqueiros e empreiteiros em negócios escusos, o PT, que se orgulhava de ser um partido “diferente” dos demais, está a um passo de realizar todos os (mal)feitos do partido que o antecedeu no poder.

No governo FHC o Brasil viveu, entre outros problemas, bem semelhantes aos que o PT vive hoje; uma grave crise de abastecimento energético. Quem viveu aqueles dias sabe, que faltava energia pra tudo e o único recurso do governo foi o racionamento. Falta de investimento no setor, má gestão do operador e escassas linhas de transmissão foram apontadas na época como os problemas. Passados dois mantados do presidente Lula e seguindo agora para o segundo da presidenta Dilma, ambos do partido de oposição ao governo que deixou faltar luz no país, o mesmo risco de apagão assombra os brasileiros.

Ontem, por volta das 15h, faltou energia em toda a Região Sul, nos quatro estados do Sudeste, na região Centro-Oeste e também em Rondônia. Esses blackouts estão se tornando constantes. O governo afirma que isso são apenas falhas pontuais e que nada disso ameaça o sistema. Estão descartadas as possibilidades de apagão. A mesma desculpa foi usada no governo FHC até que o país se deu conta de que o sistema estava em colapso e obras que supririam as novas demandas foram licitadas às pressas.

O governo do PT, como sempre recusa a acusação de que não está fazendo nada e acusa o verão inclemente que castiga o país com temperaturas acima dos 40°C em alguns lugares, como o responsável pelo aumento inesperado da demanda que vem gerando todos os estes transtornos.

Tudo isso acontece bem no momento em que o governo anuncia um aumento da tarifa energética para os consumidores. Falta energia no país e a resposta do governo é simples, cobrar mais do brasileiro por que ele está utilizando energia em excesso. Consumir energia agora é quase comparável a um crime de lesa pátria.

Escândalos, políticas de arrocho, falhas na gestão da infraestrutura nada difere o governo PT do PSDB. Ambos os partidos se irmanam no seus proposito partidário e esquecem que têm um país para administrarem.  

Mau humor do islã



As tentativas de ameaça à liberdade de expressão, ocorridas no último dia 7 de janeiro em Paris, seguiu-se um movimento contrário de resistência à intolerância e ao arbítrio dos que empunham a fé para legitimarem suas insanidades. No mesmo instante em que eram rechaçadas as tentativas de intimidação da livre expressão, algumas pessoas tentavam justificar os atos dos assassinos atribuindo a culpa das mortes aos mortos. Segundo estes, os cartunistas do Charlie Hebdo provocaram a cólera dos radicais ao violarem preceitos sagrados do Islã, que não tolera a representação do profeta. E o que dizer dos outros mortos na fuga dos energúmenos que nada tinham a ver com os cartunistas? Para os devotos das religiões da morte o respeito à fé alheia está acima das pretensões de liberdades de expressar. Não me causa nenhum espanto estas atitudes de simpatia de alguns aos atos dos assassinos. No dia 14 de fevereiro de 1989 o escritor indiano Salman Rushdie foi sentenciado à morte pela maior autoridade do islamismo no mundo o aiatolá Khomeini, líder da revolução islâmica no Irã, unicamente por ter escrito um livro de ficção, Os versos Satânicos. Para concretizar o seu plano de vingança contra o escritor herético, o líder dessa sentença santa, não apenas ofereceu dinheiro vivo aos interessados na empresa, mas também uma passagem direta, sem pedágio para o Paraíso. O episódio insano não gerou, como agora, das autoridades religiosas ocidentais um repúdio sério. Como ocorrido com Rushdie no passado e agora com os cartunistas do Cherlie Hebdo, uma parcela das pessoas, incluindo líderes religiosos e personalidades públicas não pareceu nada demais autoridades religiosas ou seus verdugos vingarem uma discordância, com derramamento de sangue. Embora a história diga o contrário, os agentes higiênicos da sociedade, estão certos de que a boa-fé da religião islâmica (como de resto ocorre com as demais inspirações divinas) só tem maravilhas. Maomé e seus seguidores jamais se contradisseram e a religião é um poço de bonança onde o homem cansado mata a sua sede. Essa interpretação das religiões como oásis de candura serve apenas aos acólitos. As escrituras santas são invioláveis em sua sabedoria e mesmo que alguns hadith puna a apostasia com a pena de morte, ou que o homossexualismo seja um crime passível de decapitação ou que meninas de 9 anos tenham que se casarem, assim como uma das mulheres do profeta se cassou nessa idade, ou que outras mulheres devam ser mutiladas para não sentirem prazer, nada disso perturba a crença daqueles que se recusaram em condenar com veemência as barbaridades dos fundamentalistas em Paris. O pensamento fundamentalista não tolera a livre expressão porque ela não se conforma com as incoerências do pensamento dogmático religioso. Extinguir pela força os juízos e juízes opostos às suas interpretações do mundo é um grave perigo. Gostaria de entender como pessoas de fé possuem vantagens morais sobre as demais e só por isso elas estão autorizadas a matarem. Por que os religiosos, sejam do Islã ou de outras seitas, devem ter imunidade divina para suas práticas, e como, perpetrando os piores horrores e imoralidades, eles ainda gozam de destacados privilégios, como sanções a críticas? As religiões podem oferecer consolo e elevação a algumas almas perdidas, mas isso não pode nos impedir de lembrar que elas também são bárbaras. Todas as religiões têm nódoas irremovíveis de sangue. Querê-las imunes às críticas, livres da exposição de suas contradições não as ajuda a removerem o seu passado de trevas, muito menos conter o fanatismo cego dos que matam e trucidam os que pensam contrários às suas doutrinas de morte. Nada pode ser mais temido pelos legisladores da fé do que ter a sua autoridade questionada. A sátira corrói a autoridade e seus instrumentos de controle, por isso elas são combatidas, por isso elas são temidas. Ao escarnecerem dos vultos religiosos, que escarnecem todos os dias dos homens, o riso das charges ajudam a deslegitimar interpretações que dotam alguns de autoridade sobre a vida e a morte.

Presidentes e fraldas

Paul Strand, Cega, 1916.


Nunca me esquecerei da frase do ex-presidente Lula, que no explodir das denúncias do mensalão saiu a público a dizer: “Eu fui traído”. Depois ele esqueceu isso e voltou a abraçar os companheiros que meteram a mão no erário público, achincalhando a República. Na ocasião se debateu muito que não era possível que um governante de um país como o nosso, continental, vigiasse tudo o que seus comandados faziam ou deixavam de fazer. Ninguém sabe o que vai no coração do homem. Amenizou-se assim a responsabilidade do presidente nos atos de seus comandados diretos.  Alguns governantes, talvez tenham boa-fé e deleguem aos seus auxiliares poderes, esperando que estes retribuam a confiança com o máximo zelo. Coisa que nem sempre acontece. Se vale a boa-fé vale muito mais a seleção criteriosa. A escolha de um ministro e auxiliares do alto escalão é entre todos os atos governamentais uma demonstração de direção do governo. Para onde vai o governo, o que quer e espera fazer? O mandatário deve ter plena confiança em seus ministros, de outra maneira por que os escolheria. Essa é uma lógica razoável. A escolha pelos méritos e a confiança na execução do trabalho pelo registro do histórico de atuações pregressas na área, também é outro critério que deveria ser observado. Esta é uma lógica razoável, insisto, porém não no Brasil. Aqui os critérios, como bem mostrou a escolha da presidenta Dilma na composição de seu novíssimo ministério atente a outra lógica, somente aceita e compreendida nos escritórios e reuniões palacianas de Brasília. Ao eleger Helder Barbalho para o ministério da pesca, Pastor George Hilton para o ministério dos esportes, Cid Gomes para o ministério da educação e outros trinta e tantos ministros ela queimou a desculpa dada por Lula em 2005 para se livrar da responsabilidade das delinquências de seus auxiliares diretos. Em comum esses nomes tem um histórico de denúncias cabeludas que a qualquer um os tornariam desqualificados para o exercício dos cargos. O ex-governador Cid Gomes jamais teve em sua carreira política nenhuma ligação com as discussões sobre a educação. O ponto de maior destaque de sua carreira ocorreu quando ele fretou com dinheiro público um jatinho para levar a mulher e a sogra para passear pela Europa. Já o Barbalho filho é herdeiro de umas das figuras mais enlameadas da política nacional o ex-senador Jader Barbalho que renunciou ao mandato depois de uma enxurrada de denúncias de uso dos recursos públicos para favorecer familiares. O caso do pastor evangélico George Hilton é ainda mais escabroso. Eleito pelo PRB que o renegou, ele se filiou ao PFL que o expulsou em 2005 depois dele ter sido flagrado num aeroporto com inexplicáveis R$ 600,000 na mala. O homem foi expulso do PFL o partido mais escroto do país e achou abrigo no governo Dilma. Dilma não poderá jamais dizer que não sabia ou que se sente traída quando escândalos envolvendo esses nomes vierem a público. Com uns ministros desses o que ela espera que ocorra? Estava certo Eça de Queiroz, quando disse que de tempos em tempos os presidentes e as fraldas devem ser trocados, ambos pelas mesmas razões. 

Triste Bahia

Por que alguns políticos brasileiros se acham tão especiais? Por que, ao acenderem aos governos, passam a se sentirem diferentes, como se de repente, fossem untados com o mesmo olho sagrado que ungiu David como rei de Israel? Diariamente eles nos dão exemplos de que o poder é viciante e de que são capazes dos maiores enxovalhos públicos para perpetuarem os seus privilégios de casta. O ex-governador da Bahia, estado brasileiro que é conhecido por suas maravilhas políticas, como ter eliminado o analfabetismo, erradicado as desigualdades, combatido a violência com inteligência, dignificado o trabalho dos professores e construindo um estado de bem-estar social inigualável no país, achou por bem, depois de ter conquistado para o Estado Baiano todos esses benefícios, dar a si mesmo um prêmio. Pelos bons serviços prestado nos oito anos (des)governo o ex-governador, um dia antes de entregar o cargo ao nosso candidato a ungido, assinou um decreto que garante serviços vitalícios de motorista e segurança particular aos ex-governadores da Bahia. Vida dura está de governante

Mexerico, fuxico e outras imposturas



Recolhidas através da observação do povo as coisas à sua volta, as quadras populares exalam sentenças judiciosas sobre o comportamento probo de alguns e questionáveis de outros. Consciencioso, o povo não manda recado. Exalta quem deve ser exaltado. Rir de quem deve-se rir e troça quem deve ser troçado. Alguns dos melhores exemplos dessa atitude poético-filosófica, confunde-se com as melhores doutrinas dos filósofos moralistas. Entenda-se moralista aqui não no sentido dos defensores de uma moral conservadora, mas sim como aqueles que criticam os costumes e são atentos observadores da mentalidade e do espírito social. Corrompendo e adulterando o verniz social, que recobre as faces verdadeiras da sociedade, a poesia popular infringe o decoro que finge não ver o que todos veem. Dão por isso testemunho de um mundo verdadeiramente hipócrita, mesquinho e falso.  

Meu mano, meu camarada,
Tudo no mundo é assim:
Comigo ocê fala de outros,
C´outros`ocê fala de mim.

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Quem tem aza não avôa,
Quem não tem quer avoar;
Quem tem razão não se queixa,
Quem não tem quer se queixar.

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Alfaiate quer tesoura
Sapateiro quer tripeça
Moça bonita quer outro
Moça velha quer conversa

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Há duas cousas no mundo
Que dão confusão na gente
É padre ir para os infernos
E doutor ficar doente

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O padre quando namora
Sempre põe a mão na coroa,
Namora, padre, namora,
Que o senhor tudo perdoa.



Quantos poemas, considerados belos e exemplares, foram produzidas longe de um contexto como este que descreve com tanta penetração as imposturas sociais?