Fotografia é arte

Fotógrafo: Alberto García-Alix
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A fotografia é uma arte? É. Porém sua expressão se presta a muitas confusões entre o que é meramente banal e o que tem conteúdo artístico. Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que por ser tão banalizada o público tem dificuldade em selecionar o que não é arte e o que é. O outro é que ela está excessivamente vinculada aos objetos reais, isso já explicou Susan Sontag, e muitos só a percebem por isso com o fim de descrever alguma coisa, reproduzindo a realidade tal como os olhos a percebem. Mas a fotografia, ao menos uma parte dela, não é finalística. Ou seja ela não se encerra no objeto dado. Uma imagem bem pode estar ali sugerindo outros conteúdos e iluminando uma outra realidade para além daquilo que se vê à primeira vista. Com vistas à arte, a fotografia exprime uma maneira de ver as coisas além do objeto dado pela representação. Com um sentido artístico, a foto deixa de ser meramente a reprodução do real e passa a ser compreendida como uma emanação da mente do fotógrafo, a sua interpretação das coisas e do mundo. Ela abandona, assim, o status de registro banal e alça seu sentido à outras esferas. Veja-se a propósito do que estou falando, um trabalho do espanhol Alberto García-Alix (n. León, 1956). Quem ver essa fotografia, não pensará que o sentido último dela se encerra na representação de uma jovem retratada pelo fotografo, mas que sua mensagem ultrapassa essa realidade. Os sentidos dados aqui são inúmeros. As sugestões são incontáveis. Vai daí que essa fotografia, diferente das generalidades que se vê no face ou em outras plataformas sociais, não se presta a uma interpretação limitadora, porque ela está carregada de sentidos. 

Asinina condição

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Gostamos do que nos dá estatuto. Tanto pode ser uma roupa de marca, um smartphone no bolso ou um orgulhoso livro de sacanagens que ouvimos dizer que todos estão lendo e por isso achamos que merecemos também lê-lo, apesar de não gostarmos de ler muito. Mas isso não deveria ser assim. Todas essas quinquilharias, todos esses penduricalhos, todos esses imbróglios, não se constituem, realmente, num luxo verdadeiro. São antes a prova provada de nossa asinina condição de bestas, domesticadas pelo consumo irracional. Fossem mesmo importantes, todos esses bibelôs, traríamos a todos à felicidade. Porém, não é isso o que vemos.  

Sem remédio

Duas noites insone. Dores no peito e nas costas. Tosse incessante. Uma chapa do pulmão (adoro essa palavra, chapa, me lembra o vocabulário de minha vó) e o diagnóstico: um princípio de pneumonia. De repente, me pego pensando o quanto somos vulneráveis. Parecemos um castelo de areia, feito por um deus-criança, que brinca na praia e depois se vai, deixando para trás o brinquedo, que o distraiu por umas horas, ao sabor das intempéries. Se não for as perturbações atmosféricas a nos levar, será talvez a negligência de alguns. Dos três medicamentos receitados pelo médico, que me atendeu, um deles está fora de circulação há pelo menos três anos, garantiram-me os farmacêuticos de Caetité. Uma olhada no carimbo do doutor e fico a saber, que ele também é professor. Ai encontro a resposta para tamanha desatualização. Os nossos professores, com raríssimas exceções, não se preocupam em se atualizarem. Conheço um que se orgulha de não ter lido um único livro, depois que saiu da faculdade. Outro que fez um curso, apenas para acrescer mais um 0 ao seu contracheque, sem prestar o menor zelo ao que estava estudando. O professor que não ler ou que não estuda, continuamente, é semelhante ao médico que receita ao paciente um remédio que não existe. 

De cães e outros bichos

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Muitos já devem ter percebido isso. As pessoas que gostam de animais costumam atribuir certas qualidades morais àqueles que como elas admiram os bichinhos. Entre outras qualidades elas são, segundo os critérios cabalísticos: amáveis, confiáveis e solidárias incontestes. A mesma sorte, no entanto, não têm os que por qualquer razão não se sentem confortáveis com os peludos.

Como se os animais não passassem de animais, mas seres superiores, capazes de revelar dotes ou transparecer faltas nos homens, os muitos admiradores dos gatinhos ou dos cãezinhos, desconfiam sempre dos que guardam reserva aos bichinhos. Ao menos é isso que ouço dos amigos que têm animais. Não lhes parecem estranho, atribuir aos cães o julgamento moral de uma pessoa.

Como não sou daqueles que se atraem pelos cães, nem por qualquer outro bicho, foram sem conta, o número de vezes em que, constrangido, não soube esconder dos donos de animais, o meu desconforto com a presença dos animaizinhos queridos. Ao revelar esse sentimento não pude deixar de perceber que tinha, para os amantes dos animais, acabado de cometer uma imperdoável heresia.

Apenas por estar em desacordo com seus sentimentos fofos, sentia que a revelação de meu desapego aos bichos, acabava por lhes acender um desapontamento profundo que os faziam, desde então, olhar-me de esguelha.  

Penso que não tenho que amar um animal e o manter encarcerado em minha casa só para provar que tenho sentimentos e posso ser uma pessoa confiável. Esse é um modo estranho de julgar alguém. Há, por certo, outros critérios que fazem de alguém uma pessoa amável, solidária e confiável. Não precisamos, ao contrário do que pensam os amantes dos bichos, consultar os latidos dos cães. O senhor na foto acima não me deixa mentir. 



A cultura da não violência

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“Temos que nos tornar a mudança que queremos ver”.
Gandhi

Quem não pressente, diariamente, que as sociedades desenvolvidas vão se erguendo sobre o desprezo dos valores comunitários, da solidariedade e do respeito ao outro? Num mundo ressecado pela competição e o individualismo, quase não há lugar para os melhores sentimentos humanos. O que impera, são rancores, ódios e sentimentos destrutivos de uns contra os outros, que põem o mundo em continuo pé de guerra. Falo assim, porque vejo, lá pela escola, todos os dias, atos de brutalidade gratuita, que vão se naturalizando, quando não deveriam.

Mas até hoje - e espero que isso nunca me aconteça - nenhuma das ameaças que ouço os alunos trocarem, nenhuma das barbáries ditas com ar de indiferença, nenhum dos destemperos testemunhados, ou dos atos de banalização da violência, foram capazes de me destituir a crença de que os homens são feitos da mesma matéria, e portanto, a aparente separação que os diferem, não passa, de um efeito das formas temporais. “A verdadeira realidade da humanidade”, escreveu Joseph Campbell, “está na unidade com todas as formas de vida”.

Isso significa dizer que, você e eu somos um só. Essa percepção do outro como uma parte de mim, e não como um outro indiferente, está nos faltando. A ganância do sentimento individualista nos cegou para essa nobre verdade. Precisamos urgente reaver essa percepção do mundo que restaura em nós o outro como uma parte infalível de nós mesmos.

Podemos começar aprendendo com os hindus, budistas e javanistas que há milênios, saúdam-se mutuamente com um gesto de contração das mãos sobre o peito; depois se curvam em reverência uns aos outros, enquanto pronunciam a palavra: NAMASTÊ. A palavra vem do sânscrito e significa: “o deus que me habita saúda o deus que te habita”. A dignidade desse simples gesto, expressa a grandeza de reconhecer no outro - pode ser um alguém, que vejo pela primeira vez, ou um ente querido - o reconhecimento de que os indivíduos, não me são indiferente, transparente ou invisível. Ao contrário, são seres superiores e que portanto merecem igual respeito, admiração e zelo. 


Afugentar os fastios


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O mundo, seria uma morada tristonha, senão houve alguns encantos, que afugentassem os fastios. 

Mais um dos meus fotógrafos prediletos ou como apanhar lições observando.

Foto: Gordon Parks, At Segregated Drinking Fountain, Mobile, Alabama, 1956.

Entre outros tantos aliados, a luta contra a segregação racial nos EUA, contou, com o contributo estimável da fotografia. Um dos nomes incontornáveis nessa trincheira, foi o do fotógrafo Gordon Parks. Morto em 2006, ele deixou uma série de registros fotográficos da vida cotidiana de negros americanos, que ajudaram os Estados Unidos e o mundo, a reconhecer que: há vilanias humanas, que desmentem nossas mais nobres pretensões de superioridade sobre as bestas. 

Passados tantos anos, suas fotos continuam a nos inquietar. Ao observá-las, rendemo-nos ao fato de que, as fotos não são, como disse, Susan Sontag, impessoais. Elas indiciam “não apenas um registro, mas uma avaliação do mundo”. As fotos de Gordon Parks captam o que Alfred Stieglitz, o primeiro grande fotógrafo americano, chamou de momento apropriado. O momento apropriado, escreveu Susan Sontag, “é aquele em que se consegue ver coisas (sobretudo aquilo que todos já viram) de um modo novo. E o que vemos ao mirar as fotos de Parks é a segregação racial em quadros ultrarrealistas.  

A festa da Mandioca

Há décadas, o distrito caetiteense de Maniaçu celebra as suas raízes. Raízes aqui não é mero adorno linguístico, impresso apenas para sugerir identidade e pertencimento. O sentido da palavra vai além, e toca o seu referente. É que Maniaçu cresceu e prosperou em torno do cultivo de um dos mais importantes alimentos brasileiro herdado dos índios: a mandioca.

Vai daí que esse tubérculo está, intimamente, ligado às origens do lugar. Foi em volta dele que famílias inteiras cresceram e que o lugar tornou-se referência no cultivo e manufatura dos vários produtos ligados à mandioca. Por esse motivo, o distrito da “mandioca grande” - essa é a tradução livre do nome indígena do lugar – realiza, todos os anos, um festejo que lembra à comunidade a fonte de sua origem.

Esse ano, o evento contou, mais uma vez, com a colaboração das escolas locais. Como é habitual, os colégios municipais Zelinda Teixeira e Nunila Ivo estiveram presentes e ajudaram a compor o desfile que coloriu o distrito. Abaixo alguns dos meus registros fotográficos do festejo. Cliquem na imagem e acessem o site.


P.S. Registro aqui também o meu agradecimento especial aos alunos do colégio Tereza Borges de Caetité que gentilmente me permitiram tirar todas as fotos quanto eu imaginasse deles, sem nenhuma reserva. Obrigado aos alunos pela confiança.

Diálogo é a solução.

Foto: René Friede: Prisca, 1999

Notícias como está, estão se tornando perigosamente frequentes. Está evidente que vivemos um clima de guerra nas escolas. O stress, as cobranças, os compromissos, as frustrações e um sem-número de problemas sociais, torna o lugar que deveria ser o mais agradável do mundo, um campo minado, onde não se estar tranquilo para aprender.

Nessa guerra todos perdem. É inadiável, portanto, repensar a escola que estamos construindo. Nela, os jovens precisam entender que há melhores meios de resolverem os seus conflitos. E a escola precisa saber lidar com os dilemas juvenis, mediando os embates e construindo fóruns permanentes de diálogos que mitiguem possíveis choques nas relações entre professores e alunos.

Ninguém está livre do problema, nenhuma escola está imune as deformações sociais que todos os dias alteram os rumos da educação no país. É preciso portanto nos municiamos de coragem e solidariedade que são as únicas armas capazes de contornar os dilemas escolares. Eu acredito, mesmo contra todas as evidências, que a escola ainda é o melhor lugar para construir o futuro.

Nos ajudando a desafiar o futuro

 
Foto: Rogério Soares Brito. Visita a Contendas, agosto de 2015

Para melhor dominar um povo, escravizá-lo mesmo, há que sugar-lhe a memória, e, desse modo, eliminar-lhe a identidade. Chamamos a isso desmemoriação. Suas maiores vítimas, são os jovens. Seduzidos por um discurso fundado em aparências e promessa de juventude eterna, ao preço de ilusões cosméticas pagos a prestação, eles se deslumbram dia a dia com o novo, e viram as costas aos mais velhos. Por conseguinte, enfraquecem a sua identidade e assumem postiças formas de atuação no mundo. Interferir nesse aniquilamento das identidades é dever de todos nós que pressentimos que há valores na nossa comunidade e que eles são imprescindíveis.

Foi pensando nessa reação contra a desmemoriação e na valorização dum patrimônio de saberes que enriquece a nossa identidade, que visitamos a comunidade quilombola de Contendas, na última quarta-feira, com os alunos do colégio Zelinda Carvalho e Nunila Ivo, todos pertencentes ao distrito Caetiteense de Maniaçu. A visita foi uma iniciativa da professora Marili. No comboio estiveram também presentes a vice-diretora Vânia David e o professor João Chaves.

Ouvindo atentamente as vozes do passado, as crianças aprenderam que o sistema de vida que conhecem são distintos daqueles que os precederam. Naquele a franca hospitalidade, os comeres, as crenças, as festas, os costumes, as roupas, os gestos e tudo o mais, alicerçavam um modo de vida, que hoje vai se esfumando nos sentimentos egoístas e individualistas desse admirável mundo novo. Impostos por um sistema demolidor, das memórias do tempo em que a vida tinha valor sentimental, e onde as tradições falavam mais alto do que o poder corrosivo do vil metal, vivemos transformações que não sabemos bem onde vão dar.  

Em tempo, as crianças ainda puderam perceber que é um equívoco negar a importância de nossos velhos. “Haverá sempre lugar” escreveu Edson Carneiro, “para o eterno” explicando que o advento da luz elétrica não aboliu o uso da vela, e nem se tornaram obsoletas as canoas e as jangadas com o surgimento dos transatlânticos. Antes, essas novas invenções da modernidade, trouxeram ao homem novas maneiras de seguir a vida sem, no entanto, superar em definitivo as criações das tradições.


Assim como a vela nos socorre quando todo o aparato moderno de iluminação falha, os velhos são nossas referências na escuridão do mundo tecnológico e ultramoderno. Sem eles nos desorientamos. Sem eles todo um conjunto de manifestações e expressões de natureza intangível, que nos dar norte e nos auxilia a desafiar o futuro, se arruínam, e comprometem a nossa jornada pela vida. 

Foto: Rogério Soares, Contendas, 2015

Foto: Rogério Soares, Seu Geraldo, Líder comunitário de Contendas-Caetité: Bahia

A Indiferença

Foto: John Filo, 4 de maio de 1970. Jeffrey Miller, 20 anos, estudante, morto pela Guarda Nacional Americana, durante um protesto contra a decisão de Nixon de enviar tropas para o Camboja.

As fotografias têm muitas qualidades. Elas podem ser belas, ternas e guardar a memória de momentos inesquecíveis. Serão sempre felizes os álbuns de famílias, onde as pessoas parecem viver em eternos festins. Noutro extremo, as fotografias, também estão dispostas a recordar à humanidade a brutalidade e a selvageria que esse mesmo homo ludens é capaz de perpetrar, entre um banquete e outro com a família.  

Em Diante da dor dos outros, Susan Sontag argumenta baseando em vastas evidências, que vai desde “Os Desastres da Guerra”, de Goya, até aos documentos fotográficos da Guerra Civil americana, dos linchamentos de negros nos estados americanos do Sul, das Duas Grandes Guerras, da Guerra Civil espanhola, dos campos de extermínio nazi e das imagens contemporâneas da Bósnia, Serra Leoa, Ruanda, Israel e Palestina, bem como do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, que as imagens também podem, provocar dissenções, incitar à violência ou criar indiferença ante um público acrítico.

“As imagens, qualquer que seja a sua natureza, são elementos importantíssimos para o acompanhamento do processo histórico, assim como para a construção do discurso histórico. No caso particular das guerras havidas, pinturas, fotografias, imagens televisivas ou fitas resultantes de vídeos amadores, têm sido contributos relevantes para o seu conhecimento, análise, interpretação e reflexão. Mas em torno destas mesmas imagens, sobretudo as televisivas, algumas questões se podem levantar, nomeadamente no que concerne à banalização do sofrimento. À banalização do sofrimento dos outros, que poderá rapidamente transformar-se na banalização do nosso próprio sofrimento.”

Com os médias excretando tanto horror, as fotos das barbáries se potencializaram. Chegam-nos a todo instante imagens e mais imagens de todo o mundo. Sabemos o que acontece todos os dias em todos os lugares. No meio do jantar assistimos apáticos a execução brutal de seres humanos em qualquer bar de alguma periferia no país. E antes que a comida alcance o estômago, novas imagens de horror, rapidamente substituem as chacinas pelas execuções de prisioneiros de guerra. Os modos de aniquilamento são tão diversos quando as guloseimas dispostas na mesa do jantar.

A falta de pudor dos media e, em especial, da televisão, recupera tempos ominosos, que julgávamos ultrapassados. E na busca pela audiência eles não nos poupam da visão de horror e buscam os ângulos mais nauseantes das piores carnificinas.


Tratar a dor alheia assim com tanta indiferença, leva-nos a banalização da mal e como consequência anestesia a nossa sensibilidade às necessidades do outro. 

Juventude: a oitava maravilha.

Foto: William Klein.
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Em Hamlet, Shakespeare escreveu no Ato II cena I “...como é normal que a sensatez falte aos mais moços...”. Isso há cinco séculos. Vivesse hoje, o bardo inglês teria carregado no adjetivo e pintando de tintas mais forte a insensatez dos mais jovens. Eles são facilmente sugestionados por qualquer coisa que, os estimule os instintos mais baixos. Se deslumbram e caem de amores, as vedetas mais estéreis, e estão antes, mais dispostos a virarem as costas aos pais e professores, do que dar ouvidos a quem lhes têm maior consideração. Inflamam-se com insignificâncias e estão sempre animosos contra os que julgam os cerceadores de suas vontades. Quem os ouvem falar pensa que eles jamais frequentaram a escola. Estão, no entanto, seguros que assim mesmo, terão assegurado o melhor dos mundos possíveis para viver no futuro. 

Tornar as coisas ordinárias

Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015
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Há dias vi um registro fotográfico dos mais brutais. Tratava-se de um mergulho profundo nas mazelas vivida, por uma parcela significativa da população portuguesa nos dias atuais. 

Em pleno século XXI, nas zonas rurais do país que colonizou o Brasil, vivem milhares de despossuídos. A despeito das muitas virtudes, Portugal, lamentavelmente, ainda é um país pobre e injusto. E foram estes despossuídos e injustiçados, que o fotógrafo Armando Jorge, revelou num trabalho intitulado: Portugal Rural.

Muitos foram os que comentaram os registros do fotógrafo no facebook. Chamou-me porém, a atenção, o fato de que a grande maioria dos comentários, passavam ao largo da visão reveladora das péssimas condições de vida, de parcela de portugueses, que amargam as piores condições de vida que um ser humano pode suportar.  

Muitos mais foram aqueles que ficaram embeiçados pelo desempenho da câmara, pelo apurado enquadramento das paisagens, e pelas estéreis virtudes da técnica fotográfica mostradas pelo artista... O que significa que há quem apenas se preocupe com frivolidades e deixe que aquilo que é verdadeiramente importante lhe passe desapercebido.

A qualquer um, com alguma sensibilidade, saltaria aos olhos as evidências revoltantes, das vergonhosas condições de vida, impingida aos muitos portugueses, que vivem à margem das benesses do poder. Mas aos olhos dos basbaques, que povoam o facebook e vivem as mídias eletrônicas e os aparelhos tecnológicos com devoção, não lhes parecem anormais que homens e mulheres esfarrapados ainda façam parte do cenário social.

A estilização tecnológica redimiu da carneirada todas as inquietações e arrefeceu as mais dolorosas constatações.

Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015.

Sem lar

Hão-de ser sempre misteriosas, para mim, as razões dos ataques pessoais para conquista do eleitor. Sugerir que a candidata tal é mais macho que muito homem, ou que aquele outro é um alcoólatra inveterado, não me parece relevante ao debate das questões emergenciais do país. Porém, aos que pautam a política nacional, ou seja, os marqueteiros, esses expedientes parecem ferramentas indispensáveis na guerra pelo voto. É como disse o poeta Régis Bonvicino "os partidos não são mais o lar dos idealistas".

Brasil

Admite-se tudo nesse país, menos a honestidade. 

[POEMA] Ítaca – Constantino Kavafis


Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu

Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.


A vida é caos (II)



Isso não quer dizer, como parece sugerir, que estamos inelutavelmente presos às circunstâncias. Mas que somos levados a elas e podemos ou não permanecermos nelas. Somos cativos, até o momento em que entendemos o lugar onde estamos. 

Educação e cultura palavras que não alcançam nunca os políticos.

Foto: Dorothea Lange.
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Educação, cultura.... educação, cultura.... as mensagens estão soprando no ar. O que acontece com os políticos desse país que não entendem palavras tão simples? Haverá qualquer coisa de sobrenatural que os impeçam de alcançarem o valor dessas palavras ou eles são mesmo o que parecem serem: estúpidos incorrigíveis.

Doloroso vexame

Foto: André Kertész | Série On Reading
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“Um homem tem mais o que fazer no mundo do que ler!” Ouço daqueles que desdenham da leitura. Falam-me assim esperando que eu reaja as suas provocações com ar solene de quem pensa em livros a toda hora, e não sabe fazer outra coisa na vida, a não ser gastar os olhos sobre o papel tingido a tinta preta. Admiro os livros. Sei lhes tirar as vantagens, que só eles, a sua maneira, podem me proporcionar. Não posso falar pelos outros admiradores de livros, que estão por aí, mas vou ao livro, porque sei nele apanhar grandes lições. Lições que se esfumam na vida real desbotada pelo condicionamento de um trabalho maçante que pouco ou nenhum espaço deixa para enxergar outras possibilidades de vida. A leitura de um bom livro permiti-nos dar à volta as ideias gastas pelo uso, e reformar, de inusitadas maneiras, as convicções inabaladas que, faziam de nós o eixo de rotação da terra. Todos que têm alguma coisa a mais à cabeça, além dos habituais enfeites que os médias lhes metem, também sabem das vantagens de dispensar algumas horas a admiração das histórias que os escritores criam. Aos outros não é suposto coisa alguma. Quando estão diante do desafio de estarem sozinhos consigo, tendo um livro à mão, acham-se inertes e sentem-se desocupados. E estar desocupado, num mundo que pede a todos que se ocupem, é um doloroso vexame, que a qualquer custo se deve evitar.


Frustar expectativas

Foto: Alécio de Andrade
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As pessoas, com frequência, pedem-me que sugira algum livro para lerem. Por motivos vários não gosto de indicar leituras. São demasiadamente pessoais as razões que levam alguém aos livros. Alguns vão lá porque buscam um passatempo, uma fuga, umas horas preenchidas enquanto algo mais “útil” não chega. Outros esperam com eles iluminarem as incertezas. Tem ainda os que pensam que a leitura é uma coisa maçante, mas mesmo assim eles insistirão na indicação, pois supõe com isso, estarem construindo uma imagem de gente fina e elegante, só porque finge gostar de ler, o que não é verdade. Nenhuma dessas pessoas tem a ver com as simpatias literárias que nutro por este ou aquele autor, nem de longe comungam com as ideias que tenho de literatura. Como pois serei eu as lhes conduzir os livros necessários? Por isso me recuso a indicar leituras a alguém, os livros são coisas muito íntimas. Estão cá do lado esquerdo e não se mostram para duas pessoas da mesma maneira. Essa é uma razão. Mas existe outra.

Quando as pessoas insistem, teimando na indicação de um livro, mesmo eu lhe dando todas as desculpas do mundo para não lhes indicar coisa alguma, surge aí meu lado mais mefistofélico. E sinceramente eu não gosto quando isso acontece. Nesse momento dou a indicação pensando em fazer com que a leitura seja o momento mais desequilibrante que alguém jamais supôs viver na vida. Inverto os polos de interesse que, imagino fazer a cabeça de alguém, e sugiro leituras que vão na contramão do que cuido ser o desejo daquele alguém, que aporrinha a minha paciência, com coisas que sei, não lhes pinicam.

Sendo angelicais e castas, sugiro as leituras mais depravadas e insanas da literatura, Henry Miller e Dalton Trevisan. Sendo carolas, me apraz ver sua santidade posta à prova quando se veem enfronhada aos lençóis da perversão sexual e surdas de tanto ouvirem os gemidos dolorosos saídos da cabeça nervosa do Marquês de Sade ou Guilleragues, suposto autor da história da freirinha portuguesa que tem delírios eróticos com um oficial francês enquanto se encontra no claustro servindo a Cristo. Podem lá apanhar coisas uteis as pudicas, quando não estiverem de joelhos no regaço do Senhor, é claro. Se forem moralistas e se escandalizarem fácil com os adeptos de alucinógenos, aí falo sem parar das qualidades literárias inequívocas de um Thomas de Quincey ou de um Hunter S. Thompson. Sendo politicamente corretas indico sem pestanejar o americano Philip Roth. Os fúteis e consumistas sugiro o autor de “Ambição no Deserto”, Albert Cossery para quem os personagens que criou não tinha outro interesse senão falhar nos propósitos de se estar bem posicionado na vida, porque acreditava o autor, que o que matava as pessoas era a ambição desmedida que campeia no mundo do consumismo. Como veem a boa literatura não se faz com boas intenções. Então não é buscando conteúdos deliberados que as pessoas encontrarão os sentidos necessários ao entendimento da literatura. Mas as pessoas não estão dispostas a encararem a literatura nessa perspectiva. Vão a ela, cônscia de seus lugares no mundo. E aí esperam sempre encontrarem-se nos livros que não leram. Quando isso não acontece, frustram seu interesse e refugam ao encararem aquilo que se esforçaram tanto em maquilar.

Portanto sabendo que não gosto que me peçam indicações literárias não o façam. Não me peçam que sugiram-lhes leituras. Posso estar, sem querer, lhe dizendo o que penso de você.


Acudir aos homens

Foto: O poeta Marco Haurélio lendo um cordel na rua como os antigos cordelistas faziam.
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Na generalidade dos textos, que se convencionou chamar de Populares, aparecem histórias notáveis. Essas narrativas carregam consigo, ensinamentos e valores incalculáveis que não podem, de forma alguma, serem ignoradas. Vindo de eras pretéritas, elas apontam ao homem do presente, rotas alternativas, aos compromissos absurdos, que apenas conduzem os seres ao descalabro.

A mula sem cabeça, O lobo e o Cordeiro, A cigarra e a formiga, O Saci Pererê, O pequeno Polegar, As babuchas de Abu Kasem, A história dos dois homens que sonharam, os poemas dos cordelistas, o repente dos repentistas, são entidades e narrativas que atormentam, entretêm e educam as gerações e as comunidades por onde vão passando, orientando a todos em condutas probas e saudáveis ao convívio coletivo.

Dos testemunhos literários dessas narrativas podemos perceber o lado mais oculto e sombrio da natureza humana. Neles podemos também fazer-nos  melhores, para encarar as inevitáveis tormentas, que também fazem parte do pacote de se estar vivo, num mundo cercado de tristes belezas.

Bem percebidos, os ensinamentos colhidos nessas histórias, lendas, fábulas e contos, serão capazes de dotarem às novas gerações de saberes elementares para a sua sobrevivência na comunidade, e para a sobrevivência da comunidade enquanto entidade agregadora, solidária e mantenedora da ordem social.

Mas se ignoradas, da forma que estão sendo no mundo atual, em nada podem ajudar as crianças, os jovens e os adultos que pretendem superar seus temores internos, contornar os seus dramas sociais, ou livrar-se dos vícios e das inconstâncias que nos sacodem de um lado a outro da existência, sem nos dar sossego.

As mensagens ocultas, que nos chegam nas vozes mais sabias do passado, conduzem-nos, mais seguros pelas florestas escuras. Vai daí que não podemos desperdiçar esse guia confiável e experimentado que são as histórias populares. Esta era a conclusão do maior folclorista brasileiro, Câmara Cascudo. É a cultura popular na sua dimensão mais lúdica, a ferramenta mais eficaz na orientação do homem, perdido em terras estranhas.  

Infelizmente, essas histórias, continuam a serem tratadas como matéria decorativa para algum folclore barato, que pais, professores e autoridades políticas vão empregando para melhor desaperceber os que delas poderiam tirar proveito. Não fosse a Literatura Popular, encaradas com a obtusidade habitual dos que veem a cultura popular de forma tão apequenada, dariam a todos grandes lições. 


Um pouco mais órfão

Foto: Rogério Soares
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A certa altura da vida, muitos abandonam-se à sorte, ou vão viver o merecido gozo do descanso, depois de uma jornada enfadonha pela existência. Outros parecem incansáveis e não se dão nunca por satisfeitos, e por isso, estão sempre inquietos, a buscar novos horizontes antes que a vida finde. Há pouco mais de um ano conheci um desses desbravadores, em Rio do Antônio. Mas chega-me hoje a notícia, inevitável, que eu nunca gostaria de ter recebido, de que ele nos deixou, “fora do combinado”. Partiu o mestre Adelbardo Silveira aos 84 anos. Conhecido carinhosamente na região do Sertão Produtivo como Professor Deba. Sua vida foi, toda ela, dedicada à valorização da cultura como bem maior de um povo. Através de militância cultural e empenho pessoal ele criou e redigiu sozinho o jornal “O Arrebol” que durou 5 anos. Produziu e apresentou um programa de rádio que destoava das habituais programações dessas redes de comunicações, tão molestadas de “artistas de plástico”, dando voz aos valores locais e aos cantadores de repente de sua terra. Escreveu livros de memórias, cordéis (sua última paixão literária) e protagonizou lutas políticas em favor da cultura que demonstrava inequivocamente o seu amor às artes. Mesmo abatido, por uma enfermidade e vergando ao tempo, que não perdoa nem os mais entusiastas amantes da vida, o Professor Deba, esteve nos últimos anos, de sua linda vida, em luta encarniçada pela criação de um Centro de Cultura em sua cidade. Malgrado o desinteresse de muitos pela cultura, ele insistia nessa ferramenta de emancipação social. Foi nesse momento que o conheci. Pensava ele que esse Centro seria capaz de estimular a participação popular nas práticas culturais e potencializar a valorização cívica das diversas manifestações artísticas de sua gente, ameaçadas pela “cultura do entretenimento rasteiro”. Quando o vi pela primeira vez não pude acreditar que um homem tão frágil, de fala tão mansa e com tantos anos nos ombros, estivesse tão animado com a possibilidade de transformar os jovens de sua cidade, em agentes culturais, capazes de identificar, estimular e acompanhar talentos para a literatura, pintura, música, teatro e assim aumentar a qualidade do patrimônio de sua cidade e região, tornando os valores locais pilares da comunidade. Mais uma vez seu sonho tornou-se realidade. O seu Centro cultural é hoje um lugar onde as artes vicejam.  Mas creio que isso não lhe bastou. É provável que estivesse embrenhado em mais um projeto. Não fosse a vida tão curta para tamanhas ambições creio que o Professor Deba inspiraria ainda muita gente. Fica aqui o meu agradecimento pelo muito que ele me significou quando estive em sua casa para colher um depoimento sobre as histórias de encantamento que ele sabia, como poucos, narrar. Foi nessa ocasião ainda que ele me conduziu, mesmo fragilizado (como mostra a foto abaixo) à casa de seu amigo e valente repentista, o Senhor Zé do Norte, para vitaminar ainda mais o meu trabalho de recolha de histórias populares, para um livro que será lançado em breve. Uma bela lição de vida nos deixa o Professor Deba. Pena é não contar agora com essa voz na defesa da cultura popular. Ficamos hoje todos um pouco mais órfãos. Saibamos vergar-nos a nobreza desse homem! Obrigado por tudo PROFESSOR.

Foto: Rogério Soares

Certezas rompidas- Benjamin Clementine - Condolence | A Take Away Show

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De todas as expressões artísticas, a que menos me entusiasma é a música. Posso ficar meses sem ouvir uma única canção e assim mesmo não dar pela falta dela. Não fossem os cacofônicos cantores midiáticos, que lamentavelmente fazem as graças dos carros de sons-publicitários, e nem desconfiaria de que vai música no mundo. Como veem, não sou aficionado pela música. Prefiro antes um livro, um filme ou mesmo as horas de contemplação às obras de arte e aos trabalhos fotográficos que vou descobrindo enquanto cultivo o silêncio.

Nasci, a julga pelos hábitos modernos de andar com fones de ouvidos metido à orelha por todos os cantos, com o ouvido torto aos sons que escapam as rádios, tevês e aparelhos eletrônicos que seduzem a todos. Vai daí que para o mundo contemporâneo meu ouvido é inútil. Prefiro assim. Antes o silêncio. O mundo é-me uma coisa escandalosamente ruidosa, onde estar impenetrável aos vestígios de sons, parece impossível. Por isso aprecio o lar.

Depois do trabalho, o que mais me apetece é encontrar as paredes, que me isolam do burburinho mundano e me mantêm imunes aos ruídos que fazem do mundo uma caixa de som ensurdecedora. No lar sinto-me com a sensação de estar em um mosteiro em que gostaria de estar, cultivando o que minha fantasia monástica vai delirando. Nele posso conter o tumulto e isolar os sons que não me agradam e dedicar-me ao exercício da quietude ante um mundo cheio de estultícia.

Mas de repente também sei sentir a necessidade de ouvir música. Aí saio de minha hibernação para dar-me a chance de ver se endireito o ouvido. Nessas horas raras, troco a quietude das coisas pelo seu oposto. Em vez do silêncio, o alarido dos anjos caídos soa-me inebriantes. Vou-me embora no som e perco-me nas horas. De repente, dissipam-se minhas ilusões de silêncio e os ruídos do mundo rompem meu isolamento, trazendo consigo outros sons e não aqueles habituais que os médias vão espalhando como ratoeiras pelos caminhos das pessoas.  Tais horas são especialmente empolgantes quando acompanhadas de Benjamin Clementine empunhando seu piano em meio a um biblioteca enquanto inflama o ar com sua voz inigualável.

No caminho de Brasília

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A foto é velha, mas dar o que pensar. Ou assistimos a vê-la o definhar completo da moralidade política, ou os caminhos para Brasília se converteram em caminhos de Damasco. Uma das duas alternativas há de explicar como em política nacional o canalha de ontem é o insuspeito de hoje. 

Ateísmo das coisas vãs



"A MORTE DOS DEUSES

A primeira das quatro biografias reunidas na Vida de Paulo Leminski é dedicada ao poeta negro Cruz e Sousa (1861-1898), filho de escravos adoptado pelo proprietário de seu pai, um mestre-pedreiro, que contra todas as probabilidades aprendeu a ler e a escrever. É no entretanto da análise poética levada a cabo por Leminski, sempre atenta ao detalhe e minuciosa nos aspectos que julgaríamos menos relevantes, que encontro este argumento fortíssimo contra o meu ateísmo. Fala-se, refira-se a título de introdução, na capacidade que a cultura negra teve para resistir a um violento processo de aculturação que, por exemplo, praticamente exterminou a cultura do índio. Estamos no campo da citação da citação:

«No jornal, uma entrevista recente com o maior teatrólogo da Nigéria, um intelectual de esquerda:

— Os brancos nos trouxeram coisas de valor. Como o seu pensamento científico e filosófico, incluindo o marxismo. Mas o preço que temos que pagar é alto demais. O ateísmo é a morte dos deuses. Com a morte dos deuses, vem a morte das danças, que são para os deuses. Com a morte da dança, vem a morte da música, que acompanha as danças. Ao adotarmos filosofia ateia, estaremos matando toda a árvore da nossa cultura. Um marxismo, para nós, não pode nem deve negar nossas crenças. Porque estaria negando a nós mesmos».

Imagine-se, por arrasto, o que seria da poesia com a morte da música. Esta inquestionável ligação da produção artística ao culto do sagrado tem uma enorme força, sendo indesmentível em termos arqueológicos e ressuscitando o velho problema do ovo e da galinha: primeiro os deuses ou a arte? Eu tendo a acreditar que foi a arte que gerou os deuses, mas mesmo nesse domínio reconheço não poder escapar ao pântano da fé.

Produtos da fantasia, por certo, mas vinculados a uma necessidade física, uma necessidade até de sobrevivência, os deuses, enquanto personagens fictícias do reinado metafísico, expressam (a palavra é mesmo esta) um modo de olhar para o mundo, uma perspectiva, um modo de sentir o lugar do homem na vasta geografia natural, expressam um modo de estar com a Natureza que, nas suas múltiplas variantes, se resumiu a tentar dominá-la (monoteísmos) ou simplesmente aceitá-la, venerá-la, procurar com ela um estado de fusão integrador (paganismos).

Daí que o grande desafio do ateísmo não seja negar os deuses, como quem se ocupa de negar o que à partida considera inexistente, mas antes empenhar-se em impedir que o deus único das três grandes religiões se imponha pela força a todo e qualquer culto do sagrado que não se reconheça na arquitectura fascista dos preferidos e dos eleitos. No fundo, trata-se de garantir que o motivo para a dança, para a música, para a poesia se mantenha vivo."

Daqui: Antologia do Esquecimento 

O gigante de pés de barro

Foto: William Gedney
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Por alguma razão, que a sociologia pode melhor explicar do que eu, a fotografia Americana do século XX tinha um profundo interesse em dar a ver a vida de jovens e crianças. Quase sempre esses registros, mostram uma América longe dos ideários propagandísticos de terra da oportunidade. São ao contrário flagrante do gigante de pés de barro.

Tempos delirante


Foto: Elliott Erwitt
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Entendo que as pessoas creditem ensinamentos, valores e outros fingimentos aos vídeos que coalham no WhatsApp. É que em nosso tempo é sempre preferível apegar-se a ilusões, do que se sentir sem valor de mercado, por não andar cultivando a última merdola da moda. 

Um mundo selvagem que não perdoa nem a infância

Foto: Urs Odermatt Windisch, 1958
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Quando eu era criança os meninos e meninas adoeciam. Tínhamos perebas, ínguas, vermes, manchas embranquecidas nas unhas, que se dizia ser sinais de problemas no fígado. Verrugas espalhavam-se pelas mãos e atingiam os joelhos, dando aspecto asqueroso aos moleques mais travessos que se machucavam. Em casos mais graves, as crianças nasciam com problemas de ortopedia e tinham de usar umas botas esquisitas, que lhe davam um caminhar robótico.

Hoje as crianças também adoecem, porém, estão bem longe de sofrerem dos mesmos males da minha época. As crianças de hoje têm doenças com nomes esquisitos e sofrem de males da mente. Talvez por isso a especialidade médica que melhor as assiste, seja a psiquiatria. As crianças hoje sofrem de "hiperatividade", "déficits de atenção", "Aspergers", "autismo", “depressão profunda”, e outras perturbações correlacionadas. Antes desse novo tempo, cheio de novidade, jamais havíamos ouvido falar de psiquiatras.

Como curar essas moléstias? Em minha época tínhamos toda uma ciência popular a qual recorriam os pais para socorrerem as crianças dos seus pequenos males. Curávamos vermes entupindo a criança com semente de abóbora e depois fazendo com que ela sentasse de cócoras numa bacia d´água morna. Em poucas horas, verme algum seguia molestando os meninos bojudos. As verrugas eram facilmente removidas quando as crianças eram orientadas a não mais contarem estrelas apontando com o dedo para o céu. Agora, como é que se cura Aspergers? Tem cura essa doença? Quais as suas causas e por que as crianças são afetadas por ela?

Não sou nenhum especialista. Não tenho nenhuma autoridade para falar do assunto. Mas imagino que todos esses males não se deva a outra coisa, senão as pressões sociais as quais as crianças estão submetidas. Não há mais espaço livre para viver a infância. Nem bem nascem, as crianças já têm responsabilidades e lhes são exigidas que as cumpram. Sob pena de terem o seu futuro comprometido, pais zelosos empurram os filhos às aulas, que cada vez se iniciam mais cedo. Não contentes com essas horas de entrega aos estudos, quando os pequenos voltam à casa vindo das escolas, têm outras obrigações que os esperam. São levados ao cursinho de inglês, as aulas de natação, balé, música, teatro... nenhuma de suas horas são gastas com a tarefa de ser criança. Nenhum de seus momentos mais ternos são vividos com os pais. Antecipa-se o mundo adulto, com seus compromissos e responsabilidades cada vez mais cedo às crianças.