Capelistas


Depois do fim das eleições no ano passado, com o seu insuperável festival de baixarias, mentiras e outras imposturas, eu supôs que a guerrilha de quarto, já cansada de tanta sujidade e desmuniciada com o fechamento das urnas, recolheria as suas baterias e faria sossegar os canhões, apontados às mentes e corações dos incautos eleitores.

Agora podemos gozar horas amenas... pensei eu... desfrutar os prazeres de navegar pela internet sem ter que dar de encontro com disfarces ideológicos fajutos, travestidos em torrentes numéricas, que dizem desmentir (ou mentem ainda mais, não se sabe) o que se supõe “calúnias” “difamações” e ingerência midiática sem fim. Infelizmente eu estava equivocado. Mais uma vez a estupidez não deu trégua, e a internet voltou a ser o palco de bufões alegres, entretidos em trocar acusações. 

Entrincheirados em suas posições ideológicas, esses intrépidos agentes circenses, querem nos fazer crer, antes gráficos, tabelas, mapeamentos econômicos, variações cambiais e outras alquimias políticas, sabedores de todas as verdades que precisamos saber, para ir bem nas escolhas dos dirigentes do povo. Embora pareçam esclarecer, não fazem mais do que, monocordicamente, ladrar uma fraseologia, que logo se vê de cara, está subordinada às exigências da tática política à qual prestam vassalagem. 

Passados mais de um ano das eleições presidenciais não há um único momento em que não deixamos de perceber que a política, entre outras coisas, é capaz de desmiolar os seus entusiastas e os fazer padecer de uma certa indigência mental insuperável. Ah! Como seria bom ser surpreendido em política, com ideias e discursos livres de amarras ideológicas. 

Bestiário político

"Se o Lula mandasse eu votar num cachorro eu votava".

A política e o país são o que são pelas razões que ouvimos num bar à mesa com os amigos.

Vive la France

Foto: Robert Doisneau
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A França é surpreendente. Leio no blog da Maria do Rosário que, em meio a crescente onda de expansão dos saites de venda de livros, que monopolizam o mercado e soterram as pequenas livrarias, a França cria uma série de medidas para defender as livrarias tradicionais. A Câmara de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e por essa razão está atenta aos livreiros que precisam de ajuda para se manterem vivos. Algumas das medidas já adotadas foram: isenção de impostos e subsídio para atividades de promoção de livros nesses pequenos comércios. A população também se moveu. Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados em ruas de comércio e aluga-os por renda baixa, a cerca de metade do preço de mercado, para livreiros se instalarem. Conscientes da importância das livrarias tradicionais os editores se reuniram e criaram um fundo que permite a novos livreiros começarem a atividade sem pagarem nada antes de dois anos. Por sua vez os livreiros criaram um saite coletivo que difundem agenda de ações e sugerem aos leitores livrarias, onde possam encontrar o livro desejado. Não direi nada sobre as políticas de promoção dos pequenos livreiros no nosso país, não tenho informação sobre a existência ou não dessas políticas. Mas posso afirmar que, se existem, não estão funcionando. Quando vivi em São Paulo costumava visitar os sebos na região do Centro da cidade. Por anos vi esses comércios desaparecerem. Assediados pelo mercado imobiliário e fragilizados pela concorrência desleal com as gigantes do comércio on-line os sebos da região central de São Paulo cederam espaços às garagens ou às lojas de xingui lingui chinesas, que se proliferam pelo centro como cancro num corpo furibundo. Penso que ter onde deixar o carro, quando se vai à um lugar é importante. Mas não mais importante do que incentivar a permanência do comercio tradicional de livros, que tanto podem fazer para expandir o conhecimento e criar uma cultura de valorização de espaços sociais, onde se possa viver a vida em comunidade. A virtualidade mata. 

Doce ilusão

Foto: Vivian Maier, New York, 1954. 
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Chega aquela hora do dia em que você se encontra finalmente em casa. Depois de cumprida a labuta diária, que lhe impedirá os vexames de ter à porta, credores lembrando-o dos compromissos firmados e não horados, está na hora de se entregar alegremente àquele prazer que lhe reconstitui as forças. Antes, uma passada pela cozinha, porque lá em casa ainda não conhecemos máquinas capazes de limpar sozinha as loiças empilhada na pia. Vencido mais essa tarefa, que nos exila dos contentamentos mais chãs, finalmente podemos estar onde mais desejamos. Na cama, a dormir e a sonhar que somos uma criança, a porta da uma delicatessen, esperando a guloseima tão desejada nas mãos.

Num ritmo sereno

Foto: Rogério Soares, 
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Adoro fotografias. Isso aqui todos já sabem. Por mim passava os dias olhando os flagrantes de imagens que os fotógrafos vão colhendo pelo mundo. Não importa o tema. Fotografia de moda, fotografia artística, fotografia de paisagens, fotografia de rua, fotomontagem, lugares distantes ou meros registros cotidianos. Não são os temas o que me cativam, mas o quanto num instante, o fotógrafo consegue deter de transcendente num registro banal. Um bom fotógrafo é capaz de num ensaio de moda atrair para o centro de gravidade do olho, não apenas o fetiche da roupa, mas além dela, fazer o expectador dar uma volta ao entendimento e chegar a lugares impensáveis num primeiro momento, só por estar contemplando uma foto. Naturalmente com a apreciação e a reverência pela arte, vem o desejo de também fazer fotografia. Por isso, desde que comprei uma câmera ando as voltas comigo mesmo tentando apurar o olhar e fazer imagens que também façam quem as aprecie achar algo a mais nelas do que o mero registro banal do real. Livrar-se das velhas formas de ver o mundo é um bom começo para se preparar para a fotografia. Mas não é fácil desacostumar os olhos. Os condicionamentos também atingem a vista como atingem e moldam o andar, o sorrir, o gesticular, etc.. É preciso portanto, desacostumar o olho e imprimir ao ato de mirar as coisas um desvio que desarticule o estabelecido. Um bom exercício para alcançar isso, na ausência de um melhor método, tem sido demorar os olhos sobre os objetos. Contemplar, contemplar, contemplar sem pressa. Pousar a vista sobre uma paisagem, grupos de pessoas, coisas e encará-las por horas, esperando que em algum momento elas revelem ao olho algo que o ritmo apressado não deixou apreender. O resultado tem sido uma insuspeitada expansão do horizonte, que se não tem escancarado as portas da percepção, vem servindo ao menos para divorciar-me da realidade apressada. A melhor imagem, tenho vindo a aprender, é aquela apreendida num ritmo mais compassado e sereno. 


Plágio criativo ou de como dá vida nova à coisas pretéritas.

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NOTAS AVULSAS.

Numa música antiga do Caetano Veloso tem um pedaço assim: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.

Todos adoravam. Era um refrão. E não era dele.

Ele teve várias chances de esclarecer a autoria, mas não se manifestou. Deveria. Era a parte mais bonita da letra, e canto não tem aspas.

Mais tarde um intelectual informou ao País: o verdadeiro autor era Fernando Pessoa.

Intelectual meia-boca: a frase é do general Pompeu, inimigo de Júlio Cézar. Foi dita numa carta, em 70 A.C.

Por muito tempo eu não entendia esse pedaço: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.
Como assim, “Viver não é preciso?"

Só depois dos 30 entendi. Li em algum lugar: o “preciso” tinha o sentido de “exatidão”.

Os navegadores, já naquele tempo, tinham meios de orientação. Sempre sabia onde estavam.

"Navegar é exato. Viver não é exato". É isso aí.


(Carlos Antônio Jordão - 03 - 10 - 2015)

Há dias li estas notas e desde então venho pensando no plágio como uma ferramenta criativa. A culpa dessa inquietação também se deve a uma conversa com Iamara Junqueira. A tomada de empréstimo de ideias alheias Iamara, não pode está reduzida aos sentidos baratos que lhe atribuímos. Estou certo que uma apropriação indevida pode maquiar uma deficiência, daquele que se vale do outro, como uma muleta às suas limitações. Porém, há mais possibilidades nas apropriações, como sugere o texto do Carlos Antonio Jordão. Um bom exemplo dessas apropriações que renovam o estilo e arejam as artes, podemos apanhar em Picasso, que expressou em uma frase o estilo que o notabilizou: "Bons artistas copiam, grandes artistas roubam”.

Minha viagem a Salvador foi assim

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De Salvador trouxe outros tesouros. Lá descobri que a trilogia AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA, editada pela Paz & Terra, ganhou nova edição. Eu tenho o volume dois da edição anterior. Adquiri agora o volume um. Tem sido nesses dias a minha leitura de cabeceira. Hoje li as aventuras vividas pelo semideus Héracles, mais conhecido por nós pelo nome latino de Hércules.

No passado as aventuras desse herói davam grandes lições às crianças. Por elas os miúdos alcançavam o estimulo necessário para vencer os seus desafios, dotavam-se de saberes tradicionais e desassossegavam a imaginação, que a partir de então não lhes deixava jamais.

Hoje, mesmerizadas pelos médias, elas se ocupam em sonhar com uma viagem a Disney e desconhecem aquilo que podem contribuir para que cresçam saudavelmente. Pais, acordem. Escolas, vamos ler para as crianças livros que emancipem.


Nunca foi tão fácil ser feliz... nunca foi tão difícil ser feliz.

Foto: Alberto Korda, La niña de la muñeca de palo. 1959.
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Acreditando que o dinheiro, redime a meia-vida de frustrações que levaram, os pais de uma nova geração de jovens, dão às crianças de hoje, uma vida desafogada. Proporcionam-lhes mimos, impensáveis, há bem pouco tempo: viagens, carros, celulares caros, roupas de grife, festas e se silenciam quando eles elevam a voz ou se deslumbram feito marionetes pelos artificialismos da indústria cultural. Tanta mordomia, no entanto, parece não ter baldado os sentimentos de incompletude da juventude, que assim como a geração de seus pais sentem um vazio na existência. Parece, portanto, que a felicidade não pode ser reduzida apenas a uma questão econômica. Ela se insere, em outras ordens de valores, bem menos perecível, que os condescendentes regalos paternos supõem.


A política sem pudor

Foto: Elliot Erwitt
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Quantos males mais teremos que suportar dos políticos atuais, até reconhecermos que eles não são dignos da posição que ocupam? Nos últimos meses governo e oposição, protagonizam lições de imoralidade e desprezo ao bom senso do eleitor, fazendo da política, um lugar asqueroso, que só nos reforçam os sentimentos de inutilidade que temos dela. Entrincheirados em suas táticas maquiavélicas, eles não nos deixam sonhar, por um instante se quer, com uma política nova, desprendida e digna do povo. A única lição que eles nos dão, todos os dias, é de que em política, consoante a posição que se encontram, os homens públicos falam sabendo que se estivessem na posição contrária, e perante a mesmíssima realidade, diriam exatamente o inverso do que pensa o seu adversário. Exemplos vários demonstram essa prática atualmente. Assim eles fazem parecer que a política é um negócio sujo e ordinário, onde as casualidades servem as conveniências do momento. Despem-se sem pudor das convicções pessoais que, os levaram à política, e transformam os brados nos palanques, em efeitos retóricos, que se esfumam no ar, logo após terem saltados das ruas para os gabinetes.


Aprender fotografia com a Bíblia

Foto: Stanley Kubrick
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"Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso". Mt. 6.22-23.

Como todos sabem Mateus, discípulo de Jesus, não conheceu a fotografia. Mas ao lê-lo tem-se a impressão de que ele intuía que o olhar, acabaria por se tornar maior quando apanhado com atenção. Atenção que é o princípio básico no ofício de todo grande fotógrafo.

Fotografia é arte

Fotógrafo: Alberto García-Alix
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A fotografia é uma arte? É. Porém sua expressão se presta a muitas confusões entre o que é meramente banal e o que tem conteúdo artístico. Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que por ser tão banalizada o público tem dificuldade em selecionar o que não é arte e o que é. O outro é que ela está excessivamente vinculada aos objetos reais, isso já explicou Susan Sontag, e muitos só a percebem por isso com o fim de descrever alguma coisa, reproduzindo a realidade tal como os olhos a percebem. Mas a fotografia, ao menos uma parte dela, não é finalística. Ou seja ela não se encerra no objeto dado. Uma imagem bem pode estar ali sugerindo outros conteúdos e iluminando uma outra realidade para além daquilo que se vê à primeira vista. Com vistas à arte, a fotografia exprime uma maneira de ver as coisas além do objeto dado pela representação. Com um sentido artístico, a foto deixa de ser meramente a reprodução do real e passa a ser compreendida como uma emanação da mente do fotógrafo, a sua interpretação das coisas e do mundo. Ela abandona, assim, o status de registro banal e alça seu sentido à outras esferas. Veja-se a propósito do que estou falando, um trabalho do espanhol Alberto García-Alix (n. León, 1956). Quem ver essa fotografia, não pensará que o sentido último dela se encerra na representação de uma jovem retratada pelo fotografo, mas que sua mensagem ultrapassa essa realidade. Os sentidos dados aqui são inúmeros. As sugestões são incontáveis. Vai daí que essa fotografia, diferente das generalidades que se vê no face ou em outras plataformas sociais, não se presta a uma interpretação limitadora, porque ela está carregada de sentidos. 

Asinina condição

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Gostamos do que nos dá estatuto. Tanto pode ser uma roupa de marca, um smartphone no bolso ou um orgulhoso livro de sacanagens que ouvimos dizer que todos estão lendo e por isso achamos que merecemos também lê-lo, apesar de não gostarmos de ler muito. Mas isso não deveria ser assim. Todas essas quinquilharias, todos esses penduricalhos, todos esses imbróglios, não se constituem, realmente, num luxo verdadeiro. São antes a prova provada de nossa asinina condição de bestas, domesticadas pelo consumo irracional. Fossem mesmo importantes, todos esses bibelôs, traríamos a todos à felicidade. Porém, não é isso o que vemos.  

Sem remédio

Duas noites insone. Dores no peito e nas costas. Tosse incessante. Uma chapa do pulmão (adoro essa palavra, chapa, me lembra o vocabulário de minha vó) e o diagnóstico: um princípio de pneumonia. De repente, me pego pensando o quanto somos vulneráveis. Parecemos um castelo de areia, feito por um deus-criança, que brinca na praia e depois se vai, deixando para trás o brinquedo, que o distraiu por umas horas, ao sabor das intempéries. Se não for as perturbações atmosféricas a nos levar, será talvez a negligência de alguns. Dos três medicamentos receitados pelo médico, que me atendeu, um deles está fora de circulação há pelo menos três anos, garantiram-me os farmacêuticos de Caetité. Uma olhada no carimbo do doutor e fico a saber, que ele também é professor. Ai encontro a resposta para tamanha desatualização. Os nossos professores, com raríssimas exceções, não se preocupam em se atualizarem. Conheço um que se orgulha de não ter lido um único livro, depois que saiu da faculdade. Outro que fez um curso, apenas para acrescer mais um 0 ao seu contracheque, sem prestar o menor zelo ao que estava estudando. O professor que não ler ou que não estuda, continuamente, é semelhante ao médico que receita ao paciente um remédio que não existe. 

De cães e outros bichos

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Muitos já devem ter percebido isso. As pessoas que gostam de animais costumam atribuir certas qualidades morais àqueles que como elas admiram os bichinhos. Entre outras qualidades elas são, segundo os critérios cabalísticos: amáveis, confiáveis e solidárias incontestes. A mesma sorte, no entanto, não têm os que por qualquer razão não se sentem confortáveis com os peludos.

Como se os animais não passassem de animais, mas seres superiores, capazes de revelar dotes ou transparecer faltas nos homens, os muitos admiradores dos gatinhos ou dos cãezinhos, desconfiam sempre dos que guardam reserva aos bichinhos. Ao menos é isso que ouço dos amigos que têm animais. Não lhes parecem estranho, atribuir aos cães o julgamento moral de uma pessoa.

Como não sou daqueles que se atraem pelos cães, nem por qualquer outro bicho, foram sem conta, o número de vezes em que, constrangido, não soube esconder dos donos de animais, o meu desconforto com a presença dos animaizinhos queridos. Ao revelar esse sentimento não pude deixar de perceber que tinha, para os amantes dos animais, acabado de cometer uma imperdoável heresia.

Apenas por estar em desacordo com seus sentimentos fofos, sentia que a revelação de meu desapego aos bichos, acabava por lhes acender um desapontamento profundo que os faziam, desde então, olhar-me de esguelha.  

Penso que não tenho que amar um animal e o manter encarcerado em minha casa só para provar que tenho sentimentos e posso ser uma pessoa confiável. Esse é um modo estranho de julgar alguém. Há, por certo, outros critérios que fazem de alguém uma pessoa amável, solidária e confiável. Não precisamos, ao contrário do que pensam os amantes dos bichos, consultar os latidos dos cães. O senhor na foto acima não me deixa mentir. 



A cultura da não violência

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“Temos que nos tornar a mudança que queremos ver”.
Gandhi

Quem não pressente, diariamente, que as sociedades desenvolvidas vão se erguendo sobre o desprezo dos valores comunitários, da solidariedade e do respeito ao outro? Num mundo ressecado pela competição e o individualismo, quase não há lugar para os melhores sentimentos humanos. O que impera, são rancores, ódios e sentimentos destrutivos de uns contra os outros, que põem o mundo em continuo pé de guerra. Falo assim, porque vejo, lá pela escola, todos os dias, atos de brutalidade gratuita, que vão se naturalizando, quando não deveriam.

Mas até hoje - e espero que isso nunca me aconteça - nenhuma das ameaças que ouço os alunos trocarem, nenhuma das barbáries ditas com ar de indiferença, nenhum dos destemperos testemunhados, ou dos atos de banalização da violência, foram capazes de me destituir a crença de que os homens são feitos da mesma matéria, e portanto, a aparente separação que os diferem, não passa, de um efeito das formas temporais. “A verdadeira realidade da humanidade”, escreveu Joseph Campbell, “está na unidade com todas as formas de vida”.

Isso significa dizer que, você e eu somos um só. Essa percepção do outro como uma parte de mim, e não como um outro indiferente, está nos faltando. A ganância do sentimento individualista nos cegou para essa nobre verdade. Precisamos urgente reaver essa percepção do mundo que restaura em nós o outro como uma parte infalível de nós mesmos.

Podemos começar aprendendo com os hindus, budistas e javanistas que há milênios, saúdam-se mutuamente com um gesto de contração das mãos sobre o peito; depois se curvam em reverência uns aos outros, enquanto pronunciam a palavra: NAMASTÊ. A palavra vem do sânscrito e significa: “o deus que me habita saúda o deus que te habita”. A dignidade desse simples gesto, expressa a grandeza de reconhecer no outro - pode ser um alguém, que vejo pela primeira vez, ou um ente querido - o reconhecimento de que os indivíduos, não me são indiferente, transparente ou invisível. Ao contrário, são seres superiores e que portanto merecem igual respeito, admiração e zelo. 


Afugentar os fastios


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O mundo, seria uma morada tristonha, senão houve alguns encantos, que afugentassem os fastios. 

Mais um dos meus fotógrafos prediletos ou como apanhar lições observando.

Foto: Gordon Parks, At Segregated Drinking Fountain, Mobile, Alabama, 1956.

Entre outros tantos aliados, a luta contra a segregação racial nos EUA, contou, com o contributo estimável da fotografia. Um dos nomes incontornáveis nessa trincheira, foi o do fotógrafo Gordon Parks. Morto em 2006, ele deixou uma série de registros fotográficos da vida cotidiana de negros americanos, que ajudaram os Estados Unidos e o mundo, a reconhecer que: há vilanias humanas, que desmentem nossas mais nobres pretensões de superioridade sobre as bestas. 

Passados tantos anos, suas fotos continuam a nos inquietar. Ao observá-las, rendemo-nos ao fato de que, as fotos não são, como disse, Susan Sontag, impessoais. Elas indiciam “não apenas um registro, mas uma avaliação do mundo”. As fotos de Gordon Parks captam o que Alfred Stieglitz, o primeiro grande fotógrafo americano, chamou de momento apropriado. O momento apropriado, escreveu Susan Sontag, “é aquele em que se consegue ver coisas (sobretudo aquilo que todos já viram) de um modo novo. E o que vemos ao mirar as fotos de Parks é a segregação racial em quadros ultrarrealistas.  

A festa da Mandioca

Há décadas, o distrito caetiteense de Maniaçu celebra as suas raízes. Raízes aqui não é mero adorno linguístico, impresso apenas para sugerir identidade e pertencimento. O sentido da palavra vai além, e toca o seu referente. É que Maniaçu cresceu e prosperou em torno do cultivo de um dos mais importantes alimentos brasileiro herdado dos índios: a mandioca.

Vai daí que esse tubérculo está, intimamente, ligado às origens do lugar. Foi em volta dele que famílias inteiras cresceram e que o lugar tornou-se referência no cultivo e manufatura dos vários produtos ligados à mandioca. Por esse motivo, o distrito da “mandioca grande” - essa é a tradução livre do nome indígena do lugar – realiza, todos os anos, um festejo que lembra à comunidade a fonte de sua origem.

Esse ano, o evento contou, mais uma vez, com a colaboração das escolas locais. Como é habitual, os colégios municipais Zelinda Teixeira e Nunila Ivo estiveram presentes e ajudaram a compor o desfile que coloriu o distrito. Abaixo alguns dos meus registros fotográficos do festejo. Cliquem na imagem e acessem o site.


P.S. Registro aqui também o meu agradecimento especial aos alunos do colégio Tereza Borges de Caetité que gentilmente me permitiram tirar todas as fotos quanto eu imaginasse deles, sem nenhuma reserva. Obrigado aos alunos pela confiança.

Diálogo é a solução.

Foto: René Friede: Prisca, 1999

Notícias como está, estão se tornando perigosamente frequentes. Está evidente que vivemos um clima de guerra nas escolas. O stress, as cobranças, os compromissos, as frustrações e um sem-número de problemas sociais, torna o lugar que deveria ser o mais agradável do mundo, um campo minado, onde não se estar tranquilo para aprender.

Nessa guerra todos perdem. É inadiável, portanto, repensar a escola que estamos construindo. Nela, os jovens precisam entender que há melhores meios de resolverem os seus conflitos. E a escola precisa saber lidar com os dilemas juvenis, mediando os embates e construindo fóruns permanentes de diálogos que mitiguem possíveis choques nas relações entre professores e alunos.

Ninguém está livre do problema, nenhuma escola está imune as deformações sociais que todos os dias alteram os rumos da educação no país. É preciso portanto nos municiamos de coragem e solidariedade que são as únicas armas capazes de contornar os dilemas escolares. Eu acredito, mesmo contra todas as evidências, que a escola ainda é o melhor lugar para construir o futuro.

Nos ajudando a desafiar o futuro

 
Foto: Rogério Soares Brito. Visita a Contendas, agosto de 2015

Para melhor dominar um povo, escravizá-lo mesmo, há que sugar-lhe a memória, e, desse modo, eliminar-lhe a identidade. Chamamos a isso desmemoriação. Suas maiores vítimas, são os jovens. Seduzidos por um discurso fundado em aparências e promessa de juventude eterna, ao preço de ilusões cosméticas pagos a prestação, eles se deslumbram dia a dia com o novo, e viram as costas aos mais velhos. Por conseguinte, enfraquecem a sua identidade e assumem postiças formas de atuação no mundo. Interferir nesse aniquilamento das identidades é dever de todos nós que pressentimos que há valores na nossa comunidade e que eles são imprescindíveis.

Foi pensando nessa reação contra a desmemoriação e na valorização dum patrimônio de saberes que enriquece a nossa identidade, que visitamos a comunidade quilombola de Contendas, na última quarta-feira, com os alunos do colégio Zelinda Carvalho e Nunila Ivo, todos pertencentes ao distrito Caetiteense de Maniaçu. A visita foi uma iniciativa da professora Marili. No comboio estiveram também presentes a vice-diretora Vânia David e o professor João Chaves.

Ouvindo atentamente as vozes do passado, as crianças aprenderam que o sistema de vida que conhecem são distintos daqueles que os precederam. Naquele a franca hospitalidade, os comeres, as crenças, as festas, os costumes, as roupas, os gestos e tudo o mais, alicerçavam um modo de vida, que hoje vai se esfumando nos sentimentos egoístas e individualistas desse admirável mundo novo. Impostos por um sistema demolidor, das memórias do tempo em que a vida tinha valor sentimental, e onde as tradições falavam mais alto do que o poder corrosivo do vil metal, vivemos transformações que não sabemos bem onde vão dar.  

Em tempo, as crianças ainda puderam perceber que é um equívoco negar a importância de nossos velhos. “Haverá sempre lugar” escreveu Edson Carneiro, “para o eterno” explicando que o advento da luz elétrica não aboliu o uso da vela, e nem se tornaram obsoletas as canoas e as jangadas com o surgimento dos transatlânticos. Antes, essas novas invenções da modernidade, trouxeram ao homem novas maneiras de seguir a vida sem, no entanto, superar em definitivo as criações das tradições.


Assim como a vela nos socorre quando todo o aparato moderno de iluminação falha, os velhos são nossas referências na escuridão do mundo tecnológico e ultramoderno. Sem eles nos desorientamos. Sem eles todo um conjunto de manifestações e expressões de natureza intangível, que nos dar norte e nos auxilia a desafiar o futuro, se arruínam, e comprometem a nossa jornada pela vida. 

Foto: Rogério Soares, Contendas, 2015

Foto: Rogério Soares, Seu Geraldo, Líder comunitário de Contendas-Caetité: Bahia

A Indiferença

Foto: John Filo, 4 de maio de 1970. Jeffrey Miller, 20 anos, estudante, morto pela Guarda Nacional Americana, durante um protesto contra a decisão de Nixon de enviar tropas para o Camboja.

As fotografias têm muitas qualidades. Elas podem ser belas, ternas e guardar a memória de momentos inesquecíveis. Serão sempre felizes os álbuns de famílias, onde as pessoas parecem viver em eternos festins. Noutro extremo, as fotografias, também estão dispostas a recordar à humanidade a brutalidade e a selvageria que esse mesmo homo ludens é capaz de perpetrar, entre um banquete e outro com a família.  

Em Diante da dor dos outros, Susan Sontag argumenta baseando em vastas evidências, que vai desde “Os Desastres da Guerra”, de Goya, até aos documentos fotográficos da Guerra Civil americana, dos linchamentos de negros nos estados americanos do Sul, das Duas Grandes Guerras, da Guerra Civil espanhola, dos campos de extermínio nazi e das imagens contemporâneas da Bósnia, Serra Leoa, Ruanda, Israel e Palestina, bem como do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, que as imagens também podem, provocar dissenções, incitar à violência ou criar indiferença ante um público acrítico.

“As imagens, qualquer que seja a sua natureza, são elementos importantíssimos para o acompanhamento do processo histórico, assim como para a construção do discurso histórico. No caso particular das guerras havidas, pinturas, fotografias, imagens televisivas ou fitas resultantes de vídeos amadores, têm sido contributos relevantes para o seu conhecimento, análise, interpretação e reflexão. Mas em torno destas mesmas imagens, sobretudo as televisivas, algumas questões se podem levantar, nomeadamente no que concerne à banalização do sofrimento. À banalização do sofrimento dos outros, que poderá rapidamente transformar-se na banalização do nosso próprio sofrimento.”

Com os médias excretando tanto horror, as fotos das barbáries se potencializaram. Chegam-nos a todo instante imagens e mais imagens de todo o mundo. Sabemos o que acontece todos os dias em todos os lugares. No meio do jantar assistimos apáticos a execução brutal de seres humanos em qualquer bar de alguma periferia no país. E antes que a comida alcance o estômago, novas imagens de horror, rapidamente substituem as chacinas pelas execuções de prisioneiros de guerra. Os modos de aniquilamento são tão diversos quando as guloseimas dispostas na mesa do jantar.

A falta de pudor dos media e, em especial, da televisão, recupera tempos ominosos, que julgávamos ultrapassados. E na busca pela audiência eles não nos poupam da visão de horror e buscam os ângulos mais nauseantes das piores carnificinas.


Tratar a dor alheia assim com tanta indiferença, leva-nos a banalização da mal e como consequência anestesia a nossa sensibilidade às necessidades do outro. 

Juventude: a oitava maravilha.

Foto: William Klein.
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Em Hamlet, Shakespeare escreveu no Ato II cena I “...como é normal que a sensatez falte aos mais moços...”. Isso há cinco séculos. Vivesse hoje, o bardo inglês teria carregado no adjetivo e pintando de tintas mais forte a insensatez dos mais jovens. Eles são facilmente sugestionados por qualquer coisa que, os estimule os instintos mais baixos. Se deslumbram e caem de amores, as vedetas mais estéreis, e estão antes, mais dispostos a virarem as costas aos pais e professores, do que dar ouvidos a quem lhes têm maior consideração. Inflamam-se com insignificâncias e estão sempre animosos contra os que julgam os cerceadores de suas vontades. Quem os ouvem falar pensa que eles jamais frequentaram a escola. Estão, no entanto, seguros que assim mesmo, terão assegurado o melhor dos mundos possíveis para viver no futuro. 

Tornar as coisas ordinárias

Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015
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Há dias vi um registro fotográfico dos mais brutais. Tratava-se de um mergulho profundo nas mazelas vivida, por uma parcela significativa da população portuguesa nos dias atuais. 

Em pleno século XXI, nas zonas rurais do país que colonizou o Brasil, vivem milhares de despossuídos. A despeito das muitas virtudes, Portugal, lamentavelmente, ainda é um país pobre e injusto. E foram estes despossuídos e injustiçados, que o fotógrafo Armando Jorge, revelou num trabalho intitulado: Portugal Rural.

Muitos foram os que comentaram os registros do fotógrafo no facebook. Chamou-me porém, a atenção, o fato de que a grande maioria dos comentários, passavam ao largo da visão reveladora das péssimas condições de vida, de parcela de portugueses, que amargam as piores condições de vida que um ser humano pode suportar.  

Muitos mais foram aqueles que ficaram embeiçados pelo desempenho da câmara, pelo apurado enquadramento das paisagens, e pelas estéreis virtudes da técnica fotográfica mostradas pelo artista... O que significa que há quem apenas se preocupe com frivolidades e deixe que aquilo que é verdadeiramente importante lhe passe desapercebido.

A qualquer um, com alguma sensibilidade, saltaria aos olhos as evidências revoltantes, das vergonhosas condições de vida, impingida aos muitos portugueses, que vivem à margem das benesses do poder. Mas aos olhos dos basbaques, que povoam o facebook e vivem as mídias eletrônicas e os aparelhos tecnológicos com devoção, não lhes parecem anormais que homens e mulheres esfarrapados ainda façam parte do cenário social.

A estilização tecnológica redimiu da carneirada todas as inquietações e arrefeceu as mais dolorosas constatações.

Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015.

Sem lar

Hão-de ser sempre misteriosas, para mim, as razões dos ataques pessoais para conquista do eleitor. Sugerir que a candidata tal é mais macho que muito homem, ou que aquele outro é um alcoólatra inveterado, não me parece relevante ao debate das questões emergenciais do país. Porém, aos que pautam a política nacional, ou seja, os marqueteiros, esses expedientes parecem ferramentas indispensáveis na guerra pelo voto. É como disse o poeta Régis Bonvicino "os partidos não são mais o lar dos idealistas".

Brasil

Admite-se tudo nesse país, menos a honestidade. 

[POEMA] Ítaca – Constantino Kavafis


Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu

Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.


A vida é caos (II)



Isso não quer dizer, como parece sugerir, que estamos inelutavelmente presos às circunstâncias. Mas que somos levados a elas e podemos ou não permanecermos nelas. Somos cativos, até o momento em que entendemos o lugar onde estamos. 

Educação e cultura palavras que não alcançam nunca os políticos.

Foto: Dorothea Lange.
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Educação, cultura.... educação, cultura.... as mensagens estão soprando no ar. O que acontece com os políticos desse país que não entendem palavras tão simples? Haverá qualquer coisa de sobrenatural que os impeçam de alcançarem o valor dessas palavras ou eles são mesmo o que parecem serem: estúpidos incorrigíveis.

Doloroso vexame

Foto: André Kertész | Série On Reading
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“Um homem tem mais o que fazer no mundo do que ler!” Ouço daqueles que desdenham da leitura. Falam-me assim esperando que eu reaja as suas provocações com ar solene de quem pensa em livros a toda hora, e não sabe fazer outra coisa na vida, a não ser gastar os olhos sobre o papel tingido a tinta preta. Admiro os livros. Sei lhes tirar as vantagens, que só eles, a sua maneira, podem me proporcionar. Não posso falar pelos outros admiradores de livros, que estão por aí, mas vou ao livro, porque sei nele apanhar grandes lições. Lições que se esfumam na vida real desbotada pelo condicionamento de um trabalho maçante que pouco ou nenhum espaço deixa para enxergar outras possibilidades de vida. A leitura de um bom livro permiti-nos dar à volta as ideias gastas pelo uso, e reformar, de inusitadas maneiras, as convicções inabaladas que, faziam de nós o eixo de rotação da terra. Todos que têm alguma coisa a mais à cabeça, além dos habituais enfeites que os médias lhes metem, também sabem das vantagens de dispensar algumas horas a admiração das histórias que os escritores criam. Aos outros não é suposto coisa alguma. Quando estão diante do desafio de estarem sozinhos consigo, tendo um livro à mão, acham-se inertes e sentem-se desocupados. E estar desocupado, num mundo que pede a todos que se ocupem, é um doloroso vexame, que a qualquer custo se deve evitar.


Frustar expectativas

Foto: Alécio de Andrade
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As pessoas, com frequência, pedem-me que sugira algum livro para lerem. Por motivos vários não gosto de indicar leituras. São demasiadamente pessoais as razões que levam alguém aos livros. Alguns vão lá porque buscam um passatempo, uma fuga, umas horas preenchidas enquanto algo mais “útil” não chega. Outros esperam com eles iluminarem as incertezas. Tem ainda os que pensam que a leitura é uma coisa maçante, mas mesmo assim eles insistirão na indicação, pois supõe com isso, estarem construindo uma imagem de gente fina e elegante, só porque finge gostar de ler, o que não é verdade. Nenhuma dessas pessoas tem a ver com as simpatias literárias que nutro por este ou aquele autor, nem de longe comungam com as ideias que tenho de literatura. Como pois serei eu as lhes conduzir os livros necessários? Por isso me recuso a indicar leituras a alguém, os livros são coisas muito íntimas. Estão cá do lado esquerdo e não se mostram para duas pessoas da mesma maneira. Essa é uma razão. Mas existe outra.

Quando as pessoas insistem, teimando na indicação de um livro, mesmo eu lhe dando todas as desculpas do mundo para não lhes indicar coisa alguma, surge aí meu lado mais mefistofélico. E sinceramente eu não gosto quando isso acontece. Nesse momento dou a indicação pensando em fazer com que a leitura seja o momento mais desequilibrante que alguém jamais supôs viver na vida. Inverto os polos de interesse que, imagino fazer a cabeça de alguém, e sugiro leituras que vão na contramão do que cuido ser o desejo daquele alguém, que aporrinha a minha paciência, com coisas que sei, não lhes pinicam.

Sendo angelicais e castas, sugiro as leituras mais depravadas e insanas da literatura, Henry Miller e Dalton Trevisan. Sendo carolas, me apraz ver sua santidade posta à prova quando se veem enfronhada aos lençóis da perversão sexual e surdas de tanto ouvirem os gemidos dolorosos saídos da cabeça nervosa do Marquês de Sade ou Guilleragues, suposto autor da história da freirinha portuguesa que tem delírios eróticos com um oficial francês enquanto se encontra no claustro servindo a Cristo. Podem lá apanhar coisas uteis as pudicas, quando não estiverem de joelhos no regaço do Senhor, é claro. Se forem moralistas e se escandalizarem fácil com os adeptos de alucinógenos, aí falo sem parar das qualidades literárias inequívocas de um Thomas de Quincey ou de um Hunter S. Thompson. Sendo politicamente corretas indico sem pestanejar o americano Philip Roth. Os fúteis e consumistas sugiro o autor de “Ambição no Deserto”, Albert Cossery para quem os personagens que criou não tinha outro interesse senão falhar nos propósitos de se estar bem posicionado na vida, porque acreditava o autor, que o que matava as pessoas era a ambição desmedida que campeia no mundo do consumismo. Como veem a boa literatura não se faz com boas intenções. Então não é buscando conteúdos deliberados que as pessoas encontrarão os sentidos necessários ao entendimento da literatura. Mas as pessoas não estão dispostas a encararem a literatura nessa perspectiva. Vão a ela, cônscia de seus lugares no mundo. E aí esperam sempre encontrarem-se nos livros que não leram. Quando isso não acontece, frustram seu interesse e refugam ao encararem aquilo que se esforçaram tanto em maquilar.

Portanto sabendo que não gosto que me peçam indicações literárias não o façam. Não me peçam que sugiram-lhes leituras. Posso estar, sem querer, lhe dizendo o que penso de você.


Acudir aos homens

Foto: O poeta Marco Haurélio lendo um cordel na rua como os antigos cordelistas faziam.
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Na generalidade dos textos, que se convencionou chamar de Populares, aparecem histórias notáveis. Essas narrativas carregam consigo, ensinamentos e valores incalculáveis que não podem, de forma alguma, serem ignoradas. Vindo de eras pretéritas, elas apontam ao homem do presente, rotas alternativas, aos compromissos absurdos, que apenas conduzem os seres ao descalabro.

A mula sem cabeça, O lobo e o Cordeiro, A cigarra e a formiga, O Saci Pererê, O pequeno Polegar, As babuchas de Abu Kasem, A história dos dois homens que sonharam, os poemas dos cordelistas, o repente dos repentistas, são entidades e narrativas que atormentam, entretêm e educam as gerações e as comunidades por onde vão passando, orientando a todos em condutas probas e saudáveis ao convívio coletivo.

Dos testemunhos literários dessas narrativas podemos perceber o lado mais oculto e sombrio da natureza humana. Neles podemos também fazer-nos  melhores, para encarar as inevitáveis tormentas, que também fazem parte do pacote de se estar vivo, num mundo cercado de tristes belezas.

Bem percebidos, os ensinamentos colhidos nessas histórias, lendas, fábulas e contos, serão capazes de dotarem às novas gerações de saberes elementares para a sua sobrevivência na comunidade, e para a sobrevivência da comunidade enquanto entidade agregadora, solidária e mantenedora da ordem social.

Mas se ignoradas, da forma que estão sendo no mundo atual, em nada podem ajudar as crianças, os jovens e os adultos que pretendem superar seus temores internos, contornar os seus dramas sociais, ou livrar-se dos vícios e das inconstâncias que nos sacodem de um lado a outro da existência, sem nos dar sossego.

As mensagens ocultas, que nos chegam nas vozes mais sabias do passado, conduzem-nos, mais seguros pelas florestas escuras. Vai daí que não podemos desperdiçar esse guia confiável e experimentado que são as histórias populares. Esta era a conclusão do maior folclorista brasileiro, Câmara Cascudo. É a cultura popular na sua dimensão mais lúdica, a ferramenta mais eficaz na orientação do homem, perdido em terras estranhas.  

Infelizmente, essas histórias, continuam a serem tratadas como matéria decorativa para algum folclore barato, que pais, professores e autoridades políticas vão empregando para melhor desaperceber os que delas poderiam tirar proveito. Não fosse a Literatura Popular, encaradas com a obtusidade habitual dos que veem a cultura popular de forma tão apequenada, dariam a todos grandes lições.