Saiu de cena hoje um dos maiores nomes
do cinema mundial, o português Manoel de Oliveira (1908-2015). Filho de uma
tradicional família portuguesa Manoel de Oliveira nasceu no tempo da Monarquia.
Assistiu a mudança de rumos políticos de seu país para República, atravessou duas
guerras mundiais, sobreviveu a ditaduras sanguinolentas, saudou a redemocratização
de sua pátria e ainda testemunhou a queda do muro de Berlim. Depois de tudo
isso, quis o destino que ele ainda assistisse outros tantos dramáticos
conflitos que lhe afirmaram a permanência do mito bíblico da Torre Babel. Seu
nome está inscrito entre os grandes realizadores de nosso tempo. Ele não foi
apenas o mais importante cineasta de seu país, como afirmou a revista Cahiers du Cinéma, foi também, como
vimos, o mais longevo. A esse último adjetivo ele atribuiu parte de sua
admiração: "Penso que sou mais admirado pela minha idade do que pelos meus
filmes". Uma blague. Em seus mais de cem anos de vida ele fez da arte cinematográfica
a máquina relevadora de um mundo aquém daqueles que nossos sonhos projetam e
além daqueles que a realidade imprimem. Apenas esse registro desmente qualquer
insinuação de que sua longevidade tenha superado o seu talento atrás das
câmeras. Mas se ainda restar qualquer dúvida ao incauto veja-se a propósito Um
Filme Falado. Obra de 2003, nela está, em chave teatral, como era característica
de seu modo de realização, inscrito um filme que celebra os melhores feitos
humanos, sem esquecer as inconvenientes certezas de que há ainda, muito trabalho
para realização de uma sociedade minimamente civilizada. Vai o mestre fica a obra.
Herberto Helder (1930 - 2015)
A poesia é certamente daquelas raras
coisas humanas que nos conforta e nos protege das amostras de estupidez e
loucuras que os dias nos trazem. Por isso é sempre triste saber que um desses abnegados
desconstrutores de desenganos partiu. De regresso ao blog, depois de alguns
dias ausentes dou com a triste notícia do passamento do poeta português Herberto Helder, ocorrida na última segunda-feira, 23. Para grande maioria dos
brasileiros o nome de Herberto Helder, como de resto acontece com quase todos
os nomes de poetas por aqui, é uma novidade, que somente a morte é capaz de arrancar
do anonimato (ou talvez nem isso). O mesmo não acontece em seu país. Em Portugal
Herberto Helder foi cultuado e admirado como o "maior poeta português da
segunda metade do século XX". Isso tudo sem se deixar fotografar, sem dá
entrevistas, e publicar em intervalos de anos longuíssimo. Como se vê ele não
era dado a salamaleques. Sua entrega era à arte. Valendo-se apenas de sua
inventividade poética que tinha entre outras qualidades precipitar o leitor em
certas realidades suscitadoras de questionamentos das aparências, Helder
construiu uma carreira poética “pelo talento de algumas palavras para se
moverem no caos”. Abaixo um dos poemas que mais recito do poeta, que morreu
gregamente.
Li algures que os gregos antigos não
escreviam necrológios
li algures que os gregos antigos não
escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero
saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se
moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios
com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio
tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens
extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas
grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram
nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda
à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida
ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção
curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que
fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o
gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu
dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e
moderna,
os cegos, os temperados, que não, que ao
menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão gregaAnexins
Família, filhos, parentes
1 Quem é
caça, puxa a raça.
2 Filho de
peixe, peixinho é.
3 É de
pequenino que se torce o pepino.
4 Filho
enfeitado, xibungo criado.
5 Filho
paparicado, tarado formado.
6 A quem
filhos não têm, sobrinhos lhe vêm.
7 Quem dorme
com criança amanhece cagado.
8 Casamento e
mortalha no céu se talha.
9 Em briga de
marido e mulher não se bota a colher.
10 Com mulher de bigode, nem o diabo pode.
11 Se mulher canta de galo, o marido sai pelo ralo.
12 O marido é sempre o último a saber.
13 Há vícios que acontecem nas melhores famílias.
14 Marido não é parente.
15 Parentes são os dentes.
16 Com mulher de pelo na venta, o diabo não agüenta.
17 Nem os dedos são irmãos.
18 Casa onde não tem pão, todos brigam e ninguém tem
razão.
19 Mais vale um bom vizinho do que todos parentes,
sozinho.
Anexins colhidos por OSWALDO
ELIAS XIDIEH, publicados aqui
Imprecação
Rogar aos santos a intercessão divina
contra os males que afligem o povo, parece ser prática frequente nas
comunidades menos favorecidas de todo o Brasil. Sem auxilio terrestre o povo se
socorre no único recurso disponível ao seu alcance, Deus e os Santos. Roga-se a
tudo. Contra as pragas que assolam a lavoura. Contra os temores noturnos. Contra
as doenças. São infindáveis os males que afligem o povo. Um dos mais violentos
desses males é com certeza o flagelo da seca. Há uma infinidade de orações
pedindo a intercessão dos Santos junto a Deus para cessar a escassez e permitir
logo que chova. Encontrei aqui em Caetité uma senhora que me narrou uma reza
que era invocada sempre que o flagelo da falta d´água se tornava pesado demais
para suportar.
Oração a Santa Maria Madalena.
“Santa Maria Madalena tenha dó dos
inocentes, não deixa morrer de fome, não deixa morrer de sede. Chuva por
esmola, pão que nos consola, sol que alumeia.
Santa Maria rogai por nós.”
Não consegui entender por que a súplica
era a Santa Maria Madalena e não a São Pedro, reconhecido padroeiro das águas.
Li a Legenda Aurea de Jacopo de Varazze o verbete sobre a Santa M. Madalena.
Não encontrei nenhuma relação direta entre ela e o auxílio aos flagelados da
seca. Havia porém uma menção ao auxilio de Maria Madalena na gravidez de uma
rainha que não podia ter filho.
A propósito das críticas à Casa Anísio Teixeira que demitiu alguns funcionários na última semana
Desconheço as razões das demissões.
Imagino que seja um reflexo das crises, que atualmente assolam o país. Não
obstante esse turbilhão de coisas, a Casa ainda preserva uma grande importância
para Região mantendo viva iniciativas que dignificam a sua existência. As
críticas são salutares. Elas demonstram as sinceras preocupações com aqueles
que perderam os seus empregos e com o futuro da CAT. Porém, algumas, são
injustas. Por isso a administração da CAT deve absorvê-las e manter-se sóbria quanto
ao cumprimento de seu dever que, até aqui, tem sido incontornável. Falando como
frequentador da Biblioteca, é difícil imaginá-la sucateada. Os mais recentes e
importantes trabalhos literários estão quase todos lá, veja-se a propósito os
trabalhos do chileno Roberto Bolaño. Merece ainda destaque os livros sobre
fotografia, especialmente um sobre Pierre Verger, dificilmente encontrado em
outras bibliotecas em toda a região, inclusive em acervos particulares. Quem
frequentar a Casa habitualmente percebe que ela está investido vigorosos
esforços na manutenção de seu acervo bibliográfico. E faz isso da forma mais
democrática possível, consultando os seus frequentadores e pedido sugestões de
livros, para incremento de seu acervo. Uma lição de gestão participativa e
democrática, que faria muito bem alguns administradores em copiar. Os títulos
disponíveis atestam a qualidade e a variedade. Está lá toda a obra de Gabriel
Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa, Jorge Amado, Shakespeare, Cervantes, José
Saramago e outros nomes indispensáveis da literatura. Mas não são apenas aos
grandes clássicos que a Casa dispensa sua atenção. Ela também se abre às obras
de apelo popular e estende suas fronteiras por todos os gêneros literários. Sua
biblioteca ainda serve a comunidade docente de todo o município cedendo
fantoches, brinquedos, jogos, e outros materiais escolares que auxiliam os
professores na árdua tarefa de ensinar. Sei disso porque minha esposa faz uso
constante desse material. Esses recursos pedagógicos foram confeccionados em
oficinas de formação e qualificação de professores. A esses invulgares esforços
de formação cultural e auxilio ao ensino, a Casa presta também um relevante
serviço na formação de público para o cinema e o teatro, graças aos esforços de
Tide e Nando Dias. Iniciativa exitosa e invejada por outras cidades da região.
Esses e outros tantos trabalhos desenvolvido pela Casa faz dela um centro de
excelência na tarefa de divulgação da cultura, preservação do patrimônio,
incentivo à formação docente e principalmente manutenção da memória e do legado
de Anísio Teixeira. E por falar em memória me ocorre aqui a lembrança de outra
ação da Casa que qualifica ainda mais a sua administração e atesta a sua
reconhecida preocupação com a preservação de mais esse patrimônio cultural.
Desde 2010 a Casa através do projeto Memorial de Saberes e Fazeres populares
tem ido a campo colher informações sobre os modos de vida, as crenças, a
culinária, as formas de arte que ainda restam na tradição da popular de todo o
Sertão Produtivo. Documentando e recolhendo das fontes mais confiáveis - as
vozes da tradição - os costumes e modos de vida que a modernidade teima em
liquidar, a Casa tem preservado pra posteridade um rico acervo de documentos
escritos, filmados e fotografados de nossa identidade cultural. Esse acervo
conta hoje com mais de uma centena de depoimentos de reconhecidos mestres
populares. Dele já se organizou três livros, produzidos pela Casa e
distribuídos às bibliotecas escolares de todo o Sertão Produtivo. O material
está também disponível para acesso do público e para pesquisadores da cultura
interessados em um acervo etnográfico incomparável. Com todos esses serviços prestados
e mais outros em andamento, fica difícil imaginar que a Casa ter “servindo
apenas como mais um espaço físico para encontros”.
Encontro marcado
Sei ser possível tirar proveito das
frugalidades do cotidiano. Como o resto dos mortais eu também aprecio a boa
mesa com os amigos, os descontraídos passeios públicos, os encontros
familiares, as festas e as outras formas de divertimento coletivo. Mais entre
os encontros sociais e o sossego do lar estarei sempre mais disposto ao
encontro da quietude do lar. Os burburinhos públicos dão-me cada vez mais nos
nervos. Não se estar mais na rua sem parecer estar num palco encenando mil
gestos pra plateia. É tudo burla, falsidade. Deles não se tira nenhum proveito.
Já no lar são incontáveis as alegrias contidas nele. Isso é especialmente fácil
de constatar quando se tem uma estante pejada de livros e nenhum encontro
marcado.
Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud
Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud!
Os teus dezoito anos rebeldes à amizade,
à malevolência, à estupidez dos poetas
de Paris,
tal como ao zumbir de abelha estéril da
tua família meio louca das Ardenas; fizeste bem em lançá-los todos aos
quatro-ventos,
em submetê-los à lâmina da sua precoce
guilhotina.
Tiveste razão em trocar os bulevares dos
ociosos,
os bares dos mija-rimas pelo inferno das
bestas,
pelo comércio dos manhosos e os bons
dias dos simples.
Este impulso absurdo do corpo e da alma,
esta bala de canhão que atinge o alvo,
fazendo-o explodir, isso sim, é a vida
de um homem!
Não se pode, saído da infância,
estrangular indefinidamente o próximo.
Se os vulcões pouco mudam de lugar,
a lava percorre o grande vazio do mundo
e concede-lhe virtudes que cantam nas
suas chagas abertas.
Fizeste bem em partir, Arthur Rimbaud!
Alguns de nós acreditam sem provas na felicidade possível contigo.
René Char (1907-1988), França.
Oração por Marilyn Monroe
Senhor
recebe a esta moça conhecida em toda
parte pelo nome de Marilyn Monroe
mesmo que esse não fosse seu verdadeiro
nome
(mas Tu conheces seu verdadeiro nome, o
da pequena órfã violada aos 9 anos
e da empregadinha de loja que aos 16
anos já queria se matar)
e que agora se apresenta diante de Ti
sem maquiagem
sem um Agente de Imprensa
sem fotógrafos e sem dar autógrafos
solitária como um astronauta diante da
noite espacial.
Ela sonhou quando menina que estava nua
numa Igreja (pela versão do Time )
ante uma multidão prostrada, com as
cabeças no chão
e tinha de caminhar pé ante pé para não
pisar nas cabeças.
Tu conheces nossos sonhos melhor que os
psiquiatras –Igreja, casa, cova são a segurança do seio materno
mas também algo mais que isso...
As cabeças são os admiradores, é claro
(a massa de cabeças na escuridão debaixo
do facho de luz).
Mas o templo não são os estúdios da 20th
Century Fox.
O templo – de mármore e ouro – é o
templo de seu corpoem que está o Filho do Homem com látego na mão
expulsando os mercadores da 20th Century
Fox
que fizeram de Tua casa de oração um
covil de ladrões.
Senhor
neste mundo contaminado de pecados e
radioatividade
Tu não culparás tão-somente a
empregadinha da loja.
Que como toda empregada de loja sonhou
ser estrela de cinema.
E seu sonho tornou-se realidade (mas com
a realidade do technicolor).
Ela não fez senão atuar conforme o
script que lhe demos
- O de nossas próprias vidas – E era um
script absurdo.
Perdoa Senhor e perdoa-nos a todos pela
nossa 20th Century Fox
por esta Colossal Superprodução em que
todos nós trabalhamos.
Ela tinha fome de amor e lhe demos
tranqüilizantes,
para a tristeza de não ser santos,
recomendamos-lhe a Psicanálise.
Lembra-te Senhor de seu crescente pavor
à câmera
e o ódio à maquiagem – insistindo em
maquiar-se em cada cena –e como foi se tornando maior o horror
e maior a impontualidade nos estúdios.
Como toda empregada de loja
sonhou tornar-se estrela de cinema.
E sua vida foi irreal como um sonho que
um psiquiatra interpreta e arquiva.
Seus romances foram um beijo com os
olhos fechados
que quando se abrem
descobre-se que foi sob os refletores
e apagam os refletores!
e desmontam as paredes do aposento (era
um set cinematográfico)
enquanto o Diretor se afasta com sua
caderneta porque a cena já foi filmada.
Ou uma viagem de iate, um beijo em
Cingapura, um baile e no Rio
uma recepção na mansão do Duque e da
Duquesa de Windsor
vistos na TV de um apartamento
miserável.
O filme terminou sem o beijo final.
Foi achada morta em sua cama com a mão
no telefone.
E os detetives não souberam a quem ela
ia chamar.
Foi como alguém que discou o número da
única voz amiga
e ouviu apenas a voz de uma gravação que
diz: WRONG NUMBER.
Ou como alguém que ferido pelos
gangsters
estende a mão a um telefone desligado.
Senhor
quem quer que tenha sido quem ela queria
chamar
e não chamou (e talvez fosse ninguém
ou era Alguém cujo número não está na
Lista de Los Angeles)
atende Tu ao telefone!
________________________
Poema de Ernesto Cardenal. Trad. de Antonio Miranda
Validação
Vivemos numa sociedade em que a todo instante as pessoas
querem tranquilizar-se acerca de seu valor. Não lhes bastam a certeza
individual de que elas são especiais. É preciso o julgamento favorável dos
outros para serenar as dúvidas quanto as suas qualidades.
Já velho em nossa sociedade industrial, esse fenômeno de
estrelismo explícito, tornou-se ainda mais evidente depois do advento das redes
sociais. A exposição fácil potencializou o fetichismo dos narcisistas por
audiência às suas pretensas qualidades de sobredotados.
Vemos assim surgir a cada instante, nesses sítios de
adoração pessoal, tentativas forçadas de extrair dos amigos uma palavra de
conforto que pacifique as ilusões mais delirantes, daqueles que se imaginam
injustiçados pelo mundo, porque não são reverenciados com a devida atenção que
julgam merecer.
Vale de tudo para estar em evidência e tranquilizar assim a
consciência da certeza de que se tem algo a mais do que os outros. Os
desesperados recursos postos em marcha, para validar a satisfação pessoal por
reconhecimento, são infindáveis. Uns se cobrem de marcas caras e pousam ao lado
de carros na esperança de verem o desejo, que esses objetos provocam nos
incautos, migrar para si. Outros postam fotos de pernas pro ar, brindando
solitários com o vento à beira da piscina, à espera de mesuras às suas
invejáveis conquistas materiais. Há ainda aqueles que lhes enviam textos cujo o
único propósito é saber se você estar mesmo lendo e acompanhando tudo o que
eles escrevem. Os mais suspeitos, de que não passam mesmo de coadjuvante no
grande palco do mundo, entulham as suas timeline com autorretratos elogiando a si mesmo
e curtindo todas as suas fotos. Ao invés de se evidenciarem, todos esses atos
denunciam apenas a completa invisibilidade dessas pessoas.
Desconfortáveis consigo, elas, pagariam qualquer coisa para
serem iguaizinhas as mais bem sucedidas estrelas da música, do cinema, da tevê.
Mal sabem, porém, que as invejáveis divas estão tão insatisfeitas e
fragilizadas a respeito de seus valores quantos os invejosos do “sucesso”
alheio nas redes sociais. O problema não são as pessoas, mas o modo de vida que
exalta um ideário falacioso de felicidade que não se conforta consigo mesmo,
mas atribui a outro toda motivação para continuar seguindo a jornada da vida.
Num mundo onde impera a culpa pelo fracasso de não se ter
elevado a nenhum posto de destaque na sociedade, as pessoas dão-se em
espetáculos bisonhos na tentativa de se redimirem por não terem alcançado o
esperado sucesso determinado pela sociedade. O fracasso, em nosso mundo, é
inadmissível e ele está intimamente ligado ao não cumprimento de determinações
externas à nossa vontade. Escravizados por forças contrárias a vida
simples, entregamo-nos a toda sorte de alucinações, só para cumprir o
papel social que os outros nos impuseram.
O triunfo da maldade
Foto: Boris Ignatovich: Praça Vermelha, 1930
.
Leio muita gente pregando, pelas redes
sociais, contra o preconceito. Salto de alegria e exulto que assim seja. Um
mundo de preconceitos é intolerável. Mas basta seguir lendo os comentários, que
geralmente são longos, para se dar conta de que, as pessoas não estão realmente
rechaçando as atitudes de ódio, mas antes, alimentando o ódio. Custa-me
acreditar que se estar combatendo o preconceito, quando se defende nordestinos,
dizendo que sulistas são: “porcos”. Há nalgumas pessoas uma certa dificuldade
em entender que o objetivo da busca da igualdade não é o de poderem fazer o mal
que os outros fazem. Quando ninguém é mais capaz de enxergar em si mesmo o
mostro que combate é porque a estupidez triunfou de vez.
Da dessemelhança
.
As poucas décadas de nossa débil
democracia evidenciam-nos um fato. Os nossos homens públicos se apequenam com o
trato da coisa pública. Muitos começam grandes e vão se rebaixando a tal ponto
deles não se ter mais notícia. Entre nós, hoje em dia, é incomum encontrar um
político que se obstine de uma ideia louvável no princípio de sua carreira e dê
cabo dela sem tropeçar nas mesmas vilanias que seus pares viciados. Nada nos
nossos políticos parece estável. Não se pode confiar em suas crenças e nenhuma
de suas convicções, estão tão bem assentadas num rumo que não possam alterar
bruscamente o seu destino de acordo com novas conveniências que, vão interpondo-se
pelo caminho. Raros são os que preservam o mesmo vigor reformista e transformador
que, segundo muitos, os trouxeram aos palanques. Dir-se-á quem os
observa que, não há um único sentimento de virtude neles que não seja
prontamente seguido por um dilúvio de males. Na trajetória de suas vidas muitos
faroleiros da moralidade deixaram à deriva ou levaram à pique embarcações que
contavam com esse guia para atingir porto seguro. Uma vez enfeitados com os
favores do mundo, julgamos que nossos administradores não são mais os mesmos
homens. Já não conservam mais inteiros e vivos os entusiasmos de antes. Embaraços,
infâmias, crimes e delinquências de toda ordem, contradizem as suas origens. Suas
ações parecem não mais provir daquele mesmo indivíduo que se negava em conduzir
a sua política percorrendo o caminho geral. Uma vez eleitos eles assumem os
postos como feras, os conduzem como raposas, e por fim os entregam, ou lhes são
tomadas as ocupações, como cães vadios. Há tantos exemplos semelhantes a estes
e tão facilmente encontramos esses casos que, estranho mesmo seria imaginar os
nossos políticos de outro modo. É um
vício que há muito censuramos nos nossos mandatários, este de serem após a investidura
dos cargos públicos tão dessemelhantes daqueles indivíduos de antes. A
experiência nos mostra todos os dias que existe grande diferença entre as
súbitas determinações da alma e a sua conduta habitual.
O que esconde o cinema de entretenimento?
Cena do filme: A lenda do tesouro perdido.
Vi ontem, um daqueles blackbuster
americano feito na medida para atrair o público às salas de cinema. Como todos
sabem esses filmes seguem um receituário estrito de ingredientes. Os elementos desse
angu se restringem basicamente a: astros consagrados como protagonistas;
mocinhas com potencial para capas de revista teen; ajudantes bobalhões em meio a uma enrascada que envolva o
maior número possível de encrenca cujo final é tão previsível quanto saber de que
lado está o PMDB na política nacional.
De tão ingênuos muitos dirão que eles
são inofensivos e incapazes de causar danos. Uma diversão despretensiosa jamais
será capaz de provocar qualquer lesão contra à inteligência daqueles que vão assistir
a estes filmes. É o que ouvimos. Afinal quem assiste a estes filmes sabem - ou
imaginamos que eles saibam - de véspera, o que os aguardam. São como as novelas
da Globo que há quarenta anos contam a mesma história. O que muda são apenas os
ambientes, as épocas e, eventualmente, os efeitos. O que pode a repetição de
padrões tão insistentes?
Porém, de bobinhos estes filmes não têm
nada. Não são apenas máquinas de fazer dinheiro que alimentam uma indústria
bilionária. São porta-vozes de um modo de vida e de uma cultura que, desde o
último século, vêm moldando as outras culturas, com a força de narrativas que,
tentam legitimar as suas ações perante o mundo através de um discurso obstinado,
pela crença de que estão fadados a um certo destino. Feitos com o argumento de
que estarão entretendo estes filmes transmitem muito mais do que diversão.
O Lenda do Tesouro Perdido, filme que vi
nesse feriado de carnaval, tem Nicolas Cage vivendo um caçador de tesouros.
Cage pertence a 3ª geração de uma família que busca desvendar os mistérios
envolvendo um obscuro tesouro, que poucos acreditam existir. Acumulado durante vários
séculos e transportado por muitos continentes para evitar que fosse roubado, ou
que caísse em mãos espúrias, esse tesouro está provavelmente agora guardado em
solo Americano. A trama é tecida
sugerindo a ideia de que esse tesouro que ajudou antigas civilizações no
processo de consolidação de suas nações e expansão de seus domínios caiu como
um fadário ao povo americano.
Disfarçados sob o manto do
entretenimento esse e outros tantos filmes de aventura incutem a velha
ideologia americana do “Destino Manifesto”. Esse pensamento que surgiu nos
primeiros anos após a independência propugna a crença de que o povo dos Estados
Unidos são o mais novo povo eleito por Deus para civilizar o mundo. O tesouro
buscado por Gates no filme que pertenceu a antigas civilizações, hoje está em
posse dos Americanos. Os saberes do mundo, as riquezas das nações, os antigos
caminhos, tudo pertence agora aos americanos.
Pintura de John
Gast. Representação pictórica do Destino Manifesto. Na cena, uma mulher angelical, algumas vezes identificada como
Colúmbia, (uma personificação dos Estados Unidos do século XIX), segurando um
livro escolar, leva a civilização para o oeste, com colonos americanos,
prendendo cabos telegráficos, por outro lado, povos nativos e animais selvagens
são afugentados.(fonte Wikipedia)
Algumas cenas do filme reforçam de forma
implícita o destino manifesto do povo americano. Quando Gates tem que roubar a
declaração de independência do arquivo nacional para evitar que bandidos o
façam ele evoca o discurso dos patriarcas que diziam:
...sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.
Através desse discurso os americanos
evocam para si a responsabilidade de supostamente defender os povos do mundo
contra os governos “destrutivos”. Agindo assim eles se sentem justificados para
atacarem todos os que se voltem contra os princípios da liberdade. Mas fazem
isso na verdade para manutenção de sua influência.
Os filmes americanos induzem a crença
nos milhares de espectadores que os prestigiam pelo mundo, de que suas ações no
mundo são movidas - assim como Gates que tem de infringir a ordem das coisas
para restaurar um bem maior - pelas mais
genuínas e nobres intenções. Por essa crença eles legitimam as invasões de
países. Atentam contra a soberania dos povos. Desrespeitam culturas e mesmo
assim acreditam na sua pureza pois se veem movidos pela vontade não dos homens,
mas de Deus. Esse nada inofensivo discurso inocula nas mentalidades neófitas dos
milhões de entusiastas desse gênero de cinema a crença de estarem apenas se
divertindo quando estão na verdade sendo doutrinados para reações mais acomodatícias.
Carnaval o sonho de um mundo porvir
.
Todos os anos é a mesma coisa. As ruas
se enchem de alegria. O silêncio é quebrado por inumeráveis gritos de festas
que se espalham por todos os cantos. As cores vibram no ar, na terra, no mar e
misturam-se aos corpos que se contorcem, questionando a lógico do que pode um
corpo. Multidões invadem todos os sítios. Velhos reumáticos, apoiados em seus
mais novos membros, derivam às ruas, acompanhando a corrente que se infiltra como
sangue renovado nas artérias das cidades, imprimindo-lhes novos ânimos por
todos os cantos. Homens e mulheres andam por todas as partes desejando praticar
livremente todos os prazeres. Estão todos mascarados, desmazeladas ou cheios de
opulência e anunciam aos berros que é Carnaval, aqui e alhures.
As festas do Carnaval fazem parte de um
tempo extraordinário. Muitos povos tiveram o hábito de observar um período do
ano em que as normas sociais eram temporariamente suspensas para o gozo das
liberdades de costumes, onde as paixões mais inflamadas não encontravam nenhuma
oposição ou constrangimento. Durante esse período, os homens punham as leis e a
moral, habitualmente rígidas e intransponíveis, sob suspensão. A palavra de
ordem era: transgressão.
De todos esses períodos de ruptura das
proibições o mais conhecido e que deu origem – provavelmente - ao nosso
Carnaval, foi aquele que se relacionava com os festejos romanos das Saturnais,
ou Saturnálias, que comemoravam o reinado do antigo deus romano da agricultura,
Saturno. Um dos aspectos mais interessante dessa festa, que reconstituía o
governo de Saturno, estava na concessão aos escravos, de liberdades para agirem
com vitupérios e escarnio contra os seus próprios patrões durante um curto
período do mês de dezembro, época dos festejos da colheita e da celebração da
divindade.
Segundo a mitologia grega, Saturno era
uma divindade romana identificada com o deus grego Cronos. No tempo em que esse
deus reinava sobre a Itália os homens, nos fala o mito, viviam libertos dos
enfados. Ninguém conhecia a injustiça porque não havia necessidade de bens. A distinção
de classes não era conhecida. Todos gozavam de igual liberdade e não tinham
sido inventadas ainda as portas, porque o roubo não existia e os homens nada
tinham a esconder. O reino de Saturno foi um reino extraordinariamente próspero,
por isso essa época ficou conhecida como a Idade de Ouro.
Inspirados nesse mito os romanos
realizavam todos os anos uma celebração à memória do deus e reviviam provisoriamente
a época do reino de Saturno. Comer e beber lautamente, participar de alegres
celebrações e buscar imoderadamente os prazeres eram, segundo James Frazer, as características
que parecem ter marcado particularmente aqueles carnavais da antiguidade, que
se prolongaram ao nosso tempo através da diluição dos velhos ritos romanos nos
festejos do calendário Cristão, associados a entrada da Quaresma, quando nos
despedimos dos excessos da carne (de onde veio a moderna designação de
“Carnaval”), para ingressar no período de privações. Ainda que sejam associadas
inteiramente aos ritos pagãos o mito não deixa de possuir um sentido cristão
que está diretamente ligado à sua gênese, como pode ser apurado por sua relação
como o período do ano litúrgico que antecede a Páscoa.
As semelhanças entre as Saturnais
romanas e o Carnaval já foram observadas várias vezes. Herdeiros que somos de
muitas das tradições latinas, esses festejos antigos encontraram morada segura
entre a nossa gente, que alegremente celebram o rito que permite uma
restauração do reinado daquele alegre monarca que presidia às orgias numa terra
de abundância, que não conhecia nenhum rumor de guerra ou de discórdia entre os
homens.
Para alguns esta é a data do ano mais
esperada. As pessoas planejam com muita antecedência esse momento. Os pobres gastam
o que não têm em luxuriantes adornos, cheios de brilho e plumas só para
satisfazerem, por um breve instante de suas vidas, o desejo de serem o que a
realidade e outras farsas, interditaram. Nesses dias os sonhos ganham todas as
formas e o ordinário da vida passa a ser a exceção.
O povo não apenas se permite sonhar com
um tempo de fartura, mas ousa concretizar esse sonho imprimindo tudo de si. Alguns
veem nessa ação uma irresponsabilidade dos que já têm tão pouco. Gastar os
últimos recursos, numa fantasia, enquanto o barraco ameaça mais uma vez
despencar morro a baixo? Inquietam-se os conservadores. Mas por trás dessa
sublevação existe uma reivindicação inconsciente das camadas populares, que
ousam afrontar os estratos sociais e bradam contra as imposturas dos mandatário,
que impõe ao povo, inacreditáveis limitações. “Isso é um protesto do sonho
contra a injustiça” disse Ariano Suassuna em uma de suas aulas
espetáculo, falando a propósito das espetaculares fantasias criadas pelo povo
durante o Carnaval.
Nesses dias licenciosos o povo tem a
chance de sonhar com uma realidade menos dura. Mas até mesmo esse dia, de libertação das
privações, encontra-se hoje inteiramente ameaçado pela intromissão dos
aparelhos da Indústria Cultural nas manifestações genuínas do povo. Este aparelhamento
retira o protagonismo das gentes simples das festas e tenta substituí-lo por
organizações mafiosas que represam com cinismo as espontâneas manifestações de
rebeldia popular com potencial poder de amotinação.
O Carnaval guarda em germe a esperança
humana de um mundo porvir onde a vida será uma festa.
Os rapazes e as maçãs
Os rapazes e as maçãs
Um dia, um lavrador ia montado no seu
burro, com uma cesta de maçãs à sua frente, e ao ver um grupo de rapazes de
várias idades a brincar num terreiro, resolveu meter-se com eles e lançar-lhes
um desafio:
– Ó rapazes, vou pôr esta cesta de
maçãs lá mais para diante. Por isso depois, toca a correr! O primeiro que lá
chegar fica com elas.
Eles então deram as mãos uns aos
outros, de maneira que os mais fortes ajudaram os mais fracos a correr também,
chegando todos ao mesmo tempo até à cesta das maçãs. E no final, sentaram-se
todos a comê-las. O lavrador, muito admirado com a atitude dos rapazes,
perguntou-lhes:
– Por que razão fizestes isso,
quando um de vós podia ter ganho as maçãs todas?
E eles responderam:
– Se o não fizéssemos, um de nós
ficava contente e os outros tristes. Assim, ficámos todos bem. Nenhum ficou
triste.
__________
Conto popular
Duplipensar
Duplipensar é um conceito formulado por
George Orwell no livro “1984” que expressa a estratégia mental usada pelo
partido no poder para aniquilar a lógica e a racionalidade enquanto
instrumentos de análise da realidade e assim consentir pela manipulação das
opiniões públicas a manutenção do seu poder.
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