Factoide

Foto: de John Cohen. Jack Kerouac ouvindo rádio em 1959.
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O país passaria melhor com um décimo das notícias. É inacreditável o que se ouve, vê e lê nos médias. Quem busca informações hoje está sujeito a encontrar de tudo, menos o que se procura. Uma verborragia, entulha os canais e fazem da imprensa um lugar sofrível.  Ninguém, que assista um jornal, leia uma revistas ou ouça o rádio, pode mesmo se julgar informado. Os médias agem, através de uma lógica, que transformam as notícias, em grotescos espetáculos circenses, que só aos acéfalos agradam.

O que menos importa parece ser a noção de que o público vai à impressa, porque deseja ser informado de algum coisa que lhe escapou e lhe interessa saber. São para isso que servem os média, trazer ao público informações. Mas as mídias abdicaram desse papel, e não se prestam mais a investigação dos fatos, não questionam nem contradizem os relatos, e não se preocupam com o contraditório. A impressão que se tem, é que o jornalismo se vulgarizou e se rebaixou a tal nível que hoje, fica difícil distinguir entre um jornalista e um animadora de torcida.

A mídia, faz de um tudo para manter o público entretido, quando o público só queria mesmo, era saber se vai mesmo ser necessário sair de casa carregando o guarda-chuva, ou por que o político patusco, que fingiu não possuir contas no exterior, ainda não encontrou o caminho da prisão e está presidindo um importante órgão da nação?

Tornou-se intolerável acompanhar as notícias. Dia desses, por exemplo, a cidade em que moro, foi mais uma vez vítima de um bárbaro assalto a banco. Não costumo ouvir rádio, porque as vezes em que tentei, acabei mais aborrecido do que informado. Além disso não suporto as músicas que colonizaram esse veículo, soam-me detestáveis. Mas, curioso em saber mais, sobre o que havia acontecido, de fato, no banco, corri ao fone de ouvido do celular e pluguei-me na primeira emissora de rádio que me apareceu. Deve haver umas 3 ou 4 por aqui. Mesmo suspeitando que, não encontraria muita informação, insisti na ideia de me informar, consultando o jornal do meio-dia que, segundo soube, tem audiência cativa dos ouvintes da rádio.

Do pouco que pude ouvir, entre os gritos histéricos do radialista e uma sirene bizarra que berrava incessantemente, a todo instante, enquanto ele falava (gritava), não foi mais do que o padeiro havia me dito horas antes, ou fui ouvindo pela rua e no caminho ao trabalho. Tanta parlapatice serve apenas ao propósito de não informar o ouvinte. Em meia hora de rádio, não apurei nada que pudesse acrescer às informações, que a população retransmitia em viva voz por intermédio do troca-troca de conversas que dão um colorido todo especial aos dias das cidades provincianas.

Não foi pelo rádio que soube que os bandidos malograram o assalto, também não foi pelo rádio que, fiquei a saber que esse foi mais um caso em que a polícia não tem a menor ideia de quem possa ser os assaltantes, ou o paradeiro dos delinquentes. Convenhamos, as notícias mais relevantes chegam-nos muito mais detalhadas e bem mais integras pelas comadres que se aprazem em reportar os casos que vão ouvindo nos comboios de ônibus, do que são apuradas nas redações de jornais e nas cabines de rádio. 


Apalpar mais e confiar menos

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Parece-me que a todos é suposto saber, o quanto de perverso, maldoso e fingido, pode ser uma pessoa. Devo essa impressão, muito a Lombroso, famoso médico italiano que julgava o caráter de uma pessoa apenas medindo a regularidade do crânio e a simetria dos traços faciais. Outro médico, dessa vez alemão, também desenvolveu uma teoria similar à de Lombroso. No século XIX, o médico e anatomista Franz Gall, acreditava que podia desvendar a personalidade de uma pessoa através da simples palpação das saliências da cabeça de um indivíduo. De repente, percebo, meio envergonhado, que não ando empregando os sentidos corretos para julgar os que me andam à volta. 


O riso da besta

Aceito a ideia de que o homem é um ser bom. Há tempos optei por acolher essa tese, mas os dias e as ações humanas têm-me feito pensar em jogar a toalha. Experiências nada animadoras atiram-me, cotidianamente, à cara, mil motivos para desistir de aceitar o que já me parece uma alucinação. 

Há 72 anos nascia Manuel António Pina

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Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

[Amor como em casa, in "Todas as Palavras", Assírio & Alvim]

As coisas pelo nome que me escapam

Não sou grande conhecedor de árvores. Definitivamente não sirvo para botânico. 

Faltam-me atributos, para reconhecer uma árvore pelo nome. Pesa-me enormemente a ignorância das coisas simples. Mas se é verdade que, ignoro os nomes das árvores, e que me pesa a culpa de não lhes saber os nomes que o povo lhe dão, escapo a todas as faltas, sabendo que, não me falta sensibilidade, para admirá-las pela beleza. E como são belas as árvores que me surgem. 

Crescem nos caminhos que me levam ao trabalho, em meio a vegetação queimada pela inclemência do sol desses dias, umas árvores que, como já disse, me fogem os nomes. Mas estão tão belas pelas margens e ermos que, não me deixam indiferentes às suas insinuantes cores: vermelho carmim, roxo vivo e amarelo ouro. Já há muito desisti de tentar adivinhar-lhes os nomes. São saberes do povo e a eles pertencem. 

A mim hoje me basta saber que, lá estão, estendidas, heroicamente nos descampados das terras feridas pelas mãos humanas. As brutas mãos humanas. Até quando resistirão, exuberantes e coloridas? Quantos outros, elas ainda farão esquecer-se do labor diário, só por estarem a lhes contemplar as formosuras quando passam por elas?


Utopia

. Foto: Robert Doineau. 
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Todos temos, para bem da nossa saúde mental, a necessidade de idealizar um lugar que por mais improvável, não nos pareça, de todo, irrealizável.


Das coisas que gostaria de ter escrito

Não é para qualquer um assumir-se anti o que quer que seja. Ser-se anti não é apenas assumir-se uma posição contrária a, é ser-se pela negação do objecto que se despreza, é colocar-se numa posição de cegueira e de ódio. A ser anti qualquer coisa, eu seria, desde logo, antianti. Mas sem ponta de cinismo posso afirmar que sou anti-racismo, antimachismo, sou anti-homofobia. Pouco mais. Até a estupidez eu consigo admirar em certas circunstâncias, e frequentemente me rio de certas misérias alheias. São poucas as coisas no mundo, sobretudo as humanas, que me merecem desprezo. Adoptei o espírito do romântico e idealista Novalis. No mundo das ideias, aceito tudo e o seu contrário. Os opostos desafiam-me, não me inspiram ódios. As antinomias, os maniqueísmos, estimulam-me. De que me vale ser anti-nazismo? Não sou. O nazismo existe, tento compreendê-lo, esforço-me por estudá-lo para poder contradizê-lo. Não o aceito, mas não lhe tenho ódio precisamente para que nada de mim se possa rever nessa abjecta ideologia.

Via Antologia do Esquecimento, o blog do Henrique Manuel Bento Fialho. 

É que Narciso acha feio o que não é espelho.

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Interessa-me a fotografia. Interessa-me como enigma, como código que desvela outros por sugestões. Gosto dela quando indiciam coisas para além do óbvio. Mas em tempos de imagens omnipresentes as fotografias banalizaram-se. Mais do que ver outras coisas, a fotografia atualmente, tornou-se um espaço para ver narcisisticamente. Com isso as imagens não apelam mais à memória ou ao sentido de decifração que a tornava atraente e atemporal. Hoje tudo já está dado. Esvaziadas de algum sentido simbólico, elas agora não passam de suportes que, estampam rostos e corpos, empenhados em simular vidas alheias. Foram assim assenhoradas por aqueles que não entendem por que não foram parar nas capas de revistas do jet set e estão por isso fingindo estar onde não estão, mas se supõem, pela auto ilusão das bruxuleantes imagens que reproduzem o que a realidade não foi capaz de fazer.  

Não somos assim tão ingênuos, ou somos?

As pessoas reclamam que o the voice não tem música brasileira. O que queriam? O programa se chama the voice. Não se procura comida vegetariana em açougue ou se vai à missa por se ter enganado o caminho da casa da luz vermelha. Chega-se a estes lugares por opção. Portanto, se querem mesmo ouvir música brasileira, vão aos sítios aonde elas são prestigiadas e não estejam ingênuos aos programas da tevê brasileira, eles estão todos muito ocupados em os bestializarem e não têm tempo de ouvirem os seus queixumes. 

Mansos cordeiros

Mark Twain disse que: "há três espécies de mentiras: as mentiras, as mentiras sagradas e as estatísticas". Fosse ainda vivo e tivesse morada no Brasil ele, seguramente, incluiriam ao rol dessas mentiras, uma outra. A mentira Eduardo Cunha que, se caracteriza, não por ser engenhosa ou mirabolante, mas por se valer da crença de que, todos são parvos e, por essa razão, estão dispostos a aceitarem uma farsa como verdade, apesar de todas as evidências em contrário. Embora sejam os políticos quem nos governe, não é deles que devemos esperar remédio e salvação para os nossos males, está bem visto, mas de nós próprios que, devemos cultivar uma consciência social que se negue a aceitar o escárnio e a delinquência como coisas normais. 

As escuras

Foto: Albert Watson - Charlotte Arizona, 1988.

Minha mulher me censura a nudez que veja nas fotos de blog de fotografia. Sou forçado a cerrar as pálpebras e fingir que não vejo. Dentro da cegueira vejo ainda melhor que, se olhasse em direto as imagens que me vão surgindo ao redor. Mas ela não dá por isso. Tanto melhor. Assim, mesmo as escuras, sou mais livre.

Amigos

O bom de ter amigos - de verdade - é que eles não precisam de empurrões das efemérides para sentirem que você é importante. Eles podem estar distantes de você, mas ao andarem por aí, talvez em São José do Rio Preto, sintam a sua presença nas coisas que vão vendo e de repente se lembrem, de que aquilo que vão encontrando pelo caminho, talvez pudesse lhe agradar, pois sabem como poucos aquilo que lhe cativa. Foi isso que se deu com a minha amiga Cléo, que em viagem ao interior paulista encontrou-me numa loja de mimos, entre os motivos fotográficos, cinematográficos e literários que estavam dependurados nas estantes. Cléo, obrigado por estares aí, por ligares e perguntares por mim como quem quer realmente saber. 

Peçonhentos

Desejo sempre que os políticos mordam a língua quando falam. Estou com isso querendo que eles inoculem um pouco de seu próprio veneno e sintam o quanto são peçonhentos. 

Alienado do mundo

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Cada vez mais nos transferimos para o mundo das imagens, cada vez mais nos escondemos, dissimulamos, só em aparência, em simulacro, num duplo alienado do mundo nos damos a ver.

Passageiro da agonia

Frame: Filme O Senhor das Moscas
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Todos os anos vou duas ou mais vezes ao Goiás. Minha mulher tem parentes por lá. Gostamos de estar entre eles. São queridos, e muito caros aqui em casa, todos. Por isso, sempre que nos resta uma folga, ou quando se avizinham as férias, corremos à terra de Cora Coralina, só para estar entre aqueles que mais queremos bem. Nessas visitas, aproveitamos a ocasião para passear pela cidade e flertar com as livrarias que, abundam no centro. Mas sair pela cidade, em determinadas horas e locais, tem se tornado um desafio que exige esforço e nervos sobre-humano. Algo, que descobri na última viagem, a duras penas, não possuir.

Num sábado de folga dos deveres domésticos, e já um tanto cansado da rotina de casa, sai com minha mulher, suas duas sobrinhas pequenas, e minha comadre, que vive fora do país e vem todos os anos passar as férias conosco. Fomos ao shopping Flamboyant que fica no centro da capital goiana. Lá encontro sempre alguma promoção na FNAC ou na Saraiva, que são primores de livrarias. Depois de horas percorrendo os livros, resolvemos retornar ao lar, dado o adiantar das horas e a fadiga das crianças. Foi aí que saímos, inimaginavelmente, de uma realidade comezinha dos passeios familiares, para cair numa página de horror que bem poderia ter sido escrita por William Golding ou Anthony Burgess em alguns de seus livros despóticos sobre a raça humana.

Quando saltamos para dentro do ônibus, que nos levaria para casa, não imaginávamos que no ponto seguinte, ainda em frente ao shopping, viveríamos as piores horas de nossas vidas. De repente, quando o ônibus parou para dá lugar algumas pessoas, que deram sinal no ponto, fomos assaltados por uma horda de jovens, rapazes e moças, com idade entre 14 e 16 anos, não mais do que isso, que invadiram o ônibus forçando as portas e intimidando, aos gritos e socos na lataria, a todos que estavam ali dentro. Aterrorizados, passamos de passageiros à reféns, daqueles delinquentes juvenis, durante todo o percurso do Flamboyant até o terminal Praça da Bíblia, ponto de baldeação no transporte público de Goiânia. 

Entre gritos de “Ohhh!!!!! horrrorrr!!!!! É o bonde do terrorrrrrrrr!!!!!!” e outras bestialidades musicais que bem agradam a mentalidade doentia da nova geração, os menores passaram a arrancaram as luminárias do ônibus e com destreza de quem já há muito tempo pratica a mesma ação, abriram com desenvoltura as portas traseiras do ônibus, mexendo no mecanismo hidráulico que fica acima das portas. Com as portas escancaradas eles passaram a surfar, literalmente, sobre as luminárias, fazendo um estrepitoso barulho no asfalto enquanto o ônibus corria à noite Goiana. O motorista, refém como nós dos delinquentes, não esboçou nenhuma reação aos delitos juvenis. De dentro do ônibus os poucos passageiros que, não faziam parte daquele circo de horrores, se entreolhavam atônitos com tamanha estupidez. Acuados ficamos todos estupefatos com a ousadia e desrespeito daqueles jovens.

Entre o trajeto do pânico e a chegada ao Terminal Praça da Bíblia foram minutos, mas pareceram horas. As tenebrosas bestialidades juvenis nos fizeram saltar no terminal e seguir viajem em outro meio de transporte. Antes que a situação pudesse se complicar ainda mais, nos enfiamos no primeiro táxi que avistamos e largamos para trás os circo de horrores que aquelas crianças perpetravam. Depois da experiência macabra de ver tantos jovens se comportando como primatas, não quisemos pagar para ver aonde aqueles delinquentes poderiam no levar.

A perturbadora cena de selvageria que testemunhei naquela noite, me fez perceber que tocamos, definitivamente, o fundo do poço. O inalcançável mostro da desumanidade não é mais uma personagem de ficção cientifica a nos espreitar na tela do cinema ou nos acossar nas páginas de um livro. Ele temerariamente saltou essa barreira, e não podemos nos considerar desavisados, nem desentendidos dos horrores que a juventude de hoje vai maquinando. Há um bom tempo correm noticias de que ela anda desgovernada, assim como a sociedade que a gestou. Tanta bruteza e desdém pelo semelhante são sintomas de uma comunidade falhada que abandonou o seu futuro por não haver encontrado esperança no presente.

Por todos os cantos há sinais de que a vida em sociedade vai mal. 


Um dia para esquecer

Naturalmente todos podemos viver maus dias. Como o contrário também é verdade não temos porquê nos desesperarmos. Seria tão bom nos convencermos  rápidos de que a vida é assim e assim devemos vivê-la, indiferentes por estarmos, ora por cima, ora por baixo. Mas isso não é tão fácil. Aprendemos a duras penas que, não estamos tão imunes as circunstâncias que as impeça que, de vez em quando, elas se assenhorem de nossos melhores dias, metendo-o de cabeça para baixo. Não se trata aqui de questão de escolha. Por vezes somos joguetes do destino. Quando ele não nos favorece, somos abatidos por algum desânimo e somos forçados a aceitar que nem tudo vai bem. Paciência. Nestas horas o que nos resta é querer que o dia se encerre, logo, ou que uma volta na roda da fortuna nos leve bem rápido para um lugar onde as tristezas, não rocem tão ameaçadores o fundo do poço.  

Um bocadinho limitadora

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São muitos os felizes que vêem a política sem matizes. Mansos, se deixam guiar pelos que lhes seguram as rédeas e estão certos de que ter lugar é estar à esquerda ou à direita do mundo. Fora disso, pensam, só há o muro, ou melhor, o em cima do muro. Isso tudo, é o muito que se podem admitir de lugares. Não lhes ocorrem que, fora dos polos, além dos extremos, ou longe dos muros, possa existir um outro lugar pra pensar.

Tomar posições, fincar bandeira, limitar espaços é o que os fazem felizes e lhes alimentam as convicções mais mesquinhas. Estão certos de seus lugares e de lá querem nos fazer crer que estão com toda razão.  Entendem a política como aquela senhora do conto Olhar à direita, de Oliver Sacks, que via o mundo à volta: em banda.

A história é narrado no livro de contos O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu. Aos sessentas anos a Sra S., sofreu um grave derrame que afetou as porções mais profundas e posteriores de seu hemisfério cerebral direito, fazendo com que perdesse a visão do que lhe estava à esquerda.

Às vezes”, narra Oliver Sacks, “ela reclama que as enfermeiras não puseram a sobremesa ou o café em sua bandeja. Quando elas replicam: “Mas sra. S., está bem aqui, à esquerda”, ela parece não entender o que estão dizendo e não olha para a esquerda. Se sua cabeça for delicadamente virada de modo que a sobremesa fique à vista, na metade preservada de seu campo visual, ela diz: “Ah, está aqui — não estava antes”. Ela perdeu por completo a ideia de “esquerda”, tanto com relação ao mundo como a seu próprio corpo”.

Um tipo pode, como aconteceu com a Srs S., estar acometido de um derrame ideológico e não dar por isso. As ideologias podem ser um bocadinho limitadoras e no mundo deve haver mais lugares para as ideias do que os compartimentos ideológicos, delimitados pela direita ou pela esquerda nos querem fazer supor. 

Bestiário político II

Foto: William Wegman

Tal como um cão que submete as suas vontades a um dono, a política condena pessoas inteligentes ao dever partidário.

Capelistas


Depois do fim das eleições no ano passado, com o seu insuperável festival de baixarias, mentiras e outras imposturas, eu supôs que a guerrilha de quarto, já cansada de tanta sujidade e desmuniciada com o fechamento das urnas, recolheria as suas baterias e faria sossegar os canhões, apontados às mentes e corações dos incautos eleitores.

Agora podemos gozar horas amenas... pensei eu... desfrutar os prazeres de navegar pela internet sem ter que dar de encontro com disfarces ideológicos fajutos, travestidos em torrentes numéricas, que dizem desmentir (ou mentem ainda mais, não se sabe) o que se supõe “calúnias” “difamações” e ingerência midiática sem fim. Infelizmente eu estava equivocado. Mais uma vez a estupidez não deu trégua, e a internet voltou a ser o palco de bufões alegres, entretidos em trocar acusações. 

Entrincheirados em suas posições ideológicas, esses intrépidos agentes circenses, querem nos fazer crer, antes gráficos, tabelas, mapeamentos econômicos, variações cambiais e outras alquimias políticas, sabedores de todas as verdades que precisamos saber, para ir bem nas escolhas dos dirigentes do povo. Embora pareçam esclarecer, não fazem mais do que, monocordicamente, ladrar uma fraseologia, que logo se vê de cara, está subordinada às exigências da tática política à qual prestam vassalagem. 

Passados mais de um ano das eleições presidenciais não há um único momento em que não deixamos de perceber que a política, entre outras coisas, é capaz de desmiolar os seus entusiastas e os fazer padecer de uma certa indigência mental insuperável. Ah! Como seria bom ser surpreendido em política, com ideias e discursos livres de amarras ideológicas. 

Bestiário político

"Se o Lula mandasse eu votar num cachorro eu votava".

A política e o país são o que são pelas razões que ouvimos num bar à mesa com os amigos.

Vive la France

Foto: Robert Doisneau
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A França é surpreendente. Leio no blog da Maria do Rosário que, em meio a crescente onda de expansão dos saites de venda de livros, que monopolizam o mercado e soterram as pequenas livrarias, a França cria uma série de medidas para defender as livrarias tradicionais. A Câmara de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e por essa razão está atenta aos livreiros que precisam de ajuda para se manterem vivos. Algumas das medidas já adotadas foram: isenção de impostos e subsídio para atividades de promoção de livros nesses pequenos comércios. A população também se moveu. Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados em ruas de comércio e aluga-os por renda baixa, a cerca de metade do preço de mercado, para livreiros se instalarem. Conscientes da importância das livrarias tradicionais os editores se reuniram e criaram um fundo que permite a novos livreiros começarem a atividade sem pagarem nada antes de dois anos. Por sua vez os livreiros criaram um saite coletivo que difundem agenda de ações e sugerem aos leitores livrarias, onde possam encontrar o livro desejado. Não direi nada sobre as políticas de promoção dos pequenos livreiros no nosso país, não tenho informação sobre a existência ou não dessas políticas. Mas posso afirmar que, se existem, não estão funcionando. Quando vivi em São Paulo costumava visitar os sebos na região do Centro da cidade. Por anos vi esses comércios desaparecerem. Assediados pelo mercado imobiliário e fragilizados pela concorrência desleal com as gigantes do comércio on-line os sebos da região central de São Paulo cederam espaços às garagens ou às lojas de xingui lingui chinesas, que se proliferam pelo centro como cancro num corpo furibundo. Penso que ter onde deixar o carro, quando se vai à um lugar é importante. Mas não mais importante do que incentivar a permanência do comercio tradicional de livros, que tanto podem fazer para expandir o conhecimento e criar uma cultura de valorização de espaços sociais, onde se possa viver a vida em comunidade. A virtualidade mata. 

Doce ilusão

Foto: Vivian Maier, New York, 1954. 
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Chega aquela hora do dia em que você se encontra finalmente em casa. Depois de cumprida a labuta diária, que lhe impedirá os vexames de ter à porta, credores lembrando-o dos compromissos firmados e não horados, está na hora de se entregar alegremente àquele prazer que lhe reconstitui as forças. Antes, uma passada pela cozinha, porque lá em casa ainda não conhecemos máquinas capazes de limpar sozinha as loiças empilhada na pia. Vencido mais essa tarefa, que nos exila dos contentamentos mais chãs, finalmente podemos estar onde mais desejamos. Na cama, a dormir e a sonhar que somos uma criança, a porta da uma delicatessen, esperando a guloseima tão desejada nas mãos.

Num ritmo sereno

Foto: Rogério Soares, 
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Adoro fotografias. Isso aqui todos já sabem. Por mim passava os dias olhando os flagrantes de imagens que os fotógrafos vão colhendo pelo mundo. Não importa o tema. Fotografia de moda, fotografia artística, fotografia de paisagens, fotografia de rua, fotomontagem, lugares distantes ou meros registros cotidianos. Não são os temas o que me cativam, mas o quanto num instante, o fotógrafo consegue deter de transcendente num registro banal. Um bom fotógrafo é capaz de num ensaio de moda atrair para o centro de gravidade do olho, não apenas o fetiche da roupa, mas além dela, fazer o expectador dar uma volta ao entendimento e chegar a lugares impensáveis num primeiro momento, só por estar contemplando uma foto. Naturalmente com a apreciação e a reverência pela arte, vem o desejo de também fazer fotografia. Por isso, desde que comprei uma câmera ando as voltas comigo mesmo tentando apurar o olhar e fazer imagens que também façam quem as aprecie achar algo a mais nelas do que o mero registro banal do real. Livrar-se das velhas formas de ver o mundo é um bom começo para se preparar para a fotografia. Mas não é fácil desacostumar os olhos. Os condicionamentos também atingem a vista como atingem e moldam o andar, o sorrir, o gesticular, etc.. É preciso portanto, desacostumar o olho e imprimir ao ato de mirar as coisas um desvio que desarticule o estabelecido. Um bom exercício para alcançar isso, na ausência de um melhor método, tem sido demorar os olhos sobre os objetos. Contemplar, contemplar, contemplar sem pressa. Pousar a vista sobre uma paisagem, grupos de pessoas, coisas e encará-las por horas, esperando que em algum momento elas revelem ao olho algo que o ritmo apressado não deixou apreender. O resultado tem sido uma insuspeitada expansão do horizonte, que se não tem escancarado as portas da percepção, vem servindo ao menos para divorciar-me da realidade apressada. A melhor imagem, tenho vindo a aprender, é aquela apreendida num ritmo mais compassado e sereno. 


Plágio criativo ou de como dá vida nova à coisas pretéritas.

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NOTAS AVULSAS.

Numa música antiga do Caetano Veloso tem um pedaço assim: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.

Todos adoravam. Era um refrão. E não era dele.

Ele teve várias chances de esclarecer a autoria, mas não se manifestou. Deveria. Era a parte mais bonita da letra, e canto não tem aspas.

Mais tarde um intelectual informou ao País: o verdadeiro autor era Fernando Pessoa.

Intelectual meia-boca: a frase é do general Pompeu, inimigo de Júlio Cézar. Foi dita numa carta, em 70 A.C.

Por muito tempo eu não entendia esse pedaço: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.
Como assim, “Viver não é preciso?"

Só depois dos 30 entendi. Li em algum lugar: o “preciso” tinha o sentido de “exatidão”.

Os navegadores, já naquele tempo, tinham meios de orientação. Sempre sabia onde estavam.

"Navegar é exato. Viver não é exato". É isso aí.


(Carlos Antônio Jordão - 03 - 10 - 2015)

Há dias li estas notas e desde então venho pensando no plágio como uma ferramenta criativa. A culpa dessa inquietação também se deve a uma conversa com Iamara Junqueira. A tomada de empréstimo de ideias alheias Iamara, não pode está reduzida aos sentidos baratos que lhe atribuímos. Estou certo que uma apropriação indevida pode maquiar uma deficiência, daquele que se vale do outro, como uma muleta às suas limitações. Porém, há mais possibilidades nas apropriações, como sugere o texto do Carlos Antonio Jordão. Um bom exemplo dessas apropriações que renovam o estilo e arejam as artes, podemos apanhar em Picasso, que expressou em uma frase o estilo que o notabilizou: "Bons artistas copiam, grandes artistas roubam”.

Minha viagem a Salvador foi assim

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De Salvador trouxe outros tesouros. Lá descobri que a trilogia AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA, editada pela Paz & Terra, ganhou nova edição. Eu tenho o volume dois da edição anterior. Adquiri agora o volume um. Tem sido nesses dias a minha leitura de cabeceira. Hoje li as aventuras vividas pelo semideus Héracles, mais conhecido por nós pelo nome latino de Hércules.

No passado as aventuras desse herói davam grandes lições às crianças. Por elas os miúdos alcançavam o estimulo necessário para vencer os seus desafios, dotavam-se de saberes tradicionais e desassossegavam a imaginação, que a partir de então não lhes deixava jamais.

Hoje, mesmerizadas pelos médias, elas se ocupam em sonhar com uma viagem a Disney e desconhecem aquilo que podem contribuir para que cresçam saudavelmente. Pais, acordem. Escolas, vamos ler para as crianças livros que emancipem.


Nunca foi tão fácil ser feliz... nunca foi tão difícil ser feliz.

Foto: Alberto Korda, La niña de la muñeca de palo. 1959.
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Acreditando que o dinheiro, redime a meia-vida de frustrações que levaram, os pais de uma nova geração de jovens, dão às crianças de hoje, uma vida desafogada. Proporcionam-lhes mimos, impensáveis, há bem pouco tempo: viagens, carros, celulares caros, roupas de grife, festas e se silenciam quando eles elevam a voz ou se deslumbram feito marionetes pelos artificialismos da indústria cultural. Tanta mordomia, no entanto, parece não ter baldado os sentimentos de incompletude da juventude, que assim como a geração de seus pais sentem um vazio na existência. Parece, portanto, que a felicidade não pode ser reduzida apenas a uma questão econômica. Ela se insere, em outras ordens de valores, bem menos perecível, que os condescendentes regalos paternos supõem.


A política sem pudor

Foto: Elliot Erwitt
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Quantos males mais teremos que suportar dos políticos atuais, até reconhecermos que eles não são dignos da posição que ocupam? Nos últimos meses governo e oposição, protagonizam lições de imoralidade e desprezo ao bom senso do eleitor, fazendo da política, um lugar asqueroso, que só nos reforçam os sentimentos de inutilidade que temos dela. Entrincheirados em suas táticas maquiavélicas, eles não nos deixam sonhar, por um instante se quer, com uma política nova, desprendida e digna do povo. A única lição que eles nos dão, todos os dias, é de que em política, consoante a posição que se encontram, os homens públicos falam sabendo que se estivessem na posição contrária, e perante a mesmíssima realidade, diriam exatamente o inverso do que pensa o seu adversário. Exemplos vários demonstram essa prática atualmente. Assim eles fazem parecer que a política é um negócio sujo e ordinário, onde as casualidades servem as conveniências do momento. Despem-se sem pudor das convicções pessoais que, os levaram à política, e transformam os brados nos palanques, em efeitos retóricos, que se esfumam no ar, logo após terem saltados das ruas para os gabinetes.


Aprender fotografia com a Bíblia

Foto: Stanley Kubrick
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"Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso". Mt. 6.22-23.

Como todos sabem Mateus, discípulo de Jesus, não conheceu a fotografia. Mas ao lê-lo tem-se a impressão de que ele intuía que o olhar, acabaria por se tornar maior quando apanhado com atenção. Atenção que é o princípio básico no ofício de todo grande fotógrafo.

Fotografia é arte

Fotógrafo: Alberto García-Alix
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A fotografia é uma arte? É. Porém sua expressão se presta a muitas confusões entre o que é meramente banal e o que tem conteúdo artístico. Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que por ser tão banalizada o público tem dificuldade em selecionar o que não é arte e o que é. O outro é que ela está excessivamente vinculada aos objetos reais, isso já explicou Susan Sontag, e muitos só a percebem por isso com o fim de descrever alguma coisa, reproduzindo a realidade tal como os olhos a percebem. Mas a fotografia, ao menos uma parte dela, não é finalística. Ou seja ela não se encerra no objeto dado. Uma imagem bem pode estar ali sugerindo outros conteúdos e iluminando uma outra realidade para além daquilo que se vê à primeira vista. Com vistas à arte, a fotografia exprime uma maneira de ver as coisas além do objeto dado pela representação. Com um sentido artístico, a foto deixa de ser meramente a reprodução do real e passa a ser compreendida como uma emanação da mente do fotógrafo, a sua interpretação das coisas e do mundo. Ela abandona, assim, o status de registro banal e alça seu sentido à outras esferas. Veja-se a propósito do que estou falando, um trabalho do espanhol Alberto García-Alix (n. León, 1956). Quem ver essa fotografia, não pensará que o sentido último dela se encerra na representação de uma jovem retratada pelo fotografo, mas que sua mensagem ultrapassa essa realidade. Os sentidos dados aqui são inúmeros. As sugestões são incontáveis. Vai daí que essa fotografia, diferente das generalidades que se vê no face ou em outras plataformas sociais, não se presta a uma interpretação limitadora, porque ela está carregada de sentidos. 

Asinina condição

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Gostamos do que nos dá estatuto. Tanto pode ser uma roupa de marca, um smartphone no bolso ou um orgulhoso livro de sacanagens que ouvimos dizer que todos estão lendo e por isso achamos que merecemos também lê-lo, apesar de não gostarmos de ler muito. Mas isso não deveria ser assim. Todas essas quinquilharias, todos esses penduricalhos, todos esses imbróglios, não se constituem, realmente, num luxo verdadeiro. São antes a prova provada de nossa asinina condição de bestas, domesticadas pelo consumo irracional. Fossem mesmo importantes, todos esses bibelôs, traríamos a todos à felicidade. Porém, não é isso o que vemos.  

Sem remédio

Duas noites insone. Dores no peito e nas costas. Tosse incessante. Uma chapa do pulmão (adoro essa palavra, chapa, me lembra o vocabulário de minha vó) e o diagnóstico: um princípio de pneumonia. De repente, me pego pensando o quanto somos vulneráveis. Parecemos um castelo de areia, feito por um deus-criança, que brinca na praia e depois se vai, deixando para trás o brinquedo, que o distraiu por umas horas, ao sabor das intempéries. Se não for as perturbações atmosféricas a nos levar, será talvez a negligência de alguns. Dos três medicamentos receitados pelo médico, que me atendeu, um deles está fora de circulação há pelo menos três anos, garantiram-me os farmacêuticos de Caetité. Uma olhada no carimbo do doutor e fico a saber, que ele também é professor. Ai encontro a resposta para tamanha desatualização. Os nossos professores, com raríssimas exceções, não se preocupam em se atualizarem. Conheço um que se orgulha de não ter lido um único livro, depois que saiu da faculdade. Outro que fez um curso, apenas para acrescer mais um 0 ao seu contracheque, sem prestar o menor zelo ao que estava estudando. O professor que não ler ou que não estuda, continuamente, é semelhante ao médico que receita ao paciente um remédio que não existe. 

De cães e outros bichos

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Muitos já devem ter percebido isso. As pessoas que gostam de animais costumam atribuir certas qualidades morais àqueles que como elas admiram os bichinhos. Entre outras qualidades elas são, segundo os critérios cabalísticos: amáveis, confiáveis e solidárias incontestes. A mesma sorte, no entanto, não têm os que por qualquer razão não se sentem confortáveis com os peludos.

Como se os animais não passassem de animais, mas seres superiores, capazes de revelar dotes ou transparecer faltas nos homens, os muitos admiradores dos gatinhos ou dos cãezinhos, desconfiam sempre dos que guardam reserva aos bichinhos. Ao menos é isso que ouço dos amigos que têm animais. Não lhes parecem estranho, atribuir aos cães o julgamento moral de uma pessoa.

Como não sou daqueles que se atraem pelos cães, nem por qualquer outro bicho, foram sem conta, o número de vezes em que, constrangido, não soube esconder dos donos de animais, o meu desconforto com a presença dos animaizinhos queridos. Ao revelar esse sentimento não pude deixar de perceber que tinha, para os amantes dos animais, acabado de cometer uma imperdoável heresia.

Apenas por estar em desacordo com seus sentimentos fofos, sentia que a revelação de meu desapego aos bichos, acabava por lhes acender um desapontamento profundo que os faziam, desde então, olhar-me de esguelha.  

Penso que não tenho que amar um animal e o manter encarcerado em minha casa só para provar que tenho sentimentos e posso ser uma pessoa confiável. Esse é um modo estranho de julgar alguém. Há, por certo, outros critérios que fazem de alguém uma pessoa amável, solidária e confiável. Não precisamos, ao contrário do que pensam os amantes dos bichos, consultar os latidos dos cães. O senhor na foto acima não me deixa mentir. 



A cultura da não violência

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“Temos que nos tornar a mudança que queremos ver”.
Gandhi

Quem não pressente, diariamente, que as sociedades desenvolvidas vão se erguendo sobre o desprezo dos valores comunitários, da solidariedade e do respeito ao outro? Num mundo ressecado pela competição e o individualismo, quase não há lugar para os melhores sentimentos humanos. O que impera, são rancores, ódios e sentimentos destrutivos de uns contra os outros, que põem o mundo em continuo pé de guerra. Falo assim, porque vejo, lá pela escola, todos os dias, atos de brutalidade gratuita, que vão se naturalizando, quando não deveriam.

Mas até hoje - e espero que isso nunca me aconteça - nenhuma das ameaças que ouço os alunos trocarem, nenhuma das barbáries ditas com ar de indiferença, nenhum dos destemperos testemunhados, ou dos atos de banalização da violência, foram capazes de me destituir a crença de que os homens são feitos da mesma matéria, e portanto, a aparente separação que os diferem, não passa, de um efeito das formas temporais. “A verdadeira realidade da humanidade”, escreveu Joseph Campbell, “está na unidade com todas as formas de vida”.

Isso significa dizer que, você e eu somos um só. Essa percepção do outro como uma parte de mim, e não como um outro indiferente, está nos faltando. A ganância do sentimento individualista nos cegou para essa nobre verdade. Precisamos urgente reaver essa percepção do mundo que restaura em nós o outro como uma parte infalível de nós mesmos.

Podemos começar aprendendo com os hindus, budistas e javanistas que há milênios, saúdam-se mutuamente com um gesto de contração das mãos sobre o peito; depois se curvam em reverência uns aos outros, enquanto pronunciam a palavra: NAMASTÊ. A palavra vem do sânscrito e significa: “o deus que me habita saúda o deus que te habita”. A dignidade desse simples gesto, expressa a grandeza de reconhecer no outro - pode ser um alguém, que vejo pela primeira vez, ou um ente querido - o reconhecimento de que os indivíduos, não me são indiferente, transparente ou invisível. Ao contrário, são seres superiores e que portanto merecem igual respeito, admiração e zelo. 


Afugentar os fastios


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O mundo, seria uma morada tristonha, senão houve alguns encantos, que afugentassem os fastios. 

Mais um dos meus fotógrafos prediletos ou como apanhar lições observando.

Foto: Gordon Parks, At Segregated Drinking Fountain, Mobile, Alabama, 1956.

Entre outros tantos aliados, a luta contra a segregação racial nos EUA, contou, com o contributo estimável da fotografia. Um dos nomes incontornáveis nessa trincheira, foi o do fotógrafo Gordon Parks. Morto em 2006, ele deixou uma série de registros fotográficos da vida cotidiana de negros americanos, que ajudaram os Estados Unidos e o mundo, a reconhecer que: há vilanias humanas, que desmentem nossas mais nobres pretensões de superioridade sobre as bestas. 

Passados tantos anos, suas fotos continuam a nos inquietar. Ao observá-las, rendemo-nos ao fato de que, as fotos não são, como disse, Susan Sontag, impessoais. Elas indiciam “não apenas um registro, mas uma avaliação do mundo”. As fotos de Gordon Parks captam o que Alfred Stieglitz, o primeiro grande fotógrafo americano, chamou de momento apropriado. O momento apropriado, escreveu Susan Sontag, “é aquele em que se consegue ver coisas (sobretudo aquilo que todos já viram) de um modo novo. E o que vemos ao mirar as fotos de Parks é a segregação racial em quadros ultrarrealistas.