Há aqui qualquer coisa que pensar.
Aurel Bauh. As três Graças, 1937.
Leonard Nimoy. The Full Body Project.
.
Quando olho essas fotografias, não estou
apenas pensando no contraste, nos volumes, nas mamas apontando para direções
contrarias, nas discrepantes proporções dos corpos, na pele de umas e outras, enfim,
nas formas densas e lineares que distinguem os corpos. Quanto olho essas
fotografias, penso num certo ideário de beleza estampado na primeira que,
estando ultrapassado, não deixa de me causar espanto e admiração.
Falo ultrapassado porque assistimos a um
tempo do enobrecimento de tudo. Um tempo em que alguns, ungido de modéstia, relativizam
as coisas, pensando com isso estar corrigindo as más consciências do mundo, que
tendem a polariza as singularidades. Não deixa de ser estranho que tudo
tenhamos que subordinar às causas. Requer nossa época um certo decoro ao expressar
nossos gostos. Corre-se, sem querer, o risco de ofender quem temos em conta de
simpático, pelo simples fato de crer no ideário grego das Graças.
Razões para se pensar a sério sobre a televisão
Foto: Arthur Steel
«A televisão provou que as pessoas
preferem olhar para qualquer outra coisa, a olharem-se entre si.»
— Ann
Landers(Esther Pauline "Eppie" Lederer), 1979
«A televisão fez a ditadura impossível,
mas a democracia insuportável.»
— Shimon
Peres, In Financial Times, 1995
«A televisão trouxe de volta o homicídio
ao lar, onde pertence.»
— Alfred Hitchcock, In Observer, 1965
«O povo americano não acredita em nada
até ao momento em que aparece na televisão.»
— Richard Nixon, Newsweek, 1994 (Nixon,
estimava que 80% dos americanos obtinham toda a sua informação através da
televisão)
«O primitivismo da televisão cansa.»
— Claude Lévi-Strauss
«É quase impossível dizer a verdade na
televisão.»
— Malcolm Muggeridge, Christ and the
Media,1976
«A masturbação é a televisão do homem
que pensa.»
— Christopher Hampton, The
Philanthropist, 1970
«Alguns programas televisivos são gomas
de mascar para os olhos.»
― John Mason Brown, in Interview, 1955
«Encaremos os fatos, em televisão não
existem mulheres simplórias — destituídas de relevo.»
— Anna Ford, In Observer, 1979
«A televisão disseminou o hábito da
reação instantânea e estimulou a esperança de resultados imediatos.»
— Arthur M Schlesinger, Jr. In Newsweek,
1970
Escusa
Estou certo de que uma vida não chega,
para realizarmos todos os nossos sonhos. Digo isso, é claro, para negar em mim
a fraqueza de não ter chegado às portas das grandes realizações. É simples culpar
a vida pelos tropeços. Eximimo-nos assim da culpa pelas derrotas, e seguimos
fingindo autocomiseração. Quando não temos feito o que deveria ter sido feito,
entregamo-nos à culpa ou às piores imposturas.
Na esperança de resgatarmos alguma
dignidade da lama, fingimos que ela também pode ser purificadora, só para não
ter que dormir com a realidade. Não restando nada mais, nem nenhuma outra
desculpa que nos dispense da franqueza de se saber menos, nos apegamos a última
das convicções: a de que a vida não é nunca perdida, enquanto não é terminada.
A liberdade ou do delírio literário de ontem e de hoje
.
Stalin corrigia páginas e páginas de
Gorki, metendo nas histórias o que o escritor não era “capaz” de meter. Quando
não havia submissão às críticas do generalíssimo, os escritores soviéticos
deixavam o mundo da literatura, para habitar o esquecimento siberiano. Alguns
de lá trouxeram mensagens sobre os serviços de “reaprendizagem literária”.
Outros com menor sorte de reaver-se com
a nova crítica, não chegaram tão longe, e antes mesmo de sentirem as lições
transformadoras da estética stalinista, encontraram com o barqueiro Caronte,
que na época, trabalhou em regime de serviço extra, para dar conta dos enviados
pelo governo do povo, à mais nova morada dos escritores.
Na China o camarada Mao não fez por
menos que seu colega. Querendo emendar o que chamava de “desvio burguês” que
empestava a literatura chinesa de então, o grande líder, que também sabia tudo
de literatura, correu com os escritores para os rincões chineses, onde eles
puderam depurar a criatividade, enquanto atolavam as mãos nos arrozais e
fertilizam as suas novas consciências com esterco, ao lado dos verdadeiros artistas
da pátria, o povo.
O barbudo cubano aprendeu as lições de
seus antecessores político-literários. Depois de derrubar o ditador Fulgêncio
Batista e instalar um regime de igualdade social, ele se apercebeu que, o seu
regime seria, tanto mais vigoroso e duradouro, quanto menos escritores
canhestros estivessem a entulhar a literatura de dizeres e fazeres que nada
serviam a emancipação do povo. Com ares senhoriais ele construiu as casas de
correção, em regime interno, onde os escritores aprendiam que não se podia
querer tudo e mesmo assim estar de acordo com o novo pensamento.
De tempos em tempos uma nova onda
reconduz os literários ao bom caminho. Não temos mais os líderes da envergadura
dos grandes comunistas no leme de nossa precária embarcação. Mas quis a sorte,
que em meio a escassez de timoneiros tarimbados, uma outra força viesse ao
nosso encontro, e nos reconduzisse às históricas políticas educativas de
instrução literária. Essas novas forças atendem por variados nomes. Em comum,
elas possuem o ímpeto dos timoneiros do passado de devolverem ao curso certo,
as histórias que os literários vão delirando.
Valhacouto de canalhas
"O patriotismo" escreveu
Samuel Johnson "é o último refúgio dos canalhas". A esse valhacouto junta-se
os bairristas, que são aqueles que pregam as supostas virtudes de sua terra,
esquecendo-se, por decoro ou mau-caratismo, as inconvenientes verdades, que por
ventura desminta as melhores qualidades dos sítios que se imaginava imaculados.
O menoscabo de si próprio é uma forma de
grandeza que os patriotas vez por outra deveriam experimentar. É um lembrete
que nos traz à terra e a todos nivela por igual. Todavia muitos ainda pensam
estar no melhor dos mundos possíveis, e não se permite a crítica de sua pátria
ou de sua cidade. Satisfaz-se assim com as ilusões que, convenientemente lhes
preenchem a algibeira, negando todas as evidências de vícios e malfeitos de
sua “terra amada”.
Mas a verdade das verdades é que: em
essência não há lugar no mundo, por mais belo e próspero que pareça, que não
pese vulgaridade, orgulho, falsidade e vergonha. Dotou-nos a todos o destino
dessa má sorte. Nisso estamos rendidos. Mesmo que os patriotas neguem cegamente
as evidências, e os bairristas finjam não ver as verdades, elas continuarão lá.
Vida-circo
Foto: Justin Bartels
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Deve ser bom poder ir à vontade para qualquer
lado. Estar sempre a guiar-se pela ponta do nariz e deixar-se ir, sem saber existir
alguém ou alguma coisa, que possa interferir em nosso caminho. Querer ir a
norte e ir a norte. Querer ir a sul e ir a sul. Percorrer assim caminhos, sem
dar noutro lugar a não ser aquele traçado de véspera. Deve ser bom poder ir estrada
afora, ter o pó, o sol, a chuva, o vento e um horizonte sem fim a acarinhar
nossa autodeterminação. Estar ali entre essas coisas miúdas deve nos dar a
certeza do nosso tamanho. Há de ser bom estar por lá onde temos a medida certa.
Melhor do que estar a escrevinhar ofícios à junta ou a apanhar migalha ao chão,
fingindo que os salamaleques são devidos a quem lhe paga o repasto.
Prestar ouvidos
Andasse a tomar notas das falas de minha vó e por
essas horas já teria um livro de poesia.
Mais-valia
Foto: Dani Shitagi
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Uma lógica perversa vem
reduzindo todas as coisas ao sagrado critério da funcionalidade. Da arquitetura
moderna e seus discursos sobre a praticidade do meio, às escolhas paternas de
escolas de músicas para os filhos, porque estas desenvolvem o raciocínio lógico;
a arte de nosso tempo sucumbiu ao discurso do utilitarismo e só é consumida se
"servir para alguma coisa”. O que conta mesmo nas artes de hoje são apenas
os seus aspectos práticos, funcionais e utilitários.
E quem diz funcionalidade
na arquitetura e na música diz literatura, cinema. Basta ver nas escolas como o
cinema foi apequenado. Hoje assiste-se um filme apenas para que este aluda a um
assunto que se quer discutir. Nas universidades, a literatura deixou de ser o elã
despretensioso, para rebaixar-se aos discursos panfletários de moralistas.
A ninguém é suposto a
ideia de que a escolha de uma leitura ou de um filme se dê pelo mero prazer
subjetivo que este provoca. Aos discursos utilitaristas é preciso algum valor
aderente ao objeto artístico para que esse adquira legitimidade. Mais não é
isso que realmente torna a arte valioso. Todas as vezes que predominar o fim na
arte, escreveu Kant, teremos “beleza aderente” a obra. Entenda-se fim aqui como
aquilo que têm utilidade prática na vida. Quando não há predominância do fim,
temos “beleza livre”, desinteressada.
E é a esse último modo
de ver a arte, privada de interesse, que a torna indispensável. Sem estar sujeita
a priori a imposições de conteúdo,
forma e outros condicionantes, a arte se basta. Nessa concepção ela não serve para
nada, e quanto menos servir para alguma coisa mais valiosa será. Não se
reduzindo a uma realidade circunstancial a arte livre dos conceitos utilitaristas,
contribui para formar uma imagem do mundo, das pessoas e das relações, tão
complexas, em sentido universal.
Muhammad Ali
Analisando sob o ângulo de um simulacro cênico, o pugilismo de Muhammad Ali, assumirá um daqueles aspectos de fatos reveladores que, nos esclarece imensas questões sobre a vida e a luta que devemos travar contra os maiores obstáculos, para permanecermos simplesmente em pé.
A vida é caos
Nunca imaginei fazer um curso de
datilografia - os mais jovens não sabem o que é isso - até fazer um. Nunca
ocorreu-me, mesmo naqueles momentos de divagações a que todos nós estamos
sujeitos, a possibilidade de ir à Itália, até que esse dia improvável chegou.
Em tempo algum pensei em fazer um curso universitário, antes de fazer um curso
universitário. Jamais ocorreu-me ser professor universitário; abrir uma empresa
e acabar (ao menos momentaneamente, ou não) coordenador pedagógico de uma
escola rural de um distrito de minha cidade, que antes do trabalho, jamais havia
posto os pés, mesmo vivendo na mesma terra a mais de 12 anos.
Como as vidas são íntimas e nenhuma é
igual a outra, deduzo que a alguém sucede os caminhos não serem tão tortuosos,
nem assimétricos ou irregulares como os meus. Muitos já nascem fadados a uma
vida sem muitas surpresas. Do berço ao túmulo poucos percalços acidentam sua
rota. É o caso dos monarcas, cujas vidas já se sabe de véspera, mais ou menos,
o seu fim. Veja-se a propósito o burburinho real com o nascimento do príncipe
George, terceiro na linha de sucessão do trono Inglês. Ninguém ousa dizer que
sua vida é imprevisível. Mesmo que não venha a se tornar rei, como se supõe,
será improvável uma rota irregular em sua existência, que o desvie do fadário
real e de todas as suas obrigações encarrilhadas.
Já a nós, pobres mortais, a vida não é
regida por uma ordem prévia, mas se faz sentir pelas circunstâncias que vão ora
aqui, ora ali, descrevendo ao acaso, uma órbita improvável. Censuramos a vida
por essa volubilidade. Frequentemente nos queixamos por não a vê-la como
queríamos. Esbravejamos, berramos e maldizemos a sorte, por nos impor fardos
que sentimos, demasiadamente, injustos. Tudo isso, para descobrirmos depois de
muito tempo, que não adianta queixumes. Os lamentos não nos traz de volta a
fortuna, que imaginávamos estar destinados. Antes, revela-nos, que jamais
chegamos a possuir sorte maior do que a de estarmos vivos e que esta dádiva tem
um preço. Nec semper lilia florente é
a expressão cunhada por Ovídio na Arte de Amar para dizer que nem sempre as
coisas nos são favoráveis. Contentemo-nos com isso. Nem todos escapam a fortuna. Muitos estão ao sabor do acaso.
E agora o que a vida me reserva?
Vincar a memória
Foto: Sally Mann, Deep South
Há mais de 20 anos deixei a Paraíba.
Nunca mais retornei às cidades que me viram miúdo aprendendo a falar e a andar.
Não foi por não querer, ou por falta de oportunidade, que não retornei à minha
terra natal. Foi por medo.
Há muito botei na cabeça que se um dia
eu retornar às cidades que foram a levedura de minha infância, estarei
ameaçando com isso a imagem afetiva que, desde o meu último dia naquelas terras,
eu trago na memória. E são ternas. Lindas e amáveis essas imagens.
Um sentimento estranho me faz crer que
posso ser traído por uma verdade incomoda e descobrir que as belezas que um dia
eu julguei ter vivido não passavam de alucinações de uma mente sequiosa de
ilusões capazes de tornar o presente suportável, por já ter vivido um passado
satisfatório. Seria duro demais perder a ilusão.
As emoções que produziram aqueles
momentos são irrepetíveis. Só por isso é sempre grande o impulso que nos surge
para cristalizá-los tornando perenes as emoções que produziram instantes
líricos. Voltar lá seria o mesmo que viver de outra maneira aquele ambiente
comprometendo assim a minha lembrança de momentos inesquecíveis.
Não sinto o mesmo temor a outros
lugares. Ao contrário sinto até vontade de rever lugares que há muito tempo
visitei. Goiás Velho, Veneza, Caldas Novas, Jundiaí... Meu medo é o de retornar
às paisagens da infância. Temo que elas se desmoronem sobre a novidade que se
me apresentará.
Arte religiosa
Pintura: São Francisco em meditação. Francisco de Zurbáran
.
Perdi a fé nas religiões em algum lugar
que hoje já não me ocorre retornar para recuperar. Porém, essa perda não me fez
menos admirador da arte religiosa ou da cultura artística nascida das
religiões. As expressivas e extasiantes representações das cenas bíblicas
feitas por Caravaggio, como a crucificação de São Pedro, os tormentos de Santo
Antão de Michelangelo, o simbolismo mágico das imagens intensas de Francisco de
Zurbarán, jamais me foram indiferentes. Estou de acordo com José Ricardo, que acredita que: "A
arte religiosa não é patrimônio de qualquer religião ou igreja mas patrimônio
da humanidade".
O longo baile dos amantes.
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A longa tradição das histórias de amor
que a literatura nos legou sempre envolveram amores impossíveis. Romeu e
Julieta, Tristão e Isolda, Cyrano e Roxane, Ana e Vronsky são apenas alguns
exemplos de uma interminável lista de desencontros. Raramente o amor conjugal
motivou os escritores histórias com algum encantamento lírico. Os dramas
adúlteros ocupam com mais força a cena romanesca. Uma exceção à essa larga
tradição parece ser Cartas a D. do escritor e filósofo André Gorz. O livro
reconta o encontro e os momentos que o escritor partilhou com sua mulher Dorine
em quase sessenta anos de matrimônio. O drama da história fica por conta da
parceria dele ao lado dela durante os piores momentos do estágio de uma doença
degenerativa que prenunciava o fim dos laços que os uniram durante toda a vida.
Num tempo em que relações se liquefazem, onde até o amor é líquido, histórias
como essa rareiam e provam que boa literatura não se faz apenas com intenções
amorosas ardentes, mas com entrega e devoção a coisa amada.
"Nossa história começou
maravilhosamente, quase um amor à primeira vista. No dia em que nos
encontramos, você estava acompanhada de três homens que pretendiam jogar pôquer
com você. Você tinha cabelos auburn abundantes, a pele nacarada e a voz aguda
das inglesas.
Tinha acabado de chegar da Inglaterra, e
cada um dos três homens tentava, num inglês sofrível, captar a sua atenção.
Você se mantinha soberana, intraduzivelmente witty, bela feito um sonho. Quando
nossos olhares se cruzaram, eu pensei: "Não tenho chance nenhuma com
ela". E logo soube que o nosso anfitrião já a havia prevenido: "He is
an Austrian Jew. Totally devoid of interest".
Um mês depois cruzei com você na rua,
fascinado por seus passos de dançarina. Depois, numa noite, por acaso, eu a vi
de longe, saindo do trabalho e descendo a rua. Corri para alcançá-la. Você
andava rápido. Tinha nevado. O chuvisco fazia cachos nos seus cabelos. Sem pôr
muita fé, eu a convidei para dançar. Você simplesmente disse sim, why not. Era
23 de outubro de 1947.
Meu inglês era desajeitado, mas
passável. Tinha se enriquecido graças a dois romances americanos que eu acabara
de traduzir para a editora Marguerat. Durante essa nossa primeira saída,
percebi que você havia lido um ito, antes e depois da guerra: Virginia Woolf,
George Eliot, Tolstói, Platão...
Falamos de política britânica, das
diferentes correntes dentro do Partido Trabalhista. De imediato, você já sabia
distinguir entre o que é acessório e o que é essencial. Diante de um problema
complexo, a decisão a tomar sempre lhe parecia óbvia. Você tinha uma confiança
inabalável na justeza dos seus julgamentos."
(...)
O belo consolo
O poeta e romancista alemão Hölderlin escreveu: “O
belo consolo de encontrar em uma alma o meu mundo, de abraçar em uma imagem
amiga toda a minha espécie.”. O que pode querer dizer essa frase soube há dias atrás quando vi uma menina de 14 anos lendo Fahrenheit 451. Não posso descrever o meu
contentamento. De repente me peguei pensando irmanado em espírito literário com
aquela jovem. Quase não contive o impulso de lhe saudar dizendo: minha irmã,
minha igual.
Se
Foto: Sebastião Salgado: O
Berço da Desigualdade.
Se entendêssemos o mundo como um
processo e não como um resultado dado evitaríamos frases como: “Isso é
cultural, desde que eu era pequeno esse lugar já era violento e as pessoas
brutas. Ninguém é capaz de mudar essa gente. Eles não valorizam a educação”.
Se por um minuto nos déssemos a chance
de subverter a lógica e imaginássemos, que a tarefa do professor não é a de
ensinar, mas antes, a de despertar a criança para a consciência de sentido de
existência no mundo, talvez a educação tivesse melhor resultado do que péssimo.
Se nós questionássemos mais, veríamos
que a realidade dada tem verdades, que vão além das aparências, e é lá que talvez
resida as respostas a muitas das nossas inquietações.
Se frequentássemos a escola da leitura ao invés da escola da tevê, talvez tirássemos melhor proveito das histórias que elas lá nos contam para mediar os nossos conflitos de forma mais inteligente, evitando assim a estupidez das brigas, xingamentos e outros vexames tão comuns a nosso tempo.
Se experimentássemos por algum tempo a
mudança de canal e explorássemos as possibilidades além daquelas habituais,
talvez descobríssemos que há vida, além da mesmice.
Se não nos desmemoriássemos com tanta
facilidade, talvez fosse mais fácil perceber como evitar os erros.
Se, se, se, se.....
Recear as leituras clássicas, estratégia moderna para formar leitores.
Foto: André Kertész | Série On Reading
.
Tenho observado alguns especialistas
preocupados com o desinteresse dos alunos nas leituras escolares. Aqui está
uma. Por ora nenhum dos seus argumentos me convencem. Apenas reforçam as
opiniões que tenho sobre os clássicos. Eles são insubstituíveis. Inquieta-me
sempre uma coisa nessas pesquisas. Observo que em quase todos os especialistas
do assunto, a solução sugerida, é a mesma. Renunciar a tarefa de ensinar uma
literatura reconhecidamente instigante e audaz, em favor de uma solução fácil:
curvar-se aos interesses do mercado da indústria cultural que pautam os gostos
e as leituras.
Essa lição tem como efeito apenas tornar os professores sujeitos
ao gosto médio. “Não existe nada pior do que o gosto médio” dizia Ariano
Suassuna. Rebaixar a literatura com a intenção de a torna mais acessível ao público; essa
ação não tem nada de educativa. Mas diz muito de nosso comportamento diante
dos desafios. Além disso, ela subestima a capacidade do aluno, que talvez esteja apenas
pouco estimulado, mas não desinteressado. Remover os obstáculos num passe de
mágica e insinua que a tarefa de aprender não exige esforço, dedicação,
empenho, luta com as palavras, como já dizia o poeta, é o mesmo que azeitar a
engrenagem da aprendizagem com areia.
Outra coisa. O texto da professora parte
de um pressuposto ilusório, (perdoe-me a pretensão, mas é assim, que por ora
enxergo) de que os alunos estão cativados pelos livros da moda e não iludidos
pelo gênio da publicidade que os mesmerizou. A sugestão da professor tem o
efeito de criar um círculo vicioso em que esse tipo de literatura, chamado
eufemisticamente de despretensiosa (de despretensiosa ela não tem absolutamente
nada) vai pouco a pouco tangendo os grandes autores para o limbo das obras
difíceis. De lá eles terão pouco a oferecer às gerações de leitores que
desconhecerão as suas potencialidades transformadores.
De ratoeiras e livros
Foto: André
Kertész | Série On Reading
.
Não gosto de parvoíces. Detesto ver
gente se entregar a estupidez. Mas infelizmente é nisto que se dissolveu uma
boa parte do público literário. Antes exigentes eles se tornaram, manipulados
pelos médias, consumidores que respondem apenas às listas dos mais vendidos
para determinar os seus próximos “melhores livros”. Um exemplo dessas
patuscadas abunda nas prateleiras das livrarias, insinuando às donzelas os
ritos de sadomasoquistas engravatados, coadjuvantes de Don Juan.
Minha aversão a todos esses destroços,
intitulados de literários, se deve ao respeito que sinto dever a uma arte que é
mais forte do que a própria realidade, porque é capaz, quando não está
subordinada aos managers culturais,
que reduzem a cultura a uma dimensão esvaziada de conteúdo, de impor-se nas
consciências dos homens bem melhor do que qualquer panfleto político ou
discurso filosófico.
Todavia, há quem pense que isto tudo é irrelevante.
Basta, para muitos, um título figurar nas listas dos mais vendidas ou ser
enfeixado por Hollywood em uma película, para aplacar as consciências de
qualquer questionamento quanto as prováveis dúvidas sobre a qualidade estética
de uma obra. O divertimento, o entretenimento, a linguagem simplificada, os
discursos evasivos e superficiais, sobrepujou os critérios de criatividade,
expressão e rigor literário nas qualificações de um livro. Em nome desses novos
valores os leitores viram soterrados também qualquer possibilidade de uma arte
questionadora e atenta ao mundo. A submissão do leitor as imposições dos gostos
midiáticos é total.
Felizes os pequenos que leem livros
Ilustração: Gustave Doré
.
Para quem chega agora à vida e pouco
ainda sabe das coisas, não existe melhor guia para descoberta do mundo do que
um bom livro. Hoje, 2 de abril, celebra-se o Dia Internacional do Livro Infantil.
Não dou a importância que os outros dão as efemérides. Dias disso, dias
daquilo, são para mim, armadilhas para apanhar devotos consumidores, cumpridores
do que acreditam ser os seus deveres; o de saírem às compras, sempre que o sino
do templo anunciar uma oração especial ao santo do dia. Mas se descontarmos a
veneração consumista no espírito das efemérides e atentarmos para o fato da
celebração a um objeto tão importante como o livro tiraremos daí algum proveito.
A leitura aproxima a criança e o jovem à vivências e saberes que expandirão sua
visão de mundo para além dos horizontes cotidianos. O texto literário mobiliza
a criança, através da descoberta de uma linguagem expressiva e inusitada a um
mergulho no imaginário. A leitura abre caminhos, desperta paixões. O bom livro
literário oferece ao pequeno leitor a possibilidade de satisfazer a sua
criatividade pela experimentação de realidades fantásticas. O ilogismo aparece
nos livros para suscitar o questionamento das aparências e só não se deixa
conhecer àqueles que não sabem questionar. Enfim o livro infantil é uma ponte
sempre aberta entre a criança e o mundo.
Intermediárias retinas
.
A realidade através de intermediárias
retinas. Hoje a realidade só é plenamente vivida quando vista pelo visor de um
celular, através de uma tevê ou sentida pela tela de um computador. A era das
experiências parece suplantada pela era da virtualidade da vida. Não estranha
pois que as relações sejam, pautadas nesses novos termos, tão fugazes. Só aquilo
que é efêmero, transitório e pode ser facilmente desapercebido para dá lugar a
outro, com aparência de sempre novo, tem sentido para o homem contemporâneo.
Adeus Manoel de Oliveira (1908-2015)
Saiu de cena hoje um dos maiores nomes
do cinema mundial, o português Manoel de Oliveira (1908-2015). Filho de uma
tradicional família portuguesa Manoel de Oliveira nasceu no tempo da Monarquia.
Assistiu a mudança de rumos políticos de seu país para República, atravessou duas
guerras mundiais, sobreviveu a ditaduras sanguinolentas, saudou a redemocratização
de sua pátria e ainda testemunhou a queda do muro de Berlim. Depois de tudo
isso, quis o destino que ele ainda assistisse outros tantos dramáticos
conflitos que lhe afirmaram a permanência do mito bíblico da Torre Babel. Seu
nome está inscrito entre os grandes realizadores de nosso tempo. Ele não foi
apenas o mais importante cineasta de seu país, como afirmou a revista Cahiers du Cinéma, foi também, como
vimos, o mais longevo. A esse último adjetivo ele atribuiu parte de sua
admiração: "Penso que sou mais admirado pela minha idade do que pelos meus
filmes". Uma blague. Em seus mais de cem anos de vida ele fez da arte cinematográfica
a máquina relevadora de um mundo aquém daqueles que nossos sonhos projetam e
além daqueles que a realidade imprimem. Apenas esse registro desmente qualquer
insinuação de que sua longevidade tenha superado o seu talento atrás das
câmeras. Mas se ainda restar qualquer dúvida ao incauto veja-se a propósito Um
Filme Falado. Obra de 2003, nela está, em chave teatral, como era característica
de seu modo de realização, inscrito um filme que celebra os melhores feitos
humanos, sem esquecer as inconvenientes certezas de que há ainda, muito trabalho
para realização de uma sociedade minimamente civilizada. Vai o mestre fica a obra.
Herberto Helder (1930 - 2015)
A poesia é certamente daquelas raras
coisas humanas que nos conforta e nos protege das amostras de estupidez e
loucuras que os dias nos trazem. Por isso é sempre triste saber que um desses abnegados
desconstrutores de desenganos partiu. De regresso ao blog, depois de alguns
dias ausentes dou com a triste notícia do passamento do poeta português Herberto Helder, ocorrida na última segunda-feira, 23. Para grande maioria dos
brasileiros o nome de Herberto Helder, como de resto acontece com quase todos
os nomes de poetas por aqui, é uma novidade, que somente a morte é capaz de arrancar
do anonimato (ou talvez nem isso). O mesmo não acontece em seu país. Em Portugal
Herberto Helder foi cultuado e admirado como o "maior poeta português da
segunda metade do século XX". Isso tudo sem se deixar fotografar, sem dá
entrevistas, e publicar em intervalos de anos longuíssimo. Como se vê ele não
era dado a salamaleques. Sua entrega era à arte. Valendo-se apenas de sua
inventividade poética que tinha entre outras qualidades precipitar o leitor em
certas realidades suscitadoras de questionamentos das aparências, Helder
construiu uma carreira poética “pelo talento de algumas palavras para se
moverem no caos”. Abaixo um dos poemas que mais recito do poeta, que morreu
gregamente.
Li algures que os gregos antigos não
escreviam necrológios
li algures que os gregos antigos não
escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero
saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se
moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios
com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio
tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens
extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas
grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram
nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda
à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida
ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção
curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que
fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o
gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu
dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e
moderna,
os cegos, os temperados, que não, que ao
menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão gregaAnexins
Família, filhos, parentes
1 Quem é
caça, puxa a raça.
2 Filho de
peixe, peixinho é.
3 É de
pequenino que se torce o pepino.
4 Filho
enfeitado, xibungo criado.
5 Filho
paparicado, tarado formado.
6 A quem
filhos não têm, sobrinhos lhe vêm.
7 Quem dorme
com criança amanhece cagado.
8 Casamento e
mortalha no céu se talha.
9 Em briga de
marido e mulher não se bota a colher.
10 Com mulher de bigode, nem o diabo pode.
11 Se mulher canta de galo, o marido sai pelo ralo.
12 O marido é sempre o último a saber.
13 Há vícios que acontecem nas melhores famílias.
14 Marido não é parente.
15 Parentes são os dentes.
16 Com mulher de pelo na venta, o diabo não agüenta.
17 Nem os dedos são irmãos.
18 Casa onde não tem pão, todos brigam e ninguém tem
razão.
19 Mais vale um bom vizinho do que todos parentes,
sozinho.
Anexins colhidos por OSWALDO
ELIAS XIDIEH, publicados aqui
Imprecação
Rogar aos santos a intercessão divina
contra os males que afligem o povo, parece ser prática frequente nas
comunidades menos favorecidas de todo o Brasil. Sem auxilio terrestre o povo se
socorre no único recurso disponível ao seu alcance, Deus e os Santos. Roga-se a
tudo. Contra as pragas que assolam a lavoura. Contra os temores noturnos. Contra
as doenças. São infindáveis os males que afligem o povo. Um dos mais violentos
desses males é com certeza o flagelo da seca. Há uma infinidade de orações
pedindo a intercessão dos Santos junto a Deus para cessar a escassez e permitir
logo que chova. Encontrei aqui em Caetité uma senhora que me narrou uma reza
que era invocada sempre que o flagelo da falta d´água se tornava pesado demais
para suportar.
Oração a Santa Maria Madalena.
“Santa Maria Madalena tenha dó dos
inocentes, não deixa morrer de fome, não deixa morrer de sede. Chuva por
esmola, pão que nos consola, sol que alumeia.
Santa Maria rogai por nós.”
Não consegui entender por que a súplica
era a Santa Maria Madalena e não a São Pedro, reconhecido padroeiro das águas.
Li a Legenda Aurea de Jacopo de Varazze o verbete sobre a Santa M. Madalena.
Não encontrei nenhuma relação direta entre ela e o auxílio aos flagelados da
seca. Havia porém uma menção ao auxilio de Maria Madalena na gravidez de uma
rainha que não podia ter filho.
A propósito das críticas à Casa Anísio Teixeira que demitiu alguns funcionários na última semana
Desconheço as razões das demissões.
Imagino que seja um reflexo das crises, que atualmente assolam o país. Não
obstante esse turbilhão de coisas, a Casa ainda preserva uma grande importância
para Região mantendo viva iniciativas que dignificam a sua existência. As
críticas são salutares. Elas demonstram as sinceras preocupações com aqueles
que perderam os seus empregos e com o futuro da CAT. Porém, algumas, são
injustas. Por isso a administração da CAT deve absorvê-las e manter-se sóbria quanto
ao cumprimento de seu dever que, até aqui, tem sido incontornável. Falando como
frequentador da Biblioteca, é difícil imaginá-la sucateada. Os mais recentes e
importantes trabalhos literários estão quase todos lá, veja-se a propósito os
trabalhos do chileno Roberto Bolaño. Merece ainda destaque os livros sobre
fotografia, especialmente um sobre Pierre Verger, dificilmente encontrado em
outras bibliotecas em toda a região, inclusive em acervos particulares. Quem
frequentar a Casa habitualmente percebe que ela está investido vigorosos
esforços na manutenção de seu acervo bibliográfico. E faz isso da forma mais
democrática possível, consultando os seus frequentadores e pedido sugestões de
livros, para incremento de seu acervo. Uma lição de gestão participativa e
democrática, que faria muito bem alguns administradores em copiar. Os títulos
disponíveis atestam a qualidade e a variedade. Está lá toda a obra de Gabriel
Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa, Jorge Amado, Shakespeare, Cervantes, José
Saramago e outros nomes indispensáveis da literatura. Mas não são apenas aos
grandes clássicos que a Casa dispensa sua atenção. Ela também se abre às obras
de apelo popular e estende suas fronteiras por todos os gêneros literários. Sua
biblioteca ainda serve a comunidade docente de todo o município cedendo
fantoches, brinquedos, jogos, e outros materiais escolares que auxiliam os
professores na árdua tarefa de ensinar. Sei disso porque minha esposa faz uso
constante desse material. Esses recursos pedagógicos foram confeccionados em
oficinas de formação e qualificação de professores. A esses invulgares esforços
de formação cultural e auxilio ao ensino, a Casa presta também um relevante
serviço na formação de público para o cinema e o teatro, graças aos esforços de
Tide e Nando Dias. Iniciativa exitosa e invejada por outras cidades da região.
Esses e outros tantos trabalhos desenvolvido pela Casa faz dela um centro de
excelência na tarefa de divulgação da cultura, preservação do patrimônio,
incentivo à formação docente e principalmente manutenção da memória e do legado
de Anísio Teixeira. E por falar em memória me ocorre aqui a lembrança de outra
ação da Casa que qualifica ainda mais a sua administração e atesta a sua
reconhecida preocupação com a preservação de mais esse patrimônio cultural.
Desde 2010 a Casa através do projeto Memorial de Saberes e Fazeres populares
tem ido a campo colher informações sobre os modos de vida, as crenças, a
culinária, as formas de arte que ainda restam na tradição da popular de todo o
Sertão Produtivo. Documentando e recolhendo das fontes mais confiáveis - as
vozes da tradição - os costumes e modos de vida que a modernidade teima em
liquidar, a Casa tem preservado pra posteridade um rico acervo de documentos
escritos, filmados e fotografados de nossa identidade cultural. Esse acervo
conta hoje com mais de uma centena de depoimentos de reconhecidos mestres
populares. Dele já se organizou três livros, produzidos pela Casa e
distribuídos às bibliotecas escolares de todo o Sertão Produtivo. O material
está também disponível para acesso do público e para pesquisadores da cultura
interessados em um acervo etnográfico incomparável. Com todos esses serviços prestados
e mais outros em andamento, fica difícil imaginar que a Casa ter “servindo
apenas como mais um espaço físico para encontros”.
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