Encontrei dia desses, um velho amigo,
que há muito tempo não via. Dividimos um apartamento, enquanto esperávamos que
a vida, não nos derrotasse, antes de sermos devidamente diplomados pela academia.
Chegamos lá e depois disso os nossos caminhos se bifurcaram. Ele agora é
professor, creio que dos bons. Em meio as alegres lembranças, que nosso reencontro
provocou, ele sorriu e me disse que dia desses lembrou-se de mim em uma de suas
aulas. Retribui o sorriso e o ouvi, franzindo o cenho, como quem rumina os pensamentos
quanto é tomado por uma inquietação. Meu amigo disse-me que falava aos seus
alunos que, enquanto vivia os tempos da universidade conviveu com um amigo -
batendo no meu ombro - a quem deveriam todos inspirar-se. Antes que pudesse
terminar a mesura, emendei a pergunta: “Servir de inspiração? Eu? Talvez. Em que
desejas que os seus alunos falhem?”
Perguntas cujas respostas fazem pensar que o mundo é uma laranja podre.
Por que ao invés de bombardearem os alojamentos
do ISIS, encravado no coração das cidades Sírias e Iraquianas, povoadas de
gente inocente, a coalizão internacional não manda as suas bombas cirúrgicas,
sobre os caminhões que, contrabandeiam petróleo e alimentam assim de recursos o
exército de lunáticos?
A verdadeira política nacional
O Ministro Levi vai ao Congresso,
conversa com os políticos e dá entrevista à televisão. Quer mais dinheiro para
salvar o governo. Espera fazer isso criando mais impostos. Não foi suficiente
aumentar a gasolina, a energia, os juros... Quando acabar, este Governo será
lembrado, como aquele que enterrava as suas mãos tão fundo nos bolsos do povo
que o fazia se sentir apalpado. Tenha dó governo não somos artista para andares
metendo a mão aonde não gostaríamos que metessem, alguma dignidade ainda nos
resta.
A verdadeira política nacional
Delcídio do Amaral é preso e o PT no
Senado, a despeito de todas as evidências de que estivesse embaraçando as
investigações da Lava-Jato, vota a favor de sua soltura. A oposição, formada
por muitos demagogos, na contra-mão do "partido da moralidade" (duvidosa),
pede a continuidade de sua prisão. O mundo é mesmo uma laranja podre. Mais
vodka, por favor.
Teimar em não perder
.
Uma menina, que anda na casa dos 15
anos, se recusou a fazer uma apresentação, lá na escola, só porque tinha que usar
uma saia. A saia, segundo ela julgava, a deixava velha. Parecia-lhe um
disparate usar uma saia abaixo do joelho em cores vivas e esvoaçante. Ninguém
foi capaz de lhe fazer pensar o contrário. Ela estava certa do que era moda e
do que estava mais adequado a uma jovem de sua idade. As ameaçadoras saias a
faziam pensar em ser alguém que, como vemos, não lhe agradava muito pensar em
ser.
Esta jovem aluna não está só em seus
pensamentos. Ela age assim porque a própria sociedade se converteu a ideia de
que ser jovem é um fim que todos devem perseguir. Já agora temos visto adultos
que se comportam como adolescentes. Os custos dessa mentalidade juvenil, estamos
todos vindo a contabilizar em abandono, daqueles que um dia nos serviram a
comida ao prato, nos acalentaram nas noites enfermas e desafiaram o futuro, renunciando
o seu presente, a nosso favor.
Hoje, quando são os velhos a nos esperar
a renúncia, em retribuição a sua entrega, voltamos as costas e ignoramos a sua
presença. Projetamos uma sociedade em modelos juvenis, fingindo que a juventude
não uma é fase transitória. Relutamos em acreditar que, um dia nós mesmos
seremos velhos. Fazemos isso rejeitando tudo o que nos possa lembrar que, a
vida passa por fases e que elas nos leva a estágios que precisam serem
superados para nos erguermos dignos, e mais conscientes, ao próximo posso na
concretização de nossa existência.
Precisamos de uma sociedade com adultos
sérios e não com eles com aparelhos nos dentes e chicletes na boca. A juventude,
também, precisa saber que os velhos de hoje foram os mesmos que um dia lhes possibilitaram
a existência (só por isso eles já deveriam ser honrados), e que amanhã, eles
(os jovens) serão, se não mudarem de comportamento, as vítimas dos monstros que
abandonam e recusam os seus melhores exemplos de humanidade.
Não podemos acolher a ideia de que o
centro do mundo está nos 15 anos. Nessa idade pouco sabemos e não será nela que
devemos esperar as respostas as inquietações e dúvidas da vida. Então por que
seria ela o lugar onde gostaríamos de perpetuar o que teimamos em não perder?
Factoide
O país passaria melhor com um décimo das
notícias. É inacreditável o que se ouve, vê e lê nos médias. Quem busca
informações hoje está sujeito a encontrar de tudo, menos o que se procura. Uma
verborragia, entulha os canais e fazem da imprensa um lugar sofrível. Ninguém, que assista um jornal, leia uma revistas
ou ouça o rádio, pode mesmo se julgar informado. Os médias agem, através de uma
lógica, que transformam as notícias, em grotescos espetáculos circenses, que só
aos acéfalos agradam.
O que menos importa parece ser a noção
de que o público vai à impressa, porque deseja ser informado de algum coisa que
lhe escapou e lhe interessa saber. São para isso que servem os média, trazer ao
público informações. Mas as mídias abdicaram desse papel, e não se prestam mais
a investigação dos fatos, não questionam nem contradizem os relatos, e não se preocupam
com o contraditório. A impressão que se tem, é que o jornalismo se vulgarizou e
se rebaixou a tal nível que hoje, fica difícil distinguir entre um jornalista e
um animadora de torcida.
A mídia, faz de um tudo para manter o
público entretido, quando o público só queria mesmo, era saber se vai mesmo ser
necessário sair de casa carregando o guarda-chuva, ou por que o político patusco, que
fingiu não possuir contas no exterior, ainda não encontrou o caminho da prisão e está presidindo um importante órgão da
nação?
Tornou-se intolerável acompanhar as
notícias. Dia desses, por exemplo, a cidade em que moro, foi mais uma vez
vítima de um bárbaro assalto a banco. Não costumo ouvir rádio, porque as vezes
em que tentei, acabei mais aborrecido do que informado. Além disso não suporto
as músicas que colonizaram esse veículo, soam-me detestáveis. Mas, curioso em
saber mais, sobre o que havia acontecido, de fato, no banco, corri ao fone de
ouvido do celular e pluguei-me na primeira emissora de rádio que me apareceu.
Deve haver umas 3 ou 4 por aqui. Mesmo suspeitando que, não encontraria muita
informação, insisti na ideia de me informar, consultando o jornal do meio-dia
que, segundo soube, tem audiência cativa dos ouvintes da rádio.
Do pouco que pude ouvir, entre os gritos
histéricos do radialista e uma sirene bizarra que berrava incessantemente, a todo
instante, enquanto ele falava (gritava), não foi mais do que o padeiro havia me
dito horas antes, ou fui ouvindo pela rua e no caminho ao trabalho. Tanta parlapatice serve apenas ao propósito de não informar o ouvinte. Em meia
hora de rádio, não apurei nada que pudesse acrescer às informações, que a população
retransmitia em viva voz por intermédio do troca-troca de conversas que dão um
colorido todo especial aos dias das cidades provincianas.
Não foi pelo rádio que soube que os
bandidos malograram o assalto, também não foi pelo rádio que, fiquei a saber
que esse foi mais um caso em que a polícia não tem a menor ideia de quem possa
ser os assaltantes, ou o paradeiro dos delinquentes. Convenhamos, as notícias
mais relevantes chegam-nos muito mais detalhadas e bem mais integras pelas
comadres que se aprazem em reportar os casos que vão ouvindo nos comboios de
ônibus, do que são apuradas nas redações de jornais e nas cabines de rádio.
Apalpar mais e confiar menos
.
Parece-me que a todos é suposto saber, o quanto
de perverso, maldoso e fingido, pode ser uma pessoa. Devo essa impressão, muito
a Lombroso, famoso médico italiano que julgava o caráter de uma pessoa apenas
medindo a regularidade do crânio e a simetria dos traços faciais. Outro médico,
dessa vez alemão, também desenvolveu uma teoria similar à de Lombroso. No
século XIX, o médico e anatomista Franz Gall, acreditava que podia desvendar a
personalidade de uma pessoa através da simples palpação das saliências da
cabeça de um indivíduo. De repente, percebo, meio envergonhado, que não ando
empregando os sentidos corretos para julgar os que me andam à volta.
O riso da besta
Aceito a ideia de que o homem é um ser
bom. Há tempos optei por acolher essa tese, mas os dias e as ações humanas
têm-me feito pensar em jogar a toalha. Experiências nada animadoras atiram-me, cotidianamente,
à cara, mil motivos para desistir de aceitar o que já me parece uma alucinação.
Há 72 anos nascia Manuel António Pina
.
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de
conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não
devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
[Amor como em casa, in "Todas as
Palavras", Assírio & Alvim]
As coisas pelo nome que me escapam
Não sou grande conhecedor de árvores. Definitivamente
não sirvo para botânico.
Faltam-me atributos, para reconhecer uma
árvore pelo nome. Pesa-me enormemente a ignorância das coisas simples. Mas se é
verdade que, ignoro os nomes das árvores, e que me pesa a culpa de não lhes
saber os nomes que o povo lhe dão, escapo a todas as faltas, sabendo que, não
me falta sensibilidade, para admirá-las pela beleza. E como são belas as
árvores que me surgem.
Crescem nos caminhos que me levam ao
trabalho, em meio a vegetação queimada pela inclemência do sol desses dias, umas árvores que,
como já disse, me fogem os nomes. Mas estão tão belas pelas margens e ermos que,
não me deixam indiferentes às suas insinuantes cores: vermelho carmim, roxo
vivo e amarelo ouro. Já há muito desisti de tentar adivinhar-lhes os nomes. São
saberes do povo e a eles pertencem.
A mim hoje me basta saber que, lá estão,
estendidas, heroicamente nos descampados das terras feridas pelas mãos humanas.
As brutas mãos humanas. Até quando resistirão, exuberantes e coloridas? Quantos
outros, elas ainda farão esquecer-se do labor diário, só por estarem a lhes
contemplar as formosuras quando passam por elas?
Das coisas que gostaria de ter escrito
Não
é para qualquer um assumir-se anti o que quer que seja. Ser-se anti não é
apenas assumir-se uma posição contrária a, é ser-se pela negação do objecto que
se despreza, é colocar-se numa posição de cegueira e de ódio. A ser anti
qualquer coisa, eu seria, desde logo, antianti. Mas sem ponta de cinismo posso
afirmar que sou anti-racismo, antimachismo, sou anti-homofobia. Pouco mais. Até
a estupidez eu consigo admirar em certas circunstâncias, e frequentemente me
rio de certas misérias alheias. São poucas as coisas no mundo, sobretudo as
humanas, que me merecem desprezo. Adoptei o espírito do romântico e idealista
Novalis. No mundo das ideias, aceito tudo e o seu contrário. Os opostos
desafiam-me, não me inspiram ódios. As antinomias, os maniqueísmos,
estimulam-me. De que me vale ser anti-nazismo? Não sou. O nazismo existe, tento
compreendê-lo, esforço-me por estudá-lo para poder contradizê-lo. Não o aceito,
mas não lhe tenho ódio precisamente para que nada de mim se possa rever nessa
abjecta ideologia.
Via Antologia do Esquecimento, o blog do Henrique Manuel Bento Fialho.
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É que Narciso acha feio o que não é espelho.
.
.
Interessa-me a fotografia. Interessa-me
como enigma, como código que desvela outros por sugestões. Gosto dela quando
indiciam coisas para além do óbvio. Mas em tempos de imagens omnipresentes as
fotografias banalizaram-se. Mais do que ver outras coisas, a fotografia atualmente,
tornou-se um espaço para ver narcisisticamente. Com isso as imagens não apelam
mais à memória ou ao sentido de decifração que a tornava atraente e atemporal.
Hoje tudo já está dado. Esvaziadas de algum sentido simbólico, elas agora não
passam de suportes que, estampam rostos e corpos, empenhados em simular vidas
alheias. Foram assim assenhoradas por aqueles que não entendem por que não
foram parar nas capas de revistas do jet
set e estão por isso fingindo estar onde não estão, mas se supõem, pela auto
ilusão das bruxuleantes imagens que reproduzem o que a realidade não foi capaz
de fazer.
Não somos assim tão ingênuos, ou somos?
As pessoas reclamam que o the voice não
tem música brasileira. O que queriam? O programa se chama the voice. Não se
procura comida vegetariana em açougue ou se vai à missa por se ter enganado o
caminho da casa da luz vermelha. Chega-se a estes lugares por opção. Portanto,
se querem mesmo ouvir música brasileira, vão aos sítios aonde elas são prestigiadas e
não estejam ingênuos aos programas da tevê brasileira, eles estão todos muito
ocupados em os bestializarem e não têm tempo de ouvirem os seus queixumes.
Mansos cordeiros
Mark Twain disse que: "há três
espécies de mentiras: as mentiras, as mentiras sagradas e as
estatísticas". Fosse ainda vivo e tivesse morada no Brasil ele,
seguramente, incluiriam ao rol dessas mentiras, uma outra. A mentira Eduardo
Cunha que, se caracteriza, não por ser engenhosa ou mirabolante, mas por se
valer da crença de que, todos são parvos e, por essa razão, estão dispostos a
aceitarem uma farsa como verdade, apesar de todas as evidências em contrário. Embora
sejam os políticos quem nos governe, não é deles que devemos esperar remédio e
salvação para os nossos males, está bem visto, mas de nós próprios que, devemos
cultivar uma consciência social que se negue a aceitar o escárnio e a
delinquência como coisas normais.
As escuras
Foto: Albert Watson - Charlotte Arizona, 1988.
Minha mulher me censura a nudez que veja nas fotos de blog de fotografia. Sou forçado a cerrar as pálpebras e fingir que não vejo. Dentro da cegueira vejo ainda melhor que, se olhasse em direto as imagens que me vão surgindo ao redor. Mas ela não dá por isso. Tanto melhor. Assim, mesmo as escuras, sou mais livre.
Amigos
O bom de ter amigos - de verdade - é que
eles não precisam de empurrões das efemérides para sentirem que você é importante.
Eles podem estar distantes de você, mas ao andarem por aí, talvez em São José
do Rio Preto, sintam a sua presença nas coisas que vão vendo e de repente se
lembrem, de que aquilo que vão encontrando pelo caminho, talvez pudesse lhe
agradar, pois sabem como poucos aquilo que lhe cativa. Foi isso que se deu com
a minha amiga Cléo, que em viagem ao interior paulista encontrou-me numa loja de
mimos, entre os motivos fotográficos, cinematográficos e literários que estavam dependurados nas estantes. Cléo, obrigado por estares aí, por ligares e
perguntares por mim como quem quer realmente saber.
Peçonhentos
Desejo sempre que os políticos mordam a
língua quando falam. Estou com isso querendo que eles inoculem um pouco de seu
próprio veneno e sintam o quanto são peçonhentos.
Passageiro da agonia
Frame: Filme O Senhor das Moscas
.
Todos os anos vou duas ou mais vezes ao
Goiás. Minha mulher tem parentes por lá. Gostamos de estar entre eles. São
queridos, e muito caros aqui em casa, todos. Por isso, sempre que nos resta uma
folga, ou quando se avizinham as férias, corremos à terra de Cora Coralina, só
para estar entre aqueles que mais queremos bem. Nessas visitas, aproveitamos a
ocasião para passear pela cidade e flertar com as livrarias que, abundam no
centro. Mas sair pela cidade, em determinadas horas e locais, tem se tornado um
desafio que exige esforço e nervos sobre-humano. Algo, que descobri na última
viagem, a duras penas, não possuir.
Num sábado de folga dos deveres
domésticos, e já um tanto cansado da rotina de casa, sai com minha mulher, suas
duas sobrinhas pequenas, e minha comadre, que vive fora do país e vem todos os
anos passar as férias conosco. Fomos ao shopping Flamboyant que fica no centro
da capital goiana. Lá encontro sempre alguma promoção na FNAC ou na Saraiva,
que são primores de livrarias. Depois de horas percorrendo os livros, resolvemos
retornar ao lar, dado o adiantar das horas e a fadiga das crianças. Foi aí que
saímos, inimaginavelmente, de uma realidade comezinha dos passeios
familiares, para cair numa página de horror que bem poderia ter sido escrita
por William Golding ou Anthony Burgess em alguns de seus livros despóticos
sobre a raça humana.
Quando saltamos para dentro do ônibus,
que nos levaria para casa, não imaginávamos que no ponto seguinte, ainda em
frente ao shopping, viveríamos as piores horas de nossas vidas. De repente,
quando o ônibus parou para dá lugar algumas pessoas, que deram sinal no ponto,
fomos assaltados por uma horda de jovens, rapazes e moças, com idade entre 14 e
16 anos, não mais do que isso, que invadiram o ônibus forçando as portas e
intimidando, aos gritos e socos na lataria, a todos que estavam ali dentro. Aterrorizados,
passamos de passageiros à reféns, daqueles delinquentes juvenis, durante todo o
percurso do Flamboyant até o terminal Praça da Bíblia, ponto de baldeação no
transporte público de Goiânia.
Entre gritos de “Ohhh!!!!! horrrorrr!!!!!
É o bonde do terrorrrrrrrr!!!!!!” e outras bestialidades musicais que bem
agradam a mentalidade doentia da nova geração, os menores passaram a arrancaram
as luminárias do ônibus e com destreza de quem já há muito tempo pratica a
mesma ação, abriram com desenvoltura as portas traseiras do ônibus, mexendo no
mecanismo hidráulico que fica acima das portas. Com as portas escancaradas eles
passaram a surfar, literalmente, sobre as luminárias, fazendo um estrepitoso
barulho no asfalto enquanto o ônibus corria à noite Goiana. O motorista, refém como
nós dos delinquentes, não esboçou nenhuma reação aos delitos juvenis. De dentro
do ônibus os poucos passageiros que, não faziam parte daquele circo de horrores,
se entreolhavam atônitos com tamanha estupidez. Acuados
ficamos todos estupefatos com a ousadia e desrespeito daqueles jovens.
Entre o trajeto do pânico e a chegada ao
Terminal Praça da Bíblia foram minutos, mas pareceram horas. As tenebrosas
bestialidades juvenis nos fizeram saltar no terminal e seguir viajem em outro
meio de transporte. Antes que a situação pudesse se complicar ainda mais, nos enfiamos
no primeiro táxi que avistamos e largamos para trás os circo de horrores que
aquelas crianças perpetravam. Depois da experiência macabra de ver tantos jovens
se comportando como primatas, não quisemos pagar para ver aonde aqueles
delinquentes poderiam no levar.
A perturbadora cena de selvageria que
testemunhei naquela noite, me fez perceber que tocamos, definitivamente, o
fundo do poço. O inalcançável mostro da desumanidade não é mais uma personagem
de ficção cientifica a nos espreitar na tela do cinema ou nos acossar nas
páginas de um livro. Ele temerariamente saltou essa barreira, e não podemos nos
considerar desavisados, nem desentendidos dos horrores que a juventude de hoje
vai maquinando. Há um bom tempo correm noticias de que ela anda desgovernada, assim como a sociedade que a gestou. Tanta bruteza e desdém pelo semelhante são sintomas de uma comunidade falhada que abandonou o seu futuro por não haver encontrado esperança no presente.
Por todos os cantos há sinais de que a
vida em sociedade vai mal.
Um dia para esquecer
Naturalmente todos podemos viver maus
dias. Como o contrário também é verdade não temos porquê nos desesperarmos. Seria tão bom nos convencermos rápidos de que a vida é assim e assim devemos vivê-la, indiferentes por estarmos, ora por cima, ora por baixo. Mas isso não é tão fácil. Aprendemos a duras penas
que, não estamos tão imunes as circunstâncias que as impeça que, de vez em
quando, elas se assenhorem de nossos melhores dias, metendo-o de cabeça para
baixo. Não se trata aqui de questão de escolha. Por vezes somos joguetes do
destino. Quando ele não nos favorece, somos abatidos por algum desânimo e somos
forçados a aceitar que nem tudo vai bem. Paciência. Nestas horas o que nos
resta é querer que o dia se encerre, logo, ou que uma volta na roda da fortuna
nos leve bem rápido para um lugar onde as tristezas, não rocem tão ameaçadores o
fundo do poço.
Um bocadinho limitadora
.
.
São muitos os felizes que vêem a
política sem matizes. Mansos, se deixam guiar pelos que lhes seguram as rédeas e
estão certos de que ter lugar é estar à esquerda ou à direita do mundo. Fora
disso, pensam, só há o muro, ou melhor, o em cima do muro. Isso tudo, é o muito
que se podem admitir de lugares. Não lhes ocorrem que, fora dos polos, além dos
extremos, ou longe dos muros, possa existir um outro lugar pra pensar.
Tomar posições, fincar bandeira, limitar
espaços é o que os fazem felizes e lhes alimentam as convicções mais mesquinhas.
Estão certos de seus lugares e de lá querem nos fazer crer que estão com toda
razão. Entendem a política como aquela
senhora do conto Olhar à direita, de
Oliver Sacks, que via o mundo à volta: em banda.
A história é narrado no livro de contos O Homem que Confundiu a Mulher com um Chapéu.
Aos sessentas anos a Sra S., sofreu um grave derrame que afetou as porções mais
profundas e posteriores de seu hemisfério cerebral direito, fazendo com que
perdesse a visão do que lhe estava à esquerda.
“Às vezes”, narra Oliver Sacks, “ela
reclama que as enfermeiras não puseram a sobremesa ou o café em sua bandeja.
Quando elas replicam: “Mas sra. S., está bem aqui, à esquerda”, ela parece não
entender o que estão dizendo e não olha para a esquerda. Se sua cabeça for
delicadamente virada de modo que a sobremesa fique à vista, na metade
preservada de seu campo visual, ela diz: “Ah, está aqui — não estava antes”.
Ela perdeu por completo a ideia de “esquerda”, tanto com relação ao mundo como
a seu próprio corpo”.
Um tipo pode, como aconteceu com a Srs
S., estar acometido de um derrame ideológico e não dar por isso. As ideologias
podem ser um bocadinho limitadoras e no mundo deve haver mais lugares para as
ideias do que os compartimentos ideológicos, delimitados pela direita ou pela
esquerda nos querem fazer supor.
Capelistas
Depois do fim das eleições no ano
passado, com o seu insuperável festival de baixarias, mentiras e outras
imposturas, eu supôs que a guerrilha de quarto, já cansada de tanta sujidade e
desmuniciada com o fechamento das urnas, recolheria as suas baterias e faria
sossegar os canhões, apontados às mentes e corações dos incautos eleitores.
Agora podemos gozar horas amenas...
pensei eu... desfrutar os prazeres de navegar pela internet sem ter que dar de
encontro com disfarces ideológicos fajutos, travestidos em torrentes numéricas,
que dizem desmentir (ou mentem ainda mais, não se sabe) o que se supõe
“calúnias” “difamações” e ingerência midiática sem fim. Infelizmente eu estava
equivocado. Mais uma vez a estupidez não deu trégua, e a internet voltou a ser
o palco de bufões alegres, entretidos em trocar acusações.
Entrincheirados em suas posições
ideológicas, esses intrépidos agentes circenses, querem nos fazer crer, antes
gráficos, tabelas, mapeamentos econômicos, variações cambiais e outras
alquimias políticas, sabedores de todas as verdades que precisamos saber, para
ir bem nas escolhas dos dirigentes do povo. Embora pareçam esclarecer, não
fazem mais do que, monocordicamente, ladrar uma fraseologia, que logo se vê de
cara, está subordinada às exigências da tática política à qual prestam
vassalagem.
Passados mais de um ano das eleições
presidenciais não há um único momento em que não deixamos de perceber que a
política, entre outras coisas, é capaz de desmiolar os seus entusiastas e os
fazer padecer de uma certa indigência mental insuperável. Ah! Como seria bom
ser surpreendido em política, com ideias e discursos livres de amarras ideológicas.
Bestiário político
"Se
o Lula mandasse eu votar num cachorro eu votava".
A
política e o país são o que são pelas razões que ouvimos num bar à mesa com os
amigos.
Vive la France
Foto: Robert Doisneau
.
A França é surpreendente. Leio no blog
da Maria do Rosário que, em meio a crescente onda de expansão dos saites de
venda de livros, que monopolizam o mercado e soterram as pequenas livrarias, a
França cria uma série de medidas para defender as livrarias tradicionais. A Câmara
de Paris não quer de modo algum o fim do comércio tradicional e por essa razão
está atenta aos livreiros que precisam de ajuda para se manterem vivos. Algumas
das medidas já adotadas foram: isenção de impostos e subsídio para atividades
de promoção de livros nesses pequenos comércios. A população também se moveu.
Uma empresa semipública comprou por toda a cidade espaços livres ou abandonados
em ruas de comércio e aluga-os por renda baixa, a cerca de metade do preço de
mercado, para livreiros se instalarem. Conscientes da importância das livrarias
tradicionais os editores se reuniram e criaram um fundo que permite a novos
livreiros começarem a atividade sem pagarem nada antes de dois anos. Por sua
vez os livreiros criaram um saite coletivo que difundem agenda de ações e
sugerem aos leitores livrarias, onde possam encontrar o livro desejado. Não
direi nada sobre as políticas de promoção dos pequenos livreiros no nosso país,
não tenho informação sobre a existência ou não dessas políticas. Mas posso afirmar
que, se existem, não estão funcionando. Quando vivi em São Paulo costumava
visitar os sebos na região do Centro da cidade. Por anos vi esses comércios desaparecerem.
Assediados pelo mercado imobiliário e fragilizados pela concorrência desleal
com as gigantes do comércio on-line os sebos da região central de São Paulo cederam
espaços às garagens ou às lojas de xingui lingui chinesas, que se proliferam
pelo centro como cancro num corpo furibundo. Penso que ter onde deixar o carro,
quando se vai à um lugar é importante. Mas não mais importante do que incentivar
a permanência do comercio tradicional de livros, que tanto podem fazer para
expandir o conhecimento e criar uma cultura de valorização de espaços sociais,
onde se possa viver a vida em comunidade. A virtualidade mata.
Doce ilusão
Foto: Vivian Maier, New York, 1954.
.
Chega aquela hora do dia em que você se encontra finalmente em casa. Depois de cumprida a labuta diária, que lhe
impedirá os vexames de ter à porta, credores lembrando-o dos compromissos
firmados e não horados, está na hora de se entregar alegremente àquele prazer
que lhe reconstitui as forças. Antes, uma passada pela cozinha, porque lá em
casa ainda não conhecemos máquinas capazes de limpar sozinha as loiças empilhada na
pia. Vencido mais essa tarefa, que nos exila dos contentamentos mais chãs,
finalmente podemos estar onde mais desejamos. Na cama, a dormir e a sonhar que
somos uma criança, a porta da uma delicatessen,
esperando a guloseima tão desejada nas mãos.
Num ritmo sereno
Foto: Rogério Soares,
.
Adoro fotografias. Isso aqui todos já
sabem. Por mim passava os dias olhando os flagrantes de imagens que os
fotógrafos vão colhendo pelo mundo. Não importa o tema. Fotografia de moda,
fotografia artística, fotografia de paisagens, fotografia de rua, fotomontagem,
lugares distantes ou meros registros cotidianos. Não são os temas o que me
cativam, mas o quanto num instante, o fotógrafo consegue deter de transcendente
num registro banal. Um bom fotógrafo é capaz de num ensaio de moda atrair para
o centro de gravidade do olho, não apenas o fetiche da roupa, mas além dela,
fazer o expectador dar uma volta ao entendimento e chegar a lugares impensáveis
num primeiro momento, só por estar contemplando uma foto. Naturalmente com a
apreciação e a reverência pela arte, vem o desejo de também fazer fotografia.
Por isso, desde que comprei uma câmera ando as voltas comigo mesmo tentando
apurar o olhar e fazer imagens que também façam quem as aprecie achar algo a
mais nelas do que o mero registro banal do real. Livrar-se das velhas formas de
ver o mundo é um bom começo para se preparar para a fotografia. Mas não é fácil
desacostumar os olhos. Os condicionamentos também atingem a vista como atingem
e moldam o andar, o sorrir, o gesticular, etc.. É preciso portanto,
desacostumar o olho e imprimir ao ato de mirar as coisas um desvio que
desarticule o estabelecido. Um bom exercício para alcançar isso, na ausência de
um melhor método, tem sido demorar os olhos sobre os objetos. Contemplar,
contemplar, contemplar sem pressa. Pousar a vista sobre uma paisagem, grupos de
pessoas, coisas e encará-las por horas, esperando que em algum momento elas
revelem ao olho algo que o ritmo apressado não deixou apreender. O resultado
tem sido uma insuspeitada expansão do horizonte, que se não tem escancarado as
portas da percepção, vem servindo ao menos para divorciar-me da realidade
apressada. A melhor imagem, tenho vindo a aprender, é aquela apreendida num
ritmo mais compassado e sereno.
Plágio criativo ou de como dá vida nova à coisas pretéritas.
Numa música antiga do Caetano Veloso tem um pedaço
assim: “Navegar é preciso. Viver não é preciso”.
Todos adoravam. Era um refrão. E não era dele.
Ele teve várias chances de esclarecer a autoria, mas
não se manifestou. Deveria. Era a parte mais bonita da letra, e canto não tem
aspas.
Mais tarde um intelectual informou ao País: o
verdadeiro autor era Fernando Pessoa.
Intelectual meia-boca: a frase é do general Pompeu,
inimigo de Júlio Cézar. Foi dita numa carta, em 70 A.C.
Por muito tempo eu não entendia esse pedaço:
“Navegar é preciso. Viver não é preciso”.
Como assim, “Viver não é preciso?"
Só depois dos 30 entendi. Li em algum lugar: o
“preciso” tinha o sentido de “exatidão”.
Os navegadores, já naquele tempo, tinham meios de
orientação. Sempre sabia onde estavam.
"Navegar é exato. Viver não é exato". É
isso aí.
(Carlos Antônio Jordão - 03 - 10 - 2015)
Há dias li estas notas e desde então
venho pensando no plágio como uma ferramenta criativa. A culpa dessa
inquietação também se deve a uma conversa com Iamara Junqueira. A tomada de
empréstimo de ideias alheias Iamara, não pode está reduzida aos sentidos
baratos que lhe atribuímos. Estou certo que uma apropriação indevida pode
maquiar uma deficiência, daquele que se vale do outro, como uma muleta às suas
limitações. Porém, há mais possibilidades nas apropriações, como sugere o texto
do Carlos Antonio Jordão. Um bom exemplo dessas apropriações que renovam o
estilo e arejam as artes, podemos apanhar em Picasso, que expressou em uma
frase o estilo que o notabilizou: "Bons artistas copiam, grandes artistas
roubam”.
Minha viagem a Salvador foi assim
.
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De Salvador trouxe outros tesouros. Lá
descobri que a trilogia AS MAIS BELAS HISTÓRIAS DA ANTIGUIDADE CLÁSSICA,
editada pela Paz & Terra, ganhou nova edição. Eu tenho o volume dois da
edição anterior. Adquiri agora o volume um. Tem sido nesses dias a minha
leitura de cabeceira. Hoje li as aventuras vividas pelo semideus Héracles, mais
conhecido por nós pelo nome latino de Hércules.
No passado as aventuras desse herói
davam grandes lições às crianças. Por elas os miúdos alcançavam o estimulo
necessário para vencer os seus desafios, dotavam-se de saberes tradicionais e
desassossegavam a imaginação, que a partir de então não lhes deixava jamais.
Hoje, mesmerizadas pelos médias, elas se
ocupam em sonhar com uma viagem a Disney e desconhecem aquilo que podem
contribuir para que cresçam saudavelmente. Pais, acordem. Escolas, vamos ler
para as crianças livros que emancipem.
Nunca foi tão fácil ser feliz... nunca foi tão difícil ser feliz.
Foto: Alberto Korda, La niña de la muñeca de palo. 1959.
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Acreditando que o dinheiro, redime a
meia-vida de frustrações que levaram, os pais de uma nova geração de jovens, dão
às crianças de hoje, uma vida desafogada. Proporcionam-lhes mimos, impensáveis,
há bem pouco tempo: viagens, carros, celulares caros, roupas de grife, festas e
se silenciam quando eles elevam a voz ou se deslumbram feito marionetes pelos
artificialismos da indústria cultural. Tanta mordomia, no entanto, parece não
ter baldado os sentimentos de incompletude da juventude, que assim como a
geração de seus pais sentem um vazio na existência. Parece, portanto, que a
felicidade não pode ser reduzida apenas a uma questão econômica. Ela se insere,
em outras ordens de valores, bem menos perecível, que os condescendentes regalos
paternos supõem.
A política sem pudor
Foto: Elliot Erwitt
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Quantos males mais teremos que suportar
dos políticos atuais, até reconhecermos que eles não são dignos da posição que
ocupam? Nos últimos meses governo e oposição, protagonizam lições de
imoralidade e desprezo ao bom senso do eleitor, fazendo da política, um lugar
asqueroso, que só nos reforçam os sentimentos de inutilidade que temos dela.
Entrincheirados em suas táticas maquiavélicas, eles não nos deixam sonhar, por
um instante se quer, com uma política nova, desprendida e digna do povo. A única
lição que eles nos dão, todos os dias, é de que em política, consoante a
posição que se encontram, os homens públicos falam sabendo que se estivessem na
posição contrária, e perante a mesmíssima realidade, diriam exatamente o inverso
do que pensa o seu adversário. Exemplos vários demonstram essa prática
atualmente. Assim eles fazem parecer que a política é um negócio sujo e
ordinário, onde as casualidades servem as conveniências do momento. Despem-se
sem pudor das convicções pessoais que, os levaram à política, e transformam os
brados nos palanques, em efeitos retóricos, que se esfumam no ar, logo após terem
saltados das ruas para os gabinetes.
Aprender fotografia com a Bíblia
Foto: Stanley Kubrick
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"Se os teus olhos forem bons, todo
o teu corpo terá luz; se os teus olhos forem maus, o teu corpo será
tenebroso". Mt. 6.22-23.
Como todos sabem Mateus, discípulo de
Jesus, não conheceu a fotografia. Mas ao lê-lo tem-se a impressão de que ele
intuía que o olhar, acabaria por se tornar maior quando apanhado com atenção. Atenção
que é o princípio básico no ofício de todo grande fotógrafo.
Fotografia é arte
Fotógrafo: Alberto García-Alix
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A fotografia é uma arte? É. Porém sua
expressão se presta a muitas confusões entre o que é meramente banal e o que
tem conteúdo artístico. Isso ocorre por dois motivos. O primeiro é que por ser
tão banalizada o público tem dificuldade em selecionar o que não é arte e o que
é. O outro é que ela está excessivamente vinculada aos objetos reais, isso já
explicou Susan Sontag, e muitos só a percebem por isso com o fim de descrever
alguma coisa, reproduzindo a realidade tal como os olhos a percebem. Mas a
fotografia, ao menos uma parte dela, não é finalística. Ou seja ela não se
encerra no objeto dado. Uma imagem bem pode estar ali sugerindo outros
conteúdos e iluminando uma outra realidade para além daquilo que se vê à
primeira vista. Com vistas à arte, a fotografia exprime uma maneira de ver as
coisas além do objeto dado pela representação. Com um sentido artístico, a foto
deixa de ser meramente a reprodução do real e passa a ser compreendida como uma
emanação da mente do fotógrafo, a sua interpretação das coisas e do mundo. Ela
abandona, assim, o status de registro banal e alça seu sentido à outras
esferas. Veja-se a propósito do que estou falando, um trabalho do espanhol
Alberto García-Alix (n. León, 1956). Quem ver essa fotografia, não pensará que
o sentido último dela se encerra na representação de uma jovem retratada pelo
fotografo, mas que sua mensagem ultrapassa essa realidade. Os sentidos dados
aqui são inúmeros. As sugestões são incontáveis. Vai daí que essa fotografia,
diferente das generalidades que se vê no face ou em outras plataformas sociais,
não se presta a uma interpretação limitadora, porque ela está carregada de
sentidos.
Asinina condição
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Gostamos do que nos dá
estatuto. Tanto pode ser uma roupa de marca, um smartphone no bolso ou um
orgulhoso livro de sacanagens que ouvimos dizer que todos estão lendo e por
isso achamos que merecemos também lê-lo, apesar de não gostarmos de ler muito.
Mas isso não deveria ser assim. Todas essas quinquilharias, todos esses
penduricalhos, todos esses imbróglios, não se constituem, realmente, num luxo
verdadeiro. São antes a prova provada de nossa asinina condição de bestas, domesticadas pelo consumo irracional. Fossem mesmo importantes, todos esses bibelôs,
traríamos a todos à felicidade. Porém, não é isso o que vemos.
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