Mark Twain disse que: "há três
espécies de mentiras: as mentiras, as mentiras sagradas e as
estatísticas". Fosse ainda vivo e tivesse morada no Brasil ele,
seguramente, incluiriam ao rol dessas mentiras, uma outra. A mentira Eduardo
Cunha que, se caracteriza, não por ser engenhosa ou mirabolante, mas por se
valer da crença de que, todos são parvos e, por essa razão, estão dispostos a
aceitarem uma farsa como verdade, apesar de todas as evidências em contrário. Embora
sejam os políticos quem nos governe, não é deles que devemos esperar remédio e
salvação para os nossos males, está bem visto, mas de nós próprios que, devemos
cultivar uma consciência social que se negue a aceitar o escárnio e a
delinquência como coisas normais.
As escuras
Foto: Albert Watson - Charlotte Arizona, 1988.
Minha mulher me censura a nudez que veja nas fotos de blog de fotografia. Sou forçado a cerrar as pálpebras e fingir que não vejo. Dentro da cegueira vejo ainda melhor que, se olhasse em direto as imagens que me vão surgindo ao redor. Mas ela não dá por isso. Tanto melhor. Assim, mesmo as escuras, sou mais livre.
Amigos
O bom de ter amigos - de verdade - é que
eles não precisam de empurrões das efemérides para sentirem que você é importante.
Eles podem estar distantes de você, mas ao andarem por aí, talvez em São José
do Rio Preto, sintam a sua presença nas coisas que vão vendo e de repente se
lembrem, de que aquilo que vão encontrando pelo caminho, talvez pudesse lhe
agradar, pois sabem como poucos aquilo que lhe cativa. Foi isso que se deu com
a minha amiga Cléo, que em viagem ao interior paulista encontrou-me numa loja de
mimos, entre os motivos fotográficos, cinematográficos e literários que estavam dependurados nas estantes. Cléo, obrigado por estares aí, por ligares e
perguntares por mim como quem quer realmente saber.
Peçonhentos
Desejo sempre que os políticos mordam a
língua quando falam. Estou com isso querendo que eles inoculem um pouco de seu
próprio veneno e sintam o quanto são peçonhentos.
Passageiro da agonia
Frame: Filme O Senhor das Moscas
.
Todos os anos vou duas ou mais vezes ao
Goiás. Minha mulher tem parentes por lá. Gostamos de estar entre eles. São
queridos, e muito caros aqui em casa, todos. Por isso, sempre que nos resta uma
folga, ou quando se avizinham as férias, corremos à terra de Cora Coralina, só
para estar entre aqueles que mais queremos bem. Nessas visitas, aproveitamos a
ocasião para passear pela cidade e flertar com as livrarias que, abundam no
centro. Mas sair pela cidade, em determinadas horas e locais, tem se tornado um
desafio que exige esforço e nervos sobre-humano. Algo, que descobri na última
viagem, a duras penas, não possuir.
Num sábado de folga dos deveres
domésticos, e já um tanto cansado da rotina de casa, sai com minha mulher, suas
duas sobrinhas pequenas, e minha comadre, que vive fora do país e vem todos os
anos passar as férias conosco. Fomos ao shopping Flamboyant que fica no centro
da capital goiana. Lá encontro sempre alguma promoção na FNAC ou na Saraiva,
que são primores de livrarias. Depois de horas percorrendo os livros, resolvemos
retornar ao lar, dado o adiantar das horas e a fadiga das crianças. Foi aí que
saímos, inimaginavelmente, de uma realidade comezinha dos passeios
familiares, para cair numa página de horror que bem poderia ter sido escrita
por William Golding ou Anthony Burgess em alguns de seus livros despóticos
sobre a raça humana.
Quando saltamos para dentro do ônibus,
que nos levaria para casa, não imaginávamos que no ponto seguinte, ainda em
frente ao shopping, viveríamos as piores horas de nossas vidas. De repente,
quando o ônibus parou para dá lugar algumas pessoas, que deram sinal no ponto,
fomos assaltados por uma horda de jovens, rapazes e moças, com idade entre 14 e
16 anos, não mais do que isso, que invadiram o ônibus forçando as portas e
intimidando, aos gritos e socos na lataria, a todos que estavam ali dentro. Aterrorizados,
passamos de passageiros à reféns, daqueles delinquentes juvenis, durante todo o
percurso do Flamboyant até o terminal Praça da Bíblia, ponto de baldeação no
transporte público de Goiânia.
Entre gritos de “Ohhh!!!!! horrrorrr!!!!!
É o bonde do terrorrrrrrrr!!!!!!” e outras bestialidades musicais que bem
agradam a mentalidade doentia da nova geração, os menores passaram a arrancaram
as luminárias do ônibus e com destreza de quem já há muito tempo pratica a
mesma ação, abriram com desenvoltura as portas traseiras do ônibus, mexendo no
mecanismo hidráulico que fica acima das portas. Com as portas escancaradas eles
passaram a surfar, literalmente, sobre as luminárias, fazendo um estrepitoso
barulho no asfalto enquanto o ônibus corria à noite Goiana. O motorista, refém como
nós dos delinquentes, não esboçou nenhuma reação aos delitos juvenis. De dentro
do ônibus os poucos passageiros que, não faziam parte daquele circo de horrores,
se entreolhavam atônitos com tamanha estupidez. Acuados
ficamos todos estupefatos com a ousadia e desrespeito daqueles jovens.
Entre o trajeto do pânico e a chegada ao
Terminal Praça da Bíblia foram minutos, mas pareceram horas. As tenebrosas
bestialidades juvenis nos fizeram saltar no terminal e seguir viajem em outro
meio de transporte. Antes que a situação pudesse se complicar ainda mais, nos enfiamos
no primeiro táxi que avistamos e largamos para trás os circo de horrores que
aquelas crianças perpetravam. Depois da experiência macabra de ver tantos jovens
se comportando como primatas, não quisemos pagar para ver aonde aqueles
delinquentes poderiam no levar.
A perturbadora cena de selvageria que
testemunhei naquela noite, me fez perceber que tocamos, definitivamente, o
fundo do poço. O inalcançável mostro da desumanidade não é mais uma personagem
de ficção cientifica a nos espreitar na tela do cinema ou nos acossar nas
páginas de um livro. Ele temerariamente saltou essa barreira, e não podemos nos
considerar desavisados, nem desentendidos dos horrores que a juventude de hoje
vai maquinando. Há um bom tempo correm noticias de que ela anda desgovernada, assim como a sociedade que a gestou. Tanta bruteza e desdém pelo semelhante são sintomas de uma comunidade falhada que abandonou o seu futuro por não haver encontrado esperança no presente.
Por todos os cantos há sinais de que a
vida em sociedade vai mal.
Um dia para esquecer
Naturalmente todos podemos viver maus
dias. Como o contrário também é verdade não temos porquê nos desesperarmos. Seria tão bom nos convencermos rápidos de que a vida é assim e assim devemos vivê-la, indiferentes por estarmos, ora por cima, ora por baixo. Mas isso não é tão fácil. Aprendemos a duras penas
que, não estamos tão imunes as circunstâncias que as impeça que, de vez em
quando, elas se assenhorem de nossos melhores dias, metendo-o de cabeça para
baixo. Não se trata aqui de questão de escolha. Por vezes somos joguetes do
destino. Quando ele não nos favorece, somos abatidos por algum desânimo e somos
forçados a aceitar que nem tudo vai bem. Paciência. Nestas horas o que nos
resta é querer que o dia se encerre, logo, ou que uma volta na roda da fortuna
nos leve bem rápido para um lugar onde as tristezas, não rocem tão ameaçadores o
fundo do poço.
Um bocadinho limitadora
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.
São muitos os felizes que vêem a
política sem matizes. Mansos, se deixam guiar pelos que lhes seguram as rédeas e
estão certos de que ter lugar é estar à esquerda ou à direita do mundo. Fora
disso, pensam, só há o muro, ou melhor, o em cima do muro. Isso tudo, é o muito
que se podem admitir de lugares. Não lhes ocorrem que, fora dos polos, além dos
extremos, ou longe dos muros, possa existir um outro lugar pra pensar.
Tomar posições, fincar bandeira, limitar
espaços é o que os fazem felizes e lhes alimentam as convicções mais mesquinhas.
Estão certos de seus lugares e de lá querem nos fazer crer que estão com toda
razão. Entendem a política como aquela
senhora do conto Olhar à direita, de
Oliver Sacks, que via o mundo à volta: em banda.
A história é narrado no livro de contos O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu.
Aos sessentas anos a Sra S., sofreu um grave derrame que afetou as porções mais
profundas e posteriores de seu hemisfério cerebral direito, fazendo com que
perdesse a visão do que lhe estava à esquerda.
“Às vezes”, narra Oliver Sacks, “ela
reclama que as enfermeiras não puseram a sobremesa ou o café em sua bandeja.
Quando elas replicam: “Mas sra. S., está bem aqui, à esquerda”, ela parece não
entender o que estão dizendo e não olha para a esquerda. Se sua cabeça for
delicadamente virada de modo que a sobremesa fique à vista, na metade
preservada de seu campo visual, ela diz: “Ah, está aqui — não estava antes”.
Ela perdeu por completo a ideia de “esquerda”, tanto com relação ao mundo como
a seu próprio corpo”.
Um tipo pode, como aconteceu com a Srs
S., estar acometido de um derrame ideológico e não dar por isso. As ideologias
podem ser um bocadinho limitadoras e no mundo deve haver mais lugares para as
ideias do que os compartimentos ideológicos, delimitados pela direita ou pela
esquerda nos querem fazer supor.
Capelistas
Depois do fim das eleições no ano
passado, com o seu insuperável festival de baixarias, mentiras e outras
imposturas, eu supôs que a guerrilha de quarto, já cansada de tanta sujidade e
desmuniciada com o fechamento das urnas, recolheria as suas baterias e faria
sossegar os canhões, apontados às mentes e corações dos incautos eleitores.
Agora podemos gozar horas amenas...
pensei eu... desfrutar os prazeres de navegar pela internet sem ter que dar de
encontro com disfarces ideológicos fajutos, travestidos em torrentes numéricas,
que dizem desmentir (ou mentem ainda mais, não se sabe) o que se supõe
“calúnias” “difamações” e ingerência midiática sem fim. Infelizmente eu estava
equivocado. Mais uma vez a estupidez não deu trégua, e a internet voltou a ser
o palco de bufões alegres, entretidos em trocar acusações.
Entrincheirados em suas posições
ideológicas, esses intrépidos agentes circenses, querem nos fazer crer, antes
gráficos, tabelas, mapeamentos econômicos, variações cambiais e outras
alquimias políticas, sabedores de todas as verdades que precisamos saber, para
ir bem nas escolhas dos dirigentes do povo. Embora pareçam esclarecer, não
fazem mais do que, monocordicamente, ladrar uma fraseologia, que logo se vê de
cara, está subordinada às exigências da tática política à qual prestam
vassalagem.
Passados mais de um ano das eleições
presidenciais não há um único momento em que não deixamos de perceber que a
política, entre outras coisas, é capaz de desmiolar os seus entusiastas e os
fazer padecer de uma certa indigência mental insuperável. Ah! Como seria bom
ser surpreendido em política, com ideias e discursos livres de amarras ideológicas.
Bestiário político
"Se
o Lula mandasse eu votar num cachorro eu votava".
A
política e o país são o que são pelas razões que ouvimos num bar à mesa com os
amigos.
Vive la France
Foto: Robert Doisneau
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A França é surpreendente. Leio no blog
da Maria do Rosário que, em meio a crescente onda de expansão dos saites de
venda de livros, que monopolizam o mercado e soterram as pequenas livrarias, a
França cria uma série de medidas para defender as livrarias tradicionais. A Câmara
de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e por essa razão
está atenta aos livreiros que precisam de ajuda para se manterem vivos. Algumas
das medidas já adotadas foram: isenção de impostos e subsídio para atividades
de promoção de livros nesses pequenos comércios. A população também se moveu.
Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados
em ruas de comércio e aluga-os por renda baixa, a cerca de metade do preço de
mercado, para livreiros se instalarem. Conscientes da importância das livrarias
tradicionais os editores se reuniram e criaram um fundo que permite a novos
livreiros começarem a atividade sem pagarem nada antes de dois anos. Por sua
vez os livreiros criaram um saite coletivo que difundem agenda de ações e
sugerem aos leitores livrarias, onde possam encontrar o livro desejado. Não
direi nada sobre as políticas de promoção dos pequenos livreiros no nosso país,
não tenho informação sobre a existência ou não dessas políticas. Mas posso afirmar
que, se existem, não estão funcionando. Quando vivi em São Paulo costumava
visitar os sebos na região do Centro da cidade. Por anos vi esses comércios desaparecerem.
Assediados pelo mercado imobiliário e fragilizados pela concorrência desleal
com as gigantes do comércio on-line os sebos da região central de São Paulo cederam
espaços às garagens ou às lojas de xingui lingui chinesas, que se proliferam
pelo centro como cancro num corpo furibundo. Penso que ter onde deixar o carro,
quando se vai à um lugar é importante. Mas não mais importante do que incentivar
a permanência do comercio tradicional de livros, que tanto podem fazer para
expandir o conhecimento e criar uma cultura de valorização de espaços sociais,
onde se possa viver a vida em comunidade. A virtualidade mata.
Doce ilusão
Foto: Vivian Maier, New York, 1954.
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Chega aquela hora do dia em que você se encontra finalmente em casa. Depois de cumprida a labuta diária, que lhe
impedirá os vexames de ter à porta, credores lembrando-o dos compromissos
firmados e não horados, está na hora de se entregar alegremente àquele prazer
que lhe reconstitui as forças. Antes, uma passada pela cozinha, porque lá em
casa ainda não conhecemos máquinas capazes de limpar sozinha as loiças empilhada na
pia. Vencido mais essa tarefa, que nos exila dos contentamentos mais chãs,
finalmente podemos estar onde mais desejamos. Na cama, a dormir e a sonhar que
somos uma criança, a porta da uma delicatessen,
esperando a guloseima tão desejada nas mãos.
Num ritmo sereno
Foto: Rogério Soares,
.
Adoro fotografias. Isso aqui todos já
sabem. Por mim passava os dias olhando os flagrantes de imagens que os
fotógrafos vão colhendo pelo mundo. Não importa o tema. Fotografia de moda,
fotografia artística, fotografia de paisagens, fotografia de rua, fotomontagem,
lugares distantes ou meros registros cotidianos. Não são os temas o que me
cativam, mas o quanto num instante, o fotógrafo consegue deter de transcendente
num registro banal. Um bom fotógrafo é capaz de num ensaio de moda atrair para
o centro de gravidade do olho, não apenas o fetiche da roupa, mas além dela,
fazer o expectador dar uma volta ao entendimento e chegar a lugares impensáveis
num primeiro momento, só por estar contemplando uma foto. Naturalmente com a
apreciação e a reverência pela arte, vem o desejo de também fazer fotografia.
Por isso, desde que comprei uma câmera ando as voltas comigo mesmo tentando
apurar o olhar e fazer imagens que também façam quem as aprecie achar algo a
mais nelas do que o mero registro banal do real. Livrar-se das velhas formas de
ver o mundo é um bom começo para se preparar para a fotografia. Mas não é fácil
desacostumar os olhos. Os condicionamentos também atingem a vista como atingem
e moldam o andar, o sorrir, o gesticular, etc.. É preciso portanto,
desacostumar o olho e imprimir ao ato de mirar as coisas um desvio que
desarticule o estabelecido. Um bom exercício para alcançar isso, na ausência de
um melhor método, tem sido demorar os olhos sobre os objetos. Contemplar,
contemplar, contemplar sem pressa. Pousar a vista sobre uma paisagem, grupos de
pessoas, coisas e encará-las por horas, esperando que em algum momento elas
revelem ao olho algo que o ritmo apressado não deixou apreender. O resultado
tem sido uma insuspeitada expansão do horizonte, que se não tem escancarado as
portas da percepção, vem servindo ao menos para divorciar-me da realidade
apressada. A melhor imagem, tenho vindo a aprender, é aquela apreendida num
ritmo mais compassado e sereno.
Plágio criativo ou de como dá vida nova à coisas pretéritas.
Numa música antiga do Caetano Veloso tem um pedaço
assim: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.
Todos adoravam. Era um refrão. E não era dele.
Ele teve várias chances de esclarecer a autoria, mas
não se manifestou. Deveria. Era a parte mais bonita da letra, e canto não tem
aspas.
Mais tarde um intelectual informou ao País: o
verdadeiro autor era Fernando Pessoa.
Intelectual meia-boca: a frase é do general Pompeu,
inimigo de Júlio Cézar. Foi dita numa carta, em 70 A.C.
Por muito tempo eu não entendia esse pedaço:
“Navegar é preciso. Viver não é preciso”.
Como assim, “Viver não é preciso?"
Só depois dos 30 entendi. Li em algum lugar: o
“preciso” tinha o sentido de “exatidão”.
Os navegadores, já naquele tempo, tinham meios de
orientação. Sempre sabia onde estavam.
"Navegar é exato. Viver não é exato". É
isso aí.
(Carlos Antônio Jordão - 03 - 10 - 2015)
Há dias li estas notas e desde então
venho pensando no plágio como uma ferramenta criativa. A culpa dessa
inquietação também se deve a uma conversa com Iamara Junqueira. A tomada de
empréstimo de ideias alheias Iamara, não pode está reduzida aos sentidos
baratos que lhe atribuímos. Estou certo que uma apropriação indevida pode
maquiar uma deficiência, daquele que se vale do outro, como uma muleta às suas
limitações. Porém, há mais possibilidades nas apropriações, como sugere o texto
do Carlos Antonio Jordão. Um bom exemplo dessas apropriações que renovam o
estilo e arejam as artes, podemos apanhar em Picasso, que expressou em uma
frase o estilo que o notabilizou: "Bons artistas copiam, grandes artistas
roubam”.
Minha viagem a Salvador foi assim
.
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De Salvador trouxe outros tesouros. Lá
descobri que a trilogia AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA,
editada pela Paz & Terra, ganhou nova edição. Eu tenho o volume dois da
edição anterior. Adquiri agora o volume um. Tem sido nesses dias a minha
leitura de cabeceira. Hoje li as aventuras vividas pelo semideus Héracles, mais
conhecido por nós pelo nome latino de Hércules.
No passado as aventuras desse herói
davam grandes lições às crianças. Por elas os miúdos alcançavam o estimulo
necessário para vencer os seus desafios, dotavam-se de saberes tradicionais e
desassossegavam a imaginação, que a partir de então não lhes deixava jamais.
Hoje, mesmerizadas pelos médias, elas se
ocupam em sonhar com uma viagem a Disney e desconhecem aquilo que podem
contribuir para que cresçam saudavelmente. Pais, acordem. Escolas, vamos ler
para as crianças livros que emancipem.
Nunca foi tão fácil ser feliz... nunca foi tão difícil ser feliz.
Foto: Alberto Korda, La niña de la muñeca de palo. 1959.
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Acreditando que o dinheiro, redime a
meia-vida de frustrações que levaram, os pais de uma nova geração de jovens, dão
às crianças de hoje, uma vida desafogada. Proporcionam-lhes mimos, impensáveis,
há bem pouco tempo: viagens, carros, celulares caros, roupas de grife, festas e
se silenciam quando eles elevam a voz ou se deslumbram feito marionetes pelos
artificialismos da indústria cultural. Tanta mordomia, no entanto, parece não
ter baldado os sentimentos de incompletude da juventude, que assim como a
geração de seus pais sentem um vazio na existência. Parece, portanto, que a
felicidade não pode ser reduzida apenas a uma questão econômica. Ela se insere,
em outras ordens de valores, bem menos perecível, que os condescendentes regalos
paternos supõem.
A política sem pudor
Foto: Elliot Erwitt
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Quantos males mais teremos que suportar
dos políticos atuais, até reconhecermos que eles não são dignos da posição que
ocupam? Nos últimos meses governo e oposição, protagonizam lições de
imoralidade e desprezo ao bom senso do eleitor, fazendo da política, um lugar
asqueroso, que só nos reforçam os sentimentos de inutilidade que temos dela.
Entrincheirados em suas táticas maquiavélicas, eles não nos deixam sonhar, por
um instante se quer, com uma política nova, desprendida e digna do povo. A única
lição que eles nos dão, todos os dias, é de que em política, consoante a
posição que se encontram, os homens públicos falam sabendo que se estivessem na
posição contrária, e perante a mesmíssima realidade, diriam exatamente o inverso
do que pensa o seu adversário. Exemplos vários demonstram essa prática
atualmente. Assim eles fazem parecer que a política é um negócio sujo e
ordinário, onde as casualidades servem as conveniências do momento. Despem-se
sem pudor das convicções pessoais que, os levaram à política, e transformam os
brados nos palanques, em efeitos retóricos, que se esfumam no ar, logo após terem
saltados das ruas para os gabinetes.
Aprender fotografia com a Bíblia
Foto: Stanley Kubrick
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"Se os teus olhos forem bons, todo
o teu corpo terá luz; se os teus olhos forem maus, o teu corpo será
tenebroso". Mt. 6.22-23.
Como todos sabem Mateus, discípulo de
Jesus, não conheceu a fotografia. Mas ao lê-lo tem-se a impressão de que ele
intuía que o olhar, acabaria por se tornar maior quando apanhado com atenção. Atenção
que é o princípio básico no ofício de todo grande fotógrafo.
Fotografia é arte
Fotógrafo: Alberto García-Alix
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A fotografia é uma arte? É. Porém sua
expressão se presta a muitas confusões entre o que é meramente banal e o que
tem conteúdo artístico. Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que por ser
tão banalizada o público tem dificuldade em selecionar o que não é arte e o que
é. O outro é que ela está excessivamente vinculada aos objetos reais, isso já
explicou Susan Sontag, e muitos só a percebem por isso com o fim de descrever
alguma coisa, reproduzindo a realidade tal como os olhos a percebem. Mas a
fotografia, ao menos uma parte dela, não é finalística. Ou seja ela não se
encerra no objeto dado. Uma imagem bem pode estar ali sugerindo outros
conteúdos e iluminando uma outra realidade para além daquilo que se vê à
primeira vista. Com vistas à arte, a fotografia exprime uma maneira de ver as
coisas além do objeto dado pela representação. Com um sentido artístico, a foto
deixa de ser meramente a reprodução do real e passa a ser compreendida como uma
emanação da mente do fotógrafo, a sua interpretação das coisas e do mundo. Ela
abandona, assim, o status de registro banal e alça seu sentido à outras
esferas. Veja-se a propósito do que estou falando, um trabalho do espanhol
Alberto García-Alix (n. León, 1956). Quem ver essa fotografia, não pensará que
o sentido último dela se encerra na representação de uma jovem retratada pelo
fotografo, mas que sua mensagem ultrapassa essa realidade. Os sentidos dados
aqui são inúmeros. As sugestões são incontáveis. Vai daí que essa fotografia,
diferente das generalidades que se vê no face ou em outras plataformas sociais,
não se presta a uma interpretação limitadora, porque ela está carregada de
sentidos.
Asinina condição
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Gostamos do que nos dá
estatuto. Tanto pode ser uma roupa de marca, um smartphone no bolso ou um
orgulhoso livro de sacanagens que ouvimos dizer que todos estão lendo e por
isso achamos que merecemos também lê-lo, apesar de não gostarmos de ler muito.
Mas isso não deveria ser assim. Todas essas quinquilharias, todos esses
penduricalhos, todos esses imbróglios, não se constituem, realmente, num luxo
verdadeiro. São antes a prova provada de nossa asinina condição de bestas, domesticadas pelo consumo irracional. Fossem mesmo importantes, todos esses bibelôs,
traríamos a todos à felicidade. Porém, não é isso o que vemos.
Sem remédio
Duas noites insone. Dores no peito e nas
costas. Tosse incessante. Uma chapa do pulmão (adoro essa palavra, chapa, me
lembra o vocabulário de minha vó) e o diagnóstico: um princípio de pneumonia.
De repente, me pego pensando o quanto somos vulneráveis. Parecemos um castelo
de areia, feito por um deus-criança, que brinca na praia e depois se vai,
deixando para trás o brinquedo, que o distraiu por umas horas, ao sabor das
intempéries. Se não for as perturbações atmosféricas a nos levar, será talvez a
negligência de alguns. Dos três medicamentos receitados pelo médico, que me
atendeu, um deles está fora de circulação há pelo menos três anos,
garantiram-me os farmacêuticos de Caetité. Uma olhada no carimbo do doutor e
fico a saber, que ele também é professor. Ai encontro a resposta para tamanha
desatualização. Os nossos professores, com raríssimas exceções, não se
preocupam em se atualizarem. Conheço um que se orgulha de não ter lido um único
livro, depois que saiu da faculdade. Outro que fez um curso, apenas para
acrescer mais um 0 ao seu contracheque, sem prestar o menor zelo ao que estava
estudando. O professor que não ler ou que não estuda, continuamente, é
semelhante ao médico que receita ao paciente um remédio que não existe.
De cães e outros bichos
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Muitos já devem ter
percebido isso. As pessoas que gostam de animais costumam atribuir certas qualidades
morais àqueles que como elas admiram os bichinhos. Entre outras qualidades elas
são, segundo os critérios cabalísticos: amáveis, confiáveis e solidárias
incontestes. A mesma sorte, no entanto, não têm os que por qualquer razão não
se sentem confortáveis com os peludos.
Como se os animais não
passassem de animais, mas seres superiores, capazes de revelar dotes ou
transparecer faltas nos homens, os muitos admiradores dos gatinhos ou dos cãezinhos,
desconfiam sempre dos que guardam reserva aos bichinhos. Ao menos é isso que
ouço dos amigos que têm animais. Não lhes parecem estranho, atribuir aos cães o
julgamento moral de uma pessoa.
Como não sou daqueles
que se atraem pelos cães, nem por qualquer outro bicho, foram sem conta, o
número de vezes em que, constrangido, não soube esconder dos donos de animais,
o meu desconforto com a presença dos animaizinhos queridos. Ao revelar esse sentimento
não pude deixar de perceber que tinha, para os amantes dos animais, acabado de cometer
uma imperdoável heresia.
Apenas por estar em
desacordo com seus sentimentos fofos, sentia que a revelação de meu desapego aos
bichos, acabava por lhes acender um desapontamento profundo que os faziam,
desde então, olhar-me de esguelha.
Penso que não tenho que
amar um animal e o manter encarcerado em minha casa só para provar que tenho
sentimentos e posso ser uma pessoa confiável. Esse é um modo estranho de julgar
alguém. Há, por certo, outros critérios que fazem de alguém uma pessoa amável,
solidária e confiável. Não precisamos, ao contrário do que pensam os amantes
dos bichos, consultar os latidos dos cães. O senhor na foto acima não me deixa mentir.
A cultura da não violência
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“Temos que nos tornar a mudança que
queremos ver”.
Gandhi
Quem não pressente, diariamente, que as
sociedades desenvolvidas vão se erguendo sobre o desprezo dos valores comunitários,
da solidariedade e do respeito ao outro? Num mundo ressecado pela competição e
o individualismo, quase não há lugar para os melhores sentimentos humanos. O
que impera, são rancores, ódios e sentimentos destrutivos de uns contra os
outros, que põem o mundo em continuo pé de guerra. Falo assim, porque vejo, lá pela
escola, todos os dias, atos de brutalidade gratuita, que vão se naturalizando,
quando não deveriam.
Mas até hoje - e espero que isso nunca
me aconteça - nenhuma das ameaças que ouço os alunos trocarem, nenhuma das barbáries
ditas com ar de indiferença, nenhum dos destemperos testemunhados, ou dos atos
de banalização da violência, foram capazes de me destituir a crença de que os
homens são feitos da mesma matéria, e portanto, a aparente separação que os
diferem, não passa, de um efeito das formas temporais. “A verdadeira realidade
da humanidade”, escreveu Joseph Campbell, “está na unidade com todas as formas
de vida”.
Isso significa dizer que, você e eu somos
um só. Essa percepção do outro como uma parte de mim, e não como um outro indiferente,
está nos faltando. A ganância do sentimento individualista nos cegou para essa nobre
verdade. Precisamos urgente reaver essa percepção do mundo que restaura em nós
o outro como uma parte infalível de nós mesmos.
Podemos começar aprendendo com os
hindus, budistas e javanistas que há milênios, saúdam-se mutuamente com um
gesto de contração das mãos sobre o peito; depois se curvam em reverência uns
aos outros, enquanto pronunciam a palavra: NAMASTÊ. A palavra vem do sânscrito
e significa: “o deus que me habita saúda o deus que te habita”. A dignidade
desse simples gesto, expressa a grandeza de reconhecer no outro - pode ser um
alguém, que vejo pela primeira vez, ou um ente querido - o reconhecimento de
que os indivíduos, não me são indiferente, transparente ou invisível. Ao
contrário, são seres superiores e que portanto merecem igual respeito,
admiração e zelo.
Mais um dos meus fotógrafos prediletos ou como apanhar lições observando.
Entre outros tantos
aliados, a luta contra a segregação racial nos EUA, contou, com o contributo
estimável da fotografia. Um dos nomes incontornáveis nessa trincheira, foi o do
fotógrafo Gordon Parks. Morto em 2006, ele deixou uma série de registros
fotográficos da vida cotidiana de negros americanos, que ajudaram os Estados
Unidos e o mundo, a reconhecer que: há vilanias humanas, que desmentem nossas
mais nobres pretensões de superioridade sobre as bestas.
Passados tantos anos, suas fotos continuam a nos inquietar. Ao observá-las, rendemo-nos ao fato de que, as fotos não são, como disse, Susan Sontag, impessoais. Elas indiciam “não apenas um registro, mas uma avaliação do mundo”. As fotos de Gordon Parks captam o que Alfred Stieglitz, o primeiro grande fotógrafo americano, chamou de momento apropriado. O momento apropriado, escreveu Susan Sontag, “é aquele em que se consegue ver coisas (sobretudo aquilo que todos já viram) de um modo novo. E o que vemos ao mirar as fotos de Parks é a segregação racial em quadros ultrarrealistas.
Passados tantos anos, suas fotos continuam a nos inquietar. Ao observá-las, rendemo-nos ao fato de que, as fotos não são, como disse, Susan Sontag, impessoais. Elas indiciam “não apenas um registro, mas uma avaliação do mundo”. As fotos de Gordon Parks captam o que Alfred Stieglitz, o primeiro grande fotógrafo americano, chamou de momento apropriado. O momento apropriado, escreveu Susan Sontag, “é aquele em que se consegue ver coisas (sobretudo aquilo que todos já viram) de um modo novo. E o que vemos ao mirar as fotos de Parks é a segregação racial em quadros ultrarrealistas.
A festa da Mandioca
Há décadas, o distrito
caetiteense de Maniaçu celebra as suas raízes. Raízes aqui não é mero adorno
linguístico, impresso apenas para sugerir identidade e pertencimento. O sentido
da palavra vai além, e toca o seu referente. É que Maniaçu cresceu e prosperou
em torno do cultivo de um dos mais importantes alimentos brasileiro herdado dos
índios: a mandioca.
Vai daí que esse
tubérculo está, intimamente, ligado às origens do lugar. Foi em volta dele que
famílias inteiras cresceram e que o lugar tornou-se referência no cultivo e
manufatura dos vários produtos ligados à mandioca. Por esse motivo, o distrito
da “mandioca grande” - essa é a tradução livre do nome indígena do lugar –
realiza, todos os anos, um festejo que lembra à comunidade a fonte de sua
origem.
Esse ano, o evento
contou, mais uma vez, com a colaboração das escolas locais. Como é habitual, os
colégios municipais Zelinda Teixeira e Nunila Ivo estiveram presentes e
ajudaram a compor o desfile que coloriu o distrito. Abaixo alguns dos meus
registros fotográficos do festejo. Cliquem na imagem e acessem o site.
P.S. Registro aqui
também o meu agradecimento especial aos alunos do colégio Tereza Borges de
Caetité que gentilmente me permitiram tirar todas as fotos quanto eu imaginasse
deles, sem nenhuma reserva. Obrigado aos alunos pela confiança.
Diálogo é a solução.
Foto: René Friede: Prisca, 1999
Notícias como está, estão se tornando
perigosamente frequentes. Está evidente que vivemos um clima de guerra nas
escolas. O stress, as cobranças, os compromissos, as frustrações e um sem-número
de problemas sociais, torna o lugar que deveria ser o mais agradável do mundo,
um campo minado, onde não se estar tranquilo para aprender.
Nessa guerra todos perdem. É inadiável,
portanto, repensar a escola que estamos construindo. Nela, os jovens precisam
entender que há melhores meios de resolverem os seus conflitos. E a escola
precisa saber lidar com os dilemas juvenis, mediando os embates e construindo
fóruns permanentes de diálogos que mitiguem possíveis choques nas relações
entre professores e alunos.
Ninguém está livre do problema, nenhuma
escola está imune as deformações sociais que todos os dias alteram os rumos da
educação no país. É preciso portanto nos municiamos de coragem e solidariedade
que são as únicas armas capazes de contornar os dilemas escolares. Eu acredito,
mesmo contra todas as evidências, que a escola ainda é o melhor lugar para
construir o futuro.
Nos ajudando a desafiar o futuro
Foto: Rogério Soares Brito. Visita a Contendas, agosto de 2015
Para melhor dominar um povo,
escravizá-lo mesmo, há que sugar-lhe a memória, e, desse modo, eliminar-lhe a
identidade. Chamamos a isso desmemoriação.
Suas maiores vítimas, são os jovens. Seduzidos por um discurso fundado em
aparências e promessa de juventude eterna, ao preço de ilusões cosméticas pagos
a prestação, eles se deslumbram dia a dia com o novo, e viram as costas aos
mais velhos. Por conseguinte, enfraquecem a sua identidade e assumem postiças
formas de atuação no mundo. Interferir nesse aniquilamento das identidades é dever
de todos nós que pressentimos que há valores na nossa comunidade e que eles são
imprescindíveis.
Foi pensando nessa reação contra a desmemoriação e na valorização dum patrimônio
de saberes que enriquece a nossa identidade, que visitamos a comunidade
quilombola de Contendas, na última quarta-feira, com os alunos do colégio
Zelinda Carvalho e Nunila Ivo, todos pertencentes ao distrito Caetiteense de
Maniaçu. A visita foi uma iniciativa da professora Marili. No comboio estiveram
também presentes a vice-diretora Vânia David e o professor João Chaves.
Ouvindo atentamente as vozes do passado,
as crianças aprenderam que o sistema de vida que conhecem são distintos
daqueles que os precederam. Naquele a franca hospitalidade, os comeres, as
crenças, as festas, os costumes, as roupas, os gestos e tudo o mais, alicerçavam
um modo de vida, que hoje vai se esfumando nos sentimentos egoístas e
individualistas desse admirável mundo novo. Impostos por um sistema demolidor,
das memórias do tempo em que a vida tinha valor sentimental, e onde as
tradições falavam mais alto do que o poder corrosivo do vil metal, vivemos
transformações que não sabemos bem onde vão dar.
Em tempo, as crianças ainda puderam
perceber que é um equívoco negar a importância de nossos velhos. “Haverá sempre
lugar” escreveu Edson Carneiro, “para o eterno” explicando que o advento da luz
elétrica não aboliu o uso da vela, e nem se tornaram obsoletas as canoas e as
jangadas com o surgimento dos transatlânticos. Antes, essas novas invenções da
modernidade, trouxeram ao homem novas maneiras de seguir a vida sem, no entanto,
superar em definitivo as criações das tradições.
Assim como a vela nos socorre quando
todo o aparato moderno de iluminação falha, os velhos são nossas referências na
escuridão do mundo tecnológico e ultramoderno. Sem eles nos desorientamos. Sem
eles todo
um conjunto de manifestações e expressões de natureza intangível, que nos dar
norte e nos auxilia a desafiar o futuro, se arruínam, e comprometem a nossa
jornada pela vida.
Foto: Rogério Soares, Contendas, 2015
Foto: Rogério Soares, Seu Geraldo, Líder comunitário de Contendas-Caetité: Bahia
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A Indiferença
Foto: John Filo, 4 de maio de 1970. Jeffrey Miller, 20 anos, estudante,
morto pela Guarda Nacional Americana, durante um protesto contra a decisão de
Nixon de enviar tropas para o Camboja.
As fotografias têm muitas qualidades.
Elas podem ser belas, ternas e guardar a memória de momentos inesquecíveis.
Serão sempre felizes os álbuns de famílias, onde as pessoas parecem viver em eternos
festins. Noutro extremo, as fotografias, também estão dispostas a recordar à
humanidade a brutalidade e a selvageria que esse mesmo homo ludens é capaz de perpetrar, entre um banquete e outro com a
família.
Em Diante
da dor dos outros, Susan Sontag argumenta baseando em vastas evidências, que
vai desde “Os Desastres da Guerra”, de Goya, até aos documentos fotográficos da
Guerra Civil americana, dos linchamentos de negros nos estados americanos do
Sul, das Duas Grandes Guerras, da Guerra Civil espanhola, dos campos de extermínio
nazi e das imagens contemporâneas da Bósnia, Serra Leoa, Ruanda, Israel e
Palestina, bem como do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque, que as imagens também
podem, provocar dissenções, incitar à violência ou criar indiferença ante um
público acrítico.
“As
imagens, qualquer que seja a sua natureza, são elementos importantíssimos para
o acompanhamento do processo histórico, assim como para a construção do
discurso histórico. No caso particular das guerras havidas, pinturas,
fotografias, imagens televisivas ou fitas resultantes de vídeos amadores, têm
sido contributos relevantes para o seu conhecimento, análise, interpretação e
reflexão. Mas em torno destas mesmas imagens, sobretudo as televisivas, algumas
questões se podem levantar, nomeadamente no que concerne à banalização do
sofrimento. À banalização do sofrimento dos outros, que poderá rapidamente
transformar-se na banalização do nosso próprio sofrimento.”
Com os médias excretando tanto horror,
as fotos das barbáries se potencializaram. Chegam-nos a todo instante imagens e
mais imagens de todo o mundo. Sabemos o que acontece todos os dias em todos os
lugares. No meio do jantar assistimos apáticos a execução brutal de seres
humanos em qualquer bar de alguma periferia no país. E antes que a comida
alcance o estômago, novas imagens de horror, rapidamente substituem as chacinas
pelas execuções de prisioneiros de guerra. Os modos de aniquilamento são tão
diversos quando as guloseimas dispostas na mesa do jantar.
A falta de pudor dos media e, em
especial, da televisão, recupera tempos ominosos, que julgávamos ultrapassados.
E na busca pela audiência eles não nos poupam da visão de horror e buscam os
ângulos mais nauseantes das piores carnificinas.
Tratar a dor alheia assim com tanta
indiferença, leva-nos a banalização da mal e como consequência anestesia a
nossa sensibilidade às necessidades do outro.
Juventude: a oitava maravilha.
Foto: William Klein.
.
Em Hamlet, Shakespeare escreveu no Ato
II cena I “...como é normal que a sensatez falte aos mais moços...”. Isso há
cinco séculos. Vivesse hoje, o bardo inglês teria carregado no adjetivo e
pintando de tintas mais forte a insensatez dos mais jovens. Eles são facilmente
sugestionados por qualquer coisa que, os estimule os instintos mais baixos. Se
deslumbram e caem de amores, as vedetas mais estéreis, e estão antes, mais
dispostos a virarem as costas aos pais e professores, do que dar ouvidos a quem
lhes têm maior consideração. Inflamam-se com insignificâncias e estão sempre
animosos contra os que julgam os cerceadores de suas vontades. Quem os ouvem falar pensa que eles jamais frequentaram a escola. Estão, no entanto, seguros que
assim mesmo, terão assegurado o melhor dos mundos possíveis para viver no
futuro.
Tornar as coisas ordinárias
Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015
.
Há dias vi um registro fotográfico dos
mais brutais. Tratava-se de um mergulho profundo nas mazelas vivida, por uma
parcela significativa da população portuguesa nos dias atuais.
Em pleno século XXI, nas zonas rurais do
país que colonizou o Brasil, vivem milhares de despossuídos. A despeito das
muitas virtudes, Portugal, lamentavelmente, ainda é um país pobre e injusto. E
foram estes despossuídos e injustiçados, que o fotógrafo Armando Jorge, revelou
num trabalho intitulado: Portugal Rural.
Muitos foram os que comentaram os registros
do fotógrafo no facebook. Chamou-me porém, a atenção, o fato de que a grande
maioria dos comentários, passavam ao largo da visão reveladora das péssimas condições
de vida, de parcela de portugueses, que amargam as piores condições de vida que
um ser humano pode suportar.
Muitos mais foram aqueles que ficaram
embeiçados pelo desempenho da câmara, pelo apurado enquadramento das paisagens,
e pelas estéreis virtudes da técnica fotográfica mostradas pelo artista... O
que significa que há quem apenas se preocupe com frivolidades e deixe que
aquilo que é verdadeiramente importante lhe passe desapercebido.
A qualquer um, com alguma sensibilidade,
saltaria aos olhos as evidências revoltantes, das vergonhosas condições de vida,
impingida aos muitos portugueses, que vivem à margem das benesses do poder. Mas
aos olhos dos basbaques, que povoam o facebook e vivem as mídias eletrônicas e
os aparelhos tecnológicos com devoção, não lhes parecem anormais que homens e
mulheres esfarrapados ainda façam parte do cenário social.
A estilização tecnológica redimiu da carneirada
todas as inquietações e arrefeceu as mais dolorosas constatações.
Foto: Armando Jorge, Portugal Rural, 2015.
Sem lar
Hão-de ser sempre misteriosas, para mim,
as razões dos ataques pessoais para conquista do eleitor. Sugerir que a
candidata tal é mais macho que muito homem, ou que aquele outro é um alcoólatra
inveterado, não me parece relevante ao debate das questões emergenciais do
país. Porém, aos que pautam a política nacional, ou seja, os marqueteiros,
esses expedientes parecem ferramentas indispensáveis na guerra pelo voto. É
como disse o poeta Régis Bonvicino "os partidos não são mais o lar dos idealistas".
[POEMA] Ítaca – Constantino Kavafis
Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir.
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.
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