Validação

Foto: Joe Share Sophia Loren e Jane Mansfield. 1957.


Vivemos numa sociedade em que a todo instante as pessoas querem tranquilizar-se acerca de seu valor. Não lhes bastam a certeza individual de que elas são especiais. É preciso o julgamento favorável dos outros para serenar as dúvidas quanto as suas qualidades.

Já velho em nossa sociedade industrial, esse fenômeno de estrelismo explícito, tornou-se ainda mais evidente depois do advento das redes sociais. A exposição fácil potencializou o fetichismo dos narcisistas por audiência às suas pretensas qualidades de sobredotados.

Vemos assim surgir a cada instante, nesses sítios de adoração pessoal, tentativas forçadas de extrair dos amigos uma palavra de conforto que pacifique as ilusões mais delirantes, daqueles que se imaginam injustiçados pelo mundo, porque não são reverenciados com a devida atenção que julgam merecer.

Vale de tudo para estar em evidência e tranquilizar assim a consciência da certeza de que se tem algo a mais do que os outros. Os desesperados recursos postos em marcha, para validar a satisfação pessoal por reconhecimento, são infindáveis. Uns se cobrem de marcas caras e pousam ao lado de carros na esperança de verem o desejo, que esses objetos provocam nos incautos, migrar para si. Outros postam fotos de pernas pro ar, brindando solitários com o vento à beira da piscina, à espera de mesuras às suas invejáveis conquistas materiais. Há ainda aqueles que lhes enviam textos cujo o único propósito é saber se você estar mesmo lendo e acompanhando tudo o que eles escrevem. Os mais suspeitos, de que não passam mesmo de coadjuvante no grande palco do mundo, entulham as suas timeline com autorretratos elogiando a si mesmo e curtindo todas as suas fotos. Ao invés de se evidenciarem, todos esses atos denunciam apenas a completa invisibilidade dessas pessoas.

Desconfortáveis consigo, elas, pagariam qualquer coisa para serem iguaizinhas as mais bem sucedidas estrelas da música, do cinema, da tevê. Mal sabem, porém, que as invejáveis divas estão tão insatisfeitas e fragilizadas a respeito de seus valores quantos os invejosos do “sucesso” alheio nas redes sociais. O problema não são as pessoas, mas o modo de vida que exalta um ideário falacioso de felicidade que não se conforta consigo mesmo, mas atribui a outro toda motivação para continuar seguindo a jornada da vida.

Num mundo onde impera a culpa pelo fracasso de não se ter elevado a nenhum posto de destaque na sociedade, as pessoas dão-se em espetáculos bisonhos na tentativa de se redimirem por não terem alcançado o esperado sucesso determinado pela sociedade. O fracasso, em nosso mundo, é inadmissível e ele está intimamente ligado ao não cumprimento de determinações externas à nossa vontade. Escravizados por forças contrárias a vida simples, entregamo-nos a toda sorte de alucinações, só para cumprir o papel social que os outros nos impuseram.  

Oscar

Sobre o Oscar aqui

Afeiçoar



Quanto mais sei de partidos políticos, quando mais sei de militância partidária, tanto menos simpatizo com tudo isso. Só há um motivo dessas coisas existirem; andamos todos afeiçoados a servidão. 

O triunfo da maldade

Foto: Boris Ignatovich: Praça Vermelha, 1930
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Leio muita gente pregando, pelas redes sociais, contra o preconceito. Salto de alegria e exulto que assim seja. Um mundo de preconceitos é intolerável. Mas basta seguir lendo os comentários, que geralmente são longos, para se dar conta de que, as pessoas não estão realmente rechaçando as atitudes de ódio, mas antes, alimentando o ódio. Custa-me acreditar que se estar combatendo o preconceito, quando se defende nordestinos, dizendo que sulistas são: “porcos”. Há nalgumas pessoas uma certa dificuldade em entender que o objetivo da busca da igualdade não é o de poderem fazer o mal que os outros fazem. Quando ninguém é mais capaz de enxergar em si mesmo o mostro que combate é porque a estupidez triunfou de vez.

Das vãs sutilezas

Foto: Artur Pastor
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Nada indicia uma mudança verdadeira. Então por que sinto algo de bom, mesmo ante tantos desapontamentos?

Da dessemelhança

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As poucas décadas de nossa débil democracia evidenciam-nos um fato. Os nossos homens públicos se apequenam com o trato da coisa pública. Muitos começam grandes e vão se rebaixando a tal ponto deles não se ter mais notícia. Entre nós, hoje em dia, é incomum encontrar um político que se obstine de uma ideia louvável no princípio de sua carreira e dê cabo dela sem tropeçar nas mesmas vilanias que seus pares viciados. Nada nos nossos políticos parece estável. Não se pode confiar em suas crenças e nenhuma de suas convicções, estão tão bem assentadas num rumo que não possam alterar bruscamente o seu destino de acordo com novas conveniências que, vão interpondo-se pelo caminho. Raros são os que preservam o mesmo vigor reformista e transformador que, segundo muitos, os trouxeram aos palanques. Dir-se-á quem os observa que, não há um único sentimento de virtude neles que não seja prontamente seguido por um dilúvio de males. Na trajetória de suas vidas muitos faroleiros da moralidade deixaram à deriva ou levaram à pique embarcações que contavam com esse guia para atingir porto seguro. Uma vez enfeitados com os favores do mundo, julgamos que nossos administradores não são mais os mesmos homens. Já não conservam mais inteiros e vivos os entusiasmos de antes. Embaraços, infâmias, crimes e delinquências de toda ordem, contradizem as suas origens. Suas ações parecem não mais provir daquele mesmo indivíduo que se negava em conduzir a sua política percorrendo o caminho geral. Uma vez eleitos eles assumem os postos como feras, os conduzem como raposas, e por fim os entregam, ou lhes são tomadas as ocupações, como cães vadios. Há tantos exemplos semelhantes a estes e tão facilmente encontramos esses casos que, estranho mesmo seria imaginar os nossos políticos de outro modo.  É um vício que há muito censuramos nos nossos mandatários, este de serem após a investidura dos cargos públicos tão dessemelhantes daqueles indivíduos de antes. A experiência nos mostra todos os dias que existe grande diferença entre as súbitas determinações da alma e a sua conduta habitual.


O que esconde o cinema de entretenimento?

Cena do filme: A lenda do tesouro perdido.

Vi ontem, um daqueles blackbuster americano feito na medida para atrair o público às salas de cinema. Como todos sabem esses filmes seguem um receituário estrito de ingredientes. Os elementos desse angu se restringem basicamente a: astros consagrados como protagonistas; mocinhas com potencial para capas de revista teen; ajudantes bobalhões em meio a uma enrascada que envolva o maior número possível de encrenca cujo final é tão previsível quanto saber de que lado está o PMDB na política nacional.

De tão ingênuos muitos dirão que eles são inofensivos e incapazes de causar danos. Uma diversão despretensiosa jamais será capaz de provocar qualquer lesão contra à inteligência daqueles que vão assistir a estes filmes. É o que ouvimos. Afinal quem assiste a estes filmes sabem - ou imaginamos que eles saibam - de véspera, o que os aguardam. São como as novelas da Globo que há quarenta anos contam a mesma história. O que muda são apenas os ambientes, as épocas e, eventualmente, os efeitos. O que pode a repetição de padrões tão insistentes?

Porém, de bobinhos estes filmes não têm nada. Não são apenas máquinas de fazer dinheiro que alimentam uma indústria bilionária. São porta-vozes de um modo de vida e de uma cultura que, desde o último século, vêm moldando as outras culturas, com a força de narrativas que, tentam legitimar as suas ações perante o mundo através de um discurso obstinado, pela crença de que estão fadados a um certo destino. Feitos com o argumento de que estarão entretendo estes filmes transmitem muito mais do que diversão.  

O Lenda do Tesouro Perdido, filme que vi nesse feriado de carnaval, tem Nicolas Cage vivendo um caçador de tesouros. Cage pertence a 3ª geração de uma família que busca desvendar os mistérios envolvendo um obscuro tesouro, que poucos acreditam existir. Acumulado durante vários séculos e transportado por muitos continentes para evitar que fosse roubado, ou que caísse em mãos espúrias, esse tesouro está provavelmente agora guardado em solo Americano.  A trama é tecida sugerindo a ideia de que esse tesouro que ajudou antigas civilizações no processo de consolidação de suas nações e expansão de seus domínios caiu como um fadário ao povo americano.

Disfarçados sob o manto do entretenimento esse e outros tantos filmes de aventura incutem a velha ideologia americana do “Destino Manifesto”. Esse pensamento que surgiu nos primeiros anos após a independência propugna a crença de que o povo dos Estados Unidos são o mais novo povo eleito por Deus para civilizar o mundo. O tesouro buscado por Gates no filme que pertenceu a antigas civilizações, hoje está em posse dos Americanos. Os saberes do mundo, as riquezas das nações, os antigos caminhos, tudo pertence agora aos americanos.

Pintura de John Gast. Representação pictórica do Destino Manifesto. Na cena, uma mulher angelical, algumas vezes identificada como Colúmbia, (uma personificação dos Estados Unidos do século XIX), segurando um livro escolar, leva a civilização para o oeste, com colonos americanos, prendendo cabos telegráficos, por outro lado, povos nativos e animais selvagens são afugentados.(fonte Wikipedia)

Algumas cenas do filme reforçam de forma implícita o destino manifesto do povo americano. Quando Gates tem que roubar a declaração de independência do arquivo nacional para evitar que bandidos o façam ele evoca o discurso dos patriarcas que diziam:

...sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.

Através desse discurso os americanos evocam para si a responsabilidade de supostamente defender os povos do mundo contra os governos “destrutivos”. Agindo assim eles se sentem justificados para atacarem todos os que se voltem contra os princípios da liberdade. Mas fazem isso na verdade para manutenção de sua influência.

Os filmes americanos induzem a crença nos milhares de espectadores que os prestigiam pelo mundo, de que suas ações no mundo são movidas - assim como Gates que tem de infringir a ordem das coisas para restaurar um bem maior -  pelas mais genuínas e nobres intenções. Por essa crença eles legitimam as invasões de países. Atentam contra a soberania dos povos. Desrespeitam culturas e mesmo assim acreditam na sua pureza pois se veem movidos pela vontade não dos homens, mas de Deus. Esse nada inofensivo discurso inocula nas mentalidades neófitas dos milhões de entusiastas desse gênero de cinema a crença de estarem apenas se divertindo quando estão na verdade sendo doutrinados para reações mais acomodatícias.


Carnaval o sonho de um mundo porvir

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Todos os anos é a mesma coisa. As ruas se enchem de alegria. O silêncio é quebrado por inumeráveis gritos de festas que se espalham por todos os cantos. As cores vibram no ar, na terra, no mar e misturam-se aos corpos que se contorcem, questionando a lógico do que pode um corpo. Multidões invadem todos os sítios. Velhos reumáticos, apoiados em seus mais novos membros, derivam às ruas, acompanhando a corrente que se infiltra como sangue renovado nas artérias das cidades, imprimindo-lhes novos ânimos por todos os cantos. Homens e mulheres andam por todas as partes desejando praticar livremente todos os prazeres. Estão todos mascarados, desmazeladas ou cheios de opulência e anunciam aos berros que é Carnaval, aqui e alhures.

As festas do Carnaval fazem parte de um tempo extraordinário. Muitos povos tiveram o hábito de observar um período do ano em que as normas sociais eram temporariamente suspensas para o gozo das liberdades de costumes, onde as paixões mais inflamadas não encontravam nenhuma oposição ou constrangimento. Durante esse período, os homens punham as leis e a moral, habitualmente rígidas e intransponíveis, sob suspensão. A palavra de ordem era: transgressão.

De todos esses períodos de ruptura das proibições o mais conhecido e que deu origem – provavelmente - ao nosso Carnaval, foi aquele que se relacionava com os festejos romanos das Saturnais, ou Saturnálias, que comemoravam o reinado do antigo deus romano da agricultura, Saturno. Um dos aspectos mais interessante dessa festa, que reconstituía o governo de Saturno, estava na concessão aos escravos, de liberdades para agirem com vitupérios e escarnio contra os seus próprios patrões durante um curto período do mês de dezembro, época dos festejos da colheita e da celebração da divindade.

Segundo a mitologia grega, Saturno era uma divindade romana identificada com o deus grego Cronos. No tempo em que esse deus reinava sobre a Itália os homens, nos fala o mito, viviam libertos dos enfados. Ninguém conhecia a injustiça porque não havia necessidade de bens. A distinção de classes não era conhecida. Todos gozavam de igual liberdade e não tinham sido inventadas ainda as portas, porque o roubo não existia e os homens nada tinham a esconder. O reino de Saturno foi um reino extraordinariamente próspero, por isso essa época ficou conhecida como a Idade de Ouro.

Inspirados nesse mito os romanos realizavam todos os anos uma celebração à memória do deus e reviviam provisoriamente a época do reino de Saturno. Comer e beber lautamente, participar de alegres celebrações e buscar imoderadamente os prazeres eram, segundo James Frazer, as características que parecem ter marcado particularmente aqueles carnavais da antiguidade, que se prolongaram ao nosso tempo através da diluição dos velhos ritos romanos nos festejos do calendário Cristão, associados a entrada da Quaresma, quando nos despedimos dos excessos da carne (de onde veio a moderna designação de “Carnaval”), para ingressar no período de privações. Ainda que sejam associadas inteiramente aos ritos pagãos o mito não deixa de possuir um sentido cristão que está diretamente ligado à sua gênese, como pode ser apurado por sua relação como o período do ano litúrgico que antecede a Páscoa.

As semelhanças entre as Saturnais romanas e o Carnaval já foram observadas várias vezes. Herdeiros que somos de muitas das tradições latinas, esses festejos antigos encontraram morada segura entre a nossa gente, que alegremente celebram o rito que permite uma restauração do reinado daquele alegre monarca que presidia às orgias numa terra de abundância, que não conhecia nenhum rumor de guerra ou de discórdia entre os homens.

Para alguns esta é a data do ano mais esperada. As pessoas planejam com muita antecedência esse momento. Os pobres gastam o que não têm em luxuriantes adornos, cheios de brilho e plumas só para satisfazerem, por um breve instante de suas vidas, o desejo de serem o que a realidade e outras farsas, interditaram. Nesses dias os sonhos ganham todas as formas e o ordinário da vida passa a ser a exceção.

O povo não apenas se permite sonhar com um tempo de fartura, mas ousa concretizar esse sonho imprimindo tudo de si. Alguns veem nessa ação uma irresponsabilidade dos que já têm tão pouco. Gastar os últimos recursos, numa fantasia, enquanto o barraco ameaça mais uma vez despencar morro a baixo? Inquietam-se os conservadores. Mas por trás dessa sublevação existe uma reivindicação inconsciente das camadas populares, que ousam afrontar os estratos sociais e bradam contra as imposturas dos mandatário, que impõe ao povo, inacreditáveis limitações. “Isso é um protesto do sonho contra a injustiça” disse Ariano Suassuna em uma de suas aulas espetáculo, falando a propósito das espetaculares fantasias criadas pelo povo durante o Carnaval.

Nesses dias licenciosos o povo tem a chance de sonhar com uma realidade menos dura.  Mas até mesmo esse dia, de libertação das privações, encontra-se hoje inteiramente ameaçado pela intromissão dos aparelhos da Indústria Cultural nas manifestações genuínas do povo. Este aparelhamento retira o protagonismo das gentes simples das festas e tenta substituí-lo por organizações mafiosas que represam com cinismo as espontâneas manifestações de rebeldia popular com potencial poder de amotinação.


O Carnaval guarda em germe a esperança humana de um mundo porvir onde a vida será uma festa. 


Os rapazes e as maçãs

Os rapazes e as maçãs

Um dia, um lavrador ia montado no seu burro, com uma cesta de maçãs à sua frente, e ao ver um grupo de rapazes de várias idades a brincar num terreiro, resolveu meter-se com eles e lançar-lhes um desafio:

– Ó rapazes, vou pôr esta cesta de maçãs lá mais para diante. Por isso depois, toca a correr! O primeiro que lá chegar fica com elas.

Eles então deram as mãos uns aos outros, de maneira que os mais fortes ajudaram os mais fracos a correr também, chegando todos ao mesmo tempo até à cesta das maçãs. E no final, sentaram-se todos a comê-las. O lavrador, muito admirado com a atitude dos rapazes, perguntou-lhes:

– Por que razão fizestes isso, quando um de vós podia ter ganho as maçãs todas?

E eles responderam:

– Se o não fizéssemos, um de nós ficava contente e os outros tristes. Assim, ficámos todos bem. Nenhum ficou triste.


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Conto popular

Duplipensar

Duplipensar é um conceito formulado por George Orwell no livro “1984” que expressa a estratégia mental usada pelo partido no poder para aniquilar a lógica e a racionalidade enquanto instrumentos de análise da realidade e assim consentir pela manipulação das opiniões públicas a manutenção do seu poder. 

À volta da fogueira

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Muito antes da luz elétrica, do livro, das escolas, da escrita, era no escuro da noite, entre o clarão miúdo da lamparina, em consórcio com a lua, que mal tangia as sombras, que pais reuniam os seus filhos e amigos da comunidade para contar histórias. Na comunhão do círculo brotavam histórias que descreviam e exemplificavam conceitos morais.

Entre as ocupações domésticas e o fiar de tecidos, as mães também empregavam as histórias nas funções de entreter e instruir os filhos. Fazendo isso, elas talvez não imaginassem, mas também estavam transmitindo valores, induzindo comportamento, alimentando a fantasia das crianças na superação de seus limites.

São através das histórias que os homens organizam as suas sociedades. São as narrativas que orientam a compreensão do homem sobre si mesmo e sobre os mistérios do mundo. Diferentes experiências, que contrastavam com as suas próprias, ajudaram o homem na construção do mundo. Através de diferentes papeis, vive-se o outro, e testemunhamos as alegrias e os dessabores do mundo.

Usando uma linguagem simbólica os contos, lendas, mitos, que pais e mães nos contaram, promovem uma descoberta com o essencial das coisas. A realidade, pelo contrário, é o encontro com a aparência. “Por trás de todas as histórias de casas assombradas” escreve Marina Colasanti em seu fabuloso livro Fragatas para Terras Distantes:

 “há uma única e grande história, a do pequeno ser humano enfrentando corajosamente sua finitude.... onde as palavras nos contam que a casa está vazia porque ninguém se atreve a enfrentar o fantasma, o reverso das palavras nos diz que quem não enfrenta seus medos não é dono de si, não se habita. E quando as palavras nos relatam como a personagem decide assumir a casa, enfrentar o fantasma e derrota-lo ao fim da história, lemos por trás delas que a coragem é possível, que nossa vida nos pertence na medida em que enfrentamos a morte, até o fim daquela breve história que é a nossa”. (COLASANTI, 2004, p. 20).

A arte de saber ouvir, já nos ensinavam os antigos, é a antecâmara do conhecimento.

No entanto, mesmo tendo tantos valores, as histórias hoje são, ou totalmente negligenciadas como fontes de instrução, ou são mutiladas para atenderem a um determinado e preguiçoso modo de interpretação do mundo onde as rugosidades da vida não cabem.

Num tempo de desintegração das identidades, a cultura de resistência da memória, assume, cada vez mais, um papel importante na construção e afirmação das identidades coletivas, que sofrem, como consequências das ações da suinocultura televisiva, do entretenimento da indústria cultura e das políticas que se identificam com uma certa esquerda culpada, um desbotamento de suas inequívocas potencialidade de ancoragem das estruturas de identidade, que se recusam o processo de homogeneização e pasteurização impostas pela cultura de massa.  


Elucidário

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No último capítulo do clássico livro CANTADORES o folclorista cearense Leonardo Mota nos apresenta os modos de pronunciar próprios dos cantadores de sua época.

Sem lhes adulterar o registro, reproduzindo-o tal qual o encontrou, o trabalho de Leonardo sugere com uma recolha dessas expressões, a rica prosódia dos menestréis que corriam mundo cantando aventuras de heróis e feitos maravilhosos.

Com o iluminado título de ELUCIDÁRIO o folclorista elenca uma série de expressões usadas pelos cantadores que se constitui um verdadeiro dicionário "cacoépico".

Alguém aí é capaz de me dizer o que significa:


"Aguentar tempo sem se amoitar".

O enfado de pensar em demasia



Pensar em demasia é muito fatigante. Quando? Questiono-me ao ler um post no facebook de alguém que se diz cansado de pensar. Na busca de alento a sua consciência pesada, a tal pessoa, socorreu-se no que acreditava ser o último recurso disponível a um cérebro exaurido por mil inquietações: um livro cheio de sacanagem canhestra em linguagem rasteira, que vem fazendo as cabeças daqueles que desejam sossegar as suas cansadas mentes, com algo menos comprometedor aos seus doridos neurônios. Poucas vezes vi com tanta candura a utilização dessa literatura barata. É para isso mesmo que elas servem, asseguram-me seus leitores, para não ter que pensar. Deixar escapar o cérebro para rotas desconhecidas e percorrer caminhos ainda não desbravados é demais fatigante, ainda mais para quem estar tão desacostumado a essas rotinas de aventureiros. Esvaziar as suas consciências de qualquer tarefa mais pesada do que mergulhar num vazio de sentidos e nulidades, que não terão reverberações após o dobrar da última página, deve ter lá a sua eficiência, porque não canso de ver gente se socorrendo nesse refúgio. O enfado de uma existência vazia, só pode mesmo ser recompensado com uma alegoria de histórias vazias, onde a vida só tem sentido quando apanhada de quatro na cama tomando mil chibatadas antes de voltar ao vazio que a levou às peias.  Amortizar assim a tarefa de pensar, com ações de não ter que pensar, tem sido o exasperado recurso dos que imaginam pensar demais. As pessoas não sabem o que é pensar, porque nunca viveram a consciência de pensar. Estando apenas atulhadas de insignificâncias, imaginam com isso estar a pensar em demasia. Cercados por entulhos de informações inúteis que as impedem de avaliar o pensamento com critérios de qualidade que se distingue da quantidade. Iludem-se com a ideia de que andam pensando além do suportável. Estar com a cabeça cheia não é estar cansado de pensar é estar cansado de não pensar. Pensar para percebermos que não devemos pensar tanto. Pensar para refrear o pensamento. É não pensar. O verdadeiro pensamento não se cansa. A cada passo dado, a cada nova descoberta ele se constitui num renovado interesse sobre si mesmo e sobre o seu alcance.


A pedagogia do reducionismo

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Deformam o texto, mutilam a literatura, impor versões esdruxula, e dizem com isso que estão ensinando as pessoas a pensar, só pode ser piada. Dessas ações só podem surgir as piores aberrações. Versões anacrônicas com viés moralista desqualificam as potencialidades do conto e de qualquer outra narrativa (vide o estado islâmico que ler o corão com um olho escrutinador).

Hoje os contos, que os professores não leem, só aparecem às crianças em versões amesquinhadas. Simplificadas de seus significados mais profundos. Dão-se muito mais para especulações moralistas do que para encorajamentos e enfrentamentos dos dilemas que as ameaçará no percurso da vida. Servem antes ao panfletismo, do que auxiliam a criança a desenvolver sua imaginação e estímulo à criatividade. Para encontrar um significado mais profundo, nos contos, assegurou Bruno Bettelheim, devemos ser capazes de transcender os limites estreitos. A simplificação rasteira serve a outros propósitos.

Além de desconhecerem os contos, que muitas vezes só viram nas versões da Disney, desconhecem ainda os estudiosos do tema. Mais isso não os demove de suas nobres tarefas de erradicar os supostos preconceitos que esses contos disseminam. Em suas cabeças reinam apenas a militância dos bons hábitos. Em que pese os danos dessas leituras, sem anteparo de alguma memória histórica, essa pedagogia canhestra, ganha mais e mais adeptos. No livro de Bruno Bettelheim que avalia as contribuições dos contos para a psicologia das crianças ele afirma que:

“As escolhas das crianças são baseadas não tanto sobre o certo versus o errado, mas sobre quem desperta sua simpatia e quem desperta sua antipatia. O conto de fadas oferece soluções sob formas que a criança pode apreender no seu nível de compreensão".

Portanto os contos falam da eterna batalha do bem contra o mal. De forças destrutivas que ameaçam a vida. Os contos ajudam as crianças a entenderem os difíceis dilemas da existência e as ajudam a entender que nessa batalha haverá sempre a possibilidade de enfrentamento das dificuldades. São tão pródigos em auxílio às consciências que eram, segundo Bettelheim prescritos pelos velhos hindus como exercícios de meditação:

“Num conto de fadas, os processos internos são externalizados e tornam-se compreensíveis enquanto representados pelas figuras da estória e seus incidentes. Por esta razão, na medicina tradicional hindu um conto de fadas personificando seu problema particular era oferecido para meditação a uma pessoa desorientada psiquicamente. Esperava-se que meditando sobre a estória a pessoa perturbada fosse levada a visualizar tanto a natureza do impasse existencial que sofria, como a possibilidade de sua resolução. A partir do que um conto específico implicava acerca de desesperos, esperanças e métodos do homem para vencer tribulações, o paciente poderia descobrir não só um caminho para fora de sua desgraça mas também um caminho para se encontrar, como fazia o herói da estória”.

A tarefa do conto é ajudar a criança a conseguir uma consciência mais madura para civilizar as pressões caóticas de seu inconsciente. Retalhá-lo, ao mero discurso panfletário, é o mesmo que inutilizar a sua força.

“O conto de fadas é terapêutico porque o paciente encontra sua própria solução através da contemplação do que a estória parece implicar acerca de seus conflitos internos neste momento da vida”.

Sobre a forma simbólica, que melhor fala às crianças, os contos, sugerem que o mau não compensa, que as ações perversas não valem a pena. E que diante de uma grande dificuldade, de um obstáculo aparentemente intransponível, como a luta contra um dragão, um lobo, um ogro ou um outro ser superior as suas forças, ainda assim é possível vencer os seus problemas.

“O conto de fadas é apresentado de um modo simples, caseiro; não fazem solicitações ao leitor. Isto evita que até a menor das crianças se sinta compelida a atuar de modo específico, e nunca a leva a se sentir inferior. Longe de fazer solicitações, o conto de fadas reassegura, dá esperança para o futuro, e oferece a promessa de um final feliz. Por esta razão, Lewis Carrol chamou-o um ´presente de amor´". 

Impor uma leitura miúda da história para atender uma pauta moralista é o mesmo que esvaziar o conto de seu sentido profundo que reside na busca de uma verdadeira consciência de nossa existência. "Hoje, como no passado, a tarefa mais importante e também mais difícil na criação de uma criança é ajudá-la a encontrar significado na vida. "


... No momento em que seus lábios a tocaram, a princesa abriu os olhos e, despertando, contemplou-o com TERNURA.

No trecho acima temos o momento em que o príncipe acorda a princesa. 

Uma visão desinformada dos contos vê neste tipo de cena uma realização de desejos irrealistas, esquecendo completamente a mensagem importante que transmitem os contos às criança.

A julgar pelas lições dadas nas escolas as obras literárias torna-se dia a dia um mero instrumento utilitário e informativo de programas panfletários; não se distinguiria hoje um romance de uma lista telefônica; um poema, de uma caixa de medicamentos. A obra literária serve a tudo, menos a arte.

Leituras pedestres, criam leitores pedestres.

As leituras esquizofrênicas propugnam uma leitura voltada aos temas políticos, uma espécie de literatura engajada. Nessa nova versão de leitura tudo o que não está voltado aos temas em pauta é simplesmente ignorado. A literatura perde sua completa autonomia e sujeita-se a uma pauta alheia onde o autor da obra e leitor devem ser ambos tutelados. Cria-se com isso uma literatura mostruário, bem aos moldes daquela ação papal que mandou encobrir todas as vergonhas das estátuas do Vaticano porque eram "imorais", ignorando simplesmente que elas estavam dentro de um contexto que muito provavelmente não lhes cabiam na cabeça.

Os professores tirariam melhor proveito da obra se a presumissem fora de seus programas reducionistas. Os contos têm melhor eficiência quando não são vistos pela ótica de cenas isoladas, capciosamente iluminadas para parecer sugerir o que definitivamente não sugerem. Essas leituras amortecem os sentidos e roubam-lhes todos os significados mais profundos, como os que:

“...sugerem as experiências que são necessárias para desenvolver (na criança) ainda mais o seu caráter. Os contos de fadas declaram que uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa apesar da adversidade - mas apenas se ela não se intimidar com as lutas do destino, sem as quais nunca se adquire verdadeira identidade. Estas estórias prometem à criança que, se ela ousar se engajar nesta busca atemorizante, os poderes benevolentes virão em sua ajuda, e ela o conseguirá. As estórias também advertem que os muito temerosos e de mente medíocre, que não se arriscam a se encontrar, devem se estabelecer numa existência monótona - se um destino ainda pior não recair sobre eles.”

A esquizofrenia das leituras políticas chegou ao ponto de vivermos a obra para “catar” registros de condutas, desvios de programas, metáforas insidiosas, esquecendo-se de todo o resto. Há um delírio de listas, de prescrições que querem influir a toda gente um peso de culpa às obras literárias.

A visão reducionista das histórias ao predomínio dos temas de configurações morais e políticas, alijou os contos, no que eles tem de mais proveitoso: “ajudar as crianças  na tarefa de conseguir uma consciência mais madura para civilizar as pressões caóticas de seu inconsciente”.

O programa dos Estudos Culturais em sua versão atual torna toda e qualquer obra, especialmente aquelas de origem europeia em um panfleto dos discursos de dominação do imperialismo em sua forma mais insidiosa. Sobre as pressões desses discursos estapafúrdios esvaziamos as potencialidades dos melhores textos literários apenas para sujeitá-los aos modismos.



O riso fácil

Quino / Guernica

As pessoas acham que troçar os outros e dizer grosserias é a única forma de ser engraçado. Pode até ser por um momento. A piada admite esse expediente pedestre. Como de resto a piada admite qualquer coisa. Mas valendo-se apenas desse recurso a piada se apequena. Pode revelar-se vantajoso ao riso o flagrante de desordens, desarmonias e desequilíbrios cotidianos que embaracem a ordem perfeita das coisas desequilibrando as forças que fragilmente a sustêm. O riso tem portanto que ver com surpreender a rotina com achados que a desestabilize. Mas se usarmos rotineiramente o recurso da troça-grosseira então a piada deixa de ser piada. A melhor piada é sempre aquela fruto da excepcionalidade.

Os sinos de minha infância

Foto: Vista noturna da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição em Malta, Paraíba.

Não vai longe o tempo em que os sinos das igrejas eram um valioso instrumento de comunicação. Esses monstrengos que habitam sozinhos as torres das Igrejas Católicas davam à população toda espécies de notícia. Hoje reduzido as suas funções, esses valiosos instrumentos comunitários, servem apenas, quando muito, a marcação das horas e anúncio das missas dominicais. Contudo, a memória do seu uso nos tempos de antanho estão associadas aos mais curiosos e saborosos ritos e usos coletivos. Pelas características do toque, sabia-se quando um membro da comunidade falecia. As badaladas ritmadas informavam se o morto era homem, mulher ou anjinho. Em um estudo que li sobre a etnografia dos sinos o autor atesta que as badaladas informava ainda às comunidade do passado, sobre toda sorte de perigo que rondava os vilarejos dispersos por um vasto território. Os sinos eram como espécies de protetores. Eventuais perigo, como de fogo, invasão, saqueamento, e outros males que se aproximavam ameaçadoramente eram, nos tempos remotos do mundo feudal, prenunciados pelas rebatidas dos sinos. Isso não existe mais. Muitos sinos foram substituídos nas Igrejas por aparelhos sonoros que imitam as badalados de forma artificial. O fogo, os saques e os invasores resolve-se com outros recursos que chegam bem antes dos sinos saberem. Os sons genuínos que ecoavam nos campanários reluzentes são hoje longínquas memórias perdidas no labirinto de nossas lembranças afetivas de um tempo que o tempo se encarregou de mudar. Uma de minhas mais antigas recordações de infância está ligada aos sons dos sinos da Igreja Matriz de Nossas Senhora da Conceição na cidade de Malta na Paraíba. Quando miúdo me lembro de ouvir os sons desses canários de aço, convidando as pessoas da cidade a preservarem sua fé, madrugando na primeira missa do dia. A partir das cinco horas da manhã os sinos iniciavam suas implacáveis súplicas pela visita dos fiéis. Eles só cessavam de badalar às seis horas, quando os bancos da igreja já estavam ocupados por todos que importavam com os ritos católicos, diga-se aí, toda a comunidade. Não faltava ninguém. Inclusive as vovozinhas e seus netinhos relutantes, que não percebia por que, havia sido arrancado mais uma vez de casa tão cedo, para ouvir a missa, quando se sabia que missa tinha todos os dias.   

O desencanto pátrio

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Quem buscar informações hoje no país, não deixará de sentir que os médias são escritos por gente que perspectiva a realidade de forma dicotômica. Ora ela é preta, ora é branca. Rareia alguma leitura que aceite todas as cores como inerentes ao mundo. Observo também que ninguém que escreva hoje é capaz de acrescentar sonhos à realidade. O país parece desencantado. 

Téo Junior- Livros #Navegantes ao mar


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A partir de hoje, e durante todo o ano, o meu colega Téo, velho colaborador do Navegantes, apresentará a cada fim de mês um vídeo com dicas literárias. Serão postados comentários sobre o que de melhor existe no universo das palavras. Teatro, poesia, romance, biografias, jornalismo literário e muitas outras saborosas dicas serão oferecidas todos os meses aos interessados em conhecer um mundo novo e cheio de possibilidades. A promessa é de que ele aborde todos os gêneros, sem abdicar de seu particular modo bem-humorado de descrever as suas impressões de leitura e nem descarte o seu habitual juízo crítico, que como ele mesmo gosta de afirmar “não peca por ser sincero, demasiadamente sincero”.  Nessa primeira postagem Téo, nos preparou uma seleção de três obras, que expõem a nu a trajetória de vida de três grandes personalidades das artes do século XX. Os personagens dessa primeira leva de comentários, são dignos representantes de seus postos artísticos. Cada um à sua maneira ocupou, com muito talento, o lugar de destaque em suas respectivas áreas de atuação e vincaram para sempre a sua permanência nas consciências artísticas de sua geração. Confiram o post. Esperamos que todos vocês gostem. Comentem. Aguardamos vocês na próxima publicação. 

A celebração do movimento




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Algo que me impressiona muito nas fotografias de Jacques Henri Lartigue é o fato de seus personagens estarem sempre em movimento. Eles não conhecem o repouso. Lartigue é um fotografo dos corpos em constante deslocamento; seus flagrantes são de saltos, nados, corridas, gestos contorcidos. Todos os seus personagens parecem estar sempre tentando infringir, malgrado sua natureza, as leis da física que os prendem ao chão. Qual a razão dessa inquietação? 

A sondagem da alma do povo

Foto: Jan.
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O estudo da cultura popular é muito vasto. Abarca aspectos religiosos, culinários, orais, linguísticos, históricos de povos e comunidades por muitos lugares. Diante dessa imensidão o pesquisador iniciante se questiona: Quais os melhores critérios que eu devo me valer para penetrar na alma do povo e colher as suas histórias, suas tradições e seus valores com o maior respeito às suas tradições? Uma boa leitura para entendimento do caráter singular do pesquisador da cultura popular está em Dinâmica do Folclore

Neste livro o folclorista, etnólogo e historiador Edison Carneiro (1912-1972) eminente pesquisador da cultura popular, reuni alguns aspectos que mais angustiam o pesquisador iniciante na tarefa de sondagem da alma popular. São reunidas algumas lições sobre os melhores comportamento daqueles que anseia percorrer os rincões dos brasis, pesquisando o rico manancial criado pelo povo, respeitando as sabedorias e não adulterando as suas sagradas tradições. Uma dessas lições diz respeito ao comportamento do pesquisador na abordagem dos depoimentos que revelam alguns aspectos das tradições, crenças e fatos do povo.   

No capitulo lições de pesquisa, Carneiro diz que, "nunca se deve subestimar a inteligência do povo". O pesquisador da cultura popular, segundo ele, não se deve tomar pela ideia de que já sebe tudo, nem de que vai apenas confirmar o que sabe. "O pesquisador deverá propor a questão como se nada soubesse do que está perguntando e deixar que o informante diga com franqueza o que sabe. Perguntar, por exemplo, ´Se você falar no nome do Sujo ao meio-dia, que acontece? e não ´O diabo lhe aparece se você falar no nome dele ao meio-dia?".

Os traquejos da pesquisa forjarão um pesquisador respeitoso da alma popular. Quanto a questão de dar algo em troca, em retribuição pela gentileza do povo, isso é muito discutível. O antigo manual de Paul Sebillot recomendava que, depois de reunidos os camponeses, se desse tabaco e aguardente a eles.

Edison Carneiro abordando essa questão sugere um outro caminho para convencer o povo a falar sobre suas práticas cotidianos. Ele diz que "é um erro tentar conseguir a confiança do grupo através de donativos em dinheiro ou de promessas que excitem a ambição geral. Muito útil será à pesquisa se, através da sua atitude respeitosa e cordial, o observador chegar a ser considerado "pessoa de casa", a quem todos, VOLUNTARIAMENTE, prestem informações ou façam confidências.".

Edson Carneiro fala ainda de algo muito interessante. “É preciso”, diz o folclorista, “para o bom andamento da pesquisa, um convívio cotidiano com a realidade cultural da qual se espera extrair informações”. Para Carneiro não é em um dia ou dois que o pesquisador coletará as informações que pertinentes as elucidações de suas dúvidas.  

Um exemplo de sucesso nessa tarefa pode ser visto nos trabalho de Frei Chico. Francisco Van Der Poel, popularmente conhecido como frei Chico, holandês, de 75 anos, sendo 46 vividos no Brasil e dez no Vale do Jequitinhonha peregrinou pelas regiões do triângulo mineiro e nordeste do Brasil carregando a fé e a esperança para milhares de almas, ao mesmo tempo em que pesquisava e anotava as velhas tradições do povo. Em 2013, 40 anos após o início de sua jornada pelos brasis, frei Chico lançou o “Dicionário da Religiosidade Popular”, um catatau que reúne em 1.150 páginas, 8.570 verbetes e 6.433 notas de rodapé as tradições do povo narradas pelo povo.

O poeta e folclorista Marco Haurélio, um dos maiores estudiosos da cultura popular na atualidade, chama a atenção para o fato de que para melhor compreensão das contribuição de Sebillot: “É preciso... situar Paul Sebillot em seu tempo.... Boa parte dos estudiosos, incluindo Wilhelm e Jakob Grimm, não tinha uma ligação direta com o que mais tarde Thoms definiu como "folk-lore". Acreditava no iminente desaparecimento das tradições populares (antiguidades) e na necessidade de seu registro.”

Apanhadas essas lições, os interessados em seguir a viagem de descoberta dos cenários meio reais, meio fantásticos, que o povo conserva na memória, terão dado um grande passo na tarefa de penetração dos mistérios populares.

Cantos de trabalho o aboio nordestino



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As cantigas de trabalhos são criações artísticas autênticas do povo, que se valem delas para, entre outras coisas, estimular os ânimos na batalha pela sobrevivência diária. Oneyda Alvarenga, em seu livro Música Popular Brasileira, afirma que, no Brasil, existe uma variedade imensa de cantos de trabalho.

A maioria dessas cantigas estão relacionadas às atividades rurais. O adjutório acelerava as tarefas da colheita do algodão, do plantio do milho, do arroz, do feijão. Elas são ainda importantes na colheita e trato da mandioca, no preparo da farinha ou nos trabalhos de produção da cachaça ou da rapadura, nos engenhos e alambiques que ainda resistem à cultura industrial desses produtos.

Um das forma mais conhecidas dessas cantigas de trabalho, é o aboio. Popularíssima no Nordeste Brasileiro essa forma de canto, ainda está presente no dia a dia de muitos trabalhadores sertanejos que ainda lidam com o gado nas velhas formas tradicionais.

Oneyda Alvarenga afirma que, “os aboios constituem um dos mais importantes grupos dos nossos cantos de trabalho rurais”.

Mas o que são aboios? Mário de Andrade, autor modernista que pesquisou muito das tradições populares, definiu em, As melodias do Boi, o canto de aboio, como: “um canto melancólico com que os sertanejos do Nordeste ajudam a marcha das boiadas. É antes uma vocalização oscilante entre as vogais A e Ô. A expressão de impulso final “Oh dá!” também muda para “Êh, boi!”. (ANDRADE, 1987, p. 54).

A vocalização das vogais em altissonante alarido constitui a forma pura de aboio. Porém, a forma tradicional divide lugar com histórias versadas, que contam feitos de vaqueiros e histórias de bois valentes, que botavam à prova a coragem e a destreza dos vaqueiros nos sertões carrascosos.

Em 1998 o Globo Rural produziu um documentário que conta a história do aboio através do depoimento de velhos vaqueiros e acadêmicos.

Meteorologia popular



Muito antes do tempo enlouquecer, e dos sinais andarem trocados, e já não mais se saber quais os dias chuvosos, ou quais os de seca, a sabedoria popular, orientada pelos saberes antigos, antevia, se o ano seria bom para plantação, ou se frustrado por algum revés, o homem do campo teria que investir redobrados esforços para vencer as dificuldades pela sobrevivência.

Inda ontem estes sábios, dados a vaticínios de seca e inverno, consultavam os céus, os astros, os animais e os cantos dos passarinhos para predizerem o futuro meteorológico da sua comunidade. Os sinais estavam por toda parte.

Câmara Cascudo, que foi quem melhor observou os costumes do povo, sobre as predicas meteorológicas, escreveu: "Existem no Brasil, e universalmente, fórmulas da previsão tradicional para o conhecimento do futuro inverno. Deduz o povo o prognóstico de vegetais, animais, aspectos atmosféricos, nuvens, estrelas, constelações, incidência pluvial em determinados dias...”.

A lua apareceu embarcada num halo avermelhado e grande por trás da silhueta de um carnaubal? isso indicia uma boa quadra invernosa. Se a aura que envolve a lua for pequena as chuvas serão poucas. Sobre a cumeeira da casa pousou uma borboleta e por lá esqueceu-se por três dias? É bom preparar a terra, tudo indica que o céu apronta água pra derramar sobre os homens.

Além dos astros celestes e dos insetos, a percepção de outros seres pressagia ao homem do campo os rumos do tempo: “Sapo cantando ao anoitecer, bom tempo vai fazer”. Ditos e expressões populares exprimem um sem-número de alegorias meteorológicas que correm pela boca do povo exemplificando em analogias simples o comportamento do tempo. “Cabras tossindo e espirrando, o tempo está mudando.” Ou ainda "Formiga carregando ovos barranco acima, é chuva que se aproxima.”, “Céu pedrento muita chuva e muito vento”.

Verdadeiros prodígios, os homens do campo conhecem a linguagem, não apenas dos animais e dos astros, são versados ainda na linguagem dos ventos, que de acordo com sua direção podem lhes indicam os caminhos, a sorte ou os maus destinos.  “Vento norte, três dias forte”, ou então “Vento de Lomba, frio na tromba”. Se ele muda de direção repentina, talvez indique algum desgosto: “Vento de leste não traz nada que preste”. Os ventos ainda exemplificam, através de sua inconstância, alguma infidelidade: “Amigos de ocasião são como o bom tempo, mudam com o vento”. “O vento tanto junta a palha como a espalha”, “Vento de todo o lado é mandado p’lo diabo”.

Em Tradições, ciência do povo, Cascudo observa que esses ditos e expressões meteorológicas do povo são “sem idade”, eles, segundo o mestre potiguar, são: “resultados de longos e obscuros processos de raciocínio, critérios-soluções, herdadas, indeformáveis, e reproduzidas íntegras, ante o automóvel e o avião”.

Destacamos abaixo alguns ditos e seus países de origem, segundo Sartori em seu livro: Clima e percepção.

"Asas abertas no galinheiro, sinal de aguaceiro." (Índia);
"Andorinhas a mil braças, céu azul sem jaça; andorinha rente ao chão, muita chuva com trovão." (China; Japão; Coreia; Rússia; Turquia; França e Suíça);
"Mosquitos voando em bando é sinal de chuva." (China)
"Sapo cantando ao anoitecer, bom tempo vai fazer." (Espanha)
"Gato se lambendo é sinal de chuva." (Reino Unido, Holanda e Bélgica)
"Céu avermelhado de manhã, chuva de tarde; tarde avermelhada, tempo bom." (China)
"Quando o Sol está em casa, a chuva não tarda." (Índios Zuni, do Novo México, EUA)
"Um círculo grande em volta da Lua é sinal de chuva iminente; um círculo pequeno é sinal de que a chuva ainda demora." (Índia)


A sabedoria popular é infinita. Tudo isso, e mais alguma coisa, se pode aprender com o povo, que guarda em sua simplicidade, os códigos de acesso aos segredos da natureza e outras maravilhas.